Rudimentos ferrorama – poema

turmadelinha1fotografia retirada em: http://www.portaldotrem.com.br/

Rudimentos ferrorama

Cristiano Lopes Cançado Rocha

máquina                            essa

certeira     no  comportamento

no     tom  tamanho   e     traço

correta em organização de fila

 

 

coisa      gigantesca           essa

suga vomita dança     equilibra

trazendo bonecos adolescentes

em sua    empoeirada       crista

 

 

ente          absoluta           essa

centopéia da vila      de pedras

por entre morros ziguezagueia

e        vem    repetindo  preces

 

 

essa     conjunto   de     gomos

a vagar em     escada   deitada

longa   escada de       estações

e patas doces calçadas  a tênis

 

 

piolho de   cobra    sem      pés

a carregar gravatas e capacetes

paralela ao rio que ainda desce

com peixes banhados de caliça

 

 

potente    mortífera  e metálica

o rio surpreendentemente vivo

escorregando     desgovernado

selestrepe        e           desaba

 

 

solitária                    engomada

sob      o     arco    de        fogo

fraco      leão    de            circo

domado       pelo         pescoço

 

 

lingüiça        amarra-cachorro

prontíssima     para         partir

sempre     prestes    a    chegar

leva      pessoas    e       cargas

 

 

que sujam  almas e   dinheiro

jactante   tal  qual     esperma

a     centopéia     sem   pernas

ou então de    rodas   cobertas

 

 

máquina   de    bocas destras

lábios  frondosos  de choque

andamento    de   um andante

timbres    típicos     do   rock

 

 

passam-na     para  a     música

na foto     sua luz     é     rouca

estática        nesta          última

dinâmica       naquel’      outra

 

 

tão exposta e   sem      arranhão

corpo absoluto   e     perfurador

lábios prontos    para o    baque

conforme  delega  sem   interior

 

 

enfia-se   por     vários     túneis

os     quais      a        regurgitam

rasga  o    horizonte   pela   raiz

esse   enorme  colar  de   tonéis

 

 

vem  vindo   cuspindo   em tudo

“nem  que  taque nem   que taque”

Diz  essa tal   máquina     essa

ao infante com pedras em punho

 

 

serpente  há    tempos   aleijada

nem asas nem proa nem hélices

engolidora    de diversas gentes

tolôsco quilométrico  de   fezes

 

 

encurva      enverga       taquara

de barriga para cima espelhada

num leito de pedras e cascalhos

navega       tranqüila   e deitada

 

 

orquestra     de ranger de rodas

repete      tempo    e    percurso

o das onze e     o das sete horas

os mais conhecidos    números

 

 

máquina   decisiva   e    dúbia

caminho   em      formato de y

trechos em obras e concluídos

previsível    em    cada   curva

 

 

segundo normas    do império

suporta    toneladas   por eixo

otimizada         na         tração

na    performance   e potência

 

 

saudades    de   seu   chocalho

o    apito     aviso           antigo

sempre      foi      bem    vindo

o    quinhão   dos assalariados

 

 

plantadora     de         cidades

rastejando     quem        diria?

trouxe                  pagamentos

pensões     e     aposentadorias

 

 

todos     que    a     esperaram

relembraram      a   revelação

“era   aquilo              mesmo?

era       mesmo          aquilo?”

 

 

sua   porção   então acidentada

aos   cuidados   do    tecnólogo

e aos         olhos aqui do poeta

está   sua   parte      imaginária

 

 

máquina   geralmente  grávida

de  grãos   bobinas   e    barras

em   gestação   meio    inversa

com    bolsas   e berços de aço

 

 

reduzida   em   custos desgastes

diária     preventiva   e   rodante

suplementada   de componentes

baba demanda e disponibilidade

 

 

fizeram-na    uma    estrela pop

ei-la   numa    foto   estampada

duma    revista    especializada

revestida   nua  ou  desmontada

 

 

rotulada      datada   e    batizada

com nomes de mulheres rodadas

e   pioneiras   agora   respeitadas

carmens mirandas  embananadas

 

 

vassoura  sem   cabo   e  vertical

sulcando   a   poeira   do   sertão

fazendo-me  construir    estrofes

como  se  cada    fosse um vagão

 

 

ali   na  vitrina  da   linda   loja

bem    reproduzida   miniatura

sua   versão     mais    palpável

menos decibéis e  envergadura

 

 

as sandálias vistas   do    alto

parece     um   enorme   verso

repetitivo    visual    e    bobo

com única palavra: progresso.

 

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