PSICOLOGIA DA MULHER ELEGANTE, O LEQUE

(…) O nosso Manfredo de hoje veste o seu talmá, acende o seu havana, e vai para o Club, ou para o café, jogar sua partida de bilhar, e maldizer a sociedade, à qual ele dá a honra de fazer parte.

Foi um dos indivíduos dessa família que me fez presente do livro de que vos falei: o autor conservou o incógnito, e não quis fazer, como hoje se costuma, um brasão de títulos da sua primeira página.

Intitulou a obra Psicologia da mulher elegante, e dividiu-a em diversos capítulos, todos interessantes, senão pela forma e pelo estilo, ao menos pela originalidade.

O capítulo que vou ler tem por título O leque: é um estudo psicológico que o autor faz sobre este objeto de luxo, que serve de cetro às rainhas da moda.

Há, como estes, muitos outros capítulos a respeito do bouquet, do mantelete, do lenço, das fitas, das botinas, etc.

Mas prefiro o leque porque, estando no verão, tem a sua atualidade.

Portanto, se estais disposta a ouvir, abro o meu livro, e começo a leitura do meu capítulo.

Aí tendes:

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PSICOLOGIA DA MULHER ELEGANTE

CAPÍTULO ÚNICO

O LEQUE

I

As moças têm um companheiro fiel, confidente dos seus menores segredos.

É o leque.

À primeira vista parece um simples objeto de luxo; mas se ele pudesse contar o que viu e ouviu!…

Quando o rubor vem colorir uma bela face, aí está o leque para disfarçar e encobrir aos olhos profanos esse misteriozinho do pudor.

Um leque serve também de pretexto para baixar os olhos, e ocultar a vista que anda passeando pelo salão.

Se uma amiga quer dizer um segredo ao ouvido de outra, estende o seu leque aberto, e por sobre a madrepérola dourada deslizam essas palavras que, por saírem de lábios mimosos, não deixam de ser bem venenosas.

São como os espinhos que se escondem entre as folhas das rosas, com o fel que destila o cálice de uma flor alva e pura.

Por mim, apenas descubro um leque naquela posição temível de pára-raio, vou quebrando à direita, e colocando-me em respeitosa distância: uma das cousas que mais temo neste mundo é ver-me reduzido a passar da boca de uma moça ao ouvido de outra por entre as aspas de um leque.

Preferia passar por baixo das forças-caudinas, ou ser passado a fio de espada; porque duvido que haja ferro que doa mais do que aquelas tenazes de madrepérola dourada, quando são vibradas por uma mãozinha que calça luva de Jovin letra A.

Outra posição respeitável do leque é quando ele move-se com extrema rapidez ou abre-se e fecha-se com um certo trilho sonoro, porém de mau agouro.

Se reparardes bem, vereis que a mãozinha que lhe imprime este movimento está crispada por uma convulsão nervosa; é um sinal certo de mau humor, e bom será que não vos aproximeis neste momento.

Dizem alguns fisiologistas experientes que nesta ocasião a rapidez do movimento do leque é um termômetro exato da rapidez da circulação do sangue.

Não sou fisiologista; mas basta-me ver de longe um leque fazendo ziguezague, para compreender o que se passa na alma de uma moça, e para sentir-me tomado de dó e de compaixão pelo sujeito ameaçado por esta inocente arma de guerra feminina.

II

O leque tem a sua linguagem, como as flores linguagem telegráfica, (sic) um pouco simbólica, que os profanos nunca poderão entender; só os iniciados nos mistérios da vida elegante é que sabem interpretar os seus menores movimentos.

Não há fio elétrico, não há sinais de repercussão que transmitam o pensamento com mais rapidez e mais clareza, do que um leque na mão de uma moça; é de tal forma, que alguns homens peritos governam-se por ele no meio do salão, como o marinheiro no oceano por meio de uma boa agulha de marear.

Uma mãozinha que se estende indolentemente, e deixa cair a ponta do leque sobre a palhinha de uma cadeira, diz ao escravo submisso que “venha sentar-se ali”.

Quando o leque descreve um semicírculo, ou faz um movimento de retração, o sujeito de longe traduz imediatamente o gesto ao pé da letra: ___ “Passe para o outro lado” ___ ou ___ “aproxime-se”.

Se o escravo é um pouco rebelde, e não obedece sem hesitar, vereis o leque duas pancadinhas, uma após outra, sobre o espaldar da cadeira: isto em linguagem cabalística vale o mesmo que um ukase do sultão, ou uma sentença sem apelação nem agravo. Em linguagem profana significa simplesmente: Quero, quero já.

Entretanto o leque tem um momento delicioso; é quando se agita indolentemente sobre o seio, com o movimento suave das asas do cisne que se revê na flor do lago.

Então a sua linda senhora está em uma de suas horas de embevecimento; tudo nela respira a felicidade e o prazer.

Os olhos meio cerrados têm um requebro lânguido; um sopro ligeiro agita as rendas do seu vestido ou as fitas dos seus cabelos; e as sombras escassas que passam e repassam sobre o colo acetinado, dão-lhe umas ondulações voluptuosas, capazes de enlouquecer um pobre homem que tem olhos para ver todas estas cousas.

Então que segredos não ouve ele no palpitar desse seio mimoso, no bafejo dessa boca delicada que o perfuma com seu hálito de rosas?

Se o leque fosse uma cousa animada, eu diria que é o momento em que ele sorri; porque na sua linguagem misteriosa diz àquele por quem se agita: “Eu te olho, eu te amo, e sou feliz”.

Tenho visto muitos homens brincarem com o leque que alguma senhora deixa por acaso sobre a cadeira, como se fosse um objeto qualquer de luxo.

Eu não sou assim: para mim o leque é um livro de páginas douradas, um álbum de seda e de penas, em que a mulher guarda todos os seus segredos.

Por isso, quando alguma senhora me dá o seu leque a guardar, recebo-o com o mesmo respeito com que receberia o autógrafo de um romance de Alexandre Dumas, ou de uma poesia de Victor Hugo.

III

Para concluir este estudo fisiológico do leque, acrescentarei algumas observações sobre a sua história.

O leque é para a mulher o que a bengala é para o homem; na sua origem ambos estes objetos foram uma arma de defesa, mas a civilização, de transformação em transformação, reduziu-os a um traste de luxo, que às vezes ainda no fundo revelam o que foram.

A bengala na sua primitiva forma não era mais do que uma clava, um bastão ou um cajado; depois transformou-se em lança, adaga, espada ou florete; e finalmente no século XIX chegou ao seu estado de perfeição, que é a bengalinha de junco ou a chibatinha de barbatana.

Hércules, Abraão e Diógenes trouxeram a clava, o cajado e o bastão; César, Carlos Magno, Henrique IV e Turenne usaram da lança, da adaga, da espada; Napoleão tinha o seu sabre; Murat o seu chicotinho; Nicolau da Rússia andava de bengala: está pois bem próxima a época em que o cetro dos reis será uma chibatinha de unicórnio, com castão de coralina.

O leque passou com poucas diferenças pelas mesmas transformações que a bengala.

Nos tempos heróicos teve a forma de um punhal ou estilete; tornou-se depois um fuso, e afinal, com a descoberta do caminho da Índia, metamorfoseou-se no que é atualmente.

Sarah, Norma, Abigail e Medéia traziam à cinta o seu punhal; a rainha D. Sancha e as castelãs da Idade Média manejavam a roca e o fuso: a moça elegante do nosso tempo abana-se indolentemente com o seu leque dourado.

Passo por alto algumas outras transformações, verdadeiras aberrações, como por exemplo: o estilete que há bem pouco tempo usavam as andaluzas, e o fato da padeira de Aljubarrota, cujo leque foi uma pá de forno.

IV

Agora podem os meus leitores conhecer a razão por que ainda hoje o leque conserva alguma cousa da sua primitiva origem: apesar de toda a indolência e o capricho que lhe deu o gênio voluptuoso da Índia, é sempre a mesma arma terrível da mulher.

Sob as duas penas de Marabout, entre as aspas delicadas, a vista não vê, mas o coração do homem ainda sente o estilete de Norma, que a vingança muitas vezes estorce, como uma víbora no seio das flores.

Judith com o seu punhal cortou a cabeça de Holofernes e exultou pelo seu ato de coragem e de bravura; a Judith de luvas e mantelete dos nossos tempos, com o seu leque, esmaga, sorrindo, o coração dos Holofernes de casaca, e saboreia lentamente o prazer da tortura e do martírio que impõe à sua vítima; uma é pois digna da outra.

Ainda um paralelo:

Lucrécia para defender a sua honra serviu-se do seu leque, isto é, do seu punhal, e a ele deveu conservar-se pura e casta; a Lucrécia moderna, para defender o seu pudor, serve-se do seu punhal, isto é, do seu leque, e a ele confia a guarda do seu pejo.

A primeira, estando só e não podendo defender-se, apunhalou-se e morreu; a segunda, estando no meio do salão, e levando o vestido decotado, oculta o seio com o leque, e sorri.

Aqui infelizmente já a Lucrécia moderna não é nem a sombra da esposa romana; o que é que degenerou, foi a honra ou foi a mulher?

Deve ter sido a honra, porque a mulher é a mesma em todos os tempos: criai um paraíso, deitai nele um Adão, e achareis mil Evas ao alcance do braço.

Agora, meus leitores, inclinai a cabeça, chegai o ouvido, que vos quero dizer uma cousa em muito segredo.

É um conselho.

Se desejais viver tranquilos e felizes, quando virdes um leque fugi dele como de uma pistola carregada.

Talvez penseis que me contradigo; mas refleti que há pouco falava para o público, e especialmente para as senhoras; e agora falo-vos ao ouvido, e em confidência. Virgílio, descrevendo a verdadeira felicidade e a doce tranqülidade da vida campestre, disse: – Felix, qui procul negotiis , etc.

Se ele vivesse hoje, e vos falasse em meu lugar; se quisesse convidar-vos ao sossego e aos calmos prazeres do lar doméstico, em vez daquelas palavras, escreveria pouco mais ou menos estas: – Felix, qui procul lequis, etc.

Antigamente os cavalheiros ilustres, depois de uma vida de feitos brilhantes, guardavam a sua espada, como uma relíquia sagrada, que entregavam ao seu primogênito no dia que ele partia para a primeira campanha.

Talvez as mulheres elegantes façam o mesmo, e dêem às filhas, no dia da sua primeira entrada nos salões, o leque, troféu glorioso de suas conquistas.

Fui estudantinho, estudante vadio; entretanto nunca a férula do meu mestre del latim me meteu tanto medo como esse brinquedo das mulheres à moda.

Se eu governasse algum país, para conservar a paz do meu povo não consentiria no fabrico de leques; classificaria isto entre as indústrias proibidas, como a pólvora e os foguetes a congreve.

Mas não sou governo, e por isso a única esperança que me resta é que o Sr. Sampaio Vianna fará apreender como contrabando todos os leques que entrarem na alfândega, como já fez com pentes de tartaruga.

E assim fico um pouco tranquilo, confiando na sabedoria do nosso inspetor, a quem está reservada a glória de salvar o país, apreendendo os leques e os pentes.

Aqui termina o capítulo, minhas leitoras, e aqui termino eu igualmente.

O livro, como já vos disse, é anônimo, porém, se vos interessais muito em conhecer o autor, vou ensinar-vos a maneira de conseguir.

Deitai a costura sobre a banquinha, chegai depressa à janela, olhai para a rua, e o primeiro homem de bom senso que passar é o indivíduo que desejais conhecer.

Podeis escrever-lhe o nome no fim do capítulo, que eu servirei de testemunha, e assinarei depois dele.

José Martiniano de Alencar, Folhas soltas, 6/mar./1856

Fonte imagens:http://www.omundodegogoia.com.br/historia-do-leque/

 

 

 

 

 

A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

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Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

 

A véspera de Natal

A véspera de Natal

José de Alencar, ao correr da pena, 24/dez./1854.

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Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa que não há nada tão poético como esta legenda das Mil e Uma noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da Igreja, nesses símbolos que comemoram a poética tradição do nascimento de um menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia-noite, os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é, porém, na cidade que se pode gozar deste idílio suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado; mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo ao longe o tanger alegre de um sinozinho de aldeia, que vem quebrar a calada da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida, distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade, vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não vades à missa do galo nas igrejas da cidade. Escolhei alguma capelinha dos arrabaldes, à beira do mar, como a de São Cristóvão, cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada nalguma eminência, como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadida que não aspirais aos foros da alta fashion, porque caso deveis ficar na cidade e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma boa constipação na saída.

Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta de Quintino Bocayuva.

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Machado de Assis. ___ Respondo á tua carta. Pouco preciso dizer-te. Fazes bem em dar ao prelo os teus primeiros ensaios dramaticos. Fazes bem, porque essa publicação envolve uma promessa e acarreta sobre ti uma reponsabilidade para com o publico. E o publico tem o direito de ser exigente comtigo. És moço, e foste dotado pela Providencia com um bello talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéa é uma força. Inoculal-a no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral. O homem que se civiliza, christianisa-se. Quem se illustra, edifica-se. Porque a luz que nos esclarece a razão é a que nos alumia a consciencia. Quem aspira a ser grande, não póde deixar de aspirar a ser bom. A virtude é a primeira grandeza d’este mundo. O grande homem é o homem de bem. Repito, pois, n’essa obra de cultivo litterario ha uma obra de edificação moral. Das muitas e variadas formas litterarias que existem e que se prestam ao conseguimento d’esse fim, escolheste a fórma dramatica. Acertaste. O drama é a fórma mais popular, a que mais recursos possue para actuar sobre o espírito, a que mais facilmente o comove e exalta; em resumo, a que tem meios mais poderosos para influir sobre seu coração. ___ Quando assim me exprimo, é claro que me refiro ás tuas comedias, acceitando-as como ellas devem ser aceitas por mim e por todos, isto é, como um ensaio, como uma gymnastica de estylo. ___ A minha franqueza e a lealdade que devo á estima que me confessas obrigam-me a dizer-te em publico o que já te disse em particular. As tuas duas comedias, modeladas ao gosto dos proverbios francezes, não revelam nada mais do que a maravilhosa aptidão do teu espirito, a profusa riqueza do teu estylo. Não inspiram nada mais do que sympathia e consideração por um talento que se amaneira a todas as fórmas da cancepção. ___ Como lhes falta a idéa, falta-lhes a base. São belas porque são bem escriptas. São valiosas, como artefactos litterarios, mas até onde a minha vaidosa presumpção critica póde ser tolerada, devo declarar-te que ellas são frias e insensiveis, como todo sujeito sem alma. ___ Debaixo d’este ponto de vista, respondendo a uma interrogação directa que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresental-as ao publico sobre a rampa da scena do que ha em offerecel-as á leitura calma e reflectida. O que no theatro podia servir de obstaculo á apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comedias são para serem lidas e não representadas. Como ellas são um brinco do espirito, podem distrahir o espirito. Como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguem. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom criterio comsigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os auctores. O que desejo, o que te peço, é que apresentes n’esse mesmo genero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te á grande pintura. ___ Posso garantir-te que conquistarás applausos mais convencidos e mais duradouros. ___ Em todo o caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te á critica de todos, para que possas dirigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretencioso, colherás o fructo são da tua modestia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em sympathia toda a consideração que me impõe a tua joven e vigorosa intelligencia. ___ Teu ___ Q. Bocayuva.

 

W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, São Paulo e Pôrto Alegre ___ 1947 ____ .

EU SOU BRASILEIRO

EU SOU BRASILEIRO

Osmar Barbosa, poeta e professor

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

 

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

 

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

 

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

 

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

 

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

 

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

 

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

 

 

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

 

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó moiro/loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

 

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

 

 

 

Tejo: famoso rio da Península Ibérica

Arabkén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do reomance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

 

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.

 

O Sino de Ouro

O SINO DE OURO

Júlia Lopes de Almeida

 

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Maria Matilde tinha um sonho: fazer construir rente à baía de São Marcos, na sua linda cidade de São Luís do Maranhão, uma torre alta, muito alta, encimada por um enorme sino de ouro com os nomes de todos os Estados do Brasil, formados com pedras preciosas. Quando o sino badalasse, reboaria na atmosfera as suas sonoridades, acompanhadas pelo ritmo das ondas, e, quando os astros o iluminassem, rutilaria no espaço esplendidamente.

 

Mas a velha parecia não ter um vintém de seu.

 

Morava num casebre em ruínas, vestia-se de trapos imundos, comia só raízes e ervas do mato e bebia água na concha da mão encarquilhada e ossuda. Não tinha dinheiro para as necessidades da vida, porque, se lhe davam uma esmola, ela corria a escondê-la para __o sino de ouro__, e ia iludir a fome com os sobejos atirados pela caridade, ou um rabo de peixe chupado à porta de um pescador. Ninguém o sabia, mas o seu colchão estava já tão cheio de moedas que lhe magoava o corpo miserável, a ponto de preferir estender-se no chão duro, sobre uma esteira esgarçada.

 

Já tinha a sua idéia fixa, e para realizá-la seria precisa uma fortuna! A sua tôrre de ouro, com um sino cravejado de pedras preciosas, maravilharia o mundo inteiro…. Em casa ou na rua a visionária falava só, gesticulando, movendo no ar os dedos nodosos, de unhas grandes.

 

As crianças fugiam atropeladamente ao ver-lhe, de longe, o busto esguio; os adultos afastavam-se daquela imundície, e ela, passava sem ver ninguém, resmungando: — Quando o sino de ouro fizer: Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! todo mundo dirá: “É o coração do Brasil que está batendo… Que lindo é e como bate bem!” E ela ria-se, sacudindo os longos braços magros, a repetir pelas ruas sossegadas: — O coração do Brasil está parado…. Quero fazê-lo palpitar com força… Ba-ba-la-ão! Dão! Dão!

 

Na noite de chuva e de relâmpagos, Maria Matilde chegou encharcada e tremendo com o frio da febre à sua choça; mas, logo ao entrar, esbarrou com uma pobre rapariga da vizinhança, que se ajoelhou chorando a seus pés!

 

Qual não foi o seu espanto! Se ninguém a procurava nunca…. Uns tinham medo da sua morada de louca, supunham-na outros feiticeira, o diabo em pessoa.

 

Ela parou no umbral, estarrecida; a outra exclamou de mãos postas:

 

— Maria Matilde, tem dó de mim! Minha madrasta, aquela má mulher, expulsou-me de casa e aos meus irmãozinhos, que foram mendigar por essas ruas quase nus…. É por eles que eu choro. Dá-me um filtro, Maria Matilde, para abrandar o coração de minha madrasta e fazer que meu pai abra a sua porta aos filhos pequeninos, que são inocentes e estão passando fome, sofrendo frio, com medo do escuro, por essas praias.
Se for preciso o meu sangue para salvar os anjinhos, toma-o! Abre-me as veias, aqui tens o meu corpo!

 

E a moça desnudava-se oferecendo os pulsos e o colo sùplicemente.

 

Maria Matilde, de olhos arregalados, dobrou-se toda sobre a linda cabeça da moça:
— Darás a vida por teus irmãos?
— Darei a vida!
— Jura?

 

— Juro! Aqui me tens, mata-me, se para bem deles a minha morte for precisa. Dizem que és feiticeira, mas o que tu és é surda! Não prolongues a agonia de meus irmãos, Maria Matilde! Aqui me tens!

 

A velha considerou a rapariga com espanto, depois, rapidamente, correu ao catre, sumiu as mãos trigueiras nos rasgões da enxêrga e atirou punhados de moedas, vertiginosamente, para o regaço da moça estupefata.

 

— Teus irmãos estão nus? Toma, vai comprar agasalho para eles! Têm fome? Dá-lhes pão…muito pão…. Toma! Toma! Toma! Vai para junto deles, boa irmã, vai com Deus!

 

A moça aparava aquelas moedas inesperadas num delírio de felicidade. A velha deu-lhe tudo, tudo, depois empurrou-a violentamente pela porta fora, fechou-se por dentro e desatou a chorar.

 

Como haveria ela agora de comprar o sino de ouro e construir a sua alta torre rutilante? Teria de recomeçar pelo primeiro vintém, e as costas doíam-lhe tanto… tanto! Ao menos nessa noite poderia dormir sobre o seu colchão… O que a fazia tremer eram aquelas cobrinhas de gelo que andavam a passear pela sua espinha… A cabeça estava-lhe girando…

 

Era a febre! Maria Matilde debateu-se toda a santa noite, com os lábios secos, os olhos em fogo, as roupas unidas aos membros doloridos.

 

Pela madrugada serenou e rompia a manhã gloriosa, quando ela ouviu a voz dulcíssima de um anjo dizer-lhe à cabeceira:

 

— Construíste esta noite a tua torre e por ela subirás ao céu!
Maria Matilde atirou para fora do catre as pernas finas, aconchegou aos rins os molambos da saia, aos ombros os farrapos de um xale e correu ansiosa para a praia.

 

A cidade dormia ainda; só os passarinhos despertavam cantando. No largo mar azul o sol nascente espelhava uma coluna de ouro tão larga e tão longa que ninguém poderia calcular-lhe as dimensões.

 

No ar voavam gaivotas até além, às nuvens de ametistas e de rubis, que engrinaldavam no horizonte a torre deslumbrante. Era a pedraria do sino que reluzia! Sumindo nela os olhos felizes e fascinados, Maria Matilde sacudiu os longos braços, gritando vitoriosa, antes de cair redondamente na areia fria:

 

— Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! Dão… Da…dão…

 

Quando a miragem do sol se desfez, já a louca tinha subido pela torre de ouro até o céu!

 

 

 

Vocabulário
Encarquilhada (adj.): enrugada
Sobejo (s.m): resto
Nodoso (adj.): cheio de nós, proeminente
Esguio (adj.): alto e delgado; comprido e delgado
Filtro (s.m): beberagem de fins supersticiosos
Catre (s.m): leito tôsco e pobre
Trigueiro (adj.): moreno
Enxêrga (s.m): colchão de palha muito estreito
Regaço (s.m): colo
Estupefato (adj.): espantado, admirado
Ametista (s.f): pedra semipreciosa
Errata leitura em áudio
5º Parágrafo: “fizer”
12º Parágrafo: “sùplicemente”
18º Parágrafo: “aos membros doloridos” e não “a um dos membros doloridos”
21º Parágrafo: “aconchegou aos rins” e não “aconchegou-se aos rins”
23º Parágrafo: “areia fria” e não “areia fina”

Versão retirada da obra Conheça o seu Idioma, de Osmar Barbosa. CIL. SP. 1971. P. 123.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NECESSIDADE DE ESTUDAR OS ANTIGOS ESCRITORES

Castilho

Necessidade de estudar os antigos escritores

Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875)

            Mancebos (se os há aí que se dêem às letras), vós que encetais a mui árdua e perigosa vereda que pelas letras conduz à fama, seja qual fôr o gênero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejam mais forem os louvores que os velhos na arte vos concedam, e os aplausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de aparecer: os conselhos que Horácio vos deu duram com toda a força que a natureza e a prática lhe bafejaram. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove anos, chamar e tornar a chamar dez vezes à unha a obra já perfeita. O amor próprio nos persuade e impele a aparecermos cedo: devia dêle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas.

Trecho retirado do Livro “Conheça o seu idioma 6º volume” CIL S.A (1971), de Osmar Barbosa.