Uma noite nos bares

Uma noite nos bares

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Nessas horas que sinto falta dos chateados que não me ouviam. Aqueles que em meio de nós viviam reclamando do tal consumismo. Não há mais sentido para essas reclamações, pois sumiram os empregos, a renda, o crédito e o dinheiro em espécie. E a praça está pobre também em outros sentidos.

Não há mais mesas floridas de garrafas grandes onde os bebedores compartilham com copos lagoinha (americanos). Agora cada um com sua garrafinha individual. Ninguém confia em ninguém para dividir a conta. Ao perguntarmos por que não se divide mais as garrafas grandes, a desculpa vem aos farrapos: “ a garrafa grande esquenta na mesa”. Ora, esquenta porque não se oferece um copo ao próximo. Se não há oferta, não há partilha; se não há partilha, não há conversa. As crises silenciam os homens.

Os serrotes de longe já são rejeitados. E os pães duros que não doam nem sequer um cigarro se apoiam na impaciência. Aliás, é muito valiosa a paciência dos injustiçados que perderam sua felicidade por entre as falsas ilusões políticas e econômicas.

Mas aqui e acolá pipocam uma e outra discussão calorosa da noite. Divergências sobre noticiários e preferências, desentendimentos, velhas rixas de paixões clubísticas, incompreensões, denúncias de acusações, acusações de denúncias. As comidas e os tira-gostos, com ingredientes mais em conta, vão convencendo os paladares já esquecidos de tempos melhores. As mãos carinhosas que preparam as refeições e o sorriso alegre atendendo sem nenhuma depreciação. A esperança ainda está viva na boa intenção da capacidade humana.

Triste é ver a rapaziada das antigas como animais noturnos, revirando lixeiras, implorantes pedintes do comércio de narcóticos; espiritualmente em guerra com Deus e suas famílias. “Como vai seu pai que há muito não vejo no ônibus da integração das oito e quinze? ”, eu pergunto. O filho, drogado, ignora a pergunta e vem logo me contar a vantagem dum suposto padrinho malvado e assassino cruel. É dependente não só químico como existencial, coitado.

Que doces bárbaros libertários e sensíveis poderiam prever uma situação dessa?

bares

Raimundo de Farias Brito-Brasileiro filosófico

Pensador singular brasileiro, Farias Brito propôs uma filosofia do Espírito não reducionista sistematizada em seu livro O Mundo Interior.

via O mundo interior de Farias Brito — Ensaios e Notas

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida- Crítica

 

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida

 Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

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Já são muitos os analistas e comentaristas sobre tudo. Até gosto de ouvi-los. E depois fico pensando, dou uma volta na vida lá fora e venho aqui escrever.

São verdadeiros caminhões de conhecimentos que vão sendo despejados nos buracos da rede mundial de computadores. Quem não calcula o desaterro se complica no aterro. Se não delimita o espaço, o mundo nos parece mais vasto do que é.

E só podemos abraçar um amor de cada vez. Mas as paixões são tantas que o conteúdo escapa ao contentor e se precipita no desperdício. Derramam-se as opiniões, explicações, curiosidades, exposições inúteis e o pior de tudo: as… fa-ci-li-ta-ções! Quanto mais se facilita menos se compreende e menos gôsto tem o aprendiz. Os facilitadores escondem as fontes saudáveis, os tratados, os métodos, as didáticas e os manuais consagrados. Fecham as possibilidades de arranjar a razão, o coração e o espírito de quem busca. O máximo que dão é uma referência aqui e outra ali. Exaltam o acúmulo de experiências e vivências, coisa que tem lá sua importância, mas não é nada sem o essencial.

Que esconder os tratados, os métodos e desestimular a disciplina sempre foram táticas dos governos e empresas de instrução e treinamento todos nós sabemos, mas logo nossos internautas “influenciadores” ___ esses que sonham sociedade melhor ___ negligenciarem o fato e ainda contribuírem para  esse mal!?

O aterro é útil para nivelar os espaços e aproveitar a superfície. Mas a edificação se sustenta pela estrutura de fundação cravada na terra boa e natural. A fundação é na casa o que é a raiz na árvore. A casa forte proporciona lar saudável e oferece à família e à comunidade bons filhos. A isso corresponde a raiz robusta e a árvore firme com suas belas flores e bons frutos.

Para o estudante, a “terra natural ou pouco remexida” sãos as fontes primevas, os tratados, os métodos, os manuais úteis, os clássicos consagrados. Essa argamassa duradoura e bem dimensionada, esses moldes elaborados pelos primeiros homens que levantaram a civilização não podem ser substituídos por avalanches de teses, monografias, biografias, ensaios, artigos, citações intertextuais, nomes famosos, opiniões emotivas e conteúdos gerenciados por ideólogos a serviço de bestas poderosas…

Será justo esconder nossos tesouros em nome da fama pessoal, da exposição contínua ou em nome da miséria que a World Wide Webe  e a Google remuneram? Façamos essa pergunta aos internautas empenhados em contribuir para nossa inteligência.

contato@pingodeouvido.com.br

Rudimentos ferrorama – poema

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Rudimentos ferrorama

Rudimentos ferrorama

lopes al’ Cançado rocha, o Cristiano

§

certeira     no  comportamento

máquina                            essa

no     tom  tamanho   e     traço

correta em organização de fila

§

coisa      gigantesca           essa

suga vomita dança     equilibra

trazendo bonecos adolescentes

em sua    empoeirada       crista

§

ente          absoluta           essa

centopéia da vila      de pedras

por entre morros ziguezagueia

e        vem    repetindo  preces

§

essa     conjunto   de     gomos

a vagar em     escada   deitada

longa   escada de       estações

e patas doces calçadas  a tênis

§

piolho de   cobra    sem      pés

a carregar gravatas e capacetes

paralela ao rio que ainda desce

com peixes banhados de caliça

§

potente    mortífera  e metálica

o rio surpreendentemente vivo

escorregando     desgovernado

selestrepe        e           desaba

§

solitária                    engomada

sob      o     arco    de        fogo

fraco      leão    de            circo

domado       pelo         pescoço

§

lingüiça        amarra-cachorro

prontíssima     para         partir

sempre     prestes    a    chegar

leva      pessoas    e       cargas

§

que sujam  almas e   dinheiro

jactante   tal  qual     esperma

a     centopéia     sem   pernas

ou então de    rodas   cobertas

§

máquina   de    bocas destras

lábios  frondosos  de choque

andamento    de   um andante

timbres    típicos     do   rock

§

passam-na     para  a     música

na foto     sua luz     é     rouca

estática        nesta          última

dinâmica       naquel’      outra

§

tão exposta e   sem      arranhão

corpo absoluto   e     perfurador

lábios prontos    para o    baque

conforme  delega  seu   interior

§

enfia-se   por     vários     túneis

os     quais      a        regurgitam

rasga  o    horizonte   pela   raiz

esse   enorme  colar  de   tonéis

§

vem  vindo   cuspindo   em tudo

“nem  que  taque nem   que taque”

Diz  essa tal   máquina     essa

ao infante com pedras em punho

  §

serpente  há    tempos   aleijada

nem asas nem proa nem hélices

engolidora    de diversas gentes

tolôsco quilométrico  de   fezes

§

encurva      enverga       taquara

de barriga para cima espelhada

num leito de pedras e cascalhos

navega       tranqüila   e deitada

§

orquestra     de ranger de rodas

repete      tempo    e    percurso

o das onze e     o das sete horas

os mais conhecidos    números

§

máquina   decisiva   e    dúbia

caminho   em      formato de y

trechos em obras e concluídos

previsível    em    cada   curva

§

segundo normas    do império

suporta    toneladas   por eixo

otimizada         na         tração

na    performance   e potência

§

saudades    de   seu   chocalho

o    apito     aviso           antigo

sempre      foi      bem    vindo

o    quinhão   dos assalariados

§

plantadora     de         cidades

rastejando     quem        diria?

trouxe                  pagamentos

pensões     e     aposentadorias

§

todos     que    a     esperaram

relembraram      a   revelação

“era   aquilo              mesmo?

era       mesmo          aquilo?”

§

sua   porção   então acidentada

aos   cuidados   do    tecnólogo

e aos         olhos aqui do poeta

está   sua   parte      imaginária

§

máquina   geralmente  grávida

de  grãos   bobinas   e    barras

em   gestação   meio    inversa

com    bolsas   e berços de aço

§

reduzida   em   custos desgastes

diária     preventiva   e   rodante

suplementada   de componentes

baba demanda e disponibilidade

§

fizeram-na    uma    estrela pop

ei-la   numa    foto   estampada

duma    revista    especializada

revestida   nua  ou  desmontada

§

rotulada      datada   e    batizada

com nomes de mulheres rodadas

e   pioneiras   agora   respeitadas

carmens mirandas  embananadas

§

vassoura  sem   cabo   e  vertical

sulcando   a   poeira   do   sertão

fazendo-me  construir    estrofes

como se cada fosse um vagão

§

as sandálias vistas   do    alto

parece     um   enorme   verso

repetitivo    visual    e    bobo

com única palavra: progresso.

e-mail: lopeslarocha@gmail.com