DA FILOSOFIA TÉORICA (E CONTIDIANA) À CULTURA LITERÁRIA E FILOSÓFICA EM GERAL – Entrevista Especial com Fernando Santos de Jesus

Fernando Santos de Jesus é doutor em educação e autor dos livros “O negro no livro paradidático”, “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” e “A radiografia de um Brasil que agoniza. ” Numa histórica interlocução, eis o registro de um estudioso respondendo às perguntas que angustiam as preocupações nacionais.

História e escravidão aqui. Em que medida podemos confiar na contribuição da Quarta Carta de Erasmo (1867-1868), escrita por José de Alencar ao Imperador, em que ele trata da Emancipação dos escravos brasileiros? Muitos interpretam que o nosso maior mestre literato defendeu, irracional e incondicionalmente, a continuidade do opressivo instituto. Gostaria de saber de sua interpretação.

Temos aqui um tema bastante espinhoso, sobretudo porque põe em xeque a credibilidade do expoente da literatura nacional enquanto pessoa. José de Alencar foi o homem que deu o pontapé inicial para uma identidade nacional, já que transitava pelo romance indianista, pelo regionalismo e pela vida cotidiana da cidade, fornecendo para os seus sucessores um rico panorama sobre as vozes do povo no período colonial brasileiro.

É importante também destacar que ele se posicionava contrário a influência política da Inglaterra sobre o Brasil, pois acreditava na autonomia do império e era protecionista na economia. Suas cartas ao imperador D. Pedro II criticava a decadência do império e sinalizava preocupação sobre aquilo que o Brasil poderia se transformar após sua queda, com uma nova formação da identidade do povo e uma dinâmica produtiva articulada com interesses externos. José de Alencar é considerado reacionário por desconsiderar as transformações do pensamento social e político de sua época, conservando o sentimento de posse dos negros escravizados como um ativo financeiro.

Nesse sentido, o literato e advogado enxergava-os como um bem nacional, protegidos pelo sistema que não os punha a toda sorte de uma vida sem as garantias dadas pelos seus donos. Poderíamos levar em consideração que se tratava de um pensamento de época, caso não houvesse um debate instaurado, onde ideias diametralmente opostas se apresentavam e demonstravam equívocos na maneira de pensar defendida por ele. Este é o caso de vários abolicionistas contemporâneos de José Alencar.

Todavia, neste complexo emaranhado de ideias, o fim do regime de fato trouxera resultados desastrosos para os negros, inseridos numa nova dinâmica que a longo prazo agudizou os problemas sociais e econômicos do país. Isto quer dizer que a defesa de José de Alencar ao regime escravocrata não se justifica sob o ponto de vista humanitário, mas a soma de suas ideias, como a salvaguarda dos interesses econômicos nacionais e a manutenção da ordem moral interna, devem ser considerados como pontos positivos na observância geral dos desdobramentos da abolição, sobretudo porque gradativamente pôs os negros em outra modalidade de escravidão, ou seja, aquela mediada pela dependência do Estado, para o benefício de grandes globalistas e órgãos multilaterais.

Grosso modo, podemos dizer que é condenável a defesa do regime escravocrata, por parte de José de Alencar, mas que as suas críticas poderiam ter constituído um bom aprendizado para adequação dos métodos da abolição e das medidas a serem adotadas imediatamente a sua efetivação.

Bom, na minha interpretação considero o Mestre Alencar um abolicionista, mas que temia, natural e humanamente, vinganças sangrentas. Segundo o poeta, pesquisador e antropólogo Antônio Risério (2012), a FNB – Frente Negra Brasileira chegou a Minas Gerais. Como a Frente teria atuado por aqui? Você saberia de alguma pesquisa entre os mineiros a respeito?

A fim de manter a fidedignidade da entrevista, não me lancei a nenhuma pesquisa posterior ao questionário, tanto para não lhes passar informações rasas, quanto para preservar o que tenho de conhecimento sobre o assunto, ou seja, deixo claro que o meu volume de informações a respeito desta pergunta está limitado ao trivial.

Até onde sei, os mineiros que aderiram a FNB se mantiveram fiéis aos princípios norteadores de fundação, e em Mina Gerais o movimento se encerrou pelos mesmos motivos que levara o núcleo nacional a encerrar as atividades. A despeito disto, é importante registrar que há um estudo de caso sobre o negro no Estado de Minas Gerais, cujo tema é “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, publicado na década de 1940 por Aires Machado. Todavia, este livro não menciona a FNB.

Da mesma forma, o livro “O Negro no Pará”, de Vicente Salles, publicado em 1971, é uma obra chave sobre a as contribuições dos negros na formação cultural da Amazônia, e ele surge muito após ao declínio da FNB sem deixar vestígios sobre a atuação deste grupo naquela região. Estes livros são importantes para revelar que em todo o Brasil e no decorrer da nossa história, houve organizações negras inclinadas para o pleito por cidadania para este grupo étnico, ou seja, independente da Frente Negra Brasileira, que se tornou o primeiro grupo organizado enquanto movimento social brasileiro, outras pequenas agremiações negras, menores e voltadas para interesses mais específicas, existiram em diversos Estados brasileiros e reivindicaram, cada um à sua maneira, reconhecimento, combate ao racismo e tratamento igualitário.

Minha sugestão para os leitores que queiram conhecer a história dos movimentos negros, é que, além do meu livro, leiam as obras de Amauri Pereira, Joselina da Silva (que foi minha orientadora de doutorado), Petrônio Domingues, Nei Lopes, Clóvis Moura e Antônio Risério. Estes autores darão um bom panorama acerca da temática, mas os seus escritos jamais devem ser considerados portadores de verdades absolutas, pois em meio aos escritos há informações imprecisas e análises orientadas segundo interesses pessoais, coletivos ou embebidas por tendências epistemológicas e ideológicas dos contextos os quais estiveram inseridos.

Com quantas pessoas explicitamente racistas você já teve o desprazer de esbarrar durante toda a sua vida?

Nunca parei para contar, mas o número é infinitamente ínfimo se comparado com a quantidade de pessoas boas as quais me relacionei ou tive contatos corriqueiros. O menor problema na vida do negro é o racismo, que quando acontece, é de forma episódica.

Há milhares de pessoas negras no mundo e a maioria delas nunca sofreu racismo. Grande parte delas sabe que ele existe, mas não faz ideia de como reagiria se fosse vítima de um ataque racista. As pessoas que vivem em função de descortinar uma atitude racista ou expor um sujeito por uma atitude supostamente racista, está embebida da ideologia “antirracista”, cega pelo ininterrupto ímpeto militante, é incapaz de perceber e reconhecer que os problemas cotidianos que afetam igualmente todas as pessoas, não possuem nenhuma articulação ou referência às questões raciais.

Vou te contar um fato; há alguns anos, talvez no ano de 2012, eu fiz uma viagem ao Estado do Pará em um voo noturno direto do Rio de Janeiro e no meio do caminho uma pessoa começou a passar muito mal. Via-se os esforços e a intensa preocupação da tripulação em resolver o problema. Diante das dificuldades de ordem técnica, da cabine do piloto foi solicitado que se caso houvesse um médico a bordo, que se identificasse. Em um voo noturno as pessoas costumam dormir, ouvir música com fone de ouvido ou se ocupar de outros passatempos. Por este motivo, as comissárias de bordo estavam perguntando de poltrona em poltrona se haviam médicos nos assentos. Passaram duas comissárias por mim e nenhuma delas me perguntou. O passageiro foi medicado por um profissional de saúde não médico, melhorou um pouco e desembarcou em Belém.

Quando voltei ao Rio de Janeiro relatei o ocorrido para alguns colegas que cursavam o mestrado comigo na época, sinalizando sobre o quão prejudicial é para todos, o apego aos estereótipos sociais, e que eu poderia ser um médico e surpreender a todos, porém, pela ética profissional e não por uma resposta ao imaginário engessado daquela equipe especificamente. A maioria dos meus colegas acharam um absurdo, alguns disseram até que eu deveria me insurgir contra a companhia por racismo.

O fato é que eu não resolveria o problema, já que não sou médico, e qualquer indagação naquele momento poderia deixar as pessoas ainda mais nervosas diante da urgência. Embora tenha sido uma situação que demonstre despreparo da equipe – que não estão ali para interpretar ou julgar, sim para servir e tentar resolver os problemas decorrentes dos passageiros durante o voo, e isso requeria perguntar a todos, sem distinções –, não encarei de forma negativa e passou longe de mim ver aquelas mulheres trabalhando para salvar uma vida, como racistas. De fato, o número de médicos negros é menor do que o de médicos brancos, mas este é um outro debate.

Em sala de aula com Prof. Mauro Rosa

E instituições declaradamente racistas? Clubes sociais, de lazer, por exemplo, já foram identificados por aí, no Rio, em décadas passadas?

Ao longo da história há diversas acusações documentadas contra bares e restaurantes, ao passo que na maioria dos casos os estabelecimentos não precisam sequer fundamentar uma extensa defesa, já que a sua própria composição étnica é observável através do quadro de funcionários e pelo público frequentador, abrangendo todas as raças e tipos sociais.

Há dois anos um Moto Clube teve uma sede fechada por propaganda nazista. O caso aconteceu na zona Norte da cidade RJ. Lá foram encontrados vários artefatos contendo suásticas, drogas embaladas e material pornográfico. Coincidentemente o presidente daquele núcleo fazia musculação na mesma academia que eu e costumávamos conversar durante o treino. O rapaz nunca apresentou nenhuma antipatia comigo ou com os demais alunos negros. Para completar, ele é filho de nordestinos e o seu irmão é homossexual.

Nesta mesma agremiação há negros, orientais, mestiços e a orientação sexual dos sócios pode ser dissimulada por eles como estratégia de pertencimento. Registrado o fato, não houve indícios de que em outras filiais estejam armazenados utensílios que aludem ao nazismo. A contradição revela pelo menos duas possibilidades: A) Naquele núcleo poderia estar prevalecendo o alinhamento ideológico de um único membro, ou a de um grupo de membros, mas não de sua totalidade, e pode ser que a denúncia tenha partido desde dentro; B) Se havia consenso entre os participantes, então temos a certeza de que grupos étnicos e raciais diferentes dos brancos, podem ser racistas, inclusive contra “sua própria raça”.

Se levarmos em conta este exemplo, teremos então um oceano de perspectivas sinalizando que a hostilidade racial pode partir de funcionários, ou dos donos, de diversos estabelecimentos, o que não reflete necessariamente num ordenamento institucional, mas a conduta da pessoa. Se assim não o fosse, teríamos instituições sabidamente racistas, contrariando os princípios constitucionais e com punições diretas e baseadas nas leis vigentes.

Às vésperas de responder esta entrevista houve um caso de xenofobia no bairro da Lapa, região central da cidade do Rio de Janeiro. Um restaurante, cujo dono é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, fixou uma placa advertindo que israelenses e estadunidenses não seriam bem-vindos ao estabelecimento. O caso foi parar na justiça, os donos foram obrigados a pagar multa, mas será que responderão por xenofobia? Este fato me conduz a convidar os leitores para uma reflexão um pouco mais densa e respaldada por fatos históricos.

No ano de 2001 em Durban, África do Sul, fora realizada a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O Brasil participou enviando uma delegação que votou favorável ao rol de medidas compensatórias às vítimas destas formas de preconceito e para a criminalização de atos racistas, discriminatórios, intolerantes e xenófobos.

A Fundação Cultural Palmares, sob a presidência do Senhor Carlos Alves de Moura, publicou o plano de ação redigido e aprovado na conferência e fez questão de enfatizar que “[as] sugestões devem ser absorvidas e adotadas pelas instâncias governamentais e por todos os segmentos da sociedade”.

O tempo passou e no ano de 2022 um congolês chamado Moise Kabagambe foi assassinado por dois homens negros em um quiosque na Barra da Tijuca. O desfecho do caso determinou como crime motivado por racismo e xenofobia, enfatizando que no Brasil o racismo é estrutural. A família do jovem recebeu um quiosque no parque de Madureira, doado com verba pública (ou seja, dos pagadores de impostos, independentemente de termos uma minoria absoluta de racistas no país).

Vamos indagar: Se diante do caso ilustrado na foto, dois cidadãos, um israelense e outro estadunidense, reclamarem de “xenofobia estrutural” no país e argumentar que o Brasil é signatário do mais importante documento internacional de combate à xenofobia, como as autoridades nacionais devem reagir?

Eu sei que o bar já foi multado, mas há muitos imbecis que desconhecem e ignoram a gravidade diplomática deste fato, comentando em favor do bar nas redes sociais. Também o silêncio dos setores universitários e dos movimentos sociais, dizem muito sobre o que eles realmente são.

Para que o leitor tenha ideia da dimensão de como estes problemas tomam conta do cenário público, na universidade em que cursei duas graduações, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, desde o ano de 2005 funciona um coletivo de estudantes negros que possui uma sala doada pela reitoria da instituição. Nela os militantes associados desenvolvem grupos de estudos, eventos culturais e reuniões, atividades restritas para pessoas negras, sob o crivo da identificação racial dos membros mais sectários.

Ao vedar o acesso de pessoas de outras origens raciais ao interior da sala, o coletivo comete crime de racismo e isso acontece desde a sua fundação, com total anuência dos sucessivos reitores, chefes de departamentos, técnicos administrativos e outros setores da representação estudantil.

Portanto, é muito importante que se tenha uma reflexão muito mais ampliada e aguçada da complexidade do debate e de como as contradições demonstram a necessidade de equilíbrio analítico sobre o processo de ideologização em que o país patina. Portanto, a nível pessoal e empírico é o que tenho a dizer a respeito deste tema.

Na sua atenta leitura, em que pontos Djamila Ribeiro e Silvio Almeida estariam, mais ou menos, certos em suas respectivas visões?

Djamila Ribeiro obteve maior visibilidade em sua obra “Lugar de Fala”, donde afirma que é preciso considerar como critério de verdade o ponto de partida vivencial dos negros para relatar dores e dificuldades advindas do racismo. Não é difícil perceber que a autora escreveu este panfleto direcionado para os movimentos negros, sobretudo atuantes nas universidades, e com a intenção de escalar como liderança destes grupos, sobretudo ao ser ungida pelos partidos políticos de esquerda. Academicamente é um conceito muito frágil e serve ao dogmatismo que setores dos movimentos há algum tempo tem forçado, na tentativa de afugentar pesquisadores brancos e dominarem a pauta e o mercado racial brasileiro.

A ideia de “Lugar de Fala” exige que a vivência prática seja considerada acima de proposições analíticas feitas por quem não carrega a empiria como constatação pessoal da força do racismo. Ao invalidar análises e propostas de pesquisadores não negros sobre o fenômeno, a tese incorre nos seguintes erros: 1) O dogmatismo do empirismo consiste em desconsiderar o conhecimento que não advém da experiência. Entretanto, os conceitos não são da ordem da experiência, são faculdades do entendimento e sistematizam o que é fornecido pela intuição. O racismo não precisa ser presenciado para se saber que ele existe e que deve ser combatido; 2) Se a única forma de combater o racismo for dada pelo crivo da experiência, o ato de raciocinar sobre ele simplesmente se torna inexistente, já que o conhecimento sobre o objeto ou o fenômeno se dá por meio de sua extração da dinâmica do tempo e do espaço para entender as suas estruturas e possibilidade de funcionamento na diversidade de situações. Sujeito e substância operam de maneira necessária, isto é, como um múltiplo de intuições. Por isso os sujeitos organizam suas experiências por meio da “substância”, algo que não é empírico, mas também não é fixo na transcendência, funcionando como uma antecipação da ação por meio de conhecimentos possíveis. Os conhecimentos adquiridos através dos estudos não mudam a “substância”, mas atuam diretamente na forma de sua base (ler Kant). Por isso, confiar apenas na empiria como fonte de conhecimento e desconsiderar as estruturações racionais neste processo, não contribui em nada para um debate minimamente propositivo; 3) Ao rejeitar a contribuição de não negros no combate ao racismo, além de empobrecer o debate, deixam os negros mais suscetíveis às pessoas realmente racistas.

Do mesmo modo, a professora Conceição Evaristo cria o “conceito” de “Escrevivência”, que funciona de forma análoga ao que Djamila propõe com o “Lugar de Fala”. A confusão é tanta que ambas tentam estabelecer conceitos, mas a própria definição clássica de conceito, em Kant, refere-se a algo a priori, ou seja, substâncias que não dependem da experiência e criam estruturas necessárias para a experiência acontecer.

O debate conceitual de fato, passa muito longe das capacidades cognitivas de ambas, para compreender a complexidade epistemológica que se envolveram. Restou se aproveitar do “hype” que a esquerda viabilizou para ambas ao disseminar os seus panfletos entre os negros fragilizados pelo discurso que os torna figuras passivas diante do racismo e entre os brancos esquerdistas com eterno sentimento de culpa por terem nascidos brancos e condicionados a acreditar que são privilegiados, herdeiros de uma ordem etérea de um racismo construído alhures, mas que se manifesta imediatamente nos traços físicos que carregam. Uma loucura!

Já o ex-ministro Sílvio de Almeida, acusado de assédio sexual pela ministra Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, importa a tese de “Racismo Estrutural” dos EUA, originalmente defendida por Stokely Carmichael e Charles Hamilton.

Marxista ortodoxo, ele aplica os conceitos de estrutura, infraestrutura e superestrutura para explicar por que o racismo deve ser concebido como o pilar do mundo ocidental desde a modernidade. Em linhas gerais, a coisa se explica da seguinte maneira: A) estrutura – Constitui a base simbólica que determina as outras duas; B) infraestrutura – trata-se da base tangível e útil para a mobilidade da máquina burocrática; C) superestrutura – Constitui o funcionamento da engrenagem, ou seja, as instituições onde estão alocados os sujeitos que tracionam as leis, os conteúdos educativos, informativos e artísticos necessários para a retroalimentação do ethos social, conduzindo a estrutura ao “eterno retorno”; uma renovação do ciclo de opressões de classes que renascem nos simbolismos da estrutura, se mantem na infraestrutura e são ajustadas pela superestrutura.

Utilizando a fórmula marxista descrita acima, Sílvio de Almeida inclui o elemento racial como a base da exploração material (o continente africano como lugar dos negros, virgem e inocente até ser saqueado pelos europeus), da força produtiva (escravidão negra e subemprego após a abolição) e do rebaixamento simbólico (estereótipos negativos, desvalorização da estética, arte e cultura), conduzindo os seus leitores a entender que as instituições seculares erguidas pelo ocidente, devem ruir porque sua gênese é racista.

O filósofo e advogado não desenvolve, no entanto, uma explicação coerente de como estas bases estruturais também serviram para contrapor o racismo científico comum entre os séculos XVII e XIX, os movimentos abolicionistas pelo mundo e uma miríade de acordos internos entre governos do mundo inteiro para combater o racismo contra os negros. O senhor Sílvio de Almeida também não presenteou o seu público com sequer uma mísera linha explicando que o racismo científico não inaugurou a escravidão, ou seja, que ela existe ao longo da história e não constitui exclusividade de um povo.

Basta olharmos para a história e veremos povos caucasianos ocidentais se escravizando mutuamente. Os gauleses, por exemplo, escravizaram outros povos e mantinham a escravidão interna, o líder Vercigentórix lutava contra o domínio romano, mas também era um dominador. Após perderem a guerra, eles, os gauleses, foram escravizados pelos romanos sob o comando de Júlio César. Do mesmo modo, Hitler escravizou os judeus em seu regime nazista. Os Gulags soviéticos eram campos de escravidão para onde eram enviados os inimigos do comunismo. Geralmente para as gélidas cidades de Norilsk, Vorkuta e outros lugares com vasto campo de exploração de minério e gás. Entre os Incas a escravidão foi tão cruel quanto a dos negros africanos, chegando a dizimar outros povos indígenas concorrentes. O mesmo se pode dizer sobre a escravidão muçulmana no continente africano pré-colonial.

Será que o professor e ex-ministro Sílvio de Almeida não dispõe destas informações ou solenemente as negligencia? Fico com a segunda opção.

Pelos motivos expostos, eu penso que ambos – Sílvio e Djamila – estão com a razão nos pontos consensuais entre qualquer cidadão razoável, o de que o racismo existe e ele deve ser combatido. Dito isto, os vejo como manipuladores da temática racial, adjetivados por mim de “AGIOTAS RACIAIS”, sujeitos inescrupulosos e ávidos por fama e poder, capazes de manipular e induzir ao erro outros negros, só para se manterem no mainstream acadêmico através do monopólio da temática.

Qual seria, no caso, o grau de influência da Conferência de Bandung (1955) na obra de Alberto Guerreiro Ramos, de 1957?

Hoje é comum que os correligionários da ideia de “decolonialidade” associem este “conceito” à sociologia de Alberto Guerreiro Ramos, que não está mais entre nós para se defender desta grave acusação. Fazem isso porque parte da obra de Guerreiro Ramos tece ácidas críticas à dependência nacional em relação a epistemologia estrangeira. Leia-se interesses nacionais, e não a defesa de grupos que se vendem como oprimidos por não terem prosperado economicamente como os grandes centros de pensamento e desenvolvimento tecnológico.

Há várias críticas a serem feitas aos grupos “decoloniais”, porém, como este não é o objeto da questão, limito-me em deixar claro que se trata de um grupo de neomarxistas que se reuniram para monopolizar as ciências humanas do meio acadêmico dos países latino-americanos, sob a falsa premissa de uma opressão epistemológica sistêmica. Fazem isso mentindo descaradamente para os neófitos da vida universitária e pessoas inocentes e empolgadas com qualquer “novidade”, já que não abrem mão dos referenciais teóricos ocidentais. E mais, esta possibilidade de conceito jamais existiria se não fosse a filosofia clássica tão criticada por eles.

Voltando a Alberto Guerreiro Ramos, afirmo categoricamente que ele não apresentou sequer uma linha de ressentimento ao que se produzia no ocidente, ao contrário, ele sinalizava que de lá emergiram fontes universais de pensamento, ferramentas de análises indispensáveis para entender o Brasil na dinâmica dos acontecimentos globais.

No livro “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira” isso fica muito claro. Sobretudo porque ele critica o modo como os sociólogos nacionais trataram a questão do negro, sempre retirando-o da dinâmica social cotidiana e reintegrando-o repleto de vícios interpretativos, adoecendo pretos e brancos a partir da visão tematizada que uns incorporam dos outros.

Ué, mas de que modo isso não dialoga com os princípios da “decolonialidade”, já que critica a dependência epistemológica do Brasil aos países europeus e EUA? Se um pascácio te perguntar isso, diga-lhe que a crítica da dependência é relacionada ao transplante epistemológico e aos caminhos metodológicos adotados, não aos paradigmas universais e necessários para que se produza ciência social.

Um bom sociólogo deve saber que o conhecimento universal é indispensável na construção de uma pesquisa original e inovadora. O que os “decoloniais” estão fazendo é limitar o estudante universitário à uma realidade restrita e pobre de elementos estruturais, condicionando-os a viver em uma bolha de pesquisas e análises muito fragilizadas, que geralmente nem podem ser consideradas como pesquisas, já que se sabem os resultados desde a primeira linha. Cada vez mais estas atitudes têm isolado o Brasil dos grandes centros desenvolvedores de cultura, ciência e tecnologia.

Vale a pena também comentar brevemente outro de seus grandes livros; “A REDUÇÃO SOCIOLÓGICA”; Obra clássica lançada em 1958 com o intuito de despertar no brasileiro o ímpeto investigativo sobre a história e a cultura nacional a partir de uma metodologia própria e sem transplantes conceituais estrangeiros para explicar a realidade concreta do país.

“A personalidade histórica de um povo se constitui quando, graças a estímulos concretos, é levado à percepção dos fatores que o determinam, o que equivale à aquisição de consciência crítica” (p.22-23).

Segundo ele, a aquisição de consciência crítica não está solta à toda sorte de invenções e interpretações grosseiras da vida a partir da própria vivência (como sugeria Paulo Freire), pois emerge da conexão entre diversas categorias assentadas no espírito e a capacidade de “apreender os seus determinantes, de tal modo que, em outro contexto, possa servir, subsidiariamente, e não como modelo, para nova elaboração” (p.63).

Logo, “A autodeterminação está (…) associada ao refinamento dos motivos da vida ordinária” (p.41). Isso quer dizer que por mais que os afazeres elementares sejam importantes na organização da vida prática, eles não carregam os equipamentos necessários para o amadurecimento analítico que permita uma nova sociologia.

Portanto, o conhecimento necessário para uma boa abordagem sociológica transita entre dispor de ferramentas universais para verificações locais, sem se sobrepor aos elementos concretos que informam particularidades e contextos históricos, e que devem estar aplicados às categorias e conceitos vizinhos ao objeto de análise.

Esta minha análise me permite ir na contramão do que o povo da “decolonialidade” anda dizendo por aí, ou seja, que a “conferência de Bandung” tenha produzido efeito determinante na obra de Guerreiro Ramos, pelo seu suposto teor anticolonialista.

Guerreiro Ramos estava para além da mera dicotomia militante que opunha “colonizadores e colonizados” em uma eterna e interminável disputa. Ele esteve debruçado nas complexidades inscritas entre as contradições das relações cotidianas e o caráter temporal dos conceitos nas explicações dos fenômenos. Por isso a sua sociologia é atemporal e dinâmica.

É importante salientar que Guerreiro Ramos foi um intelectual eclético, e um dos seus principais focos de pesquisa se inscrevia na sociologia das instituições, observando a “ciência das organizações” a partir da sua lente trabalhista. 

À vista disso, reitero que não há nada de extraordinário na conferência, a ponto de influenciar decisivamente na obra de Alberto Guerreiro Ramos, tão somente elementos de análise que se somaram ao vasto repertório teórico e conceitual que o sociólogo construía ao longo de sua carreira.

Quais seriam os distanciamentos e aproximações, que poderíamos marcar, entre a perspectiva de Ramos e a de Frantz Fanon, numa visão geral?

Há muitas aproximações entre Guerreiros Ramos e Frantz Fanon em suas respectivas obras e eu vou tentar apontar algumas delas. Também há distanciamentos, mas de forma geral, eu creio que são relativos ao foco, muito mais do que em relação aos métodos.

Se analisarmos as obras; “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira”, de Alberto Guerreiro Ramos, e “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, veremos que o fundo sociológico é o mesmo, pois ambos concluem que o capitalismo terceiro-mundista é o sistema econômico que estruturou as sociedades nos seus respectivos países (Brasil e Martinica) e que, por isso, a dependência de ambos não se restringe ao modelo econômico, mas também ao conceitual filosófico.

Com efeito, a organização do ethos destes países passa pelo crivo de realidades artificiais, alheias ao que se vivencia no cotidiano das cidades. Essa relação de dependência aos modelos embalados e entregues para a população, produz psicopatologias que fragmenta o povo e causam divisão de classes, sobretudo por parte daqueles que possuem mais acesso aos bens materiais e culturais, sob a crença de que a posse do capital cultural oferecido pelos modelos hegemônicos será capaz de operar distinções entre as pessoas e pô-las em iguais condições simbólicas que os homens dos grandes centros de decisões políticas.

Na perspectiva de Frantz Fanon a elite provinciana e colonial se desterritorializa em pensamento através da adesão de uma conduta alinhada ao habitus desejado, ao passo que se reterritorializa no choque causado ao se deparar com as elites colonizadoras, quando cruzam as fronteiras físicas. No entanto, segundo ele, mesmo atordoados diante do fato de não passarem de cópias malfeitas das tendências do centro, o atraso simbólico é mantido nas colônias a fim de garantir status e poder sobre os colonizados.

Em Guerreiro Ramos são os intelectuais que mantêm a pirâmide social desfavorável para os mais pobres, uma vez que toda produção cultural, conceitual e literária, se dilui nos ordenamentos institucionais, são normalizadas e se convertem em normativas. A absorção irrefletida pela classe média a conduz a operar de forma automática os preconceituosos que criam danos aos mais pobres.

Na base desta análise, ambos se aproximam do marxismo, mas se inclinam para a subversão da perspectiva de Marx, indicando que em uma economia de base informal, de passado escravagista e colonial, o potencial revolucionário não estará na classe burguesa que, segundo eles, é reprodutora do modelo hegemônico. Logo, o lumpemproletariado seria a classe mais fiel às transformações necessárias e genuínas para impulsionar um novo modelo de sociedade, ou, nos termos de Fanon, um “homem novo”.

Os livros indicados também são interessantes do ponto de vista histórico, já que se inscrevem em contextos de lutas anticoloniais em países africanos, na emergência do debate por leis antirracistas nos EUA, na Guerra Fria, no Apartheid na África do Sul, de diversas conferências da ONU, num novo painel cultural mundial, no avanço tecnológico e diversos outros acontecimentos. No fervilhar de tudo isso, os autores mantiveram o foco em suas sociedades, mas suas lupas acompanharam as influências externas e as relações de causa e efeito que elas provocavam.

Portanto, acredito que o maior distanciamento entre as perspectivas dos autores se deva ao fato de que Frantz Fanon manteve o seu foco na questão racial, enquanto o Guerreiro Ramos analisou a sua sociedade de forma mais ampla e com maior diversidade de ferramentas conceituais, permitindo-lhe entender com mais destreza o funcionamento das instituições e como a subordinação e o peleguismo da elite intelectual brasileira foi danoso para o desenvolvimento do país.

Na sua análise, a perspectiva de Muniz Sodré, com o dito “fascismo da cor” consegue corrigir as distorções do “estruturalismo racial” de Silvio Almeida?

Não tenho como fazer essa análise com profundidade, uma vez que não li o livro. Conheço o debate proposto por Muniz Sodré através de algumas entrevistas e não percebi mudanças radicais na forma de analisar o racismo, já que ele foca na questão simbólica como elemento estruturante das relações cotidianas.

Pelo que pude perceber, Muniz é mais astuto e agrega diferentes influências para defender a sua tese, além de aproveitar o “hype” do debate em torno do conceito de fascismo, para se esquivar da alusão à sua forma histórica e datada, imprimindo sobre ele o racismo como ponto central da brutalidade humana, mesmo quando o indivíduo é negro, pois, segundo ele, o “fascismo de cor” é um projeto da “branquitude” para converter os negros em correligionários de uma ordem sistêmica racista, sem que os mesmos percebam.

Ora, não há absolutamente nada de diferente da tese de racismo estrutural, apenas algo dito de outra maneira.

No geral, o que eu penso destes trabalhos é que eles são encomendados e escritos para manter uma perspectiva política operando o poder. Embora isso aconteça, há nestes escritos diversas coisas interessantes e que agregam conhecimentos. O cuidado que temos que ter gira em torno da não adesão ipsis litteris do que estes intelectuais produzem.

Por isso eu incentivo a leitura e providenciarei este livro para que possa debatê-lo como mais elementos para a crítica. Este é um exercício salutar para todo cidadão que deseja discutir a temática, sobretudo para os que compõe os staffs governamentais e acadêmicos.

A respeito da dita “parditude”, da identidade parda. Quais suas considerações a respeito de mais esta nuance do identitarismo?

Acompanhei um pouco do debate feito por uma jovem aluna de mestrado da Universidade Federal Fluminense – UFF e não ficou muito claro o que ela exatamente queria e se realmente foi expulsa da instituição. O fato é que tem surgido uma geração de estudantes muito presunçosos querendo ganhar espaço na academia e nas redes sociais através de escândalos e da confecção de supostos conceitos. Fazem isso sem o mínimo de leitura dos clássicos sobre os temas os quais querem dissertar, e tampouco sem a reflexão necessária, isto é, sem a maturidade intelectual que uma boa crítica exige.

Pelo motivo exposto, tenho pouquíssimo interesse sobre o tema “parditude”, mas asseguro-lhes uma verdade; o mestiço sempre existiu e nunca foi um problema até ser tematizado pelo universo sociológico.

Na história, os povos sempre se relacionaram entre si, e de sua diversidade étnica e das múltiplas características fenotípicas nasciam os mestiços. Por óbvio, mestiços não são apenas aqueles que decorrem da miscigenação entre negros e brancos, há mestiços de grupos étnicos de pele branca, ou alguém seria tão grosseiro em não aceitar que da relação entre uma mulher norueguesa e um homem português, nascerá um mestiço? Embora ambos sejam brancos, originalmente há diferenças na tonalidade da pele, textura do cabelo, densidade óssea, estatura etc., todas condicionadas por várias variantes, desde o clima, herança genética, cultura alimentar e daí por diante.

Por que este fato é ignorado pelos debatedores raciais brasileiros? Porque aqui os grupos políticos se alimentam do Estado, tanto os que estão articulados com as políticas públicas focais, quanto aqueles que são eleitos no parlamento através da crítica. Pouquíssimos querem resolver os problemas mais prementes do Brasil, e por isso inventam conceitos vazios.

Para essas pessoas há um “limbo” racial para onde o mestiço fora jogado ao decorrer da história, uma vez que basicamente se fala em identidade e cultura negra ou branca. Daí decorre que os mestiços estariam subsumidos entre os negros e também apagados pelos brancos ao serem absorvidos como tal.

Veja bem, o mestiço, segundo ambas as perspectivas, passa a não existir, já que está subsumido nos grupos raciais brancos e pretos. Isso aconteceria segundo a aproximação dos traços fenotípicos em relação ao grupo que será acolhido. Na prática o que ocorre ao longo da história do país, é que as famílias agregam ou rejeitam um membro por critérios totalmente dispersos da questão racial; alcoolismo, envolvimento com crime, questões morais e contendas pessoais por inveja, dívida ou qualquer outro motivo diferente da verificação do fenótipo. A rejeição racial constitui uma realidade ínfima de casos de abandono familiar.

Logo, o membro da família que permanece unido ao seu núcleo central e expandido (primos, tios etc.), participa da dinâmica cultural do país, já que a culinária, a música ou os setores produtivos da economia manufatureira, carregam os traços idiossincráticos do Brasil que estão para além de uma única assinatura racial ou regional. Isso quer dizer que o Brasil está todo conectado e é essencialmente mestiço, isto é, a interdependência cultural é indissociada da conexão étnico-racial.

É, portanto, tautológico dizer que o Brasil é mestiço. Aliás, o mundo é mestiço. O que há de diferença são os graus de mestiçagem, ou, novamente, alguém seria louco de dizer que no casamento entre um homem do Sudão do Sul e uma mulher pigmeia do Gabão, não nasceria um mestiço?

Indo mais longe, é possível afirmar que o homem do Sudão ou a mulher do Gabão são, eles próprios mestiços. A árvore genealógica de ambos poderá revelar um alto grau de mistura étnica que a desejada pureza racial não demonstre visivelmente, levando as pessoas a se apegarem ao fator exógeno, fenotípico.

Quando se cria um conceito para afirmar identidade, em si, há a negação da mestiçagem, o que torna o conceito frágil. Ora, se quero desestabilizar o purismo racial, por que eu cunharia um conceito que dá ao pardo uma identidade, já que ele é justamente o contraponto ao que há de estático no racialismo? Em outras palavras, eu não posso criar uma identidade para algo que é fluído. Ou eu proponho uma identidade unificada, mestiça, que logo cumpra o papel de exterminar o identitarismo, ou estarei criando mais uma categoria identitária e reforçando a ideia de raças puras.

Portanto, o conceito é muito frágil e não foge ao escopo do identitarismo, fornecendo elementos retóricos para os mesmos arroubos autoritários de qualquer pretensa supremacia baseada na raça, como o nazismo ou o panafricanismo.

Os próprios intelectuais socialistas que outrora defenderam, lutaram e, por fim, conseguiram implantar a dita educação popular (e revolucionária) de um Paulo Freire, de um Ivan Illich, de outro Pierre Bourdieu ou dum Jean-Glaude Passeron, assumem que as universidades hoje estão demasiadamente massificadas, porém o que falta agora é a qualidade no ensino. Os intelectuais liberais defendem uma universidade livre dos excessos socializantes e estatizantes. Já entre os conservadores há a defesa do modelo clássico, com a Paideia e as Artes Liberais por exemplo. Como o doutor Fernando se situa por esses caminhos? Quais seriam os paralelos e as convergências entre os três?

Para os ditos socialistas a universidade só terá qualidade se o currículo e a organização administrativa e pedagógica estiverem alinhados aos ideais políticos de uma suposta luta de classe. Para eles o intento é destituir totalmente uma perspectiva clássica de ensino e qualquer conteúdo diferente do que eles produzem enquanto conhecimentos e narrativas.

A meu ver, o problema posto no Brasil de hoje é o nível de imersão comunista na universidade e a dificuldade de políticos e intelectuais sérios em equilibrar esta balança e promover uma educação mais plural e menos unilateral.

Acontece que ao longo do século XX os comunistas gradativamente ganharam posições institucionais, ao passo que se preparavam para integrar as instituições e formar gerações de adeptos às suas ideias e ideais. Em contrapartida, os conservadores relaxaram, não se debruçaram para que as instituições atualizassem suas bases e diminuíssem as possibilidades de transformações radicais, que enfraquecessem as suas vigas.

O resultado foi o assentamento das bases do pensamento comunista nas instituições formativas. Isso quer dizer que quem se enxerga nas narrativas ofertadas pela educação superior as absorve indiscriminadamente e leva à frente tais ideias, encontrando apoio institucional dos seus “companheiros”. Inversamente, os conservadores não possuem redes de apoio, uma vez que o individualismo os separa, e eles se apegam aos frágeis conteúdos produzidos por pessoas sem formação acadêmica (influenciadores digitais e políticos).

Por terem se tornado axiomáticos, os conteúdos produzidos pelos comunistas nas universidades e espraiados através da arte, informação, educação e até por meio da religião, formam também os conservadores que, cotidianamente, reproduzem conceitos, frases de efeito e ideias de fundo comunista.

Hoje se tornou distintivo moral entre os que se dizem conservadores, não enviar mais os filhos para as universidades públicas e mandá-los para as privadas, como se isso fosse mudar alguma coisa. Mal sabem eles que as instituições particulares reproduzem o mesmo modelo, a única diferença é que a militância mostrada por influenciadores digitais que fazem barraco com estudantes das federais e estaduais, estão menos visíveis, são menos barulhentas.

Ao seguir a recomendação destes caçadores de “likes” que possuem interesses meramente eleitoreiros, o conservador deixa de enviar os seus filhos para as melhores universidades do Brasil. Isso implica na entrega das universidades nas mãos dos comunistas, agora com unidades por eles privatizadas, exclusivamente para fins militantes, e o pior de tudo, financiada com o erário público. Dinheiro este do próprio conservador que recusa mandar o seu filho para a universidade.

Perceba que há uma cadeia de motivos e causas, e na base dela a impossibilidade de confiar na formação de caráter do próprio filho no seio familiar. Ou seja, a possibilidade de corrupção ética, moral e intelectual se tornou motivo de interdição da ciência no nosso país, já que muitos pais sequer dão a oportunidade de os seus filhos descobrirem suas vocações profissionais. Os que possuem melhores condições financeiras e evadem para o exterior e, mais uma vez, o Brasil perde.

Veja bem, aqui nós temos uma perspectiva muita alinhada ao que Pierre Bourdieu sinalizou, o habitus das classes sociais reproduz um ethos desejado. A organização do pensamento operado nas bases políticas hoje se converge apenas na absorção e na repetição dos conceitos cunhados pelo comunismo, mas entram em divergência no método e no pragmatismo.

Se os comunistas (numa nova fase de manutenção do poder) primam por gerar conteúdos simbólicos que organizam uma práxis revolucionária, os conservadores se ocupam em se apegar aos fatos concretos como constructo da vida cotidiana. Ambas as perspectivas integram componentes importantes, o problema são os fins aos quais se inclinam e o modo de realização.

Quando um conservador se nega a avolumar o seu repertório simbólico e conceitual, crendo que lhe bastam os fatos, sem se dar conta ele está rejeitando a transcendência e reproduzindo o materialismo histórico marxista. Do mesmo modo, o comunista que se esquiva dos fatos, se esconde na suposição e na representação meramente simbólica do devir, está se contradizendo do materialismo histórico.

Kant é um filósofo essencial e atualmente mal interpretado. Para ele as coisas aconteciam a partir de uma necessidade, e a necessidade é transcendente, dispõe os conceitos e ordena a experiência. O homem só é capaz de conhecer o outro, mas o conhece por conceitos, não em sua plenitude. Para que isso aconteça é preciso existir, e a existência é mediada por outra coisa que a experiência não consegue explicar. Logo, o materialismo representa a concretude da vida, mas a transcendência representa a organização das possibilidades, o planejamento e a sistematização das ações.

Paulo Freire tinha como perspectiva instrumentalizar as pessoas mais pobres a se inclinarem para a “luta de classes”. Segundo ele, a concretude do cotidiano delas seria o informativo mais precioso da condição de oprimido que ocupavam, devendo rejeitar conteúdos que reproduzissem um ethos burguês e se alfabetizar em “dialeto próprio”, isto é, escapando da formalidade. Aos poucos estes homens e mulheres teriam “consciência revolucionária” e se oporiam aos opressores; homens, brancos, heterossexuais, europeus e cristãos.

Em vários dos seus livros Thomas Sowell parte da premissa de que nada escapa as evidências, ou seja, a comprovação prática de existência ou efetividade de um suposto fenômeno ou de um planejamento baseado em suposições. O autor não rejeita a força do simbolismo, mas adverte que se não houver instrumentos empíricos de mensuração dos seus efeitos a fim de comprovar suas implicações, eles são inúteis ao progresso, servem somente como maneira de mobilização para a servidão voluntária e benefício para os que instrumentalizam narrativas.

Apesar das ideias políticas antagônicas, em um possível diálogo entre Paulo Freire e Thomas Sowell, ficaria claro que ambos jamais renunciariam à profundidade epistemológica que permite compreender que não é possível conhecer aquilo que está fora da experiência, mas também não rejeitariam a transcendência como organização da inteligência, ou seja, de estruturas a priori que viabilizam o conhecimento.

Portanto, devemos explorar as epistemologias a fim de extrair delas o que há de interessante para o provimento de uma educação de processos e resultados positivos, em que o estudante consiga se cercar de possibilidades e não se torne um homem unidimensional (não falo aqui sob o termo utilizado por Marcuse), mas alguém realmente autônomo e capaz de desempenhar os seus papeis com perícia, ética e segurança. Os autores citados na questão apresentam elementos importantes e que epistemologicamente se aproximam, ao passo que ofertam métodos ajustados aos fins revolucionários que, em última análise, beneficiam grupos de interesses alheios ao povo.


Como seria, em resumo, uma universidade pública brasileira de excelência, no seu ideal? Pensemos, nesse sentido, em tradições, em pluralismo, consciência nacional e patriótica, na vida estudantil e no papel da UNE, pesquisa, extensão universitária e interação com o mercado de trabalho etc.  

A universidade pública brasileira não é de excelência porque as suas funções foram confundidas e misturadas com a política partidária. A verdade é que o ensino superior no Brasil cresceu desordenadamente após a reforma de 1968 e os atores que passaram a nele atuar, estiveram muito comprometidos em massificar conteúdos de mobilização e organização de grupos políticos, do que em promover ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Até hoje é assim.

Penso que uma segunda reforma precisa ser feita, e desta vez combinando elementos de dissuasão para que o progressismo não se instale novamente como força motriz da gestão universitária. Isto deve ser feito através de transformações legais que retirem a autonomia universitária e que haja reforma curricular, novos parâmetros para ingresso de professores, diferentes fontes de geração de receita e rígidas avaliações que permitam necessários ajustes.

Se uma reforma desta magnitude acontecer, haverá muita resistência da oposição, mas os resultados apontarão um caminho necessário e sem retorno, já que o diálogo com os setores privados da economia e da sociedade civil se darão através de cooperação, não de submissão ou por prescrição de normas.

Quero dizer que nenhum movimento social deve ser esmagado por forças repressivas ou negligenciado pela instituição universitária, mas não deveriam compor o quadro técnico através da alocação de militantes que utilizam a universidade como plataforma política e para a fabricação de conteúdo para o usufruto de partidos políticos e para a sociedade civil organizada.

Nas áreas de tecnologia, ciências médicas, exatas e da natureza, os investimentos devem ser ainda mais pesados e o mais “desideologizados” possível. Um ambiente bem equipado, saudável, seguro, bem remunerado, epistemologicamente forte e articulado com os setores privados, pode propiciar boas parcerias, com satisfatória entrega para o pagador de impostos, estímulo para as gerações e a contenção da fuga de mão-de-obra qualificada para o exterior.

Neste diapasão não há lugar para movimentos estudantis, e as possíveis representações estudantis devem estar restritas à articulação com os setores da base ocupacional e para a resolução de questões mais simples e pontuais, visando desfavorecer qualquer vínculo de compadrio, assédio moral ou sexual e todo tipo de cooptação política. Isso não se traduz em falta de transparência ou despotismo, mas do necessário remédio amargo para que os problemas não tornem a prejudicar a universidade.

Portanto, penso que o melhor modelo de universidade para o Brasil deve salvaguardar a pluralidade de ideias e de pessoas (sem a necessidade de cotas raciais, sociais ou de qualquer outra ordem, pois elas contribuem para a formação de cartéis nas instituições), a oferta de alta cultura e diálogos de alto nível com a comunidade do entorno em projetos de extensão de qualidade, e mais um apanhado de ações orientadas para a pesquisa e para o exercício do pensamento livre de ideologia político-partidária. A universidade foi a viga mestra da civilização ocidental, mas hoje cumpre o papel de destruí-la, por isso a sua retomada é dever de todo cidadão consciente, patriota e que acredita na ordem e no progresso.

–   Fernando, conte-nos um pouco sobre sua infância, sobre a vida escolar, a convivência em família e no bairro…adolescência, divertimentos de rua, memórias e convivências.

Ah a infância!!! Não há nada mais saboroso para mim do que as reminiscências da infância.

Sou nascido e criado nas ruas do bairro do Engenho de Dentro, mais especificamente na Rua Pernambuco. Trata-se de um bairro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro em que outrora já foi um grande engenho, se transformando num bairro pacato e que algumas personalidades como o Cisne Negro, Cruz e Souza, já residiram.

A minha infância e adolescência esteve marcada pela transição de duas décadas, a de 1980 e 1990, o que me inscreve num caldeirão cultural bastante interessante, dado que o painel musical e o estético mudaram bastante nos anos de 1990, mas a nostalgia dos anos de 1980 ainda estava indisfarçável na alma do brasileiro em fase adulta naquela década.

Quero dizer com isso que por ter sido uma criança que mesmo tendo todas as experiências das pessoas da minha idade, também estive muito conectado ao mundo adulto, absorvendo muitos elementos culturais dos anos de 1980, ao passo que vivia o acesso mais acelerado da tecnologia, nova estética musical e tantos outros bens simbólicos. Além da observância da escalada da violência e da pauperização dos cidadãos, com o crescimento das favelas, o declínio da educação e o aumento da corrupção na política.

Venho de família numerosa, somos 9 irmãos, entre 4 mulheres e 5 homens, um número infinito de primos, tios e agregados. Destes 9, além de ser o mais novo, sou temporão, nascido aos 45 minutos do segundo tempo, quando os meus pais já tinham 47 anos. Hoje a minha mãe tem 92 e caminha para os 93, com muita saúde, graças a Deus. Já o meu pai faleceu em novembro de 2000.

Por este motivo, eu brincava com as crianças na rua, mas tinha amplo contato com os amigos da família, todos já adulto. Fui alfabetizado em casa pelos meus irmãos e quando fui para a escola já sabia ler e escrever. Me recordo de um jogo de conhecimentos geográficos que me ajudou muito a acumular muitas informações sobre diversos países, despertando em mim o desejo de conhecer o mundo.

Eu adorava ir para a escola, e desde os anos iniciais eu fiz amizades que perduram. Na minha primeira escolarização, na década de 1980, eu estudei na Escola Municipal Tobias Barreto, onde se preservavam fortes valores morais e eu tomei gosto pela leitura e pela escrita, mas também pelos esportes.

Aos 9 anos de idade eu já era atleta de futsal do Social Clube Marabú, disputando o campeonato carioca na categoria fraldinha, depois pré-mirim e mirim, quando fui jogar pelo América Futebol Clube na modalidade de futebol de campo. Aos 16 anos fui dispensado pelo clube porque na minha posição (lateral direito) havia um atleta com melhor compleição física.

Na adolescência eu também iniciei minha incursão nas artes marciais, tendo treinado luta olímpica, a famosa “luta greco-romana”. No meu bairro tradicionalmente há muitos atletas de Jiu-Jitsu e Judô, e logo fui estimulado por eles. Mais tarde iniciei na capoeira e no Jiu-Jitsu. A capoeira eu abandonei, mas a arte suave eu pratico até hoje.

Durante aqueles anos eu dividia o esporte com os estudos e o gosto pela música. Sempre adorei rock n roll, blues, jazz e bossa nova. Aprendo música desde os 9 anos de idade, quando iniciei com um violão emprestado pela minha madrinha, até ganhar um de presente, dado pela minha mãe, aos 14 anos.

Não tive muitas dificuldades durante o meu processo de escolarização, mas amarguei uma reprovação no ensino fundamental ocasionada por problemas de disciplina, que me faziam faltar às aulas para jogar futebol e fez cair o meu rendimento nas matérias. Me recuperei e passei a me interessar pelos estudos como antes, obtendo resultados positivos adiante.

Sempre gostei de conhecer novas palavras e me interessava muito por geografia. Atravessei a infância e a adolescência conciliando as brincadeiras com os amigos e certa visão de que deveria absorver conhecimentos e guardá-los no espírito, por isso sempre quis diversificar o aprendizado em instrumentos musicais (baixo, violão, guitarra e percussão) e diversos estilos de música, a disciplina e filosofia do esporte e todo conhecimento geral que me fosse possível.

Na adolescência fiz parte de uma banda afro (Olorum) que se apresentava em várias festas públicas nos subúrbios da cidade. Depois montei a minha primeira banda de rock, com o mesmo baterista que toca comigo até hoje.

Tudo isso me conduziu para uma convivência em diversos meios sociais, um trânsito que mais tarde contribuiu para oportunidades de trabalho e socializações que eu jamais teria se não tivesse tido uma infância tão rica em cultura.

No geral, foi uma infância de pouquíssimos recursos materiais, dificuldades financeiras, mas riquíssima em cultura, afeto, amizades, e tudo de ruim que aconteceu – como a morte de vários amigos que se envolveram com a criminalidade ou com uso excessivo de drogas – não rebaixa a qualidade da minha infância e adolescência no cômputo geral da vida.

Hoje eu sinto muita falta da convivência intensa e harmoniosa que tínhamos com os vizinhos, os amigos de bairro e os visitantes. Foram incontáveis os sábados com uma boa pelada no asfalto pela manhã, o baralho no início da tarde, a conversa fiada no paralelepípedo e o violão entoando as músicas da Legião Urbana, dos Paralamas do Sucesso, dos Guns N Roses, Alice In Chains, Bon Jovi e afins.

Para finalizar, registro que eu gostaria muito que as atuais e futuras gerações pudessem experimentar uma infância menos tóxica; de mais amizade, mais presença física, menos politicamente correto e mais afeto. Por mais que atualmente tenhamos mais acessos aos espaços esportivos e culturais, conexão com o mundo através de redes sociais e sites de notícia, plataformas de entretenimento e mobilidade urbana; o vazio existencial, a dispersão religiosa, o esfacelamento da ética política e o rebaixamento cultural, nos obriga a olhar para trás e resgatar os melhores valores morais e as formas mais genuínas de relacionamento. Penso que isso seja urgente, caso contrário naufragaremos para uma dimensão inimaginável de ausência total de socialização.

Gostaria de saber um pouco de sua experiência com a capoeira. Quais seriam suas considerações de entendimento histórico-cultural e, claro, suas percepções sociológicas sobre a arte, sobre os princípios, os valores e a disciplina dos capoeiristas propriamente. Pergunto: o que as outras organizações e associações civis brasileiras poderiam aprender, em teoria e prática, com uma escola ou um grupo formal de capoeiristas?

Conforme registrado na resposta anterior, treinei capoeira durante um tempo, aproximadamente cinco anos, mas depois me afastei, e o motivo esteve ligado às novas dinâmicas que as agremiações têm tido com ela. Grosso modo, posso dizer-lhe que a capoeira, em muitos casos, passou a ser superexplorada comercialmente no seu aspecto expositivo. Registra-se que isso acontece em escalonamento e confunde-se com “sobrevivência” da arte e das próprias pessoas envolvidas.

Quando os primeiros grupos de capoeira surgiram no Rio de Janeiro, havia uma grande rivalidade entre os grupos que adotavam estilos diferentes. Os grupos que utilizavam o cordel com as cores da bandeira nacional como forma de graduação, estavam assentados em zonas mais pobres da cidade e dos municípios da região metropolitana. Já os grupos com outra forma de graduação e a utilização de corda, estavam mais presentes no subúrbio da central, centro e zona sul.

A divisão socioeconômica da capoeira foi fundamental para a sua internacionalização em massa desde os anos de 1990. As escolas situadas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro eram frequentadas por pessoas com maior poder aquisitivo e profissões mais valorizadas. Logo, médicos, empresários, advogados, universitários e afins, passaram a treinar capoeira ou a matricular os seus filhos. Por óbvio, o público letrado e economicamente bem situado, é melhor articulado, esteticamente mais apresentável, dominam outros idiomas e podem pagar mensalidades mais altas.

Esta dinâmica começou a atrair os estrangeiros e muitos optavam por criar vínculos mais duradouros. Daí surgiam relações “amorosas” e possibilidades de intercâmbios ou empregos fixos para ensinar a arte aos estrangeiros em seus países de origem. Foi assim que as filiais se expandiram mundo afora e a capoeira passou a ser incorporada como estilo de vida por pessoas de várias origens ao redor do planeta.

Com a internacionalização e profissionalização, sobretudo a partir da década de 1990, o jogo-dança e luta-esporte que surgiu como instrumento de defesa contra o poder senhorial no período colonial, transformou-se num elemento cultural de penetração em várias vertentes artísticas. Enquanto isso, mestres mais velhos e tradicionais sucumbiam ao ostracismo e perdiam os alunos mais habilidosos para os centros de treinamento de grife (Centro Cultural Senzala de Capoeira – Mestre Peixinho, Abadá Capoeira – Mestre Camisa e Capoeira Brasil – Mestre Boneco), sendo relegados a apresentações de rua e aulas para projetos sociais em ONGs e praças públicas.

Não podemos esquecer que aquele período (entre 1996 e 2007), séries como “Malhação” faziam muito sucesso e propagandeavam um estilo de vida despojado e cheio de gírias e gingas, marcando uma idiossincrasia do carioca. Em diversos episódios a prática esportiva da capoeira esteve no centro da trama. Inclusive os filhos do Mestre Boneco (Capoeira Brasil) iniciaram no mundo da telenovela, fazendo muito sucesso como jovens galãs do estilo capoeirista da zona sul. A partir de então muitos artistas e esportistas do MMA começaram a treinar.

O mesmo observei nos grupos de capoeira Angola, sobretudo no ima que esta perspectiva tem em atrair pessoas artificiais, alunos que nela buscam uma válvula de escape para um “mundo totalmente opressivo”, levando para o interior da agremiação uma perspectiva política que nega o teor conflituoso do mundo e tenta constranger as pessoas de opiniões contrárias a não estarem ali porque em tese a capoeira angola deve se restringir ao séquito que crê numa “luta anticolonial” e “antirracista”, transformando o universo da capoeira numa sigla de esquerda, como se somente eles fossem contrários ao racismo ou a dominação cultural estrangeira.

Ao perceber toda esta dinâmica e considerá-la predatória, motivo de muita inimizade, fofoca e propaganda política, decidi não treinar mais capoeira. Me afastei completamente deste universo, mas penso que se temos que aprender algo com a capoeira em si, que olhemos para as antigas escolas, onde havia disciplina e honra, valores inegociáveis para os mestres do passado, que não comercializavam o seu povo e não rebaixava a moral dos seus adeptos.

Embora esta dinâmica seja muito ruim e de fato tenha ocorrido, a capoeira, de modo geral, é uma cultura nacional e que agrega pontos muito positivos na vida das pessoas, desde a prática esportiva – que engendra a busca por uma vida saudável – até o seu teor gregário, lugar de encontros, amizades e mobilidade social.

A minha experiência não se resume aos fatos negativos sinalizados acima, pois também vivenciei momentos mágicos de aprendizado e de absorção de conhecimentos que só são viabilizados nas conversas e rodas de capoeira. Sou muito grato por aquele tempo em que pude praticar este esporte e pelas amizades que perduram a partir dela.

Não poderia deixar de escrever tais críticas porque nem tudo são flores e não posso negligenciar o que vivenciei naquele período e o que posso concluir a partir de análises sobre fatos públicos e notórios. É claro que talvez as minhas observações sejam centradas no universo da capoeira na cidade do Rio de Janeiro. Porém, observei um cenário degradante em Salvador, cidade repleta de “capoeira show”, isto é, praticantes da arte fazendo exibições em praças públicas para estrangeiros e nacionais contribuírem com o que lhes apetecer. O problema reside na forma intimidatória e na relação belicosa entre eles para fatiar o espaço de atuação e o montante arrecadado.

Por este motivo, peço aos leitores que entendam as críticas como construtivas, porque de nada adiantará falar apenas do lado positivo da capoeira ou romantizá-la, como se vivêssemos um looping histórico de traços que ficaram nos séculos passados, e um jovem observar muitas contradições e excessos que o levará à execração da cultura, antes mesmo de uma análise mais sóbria e equilibrada. Isto quer dizer que é sumamente importante que, antes de tudo, saibamos que a capoeira é feita por seres humanos e os mesmos, em sua diversidade, são falhos.

Música. Sinta-se livre para escrever a respeito de sua relação com ela.

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A minha relação com a música vem de infância, como mencionei acima. Desde a infância eu me impressionava com a beleza das melodias e das letras de Gonzaguinha, Djavan, Guilherme Arantes e da guitarra de Celso Blues Boy, Jimi Hendrix, Steve Ray Vaughan e outros.

Na minha casa todos sempre gostaram de música, mas os meus irmãos nunca quiseram aprender um instrumento musical. Foi na convivência com os meus vizinhos e com o meu primo Marquinhos que eu comecei a tocar um instrumento, neste caso o violão, mais acessível e comum no bate-papo de início de noite no nosso bairro.

Naquele tempo era comum comprarmos revistas com músicas cifradas, pois elas eram vendidas em bancas de jornais e era a maneira mais objetiva de alguém que estava aprendendo música a tirar as canções que gosta, já que para “tirar a música de ouvido” requer um pouco mais de experiência, não havia internet e uma escola de música era muito cara, não podíamos pagar.

A perseverança era tamanha, porque nem sempre eu podia trocar as cordas do instrumento, fazer algum tipo de manutenção para deixá-lo mais confortável quanto à tocabilidade, quiçá comprar um de qualidade superior. Nada disso me impediu de aprender, e vagarosamente eu fui me entrosando com o instrumento e conseguindo acompanhar os amigos e o meu primo.

No início da adolescência arrumei uma guitarra emprestada e montamos a nossa primeira banda, os Antissociais, com um grande amigo de escola (Andrey) na bateria, meu primo Marquinhos na guitarra, o vizinho Márcio Zaca no vocal e eu no baixo. Pois é, eu comecei tocando o baixo, instrumento do meu primo e ele tocava a guitarra que eu peguei emprestada.

A banda era boa, tocava muito punk rock e trash metal (Ratos de Porão, Sepultura, Bad Religion, The Offspring) e músicas autorais, com letras escritas por mim. Com esta formação e repertório, chegamos a tocar em alguns lugares da cena alternativa do rock carioca, como o antigo Bar da Rosa, Bar do Português, Garage, Universidade do Rock e no festival de rock do colégio SENAC.

Quando a banda acabou, eu e o Andrey, o baterista, formamos a banda Declive Urbano, com Mr. Break no vocal e André Jacaré no baixo. Desta vez eu estava na guitarra. Tocamos em alguns lugares e eventos, mas a banda também acabou, desta vez desgastados pela relação complicada com o baixista, que há alguns anos veio a falecer devido uso de drogas.

Aliás, drogas é um tema muito importante para mim. O universo musical é repleto de pessoas que abusam das drogas e do álcool, e no meu tempo de adolescente era ainda pior. Apesar de estar presente neste universo desde cedo, nunca fui usuário de drogas e não consumo álcool excessivamente, bebo apenas cerveja e em pouca quantidade. Já tive muitos problemas com outros músicos por conta disto, porém, nunca com os que aqui citei, pois eles também não usam drogas.

Desde aquele tempo o meu primo Marquinhos foi para outra dimensão musical, começou a tocar com o Tchakabum (grupo de axé) e depois se tornou baixista do cantor Dudu Nobre, deslanchou a carreira como músico e produtor musical tocando com artistas de pagode, dentre eles; Belo, Mumuzinho, Grupo Molejo, Arlindo Cruz, Gruo Revelação, Leandro Sapucahy e vários outros. O Mr. Break se tornou rapper e tem boa aceitação no mercado musical, mantém parceria com os cantores Filipe Ret e Marcelo D2.

Eu e o Andrey seguimos juntos com bandas de Reggae, Samba Rock e Rock, até nos separarmos e ele ir tocar com outras bandas. Neste entremeio eu fiz algumas gravações com músicos independentes e cheguei a compor a banda da vencedora de um prêmio oferecido pela companhia de energia elétrica AMPLA, nos dando o direito de tocar com o Monobloco e a Fernanda Abreu em uma das maiores casas de show do Brasil na época, o Citbank Hall.

Na primeira metade dos anos 2000 eu também toquei e gravei com a banda MAU e acompanhei o músico de Samba Rock, André Severo, com qual eu gravei os contrabaixos de um de seus discos e toquei em algumas casas de shows da cidade do Rio de Janeiro. Também fui músico do Grupo Cultural Reconca Rio, tocando viola caipira e tendo participado de vários eventos pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Apesar de ter estudado um pouco de jazz e blues, não cheguei a tocar com bandas destes gêneros musicais que tanto amo. Fiquei um tempo parado de tocar com banda, já que precisei me ausentar do Estado do Rio de Janeiro para cumprir disciplinas do doutorado, em Fortaleza. Quando retornei formei a banda The Seven One, com o Osvaldo na bateria, um amigo que estudou filosofia comigo na UERJ, os amigos de infância, Márcio Zaca no vocal e Cláudio Gonçalves no Baixo, além do filho do Márcio, Ryan, na guitarra. O grupo fez algumas apresentações e perdeu força quando fui convidado pelo amigo baterista, Andrey me convidou para formar a banda Los Artanas, junto com o mesmo vocalista, Márcio Zaca, e o baixista Hélder Montenegro, que também já conhecia desde a adolescência.

A banda Los Artanas emplacou na cena alternativa do Rio de Janeiro e segue ativa, porém, com nova formação, Carlo Di Carvalho no vocal e Cláudio Gonçalves no baixo. Temos tocado em diversos eventos particulares e pubs da cidade. Aos leitores da página peço que nos siga no Instagram: @losartanas. https://www.instagram.com/losartanas/

 Portanto, a minha relação com a música é vital, não escreveria estas linhas sem estar ouvindo música, não raciocino sem música, não estudo sem música, não fico um dia sequer sem pegar nos meus instrumentos, quando viajo sempre procuro uma loja de música, um instrumento para tocar ou dou uma canja com os artistas locais. A música faz parte da minha vida tal qual a hidratação ou alimentação.

E quanto ao humilde, gigante e já saudoso Gustavo Ribeiro de Moraes, o pai de cinco, deixe suas palavras.

Com Gustavo de Mores, o pai de cinco. Ambos fundadores do PL – Integração

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Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante como se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contaram”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundamento e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.

Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante com se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contava”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundado e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.


Considero o Gustavo um exemplar leitor crítico e comunicador. Muitas análises dele ainda podem ser aproveitadas.  E a respeito do professor Mauro Rosa, que tens a dizer?

Conheci o professor Mauro no ano de 2023 através do trabalho de assessoria parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ. No início tínhamos uma relação cordial mediada pela obrigação do trabalho. A rotina e as responsabilidades atinentes à comissão de educação nos puseram em um contato de maior aproximação e conduziu-nos ao estreitamento dos laços de amizade.

Desde o início o que mais me causou admiração no professor foi a sua elegância diante de conversas complexas, sobretudo porque o nível de erudição diluído na simplicidade das explicações, ganhava tônus através da humildade em ouvir respeitosamente os argumentos alheios e em tons suaves sugerir olhares mais analíticos diante das discordâncias, ou seja, sempre sem agressividade ou ruptura de diálogo.

No decorrer desta relação de amizade e admiração, o professor passou a me convidar para participar dos seus projetos, até que me tornei um componente ativo na contribuição para o desenvolvimento deles. Não tenho dúvidas de que isso tenha se dado pelo fato de que temos perspectivas políticas, filosóficas e pedagógicas muito parecidas.

O professor Mauro tem larga experiência no meio acadêmico e profissional, conhece profundamente a história e a literatura nacional, além de ser expert em administração pública. Tudo está comprovado pela produção literária, trajetória profissional e pelo legado material e simbólico que o mestre constrói ao longo de sua vida.

Diante disto, e da sua entrega ética, eu o vejo como um dos homens mais capacitados para assumir uma posição estratégica na política nacional. O professor Mauro possui todos os atributos que parte substancial dos políticos eleitos desde a primeira eleição direta após o regime militar, não possuiriam nem se nascessem novamente. Raras são as exceções e os poucos que os tinham, foram ostracizados ou rebaixados moralmente pelo sistema através das mídias. Caso do Dr. Enéas Carneiro.

Conforme já sinalizei, há uma gama de projetos autorais do professor Mauro em andamento. Todos eles são de iniciativa própria, sem nenhum apoio por parte de empresários ou políticos, e o professor faz questão de mantê-los assim para que não sejam contaminados por políticos de má índole e suas eternas promessas, a avidez por lucros e desinteresse pela autonomia da população. Obviamente que isto tem sido motivo de muita inveja e ressentimento por parte de indivíduos ligado a política partidária, se desdobrando em diversas tentativas de enfraquecer o seu trabalho.

Todos os projetos do professor Mauro possuem enorme potencial transformador, uma vez que operam com profundidade na seara do conhecimento e proporcionam autonomia para as pessoas. Aliás, desconheço no meio parlamentar e no terceiro setor, projetos que tenham a força transformadora daquilo que propõe o professor Mauro. Além da genialidade, mais dois motivos são preponderantes para a ausência de projetos educativos da mesma envergadura do que propõe o professor: 1) A falta de preparo e equipe especializada por parte dos parlamentares brasileiros, para propor ações de natureza similar; 2) A falta de vontade política para proporcionar deslocamentos positivos e transformações concretas no seio da sociedade.

Apesar das dificuldades que o professor tem encontrado para dar continuidade ao trabalho, há substancial e efetiva adesão por parte de pessoas preparadas e dispostas a lutar por um Brasil melhor, sobretudo nos interiores do Estado do Rio de Janeiro.

Geralmente se aproximam do professor as pessoas bem formadas, educadas e de famílias tradicionais nas cidades em que residem. São cidadãos que estão enfraquecidos na esperança pelo Brasil devido aos escândalos da atual política. Fartas de tanta incoerência e corrupção, desaprovam sobejamente a eleição de jovens performáticos e influenciadores digitais, optando por credibilizar a experiência e a solidez de bons projetos de quem tem trajetória profissional e educacional de excelência.

Tenho absoluta certeza de que o Brasil tem desperdiçado os melhores talentos e isso ocorre porque, de um lado, a vaidade, o medo e a ganância de políticos profissionais inviabilizam a assunção de novos atores; de outro, a distração do povo e a adesão imediata ao que está na superfície dos problemas, dificulta que os bons projetos floresçam. Tudo isso interdita o país, rebaixando a sua moral, a sua cultura, a sua inteligência, o seu espírito e a sua produção.

O professor Mauro é uma mente prodigiosa acoplada em ser de caráter ilibado e um corpo fortalecido pelo espírito aguerrido de quem sabe que o caminho não é nada fácil; que o reconhecimento muitas vezes acontece postumamente, mas que nada disso pode impedir-lhe de ter coragem. Nenhum homem produz algo realmente revolucionário (no emprego correto da palavra) sem se preparar e sem se testar. 

Definitivamente, hoje o professor Mauro é um dos meus melhores amigos, mas eu não escrevo estas linhas para agradá-lo, e sim como um homem estudioso e justo, que sabe reconhecer o verdadeiro valor da vida, da guerra e da morte. Tenho um profundo desejo de ver triunfar todos os seus projetos e se possível continuar fazendo parte de sua equipe.

O professor Dr. Mauro Rosa é um grande expoente da cultura e da educação, um homem que deve ser aplaudido de pé e valorizado, a ele devemos todas as honrarias e orgulharmo-nos diante da certeza de que em nossa amada terra ainda existem homens brilhantes, varonis e éticos, capazes de sacrificar o próprio patrimônio material pelo bem comum.

Ao leitor que ainda não conhece o professor Mauro, deixo aqui o arrouba do seu Instagram para que possa se deleitar das análises e conhecer os projetos de que tanto falei nestas linhas: @prof.mauro.rosa.

Ao professor Mauro, todas as reverências de um amigo fiel e admirador do importante e necessário trabalho realizado em benefício da população brasileira, sobretudo a fluminense, que recebe de forma direta e objetiva os benefícios dos seus projetos.

As análises e as propostas do professor Mauro Rosa realmente são de alta relevância. Recomendo a todos. Para finalizar, Esperança?

É a última que morre, diz o ditado. “Enquanto há vida, há esperança”; e para mim esta é a tradução perfeita para o bem viver, pois na medida em que perdemos a esperança e a fé, enfraquecemos o nosso espírito.

Portanto, eu tenho a esperança de que o mundo melhore, as pessoas se tornem mais inteligentes e nenhum absurdo seja tolerado. Que haja equilíbrio na política e na economia global.

Em âmbito mais específico, oro para que o Brasil resolva suas questões éticas e morais, fazendo florescer uma cultura mais leve e saudável, no entanto, sem deixar de punir os que das melhores normas de convivência se afastarem. Nesta equação, o meu senso de justiça está assentado no clamor por severas sanções para políticos envolvidos com corrupção e bandidos de todas as ordens (assaltantes, homicidas, estelionatários etc.).

Pode parecer clichê, mas nosso Brasil precisa de mais educação, saúde, infraestrutura urbana, oportunidades de emprego, moradia para os mais necessitados, segurança, menos burocracia, liberdade econômica e estabilidade política, elementos fundamentais para que possamos estar desinterditados.

Nesse sentido, a minha esperança ainda reside no retorno a sã política, na abertura para que homens como o professor Mauro – experientes, preparados e bem-intencionados – tenham a chance de mostrar o valor do brasileiro que ama o seu país e o seu povo.

Com sua mamãe Dona Eunice.

FIM

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

Fernando Santos de Jesus e suas contribuições à sociologia brasileira

( Sobre cultura e nossas questões étnicas)

Em entrevista com o economista José Coimbra.
Em entrevista com o economista José Coimbra

Alguns importantes nomes tenho acompanhado há mais de três anos, pelos esforços humanísticos e, por isso, não menos patrióticos, conscientes e raciocinantes. Dois deles são Fernando Santos de Jesus e Gustavo Ribeiro de Moraes.

Vamos pela ordem. Conhecer um cidadão também por sua escrita, além de vê-lo por vídeo ou ouvir sua voz em mensagem de áudio, fascina a todos os que valorizam o conhecimento e a vida. A escrita nos transmite um sentido de… “mensagens cravadas”. Ensinaram-me que a poesia é a síntese do homem contemplativo e sensitivo. No caso de Fernando, em sua prosa e dissertação teremos a analítica de suas vivências, pesquisas e reflexões.

Em sua obra “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” (2022, edição do autor), o carioca de Engenho de Dentro se apresenta já demonstrando seu bom manejo na arte da sociabilidade. Vindo de uma família humilde e extensa, tornou-se doutor, professor e pesquisador não sem antes viver a música, a capoeira e a cidadania participativa. Após formar o ensino médio, trabalhou como auxiliar administrativo. Passou pela UFRRJ por 4 períodos, onde tomou contato com a literatura de questões raciais, e depois ingressou na UERJ, quando sentiu na pele o movimento estudantil. Participou de congressos, viveu, testemunhou e, como ele mesmo escreve, “encheu-se de reminiscências que dariam outro livro”. Fez o seu trajeto como faria qualquer brasileiro típico que adolesceu na década de 90: sobreviveu a juventude até o início dos anos 2000; estudou, parou; voltou a estudar e conseguiu se mobilizar socioculturalmente durante a segunda década deste século.

Sobre o apelido Senzala? Está lá na página 12. Mais por aspectos gregários do que pela temática espinhosa deste escravo da liberdade. Repetimos: tratamos de um cidadão participativo, familiar, amigável. Por isso, suas vivências amistosas já são sua extensão à vida acadêmica.

Doutorou-se no Ceará e lá testemunhou os tentáculos do globalismo, digamos, racialista e causador de mais injustiças. Estudou a Conferência de Durban (2001) e os respectivos efeitos das conhecidas deformações, também no Uruguai. Entrevistou em Brasília, perquiriu, pesquisou, investigou. E o que mais nos admira em Fernando Santos é a sua cristandade de não guardar ressentimento dos ex-colegas que permanecem no erro. O estudioso aponta e critica as incongruências e as distorções prejudiciais aos brasileiros.

Músico, ele dá um stop nos ruídos e chama à ordem e à harmonia todos os tons e timbres. Retira os floreios excessivos do identitarismo, afasta a péssima regência dos globalistas e enfrenta os falsos alicerces da militância de base, desmascarando carreiristas, oportunistas e covardes. Como está na sinopse, às costas do livro, o escritor “não apenas conceitua e teoriza, mas expõe, cronologicamente, exemplos práticos e ilustrativos do painel”. 

Defende a verdade dos fatos, descreve os atos como eles são, reivindica o mérito, este que é um dos pesos da balança da justiça.

Tem a ginga. Sabe a briga com lealdade. Suas entrevistas, seus painéis têm sabor. Afrobrasileiro autêntico como os de décadas e séculos mais distantes. Um homem do oeste e dos trópicos. Do Rio de Janeiro de São Sebastião. Nota por nota, o capoeirista demonstra como os agiotas aliciam. Os aliciados não podem pensar de forma autônoma. Ficam presos numa dívida impagável. A expressão “agiotas raciais” foi inspirada do livro “Podre de Mimados”, de Theodore Dalrymple.

“Senzala” ousa ao dar “lugar de fala” a um branco bem-sucedido. O prefácio do escritor e desembargador William Douglas tem sido lido aqui em Minas em voz alta por algum membro-afro do Tribunal de Ética da OAB. Douglas nos ajuda a dar peso ao labor precioso de quem sabe colocar princípios e verdadeira causa acima dos movimentos e dos processos viciados.

Apropriação cultural. Dívida histórica da escravidão. Necropolítica, todos esses slogans “são teores e teorias de um racialismo, disseminando distopias sufocantes e climas esquizofrênicos, em que os indivíduos devem estar antecipados às circunstâncias, prevendo o cenário e as características físicas dos seus inimigos imaginários”, afirma o autor na introdução, último texto de apoio. 

O livro se desenvolve em sete partes. Ricas são as referências bibliográficas, com autores de vários espectros e nuances doutrinárias. O anexo de encerramento fecha a tampa da caixa anteriormente obscura que, após a conclusão da leitura, torna-se bem clara para quem fora da caixa consegue pensar. Encerramos agradecendo a Gustavo Reis e a toda equipe do Aliados Brasil Oficial pela apresentação deste importante e talentoso pensador brasileiro.

Abaixo o link para aquisição de exemplares.

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Abrindo a Caixa Preta ⋆ Loja Uiclap

Próximo lançamento

Artigo publicado anteriormente no site Aliados Brasil em 03.07.2025: https://www.aliadosbrasiloficial.com.br/coluna/fernando-santos-de-jesus-e-suas-contribuicoes-a-sociologia-brasileira

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

Música, poesia & literatura, uma conversa com Goiano Braga

Música, poesia & literatura, uma conversa com Goiano Braga – Cantor e compositor

…em gravando Nunca, de Lupicínio Rodrigues, Nunca – Goiano Braga

Goiano Braga é músico, compositor-intérprete, arranjador der user das clássicas canções brasileiras e estrangeiras. O músico explora o que de mais alto se produziu na história da música popular e urbana, indo do período entre guerras até, principalmente, os anos 70 e 80, com destaque para o samba-canção, “essa nossa invenção semierudita”, segundo a estudiosa Mariza Lira e o historiador José Ramos Tinhorão. Goiano nasceu e cresceu no seio de uma família de poetas e escritores, junto de irmã também cantora-intérprete, Glorinha Braga. Falamos da família Braga Horta, originária de Minas, e que se amplia por entre amigos, parceiros e admiradores por todo o Brasil.

Dentre o repertório do artista, que podemos encontrar nas redes, estão o samba-canção, o bolero, o fox-blue, cirandas-xaxados, o rock clássico.

Sua discografia pode ser acessada em todos os “streamings”, pesquisando Goiano Braga.

Algumas mostras das mais de cem músicas compostas em parceria com Célio Mattos, podem ser acessadas na Internet pelo   nome Célio Mattos ou por busca usando o nome da Jiripoca Band.

Sua mais recente atividade musical é a criação de vídeos domésticos, tipo “um cantinho, um violão” & um celular, sem qualquer aparato técnico, como efeitos de reverberação, eco, corte, colagem, com o intuito, apenas, de registrar as músicas “de sua época”, para manter viva a memória da boa música não só brasileira, como a de outros países, em Espanhol, Inglês, Francês e Italiano.

Goiano, comecemos pela nossa emblemática pergunta metafísica: de onde veio, onde está e para onde vai Goiano Braga?

Fui contrabandeado de Minas Gerais para Goiás, onde nasci. Da cidade natal, Goiás, no Estado do mesmo nome, a família voltou para Minas, quando eu tinha quatro anos. Moramos em algumas cidades e terminamos por nos fixar em Lajinha, onde fiquei até os 14 anos. Em seguida nos mudamos para o Rio, onde fui office-boy, auxiliar de escritório e redator de correspondência, quando em 1963 meu irmão Anderson me convocou para Brasília, para fazer concurso público. Antes de passar e tomar posse na Câmara dos Deputados ainda trabalhei em empresa particular, como secretário do diretor. Para onde vou? Ainda estou em construção.

Conte-nos um pouco sobre sua primeira infância, as brincadeiras, os estudos, a família, enfim, a formação da personalidade.

Em Lajinha, onde passei a infância e puberdade, fui muito feliz, brincava de tudo, nadava no rio, andava de bicicleta, passeava pelas estradas, furtava frutas, jogava futebol e baralho, uma atividade intensa, e também dançava, desde bem jovenzinho. Nos estudos, fui um tremendo vagabundo, salvo no primário, em que conquistei o primeiro lugar. No ginásio… fracasso total. Deparei-me com os obstáculos que afetariam toda a minha vida futura: matemática, física e… latim! Por isso, fui internado por alguns meses no Ginásio Ruy Barbosa, onde não me emendei. Meus pais eram muito liberais e me deram o tempo necessário para tomar jeito, de modo que, embora fosse capaz de matar aulas para jogar sinuca quando ainda nem alcançava direito a mesa (era chamado de Fancho Kid, porque precisava usar esse equipamento para alcançar as bolas), e fumasse, e tomasse uma ou outra cachacinha, e fizesse tantas outras estrepolias, fui formado no sentido da honestidade, da ética, do caráter, moldado para no futuro ser trabalhador, responsável, e chefe de família na medida do possível correto e dedicado. Em Lajinha tive minhas primeiras (e a primeira, aquela que tanto nos marca) paixões, fiz as amizades mais duráveis de toda a vida. E foi aí que, mergulhado em um ambiente de literatura e de música, senti vontade de escrever, e escrevi, muito menos do que deveria e poderia, e me apaixonei mesmo pela música, comecei a cantar, envolvido pelos artistas da época, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Orlando Silva, Lucho Gatica, Gregorio Barrios, enfim, aqueles cantores de belas vozes e repertórios românticos, especialmente boleros e sambas-canção. E achei que tinha boa voz, que era afinado, e que poderia cantar no rádio, enquanto cantava para mim mesmo no banheiro (e às vezes ao lado do piano de casa, acompanhado pela minha irmã Glorinha). Essa época despreocupada e dos tempos mais felizes da vida foi intensa – e para descrevê-la seriam milhares e milhares de páginas.

Quando começou a cantar em público e a correr o risco de escrever canções? Atua mais como letrista ou como compositor? Aproveite também para falar das parcerias.

Com sua mana Gloria Braga
Cantando com sua irmã Glória Braga

Domesticamente, cantava habitualmente nas festinhas da família e de amigos desde os meus vinte anos. A partir de então é que era cantor constante nos aniversários. Mas em público mesmo, primeiramente foi em coral. Em seguida, e tardiamente, em show universitário, boite, barzinho, restaurante, casamento, eventos em geral, foi mais ou menos a partir já dos meus cinquenta e cinco anos (!), após mudar-me de Brasília de volta para o Rio, e logo em seguida para Petrópolis, nos idos de 1998, quando minha irmã me convidou para participar de apresentações na noite de Brasília, em locais como o extinto Otello, o Café Com Letras e mais algumas “gigs”. Nessa fase, Glorinha contratava as apresentações, as datas, os locais e os músicos e eu ia a Brasília especialmente para isso. Foi um barato!

A partir dessa experiência, comecei a gravar as músicas “do meu tempo” com artistas no Rio que faziam esse serviço em estúdios domésticos, do que resultou gravar um CD em estilo profissional, com boleros e sambas-canção.

Goiano Braga canta

Participando de encontros de artistas no Rio, decorrente dos trabalhos de gravação que fazia com Marcos Vampa, conheci um band líder brasileiro residente em Lyon, na França, o Célio Mattos, que voltou para a Europa – e por algum motivo começamos a escrever música juntos, por correspondência, ele compondo as melodias e eu as letras.  De brincadeira, fizemos um mutirão do qual resultou mais de uma centena de composições, entre sofríveis, razoáveis, boas e ótimas, como não podia deixar de resultar desse desafio.

Quais de suas composições você recomendaria, digamos, alguma atenção especial, para o público que venha a se interessar pelo seu trabalho?

São várias, mas as que mais sobressaíram são Rio de Janeiro, A Deusa do Cabo Verde, Morena Xaxando, A Canção da Minha Terra e Quebra-Queixo, que, assim como muitas outras, podem ser encontradas nos diversos “streamings”, bastando pesquisar pelo nome do Célio Mattos, ou Jiripoca Band, ou o meu nome artístico: Goiano Braga.

Em 2024, incomodado com o fato de não me adaptar à nova estética musical desta fase algo estranha da música brasileira e estrangeira, resolvi registrar em vídeos, no Youtube, aquelas músicas que acho belas, muitas delas que faziam parte dos meus repertórios, outras que simplesmente considero especiais, isto é, as “músicas dos meus tempos”.

Assim, o tempo escorreu e hoje já cheguei a mais de 360.

Decidi continuar e este ano já fiz mais alguns vídeos. Quem sabe chego aos quatrocentos. Estão na minha plataforma – Youtube.com/@GoianoBraga.

“Fase algo estranha da música brasileira e estrangeira”. Arrisca apontar alguma das causas desta estranheza?

Rapaz, isso é um ninho de marimbondos! Falar mal de alguma manifestação cultural nos arrisca ao cometimento de extremas injustiças. Explico por que penso assim. É que creio que a época que o indivíduo vive cria a sua estética, pois, como disse José Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. As circunstâncias posso entender como o meio. E, veja, eu fui criado com a estética da valsa, da canção, do samba-canção, do bolero, do samba, da bossa-nova, do rock, do blues, da country music, das canções e baladas americanas, italianas, em espanhol e brasileiras, que formaram minha personalidade musical marcantemente nos anos 50 e 60. Havia, então (o que foi pouco a pouco se perdendo) muita criatividade melódica, por meio de uma estrutura às vezes complexa, outras simples, mas sempre harmoniosa. Chegamos aos tempos atuais, quando, para nós, da outra geração, entendemos estar ouvindo melodias muito limitadas, quase monocórdicas, ou “duras”, pouco equilibradas. O que quero expressar é que quando ouço (uma parte delas) me parece tudo igual. Outra parte são as músicas que não trazem surpresa melódica, o que é o caso mesmo das norte-americanas, que primavam por uma elaboração que trazia com a criatividade a surpresa melódica. Essa surpresa é, no humor, o que nos faz rir. Na música é o que nos faz emocionar. Felizmente, mesmo na aridez há belíssimas exceções, que não são poucas; e isso que parece uma contradição não o é, porque uma boa parte das exceções não esteve no topo das paradas…

Quer ver? Nunca ouvi nas paradas o disco Terra, bolachão, de Sá, Rodrix e Guarabira, com excelentes canções, Blue Riviera, O Pó da Estrada, Mestre Jonas, Pindurado no Vapor, O Brilho das Pedras, Até Mais Ver…

Ferreira Gullar, ao resenhar certo álbum de Nara Leão, escreveu que o bom cantor-intérprete precisa ser capaz de sustentar, com argumentos sólidos, a montagem do repertório. Eu, particularmente, percebo que hoje temos bons cantores do ponto de vista técnico. Porém, intérpretes neste sentido, hoje em dia, deixam tudo a desejar. Que você poderia nos dizer a respeito?

Ah, eu acho que o bom cantor é o que tem boa voz (timbre), afinação e demais qualidades vocais que o distinguem das demais pessoas quando interpreta uma canção. Aí, como eu disse “interpreta”, já está implícita a interpretação, que é um conceito bastante vasto. É que entendo como “interpretar” o ato de apresentar corretamente, com a emoção adequada a cada caso, a música cantada.

 É costume dizer que “intérprete” é o artista que não apenas canta uma música (usa a voz tecnicamente), mas a vivencia, atribuindo emoção, significado e personalidade à letra e melodia, muitas vezes sem ser o compositor da obra; e que enquanto o cantor se concentra na técnica vocal, o intérprete foca na interpretação, humanizando a canção e criando uma conexão genuína com o público. Mas eu penso que esse tipo de concepção de “intérprete” já está abrangendo o que é verdadeiramente um cantor. O que quero dizer é que quando se atribui a uma pessoa a qualidade de cantor ambas as qualificações devem participar da adjetivação, isto é, cantor é o que sabe cantar e interpretar – possui timbre, afinação e capacidade de atribuir à composição a emoção a ela adequada.

Mas… há circunstâncias que fazem um cantor sem que ele possua timbre vocal tecnicamente qualificável como adequado aos padrões usuais, mas que o tornam especial, como poderia ser o caso de um Nélson Cavaquinho ou mesmo de um Chico Buarque…

Tenho muito medo de criticar, como por vezes estou à beira de fazê-lo quanto à chamada música sertaneja atual, tipo “Sertanejo Universitário” (“Pop” Sertanejo), o da “Sofrência”, o “Feminejo” (que é mais ou menos a mesma Sofrência levada pelas cantoras, e  até as misturas de forró com funk para resultar num estranho sertanejo “agroplay”, e tenho medo de criticar porque preciso cuidar do princípio de que o que é ruim para mim pode não sê-lo para outros e a estética é formada de modo tão particular que há mesmo o ditado que diz que “quem ama o feio, bonito lhe parece”, e o melhor exemplo disso é o cachorro da raça “Pug”, aquele cachorro falante do filme Homens de Preto.

Ufa, já estou me envolvendo na teia da prolixidade novamente!

Mas, e o repertório? Não tem erro! O cantor deve montar o repertório com as músicas que ficam bem em sua voz e o ouvinte deve montar sua lista naquilo que gosta de ouvir. Simples assim?

Em relação ao canto, no início imitava algum cantor? Foi difícil encontrar o próprio timbre?

Sim! Cauby Peixoto! O Cauby dos seus tempos menos afetados. Houve algumas influências anteriores a ele, mas foi o seu timbre maravilhoso que me encantou e que procurei reproduzir. Mas logo senti que queria ter o meu próprio jeito, meu próprio estilo, minha voz particular, e usei a admiração por ele como o caminho para chegar à minha personalidade.

Carlos Lyra certa vez disse que a bossa-nova é mais influenciada pelo samba-canção do que pelo jazz. Comente, por favor.

Rapaz, há uma certa apreciação técnica nessa questão que não me sinto apto a comentar, mas se o Carlinhos Lyra disse eu me sinto inclinado a acreditar que ele sabe do que está falando. Afinal, trata-se de um dos expoentes do movimento Bossa-Nova!

Entrando mais na parte da música mista, com texto poético. Muitos letristas-compositores frisam, cada um a seu jeito, as diferenças entre letra de música e poema escrito. Gostaríamos de saber sobre sua experiência.

Acho que a letra de música, embora poética, é mais fruto de pura inspiração e liberta da técnica rigorosa, enquanto o poema – a poesia pura, escrita e falada – precisa observar certos cuidados que implicam rima, métrica, ritmo e tipo de versejamento, para poder ser assim considerado. Não falo da chamada poesia moderna, que independe da maior parte desses aspectos técnicos, porque essa eu, pessoalmente, considero mais uma crônica espalhada do que propriamente poesia. Já a letra de música dispensa qualquer cuidado e só há de ser boa ou ruim. A minha experiência pessoal é interessante: aprecio fazer a letra depois da música, isto é, o parceiro apresenta a melodia, eu repito várias vezes a audição da música e aos poucos, ouvindo repetidamente, vou “ouvindo” a letra. Por outro lado, quando faço a letra primeiro, tento imaginar uma melodia para ela, o que me ajuda a estruturá-la; quase sempre o parceiro irá colocar melodia e ritmo absolutamente diferentes do que eu imaginara…


Cantando em Café com Letras. Teclados: Marcos d'Abreu - cordas: Daniel Jr.
Cantando em Café com Letras. Teclados: Marcos d’Abreu – cordas: Daniel Jr.

Já tentou e/ou conseguiu musicar algum poema escrito? Ficou satisfeito?

Sim, tentei musicar o poema Mamãe Coragem, do meu pai, Anderson de Araújo Horta. Fiz a primeira parte, em ritmo de rock, e mandei para o parceiro Célio Mattos fazer a melodia da segunda parte. Ele fez e colocou tudo em ritmo de algo como xaxado. Não gostei do resultado geral. Tenho a intenção de refazer como rock. Um dia. Vamos ver.

Ítalo Moriconi, no seu livro “Como e por que ler a poesia brasileira do século XX”, sustenta que, entre nós brasileiros, a maioria dos jovens das últimas décadas foi educado e instruído, em termos de sensibilização, conscientização social e cidadã, mais pelas letras das canções (poesia oral) do que pelo ambiente familiar e escolar. Isso, devido ao alto nível da canção popular brasileira. Concordo com Ítalo. Gostaria de ouvir sua opinião a respeito.

Uau, difícil analisar isso, como fenômeno social generalizado. Creio que pode haver casos que sim e casos que não. Creio que meus três filhos, nascidos no século vinte (de 1971 a 1981), receberam mais a influência familiar, embora também tenham absorvido parte de sua sensibilização e conscientização social e política das mensagens através da música.

Quais as 10 (dez) ou 20 (vinte) letras musicais brasileiras que você recomendaria à juventude brasileira de hoje, digamos, para estudar como texto literário e mensagem edificante?  

Quando se fala de “juventude brasileira de hoje” pensa-se logo em alienação, isto é, em uma má apreensão da realidade política e social do Brasil, ao avaliar-se o resultado das eleições que revelam que milhões de jovens, como também os adultos eleitores, estão ligados a ideias políticas que parecem desconhecer o que foi o período da ditadura militar iniciado em 1964. Por isso, tenho como imbatível, nesse particular, de conscientização social e política, o Chico Buarque, com APESAR DE VOCÊ, claramente dirigida ao General Emílio Garrastazu Médici, um dos “presidentes” desse período abominável da nossa História. Nesse rumo podem-se citar, dele, CÁLICE, como referência não muito disfarçada ao “cale-se” imposto pela censura ditatorial, O QUE SERÁ (À FLOR DA PELE), em parceria com o Gilberto Gil, VAI PASSAR, ACORDA AMOR, TANTO MAR, MEU CARO AMIGO e RODA VIVA. O genial Chico Buarque fez outras músicas de cunho social, e posso me referir, sem pensar, a GENI E O ZEPELIN e CONSTRUÇÃO. E ele também gravou uma música que muitas pensam ser dele, NOTÍCIA DE JORNAL, mas que na verdade é de Haroldo Barbosa e Luiz Reis. E por falar em outros autores, para não me estender muito vou ficar apenas com o CIDADÃO, do Lúcio Barbosa, que muitos acreditam ser do Zé Ramalho, que a gravou – e esse é um problema generalizado na Internet, a não atribuição e a atribuição errônea das autorias. Mas o Zé Ramalho escreveu uma que não pode deixar de ser mencionada, que é O ADMIRÁVEL GADO NOVO, conhecida popularmente como VIDA DE GADO. A letra, embora de 1980, reencontrou-se aqui com a realidade na mesma época em que a Covid se espalhou como mais uma praga no Brasil.

Quero terminar essa conversa com você, Cristiano, para o Pingo de Ouvido – Literatura Brasileira e Memória Cultural, enaltecendo o seu trabalho, esse esforço pela cultura brasileira que merece muito apoio, consideração, admiração, e agradecendo a distinção imerecida de oferecer-me esse espaço para falar de minha modesta contribuição artística.

Nosso projeto e a Pátria que agradecemos a Goiano Braga.

Fim.

Restaurante Burro Blanco - Paris, 2008.

Nunca , por Goiano Braga (ouçamos a gravação finalizada).

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

Por Lopes al’Cançado Rocha

Entrevista especial para Semana da Pátria

setembro, 2024

Selecionamos o maestro Roberto de Souza Barros Kalili, que também é escritor e pesquisador da cultura brasileira. Fundador do grupo Alta Cultura, Kalili acredita que ainda temos muito por fazer. O esforço de sua iniciativa, junto de amigos e colegas, tem sido formar e contribuir para o aperfeiçoamento de professores dispostos a transmitir Alta Cultura, sobretudo nacional, por toda a Pátria, aos jovens brasileiros de hoje e das próximas gerações. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e filosofia são os principais conteúdos postados e comentados no Alta Cultura (f.book), espaço virtual com mais de 6.000 membros inscritos e super colaboradores reconhecidos em diversas áreas.   

Natural de São Paulo, e hoje morando no interior do Paraná, o maestro tem atravessado o Florão da América nesses últimos anos. Travessia horizontal e transversal, tanto no sentido físico quanto em termos documentais, sentimentais e imaginários.

Com seu estilo ousado, às vezes em prosa imaginativa, noutras vezes em prosa didática, Roberto Kalili publicou recentemente na coletânea “Olavo de Carvalho: um filósofo do Brasil (2022)”, e sua obra individual “Alta Cultura Brasileira: uma caçada ao tesouro (2023)”, ambas pela editora Armada.

Kalili, obrigado pela correspondência em público. Poderíamos começar pela sua infância? Vida em família, a educação, os divertimentos e os trabalhos como ator mirim de televisão. 

Quando criança, eu tinha um pequeno disco com duas músicas infantis, “O MACACO E A VELHA”, Festa No Céu, que escutava o dia todo. Joguei muito caxangá, que na versão original se apostam docinhos, tem um dado com quatro lados, tira, põe, deixa ficar e rapa tudo. Sabia fazer pipas interessantes que soltava com quatro rolos de 400 metros de linha emendados, construía miniaturas de aeromodelos e aviões de papel. Quando a criança brinca, está experimentando os diversos papéis que a vida pode nos dispor: aviador, espião, general, músico, automobilista, balonista, cowboy, índio; acho que este é o sentido de brincar; quando um menino constrói um carrinho de rolimã está descobrindo se quer ser um Enzo Ferrari ou Henry Ford, quando desce a ladeira embalado se imagina um Airton Senna ou Emerson Fittipaldi, destarte construímos nosso futuro a partir dos sonhos. Tive a oportunidade de experimentar muitos destes papéis na vida real, e assim fui construindo a vivência necessária para a formação de um escritor. A experiência como ator-mirim pode ser uma faca de dois gumes, pois gera algumas falsas expectativas. Não aconselho a ninguém colocar a seus filhos na frente das câmeras para ser julgado pela multidão, mas para brincar, aí sim pode ser legal. Eu trabalhei em comerciais antigos, ainda na televisão em preto e branco, para a Nestlé, Omo Total, Kibon, Viva Sabão, Arroz Brejeiro, Banco do Brasil e outros, entre 1964 e 1972.

E como foi o início nas artes? Adolescência, juventude, apreciação, aprendizagem…

Gostava de teatro e de apresentar peças de polícia e ladrão, compunha canções desde muito novo, comecei com paródias. Gostava de ler, mas após a quinta série tive maus professores que raramente me ofereciam a liberdade para escolher os livros. Me vestia de preto e pintava o rosto com carvão para andar como espião pela noite, também fabricava balões de São João e imaginava voar neles ao sabor dos ventos; acho que nem é sobre mim, mas sobretudo o que as crianças fazem de legal, coisas como subir em árvores, construir cabanas de pau e folhas, andar pelo mato feito bicho, escrever poesias. Rabiscava planos mirabolantes, vivia papéis de cowboy, gangster, índio, biólogo, vivia mesmo. Quando eu cismava em ser biólogo, trabalhei no Butantã, no departamento de recepção de animais peçonhentos (COBRAS E ARANHAS), alimentei a elefanta do zoológico, e o hipopótamo Cacareco, os camêlos, as ariranhas, criei uma cobra caninana, resgatei um falcão, uma tartaruga, montei aquários. Um dia resolvi virar índio e sumi pela floresta da Serra do Mar; quando resolvi que seria cowboy montei um touro de 700 quilos (aos seis anos de idade…) o que forma um escritor é viver!

Muitos artistas enxergam, ainda que poeticamente, uma certa interdisciplina entre as primeiras artes com que temos contato a partir da infância: música, dança, literatura oral e artes plásticas. Lembremos da afirmação de Goethe, de que “arquitetura é música petrificada”. Como o maestro percebe essas relações?

        Toquei violão, depois guitarra, violino, contrabaixo, bandolim e cavaquinho. Fui da MPB ao rock, depois jazz rock, progressivo; toquei em orquestra, grupo renascentista, barroco, fui baixista de estúdio, morei na praia pintando barco de pescador, fui barman (menor de idade). O estudo musical favorece o desenvolvimento do complexo cognitivo estimulando a função do córtex.

Em geral, nossa relação com artes se dá na seguinte ordem: primeiro pelas atividades lúdicas; depois como instrumento de expressão da personalidade; em seguida como experiência de vida e reflexão filosófica; e por fim, como ritualização da nossa própria vida espiritual, uma forma de buscar o sagrado. No seu caso, está sendo mais ou menos dessa forma? O que o Kalili sexagenário de hoje diria ao Roberto quando adolescente e jovem?

É uma pergunta difícil, eu costumava fazer promessas para toda a vida, jurei que caso chegasse aos quarenta como uma pessoa normal enfiada numa vida sem graça eu iria jogar tudo para o alto e sair pelo mundo para recomeçar. Fiquei satisfeito com aquilo em que me tornei, não gostaria que fosse de outra forma. Meu conselho seria para começar a estudar música mais cedo. Creio que a maior parte do que disse até aqui comprova sua teoria, do brinquedo para a expressão, da experiência para a vida, apenas no meu caso a vida espiritual começou bem mais cedo. Acho que ainda sou assim, quando remo solitário durante a noite no Rio Ivaí, ou saio montado na fazenda atrás de vaca brava, quando toco meu cavaquinho ou viajo por aí a conhecer o Sul, a Argentina e o Paraguay, ainda sou aquele sonhador. Quem deixou de viver seus sonhos está morto para a vida espiritual. Algumas vezes eu puxo demais pelas pessoas porque desejo que elas percebam isto com clareza, que não desperdicem suas vidas. Acredito que o vitimismo é parte do medo que ancora o espírito; então você é capaz de me encontrar andando pelos andes vestido como um inca, ou na praia de Ilhabela vivendo como um caiçara, ou como um ganadero (pecuarista) no Paraguay, saiba que ainda estou vivendo intensamente o sonho da vida, e que o mundo espiritual é inacessível para quem não experimentou a realidade em sua essência mais pura.

Conte-nos como e quando você passou a ler e a estudar sobre filosofia e história da arte, os temas, autores etc.

Quem me influenciou um pouco mais a escutar música foi minha avó Evelina, nascida em Dresden, que era a pessoa de maior cultura em minha família, escutava muita música clássica e gostava de ler Seleções. Minha iniciação nos grandes mistérios se deu espontaneamente, ainda antes de completar quatro anos. Foi uma coisa mágica, através da graça, não havia qualquer mérito meu que justificasse. Fui sim interessado por diversas culturas ao longo da vida, os persas antigos, judeus, chineses, japoneses, indús, franceses, alemães, gregos, incas, jesuítas, busquei em todos os lugares na esperança de encontrar em algum.

Lopes:                                                                     

– Mas e a relação com a dança?

 – A dança ocupa o centro de equilíbrio na base do cérebro, envolve o labirinto (do ouvido interno). Dancei muito pouco, gostava das músicas lentas e o advento da “disco music” em São Paulo me afastou da prática. Me encantam os antigos bailes valseados de Johann Strauss, acho que se eu tivesse tido a oportunidade de vivenciá-los gostaria muito mais de dançar.

Lopes interrompe novamente:

– Sim, mas, durante a execução, maestro e músico dançam com as mãos, com os pés e a cabeça…é nesse sentido,não?                                                                   

– Pode-se unir música com pintura, letra, canto, dança, acredito que nestes casos a música fica contida em um limite; eu quando estou regendo fico sentado, de olhos fechados, me comunico apenas de leve, faço o grupo repetir mil vezes, até soar como um dente-de-leão pairando na brisa. Minha formação deve muito à prática em quarteto de cordas. A parte literária tem como referência três pequenos livros azuis que recomendo a todos para serem lidos ao mesmo tempo: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), Ortodoxia (G.K.Chesterton) e Itinerário da Mente Para Deus (São Boaventura). Claro que há centenas, senão milhares de títulos para se estudar, escritores de ficção (Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, James Clavell, Agata Christie, que ajudam ao jovem a desenvolver o prazer da leitura, e diversos contistas brasileiros de qualidade (Gastão Cruls, Inglês de Souza, Vicente de Carvalho), com vocabulários bem mais sofisticados e estilo culto. A história da arte (assim como toda a história), é apenas uma narrativa, o que se deve estudar é autor por autor, não acredito em coletivos. Os livros “Subliminar” e “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodnow foram importantes para aumentar meu conhecimento em neurociências. De Mario Ferreira dos Santos o livro “Ontologia e Cosmologia” foi o melhor que encontrei para entender a relação entre a filosofia e a vida espiritual. Professor Olavo de Carvalho é uma grande leitura para o entendimento do mundo em que vivemos, sua capacidade de sintetizar pensamentos complexos em fórmulas simples e expor falácias e erros do pensamento moderno a partir do pensamento dos grandes gênios da humanidade é única no mundo. Recomendo começar pelo “Diário Filosófico”, e não parar.

A arquitetura visa acomodação familiar, segurança e praticidade; música por outro lado é arte abstrata, não visa o corpo, mas o espírito. Com exceção honrosa para Gothfried Leibnitz, tenho profundas desavenças com a filosofia alemã, pois em meu entender havia uma outra Alemanha, bela, poética e rural, que a filosofia de origem oriental e o protestantismo esmagaram. Um país de contos de fadas, talvez a maior perda da humanidade, a Alemanha católica. Deixando de lado o argumento “ad hominem”, a música é movimento, então a máxima de Goethe pode ser comparada à nossa ex-presidenta quando falou em “estocar o vento”. Quer dizer, petrificar movimento é, ou não é a mesma coisa que estocar o vento? Vamos à interdisciplinaridade, segundo São Boaventura, as seis asas do serafim para quem busca uma imagem do Deus invisível através de suas qualidades.  A primeira asa para a escultura, o objeto real e material, as imagens dos Santos, a arte dos gregos, a expressão da beleza que fala diretamente ao espírito e cuja máxima expressão é a Pietá de Michelangelo, a imagem de Nossa Senhora com o corpo de Cristo em seus braços. A segunda asa do serafim para os grandes pintores, as obras eternas que exprimem a imagem, que estimulam o hipocampo, que mostram os grandes sentimentos, a vida superior, os momentos mágicos do passado, a grandeza de Deus em sua infinita misericórdia, os grandes mistérios, as visões de Pedro Américo, as imagens que tocam o coração e a alma humana. A terceira asa para a literatura, a construção da linguagem, oratória e retórica, a argumentação, o Organon de Aristóteles, a gramática e a ortografia, a matéria com que trabalham os escritores. A quarta asa para os grandes poetas, para as máximas literárias, e para a oração. O homem diante do seu Criador, a essência que pode ser transmitida através do diálogo com a tradição, as lições de vida condensadas de forma curta e objetiva, os exorcismos, a gratidão, o incensório a vibrar sobre nossas cabeças. A quinta asa para a música, a expressão do movimento, a vibração traduzindo as harmonias sutis que nos envolvem e governam, capazes de reger nossas interações sociais, essenciais para a construção de uma personalidade culta. A sexta asa para o planejamento, o seu trabalho, seu papel neste mundo. Que todas estas artes possam ser combinadas para produzir o efeito de imersão cultural é uma benção que raramente merecemos, mas vamos assistir ao filme “Música e Fantasia”, de Walt Disney e pensar melhor sobre isto.

Como você conheceu o poeta, filósofo, escritor e jornalista político Olavo Luiz Pimentel de Carvalho? Quais foram as suas primeiras impressões sobre ele?

Quando estudei contraponto, a partir de 1985, tive contato com o professor que morava com o Olavo, Ricardo Rizek, e estudei um tanto de filosofia. Rizek e o Professor Olavo faziam um interminável debate filosófico, do qual eu (10 anos mais jovem que o primeiro, e quinze anos mais jovem que o segundo) muitas vezes conseguia participar de forma certeira, dando a palavra final. Professor Olavo era como uma lenda para mim, o debate filosófico entre ele e o Professor Rizek atingia um nível raro que é difícil descrever, a arte de Tarkóvski, o Pitágoras de Mario F. dos Santos, os poetas da pérsia antiga, sufismo, taoísmo, xintoísmo, o contraponto de Bach, a integração de todas estas coisas. Eu nunca encontrava o Olavo pessoalmente, e só fui conversar direto com ele muitos anos depois, através da internet, quando já residia nos Estados Unidos. Ele me orientou bem, desmanchou algumas ideias que tinha como certas, mas que eram verdadeiros edemas em meu pensamento -por exemplo, o budismo, que me parecia lindo, um único ser eternamente amando a si próprio no auge da perfeição  – ; mas na verdade era bem menos interessante do que o amor cristão piedoso pelo próximo, com qualidades e defeitos. Por isto os Santos budistas têm seus olhos fechados, e os católicos têm olhos bem abertos. Mas a maior influência veio mesmo daquela aula sobre Alta Cultura ministrada no programa “True Outspeak”, em que o Professor me demonstrou a necessidade de conhecer o mundo através de nossa própria cultura, o que me levou a formar o grupo de alunos no Facebook.

Alta cultura. Há trinta anos, os termos mais usados eram cultura erudita e cultura clássica. Muitos tinham certo preconceito, associavam a elitismos, à sujeição do brasileiro às antigas potências europeias coisa e tal. Hoje, alguns defendem até uma dita “aprofundada descolonização” de nossas heranças ibéricas e Norte-ocidentais. Que você tem a dizer sobre isso?

O termo alta cultura tem uma razão de ser, ele evita o uso de termos como “arte”, que foram degenerados pelo mau uso. Quando se fala em música erudita, por exemplo, você inclui as bobagens infantis de John Cage na mesma categoria de Bach. Isso é ofensivo! A degeneração cultural não deveria jamais ser chamada de arte, então sou obrigado a chamar de música clássica, não “erudita”, afinal ela se apoia em uma cadeia de valores clássicos gregos-romanos-hebraicos, ou seja, ela busca a virtude como expressão da natureza divina. Se Frida Kahlo (canibal, medonha, tosca e desprovida de virtudes, pode ser considerada arte, então o termo vale para o que um bebê deixa em suas fraldas, mas não serve mais para Jerônimo Telles-Júnior. Deixar de lado nossas influências europeias é voltar a um estado animalesco.

Lopes:

John Riches, professor das áreas de Divindade e Crítica Bíblica, da Universidade de Glasgow, em seu livro “Bíblia: uma breve introdução” (L&PM Pocket), traduzido aqui por Denise Bottman, tem um capítulo só sobre a influência das Sagradas Escrituras nas artes. Riches, ou a tradutora, também usa o termo Alta Cultura. Chineses e russos, por exemplo, que hoje pretendem liderar a política na Ordem Internacional, valorizam enormemente as heranças europeias: as grandes epopeias, as arquiteturas, a sonata, o soneto etc. O dito “antropofagismo filosófico” e o freudomarxismo bestial, de um José Oswald de Souza Andrade, ainda são grandes desserviços para nós, nesse sentido. Membros da ABL fazem de tudo para ocultar um Olavo Bilac, um Olegário Mariano, um Ribeiro Couto…mas ainda exaltam os resultados da Semana de Arte Moderna e do modernismo paulista. O modernismo mineiro é outra coisa.

Kalili:

-Bem, falar sobre a “Semana de Arte Moderna de 1922” é coisa que geralmente não faço, mas como sei que muitos leitores jamais ouviram a verdade, vou contar a partir de uma experiência pessoal. Em 1978, morava na rua um vizinho coronel, bruto mesmo, que era pai de dois guris, o mais novo andava comigo, e era um rapaz muito perturbado: sofria de complexo de culpa e fazia coisas terríveis apenas para ser punido. O irmão mais velho era diferente, estudioso, responsável, tanto que o pai se sacrificou para lhe pagar um curso de direito em Londres. No último mês, o coronel não falava outra coisa: você é uma porcaria, nunca vai ser ninguém, deveria se espelhar em seu irmão, ele volta doutor formado, vai ser juiz – sonhava o pai. Quando o coronel e a esposa foram, cheios de orgulho e pompa, buscar o jovem prodígio no aeroporto eu estava na rua e vi tudo. Meu amigo se sentia um inseto; porém ao voltarem para casa, ao invés de um doutor de casaca, traziam um rapaz magro, com cara de mendigo, chinelão franciscano no pé imundo, cabelo parecendo ninho de urubu, calça de saco de arroz e camisão de estopa. Era o “doutor”. A única coisa que ele trouxe de Londres foi uma coleção de discos do Frank Zappa recheados com cartelas de LSD. Para piorar a situação o irmão mais novo se espelhou nele, assim como um grande grupo de jovens, que aprenderam música e gravaram até alguns discos de sucesso acompanhando um doido paranaense. Mas e a semana de arte moderna? Pois foi exatamente a mesma coisa; os pais aqui achando que estavam mandando seus pimpolhos estudarem na França para se tornarem gente, e eles voltaram como um grupo de vagabundos. A semana foi um fracasso, lixo dadaísta primário e ignaro; mas a mídia estava de cabresto. Juntos eles destruíram a cabeça de algumas gerações, o Brasil é um cemitério de talentos. A besteirada moderna não passa de proselitismo comunista com objetivo de destruição de nossa arte. Nada mais.

– Alguns diziam, por aqui, nos anos 90, que música clássica era a do classicismo.

– Classicismo que eles chamam de rococó, com algum desdém, como se Haydn fosse um sinônimo de mau gosto! Esses professorzinhos militantes me enojam.          

Lopes respondeu:

– Opa….vai devagar aí, maestro…

Kalili:

– Mas deixar de lado a cultura europeia é comer os vizinhos, andar pelado e analfabeto no meio do mato, isso não tem nada a ver com cultura.

Lopes:

– Eu ri demais: “…andar pelo mato churrasqueando os vizinhos…” Nem todo mundo hoje está preparado para uma ironia dessa. Mas temos a consciência de que é por justa defesa da nossa cultura que o maestro ironiza.

Kalili:

– A música é uma descoberta católica.

Lopes:

– Canto polifônico, por exemplo.

Kalili:

– Sem a cultura (nem digo católica, mas especificamente jesuíta inaciana) não existe Brasil, a afinação é católica, do, ré, mi… Os pesquisadores reformistas e até os ateus reconhecem a Santa Igreja como a maioral na música.

Lopes:

– Já tive um professor de matemática, ateu, marxista e maestro que reconhecia o papel, “apenas histórico” da Santa Igreja…

Kalili:

– O papel civilizador dos jesuítas tiroleses é a melhor essência de nossa cultura, e deveria ser retomado visando o bem das futuras gerações, a recomposição de valores e a formação de inteligências sadias para substituir as mentes degradadas que hoje dominaram nossa atividade cultural, apesar de serem desprovidas de cultura, exceto sob o ponto de vista escatológico.

O músico Lobão certa vez afirmou que na cultura pop há muitos elementos de alta cultura. Qual a sua opinião a respeito?

Lobão, ele se acha; é inteligente sim, mas tem a mente deformada. Para começo de conversa jamais tocou rock, o ritmo da bateria dele é polca.

Lopes:

– Não queremos isso, por favor.

Kalili:

– Bem, o que posso dizer de Lobão?

Lopes:

Atenha-se à pergunta. É sobre a afirmação dele. Não sobre ele.

Kalili:

– Acho uma opinião forçada, existem elementos de alta cultura somente na proporção em que a cultura popular deixa de ser popular. Vou explicar: um músico popular, em geral, aprende poucos acordes, dó maior e sol com sétima, aprende a escala em modo jônio e mixolídio, isto é clássico e católico, ou seja: apenas na medida em que a cultura popular assimila elementos clássicos que constituem a essência da arte musical ela se torna música.

Lopes:

– Agora sim…você diz do aperfeiçoamento da toada para a canção.

Kalili continua:

– A cultura popular não significa ignorância absoluta, mas apenas ignorância relativa; o não saber que ao afinar um violão o músico está utilizando Pitágoras, e ao tocar uma escala ou acorde isto é uma herança católica. Mas temos que tomar cuidado ao afirmar essas coisas senão os catolicofóbicos vão tocar desafinado e fora da escala de propósito; então absolutamente todos os elementos que formam a música são criações clássicas, a diferença é quantos desses elementos aprendemos e quantos ignoramos.

Risos. Na sua opinião, quais limites ou fronteiras podemos estabelecer entre folclore, alta cultura, cultura popular e cultura pop?

Não acredito que o papel do professor seja estabelecer fronteiras entre cultura popular e alta cultura, a nossa função é apenas instruir os músicos de maneira elementar, ensinar acordes, escalas, ritmos, cada artista deve desenvolver uma linguagem própria, e isto já é um processo lento e natural, melhor não interferir, mas quando eu trabalhava vendendo guitarras, por exemplo, era comum ouvir um cliente dizer que tinha vendido um milhão de discos e que não sabia ler uma nota; como eu era apenas o vendedor, lhe dava os parabéns, pegava o dinheiro e entregava a guitarra, ganhava minha comissão e esperava o próximo cliente, mas como professor minha vontade era gritar: ENTÃO VÁ ESTUDAR, VAGABUNDO!

O brasileiro, em geral, se orgulha de ser burro, para um artista isso é uma vergonha, em minha opinião isto significa que tudo o que ele fará em sua vida será copiado, pois sem conhecer a estrutura musical não pode haver criação genuína.

Gostaríamos que comentasse os dois trechos abaixo:

a) “Aprendemos no céu o estilo da disposição, e o das palavras. […] as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que já sabem.” (Padre Antônio Vieira).

Kalili: Na prática é muito difícil atingir a todos da mesma forma; quando escrevo algo mais profundo, poucos alcançam; e quando escrevo algo acessível, não acrescenta muito aos que estão acompanhando o fluxo de ideias há mais tempo, então a oratória do Padre Vieira havia atingido um nível que seria raro encontrar nos dias de hoje. Só o Olavo mesmo para unir as duas coisas, então isso nos dá uma pista da quantidade e qualidade de leituras que são necessárias para um indivíduo se tornar capaz de exprimir a alta cultura com simplicidade.

b) “A literatura não é como a música; não é para os jovens, não há prodígios nesse campo. O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental, leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que se viveu. ( V.S Naipaul).

Kalili: Percebo que atualmente damos valor demasiado a obras pueris, acredito que o próprio Mozart só se tornou realmente o gênio que reconhecemos em suas últimas obras, como o quinteto para clarineta; porém com Beethoven deu-se o oposto, ele foi compositor pleno ainda muito jovem, conforme o hepteto opus 21 deixa claro, porém na medida em que foi envelhecendo sua música se tornou menos abstrata e repleta de sentimentos exacerbados. Não que com isso perca o valor, mas certamente é outra via. Também na literatura não é verdade, temos os exemplos de Castro Alves, um gênio ainda mal saído da juventude e Álvares de Azevedo idem, em sua “Lira dos Vinte Anos”, uma obra prima. Entretanto reconheço que comigo se deu assim, realmente fui adquirir maturidade literária somente depois dos cinquenta. Meus primeiros trabalhos eram desorganizados e reticentes. Cada caso é um caso.

-Última pergunta-

Revolucionários contemporâneos, tais como Boa Ventura de Sousa Santos, Miguel Gonzalez Arroyo e outros — partidários de doutrinas antieuropeias e dos “Direitos Humanos” de viés histórico-crítico, e marxista-leninista— e tantos outros multiplicadores dessa doutrina perestroika, acusam a nós, difusores da Alta Cultura, de “elitistas”; “de defensores do status-quo liberal-conservador Ocidental e Cristão”; tratam-nos como “pretensos altaneiros culturais” que desprezam os pobres. Nas palavras desses “esclarecidos”, “nós trataríamos as pessoas humildes como inferiores em moralidade, cultura e civilização, e teríamos o perverso objetivo de hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural”. Seríamos uma espécie de “arrogantes catequistas a serviço de colonizadores do passado”. Como você responderia a essa acusação leviana?

Lopes, agora você tocou no cerne do problema, vou tentar dividir a resposta de forma que fique bem compreensível para nossos leitores. Primeiro vou apontar os erros: a elite não é um coletivo que veio ao mundo para estragar a vida dos pobres. A elite é apenas um grupo de pessoas iguais a todo mundo, não possuem uma cultura diferente, assistem aos mesmos programas ruins da televisão. Reunir povos tão diferentes como portugueses e finlandeses numa única caixa e odiá-los por serem europeus, demonstra um ódio cego pelo próximo. A cultura “europeia” que eles odeiam é o catolicismo, cujas origens estão na África (Egito) e no povo judeu. Eles mesmos são bastante pretenciosos ao falar em nome da “autoridade moral” da esquerda, primeiro porque a esquerda não suporta moral, segundo porque se trata apenas de um projeto de poder, proselitismo em sua forma mais baixa e degradante. Os pobres que eles dizem defender e representar são católicos, conservadores, gente boa e honesta, que trabalha e não gosta de vagabundo; e as minorias que eles dizem defender, servem apenas como massa de manobra; veja os ataques covardes que fizeram ao Sergio Camargo, quando este esteve à frente do Instituto Palmares. Se a democracia é definida pela imposição do direito da maioria sobre a minoria e o “amor pelo coletivo” não é outra coisa senão o ódio travestido à individualidade, quem eles defendem? Não é você, nunca. Chato não é estudar, chato é ser burro. Dito isto, vamos agora pensar o certo: porém a maior parte dos grandes artistas foram de origem humilde, e todas as grandes artes tiveram seu berço na Igreja Católica, que também foi responsável pela criação das escolas, das universidades, dos hospitais, e em especial pelo fim da escravidão por dívidas (Santo Antônio). Desta forma, odiar a cultura católica também significa deixar de lado todas estas conquistas. Agora vamos analisar de forma pragmática o que eles têm a nos oferecer: a destruição da família, a submissão ao Estado, o confisco dos bens (inclusive dos pobres), a substituição dos valores estéticos na arte pela degradação moral do ser humano. A idolatria por falsos artistas que lhes servem como porta-vozes. A supressão de todos os seus direitos (tudo pelo Estado, nada contra o Estado). A escassez inevitável advinda da política keynesiana e da planificação da economia, também devido a supressão dos direitos sobre os meios de produção. A doutrinação no lugar da educação. A principal diferença entre os católicos e os comunistas é que os primeiros dividem o que possuem com os outros, e os segundos dividem o que é dos outros com os seus aliados. Mas mentir é uma parte indissociável dessa política, oferecer um paraíso que não pode distribuir para convencer vagabundo de que vai viver no bem-bom sem qualquer esforço pessoal. Então vem a terceira parte da nossa questão; o que a alta cultura pode lhe oferecer? E esta é a parte realmente importante, entender o que você ganha estudando a alta cultura brasileira. Alta cultura induz ao diálogo com a tradição. A tradição consiste em um esforço contínuo da humanidade para melhorar a vida através da leitura, da música, da pintura e da oração. Ler bons livros aumenta sua capacidade de compreender o mundo, escutar boa música instrumental ou clássica melhora a atividade cerebral e estimula a imaginação (interferindo na forma como reagimos em situações sociais e a maneira como enxergamos uns aos outros), e a pintura realista permite-nos perceber o mundo através do olhar de um artista, com profundidade e sentimento, quer dizer, ao estudar o mundo em nossa própria cultura, absorvemos os elementos necessários para ver a vida através dos olhos das grandes mentes do passado. Se além disto dermos o próximo passo, quer seja estudando um instrumento musical, aprendendo a pintar um quadro ou escrevendo um livro, também nos tornamos parte deste grande fluxo de pensamentos que ilumina a vida e ameniza a existência através da beleza. Por fim, e não menos importante, a oração, o estudo das vidas dos Santos, o conhecimento dos caminhos que podem conduzir a alma a uma existência mais bela. Tenho nisto minha própria experiência ao me deixar orientar, não pelo professor maconheiro de história, mas através do “Itinerário da Mente Para Deus”, um livro antigo escrito por um Santo. Agradecer sempre, mesmo diante das dificuldades, o fará mais forte e confiante diante dos desafios.

Conclusão:

Eles impõem uma cultura medonha, destrutiva e inútil, enquanto nos acusam de tentar recuperar as boas práticas artísticas, desenvolvidas ao longo de séculos pelos maiores expoentes da humanidade. Fica por conta do leitor a decisão de descobrir o melhor de nossa cultura, o trabalho é árduo, mas entre no grupo de Alta Cultura no facebook para conhecer outros artistas que você nunca pensou existirem no Brasil.

Endereço do grupo Alta Cultura:

https://www.facebook.com/groups/2543250742598003.

Últimas palavras de Roberto Kalili:

Um pequeno guia para quem deseja conhecer melhor nossa cultura:

Livros: Os XII Trabalhos de Hércules, Através do Brasil, Amazônia Misteriosa

Compositores: Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Leopoldo Miguez

Poesia: Castro Alves, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo

Pintura: Arthur Timóteo, João Batista da Costa, Oscar Pereira da Silva

Música Popular Brasileira: Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo

História do Brasil: Primeiras Cartas do Brasil, Viagens às Missões Jesuíticas

Livro didático de minha autoria: Alta Cultura Brasileira – Editora Armada

— FIM–

JOÃO, MAIS UM FILHO DE NOSSA ORGULHOSA BAHIA DE SÃO SALVADOR

JOÃO, mais um FILHO de nossa orgulhosa BAHIA de SÃO SALVADOR

Entrevista

por Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Em certas rodas aqui por Minas, algumas vozes têm dito que entre os nascidos na Bahia, nenhum outro poeta recente tem se destacado quanto João Fernandes Filho. Os menores no Reino da Poesia conseguem facilmente dele uma entrevista especial, devido sua generosidade. Esse é o nosso caso.

João, conte-nos um pouco da sua infância, sua relação com a família e comunidade, sua região, sua terrinha. O escritor brotou na alma muito cedo, como nós leitores seus fomos informados. Queremos saber mais disso.

Minha infância se passou em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, e tive o amor, a proteção e a liberdade necessárias dos meus pais para viver uma meninice pobre, mas riquíssima em aventuras – brincar na chuva, brincar de roda, ouvir histórias na noite em frente à casa etc. –, passar as férias na casa do meu avô materno, em cima da serra, a luz era de fifó, e a água no pote buscada na fonte. Na rua Santa Luzia, no Bairro São Miguel, em Bom Jesus da Lapa, não havia calçamento, e, após as chuvas, encontrávamos pequenos cágados nas poças de lama. A mata era próxima, o rio era próximo. Meus pais – seu João Galego e dona Dilza – cuidaram de nós, meus irmãos e eu, com raro amor e responsabilidade. Agora, por meio de sua pergunta, revendo tudo isso, percebo que tive uma infância lendária por ser simplesmente isso – uma infância comum de menino do interior do Brasil na década de 1980.

Quem é João Filho? De onde veio, onde está e para onde pretende ir?

Sou um pecador. Vim da lama, estou tentando ser limpo pelo Cristo; o problema, é claro, não é Ele, mas eu que atrapalho. E, pela misericórdia d’Ele, tenho a esperança de morar nem que seja no último casebre da periferia do Céu. Em termos pedestres, João Filho é poeta e professor, doutorando em literatura portuguesa na USP. 

Como foi a experiência rebelde de escrever letra de canções punk? Como está o letrista João hoje? O que tem ouvido? Qual o conselho que João daria aos letristas iniciantes?

Uma das minhas primeiras experiências literárias foi uma letra que escrevi com um amigo. Se não me engano, acho que com 13, 14 anos. De lá para cá, eu escrevi letras para os ritmos e gêneros mais diferentes, do punk como você indicou até o famigerado arrocha.

Hoje, os parceiros musicais mais constantes são compositores da linha do bom cancioneiro tupiniquim.

Ouço muita coisa. Para ficarmos em dois exemplos do momento: o primeiro disco do Clube da Esquina e Arvo Part.

O conselho é simples, e, acredito, todos os jovens letristas saibam: na letra prevalece a música, mas não deixem jamais de escrever letras belas, boas e verdadeiras.

Essa predileção pelo teatro lido ao assistido, queremos saber.

Na verdade, é uma deficiência minha. Tive, claro, contato com a área, escrevi uma peça – Auto do São Francisco –, mas não sou do métier do teatro. Para mim funciona mais ler a peça do que assisti-la no palco, o que é um contrassenso porque o teatro acontece no palco. Se as declamações forçadas de um poema me aborrecem, assim também as encenações antinaturais (eu sei que o termo é perigoso ao se falar de teatro) me entendiam sobremaneira.    

Genética. Processo de criação. “Faço tudo no facão, depois tomo o estilete”. A fase artesanal ajuda a alma mesmo? Há quem considere que uma coisa é desligada da outra. Explique o seu caso.

Na poesia, eu tento lapidar no momento mesmo da primeira escrita. A cada verso procuro a melhor construção sonora e imagética dentro de um contexto que faça sentido. Claro, que, depois, relendo antes de publicar em livro, eu refaço alguns versos. Tenho um arquivo imenso com poemas que não deram certo, ou que não gostei, ou que ficaram pela metade etc. Aproveito muito desse arquivo. Guardo também imagens, e até mesmo palavras, surgidas ao longo dos anos, e que, algum dia, poderei usar num verso.   

Na prosa é que faço anotações de ideias, cenas, diálogos para somente depois rearrumar, reescrever etc. Ao escrever prosa sempre refaço depois.

Forjar manifestos, escolas, movimentos hoje em dia soa cafona por quê? Para quem?

Não sei se soa cafona, mas os grupos são necessários. Escritores, de alguma maneira, sempre encontram sua “turma” estética mesmo que ideologicamente não se coadunem. Situação cada vez mais rara porque as ideologias têm prevalecido acima de todas as relações humanas. O que é uma coisa miserável. Mas, respondendo sua pergunta: cada poeta, consciente do seu ofício, possui uma cosmovisão, o que quer dizer, em outras palavras, traz escondido um manifesto, uma estética. No atual cenário brasileiro, e vejo também em outros países, a dimensão estética é a mais desprezada nos mais variados gêneros artísticos.

Proseie mais do poeta-balconista, comerciante, atendente, distribuidor de congêneres. Em verso, esse tema econômico e vital interessou bastante ao entrevistador, que defende a Rerum Novarum, o distributivismo justo. “Suum cuique tribuere” 《Dê a cada um o que é seu》》. Uma das unidades da Justiça ensinada por Ulpiano. O poeta Antônio Augusto de Mello Cançado, incansavelmente, reensina-nos até hoje aqui em Minas. (?) 

A Venda do meu pai, João Galego, é um dos meus lugares míticos. Fui criado dentro da Venda (sempre com inicial maiúscula). Quando me perguntam das minhas influências literárias, eu uso a figura do poeta-balconista que sempre rouba um pouco de cada freguês-escritor que aparece no balcão da Venda. Escrevi muitos poemas que falam ou fazem referência à Venda e ao seu universo, mas há um que não posso ler em público porque não seguro as lágrimas, é o “A Venda por dentro”, do livro Auto da Romaria. O poeta-balconista, em outra perspectiva, é também um atendente que procura servir caridosamente os seus leitores. Um leitor é o maior presente para um poeta. Ninguém é obrigado a ler o que escrevemos, a comprar o livro que publicamos; devemos conquistar esse leitor com uma escrita que contenha algo daqueles versos de don Antonio Machado: “umas poucas palavras verdadeiras.”

Colecionamos muita poesia dos anos 60, 70, 80, 90 e da dita “Poesia da Era-Lula”. Nesta última, gargalos das anteriores, a meu ver, predominou as forças demasiadamente sensitivas, engajadas no coletivismo autoritário, utopia do socialismo-XXI. Em seu livro-balancete “Dez anos que encolheram o mundo (2001-2010)”, Piza aponta a migração e o exílio como temas repisados na prosa. Incrível como as 《《editorias enviesadas e dirigidas 》》de literatura antecipam os efeitos e consequências das sementes ideológicas. Hoje vemos os venezuelanos, os nossos exilados políticos, as perseguições e as injustiças. Na poesia (2001-2010), Daniel destaca Ferreira Gullar e Fabrício Carpinejar apenas. Qual sua opinião sobre esse balanço do jornalista?

Não li o livro do Daniel Piza. Mas concordo com o resumo que você faz. Direi o óbvio (cada vez mais é vital ser dito): literatura é a arte da linguagem trabalhada artisticamente. É preciso distinguir que linguagem nesse sentido não é beletrismo, e nem o seu contrário – o desleixo. É necessário equilibrar três pilares muito bem compilados por Bruno Tolentino: abrangência, profundidade e feeling (sentimento e sinceridade). Sustentados por esses três pilares a linguagem engendra a forma. A forma é a alma da obra (forma e não fôrma). Sem isso não há obra de arte em gênero algum. A melhor poesia moderna ou pós-moderna não fugiu desse caminho.  

Não concordo com Daniel Piza no destaque de dois poetas apenas nesse período de 2001 a 2010. Entre os mais velhos, a grupo de 1965 de Pernambuco estava atuando e com renome nacional – Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly etc. Entre os mais jovens – Érico Nogueira, Astier Basílio, Mariana Ianelli etc. Cito apenas alguns nomes de destaque nacional.

Daniel Piza incomodou muitos “coletivildos tirânicos”, pelo que sei. Mas nesse caso somos dois na discordância. Serão procurados e lidos seus autores citados. Vamos falar um pouco de crítica literária. Em 2005 o Sr. Wilson Martins disse no Caderno Idéias do Jornal do Brasil: “só sou conservador na medida que a literatura é conservadora. Não se pode revolucionar a literatura todos os dias.” Comente, por favor.

Grande Wilson Martins! Em alguns pontos de vista (por sinal, é o nome da coleção em vários volumes de sua crítica que abarca de 1954 até 2000), eu não concordo com ele, um exemplo entre tantos: sua leitura historicista da obra de Cecília Meireles. Contudo, Wilson Martins foi um gigante da crítica brasileira e não apenas literária. Estou de acordo com o comentário que você destaca do escritor paranaense. Revolucionar a literatura todos os dias é tentar recriar a roda, esquecer a imensa história da literatura que nos antecede, de Homero para cá são mais de três mil anos de escrita literária! Há que se ter um mínimo de noção e humildade com esse quase infindável acervo. O surgimento de um James Joyce, de um Guimarães Rosa (cito os grandes revolucionários) é o ápice de um período que, por acúmulo e verticalização, radicalizou os experimentos na arte romanesca. E como disse o grande mineiro é no “mais mesmo da mesmice que vem a novidade.” Sei, claro, as formas literárias caducam, precisam ser renovadas, mas, antes, é a sensibilidade nova que pede formas novas, novos caminhos. E sensibilidade não é feito a moda que muda toda semana. Desse modo, as tais revoluções da literatura apregoadas todos os anos não passam de repetições mecânicas. Quem revoluciona o tempo todo não percebe paradoxalmente a imobilidade cadavérica do seu estado.

O escritor Douglas Lobo frisa sobre “a ingênua expectativa” do Afrânio Coutinho a respeito da atividade crítica migrar dos periódicos para as universidades; já outros autores se entusiasmaram pelo fato da crítica migrar das universidades para as redes de internet. No primeiro caso, teríamos um aperfeiçoamento do gênero; no segundo, por sua vez, ganharíamos mais liberdade e acessibilidade.  Como o senhor vê esses fenômenos relacionados a suportes, ambientes, jargões etc.?

Vale deixar registrado aqui um livro que mapeia essa mudança – da chamada crítica impressionista (termo pejorativo cunhado por Afrânio Coutinho) para a crítica universitária – Crítica literária em busca do tempo perdido? De João Cezar de Castro Rocha.  

Outro registro que acho necessário: é um abuso tratar como diletantes críticos da excelência de Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sergio Milliet, Lúcia Miguel Pereira, Augusto Meyer, Eugênio Gomes, Brito Broca, Fausto Nilo etc. Pois foi isso que fez uma boa parte da crítica universitária. Esta, no entanto, não pode ser ignorada, porque há material de altíssimo nível.   

Com a mudança do suporte deveríamos ganhar mais espaço e liberdade. Por exemplo: na internet o espaço e a liberdade são maiores, e quem desejar é só escrever, mas a qualidade é muitas vezes duvidosa. O jargão, não obstante, é inescapável. É assim em todas as áreas, não é mesmo? Claro que há exageros. O suporte em si mesmo é algo bom. A internet, para o pesquisador sério, é uma ferramenta, hoje, inescapável.    

Não sabia que Fausto Nilo escreve crítica. Deve ser ótimo, pois é arquiteto e compositor. Um ensinamento como “O ideal do Crítico” de Machado de Assis e os apontamentos de um José Veríssimo guardam ainda alguma utilidade para os dias de hoje?

Li os dois autores, mas confesso de que não me lembro de quase nada da crítica deles. Teria que relê-los para responder sua pergunta.  

“O advogado é o poeta da Justiça. O poeta é o advogado da beleza”, disse José Martiniano de Alencar. Quais seriam as responsabilidades de um poeta nos dias de hoje nessas questões de ética, estética, direitos humanos (direitos culturais), justiça e paz social?

A primeira responsabilidade de um poeta é escrever boa poesia. Seu ofício tem como base o bom, o belo e o verdadeiro. A dimensão estética vem sempre em primeiro plano. O resto vem por acréscimo. Se ele deseja fazer justiça e promover a paz social, então, vá cuidar dos pobres e oprimidos. Mas em nome de Deus e não de uma ideologia qualquer.

Filosofia. No poema Luz Primeira, da terceira parte do livro A dimensão necessária encontramos a relação conflitante do atomismo grego com a genealogia judaica. Origens dos elementos (lumens e sons), o firmamento, as criaturas tais e quais. Poderia nos dizer de seu percurso nos exercícios filosóficos? Mais por questões, problemas e sensações ou mais pela historiografia?

Com certeza pelas questões e problemas que me surgiram ao longo da vida. Não sou filósofo, e, acho, não tenho capacidade para tanto. Mas algumas questões filosóficas básicas foram intuídas desde quando eu era menino. Claro, com a intuição infantil. Uma delas na quarta série primária, e eu só soube o nome décadas depois: o infinito quantitativo. Numa aula, a estagiária falou que poderíamos perguntar o que quiséssemos. Eu fiquei intimidado porque ela me pareceu com cara de poucos amigos, apesar de permitir as perguntas. No entanto, meu pensamento de menino partiu de onde estava, em Bom Jesus da Lapa, e foi se ampliando em círculos concêntricos cada vez maiores, Bahia, Brasil, América do Sul, planeta terra, Via Láctea, e esbarrou nessa imensidão. Minha pergunta seria se não tivesse ficado intimidado: – E depois? O que é que há depois? Porque, para o menino ali, o que vinha depois era um imenso vazio branco. Eu não conseguia ultrapassá-lo de nenhuma maneira.  

Assim, minhas leituras filosóficas foram feitas a partir de questões que me surgiram ao longo dos anos. Mas também me apoiei na historiografia. O eixo geral de minhas perguntas é comum à história da filosofia – de onde viemos, para onde vamos, quem sou eu e o que faço aqui. Nada de novo.

Pergunta frequente. Afinal, poesia lírica é ou não é traduzível? Anderson Braga Horta diz que “alguns proeminentes autores dizem que não, mas os tradutores não acreditam e traduzem sem parar (…) território nebuloso, ambíguo.” Como João Filho imagina o efeito de sua poesia no leitor pensante e falante em outros idiomas?

A tradução é uma aproximação ao que foi escrito na língua de partida. E a tradução, de qualquer área que seja, é a veia aorta que ajuda a bombear vida às culturas. Quem é que conhece todas as línguas? Logo, é vital a tradução. Terá sempre perdas e ganhos, óbvio.

Está aí uma pergunta que nunca me fiz. Sério mesmo. Pensando nisso agora, eu mais desejo do que imagino: que os meus poemas, ou um verso, possam abrir uma pequenina janela de luz no coração do leitor estrangeiro.

Subsídios ( dois dos autores citados pelo entrevistador):

https://editoradanubio.com.br/o-futuro-da-literatura-brasileira-douglas-lobo/

Douglas Lobo

Daniel Piza

   







Especial “Semana de Arte & Modernismo Brasileiro”

Especial “Semana de Arte Moderna IV” | por Graça Rios

o pós-22 e alguns de seus desaguares …continuidade digressão para João Guimarães Rosa (Grande Sertão: veredas) | Cada um para seu lado | O goro do ovo | Cecília Meireles: uma simbolista dentro do Modernismo | Ícones, sinais, índices, semioses | Drummond | Bandeira | Rachel de Queiroz | Graciliano Ramos (São Bernardo) | A política de antes e a de hoje | Ninguém seguiu metodologia | Sobre as mulheres…cantiga…

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

Trilha: A Prole Do Bebê N°1 – Branquinha (A Boneca De Louça) 

às primeiras décadas da República | O apetite e o sentido afetivo da Antropofagia | Retorno à Anita Malfatti | Fuga da Guerra | Aulas na Alemanha, na França e nos E.U.A | Exposição em 1917 | Cores exuberantes de nosso Brasil | A mulher, a mulher…

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Especial “Semana de Arte Moderna III” | por Graça Rios

Especial “Semana de Arte Moderna III” | por Graça Rios

Menotti e Graça Aranha | patrocínios e política cultural | As 4 (quatro) mulheres | Relacionamentos amorosos e conjugais | O que é o amor? | Villa-Lobos, concertos e discursos.

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Trilha: Villa-Lobos, “Cascavel”.
Di Cavalcanti, “Ciganos” (1940)

A Semana foi realmente um marco? | As gerações seguintes | Rumos de Minas (G. Rosa) | Tergiversações | Grau zero | Criação vocabular e simbologia| Pesquisa e criação| Quebra de tabus e preconceitos | Guerras e tristes fins | Cavalo-veículo

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Trilha: Villa-Lobos, “Caboclo &…”
Di Cavalcanti, “Duas mulatas”, 1961.

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Especial “Semana de Arte Moderna II”

Especial “Semana de Arte Moderna II” | por Graça Rios

Em busca da “língua(gem) natural” e contra o “lirismo bem-comportado” | o índio fundador da nossa cultura [pode ser contestado! | a ausência do negro na Semana | crítica a Paulo Menotti Del Picchia & Juca Mulato | Grupos: Nheengatu, Verde-amarelo, Tupi or not tupi | impossível se ater ao período | a música em ‘meu cu não é ímã | marginalização da mulher | à procura do Muiraquitã | o difícil escrever simples | Abaporu e Antropofagia | a Semana é um ovo, mas às vezes gora | Quem é que vai destruir o quê????

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

sonoplastia: lopes (“esquece zé, vem jantá!” e “…que meu chôro seja ouvido”).
Muiraquitã – amuleto da sorte.

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LÍNGUA FRANCA E VIVA (PORTUGUÊS + KIMBUNDU) EM MINAS GERAIS

LÍNGUA FRANCA E VIVA (PORTUGUÊS + KIMBUNDU) EM MINAS GERAIS

(Entrevista especial com Antônio Benício Cabral: memória afetiva e literatura com base na Língua dos Negros da Costa – Língua da Tabatinga)

Nossa Língua Portuguesa aqui no Brasil constitui-se por inúmeras contribuições de povos nativos e africanos: antropônimos, topônimos, expressões que denominam alimentos, crenças, utensílios, membros do corpo, animais, vegetais, danças, ritmos, enfermidades e deformidades. Para nossas Minas Gerais vieram sobretudo povos da nação Bantu, falante do abrasileirado quimbundo [kimbundu em Angola]. Estes africanos, não por coincidência, trouxeram à colônia técnicas artesanais de mineração, metalurgia, agricultura, culinária, músicas e, claro, sua língua e crenças.

Conceituada referência sobre o assunto é o livro intitulado “PÉ PRETO NO BARRO BRANCO: A Língua dos Negros da Tabatinga (Editora UFMG, 1998), da escritora Sônia Queiroz, cuja cuidadosa pesquisa se alicerça na memória da própria autora, natural de Bom Despacho, bem como num respeitoso trabalho documental e de campo.

Nessa publicação especial, entrevistaremos outro convivente e falante da Língua da Tabatinga (ou Língua do Negro da Costa), Antônio Benício Cabral. Assim como Sônia, ele praticou quando menino e ainda guarda em sua memória afetiva o código. Benício organizou um vocabulário e nos presenteia com uma narrativa de ficção de sua autoria, contribuindo ainda mais aos interessados e pesquisadores.    

Comecemos por sua apresentação, onde nasceu e viveu, por onde andou e anda, seus escritos e como tomou contato com a Língua do Negro da Costa. Nasci em Bom Despacho mesmo, na chamada Rua da Biquinha, nos idos de 1958. Aos 3 anos de idade me mudei para a Rua dos Expedicionários (antiga Travessa Lambari), onde vivi até sair de Bom Despacho, após terminar o antigo Curso Científico, com 17 anos de idade. Morei em Brasília, Campinas-SP, Campo Grande-MS, Santos-SP, Belo Horizonte, Divinópolis e, com a aposentadoria, retornei para Bom Despacho. Sou formado em Economia, na UnB, com pós-graduação na Unicamp, e Direito, na UFMG. Sempre gostei de estudar línguas estrangeiras e falo inglês, espanhol, francês, italiano e básico de alemão. O meu contato com a Língua da Tabatinga se deu desde a infância, nos folguedos de rua, quando a gente usava várias palavras da língua para se comunicar usualmente. O uso era maior quando havia contato com os meninos da antiga Tabatinga, hoje Bairro Ana Rosa. Depois de adulto decidi elaborar o Vocabulário e realizei algumas pesquisas específicas

Por que é considerada uma língua-franca? Poderia nos explicar com suas palavras? Para mim não há dúvida de que se trata de uma língua. Entretanto, conforme leituras minhas nessa área há alguns anos, creio que a classificação correta é “Língua Franca”, que é a mistura de várias línguas de molde a possibilitar a comunicação entre gentes originárias de várias nações. O sustentáculo da Língua da Tabatinga é o português, porém há um grande uso de vocabulário de origem africana. Essa língua franca, no caso a Língua da Tabatinga, possibilitou que negros originários de várias regiões da África, conseguissem se comunicar entre si, pelo uso de vocabulário mesclado de várias línguas africanas, com o português. Cabe destacar que o português, por exemplo, já funcionou como Língua Franca em toda a Ásia, após os grandes descobrimentos, no Século XVI. Um ponto importante a destacar é que, a meu ver, é totalmente errado chamar a Língua da Tabatinga de “dialeto”. Para uma língua ser “dialeto” ela tem que se referir a outra língua da qual deriva ou que deu origem. Por exemplo, o português, o castelhano, o Catalão, o Asturiano, o Galego (este muito parecido com o português), são todos dialetos do mesmo ramo linguístico. São variações regionais da mesma língua mãe, em última análise, regredindo 2.000 anos, do latim que era falado em Roma. A Língua da Tabatinga é uma língua autônoma, independente, não está referida a nenhuma outra.

No vocabulário organizado (1985-1998) – ao que nos parece você e a Sônia intercambiaram material e memória – há palavras acrescidas e reinventadas, mostrando-nos dinâmica dos falantes, tipo: “cureio”=comida (antigo) e “Banjerê”= comida (forma atual). Na sua opinião, quais fenômenos poderíamos destacar nessa espécie de atualização? Não é bem esse o fato. O meu Vocabulário foi elaborado pela primeira vez em 1985, com a grande ajuda do meu amigo Comodoro, que já não reside em Bom Despacho. Anos depois, quando da publicação do Livro da Professora Sônia, acresci palavras ao meu Vocabulário. De fato, existem palavras que possuem sinônimos, não sei o motivo. Eu conheci comida como “cureio” e comer como “caxá o cureio” e mais tarde conheci a palavra “banjerê”. Tem falante que usa a palavra “chap-chap”, no mesmo sentido. São variações, mas não sei a origem. As invenções existem e ficam por conta da combinação de palavras conhecidas, para formar outras, como por exemplo “caramboia catita que ingira no fute” é uma invenção dos falantes, que uniram “galinha” “pequena” que “anda no céu, voa” para significar “passarinho”. Outro exemplo, “orongó” é cavalo e “tiploque” é sapato, unindo as duas “tiploque de orongó”, penso em uma ferradura. “Cuete-ocaia” é homem homossexual, combinação de “cuete”, homem, com “ocaia”, mulher.

Há pessoas que aprenderam a língua em outras cidades, como o caso do meu tio que a conheceu numa carvoaria em Uberlândia. Ele contava que o signo servia como código secreto e resistência às ações exageradas da polícia, às certas perseguições injustas. Servia também para despistar dos alcaguetes colaboradores dos patrões severos. Por outro lado, comentava meu tio, também corria-se boatos de que criminosos se utilizavam do código para encobertar pequenos delitos. Imagino que situação como essa última poderia comprometer a sociabilidade do falar…o que você tem a nos dizer sobre isso? Sabendo que essa Língua só existe em Bom Despacho, seguramente seu tio manteve contato com bondespachenses que foram morar/trabalhar em Uberlândia. De fato, os falantes usavam muito a Língua para, de certa forma, se protegerem, da Polícia, dos cidadãos de posse, que eram o patrões etc. Percebia-se muito o uso da Língua em bares mais simples e nas zonas boêmias da cidade. Usava-se a Língua para fazer comentários maldosos sobre as mulheres atraentes, coisas do gênero. O possível uso por criminosos é uma hipótese bastante aceitável, porém não tenho informações a respeito. Na verdade, por questões de discriminação racial e social, os moradores da antiga Tabatinga eram tidos como criminosos em geral, como são vistos, atualmente, os moradores das favelas das grandes cidades. Não acredito que isso tenha comprometido o uso da Língua, a questão é mais histórico/social mesmo, com a morte e a diáspora dos falantes, ao longo dos anos.

João Francisco L. Cançado (1956-2019)

Penso que, a partir dos registros já acumulados, iniciativas da comunidade junto de outros estudiosos, bem como a prática recreativa por novos falantes e a divulgação da língua nos ajudariam na compreensão histórica de nós mesmos, enquanto nação e povo de origens várias. Você vê as discriminações como obstáculos contra esse possível esforço conjunto? Verifica bons resultados nessas últimas décadas, em face de tantas lutas no sentido de superarmos tais estigmas?  Atualmente, não vejo mais discriminação, como houve no passado. Os moradores da antiga Tabatinga, por volta das décadas de 1960/1970, eram vistos como maus elementos, pessoas brigadoras, com tendências criminosas. Eram, quase todos, negros e eram muito pobres. Havia prostituição no Bairro. O bairro era provavelmente o mais pobre de Bom Despacho. Havia, visivelmente, muita discriminação por parte da gente dos Bairros mais chiques, especialmente do Centro. A Língua da Tabatinga era vista como coisa de gente baixa, os moradores do Centro da cidade não viam com bons olhos a prática dessa Língua. Era como se a Língua fosse usada para enganar e roubar os “brancos” da cidade. Hoje, ao contrário não percebo nenhuma discriminação com relação à Língua, que passou a ser vista como um patrimônio cultural da cidade. Percebo que a Prefeitura Municipal vem incentivando o conhecimento da Língua pelos alunos das escolas e vem incentivando a sua divulgação como patrimônio cultural. O antigo Sesc, que foi devolvido para a Prefeitura, foi batizado como “Conjolo de Vissunga” (Casa de Cultura, ou Casa de Festa). Não acredito que a Língua voltará a ser falada, mesmo porque o seu uso era totalmente espontâneo, mas já é alvissareiro saber que a Prefeitura e os cidadãos vêm dando mais valor à memória da Língua da Tabatinga. Seria muito bom ver pessoas usando a Língua da Tabatinga na rua, novamente, mas creio que isso é uma utopia.

Quando você escreveu e o que mais lhe motivou a escrever o conto “O cuete que caxô imbuete dos viriango”? Quando foi publicado pela primeira vez, enfim, fale-nos um pouco do processo. Escrevi esse conto há alguns anos, não me recordo precisamente. O que me motivou, especialmente, foi tentar manter a memória da Língua da Tabatinga, porém demonstrando na prática como se dá a sua utilização. Uma coisa é um Vocabulário, frio, estático, outra bem diferente é um texto, que flui, que tem ritmo, que simula a fala de alguém. O ruim é que não dá para fugir muito do assunto abordado no conto. O vocabulário remanescente da Língua da Tabatinga é muito restrito e fica limitado a questões de trabalho, bebida, sexo, casamento, polícia, coisas mais comuns na vida das pessoas mais simples, que eram os autênticos falantes da Língua da Tabatinga. Eu tinha um receio de que, com o passar dos anos, eu mesmo perderia a capacidade de produzir um texto, um discurso, uma narrativa, na Língua da Tabatinga, coisa que já está ocorrendo. A memória vai ficando difusa, diáfana, em razão da falta da prática, infelizmente.

Maria Joaquina da Silva, a Dona Fiota (1928-2012). Guardiã e transmissora da remanescente tradição oral na cidade de Bom Despacho/MG. Dona Fiota, seus familiares e comunidade trabalharam em projeto com a Fundação Guimarães Rosa e contribuíram com inúmeras pesquisas acadêmicas.
Maria Joaquina da Silva, a Dona Fiota (1928-2012). Guardiã e transmissora da remanescente tradição oral na cidade de Bom Despacho/MG. Dona Fiota, seus familiares e comunidade trabalharam em projeto com a Fundação Guimarães Rosa e contribuíram com inúmeras pesquisas acadêmicas.

Vimos que o autor é mais que bissexto nas modalidades de poesia e ficção. Quais são suas obras escritas e publicadas? Gosto de escrever e tenho alguns projetos, para o futuro próximo, entretanto não me considero um escritor. Mesmo porque tenho mais facilidade com assuntos técnicos do que com literatura. O único livro que escrevi, que nunca foi publicado em papel e está no meu Blog, é “O ESTADO NO ESTADO, por que os Funcionários Públicos são indolentes?”. É uma análise da Administração Pública brasileira, por alguém que atuou como Servidor Público Federal concursado, até então, por 22 anos, além de algum tempo anterior como contratado. Cumpri 34 anos como Servidor Público Federal concursado. Já publiquei artigos em jornais universitários, jornal local, jornais murais da cidade e semelhantes. Trabalhos acadêmicos foram muitos, nos anos de faculdade. Algumas Monografias para conclusão de curso. Eventualmente, escrevo alguma coisa, mais de cunho político, nas redes sociais. Tenho um Blog que precisa ser mais movimentado. Tenho dois projetos de livros para o futuro próximo, um sobre “Ideologia” e outro sobre “tópicos de Direito Penal”, que tem relação direta com minha vida profissional no Serviço Público.

Bom, é isso, espero haver atendido o esperado. Coloco-me à inteira disposição. Muita satisfação poder falar sobre a Língua da Tabatinga, da qual tenho muito orgulho, orgulho natal.

O CUETE QUE CAXÔ IMBUETE DOS VIRIANGO

O cuete-atiapo caxava curimba no sengue, lá no Quebra-Cocão, no conjolo do cavinguero da ingura avura. O cavinguero era avuraça, tipurava os cuete do cumbaro avura de Brasia, os cuete que caxa ingura avura e ingira no fute, na uruma-do-fute e caxa urunanga opepa, com cavu e tiploque de coro de cangura-do-sengue. Na curimba do sengue, o cavinguero ingira na uruma avura, caxa urunanga opepa e tiploque de sengue caxado nos istazunidos. O cuete-cavinguero é cheio dos tiparo dos imbondo, com oronha de oro e percinê de cuete-avura. O cavinguero é dotô. As gibera do cavinguero é cheia das ingura avura.

O cuete-atiapo curimbava carregano uruma de carguero, com assangue, tipoquê, pungue e as veiz cajuvira. O cuete ingirava do isquife quando o carambóia-cuete tipurava um cacarejo, antes do unde tipurá no sengue. O cuete tipurava um cajuvira com caviconve e uns cumicove e adispôis tipurava um marcanjo de paia de pungue. Aí o cuete ia caxá curimba. Caxá o haver de gombê. E aí era ingirá pro sengue e batê moco no conjema. O cuete prantava vianjê, tipoquê, pungue e assangue.

Quando caxava a sexta-feira o cavingueiro ia caxá as ingura dos cuete do sengue. A ingura catita. O cuete tipurava a ingura e o tué do cuete caxava uarrufo. Os cuetim ingirava caladim, só cramano, tué baixado. Aí os cuete ingirava pra redovia mode caxá o camba, pá ingirá pro conjolo, no cumbaro. Os cuete ia ingirano no camba, só tipurano as ocaia dos tinhame avura, os mavera bão de caxá e as urunanga catita. Os cuetim ia tipurano uns pros outros, pra ingirá pro conjolo de matuaba e caxá uma omenha-de-vianjê, no oteque.

O pobrema é que o cuetim era cassucarado e o cassucara do cuete foi coisa séria, no conjolo-do-Granjão, com inganga de verdade. E a ocaia-do-cuete tava no conjolo só tipurano o cuete caxá. A ocaia já ia tipurano as ingura do cuete, mode caxá os tiparo dos imbondo pro camonim. O camonim do cuete era catita e caxava muito haver de gombê. Aí o cuete caxô um tiquim de ingura na gibera, mode a ocaia num tipurá, pra caxá os grozope com os cuete lá.

Quando é fé, a ocaia ingirô pro conjolo da ocora dela pra tipurá a uruma de tipurá, as novela da grobo. A ocaia ingirô com o camunim. O cuete caxô uns cureio que a ocaia dexô no conjolo. Tinha tipoquê com assangue, biguibote, camberela de gombê, urufim frito, haver de carambóia, mantambu cuzido e uns pedaço de orelo. Aí o cuete tipurô, tipurô, tipurô… tipurô a uruma de tempo, caxô um marcanjo de paia de pungue e ingirô pro conjolo-de-matuaba. As ingura tava na gibera do cuete. O cuete caxô umas urunanga avura pra caxá ocaia e tipurô um tiploque opepa que o cuete catiolô no conjolo dos tiparo dos imbondo de ingura avura. O cinto do cuete tinha fivela de tiploque-de-orongó.

O conjolo do cuete era no Quenta-Sol, mais o conjolo-das-matuaba era na Tabatinga, pertinho do conjolo do Bené-Pião. Aí o cuete ingirô na uruma-de-equilíbrio.

No conjolo-da-matuaba o cuetim já foi caxano os grozope com os outros cuete e o tué do cuete ia só ingirano. O cuete tipurava tudo quanto é ocaia e as ocaia caxava uarrufo com o cuete. As ocaia só mandava o cuete ir ingirá no conjolo-do-Demonho, o cangura oveva de coreã-de-gombê. As ocaia mandava o cuete ir caxá cuxipa no janô. O tué do cuete só ingirano no fute.

O cuete resorveu ingirá pro conjolo das ocaia-de-cuxipa, na Rua da Garça. O tué do cuete tava ingirano no fute, por causa da matuaba avura. Quando o cuete passou na Praça da Matriz tinha um cuetim tipurano marcanjo avura. O cuetim ofereceu pro cuete. O cuete falô: “num tipuro marcanjo avura não, cuete; sô cuete curimbadô; cuete de cassucara; os viriango tipura ocê, sô”. Aí o cuetim falou: “tipura um tiquim aí, cuete-ocaia, pro tué ingirá; é bão, sô”. Aí o cuete tipurô o marcanjo avura e ingirô pro conjolo-das-ocaia. O tué do cuete tava ingirano no fute por causa da matuaba e do marcanjo avura.

Aí o cuete chegô no conjolo-das-ocaia-que-rasta-cuxipa e tipurô uma ocaia cafuvira do janô avura e caranguela catita. O tué do cuete ingirô que nem pião. O cuxipo do cuete foi ficano avura e o cuete foi tipurano o janô da ocaia. O janô da ocaia era opepa. O oranjê da ocaia era opepa. Os tiparo da ocaia era opepa tamém. O cuete perguntô pra ocaia cafuvira quanto que era de ingura pra caxá cuxipa. A ocaia falô pro cuete que era cem cruzeiro e o cuete perguntô se a ocaia rastava cuxipa no janô, porque o janô da ocaia era avura. A ocaia caxô uarrufo e mandô o cuete e caxá cuxipa no janô. A ocaia falô que só tipurava cuxipa na marcela. Aí o cuete chamô a ocaia para ir pro isquife rastá cuxipa.

Quando o cuete cabô, falô pra ocaia que tava atchapo, que num ia caxá ingura não. Falô pra ocaia que a ingura ingirô no conjolo-das-matuaba. O cuete falô que só ia caxá vissongue na outra sexta-feira. Aí a ocaia cafuvira caxô uarrufo e ingirô um turisco na cabeça do cuete. Aí o conjolo-das-ocaia virô foi uma vizunga, aquês tiparo dos imbondo, com as ocaia tudo encima do cuete e ês prancheano e o cuete tentano ingirá. Aí caxaro os viriango.

Os cuete-viriango já foro tipurano os moco-de-undaro no tué do cuete. Aí os viriango falaro pro cuete: “ô cuete, seu tué tá ingirano, cê fica queto se num quisé fitá viru”. Caxaro o cuete na uruma-de-viriango e ingiraro pro conjolo-dos-viriango. No conjolo-dos-viriango é que foi a verdadeira vissunga. Aí os viriango ia caxano imbuete no cuete. Caxava imbuete no tué do cuete, caxava imbuete no janô do cuete, no babatimão do cuete, pra toda banda. O cuete caxô imbuete dos viriango até prancheá. Aí o cuete rastô tiprequé no conjolo-dos-viriango.

Aí quando o carambóia-cuete tipurô o cacarejo o cuete levantô do isquife oveva e tipurô o cumba-do-bélude caxá quadrado.

Belo Horizonte, 18 de outubro de 2009-

BENÍCIO CABRAL

VOCABULÁRIO DA LÍNGUA DA TABACA

(Também chamada “Língua dos Negros da Costa” [Angola])

Vocábulos de “a-x”

Aiaquinzim. S.m. Queijinho

Arumute. S.f. Abóbora; Var: Urumute.

Arunanga. S.f. Roupa, calça. Var: Urunanga.

Assangue. S.m. Arroz. Var: Assango; Assengue; Imassango; Missangue.

Assengue. S.m. Arroz. Var: Assangue.

Atchapo. Adj. Pouco; Esfarrapado; Maltrapilho; Roto; Estragado; Inutilizado

etc.; sem dinheiro. S.m. Pobre. Sin. Tchapo ou Tiapo.

Atiapo. Adj. Vide Atchapo.

Avura. Adj. Grande; Grosso; Depressa; Muita quantidade. Também usado para designar pessoa boa, coisa boa, bonita, ou coisa positiva de um modo geral (nesta acepção, o mais correto é Opepa).

Avuraço. Adj. Grandalhão; Muito grande.

Avurinha. Adj. Bonitinho.

Babatimão. S.m. Suã de vaca.

Bambi. S.m. Frio.

Banjeco. S.m. Qualquer instrumento musical. Var: Imbanjeco.

Banjerê. S.m. Comida. Var: Conjerê. Sin: Cureio (esta é a forma mais usada atualmente).

Bélude. S.m. Dia (por oposição a noite, que é Oteque).

Biguibote. S.m. Macarrão.

Bugue: S.m. Milho. Var: Pungue.

Cachar. V. Pegar; trazer; cair (chuva); dar; entregar; tomar; roubar; beber; comer; etc. “Funciona como verbo passe-partout cujo sentido se define pelo contexto.” Var: Acachar.

Cachar Covera. V. Adoecer.

Cachar o Cureio. V. Almoçar; jantar; ceiar.

Cachar Curimba. V. Trabalhar.

Cachar Cuxipa. V. Transar; fornicar; prostituir-se; etc. Sin: Rastar Cuxipa.

Cachar Esquife. V. Ir deitar-se; ir domir.

Cachar Janô. V. Sin. Cachar Cuxipa, só que mais usado para a atitude passiva.

Cachar Matuaba. V. Beber bebida alcoólica.

Cachar Matuaba no Tué. V. Encher a cara; beber até se embebedar.

Cafanhaque.S.m. Dente; Mandíbula;Queixada.Var:Cafanhaco; Gafanhaque.

Cafunguera. Var. de Cavinguero.

Cafuvira. S.m. e Adj. Preto; Negro; Escuro; Crioulo. S.m. ou f. Homem Preto ou Mulher Preta. Var: Cavuvira.

Cajuvira. S.m. Café.

Camargo. S.m. Saco.

Camargo Catita. S.m. Embornal.

Camba. S.m. Ônibus. Var: Cambajara; Cambajarra.

Cambajara. Var: Camba.

Cambém. S.m. Vasilha; recipiente; panela; copo.

Cambém de Cajuvira. S.m. Xícara (para café).

Cambém de Cureio. S.m. Panela

Cambém de Caxá o Cureio. S.m. Prato.

Cambém de Curimba. S.m. Ferramenta (instrumento de trabalho).

Cambém de Omenha. S.m. Copo (vasilha para água).

Cambém de Caxá Omenha. S.m. Talha.

Camberela. S.f. Carne. Var: Camberelo; Timbere; Timberéia.

Camberelo. Var: Camberela.

Camberela de Cangura. S.f. Carne de porco.

Camberela de Cangura de Omenha. S.f. Carne de peixe.

Camberela de Cangura do Sengue. S.f. Carne de caça.

Camberela de Carambóia. S.f. Carne de galinha (de frango).

Camberela de Gombê. S.f. Carne de vaca (de boi).

Cambereluda. S.f. Carnuda; gorda; boazuda.

Cambóia. S.f. Locomotiva.

Cambuá. S.m. Cachorro; cão.

Cambuá-Camoninho. S.m. Cachorrinho; filhote de cachorro.

Cambuá do Sengue. S.m. Lobo; cachorro do mato.

Camoná. S.m. ou f. Menino; menina; criança. Var: Camoninho (mais usado).

Camoninho. S.m. ou f. Criança; menino; garoto; guri (masc. ou fem.).

Camoninho no Jequê. Adj. Grávida.

Canambóia. S.f. Galinha. Var: Carambóia (atualmente mais usado).

Candambora. Var. Carambóia (atualmente mais usado).

Cangura. S.m. Porco; leitão; cachaço. Var: Canguro.

Cangura do Sengue. S.m. Bicho; animal selvagem.

Cangura de Omenha. S.m. Peixe (bicho que vive na água).

Carambóia. S.f. Galinha; frango; por extensão: galo (Carambóia-Cuete). Var: Canambóia; Candambóia Candambora; Candombóia; Candombora.

Carambóia Catita que Injira no Fute. S.f. Passarinho.

Caranguela. S.f. Aparelho sexual feminino; vulva; vagina. Sin: Marcela.

Cassucara. S.m. Casamento; matrimônio. Var: Cassucaro.

Cassucarar. V. Casar-se; contrair matrimônio.

Catiolar. V. Roubar.

Catita. Adj. Pequeno. Var: Catito. Por ext.: feio; sem valor; inútil; fraco etc. (nestes últimos sentidos, o mais correto é utilizar Oveva.

Catovelana ou Cotovelana. S.f. Faca.

Cavicome. Vide Caviconve.

Cavicongo. Vide: Caviconve.

Cavicongue. Vide: Caviconve.

Caviconve. S.m. Pão. Var: Cavicome; Cavicongo; Cavicongue; Conviconve; Conficonfe.

Cavinguero. S.m. Fazendeiro; patrão. Por ext: dono; chefe. Adj. Rico. Var: Cafunguera; Cavinguera; Cavinguerão; Cavunguera; Cavunguero; Vindero.

Cavu. S.m. Paletó.

Conema. Cocô; fezes; esterco.Var: Conena.

Conficonfe. Vide: Caviconve.

Conjema. S.m. Cemitério; morte. Por ext: terra. Fitar Viru: morrer.

Conjerê. S.m. Comida; Almoço; Janta; Ceia. Var: Banjerê. Sin: Cureio.

Conjolo (ô). S.m. Casa; residência. Por ext.: prédio; repartição etc. Var: Conjor; Conjô; Canjolo.

Conjolo das Ocaia. S.m. Zona boêmia; cabaré; randevu.

Conjolo de Camberela. S.m. Açougue.

Conjolo de Conena. S.m. Banheiro; instalações sanitárias.

Conjolo de Conjema. S.m. Cemitério (pode-se usar apenas Conjema).

Conjolo de Covera. S.m. Hospital.

Conjolo de Curimba. S.m. Local de trabalho; escritório; oficina.

Conjolo de Cuxipa. Sin. Conjolo das Ocaias; motel.

Conjolo de Gombê. S.m. Curral.

Conjolo de Grozope. S.m. Bar (mesmo que Conjolo de Matuaba).

Conjolo de Ingura. S.m. Banco.

Conjolo de Matuaba. S.m. Bar.

Conjolo de Omenha. S.m. Mictório; banheiro.

Conjolo de Viru. S.m. Cemitério. Sin: Conjolo de Conjema.

Conjolo do Granjão. S.m. Igreja.

Conjolo do Longado. S.m. Discoteca; clube; casa de dança.

Conjolo dos Cuete-Ocora. S.m. Asilo.

Conjolo dos Viriangos. S.m. Cadeia. Por ext: batalhão.

Conteque (ê). S.m. Noite. Mais usado: Oteque.

Conviconve. Vide: Caviconve.

Coreã. S.m. Chapéu; cobertura.

Coreã de Gombê. S.m. Chifre.

Covera. S.f. Doença. Var: Corvera.

Cuete (ê). S.m. Homem; moço; rapaz; cara; sujeito. Por ext: macho.

Cuete-Avura. S.m. Cara Grande. Por ext: Cara legal; cara bonito; cara rico.

Cuete Curimbador. S.m. Trabalhador; operário; proletário.

Cuete da Ocaia. S.m. Marido.

Cuete do Conjolo de Granjão. S.m. Padre; sacristão. Sin: Inganga.

Cuete-Ocaia. S.m. Homem homossexual; pederasta passivo; bicha; homem gay.

Cuete-Ocora. S.m. Homem velho. Por ext: Pai.

Cuete-Omano. S.m. Irmão. Sin: Imbanje.

Cuete-Tata. S.m. Pai.

Cumba. S.m. Luz; lâmpada. Var: Pumba.

Cumba do Bélude. S.m. Sol. Sin: Unde.

Cumba do Oteque. S.m. Lua.

Cumbaro. S.m. Cidade. Var: Cumbara.

Cumicove. S.m. Quitanda; salgado; tira-gosto. (Trata-se de variação de Caviconve).

Cureiar. Sin: Cachar o Cureio. Var: Curiar.

Cureio. S.m. Comida; almoço; janta; ceia. Sin: Banjerê ou Conjerê. Var: Cureia; Curei.

Curimba. S.m. Trabalho; ocupação; ofício. Var: Curimbo; Curima; Curimo.

Curimbar. V. Trabalhar. Var: Curimar.

Cuxipa. S.f. Pênis; órgão sexual masculino. Var: Cuxipo. Sin: Erpido.

Cuxipador. S.m. Aquele que pratica sexo com freqüência. Gíria: comedor;

fodedor.

Cuxipar. V. Sin. Rastar Cuxipa.

Cuxipo. S.m. Pênis; órgão sexual masculino. Var: Cuxipa. Sin: Erpido.

Encachar. V. Sin. Cachar.

Erpido. S.m. Pênis. Sin: Cuxipa, Cuxipo.

Esquife. S.m. Cama; leito. Var: Isquife. Sin: Tiprequé.

Fitar Viru. V. Morrer; falecer.

Fute. S.m. Céu; firmamento; ar; espaço sideral.

Gafanhaque. S.m. Dente; Queixo; Mandíbula. Var: Cafanhaque e Cafanhaco.

Gombê. S.m. Gado; vaca; boi.

Gombê-Camoninho. S.m. Bezerro (Gombê Catita).

Granjão. S.m. Deus; o Todo-Poderoso. Var: Garanjão; Garanjame.

Grozope. S.m. Cerveja.

Grozopiado. Adj. Bêbado.

Grozopim. S.m. Bebidinha; qualquer bebida alcoólica de dose.

Haver de Carambóia. S.m. Ovo. Sin: Sabor.

Haver de Gombê. S.m. Leite.

Imassango: S.m. Arroz; Var: Assangue; Assengue; Missangue.

Imbanje. S.m. Irmão. Sin: Cuete-Omano. Var: Imbangue.

Imbanjeco. S.m. Qualquer instrumento musical. Por ext: toca-disco; toca-fita; toca CD. Var: Imbanjeque; Banjeco.

Imbanjeco de Imbuete. S.m. Violão.

Imbera. S.f. Chuva. Sin: Omenha do Fute.

Imbiá. S.m. Cigarro. Sin: Marcanjo.

Imbondo. S.m. Qualquer coisa; objeto.

Imbuete (ê). S.m. Pedaço de pau; madeira; cacete; porro; taco. Por ext: pênis.

Imbuete de Undaro. S.m. Pau de fogo; arma de fogo; espingarda. Sin: Moco de Undaro.

Imbuta. S.f. Cobra; lingüiça. Var: Imbuca.

Inca. S.m. Ânus; cu. Sin: Janô.

Indaro. S.m. Fogo. Sin: Undaro.

Indu. S.m. Feijão. Sin: Tipoquê.

Inganga. S.m. Padre; sacerdote; feiticeiro (pajé); Sin: Cuete do Conjolo de Granjão.

Ingora. S.m. Cavalgadura; cavalo; jegue; burro. Sin: Orongó.

Ingura. S.f. Dinheiro; numerário; riqueza.

Ingura Avura. S.f. Rico; cheio da nota.

Ingura Catita. S.f. Pobre; pobretão; sem dinheiro. Sin.: Tchapo.

Injara. S.f. Pênis. Sin: Cuxipa.

Injara Mitomo. S.f. Barriga (pouco usado). Sin: Jequé.

Injira. S.f. Carona; transporte.

Injirar. V. Andar; fugir; correr; voar; sair; sumir; escafeder-se; jogar (pedra ou objeto); atirar etc.

Injirar no Fute. V. Voar.

Injirar no Viru. V. Morrer; falecer. Sin: Fitar Viru.

Injirar pro Esquife. V. Ir deitar-se; ir dormir.

Insu. Adj. Azedo.

Isquife. S.m. Cama. Var: Esquife.

Janô. S.m. Ânus; cu; bunda.

Jequê. S.m. 1. Barriga; ventre; útero; pança. 2. Buraco. Var: Jequé.

Jiqui. S.m. Buraco.

Liporê. S.m. Fruta. Var: Tiporê.

Longado. S.m. Rebolado; dança; jeito de andar;

Mantambu. S.m. Mandioca. Var: Matambu.

Marcanjo. S.m. Cigarro; pito; fumo. Sin: Imbiá. Por ext.: Marcanjo Avura: maconha.

Marcanjo Cafuvira. Fumo de rolo.

Marcela. S.f. Vulva. Sin. Caranguela.

Maruco. S.m. Litro de cachaça.

Massarundá. S.f. Banana.

Matambu. S.m. Mandioca. Var: Mantambu.

Matuaba. S.f. Bebida alcoólica; cachaça.

Matuaba no Tué. Adj. Bêbado; borracho; bebum.

Mavero. S.m. Mama; peito de mulher; seio. Var: Mavera.

Mingüé. S.m. Gato; felino (masc. ou fem.).

Mingüé do Sengue. S.m. Onça.

Missango. S.m. Arroz. Missangue.

Missongue. S.m. Dinheiro (pouco usado). Sin: Ingura.

Mitomo. Ver: Injara Mitomo.

Moco. S.m.Qualquer ferramenta ou instrumento de trabalho;enxada; enxadeco.

Moco de undaro. S.m. Arma de fogo; revólver; espingarda. Sin: Imbuete de Undaro.

Moná. S.m. Criança (Var. de Camoná ou Camoninho).

Mongo. S.m. Sal. Var: Mungo; Mungue.

Montecristo. S.m. Carvão.

Moxé. S.m. Sapo.

Ocaia. S.f. Mulher; moça; garota; fêmea etc.

Ocaia de Cuxipa. S.f. Prostituta; Sin: Ocaia que Rasta Cuxipa.

Ocaia-Ocora. S.f. Mulher velha. Por ext: Mãe.

Ocaia-Omana. S.f. Irmã.

Ocaia que Rasta Cuxipa. S.f. Prostituta; piranha; galinha.

Ocora. S.m. ou f. Homem velho; pai. Mulher velha; mãe.

Oli. S.m. e Adj. Branco.

Omana. S.f. Irmã. Omano. S.m. Irmão.

Omenha. S.f. Água; água potável.

Omenha de Cuxipa. S.f. Urina; xixi; mijo.

Omenha de Vianjê. S.f. Pinga; cachaça; aguardente de cana.

Omenha do Fute. S.f.: Chuva Sin. Imbera.

Opepa. Adj. Bonito; bom. Pessoa loura. Var: Apepa; Apepe; Atleba; Opepe; Oprepa.

Oranjê. S.m. Cabelo; cabelos. Por ext: pêlos. Var: Aranjê.

Oranjê de Cafanhaque. S.m. Barba; Bigote.

Oranjê de Cafuvira. S.m. Pixaim, carapinha.

Oranjê Opepa. S.m. Cabelo bonito; por ext: louro; liso.

Oranjê de Geada. S.m. cabelo grisalho.

Orelo. S.m. Gordura; Toicinho.

Orongó. S.m. Cavalo;égua;cavalgadura.Sin: Ingora.Var:Arangó; Arangome; Aranguão; Orangó; Orongome.

Oronha. S.m. Relógio. Também se diz: Uruma de Tempo.

Orufim. S.m. Peixe. Var: Orufino; Ourofino; Urufim.

Oruma. S.f. Carro. Var: Uruma.

Otata. S.m. Pai. Var: Tata.

Oteque (ê). S.m. Noite. Var: Conteque.

Oveva. Adj. Torto; feio; atrapalhado; machucado.

Percinê. S.m. Óculos.

Pó de Bugue. S.m. Farinha de Milho. Var: Pó de Pungue.

Pó de Mantambu. S.m. Farinha de Mandioca.

Pranchear. V. Cair; levar um tombo.

Prancheio. S.m. Queda; tombo; caída.

Protiuda. S.f. Bunda; nádegas; traseiro. Var: Protiude.

Pungue. S.m. Milho. Var: Bugre; Bugue; Burre.

Radiopipa. S.f. Bunda; nádegas. Sin: Protiuda.

Rastar Cuxipa. V. Fornicar; transar; fazer amor.

Rastar Longado. V. Dançar.

Rastar Tiprequé. V. Dormir; deitar-se.

Rastar Urunanga na Omenha. V. Lavar roupa.

Sabor. S.m. Ovo. Sin: Haver de Carambóia.

Sengue. S.m. Roça; mato; mata. Por ext: Fazenda; zona rural. Var: Sengo.

Tata. S.m. Pai; genitor. Var: Otata.

Teia. S.m. Tatu.  

Tchapo. Adj. Esfarrapado; maltrapilho; roto; estragado; inutilizado etc. Sem dinheiro; pobre. Var: Atchapo.

Tibanga. Adj. Bobo; idiota; imbecil; otário; inepto; simplório; ingênuo; boçal; trouxa; parvo etc. Var: Tibanguara.

Tibanguara. Var: Tibanga.

Timbuá. S.m. Mão.

Timbere. S.f. Carne. Var: Camberela (mais usado atualmente).

Timberéia. S.f. Carne Var: Camberela (mais usado atualmente).

Tinhame. S.m. Perna; coxa; coxa feminina. Var: Quiname.

Tinhame de Uruma. S.m. Roda (de carro).

Tiparo. S.m. Olho. Var: Tipara.

Tiparo dos Imbondos. S.m. (geralmente usado no plural) Rolo; quinquilharia; bricabraque; badulaque; coisa confusa e desconexa; gambiarra; objeto não identificado etc.

Tiploque. S.m. Sapato; calçado de um modo geral. Var: Tipoque; Tiproque.

Tiploque de Orongó. S.m. Ferradura.

Tiploque de Uruma. S.m. Pneu.

Tipomo. S.m. Chapéu. Sin: Coreã. Var: Ticomo; Pongo.

Tipoque. S.m. Sapato. Var: Tiploque.

Tipoquê. S.m. Feijão. Sin: Indu.

Tiporê. S.m. Fruta. Var: Liporê; Ariporê.

Tiporê de Insu. S.m. Limão.

Tiporê de Uíque. S.m. Laranja; tangerina.

Tiporê do Sengue. S.m. Fruta silvestre.

Tiprequé. S.f. Cama. Sin: Esquife. Var: Tipequera; Tipeqüera; Tipequé; Tiprequero.

Tiproque. S.m. Sapato. Var: Tiploque.

Tipurar. V. Olhar; observar; ver etc.

Tué. S.m. Cabeça; crânio; cérebro; inteligência etc.

Tué Uarrufo. S.m. Nervoso; cabeça quente; alterado; preocupado.

Turisco. S.m. Pedra; seixo; cascalho; rocha. Por ext: Bola de sinuca.

Uarrufo. Adj. Bravo; selvagem; forte; arredio. Var: Arrubo; Arrufo; Uarrubo; Uarrufa.

Uba. S.f. Cerveja. Sin: Grozope.

Uíque. Adj. Doce; coisa doce. S.m. Açúcar.

Undaro. S.m. Fogo; fósforo; isqueiro; faísca etc. Var: Indaro; Sundaro; Undara.

Unde. S.m. Sol. Sin: Cumba do Bélude.

Urufaco. S.m. Sapato. Sin: Tiploque. Var: Uruvaco.

Urufim. S.m. Peixe. Var: Orufim.

Uruma. S.f. Carro; veículo. Por ext: máquina. Var: Orum; Oruma; Orume; Orumo; Urum; Urumo.

Uruma de Equilíbrio. S.f. Moto; motocicleta; motoneta; lambreta; vespa.

Uruma de Gombê. S.f. Carro de boi.

Uruma de Omenha. S.f. Barco; navio; canoa.

Uruma de Orongó. S.f. Charrete; carroça.

Uruma de Pedal. S.f. Bicicleta.

Uruma de Tempo. S.f. Relógio. Sin. Oronha.

Uruma de Urunanga. S.f. Máquina de costura.

Uruma do Fute. S.f. Avião.

Urumute: S.f. Abóbora; Var: Arumute.

Urunanga. S.f. Roupa; vestimenta; calça; camisa; vestuário. Var: Arundanga; Arunanga; Urundanga.

Urunanga Catita de Cuete. S.f. Cueca.

Urunanga Catita de Ocaia. S.f. Calcinha.

Urunanga de Mavero. S.f. Sutiã.

Vianjê. S.m. Cana-de-açúcar.

Vindero. S.m. Patrão. Var. de Cavinguero.

Viriango. S.m. Soldado; policial; polícia; meganha; samango; etc.

Viru. S.m. Defunto; morto; cadáver.

Vissongue. S.m. Dinheiro (pouco usado, antiquado). Sin. Ingura.

Vissunga. S.f. Festa; baile; pagode. Var: Vizunga.

Vizunga. S.f. Festa. Var: Vissunga.

Xapixape. S.m. Comida. Sin mais usado: Cureio.

Bondês; Bederodes; BD; (Bom Despacho),

28 de maio de 1985. ANTÔNIO BENÍCIO DE CASTRO CABRAL & IVÃ RODRIGUES DO COUTO (COMODORO)

Atualizado com a união com o vocabulário da Professora Sônia Queiroz, integrante do seu livro “PÉ PRETO NO BARRO BRANCO, A língua dos negros da Tabatinga”; pg. 112 a 138. Editora UFMG, Belo Horizonte, 1998.

Referências:

CABRAL, Antônio Benício. Benício Cabral Produções. A Língua da Tabatinga. O Cuete que caxô imbuete dos viriango.Coordenação e desenvolvimento do autor. Disponível em: <https://beniciocabral.wordpress.com/>. Acesso em: 19 maio 2020.

CABRAL, Antônio Benício. Entrevista Especial sobre Literatura e a Língua da Tabatinga. Mensagem recebida por <beniciocabral@gmail.com> 05 de agosto de 2020.

GATTUCO, Gio. Linguas Africanas: 10 palavras do Kimbundu usadas pelos brasileiros. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_4OGwDEmBLc >. Acesso em 07 maio 2020.

MAZZITELLO, Maria Catarina. Cuete Cavinguero tá injirando. Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Desenvolvimento da autora. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=OwblIAp9Myk >. Acesso em: 07 maio 2020.

QUEIROZ, Sônia Maria de Melo. Pé preto no barro branco: a língua dos negros da Tabatinga. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.149 p.

MOPC LÍNGUÍSITCA. Kimbundo – Língua Africana de Anola Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WdABeeTsCNw&list=PLVtynsD4LmFGc97McUYUkkBwuZU8RtwzZ&index=66&t=0s>. Acesso em 07 maio 2020.

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