ANO VELHO & ANO NOVO

ANO VELHO & ANO NOVO

Edmo Frossard Paixão

ANO VELHO

Trôpegamente com seu passo brando,

Apoiado ao bordão, pelo caminho

O Ano Velho vai, devagarinho,

Um saco às costas de ilusões levando.

§

Borboleteiam pela mente em bando

Os sonhos do passado; e de mansinho

Dos macilentos olhos do velhinho

Rola uma lágrima de quando em quando.

§

Nascera um dia, fôra môço e agora

Desiludido pela vida chora

Enquanto a sós caminha para o além.

§

Quando vier nos procurar a morte

Teremos do Ano Velho a mesma sorte:

De soluçarmos ao partir também…

(…)

ANO NOVO

Ia saindo o Velho, eis senão quando

A deslizar do tempo sobre a estrada

Uma lambreta chega em disparada

O Ano Nôvo, às pressas, transportando.

§

Blusão vermelho e meias combinando

Vem solfejando em cima da almofada

Do “rock and roll” a música adoidada,

Despreocupado feito um Marlon Brando.

§

Ao divisar o Velho no caminho

Todo alquebrado, o frívolo mocinho

Gritou de longe: Vai, meu velho, em paz!

§

O Ano Velho olhou-o tristemente

Como a prever um trágico acidente

E respondeu-lhe: Sê feliz, rapaz!

Da coleção de poesias “Uma lua no céu”, publicado em 1961.

VULTO LÍRICO, poeta de primeira grandeza

Vulto Lírico, poeta de primeira grandeza

imagem: lab61

Elogiado por Antônio Olinto, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros consagrados, o autor por quem nos manifestamos é um vulto do pensamento e de nossa literatura; lido, respeitado, conhecido e admirado nos círculos literários de todo o país. Podemos encontrá-lo facilmente nos mares da rede. Há boa quantidade de tributos, citações, entrevistas, conferências, trabalhos acadêmicos. Escritores das mais díspares vertentes debruçam sobre seus escritos. Euler de França Belém disse sem tremer: “(…) é uma espécie de Otto Maria Carpeaux que ainda não conquistou o Brasil, e com dois detalhes a mais: é excelente tradutor e poeta(…)”

Experimentemos, de entrada, nossa bebida socializadora, variável em cores, tons e intensidade. Assim somos nós brasileiros e brasileiras. A loira ocorre ao artista por acaso. Que sommelier não desejaria no seu material de merchant a voluptuosa degustação?

IMPROVISO ESPIRITUOSO

Loura e leve, sutil e deliciosa,

ao teu contacto a inspiração se apruma.

De te beijar a coma vaporosa,

tenho no lábio um mar de doce escuma.

§

Aspiro-te a fragrância capitosa,

sorvo-te as maravilhas, de uma em uma,

e ao fim me tens, rainha caprichosa,

ajoelhado escravo, a mente em bruma.

§

Teu espírito voa, e o meu, na trama

que voluptuosamente lhe entreteces,

voa também, em um céu, um céu reclama!

§

Mas eis sucumbe em sonolência espessa.

É que, gentil cerveja, se me desces

ao coração, tu sobes-me à cabeça.

Brasília, 25.III.1977

Coloquemos, em brevíssima passagem, a vida poética do homem antes do nome.

Um brasileiro nasce em meados dos anos 1930, em Minas Gerais, filho de pais professores e – vejam só!- poetas. Na infância, aproveitando a oportunidade, torna-se devorador de livros e gibis, não menos atento às improvisadas histórias contadas pela mãe educadora à cabeceira da cama. Esse período nutritivo passa-se em Goiânia. Enquanto cresce peregrina com os pais por várias cidades de Minas. Fixa-se em Leopoldina, cidade vizinha à Cataguases do modernismo mineiro. Sob o canto de Castro Alves, parnasianos e simbolistas, o rapaz é chamado a ser poeta.

CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece

que entoa a Criação da Ave-Maria,

canta a cigarra, canta e se estremece:

núncia da noite sepultando o dia.

§

Pobre cigarra! Canta como em prece,

e ninguém, escutando-a, desconfia

que no canto a alma simples lhe estremece

e é o canto o último raio do seu dia.

§

A tanta gente assim como a cigarra

a dor na pálpebra fechada esbarra,

mas— na suave transfiguração

§

que nos redime desta pobre argila—,

se em lágrimas dos olhos não destila,

vem aos lábios em forma de canção.

Leopoldina, 8.X.1950(…)

Pelo que nos parece, travessuras à parte, foi ótimo filho e excelente aluno. Fez e ainda faz jus à sorte do berço e à chance da vida. Trata-se de mais um de nossos cidadãos exemplares que idealizamos para entre nós, artistas de espírito público.

Chega à juventude e muda-se para o litoral. No Rio de Janeiro estuda, escreve, poetiza, dialoga com seu tempo desafiando as “vanguardas” estabanadas e barulhentas:

AO LARGO, OUSADO!

é mister tudo ousar

quebremos os nossos ídolos

depois colaremos os pedacinhos

os velhos

ídolos

caídos

entrecomidos

pelos séculos

o tempo é um gato que nos espreita

pra que chorar

copiemos a sagacidade dos ratos

olhemos com ternura os nossos ídolos

não é preciso quebrá-los

quebremos antes o encanto

Ao largo, ousado!

copiamos sempre alguma coisa de alguém

somos parentes do macaco

os nossos símbolos são sapatos velhos

mais cômodos porém gastos

Ora (direis) somos poços esgotados

pois eu digo enchamo-los de vento

nada mais moderno      abstrato

                                aéreo

altercam lá fora há muito barulho

enquanto isso a palavra vai roendo a poesia

mas o tempo espreita

Rio de janeiro, 17.XII.1957

Em 1960 finca raízes na sonhada Brasília. Nessa época dão-se os últimos graus da fervura ideológica alimentada em décadas anteriores. Tempo de rupturas, dissidências, divergências, interrupções de diálogos, proselitismos. O autor expressa bem o sofrimento nos ambientes socioculturais. Comoventes composições são desse momento difícil, de quando podemos citar: “Incomunicações”, “Babélica”, “O tempo do homem”, “Torres”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Desse período, cantemos baixinho a poesia em seu estado de potência, criatura à espera dos movimentos do criador:

APOESE

Mudas, incriadas,

jazem no possível

todas as palavras.

Nesse limbo inscrevem-se

invisivelmente

todos os poemas

ditos, por dizer,

mais os indizíveis.

Nesse limbo se amam,

bicam-se as palavras,

numa intimidade

por nós mal sonhada.

Relações repousam

insolicitadas,

frases adormecem

de desinvocadas,

e afinal se cruzam,

crispam-se, eriçadas

na ânsia de uma língua

—boca, pena, gesto.

Nesse inesgotável

lago das palavras,

onde tudo encontra

seu signo prateado,

mergulhou o Homem

e pescou sofismas,

teses, xingamentos,

jogos, alguns poemas.

Infinito é o Sonho

que, irrealizado,

dorme em apoese

nesse obscuro lago.

Brasília, 31.III.1963

Cultor da língua e das artes, não se rende aos desintegradores da linguagem. Posta-se consciente em defesa do que compreendemos por TRADITIO, o entendimento e a prática de receber, cuidar, trazer e entregar: eis a origem e o sentido amplo da palavra tradição. Nosso artista aperfeiçoa e tradiciona bem. Vejamos o poema abaixo em que o mineiro-candango se autodescreve com base no seu signo do zodíaco. Uma espécie de autorretrato temperamental. São, curiosamente, onze quadras de versos brancos e potentes, em consonância numérica com o mês de novembro do calendário gregoriano. Sem esmorecer o homem-poeta reluta e sonha alto com os pés no chão.

ESCORPIÃO

Metálico, magnético, mirífico,

concreção do mistério em geometrias:

escorpião. Equilíbrio e desengonço.

Tão telúrico bicho e tão dos astros frios.

§

Cauteloso, talvez triste, avança, lança em riste.

Que faz no escuro, no úmido e no mofo

que contradiz o seu perfil mecânico?

Pólo e deserto funde, gelo e cálculo.

§

O escorpião tem reservas de malícia

ocultas sob camadas de silêncio.

Mesmo em repouso, agudo: espinho a proteger-se

Invisível flor de inviso perigo.

§

Por isto o escorpião está sempre em guarda,

dormindo com dois dedos no gatilho.

E de repente, sem nenhuma ofensa aparente,

exorbita-se em fúria vingativa.

§

Uma inveja lhe dói: não se centauro,

não se anfíbio, o peixe-pássaro, ele

que atira os olhos no alto e, em vez de duas asas,

tem oito patas a prendê-lo à terra.

§

Por isto é tão concentrado o seu ódio

e lhe estorva ainda os passos mais serenos.

E para não poluir o sonho de tanto ódio

descarrega em si mesmo o seu veneno.

§

Ridículo animálculo romântico

e parnasiano, síntese grotesca:

sólida, fria construção de engates rígidos

e formas libertando-se dinâmicas;

§

maligno duende, anjo desamparado

das potências na solitária luta,

ferras à terra, em guerra, as possessivas garras

e acima, acima, a chispa metalúrgica!

§

Torturado escorpião, que os astros sondas

e em anfractos arrastas-te, maléfico,

ínfimo na íngreme escarpa evolutiva

marchas— mas que apoplético e perplexo!

§

Bicho da terra, animal metafísico,

os pés na pré-história e um olho no futuro,

passeando o apêndice interrogativo

no círculo de luzes do zodíaco,

§

animal sem presente, entre duas eternidades

sufocando oscilante, entanto lúcido,

oh! Ama este aracnídeo, ávido amante,

que não é Carne ainda e sonha-se Anjo.

Brasília, 24.X.1971

Não sejamos orgulhosos. Não tenhamos receio de afirmar: é vulto! Exerceu jornalismo, magistério e tradução. Fez e continua por fazer incontáveis amizades. Ensina com amor, é generoso com principiantes. Reconhece os talentos dos companheiros de ofício. Sensível, erudito, humilde, solidário. Ama os idiomas e as nações. Entrega-nos bastante de sua experiência humana. Participou e testemunhou boa parte do século XX e praticamente todo esse início de século em matéria de literatura brasileira e um pouco da latina. Entendido de Castro Alves, Bilac, Bandeira, Cruz e Sousa e tantos outros. Em seguida dois ensinamentos a nós aspirantes: a) entrevista concedida a Nelson Hoffmann pelo periódico O Nheçuano e b) poema que segue:

RECEITA

Essencial é não dizer nada,

mas não-o-dizer com toda a classe:

como quem veste a ausência da alma

pondo véus diáfanos na face.

§

Escolha, pois, bem as palavras,

preferindo as simples às raras:

porque, se acintoso o disfarce,

avulta, por contraste, a cara.

§

Combine-as com a harmonia maga

de bem temperada sintaxe:

nem tanto ao mar, nem tanto à praia,

discreto o barco se destaque.

§

E seja o efeito esta onda— vaga,

onde a razão do poema—nada.

Brasília, 25.II.1974

O homem é paciente e operoso, diz acertadamente o seu amigo José Jeronymo Rivera. Faz-se crítico e ensaísta com prosa estilística luminosa, capaz de nos revigorar o esforço pela beleza. E sua poesia ergue-se como um edifício firme, fácil de se captar e reter, justamente pelo equilíbrio entre sentimento, imaginação, técnica e sabedoria. Desfrutemos de um soneto dentre a coleção dos “visionários”:

PÂNTANOS

Caía o luar nos pântanos tranqüilos.

Um sapo-boi coaxava tristemente.

A sinfonia sem calor dos grilos

enchia o quarto e entrava-me na mente.

§

Pus-me a escutá-los, momentaneamente:

cantavam mal…E eu me cansei de ouvi-los,

metendo o olhar, indagadoramente,

dentro da noite plena de sigilos.

§

Loucas perguntas, que ninguém responde,

em mim ecoavam, como numa furna.

E ébrio de sono e angústia, de repente,

§

julguei que os homens fossem brejos, onde,

regendo a triste orquestração noturna,

um sapo-boi coaxasse gravemente…

Soneto Antigo, p.95

Para revitalizarmos a poesia brasileira faz-se necessário antes divulgarmos o peso dos que não puderam vir à baila numa intensidade compatível com sua grandeza. Precisamos reverberar com prazer máximo os autores que, astuciosamente, foram postos à margem por certos “movimentos editoriais” e “pactos de leitura”. Nós apreciadores de boa arte, crentes e enfezados na ideia certa de que obras excelentes contribuem para elevação da alma humana, sonhamos com eminente poesia em forte circulação.

A literatura desse vulto – poemas, ensaios, contos, entrevistas, aulas, palestras, traduções – pede por ser lida por mais pessoas, mais comentada por nossos críticos e jornalistas culturais. Insistimos não tanto pelo autor, homem moderado e consciente de já ter feito muito da sua parte, mas por solidariedade a nós mesmos, compatriotas e falantes da língua. Que sejam incluídas suas obras nos exames de vestibulares! Dos seus ensaios temos à mão “Testemunho & Participação” e “Do que é feito o poeta”. Há também o “Proclamações” a ser explorado. A respeito do primeiro alguém exclamou: “Como é que obra dessa fica fora de circulação comercial?! Só de dar com os olhos na mina já se encontra inúmeras pepitas…além de agradável leitura, trata-se duma compilação valiosa para estudo e pesquisa em história literária.”

Conselhos editoriais, comissões de vestibulares, institutos, enfim, o mercado de bens simbólicos adiando ou atendendo logo nossa solicitação, uma coisa é certa: Anderson Braga Horta já influencia leitores, escritores e poetas de hoje, bem como influenciará outros muitos de amanhã. Ao lermos seus fragmentos críticos, onde se registra cristalinas reflexões, concluímos definitivamente que o autor está dentre os mais bem estruturados ombros da poesia contemporânea, da língua portuguesa, do florão da América e de todo o continente.

É hora de irmos além da respeitabilidade, do reconhecimento, dos elogios e dos prêmios. É hora de pormos os frutos do lavrador à mesa dos famintos!

Despedimo-nos com…

SONETO DE AMOR ANTIGO

Antes de tu nasceres, eu te amava:

de um amor sem objeto,

de um puro amor à espera:

querendo-amar, nos limbos do intocado.

§

E inda antes de eu nascido, já te amava:

no antegosto secreto

da vida em outra esfera,

na alma anterior ao corpo entressonhado.

§

Eu sempre soube o teu olhar profundo,

antes mesmo dos olhos, num passado

quando eras pura essência, além do mundo.

§

Cerra o tempo as cortinas e as descerra,

e eis-me sempre a teus pés ajoelhado.

Meu amor é antigo como a Terra.

REFERÊNCIAS:

ANE. Associação Nacional de Escritores. Membros. Brasília, 1963. Disponível em:< https://anenet.com.br/> Acesso em 17 novembro de 2019.

ALMEIDA, Pinto J.R. de. Poesia de Brasília: duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2002. 136 p.

HORTA, Anderson Braga. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009. 213 p.

_______. Do que é feito o poeta. Brasília: Thesaurus, 2016. 412 p.

_______. Signo: antologia metapoética. Brasília: Thesaurus,2016. 412 p.

_______. Testemunho & Participação: ensaio e crítica literária. Brasília: Thesaurus, 2005. 375p.

_______. Poeta de primeira grandeza. O Nheçuano, Roque Gonzales – RS- Nº 42, p. 6-8, agosto/setembro. 2019. Entrevista concedida a Nelson Hoffmann.

_______. Encontro de cinco poetas numa não esquina de Brasília. Lab61(uma homenagem ao Brasil) Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J5Yi7FPiY_Y >. Acesso em 15 julho 2019.

_______. Recebe Condecoração Oficial da Casa del Poeta Peruano. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=gOLBNb8jxMM >. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Lança Livros de Ensaios. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/anderson-braga-horta-lanca-livro-de-ensaios-79915/>. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Poeta. Wikipédia, a enciclopédia livre ( Creative Commons – sujeito a condições adicionais). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Braga_Horta. Acesso em 15 julho 2019.

O falso seguidor

O falso seguidor

Da pregação nenhum dom tu tens.

Pensas em ao menos o dom de ouvir.

Crês não ser tu quem isso aqui escreve.

Será a Inspiração que se inscreve em ti?!

O verdadeiro Cristo tu imitas mal

e nunca jamais conseguirias Sê-lo.

—É mais um falso! Um falso a mais!

Olhares gritam-te em segredo:

—É mais um louco! Louco, só isso.

Não percam tempo, tempo é dinheiro.

Incompreendido, tu confessas:

—Sou mesmo um dos falsários,

Por nosso Deus, não me sigam!

Encontrem logo o verdadeiro.

Vieste para fazer ferver o frio

coração das pessoas em pedra.

Arrancar das estátuas clamores

entranhados em ocas cabeças de ferro.

É tudo que persegues sem ânsia,

e o muito que queres sem pressa.

Eis o mistério, invisível chave

de quem sonha sempre-quase em silêncio.

Imperceptível algum ouvido alcanças

sem nenhum estrondo nem festa.

L.al'C.R. o Cristiano

Auto-retrato

Auto-retrato

Vim à luz em Bhz, foi lá que’u me rebentei

Em julho, setenta e sete, foi bem naquele ano

No Santa Efigência, maternidade d’Otaviano

Vim berrando, preocupando e assim cheguei.

Pequeno, franzino, de coraçãozinho imperfeito

Talvez por não ser menina mi’a mãe ter ganho

Por não atender já na chegada o sonho d’alguém

Mas o estouro vívido firmou: Deus já tinha feito.

Depois de aceito com amor, em Luzia eu cresci

Quando menino, quando jovem aqui me iluminei

Busquei rumos, horizontes e hoje estou aqui.

Muito na humanidade, canceriano é u’a chatice:

Às vezes fere a amizade querendo fazer o bem

Envelhece na infância e menina-se na velhice.

L. al’c. Rocha, o Cristiano

Nota: Nasci no inusitado dia 07/07/77, com sôpro inocente no coração, no bairro de Santa Efigênia , em Belo Horizonte. Minha mãe, que na época não acessou ultrassonografia, torcia por menina. Cresci na parte baixa da cidade histórica de Santa Luzia/MG.

Ama, para que, assim, sejas amado…

José Martins Fontes

Ama, para que, assim, sejas amado…

Se queres ser amado, ama primeiro,

Faze-te amar, amando com ternura,

Pois só merece a graça da ventura

Quem for capaz de um culto verdadeiro.

Sem raízes profundas no canteiro,

Em teu jardim nenhuma flor perdura.

É preciso que a terra seja pura,

Para viçar, florindo, o jasmineiro.

Sob a sideração do amor fulmíneo,

Pode estar crente todo enamorado,

Que há de se realizar seu vaticínio.

Quem for constante, sendo delicado,

Pelo espírito alcança o predomínio,

Sabendo amar, para que seja amado.

Veterano de Guerra

Veterano de Guerra

Viajando pela avenida do meu bairro

pombos e pardais d’estalo me reconhecem,

aceno aos amigos qu’inda não se mudaram:

vizinhos de memória que jamais me esquecem.

Um pai de geração: veterano de guerra

à mão e ao colo com dois de seus netos

filhos dos filhos que ainda não se mudaram

ou que se mudaram para ali mais por perto.

Do grande e abençoado céu: lençol azul

sob esse sol que nasce novo ao leste-sul

entrelaçam-se os dons de gerações embaixo

de sol qu’inda se põe velho ao norte-oeste

amam-se, ajudam-se como ensina o Mestre

vidas em família preservando esses laços.

L.al’.R, o Cristiano.

contato@pingodeouvido.com.br

Conselho de amigo

Conselho de amigo

Olegário Mariano

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  Portinari – Retrato de Olegário Mariano

                           

Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,

Gosto da tua frívola cantiga,

Mas vou dar-te um conselho, rapariga:

Trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da Formiga.

Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro,

E tu, não tendo um pouso hospitaleiro,

Pedirás…e é bem triste ser mendiga.

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava

(Quem dá conselhos sempre se consome…)

Continuava cantando, continuava…

Parece que no canto ela dizia:

__ Se eu deixar de cantar, morro de fome…

Que a cantiga é o meu pão de cada dia.

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João da Cruz e Sousa

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Tasso da Silveira em 1972 – ao organizar e criticar poemas do autor na coleção Nossos Clássicos da Agir Editora – elegeu o presente poema como “talvez o mais belo do idioma”.

 

SORRISO INTERIOR

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

 

Sêde de Deus e de Civilização

Sêde de Deus e de Civilização

(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Imagem_Editora_Argos

Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.

Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!

Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.

Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.

Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.

Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.

O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

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|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

edit

A fala e a cala se constituem de diálogo – ou monólogo – e de prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaio para o louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Da obra: Romanceiro da Inconfidência [1953].

 

Cecília Meireles

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Dorme, meu menino, dorme,

que o mundo vai se acabar.

Vieram cavalos de fogo:

são do Conde de Assumar.

Pelo Arraial de Ouro Podre,

começa  o incêndio a lavrar.

 

 

O Conde jurou no Carmo

não fazer mal a ninguém

(Vede agora pelo morro

que palavra o Conde tem!

Casas, muros, gente aflita

no fogo rolando vêm!)

 

 

D. Pedro, de uma varanda,

viu desfazer-se o arraial.

Grande vilania, Conde,

cometes para teu mal.

Mas o que aguenta as coroas

é sempre a espada brutal.

 

 

Riqueza grande da terra,

quantos por ti morrerão!

(Vede as sombras dos soldados

entre pólvora e alcatrão!

Valha-nos Santa Ifigênia!

__ e isto é ser povo cristão!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Dorme e não queiras sonhar.

Morreu Felipe dos Santos

e, por castigo exemplar,

depois de morto na forca,

mandaram-no esquartejar!

 

 

Cavalos a que o prenderam,

estremeciam de dó,

por arrastarem seu corpo

ensanguentado, no pó.

Há multidão para os vivos:

Porém quem morre vai só.

 

 

Dentro do tempo há mais tempo,

e, na roca da ambição,

vai se preparando a teia

dos castigos que virão:

há mais forcas, mas suplícios

para os netos da traição.

 

 

Embaixo e em cima da terra,

o ouro um dia vai secar.

Toda vez que um justo grita,

um carrasco o vem calar.

Quem não presta, fica vivo;

quem é bom, mandam matar.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Fogo vai, fumaça vem…

Um vento de cinzas negras

levou tudo para além…

Dizem que o conde se ria!

Mas quem ri chora também.

 

 

Quando um dia fores grande

e passares por ali,

dirás: “Morro da Queimada,

como foste, nunca vi;

mas, só de te ver agora,

ponho-me a chorar por ti:

 

 

por tuas casas caídas,

pelos teus negros quintais,

pelos corações queimados

em labaredas fatais,

__ por essa cobiça de ouro

Que ardeu nas minas gerais.”

 

 

Foi numa noite medonha,

numa noite sem perdão.

Dissera o Conde: “Estais livres”.

E deu ordem de prisão.

Isso, Dom Pedro de Almeida,

é o que faz qualquer vilão.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Que fumo subiu pelo ar!

As ruas se misturaram,

tudo perdeu seu lugar.

Quem vos deu poder tamanho,

Senhor Conde de Assumar?

 

 

Jurisdição para tanto

não tinha, Senhor, bem sei…

(Vede os pequenos tiranos

que mandam mais do que o Rei!

Onde a fonte do ouro corre,

apodrece a flor da Lei!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme

__ que Deus te ensine a lição

dos que sofrem neste mundo

violência e perseguição.

Morreu Felipe dos Santos:

outros, porém, nascerão.

 

 

Não há Conde, não há forca,

não há coroa real

mais seguros que estas casas,

que estas pedras do arraial,

deste arraial do Ouro Podre

Que foi de Mestre Pascoal.

 

 

__________________
Notas
Ouro Podre: arraial, talvez o mais próspero de Vila Rica.
Conde de Assumar: título criado pelo então príncipe regente D. Pedro II, O Pacífico (1648-1706). Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos recebeu tal título; D. Pedro de Almeida também foi 3º governador e capitão-mor da capitania de São Paulo e Minas do Ouro em Mariana Minas Gerais, no Brasil.
Assumar: Freguesia portuguesa do concelho de Monforte na região do Alentejo.
Felipe dos Santos: tropeiro e fazendeiro que liderou a Revolta de Vila Rica (1720) contra o Quinto.
Mestre Pascoal: Pascoal da Silva Guimarães, caixeiro, mascate, explorador e pesquisador que levou para Vila Rica método de mineração da Nova Espanha.
Fonte secundária da imagem: http://cidademuseu.blogspot.com.br/2008/10/o-surgimento-da-vila-rica.html; https://www.revistaprosaversoearte.com/cecilia-meireles-poemas/

A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

                              Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

jose-alencar-romancista-brasileiro

A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Simoun:   talvez de Simão, o mágico, personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais impusesse as mãos (At 8.18-24). 
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

 

Casa do mundo – poema

CASA DO MUNDO

 lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

Casa_do_mundo

Todo santo dia nalguma hora me levanto

Não sei se muito tarde ou muito cedo

Pois nem lua nem sol sequer desponta

Nem um galo errado nos avisa com seu canto.

Planto os pés no chão frio do meu quarto

Miro o corredor, crio coragem e ando

Urino, agora, com muito alívio no banheiro

Abro os olhos, penteio-me, lavo a boca e o rosto.

Sorrio-me ao espelho.

Passo pela cozinha e pelo serviço

Já da porta para o quintal avisto meu poço

Aproximo, puxo a tampa e inclino-me com a cabeça

E sopro bastante. Tão leve e suave sôpro

Que apenas a mim mesmo ouço.

Uma vez ou outra; muito de vez em quando

Um eco lá do fundo me responde:

“Por Deus e por amor… não me esqueça,

Socorro! ”

contato@pingodeouvido.com.br

Poemas e Canções

__Poemas_e_Canções_2001_e_2017

__Capa_Poemas_e_Canções

ÍNDICE

Prefácio, 03

Sobre o autor, 04

Dedicatórias 1ª edição, 05

Notas do autor e agradecimentos 1ª edição, 06

Poemas

Herança & Arteiros, 07

Santa Luzia de todo o mundo, 08

Da região metropolitana, 08

Resposta, 09

Homemgasto, 10

“Psicológico”, 10

Canção para crise, 11

Etária com ombro, 11

Violoncelo, 12

Sem título e Ficar, 13

2º plano, 14

Meus poemas e canção poesia, 15

Metalinguística, 16

Canções

Nos sinais e Temorte (na sua área), 18

Zumzumzum zimzimzim e Ô Bach, 19

Não há um violão e Avião de Luxo, 20

Do apá virado e Fili, 21

Culpa e Narua, 22

Cata-vento, 23

Neanderthal, 24

 Notas, 25

Créditos 1º edição

Informações 2ª Edição, canais e contato, 25

 

Prefácio

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

Em brochura grampeada, com sobras de papel da gráfica, de corte torto, capa feia e improvisada, saiu uma edição tôsca e pobre, não só pelo fato de ser independente e autofinanciada, mas também por incompetência de todos nós, autor-editor, diagramador, gráfica impressora etc.

A intenção era demonstrar a importância com que sempre tratei a Literatura e expor um estilo individual eclético, no intuito de agradar o maior número possível de leitores e ouvintes. Os poemas foram divididos em quatro partes: a) memória pessoal; b) temas políticos e socioeconômicos; c) experiências com namoros e d) metalinguística. Quanto às canções, selecionei as que eu julgava serem as melhores na época.

Quis modéstia no título e pus “Poemas e Canções”, pois admitia minha imaturidade pessoal e artística. Agora nessa segunda distribuição há um novo intuito: retomar esse marco de minha trajetória.

Obra de jovem estreante, percebe-se marcante cadência típica do letrista, rimas imperfeitas, versos livres a procura de certa harmonia assimétrica; um tom de fala ao mesmo tempo memorialístico e confessional. Artes e pecados da infância, paixões juvenis com influência de Adelino Moreira, o espaço semi-urbano, os sonhos e as aflições próprias dos que trabalham em reflexão e contemplação em meio as urgências da vida, das tragédias humanas e sociais. Veremos esses últimos cenários, por exemplo, em “psicológico” (página 10), “temorte (na sua área) ” e “Nos sinais” (página 18).

Nas duas últimas canções (Cata-vento e Neandertlhal) teremos canto à liberdade e um lamentoso apelo.  É que antes de nos apresentarmos como escritores, antes mesmo de declararmos a primeira estrofe, àquela época já percebíamos o desprezo e a indiferença para com os novatos. No geral, quando se falava em arte, só se pensava em reconhecimento, exposição, fama, carreira profissional e vida pública luxuosa. Esquecia-se dos artistas como exemplos à sociedade, como cidadãos influentes na ética e moral de um povo. Hoje, porém, sabemos que a fria educação pela pedra de um João Cabral de Mello Neto norteou o senso de um Ministro da Fazenda Antônio Palocci; e que aquele Glauber Rocha animou o coração e a mente dum poeta e Presidente da República José Sarney. Um simples estribilho pode, na sua devida proporção, influir na história de várias gerações.

Hoje o desprezo, a indiferença e o ato de recusar contribuições literárias e artísticas em geral são efeitos de várias causas, e dentre elas podemos citar o declínio do ensino e aprendizado, o desamor pelo idioma, a imposição do entretenimento e do lazer prazeroso, a anulação da atividade crítica e a intensificação das degradantes guerrilhas culturais e espirituais. Vejo as forças criativas perderem sua fecundidade e segregarem-se em ilhas tribais fervidas por conspirações, estratégias, táticas, agendas e atitudes que, às vezes, culminam em histerias coletivistas ou até em campanhas de reivindicações hostis e ódio. Essas vias obscuras em muito nos entristecem.

Os critérios norteadores do fazer literário deixaram de ser a beleza, o amadurecimento da escrita, a riqueza de conteúdo, a força das expressões, a hombridade ética e estética do autor. Vieses ideológicos, de crenças ou descrenças são fatores determinantes para fazer repercutir ou não a voz dum pobre sujeito. Serão forças suficientes para calar algum filho de Deus capaz apenas de honrar seus próprios ombros? Só Ele pode nos responder, e a resposta virá certamente no Tempo Dele.

A presente reedição, com prefácio e informações complementares confirma minha escolha desde o início: o caminho da arte livre, consciente, independente, sóbria, responsável, baseada na razão, no sentimento e na compaixão. Esse pequeno percurso me impulsiona e me alimenta na missão de alcançar o máximo de pessoas dispostas a apreciarem Língua Portuguesa do Brasil, Literatura Brasileira, poesia inspirada e letra de música.

Belo Horizonte, 07 de julho de 2017.

Sobre o autor

Filho de José Maria Rocha, bombeiro hidráulico e Dulce Francisca Lopes Cançado, do lar, nasci em 07 de julho de 1977 em Belo Horizonte. Meus pais, nessa época, moravam no bairro de Santa Efigênia. Em dezembro de 1981, movidos pelo sonho da casa própria, mudamos para o Conjunto Habitacional de Interesse Social (Cohab-MG), mais conhecido como Conj. Cristina, próximo ao bairro São Benedito, na cidade de Santa Luzia.

Estudei o primário na E.E Jacinta Enéas Orzil, onde iniciei meus primeiros escritos, estimulado pelas aulas de comunicação e por canções que ouvia na voz de minha mãe. As demais séries do primeiro e segundo graus cursei na E. E Raul Teixeira da Costa Sobrinho já compondo uma variedade de letras, poemas e demonstrando notório interesse por nossa Literatura Brasileira. Dentre as funções que exerci estão: vendedor ambulante, balconista, empacotador de compras em supermercado, repositor, office-boy, auxiliar de escritório e leiturista em relógios medidores de energia elétrica.

A partir de 2002 trabalhei como balconista novamente, auxiliar de tesouraria, carteiro, professor de violão, músico de bar, auxiliar de serviços gerais. Colaborei voluntariamente em duas associações culturais luzienses. Idealizei e concretizei dois periódicos literários: Cabeça de Papel (2002) e Pingo de Ouvido (2015). Em 2006 integrei o curso de crisma do método da Catequese Narrativa, na comunidade Santo Inácio entre os cristinenses; crismei, batizei e, sendo já cristão, firmei publicamente minha Fé Católica. Estudei um período de administração em 2007. Dediquei-me em dois cursos técnicos e vários outros profissionalizantes no período de 2009 a 2014. Apresentei-me em alguns festivais de música, mostras e recitais. Publiquei dois álbuns musicais nas plataformas Onerpm e Youtube. Até meados da década de 2000 almejava profissionalizar-me inteiramente nas atividades artísticas, até que em 2005 decidi por me tornar, antes de qualquer desejo profissionalizante, um artista de testemunho e obra. Trabalho, atualmente, como assistente administrativo e estudo várias disciplinas de forma autônoma. Conquistei amores e desafetos, como é natural com todo ser humano. Ganhei um filho amoroso. Nos últimos anos venho me reaproximando das origens familiares, curtindo tias-avós, tios, primos, primas, padrinho, madrinha. Ouvindo deliciosas histórias como nunca. Ganhei também duas afilhadas, quatro cachorrinhas lindas e a família só lá vai crescendo…

Hoje, sob as mais variadas influências, tanto da arte como das diversas convivências… “ao contrário dos que escrevem e rasgam, mando meu timbre não por vaidade; é para desafiar esse instrumento de infinitas faces, comprometedor e bambo que é a palavra. Contudo, lembro que não deixo apenas palavras, lanço também a minha unidade e um pedacinho do meu universo. Quando me ponho a liberar o que me borbulha aqui dentro, a letra e o som são os códigos de que disponho… um violão de estudo e u’a máquina de escrever, isso é tudo, tudo que eu tenho. Dependendo do estado em que me encontro, eles se entrelaçam ou pouco se aproximam. Cabe a mim então a paciência… esperar para ver ‘quem’ é que vai ficar só e ‘quem’ é que vai ficar junto. Isto é, a Inspiração Divina é quem determina se o texto permanece poema lírico ou se converte em letra musical, canção”.

Eis, junto dos poemas, algumas composições do período de 1997 a 2001, quando passei a compor com maior frequência e a realizar estudos autônomos em música.

Santa Luzia, 09 a 15 de maio de 2001.

Com informações complementares em 07 de julho de 2017.

a toda minha família

e amigos

a vin car lag, “cum panis

inseparável nessa

trilha

a Sebastião Villas Boas

por todo apoio

e pelas primeiras afinações

(em memória)

[2001].

 

“… numa transa com os nervos, a música instigando o ser e dando-lhe a insistência para falar de si, de seu meio, de seus atos.

Mais pela vontade de desengavetar, registrar e fazer repercutir. Já que todos nós sabemos de nossas dificuldades – e não somente no plano artístico –, deixo aqui aos leitores e ouvintes uma enorme consideração. ”

Parte_1

Agradeço a:

Deus, Mamãe, Alexandre (irmão), todos os meus professores, todas as pessoas que trabalharam comigo, meus amigos, colegas músicos e artistas, apoiadores e apreciadores. Flávio Aguiari (em especial) e a uma pessoa que, sem ela, esse trabalho não se concretizaria: Raquel Rezende.

[2001].

POEMAS

Como quem herda não furta

herdei de meus pais

coração e alma

De minhas mães

valentia e vigor

e isto me basta

me farta.

[1994], herança

Arteiros

Posso ovi de longe

ela cantando meu nome

Mamãe t’chamando

arruma essa franja

os canto da boca

tá sujo de manga

óia lá

não vai falá da chácara

nem do tiro de chumbim.

Dentre minhas espadas

não, não tive espadas

tampouco revólveres

E fui ladrão

de um brinco

e um litro de leite

Não possuía spray

mas fui vândalo

em minha escola

Dividi uma bola

um lance

sonhei como todos

hoje sou poeta e estudante.

[1999].

Santa Luzia de todo o mundo

Beco do Brasil,

da África.

Rua Japão, Israel,

Rússia.

Avenida States,

Das Indústrias.

Estrada velha asfaltada

Barrenta cheirando à cachaça

Trem trilho

mel milho

estribo, extravagante

esterco

Trem trilho

mel milho

casas casarões

barracos.

[2000].

Da região metropolitana

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea

conheço enxada mas nunca usei

e não me lembro de ter decepado capim

Tenho uma máquina sim

Gosto de cavalos, porém

tenho medo de montar

de gado nada sei mas,

quando trêbado

puxo os rabo das vaca

E a boca da calça

anda borrada de batom vermelho

das poças de água

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea.

Resposta

Ninguém saberá

sobre os quilômetros que ando

do peso que carrego

dos quilos que perco

Os números?

Sei apenas lê-los

Perdão se gesto

palavra

espaço

tempo

ação

não meço

Deixo de lado

até mesmo o sucesso

mas o espírito-paixão

não desprezo.

Parte_2

Homemgasto

Como seria o sentido da vida

para aquele homem que me oferece café?

aquele homem que mata minha sede com sua água

Agachado ali na rampa da entrada

misturando gíria com dialetos da roça

Qual é, para ele, o sentido da música

que vara o portão e cadencia meus passos?

O que pensa ele, ao olhar-me com os olhos

de minha gente, sobre o trabalho que faço?

Posso é somente imaginar

o que o trabalho fez com a vida

desse Homemgasto

“Psicológico”

O frio é psicológico

assim como é da psicologia

a alergia de lã

e a dor que a medicina

estampa no seu nome

A fome e a seca

são psicológicos quanto o medo

É psicológico o atrito

entre o religioso e o cientista

o refúgio de Kosovo[1]

a corrida armamentista

a ignorância do povo

os alunos assassinos

e todos os versos acima.

Canção para crise

As bolsas cheias de nenê e xistose

A miséria e a corda no pescoço do pai

Quem promete a melhora

tem moeda no bolso

E nós? Misericórdia Senhor!

Misericórdia de nós!

Batendo na bunda de quem passa

Quem passa leva um tapa no bolso detrás

É pobre, é pobre também!

Vá roubar, vagabundo, de quem tem

O bolso cheio de poesia em pó

A viola atira som que não mata ninguém

Boca manda palavras que não saram

Sarin: paralisia da massa.

Etária com ombro

Olha lá a ciência presumindo as batidas

durante a vida, uma vida qualquer.

Pegada a cambalear, fungar entrecortado

Soando em seu terreno, longe da teconoavançada

Tem sangue vermelho, corpo sem orifícios de borracha,

sem canudos – enfermo. Tem sete vidas.

Nasce e renasce das cinzas mais rápido do que humano

do que o tempo ou qualquer ação física,

Mistura-se com a terra

Fica pardo, forte, rico

Encorpado de raças

civilizações e ritos.

Prossegue…

Socorre-se de água, comida,

descanso e abrigo

Combate: famintos tigres

Suporta: carregadas nuvens

Degusta: delicadamente

Súbitos lagos límpidos.[2]

Parte_3

Violoncelo

Som de berrante rouco

Urro de boi quase morto

Quando o tocador acelera

arrepio

Belo brio!

Revanche!

Cai a velocidade

volto a amar a derrota

Corto a noite em versos

Morro!

Pela manhã é violão

à tarde,

violoncelo.

 

Sem título

o poema que plantei

em seu nome

ela não me devolve mesmo

muito eu gostaria

de extrair da mente

uma estrofe

…mas a memória salva-me um verso:

“amar em pé de igualdade.”

[março de 2001].

Ficar

Devo a você

letras de ouro,

devido ao poder

que arrumei nos dedos

ao tocar seus cachos dourados.

Contudo, ofereço-lhe

estas perplexas aqui,

pois bobelado fiquei

da surpresa de lhe conhecer

assim… tão pouco e de súbito

Meus olhos apuram

estas linhas

torcendo por um

daqueles nossos

encontros fortuitos.

Segundo Plano

Sonhei os mil elogios

que saem dos seus olhos

e com o brilho

que parte de seu sorriso.

Seus lindos pés maternos

ao suportarem dois corpos,

de longe me fascinam

De perto?

eliminam todo o nosso primeiro plano.

Ai! Vontade de usar de cafajeste

em vez de força-bruta-coração!

Então surgem retas, círculos

quase que em forma de coraçõezinhos.

Rolam gestos, palavras surpresas,

possíveis trocas de objetos

e mais reciprocidades

… e aí eu paro por aqui,

Pois já não mais consigo

expressar-me através de

tais códigos.

Parte_4

Meus poemas

Simples poemas

Tortos e destinados

ao matadouro

Que nasçam meus poemas

Que nasçam

Esse é o único voto

de um orgulhoso pai

semi-analfabeto.

[novembro de 1999].

Canção-poesia

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação da língua,

a insônia estão aqui na minha poesia

Será lida como anúncio de jornal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

um verso

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação dos sons,

a insônia estão aqui na minha canção

Será ouvida como barulho infernal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

uma melodia

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

ESTUDO DACTILOGRAFÔNICO[3]

vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô   verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  poisé  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia po

Babacanetababa

Babapelomenos

Babacanetababa

SoutristepremiadoDesgraçadofeliz

                                             Poetizo

[4]

Pentagrama

Sobre poesia

aprendi com um amigo-vizinho

conversar fiado sozinho…

Canções

CANÇÕES

Nos sinais

Deus branco nu olhando por uma criança negra

e uma branca fugindo de um demônio vestido de capa preta

Tv a teleguiar os olhos negros de uma índia

e uma daquelas amarelas trocando um chip

Uma ele, uma ela

de barriga cheia esperando mais crianças

sem barriga, sem pança

das que cansam de esperar a hora

das que jogam pedra, fumam pedra, jogam bola, dão bola

cheiram à fralda, cheiram coca, cola

das que correm, dormem, morrem, pedem, roubam

pé-de-cana, mão-de-caneca, pé-de-erva

das que não pedem para nascer

Maria que não queria família com filhos filhas

ouvindo: quem não crer, não quer criar, que não dê cria

Eu vi nos sinais sem tempos verbais

Quem é que vai relar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Quem é que vai acionar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Temorte (na sua área)

Mataram um cara na sua área, meu irmão

E eu nem sei bem se vi ou se ouvi falar

Só sei que a cena tá aqui no meu inculcar

O revólver cuspindo, a bala entrando

O corpo caindo, meu xará

O ferro cuspindo, a azeitona entrando

O presunto caindo, meu xará

E antes da polícia, a família da vítima a chegar

O chôro da mãe, a careta do pai

Desespero da irmã do rapaz

E isso num dia cinzento

Chapiscado com chuvisco

E o povo a comprar pro Natal

Não é época de se indignar

Além do mais, também, aliás

Isso tudo é “normal”.

 

Zumzumzum Zimzimzim[5]

Toda noite pousa um mosquitinho aqui

Em cima da minha folha e dança

Sobre a pauta, breca na pausa

Valsa em volta de mim

Zumzumzum zimzimzim

Zumzumzum zimzimzim

Ouve-me até o fim

Como quem pensa

Entende o meu lance

Compreende a maior

A menor frequência

De todos os ângulos:

Tarraxa de baixo

De cima do braço

Voando, montado

A cavalete

Oh! Deus, vigie essa criatura minúscula

Dá a todas as vidas o imenso prazer da música.

 

Ô Bach

Ô Bach! Eu vou roubar tuas notas

Quando baixares em mim

Mozart! O teu olhar agora é meu

Os dois acordes que eu tenho aqui

São repetidos e sempre se repetirão

Porque a música, Bach

Porque a música, Mozart

É uma mentira!

Ô Bach!

Pede a Deus que me ouça!

E mande um raio na caixa de som

Mozart!

Manda um anjo cortar minas mãos!

Porque o músico, Bach

Porque o músico, Mozart

É uma mentira!

Me tira, me tira, me tira daqui!

Todas as notas são repetidas, todos os textos…

Todas as frases e melodias, todos os caprichos…

Todos os ritmos e arranjos, todos os trechos…

 

 

Não há um violão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher

Amei e quando desamei

Corri pr’esse braço só

Compensação: uma voz polifônica

E muito mais polida que meu coração

Confesso sim

Não converso sozinho não

Mas não há… volto ao refrão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher.

Avião de luxo

Aquele avião de guerra que voava

Sobre a Rua Ituverava, procurava

U’a mulher que era faxineira dum

Supermercado bacana

Uma fita adesiva serviu-lhe de cinturão

Para sair carregada de batom, shampoo

Creme rinse e creme para as mãos

Na meia soquete balas e chicletes

Para um irmão mais novo

Em casa ela só tem arroz e feijão

Óleo e macarrão, manteiga e pão murcho

Ainda há quem diga que o que ela queria era luxo

Pois aquele avião de luxo que voava

Sobre a Rua Ituverava…

Ele vai achá-la lá na Praça Sete

Ela vai picá-lo lo todo no canivete.

 

Do apá virado

Me disseram que você já passara do ponto

Eu fui com o trigo e você voltou com o pão

Eu fingi amigo e ganhei um beijo na escuridão

Já ouvi falar, já ouvi falar

Da sua fama na Rua João de Sá

Já ouvi falar da sua fama

Na Avenida Joaquim

Agora diga:

Se realmente tem algum amor por mim

Se realmente tem algum amor por mim.

Fili

Dispare o tiro, toque o sino

Com licença tio, com licença tia

Mamãe postiça me chama

Dispersando canja no ar

Ar livre, ar leve, me livre, me leve

Me faça pole position

Lá fora se a fila não dobra a esquina

É por sorteio

Deputado reivindica

Saúde internada, ensino em tenda

Clientes da reforma no PROCON

Agricultor descadastrado

Clim’eaça a safra e as nuvens que pas’são

De famintos gafanhotos

Eu digo põe, põe, pois…

fili mãe tem cartão credi-canja master-sopa[6]

na mão

Até mãe, tenho de ir embora

Amanhã é dia de Vietnã

Já deu a minha hora, a do meu país eu não sei

A mãe terra gera seus filhos e é morta

Filhos sem mãe, órfãos de guerra.

 

Culpa

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Injeção de tais palavras

Fonadas no ouvido

Algemou-me, debruçou-me na mesa

Como explicar pro lápis

Preso em margens, perdido em linhas

Desapontado, pálido e incolor

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Quando fecha, incha e seca

Quando abre, rega e aflora

Se se zanga, embica

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Como dizer dos meus ditos

Pros escritos que escrevi pra ti?

Narua

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, arrota trovão!

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso namorar

Na rua eu posso beijar

Porque a rua, a rua não é sua!

É o puro caminho de quem quer se expressar

Um mar de quarteirões onde navegam guardas e vilões

E seu filho beco, bequim; e seu filho corgo, corguim

Conhece? Não, não recebem sermões

A rua, minha senhora, não é moça

Moça não, é dona!

A rua, meu senhor, é rapaz que não precisa de zona

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso reclamar

Na rua eu posso esbravejar

Porque a rua, a rua não é sua!

A rua, a ruinha, a ruaça

A rua, a ruinha, arruaça

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, cospe vulcão!

Cata-vento[7]

É que sou pipa, mutuca

Em mãos desconhecidas

Taquara de meio, vareta de enverga

Sou pipa, papagaio

Empinado com linha de aço

Cerol nenhum me corta

Ou rasga minha barbela

Quero me mandar daqui

Ficar perto do sol

Sei que corro o risco

De acabar ao chão, ao chão

Soltar da manivela

Remexer rabiola

Voar e voar

Me embolar nos ventos.

 

 

Neanderthal

Eu quero uma chance, ninguém me dá

Eu quero cantar, dizem que não sei

Cabelo dispara a crescer: animal!

As unhas, perguntam: pra quê?

E o tamanho dos olhos? E da boca?

Lobo mau! Lobo mau!

Meu objeto é mexer

Com sua alma um pouco

Essa é a idéia de cor

Não arrancar seu suor

Nem lhe jogar no forno

Eu quero tocar corações

Me chamam de homem do mau

E meu instrumento de pau

Neanderthal! Neanderthal!

Chega mais

Não pego, não mordo

Sou racional

Carne, osso

Açúcar, fel

Limão e sal

Pode vir

Não tenha medo

Não me faça mito

Sou desse mundo

Tá legal? Tá legal?

Notas

[1] Página 10. Referência ao conflito étnico-cultural entre albaneses e sérvios na região de Kosovo.

[2] Página 12. Estrofe utilizada posteriormente na canção “à espreita da aurora”, disponível em youtube.com/user/Lopesdelarocha.

[3] Página 16. Jogo fônico-formal. Só depois descobri que o Décio Pignatari tem algo parecido composto em 1977. É de fato influência dos concretistas por meio de livros didáticos de Língua e Literatura da década de 1990. Poema composto durante exercícios do curso de datilografia.

[4] Página 16. Grupo fônico da frase no pentagrama. Clave substituída pelo emblema do movimento anarquista. Frase expletiva exprimindo afirmação dúbia.

[5] Página 19. Esta canção inspirou uma outra intitulada “Tatame”, que integra o álbum “à espreita da aurora” de 2014.

[6] Página 21. “Credi-canja Master-Sopa” é expressão criada por Eder Jack de Andrade Silva na fila para servir a merenda da E.E Raul Teixeira da Costa Sobrinho, também em meados dos anos 90.

[7] Página 23. Letra da canção Cata-vento foi musicada e cantada por Flávio Aguiari na primeira edição em 2001.

Créditos

(Poemas e canções)

172.199.289-345 FBN

4124-105-030 E.M.D.A

C.I Nº 408 FBN

Capa e ilustrações 1º edição: Lopes C. de la rocha

Ilustração nº 03: Raquel Rezende

Voz e violão: Lopes C. de la rocha

Voz em ‘Cata-vento’ (Part. Especial): Flávio Aguiari

Gravado do Studio Plug-In em 09 e 15 de maio de 2001

CD reproduzido por Studio R&T

Impressão 1º edição em 2001

Edição independente e autofinanciada

2º Edição em pdf: Pingo de Ouvido. 07/07/17

Santa Luzia & Belo Horizonte, Brasil.

Canais do autor:

www.pingodeouvido.com.br

www.youtube.com/user/Lopesdelarocha

Contato:

contato@pingodeouvido.com.br

Lançamento nos mares da rede…

Lançamento nos mares da rede

poemas e canções,

cr. lopes cançado de la rocha

[2001]/(2017)

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

EU SOU BRASILEIRO

EU SOU BRASILEIRO

Osmar Barbosa, poeta e professor

Brasil_florão-da-américa

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó moiro/loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tejo: famoso rio da Península Ibérica

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do reomance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.

 

Maracujá, flôr da Paixão

Maracujá, flôr da Paixão

Flor da paixão

Além de sua família, vovó adora também plantas, animais, crianças e poesia. Na verdade, ela adora tudo o que é bonito, ela diz que é “fã da beleza”, seja a beleza material, seja a espiritual. Ela é capaz de ficar horas e horas admirando uma flor, olhando para o céu estrelado ou ouvindo o canto de um pássaro, como é capaz também de chorar de pura emoção ao ouvir contar de um gesto nobre, de um esforço sincero ou de um gesto de amor ou de perdão.

Agora, o que ela gosta mais do que tudo é de escrever, contar estórias, e principalmente, de fazer poesias. Todos os netos já têm uma poesia sua. No fundo do quintal há um grande caramanchão de palha por onde sobe um lindo pé de maracujá. Uma vez, quando ele estava todo em flor, vovó mostrou essa flor, também chamada “flor da Paixão”, é estranha e linda. Ela dá na época da Quaresma, é roxa como a Paixão, e tem todos os símbolos do sofrimento de Cristo: a coroa de espinhos, a cruz, os cravos com que ele foi pregado e a lança que abriu seu lado esquerdo. É uma verdadeira jóia da natureza.

Lá nesse caramanchão, de vez em quando, vovó gosta de reunir os netos e contar-lhes estórias; às vezes são estórias de imaginação e fantasia, com aventuras de fadas e bruxas, outras são estórias verdadeiras, “casos” acontecidos de verdade, que são igualmente interessantes. Aliás, ela diz que a verdade é mais extraordinária que a ficção, que as coisas mais assombrosas e mais incríveis não são tiradas da fantasia e, sim, da realidade…

Maria Alice Penna de Azevedo, “Domingo é dia de folclore”. Introdução. Sobre Vovó Lita. P.6. Editora Paulinas. 1988.

NECESSIDADE DE ESTUDAR OS ANTIGOS ESCRITORES


Castilho

Necessidade de estudar os antigos escritores

Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875)

            Mancebos (se os há aí que se dêem às letras), vós que encetais a mui árdua e perigosa vereda que pelas letras conduz à fama, seja qual fôr o gênero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejam mais forem os louvores que os velhos na arte vos concedam, e os aplausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de aparecer: os conselhos que Horácio vos deu duram com toda a força que a natureza e a prática lhe bafejaram. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove anos, chamar e tornar a chamar dez vezes à unha a obra já perfeita. O amor próprio nos persuade e impele a aparecermos cedo: devia dêle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas.

Trecho retirado do Livro “Conheça o seu idioma 6º volume” CIL S.A (1971), de Osmar Barbosa.

Rudimentos ferrorama – poema

trem_de_ferro_2


Rudimentos ferrorama

Rudimentos ferrorama

lopes al’ Cançado rocha, o Cristiano

§

certeira     no  comportamento

máquina                            essa

no     tom  tamanho   e     traço

correta em organização de fila

§

coisa      gigantesca           essa

suga vomita dança     equilibra

trazendo bonecos adolescentes

em sua    empoeirada       crista

§

ente          absoluta           essa

centopéia da vila      de pedras

por entre morros ziguezagueia

e        vem    repetindo  preces

§

essa     conjunto   de     gomos

a vagar em     escada   deitada

longa   escada de       estações

e patas doces calçadas  a tênis

§

piolho de   cobra    sem      pés

a carregar gravatas e capacetes

paralela ao rio que ainda desce

com peixes banhados de caliça

§

potente    mortífera  e metálica

o rio surpreendentemente vivo

escorregando     desgovernado

selestrepe        e           desaba

§

solitária                    engomada

sob      o     arco    de        fogo

fraco      leão    de            circo

domado       pelo         pescoço

§

lingüiça        amarra-cachorro

prontíssima     para         partir

sempre     prestes    a    chegar

leva      pessoas    e       cargas

§

que sujam  almas e   dinheiro

jactante   tal  qual     esperma

a     centopéia     sem   pernas

ou então de    rodas   cobertas

§

máquina   de    bocas destras

lábios  frondosos  de choque

andamento    de   um andante

timbres    típicos     do   rock

§

passam-na     para  a     música

na foto     sua luz     é     rouca

estática        nesta          última

dinâmica       naquel’      outra

§

tão exposta e   sem      arranhão

corpo absoluto   e     perfurador

lábios prontos    para o    baque

conforme  delega  seu   interior

§

enfia-se   por     vários     túneis

os     quais      a        regurgitam

rasga  o    horizonte   pela   raiz

esse   enorme  colar  de   tonéis

§

vem  vindo   cuspindo   em tudo

“nem  que  taque nem   que taque”

Diz  essa tal   máquina     essa

ao infante com pedras em punho

  §

serpente  há    tempos   aleijada

nem asas nem proa nem hélices

engolidora    de diversas gentes

tolôsco quilométrico  de   fezes

§

encurva      enverga       taquara

de barriga para cima espelhada

num leito de pedras e cascalhos

navega       tranqüila   e deitada

§

orquestra     de ranger de rodas

repete      tempo    e    percurso

o das onze e     o das sete horas

os mais conhecidos    números

§

máquina   decisiva   e    dúbia

caminho   em      formato de y

trechos em obras e concluídos

previsível    em    cada   curva

§

segundo normas    do império

suporta    toneladas   por eixo

otimizada         na         tração

na    performance   e potência

§

saudades    de   seu   chocalho

o    apito     aviso           antigo

sempre      foi      bem    vindo

o    quinhão   dos assalariados

§

plantadora     de         cidades

rastejando     quem        diria?

trouxe                  pagamentos

pensões     e     aposentadorias

§

todos     que    a     esperaram

relembraram      a   revelação

“era   aquilo              mesmo?

era       mesmo          aquilo?”

§

sua   porção   então acidentada

aos   cuidados   do    tecnólogo

e aos         olhos aqui do poeta

está   sua   parte      imaginária

§

máquina   geralmente  grávida

de  grãos   bobinas   e    barras

em   gestação   meio    inversa

com    bolsas   e berços de aço

§

reduzida   em   custos desgastes

diária     preventiva   e   rodante

suplementada   de componentes

baba demanda e disponibilidade

§

fizeram-na    uma    estrela pop

ei-la   numa    foto   estampada

duma    revista    especializada

revestida   nua  ou  desmontada

§

rotulada      datada   e    batizada

com nomes de mulheres rodadas

e   pioneiras   agora   respeitadas

carmens mirandas  embananadas

§

vassoura  sem   cabo   e  vertical

sulcando   a   poeira   do   sertão

fazendo-me  construir    estrofes

como se cada fosse um vagão

§

as sandálias vistas   do    alto

parece     um   enorme   verso

repetitivo    visual    e    bobo

com única palavra: progresso.

e-mail: lopeslarocha@gmail.com

Comunhão – Poema

 Comunhão

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

imagem_leque-2

Eu era o câncer

Tu eras a virgem que me cura, depois me devora

Eu era a guerra

Tu eras a paz que me provoca

Era eu a contemplação

Tu eras o duro, o denso, a nota

Eu era o sonho

Tu eras o beliscão que me acorda

Eu era o vozear

Tu eras a guilhotina que me degola

Tu eras já a Justiça Social

Eu era ainda a esmola

Eu era a magreza

Tu eras o feijão que me engorda

Eu era o vício

Tu eras a virtude que me vigora

Era eu, pungido, o tambor

Eras tu, tangida, a corda

Medo era eu

Tu eras a escolta

Tu eras o berço

Eu era a cova

Eras tu a alvura

Era eu a nódoa

Tu o acordo

Eu a discórdia

Tu eras a faca que ao meio corta tudo

Eu era a meia que nada corta

Eu o som descompassado

Tu a delicada pausa

Tu eras o carinho

Eu era a espora

Tu a raposa campeã

Eu o galo à espreita da aurora

Eu era ainda o tema

Tu já eras a estória

Eu era a vaga lembrança

Tu eras a sã memória

Tu o prosaico e milionário cinema

Eu a pobre poesia morta

Eu a dor do parto

Tu o alívio da morte

Tu eras a esperança pousada

Eu o cinza que sobe

Tu eras a abundância do sul

Eu a escassez do norte

Tu a corrente

Eu o que pesa, o pingente.

Mulheres Únicas – Poesia

 Mulheres Únicas

 lopes al’Cançado de la Rocha, o Cristiano

imagem-mulher

Numa só mulher estão todas as outras
Numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
Ainda que escondidos
Têm beleza sertaneja, meiguice morena
Clara maciez, negritude amorosa
Assentam-se na escadaria da Igreja
Debruçam-se nas janelas
Enamoram-se nos bares
Passeiam pelos clubes
Encontram-se nas cavalgadas
Desfilam-se nos shoppings
Amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
Percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
Nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
Nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
Um dia, sua mulher esteve numa canção
Numa história não sua, numa infância platônica
Todas as mulheres estarão num só romance
Queimam numa só paixão, numa só saudade
Gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

Ensinar-nos o que é ser mulher,

Despertando-nos adolescentes paixões

Elas são únicas em si e sempre as mesmas

Dividem-se quando só

Multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
Mulatas de alisados loiros
Ruivas com tingidos castanhos
Cafuzas de trançados negros
Estéreis e felizes; férteis e entristecidas
Sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
Mulheres policiais, guardas e sargentos
Mulheres soldados rígidos
E delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

Um mesmo desespero quando em desamparo

Sem um irmão, sem um filho, sem um pai

Sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
A velha virgem num leito de morte
Sonhando-se no altar à espera do noivo
Cortam nas maçãs de seu rosto
Duas lágrimas e explodem na cama
Como se arrebentam no mundo
Estrelas desprendidas do Céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
Pechinchando e fazendo compras
Com seus corpos __ velas de cêra
Cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e Religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
Na estação do trem e do Brt
São despejadas aos milhares:
Brotos e botões
Expansivas e acanhadas
Murchas e desabrochadas
Verdes e “de vez”
Maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

De rancor e arrependimento

Confundiu um caso passageiro

C’o  homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
De corações aos vômitos
Pelo ópio das ideologias
Invertem Romeus em Rômulos*
E sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

Com diferentes almas

Corpos e espíritos;

Com parecidas origens

E semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
Por uma única mulher,
Já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única
Não vale à pena trocá-la por Outra
E nem às outras é justo enganá-las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

       ***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

Lúcio de Mendonça

Crítico comenta sobre poeta da nova geração

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O que eu dizia em 1878 a este poeta, dizia-o em 1872 ao auctor das Nevoas matutinas. Não dissimulei que havia a sua primavera mais folhas pallidas que verdes; foram as minhas próprias expressões; e argui-o dessa melancolia prematura e exclusiva. Já lá vão sete annos. Há quatro, em 1875, o poeta publicou outra collecção, as Alvoradas; explicando o título, no prólogo, diz que seus versos não têm a luz nem as harmonias do amanhecer. Serão, accrescenta, como as madrugadas chuvosas: desconsoladas, mudas e monótonas. Não se illuda o leitor; não se refugie em casa com medo das intempéries que o Sr. Lucio Mendonça lhe annuncia; são requebros do poeta. A manhã é clara; choveu talvez durante a noite, porque as flores estão ainda humidas de lagrimas; mas a manhã é clara.

A comparação entre os dous livros é vantajosa para o poeta; certas incertezas do primeiro, certos tons mais vulgares que alli se notam, desappareceram no segundo. Mas o espírito geral ainda é o mesmo. Há, como nas Névoas matutinas, uma corrente pessoal e uma corrente política. A parte política tem as mesmas aspirações partidárias da geração recente: e aliás vinha já de 1872 e 1871. Para conhecer bem o talento deste poeta, há mais de uma pagina de lindos versos, como estes, Lenço branco:

Lembra-te, Anninha, perola roceira

Hoje engastada no ouro da cidade,

Lembras-te ainda, ó bella companheira,

Dos velhos tempos da primeira idade?

Longe dessa botina azul-celeste,

Folgava-te o pézinho no tamanco…

Eras roceira assim quando me déste,

Na hora de partir, teu lenço branco;

ou como as deliciosas estrophes Alice, que são das melhores composições que temos em tal genero; mas eu prefiro mostrar outra obra menos pessoal; prefiro citar A família. Trata-se de um moço, celibatário e prodigo, que sae a matar-se, uma noite, em direcção do mar; de repente, pára, olhando atravéz dos vidros de uma janella:

Era elegante a sala, e quente e confortada.

À meza, junto à luz, estava a mãe sentada.

Cosia. Mas além, um casal de crianças,

Risonhas e gentis como umas esperanças,

Olhavam juntamente um livro de gravuras,

Inclinando sobre elle as cabecinhas puras.

Num gabinete, além, que entreaberto se via,

Um homem __ era o pae __ calmo e grave, escrevia.

Enfim uma velhinha. Estava agora só

Porque estava rezando. Era, de certo, a avó.

E em tudo aquillo havia uma paz, um conforto…

Oh! A família! O lar! O bonançoso porto

No tormentoso mar. Abrigo, amor, carinho.

O moço esteve a olhar. E voltou do caminho.

Nada mais simples do que a ideia desta composição; mas a simplicidade da ideia, a sobriedade dos toques e a verdade da descripção, são aqui os elementos do effeito poético, e produzem nada menos que uma excelente página. O Sr. Lucio Mendonça possue o segredo da arte. Se nas Alvoradas não há outro quadro daquelle genero, póde havel-os num terceiro livro, porque o poeta tem dado recentemente na imprensa algumas composições em que a inspiração é menos exclusiva, mais imbuída da realidade exterior. Li-as, á proporção que ellas iam apparecendo; mas não as colligi tão completamente que possa analysal-as com alguma minuciosidade. Sei que taes versos formam segunda phase do Sr. Lucio Mendonça; e é por Ella que o poeta se prende mais intimamente á nova direcção dos espíritos. O auctor das Alvoradas tem a vantagem de entrar nesse terreno novo com a forma já trabalhada e lúcida.

Crítica Literária, a nova geração: sobre o poeta Lucio de Mendonça. Revista Brasileira, II, 1879.W.M. Jackson Inc. Editores, São Paulo, 1938. Págs. 240 a 243. Joaquim Maria Machado de Assis.

 

 

A alma du’a mulher na beira do rio

A alma du’a mulher na beira do rio

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História contada por habitantes da cidade de Leandro Ferreira/MG, numa região próxima à fazenda conhecida como “Fazenda do Souza”, isso por volta de 1955. Voz da gravação: Dulce Francisca Lopes Cançado Lobato.

Coração de pai

Coração de pai

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

M3367S-4507

CERTA feita, um texto meu foi criando rabo. Eu fiquei meio sem saber o que fazer. Deixei-o dentro dum caderno, sob outros cadernos, livros e apostilas. Com o correr do tempo, resolvi procurá-lo. Achei. Havia já perdido o rabo e criado pernas. Aquilo me estarreceu completamente. Assombrado deveras fiquei quando me percebi focado por um punhado de olhinhos. Cada letra “o” era um. Aspas eram cílios. O diabinho desgramou a pirraçar. “Contraíra doença de livros”, pensei, “ e agora?”

Patinhas como as dos antiguíssimos peixes não se demoraram. Teve a quem puxar quanto as orelhas. Eram idênticas às das minhas agendas; e quão idênticas! Testa quadrada, estilo margem superior de papel almaço; e a pele meio que com rugas de papel reciclado artesanalmente.

Verdadeiro espetáculo da evolução gráfica. Seu engatinhar era a coisa mais linda, a vontade de caminhar nem me falo: passos trêmulos sobre a pauta. “Que lindinho!”, diria algum tio solteirão.

Fez golfar alguma tinta. Pirraça. Fez sem vontade, quase não fazendo, e disparou – ao que me pareceu – a rezar idéias. “Donde vêm suas prévias concepções?”, perguntei-me. “Donde vêm? Poucos objetos ao seu dispor, quase nada familiarizado com sons ou sinais, nem tampouco com arranjos e convenções. Como pode isso gente?!”. Não era possível. Não poderia haver naquela criatura nenhum pensamento. Talvez alguma longínqua memória de outras encarnações, isto é, “encadernações”.

Veio à hora em que ele se atreveu. Deu para falar – pelas entrelinhas – disparates jamais ensinados por mim. O bichinho foi crescendo e a coisa se complicando.

Deixei aquelas jabuticabinhas mágicas olharem-me por algumas noites. Não conseguia acreditar no que tinha inventado ou no que havia permitido inventar-se. E a cria foi necessitando criação, correção e, é claro, outros companheiros textuais. Pedia argumentos contrários a fim de se debater, de se repensar. Repetia em defeituosa dicção e de maneira infeliz: “_Sinto-me inadequado, principalmente quando sonho com meus antepassados. Fico sem assunto às vezes.”

Senti o amor e a compaixão que se dá entre pai e filho. Tinha a obrigação de recuperar a dignidade do meu rebento.

Desesperado, eu recorria aos esquemas e mecanismos e técnicas. Ordenava ao tubo cilíndrico da caneta, contudo não havia mais carga. Em pouco, a esfera não deslizava ao campo branco. Eu chacoalhava, esquentava o acrílico e nada; e soprava pela tampa, e outra vez nada. Cheguei a ver, mediante a translucidez do tubo, algum vestígio de letras. Pura ilusão! É essa coisa do operário ver no instrumento alguma esperança de trabalho.

O filhote me dizia: “Eu não pedi pra nascer!”. Eu respondia de chapa: “Não valeu à pena trazer-lhe à luz da página! ”. Passamos a andar a tapas e aos cuspes. Teria eu de parar por ali mesmo. Então eu disse por fim:

“Respeita seu pai, menino! É uma coisa ou outra: ou você volta para entre os maços da gaveta, ou vai morar na rua! ”

Página 101 – Conto

Página 101

 lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

fotografia: Charles Tôrres Charles_Tôrres_fotografia

Havia sonhado com a ressurreição de Cristo. Às 06:45 da manhã tomou o ônibus, debitou o valor da passagem no cartão magnético, passou pela roleta e sentou-se num dos bancos que deixa passageiros uns de frente para os outros. Batom rosa e leve maquiagem. Mas o franzido na testa não conseguiu tirar. Carregava também na cabeça um programa policial de televisão que seus familiares assistiam. Encaixou o fone no ouvido e o rádio sintonizou aleatoriamente uma estação de noticiário alvissareiro. Procurou músicas, mas a conversação dos passageiros e o barulho do trânsito impediam a audição. Cumprimentava os conhecidos com um sorriso brando, tímido. Tirou o livro da bolsa e abriu na página 101. Tentou ler e não conseguiu. Fechou o livro. Fechou também os olhos e se pôs a pescar um cochilo. Acabou pescando, em seu rio de preocupações sonolentas, a pura realidade. Chovia já por semanas. O vidro sujo da janela do ônibus embaçado e manchas de imagens lá fora. As janelas fechadas, um braseiro. O ônibus era uma imensa lata velha de sardinha aquecida. A tarifa havia sido aumentada em 5,17% dias atrás.

Em sua pescaria de realidade e falas cruzadas dos outros, o rosto envelhecido de uma senhora, vociferando não só com a boca banguela, mas também com os ombros: “por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém a sua vida.” A velha falava e fazia caretas. Sem muita demora, uma freada brusca interrompeu o instante. Um grito de filho da puta motorista despertou o cochilo. Outra frase, “ô motorista, cê num tá carregando cavalo não sô, cê tá carregando é gente” trouxe por fim a sensação de alerta. Ela se recompôs. Abriu melhor os olhos e reconheceu onde estava. Estava em mais uma viagem de casa para o trabalho, uma hora e meia de viagem, viagem que fazia desde seus 15 anos, quando começou a trabalhar como office-girl. Já fazia 16 verões de muita trabalheira, aquele percurso diário, de segunda a sábado.

Apesar dos sustos das freadas e dos gritos, ela conseguiu segurar o enunciado na mente. “Por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém sua vida”. Foi repetindo no pensamento até desembarcar no centro da cidade.

No centro de BH, tudo lhe passava rápido e assustador. Os vendedores ambulantes, os vendedores nas portas das lojas e suas cantadas grosseiras: “nossa que trem gostoso; oi morena, tá delícia hein?” O cheiro de maconha na porta do café Nice. As mulheres penduradas em bolsas, os carros acelerando e freando no asfalto como se lutassem num tatame, os aposentados jogando xadrez, os batedores de carteira, os estelionatários, pregadores protestantes, tudo lhe queria desviar para outros mundos, explodindo em seus ouvidos que a vida seria mais difícil ainda.

Mas aquele imperativo de não dar sua vida a ninguém chegou tarde. Ela já tinha se entregado a ele. Casados já havia cinco anos. Um casamento frio sem traição nem filhos. E nos seus 34 anos ela sempre ouvia dele que não queria filhos. E seio sem filho seca. No entanto, ele uma vez e outra dizia que já tinha o carro, e que era como ter um casal de filhos, em termos de despesas. Ele dizia isso sem se dar conta da alma materna dela, igualando criança a carro em tom humorístico, achando-se criativo até. Nos finais de semana ele só fazia lavar o carro, dar uma voltinha no bairro, bater uma peladinha, tomar uma cerveja com os amigos, almoçar, cochilar, assistir futebol e dormir. No boteco perguntavam: “não vai arrumar um meleque não, véi?” “…que isso, nêgo, agora não posso arranjar outro menino, já tenho o Pretinho que me dá muito gasto”, ele respondia apontando para o Uno preto 4 portas.

O carro estava no nome dele, só ele dirigia. Porém custava mais a ela. A esposa era quem pagava as prestações e o seguro. Afinal ganhava quase três vezes mais do que o marido. Ela ia trabalhar todos os dias de ônibus. Ele ia com o carro. Não dava para levá-la ao serviço, pois a empresa em que ele trabalhava era do lado oposto ao centro da cidade.

Ela cansada daquele desânimo maquinal e automático. Uma vida sem viagem de lazer, sem clube nem festas, sem “um pulinho de cerca”, sem pimenta, e o pior de tudo: sem filhos. Estava cansada e insatisfeita, mas não dizia a ninguém, não desabafava, e o pior de tudo é que ninguém reparava na situação. Ninguém, nem seus pais, irmãos, amigas, colegas de trabalho, o marido muito menos.

Quando ia à casa de seus pais, só ouvia conversas sobre dinheiro, ganhar dinheiro, conseguir comprar isso e aquilo, adquirir, investir. A economia do país estava forte. Prosperava até o mercado de venda de cofres caseiros contra as instituições bancárias. E ele, o marido, entrava na roda e debatia com os cunhados sobre o mercado de veículos, sobre salários e classes, “quanto ganha um motorista de ônibus, quanto ganha um corretor de imóveis, um pedreiro autônomo etc.”. Ela ficava na cozinha com a mãe. As duas tão atarefadas que nem tinham tempo de falar sobre a vida. Ela sentia-se com sua vida entregue. Com sua vida, seu suor e seu corpo entregues. Só lhe restou, por inteiro, a alma, onde guardava às escondidas todo seu sofrimento. Pensava ter cometido o pior erro do mundo, como disse a velha loira desdentada durante a viagem dentro do ônibus.

Ele ia poupando seu salário, planejando trocar de carro pelo menos de dois em dois anos; ela seguia sustentando a casa e engolindo a seco o resto de vidinha que lhe sobrava. O salário dele era só dele, mas o dela era dos dois: eis o mais valioso segredo da intimidade do casal. Autêntica sociedade conjugal por detrás das cortinas da formalidade. Ela não desabafava com ninguém. Não por medo ou insegurança, mas porque não era mesmo de conversa. Além de tudo detestava alugar os ouvidos dos outros. Tinha preguiça de enfrentar a cara de desdém das amigas e ao final ouvir o vago conselho de “pede o divórcio ou mete um chifre nele”. Se elas soubessem o quanto ele cozinhava não diriam para acabar o casamento. Na verdade, tinha preguiça – e não medo – de chutar o balde e ter de criar asas, achar novos ares, construir novo ninho e buscar felicidade. E como se não bastasse, foi ela quem entregou a mão em casamento, antes mesmo de o noivo pedir. Desmanchar casamento é fácil, difícil é recomeçar sozinha uma vida de divorciada, ela pensava cautelosamente.

Morria de inveja de Josiane, sua amiga. Josiane era mãe solteira, viajava, deixava o filho com os avós e curtia a vida. Vestia Índia, fazia quantas tatuagens vinham-lhe na cabeça, trocava de ficante quando lhe convinha. Brincava com o corpo e com o coração, praticava Kama Sutra (sem cama). Foi Josiane quem lhe aplicou a linha do pensamento da “Biografia Humana”, uma forma de compreender a vida com base no passar de 7 em 7 anos. E ela se aproximava dos 35: cinco vezes o sete.

Era muita coincidência. Aos sete anos foi adotada, aos 14 perdeu a virgindade, aos 21 deu o primeiro verdadeiro beijo. Aos 28 se casou. Aos trinta e cinco aconteceria um novo marco.

Nessas alturas, naquele secreto e inconfidente desconforto, ela carregava um desejo macabro. Uma saída vinda dos desígnios do destino: ficar viúva por uma fatalidade. Ficar viúva lhe seria uma salvação sem culpa. Desejava que ele morresse e assim poderia recomeçar a vida, recuperar sua liberdade com mais alívio, pois a alma do marido estaria no além, sem lhe perturbar, sem lhe causar remoço. Mas ao mesmo tempo em que pensava e desenhava esse desejo esquisitão, algum arrependimento vinha na fantasia. Por mais que ele fosse superficial e estúpido, era carinhoso, meio meninão mimado, mas de atitude, muitas vezes prestativo e um bobão alegre que valesse à pena. Tinha um coração egoísta, porém atitudes de pai protetor.

O mais doído era quando ouvia a gratidão da sogra: “graças a Deus meu filho achou você, uma mulher certa, que cuida dele melhor do que eu”.

Chegou finalmente o dia. Ele se acidentou quando dirigia seu carro-xodó. O veículo se perdeu totalmente e por azar o seguro tinha acabado de vencer; estavam para renovar, mas não deu tempo. O prejuízo foi grande. Permaneceu o motorista por 20 dias na UTI. Ficou naquele vai ou não vai. Morre ou não morre. Ela andava pelos corredores do hospital entre cigarros e cafés, pensando em sua liberdade sem culpas, olhando a dor da família do marido, ouvindo as rezas, calculando o custo do velório, sofrendo antecipadamente o luto e gozando mais à frente sua viuvez desimpedida, depois de passado a dor da perda.

Então veio o pior. O homem sobreviveu, e paraplégico. Para todos foi uma dádiva das graças de Deus. As próximas palavras da sogra lhe cairiam como um fardo muito maior: “agora, minha filha, ele vai precisar de você como nunca, por tudo que ele te fez, eu peço que tenha paciência e perseverança para redobrar os cuidados com meu filho que sempre lhe foi um bom marido”. “Bom marido o quê, esse filho da puta me explorou o tempo todo; o tanto de bom que ele me foi era para ganhar de volta o meu suor”, ela cuspiu na mente.

Dali para frente ela passou a ser – a um tempo só – esposa sem filhos, mulher sem sexo, dona de casa, arrimo de família e enfermeira. Carregava-o até o banheiro, empurrava o cadeirante, acalmava os pesadelos. Ouvia as injúrias do injustiçado nos seus momentos de mal com Deus. Uma hora e outra a incapacidade do infeliz o fazia revoltado e desgostado da vida.

Foi um dia, numa daquelas suas viagens de ônibus do trabalho para a casa que ela retomou a página 101 do livro que havia fechado há tempos. Na décima quarta linha da página lia-se uma frase que ela guardou para si e não confessou nem mesmo ao mais íntimo pensamento. A frase morreu no silêncio de sua leitura…

Dias depois, num tempo nublado, quando os dois passeavam pelo parque municipal, ele colheu uma flor. Entregou a ela junto de um beijo na testa. Os dois choraram ali uma chuva de emoções que até mudou o tom do canto dos passarinhos, se abraçaram e continuaram juntos e tristes. Nasceu ali um novo casamento.

Até que depois de algum tempo a morte dela, por estafa, os separou aqui neste mundo. Ele viveu mais uma semana antes de também falecer. Alguma vizinha espalhou a superstição de que ele, mais veloz do que seu carro-xodó, voou atrás da alma da esposa. Uma senhorinha mais entendida atrapalhou o mistério: “…nada boba, morreu atrás por causa de desgosto mesmo. Essa coisa de dizer que uma alma persegue outra é imaginação que o povo toma emprestado dos livros.”

Cristiano Lopes Cançado de la Rocha, escritor e compositor de Santa Luzia/MG. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ); EP-Cristiano em 2016 [Epopéia do Cidadão Geral e Cancioneiro Urbano Montanhês] em 2017 e  atualmente publica textos aqui no Pingo de ouvido.

Visite o site do fotógrafo Charles Tôrres : http://www.bhumafotopordia.com/