VULTO LÍRICO, poeta de primeira grandeza

Vulto Lírico, poeta de primeira grandeza

lab61

Elogiado por Antônio Olinto, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros consagrados, o autor por quem nos manifestamos é um vulto do pensamento e de nossa literatura; lido, respeitado, conhecido e admirado nos círculos literários de todo o país. Podemos encontrá-lo facilmente nos mares da rede. Há boa quantidade de tributos, citações, entrevistas, conferências, trabalhos acadêmicos. Escritores das mais díspares vertentes debruçam sobre seus escritos. Euler de França Belém disse sem tremer: “(…) é uma espécie de Otto Maria Carpeaux que ainda não conquistou o Brasil, e com dois detalhes a mais: é excelente tradutor e poeta(…)”

Experimentemos, de entrada, nossa bebida socializadora, variável em cores, tons e intensidade. Assim somos nós brasileiros e brasileiras. A loira ocorre ao artista por acaso. Que sommelier não desejaria no seu material de merchant a voluptuosa degustação?

IMPROVISO ESPIRITUOSO

Loura e leve, sutil e deliciosa,

ao teu contacto a inspiração se apruma.

De te beijar a coma vaporosa,

tenho no lábio um mar de doce escuma.

§

Aspiro-te a fragrância capitosa,

sorvo-te as maravilhas, de uma em uma,

e ao fim me tens, rainha caprichosa,

ajoelhado escravo, a mente em bruma.

§

Teu espírito voa, e o meu, na trama

que voluptuosamente lhe entreteces,

voa também, em um céu, um céu reclama!

§

Mas eis sucumbe em sonolência espessa.

É que, gentil cerveja, se me desces

ao coração, tu sobes-me à cabeça.

Brasília, 25.III.1977

Coloquemos, em brevíssima passagem, a vida poética do homem antes do nome.

Um brasileiro nasce em meados dos anos 1930, em Minas Gerais, filho de pais professores e – vejam só!- poetas. Na infância, aproveitando a oportunidade, torna-se devorador de livros e gibis, não menos atento às improvisadas histórias contadas pela mãe educadora à cabeceira da cama. Esse período nutritivo passa-se em Goiânia. Enquanto cresce peregrina com os pais por várias cidades de Minas. Fixa-se em Leopoldina, cidade vizinha à Cataguases do modernismo mineiro. Sob o canto de Castro Alves, parnasianos e simbolistas, o rapaz é chamado a ser poeta.

CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece

que entoa a Criação da Ave-Maria,

canta a cigarra, canta e se estremece:

núncia da noite sepultando o dia.

§

Pobre cigarra! Canta como em prece,

e ninguém, escutando-a, desconfia

que no canto a alma simples lhe estremece

e é o canto o último raio do seu dia.

§

A tanta gente assim como a cigarra

a dor na pálpebra fechada esbarra,

mas— na suave transfiguração

§

que nos redime desta pobre argila—,

se em lágrimas dos olhos não destila,

vem aos lábios em forma de canção.

Leopoldina, 8.X.1950(…)

Pelo que nos parece, travessuras à parte, foi ótimo filho e excelente aluno. Fez e ainda faz jus à sorte do berço e à chance da vida. Trata-se de mais um de nossos cidadãos exemplares que idealizamos para entre nós, artistas de espírito público.

Chega à juventude e muda-se para o litoral. No Rio de Janeiro estuda, escreve, poetiza, dialoga com seu tempo desafiando as “vanguardas” estabanadas e barulhentas:

AO LARGO, OUSADO!

é mister tudo ousar

quebremos os nossos ídolos

depois colaremos os pedacinhos

os velhos

ídolos

caídos

entrecomidos

pelos séculos

o tempo é um gato que nos espreita

pra que chorar

copiemos a sagacidade dos ratos

olhemos com ternura os nossos ídolos

não é preciso quebrá-los

quebremos antes o encanto

Ao largo, ousado!

copiamos sempre alguma coisa de alguém

somos parentes do macaco

os nossos símbolos são sapatos velhos

mais cômodos porém gastos

Ora (direis) somos poços esgotados

pois eu digo enchamo-los de vento

nada mais moderno      abstrato

                                aéreo

altercam lá fora há muito barulho

enquanto isso a palavra vai roendo a poesia

mas o tempo espreita

Rio de janeiro, 17.XII.1957

Em 1960 finca raízes na sonhada Brasília. Nessa época dão-se os últimos graus da fervura ideológica alimentada em décadas anteriores. Tempo de rupturas, dissidências, divergências, interrupções de diálogos, proselitismos. O autor expressa bem o sofrimento nos ambientes socioculturais. Comoventes composições são desse momento difícil, de quando podemos citar: “Incomunicações”, “Babélica”, “O tempo do homem”, “Torres”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Desse período, cantemos baixinho a poesia em seu estado de potência, criatura à espera dos movimentos do criador:

APOESE

Mudas, incriadas,

jazem no possível

todas as palavras.

Nesse limbo inscrevem-se

invisivelmente

todos os poemas

ditos, por dizer,

mais os indizíveis.

Nesse limbo se amam,

bicam-se as palavras,

numa intimidade

por nós mal sonhada.

Relações repousam

insolicitadas,

frases adormecem

de desinvocadas,

e afinal se cruzam,

crispam-se, eriçadas

na ânsia de uma língua

—boca, pena, gesto.

Nesse inesgotável

lago das palavras,

onde tudo encontra

seu signo prateado,

mergulhou o Homem

e pescou sofismas,

teses, xingamentos,

jogos, alguns poemas.

Infinito é o Sonho

que, irrealizado,

dorme em apoese

nesse obscuro lago.

Brasília, 31.III.1963

Cultor da língua e das artes, não se rende aos desintegradores da linguagem. Posta-se consciente em defesa do que compreendemos por TRADITIO, o entendimento e a prática de receber, cuidar, trazer e entregar: eis a origem e o sentido amplo da palavra tradição. Nosso artista aperfeiçoa e tradiciona bem. Vejamos o poema abaixo em que o mineiro-candango se autodescreve com base no seu signo do zodíaco. Uma espécie de autorretrato temperamental. São, curiosamente, onze quadras de versos brancos e potentes, em consonância numérica com o mês de novembro do calendário gregoriano. Sem esmorecer o homem-poeta reluta e sonha alto com os pés no chão.

ESCORPIÃO

Metálico, magnético, mirífico,

concreção do mistério em geometrias:

escorpião. Equilíbrio e desengonço.

Tão telúrico bicho e tão dos astros frios.

§

Cauteloso, talvez triste, avança, lança em riste.

Que faz no escuro, no úmido e no mofo

que contradiz o seu perfil mecânico?

Pólo e deserto funde, gelo e cálculo.

§

O escorpião tem reservas de malícia

ocultas sob camadas de silêncio.

Mesmo em repouso, agudo: espinho a proteger-se

Invisível flor de inviso perigo.

§

Por isto o escorpião está sempre em guarda,

dormindo com dois dedos no gatilho.

E de repente, sem nenhuma ofensa aparente,

exorbita-se em fúria vingativa.

§

Uma inveja lhe dói: não se centauro,

não se anfíbio, o peixe-pássaro, ele

que atira os olhos no alto e, em vez de duas asas,

tem oito patas a prendê-lo à terra.

§

Por isto é tão concentrado o seu ódio

e lhe estorva ainda os passos mais serenos.

E para não poluir o sonho de tanto ódio

descarrega em si mesmo o seu veneno.

§

Ridículo animálculo romântico

e parnasiano, síntese grotesca:

sólida, fria construção de engates rígidos

e formas libertando-se dinâmicas;

§

maligno duende, anjo desamparado

das potências na solitária luta,

ferras à terra, em guerra, as possessivas garras

e acima, acima, a chispa metalúrgica!

§

Torturado escorpião, que os astros sondas

e em anfractos arrastas-te, maléfico,

ínfimo na íngreme escarpa evolutiva

marchas— mas que apoplético e perplexo!

§

Bicho da terra, animal metafísico,

os pés na pré-história e um olho no futuro,

passeando o apêndice interrogativo

no círculo de luzes do zodíaco,

§

animal sem presente, entre duas eternidades

sufocando oscilante, entanto lúcido,

oh! Ama este aracnídeo, ávido amante,

que não é Carne ainda e sonha-se Anjo.

Brasília, 24.X.1971

Não sejamos orgulhosos. Não tenhamos receio de afirmar: é vulto! Exerceu jornalismo, magistério e tradução. Fez e continua por fazer incontáveis amizades. Ensina com amor, é generoso com principiantes. Reconhece os talentos dos companheiros de ofício. Sensível, erudito, humilde, solidário. Ama os idiomas e as nações. Entrega-nos bastante de sua experiência humana. Participou e testemunhou boa parte do século XX e praticamente todo esse início de século em matéria de literatura brasileira e um pouco da latina. Entendido de Castro Alves, Bilac, Bandeira, Cruz e Sousa e tantos outros. Em seguida dois ensinamentos a nós aspirantes: a) entrevista concedida a Nelson Hoffmann pelo periódico O Nheçuano e b) poema que segue:

RECEITA

Essencial é não dizer nada,

mas não-o-dizer com toda a classe:

como quem veste a ausência da alma

pondo véus diáfanos na face.

§

Escolha, pois, bem as palavras,

preferindo as simples às raras:

porque, se acintoso o disfarce,

avulta, por contraste, a cara.

§

Combine-as com a harmonia maga

de bem temperada sintaxe:

nem tanto ao mar, nem tanto à praia,

discreto o barco se destaque.

§

E seja o efeito esta onda— vaga,

onde a razão do poema—nada.

Brasília, 25.II.1974

O homem é paciente e operoso, diz acertadamente o seu amigo José Jeronymo Rivera. Faz-se crítico e ensaísta com prosa estilística luminosa, capaz de nos revigorar o esforço pela beleza. E sua poesia ergue-se como um edifício firme, fácil de se captar e reter, justamente pelo equilíbrio entre sentimento, imaginação, técnica e sabedoria. Desfrutemos de um soneto dentre a coleção dos “visionários”:

PÂNTANOS

Caía o luar nos pântanos tranqüilos.

Um sapo-boi coaxava tristemente.

A sinfonia sem calor dos grilos

enchia o quarto e entrava-me na mente.

§

Pus-me a escutá-los, momentaneamente:

cantavam mal…E eu me cansei de ouvi-los,

metendo o olhar, indagadoramente,

dentro da noite plena de sigilos.

§

Loucas perguntas, que ninguém responde,

em mim ecoavam, como numa furna.

E ébrio de sono e angústia, de repente,

§

julguei que os homens fossem brejos, onde,

regendo a triste orquestração noturna,

um sapo-boi coaxasse gravemente…

Soneto Antigo, p.95

Para revitalizarmos a poesia brasileira faz-se necessário antes divulgarmos o peso dos que não puderam vir à baila numa intensidade compatível com sua grandeza. Precisamos reverberar com prazer máximo os autores que, astuciosamente, foram postos à margem por certos “movimentos editoriais” e “pactos de leitura”. Nós apreciadores de boa arte, crentes e enfezados na ideia certa de que obras excelentes contribuem para elevação da alma humana, sonhamos com eminente poesia em forte circulação.

A literatura desse vulto – poemas, ensaios, contos, entrevistas, aulas, palestras, traduções – pede por ser lida por mais pessoas, mais comentada por nossos críticos e jornalistas culturais. Insistimos não tanto pelo autor, homem moderado e consciente de já ter feito muito da sua parte, mas por solidariedade a nós mesmos, compatriotas e falantes da língua. Que sejam incluídas suas obras nos exames de vestibulares! Dos seus ensaios temos à mão “Testemunho & Participação” e “Do que é feito o poeta”. Há também o “Proclamações” a ser explorado. A respeito do primeiro alguém exclamou: “Como é que obra dessa fica fora de circulação comercial?! Só de dar com os olhos na mina já se encontra inúmeras pepitas…além de agradável leitura, trata-se duma compilação valiosa para estudo e pesquisa em história literária.”

Conselhos editoriais, comissões de vestibulares, institutos, enfim, o mercado de bens simbólicos adiando ou atendendo logo nossa solicitação, uma coisa é certa: Anderson Braga Horta já influencia leitores, escritores e poetas de hoje, bem como influenciará outros muitos de amanhã. Ao lermos seus fragmentos críticos, onde se registra cristalinas reflexões, concluímos definitivamente que o autor está dentre os mais bem estruturados ombros da poesia contemporânea, da língua portuguesa, do florão da América e de todo o continente.

É hora de irmos além da respeitabilidade, do reconhecimento, dos elogios e dos prêmios. É hora de pormos os frutos do lavrador à mesa dos famintos!

Despedimo-nos com…

SONETO DE AMOR ANTIGO

Antes de tu nasceres, eu te amava:

de um amor sem objeto,

de um puro amor à espera:

querendo-amar, nos limbos do intocado.

§

E inda antes de eu nascido, já te amava:

no antegosto secreto

da vida em outra esfera,

na alma anterior ao corpo entressonhado.

§

Eu sempre soube o teu olhar profundo,

antes mesmo dos olhos, num passado

quando eras pura essência, além do mundo.

§

Cerra o tempo as cortinas e as descerra,

e eis-me sempre a teus pés ajoelhado.

Meu amor é antigo como a Terra.

REFERÊNCIAS:

ANE. Associação Nacional de Escritores. Membros. Brasília, 1963. Disponível em:< https://anenet.com.br/> Acesso em 17 novembro de 2019.

ALMEIDA, Pinto J.R. de. Poesia de Brasília: duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2002. 136 p.

HORTA, Anderson Braga. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009. 213 p.

_______. Do que é feito o poeta. Brasília: Thesaurus, 2016. 412 p.

_______. Signo: antologia metapoética. Brasília: Thesaurus,2016. 412 p.

_______. Testemunho & Participação: ensaio e crítica literária. Brasília: Thesaurus, 2005. 375p.

_______. Poeta de primeira grandeza. O Nheçuano, Roque Gonzales – RS- Nº 42, p. 6-8, agosto/setembro. 2019. Entrevista concedida a Nelson Hoffmann.

_______. Encontro de cinco poetas numa não esquina de Brasília. Lab61(uma homenagem ao Brasil) Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J5Yi7FPiY_Y >. Acesso em 15 julho 2019.

_______. Recebe Condecoração Oficial da Casa del Poeta Peruano. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=gOLBNb8jxMM >. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Lança Livros de Ensaios. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/anderson-braga-horta-lanca-livro-de-ensaios-79915/>. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Poeta. Wikipédia, a enciclopédia livre ( Creative Commons – sujeito a condições adicionais). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Braga_Horta. Acesso em 15 julho 2019.

Auto-retrato

Auto-retrato

Vim à luz em Bhz, foi lá que’u me rebentei

Em julho, setenta e sete, foi bem naquele ano

No Santa Efigência, maternidade d’Otaviano

Vim berrando, preocupando e assim cheguei.

Pequeno, franzino, de coraçãozinho imperfeito

Talvez por não ser menina mi’a mãe ter ganho

Por não atender já na chegada o sonho d’alguém

Mas o estouro vívido firmou: Deus já tinha feito.

Depois de aceito com amor, em Luzia eu cresci

Quando menino, quando jovem aqui me iluminei

Busquei rumos, horizontes e hoje estou aqui.

Muito na humanidade, canceriano é u’a chatice:

Às vezes fere a amizade querendo fazer o bem

Envelhece na infância e menina-se na velhice.

L. al’c. Rocha, o Cristiano

Nota: Nasci no inusitado dia 07/07/77, com sôpro inocente no coração, no bairro de Santa Efigênia , em Belo Horizonte. Minha mãe, que na época não acessou ultrassonografia, torcia por menina. Cresci na parte baixa da cidade histórica de Santa Luzia/MG.

Ama, para que, assim, sejas amado…

José Martins Fontes

Ama, para que, assim, sejas amado…

Se queres ser amado, ama primeiro,

Faze-te amar, amando com ternura,

Pois só merece a graça da ventura

Quem for capaz de um culto verdadeiro.

Sem raízes profundas no canteiro,

Em teu jardim nenhuma flor perdura.

É preciso que a terra seja pura,

Para viçar, florindo, o jasmineiro.

Sob a sideração do amor fulmíneo,

Pode estar crente todo enamorado,

Que há de se realizar seu vaticínio.

Quem for constante, sendo delicado,

Pelo espírito alcança o predomínio,

Sabendo amar, para que seja amado.

Veterano de Guerra

Veterano de Guerra

Viajando pela avenida do meu bairro

pombos e pardais d’estalo me reconhecem,

aceno aos amigos qu’inda não se mudaram:

vizinhos de memória que jamais me esquecem.

Um pai de geração: veterano de guerra

à mão e ao colo com dois de seus netos

filhos dos filhos que ainda não se mudaram

ou que se mudaram para ali mais por perto.

Do grande e abençoado céu: lençol azul

sob esse sol que nasce novo ao leste-sul

entrelaçam-se os dons de gerações embaixo

de sol qu’inda se põe velho ao norte-oeste

amam-se, ajudam-se como ensina o Mestre

vidas em família preservando esses laços.

L.al’.R, o Cristiano.

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Mudas de bananeira

Mudas de bananeira

Em cidades do centro-oeste mineiro conta-se uma história com as mais variadas modificações. Sempre lembrada na quaresma. Já é estória conhecida e, quando alguém arrisca contá-la de qualquer jeito, para não perder o costume, algum ouvinte ativo ri e diz: “aí vem o outro e mata o defunto…”. Quer dizer:  lá vem alguém contar história já sabida sem nenhuma novidade antiga.

Nessa última quarta-feira de cinzas do ano de dois mil e dezenove, quem nos alembrou bem dessa estória, na roda de cozinha, foi a Sra. matriarca D. Lúcia:

“…dizem ter acontecido na Leandro Ferreira do Padre Libério. Mas o Sr. Irineu contava que se passou algo parecido também em Martinho Campos, antiga terra dos Kaxixós.

Vinham quatro companheiros carregando o defunto de uma mulher surda-muda, debaixo de chuva, quando um deles disse:

__  Num tempo bão desse, plantando essa muda na terra, ela vai pegar bem para danar…

Dos outros dois companheiros, um aconselhou em defesa da falecida:

__  Arrepende, moço, da besteira que ocê falou, retira essa palavra; do contrário com pouco vem o seu castigo. Não faz bem ficar zombando da morte dum semelhante.

O moço soltou um ai,ai,ai, ignorando a advertência:

__ Não vejo a hora de beber o defunto lá na venda do Tião. Para aliviar o peso só mesmo u’as pinga da boa!

Passado uns tempos, nenhum castigo veio.

Era um trigueiro cheio de malícia, desafiador. Para ele, juramento, castigo, praga, tudo isso eram besteiras que só servem para pôr medo em criança.

__ Pagar língua!? – ele dizia por lá – isso é trem de besta, sô!..

Então, foi de outra vez que vinham pela estrada uma mulher branca, com duas crianças pequenas, todas três magricelas, anêmicas e sofridas. A criança mais nova vinha no colo, carregada com dificuldades pela fraqueza da mãe; a menina maiorzinha, puxada por outro braço da mãe, cambaleava com as perninhas finas e ressecadas.

E outra vez, impiedoso, o moço:

__ Olha só, lá vem um cacho de bananas: amarelas e penduradas…

-Ô sô, pelo leite que ocê bebeu da sua mãe, não brinca com o sofrer dos outros não!…

Veio-lhe mais esse bom conselho aos ouvidos. Entrando num e saindo por outro, não teve nem tempo de parar na consciência do rapaz.

Outros tempos se passaram. O moço perdeu a mocidade, virou homem, arrumou casamento. Tirou a mão de uma mulher muito simples, magra e sem cor. Uma união modesta, sem festa nem lua de mel. Apenas a cerimônia, as alianças e um almoço simplório. Das duas vezes que a mulher engravidou, da primeira o rebento se perdeu. Na segunda vez, a criança nasceu, mas não vingou. Era menino.

O homem foi dali para frente desanimando, entrando na velhice sem muito vigor.

-Não quero saber mais de filho. Se não deu certo até agora é por conta da sorte do destino.

Foram-se os anos, o homem cansado e sem muita força para trabalhar, a mulher embucha e traz à luz uma mocinha. A segunda veio logo em seguida. E com a mesma deficiência da irmã, só que com alergia ao leite de vaca. Essa desnutriu-se. Não se soube se foi de nascença, mas enquanto cresciam perceberam que as crianças não escutavam bem e menos ainda conseguiam falar direito.

Aqueles tempos foram de muita falta.

__ É só um azar das temporada. Essas precisões vão passar… o homem acalmava a família, acreditando sabe se lá em quê.

A mulher também não acreditava muito no castigo de Deus, mas ao contrário do pai, era humilde e nunca teve vergonha de pedir ajuda. Até inventou uma toada para ir cantando pelo caminho, carregando e puxando suas duas crias:

Quem me dera s’eu tivesse

a grande sorte de ganhar

u’a penquinha de banana

e u’a tijela de fubá.

-Lá vem aquela branquela azeda pidona, muitos discriminavam.”

Nesses tempos de miséria, com gente até bebendo água de esgoto lá na Venezuela, quase ninguém gosta de ouvir essa história.

Conseguimos essa versão completa porque insistimos bastante com a Sra. matriarca D. Lúcia. Como ela mesmo diz: “…estragamos, por um bom pedaço de hora, a tradicional reunião de cozinha”.

Nossa mesa estava farta. E gozávamos perfeitamente de todos os nossos sentidos.

Lopes al’cançado rocha, o Cristiano.

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Eram muitas vezes

Eram muitas vezes

Numa dessas grandes casas, num edifício multifamiliar. Abrigava cerca de meia centena de pessoas. Pouquíssimos idosos. Cada unidade de apartamento com seus sete cômodos, esses ligados por um estreito corredor.

Viviam no prédio por volta de vinte e cinco jesuizinhos, a maioria tendo nascida durante a détente da Guerra Fria. E eis que seus pais, roceiros candidatos a operários e mestres, vinham daquela próxima Belo Horizonte, guiados pela estrela da esperança, da prosperidade e do sonho da casa própria.

Casinhas simples e predinhos idênticos em forma de “H”, variando apenas nas cores dos detalhes e saliências das fachadas, bem modestos e humildes, de chapisco e cacos de tijolos cerâmicos. Falamos desses conjuntinhos habitacionais de baixa renda, a que muitos apelidavam pejorativamente de pombais.

– Qual é mesmo o nome do seu pai? Pensei que era Bartolomeu. Ele tem cara de Bartolomeu.

– Que Bartolomeu, ou? Tá doido?

– Um que eu vi na televisão. Parece com seu pai.

(…)

– Te apresento meu amigo.

– Dá onde que ele veio?

– Da terra do além.

– O quê que ele merece?

– Viver sozinho sem ninguém…

– Credo, essa não teve graça, é paia demais.

– O Silvano inventa umas estranhas e sem graça… quem ia ficar vivendo sozinho sem ninguém no mundo? Só se for o próprio ninguém.

– É… é mesmo.

– Quê que ocê vai ganhar de Natal?

– Pedi uma calça jeans manchada e um Redley, pode ser imitação.

Nenhum dos imperadores – Ronaldo ou Constantino – se importaria com esses jesuizinhos tão comuns, diversos, semelhantes, desiguais e alegrados tão-somente pela esperança de crescer.

Aniversariantes esperando seus presentes com expectativas das mais variadas. Aquelas carinhas sorridentes, sapecas e cheias de espertezas inocentes:

– O Alê vai ganhar uma freestyle

– Aquelas de roda estrelada?

– É, toda freestyle tem roda estrelada…

– Não, nem toda…umas são com roda de raios…

– Pois então, o sol tem raios e é chamado de estrela. Toma distraído!!!

No pátio lateral a conversa, sugerida pelo esquentar dos fornos, era mais saborosa ou não era?

– Minha mãe vai assar dois frangos e comprou quatro garrafas de Del Rey.

– Lá em casa vai ter é chester

– Que isso?

– Quase a mesma coisa que peru.

– Não, meu irmão falou que é um frango mais grandão…

E não poderia faltar alguma rebeldia entre os que adolescem sabiamente:

– Onde o senhorzinho estava, hein Tuca? Tá se achando muito com essa idade tão pouca…

– Num esquenta não, mãe, tava ali na rua de trás conversando com meus novos colegas. “Tudo pela orde”, os cara tem “a moral”, eles são “da lei” …

– Gíria cê aprende rapidinho, né?

– Ah mãe, tava dando neles u’as boa ideia. Os caras tão meio que viajando demais na maionese.

Voltemos ao grupinho que, deixando o pátio lateral, caminha para a frente da grande casa de doze famílias:

– Nhuuuu! O céu parece que vai abrir, as nuvens andando com o vento, tipo tapete voador.

– Não vai chover hoje mais não.

– Meu pai vai assar uma leitoa.

– Humm, que delícia. Vou passar na sua casa primeiro quando der a meia-noite e todo mundo começar a dar o Feliz Natal!

– Deixa de ser gulosa, Laíde!

– Que ó!? Só como pra caramba no Natal e no Ano Novo. Tiro a barriga da miséria.

– Enquanto meu pai vai preparando a ceia, minha mãe vai na Missa do Galo com a dona Maria José e elas rezam para nós…

– Seu pai não vai junto com sua mãe não, eu hein!?

– Sua mãe reza para todo mundo mesmo?

– Hanrrã, ela não esquece de ninguém… nem da nossa família nem do pessoal daqui do prédio. Reza até pra algum vizinho que brigou com ela. Porque hoje é Natal. E Jesus não gosta que a gente guarda raiva de ninguém.

– É… meu avô fala que vizinho é o nosso parente mais próximo.

– Ainda bem que sua mãe reza pra mim então. Porque eu não gosto de ir na igreja…e esqueço de rezar quase toda noite.

– Minha mãe vai pedir a Jesus e a Deus que no ano que vem nenhum vizinho brigue por causa de barulho ou por causa de espaço no varal para suspender roupas.

Horas se passavam. Portas se abriam. Músicas invadindo as áreas comuns. Um festival sonoro de gostos variados. Eram sinceros os convites, os aromas se espalhavam pelo ar quente e chuvoso.

E vinham chegando parentes de vários bairros da capital, do São Geraldo, da Floresta, do Saudade, do São João Batista, do Céu Azul. Enchiam mais ainda a grande casa.

-Ano que vem a gente podia fazer um amigo oculto…que tal?

O ano vinha, o próximo Natal chegava. Todo mundo se esquecia da sugestão. Nenhuma brincadeira de troca de presentes era oficializada. 

(…)

Os jesuizinhos trocando chocolates e frutas. E os mais crescidos bicando, às escondidas, cada qual seu copo de vinho. Algum deles brinca mais pesadamente:

– O Papai Noel tem que passar o saco lá na sua casa, véio…já pôs a meia na janela?

– Pára com essas zoeiras, Zé. Opa! Lá vem mamãe e papai…falou, tchau!  Vou vazar. Chegou a hora de ir para o Culto de Natal.

– Ora pra nóis também, hein!?

– Vou orar para você deixar de ser trouxa e respeitar de verdade Jesus e o Natal!

– Ihhh… Zé, num endoida não, é só brincadeira. Deixa de ser prego! Apelou? Perdeu.

Meia noite em ponto. Estouravam-se os fogos e o céu tremia. Quem não havia ido às igrejas, saía passando pelas portas abertas, distribuindo abraços e saudações: “Feliz Natal!” “Feliz Natal, muita paz e serenidade! ”, desejando paz, perdão, reconciliação. Uns distribuindo cartões; outros petiscando azeitonas, comendo carnes, frutas, bebericando vinhos, champanhes e cervejas.

Na avenida principal os carros passam buzinando. Amigos de outras bandas nos cumprimentam; uns até bicam em nossos copos. Abraços. E seguem se espalhando as saudações natalinas. O mais desejado é saúde para toda família. Sa-ú-de, esse bem valioso, alicerce de todos os outros bens.

No andar do meio, o pastor Alair evangelizando:

– Devemos já estar decididos a respeito do presente que cada um de nós dará ao nosso Salvador Jesus Cristo…

– Dê algum presente para mim, que estarão dando a Jesus. Foi assim mesmo que Ele ensinou: “faça aos pequenos que estarão fazendo a Mim”. Sou uma pequena criança de nove anos. Podem me presentear à vontade – disse o brincalhão do Tuca.

No quintal, cada jesuizinho ia mostrando seus presentes: homenzinhos de guerra, helicópteros, banco imobiliário, bicicletas, aquaplays, bambolês.

Para os adolescentes o pior castigo era passar o Natal vestido de roupas velhas.

As meninas aprincesadas com suas sandálias Melissa, camisas de cores fortes e grandes botões.

– Ó a Janaína, gente!… mostrando relógio novo com pose de mãos na cintura…

Ela mesma, a Janaína – desviando-se do comentário – tapa com as mãos a luz do poste e solicita aos pequeninos:

– Quem aí pode me mostrar onde estão as Três Marias? E o Cruzeiro do Sul?

As nuvens iam-se rasgando e o Céu sorria-se por completo.

– Quê que você ganhou, Zequinha?

– Esse burrinho que carrega troços. Aperta o botão aqui e ó…

 E o burrico dava um pinote, jogando tudo para cima…era o “burrinho de quinquilharias”.

– Ganhei também um kichute.

Kichute é bom para andar no mato, pra quando a gente for pegar goiaba na mata do Picão.

– Credo…essas coisas é presente de menino da roça.

– Vejam só que o burrinho tem u’a cara de aborrecido igual ao Zequinha mesmo…

Os risos já começavam a escapar, ainda sem ritmo.

-Burrinho aborrecido? Hahahahaha

– Burro emburrado aborrecido e feio…

Ninguém mais segurou a explosão. Todo mundo rindo de segurar a barriga. Riam mais da cara do Zequinha do que da gozação mesmo. Gargalhadas altas foram se desafinando em risos, risadinhas, até se amenizarem nos gemidos, nos suspiros de quem não aguenta mais rir…

O Zequinha juntou seu burrinho com as quinquilharias e disparou do pátio para dentro. Entrou correndo, surdo, quase derrubou as bolinhas da árvore natalina. Foi direto para o quarto e bateu a porta. Enterrou o rosto na cama, cobriu a cabeça com travesseiro. Foi soltando de vagar um chôro abafado. Por alguns minutos já estava sendo tomado por um silêncio íntimo. Mas pelo basculante da janela entrava gritos de euforia aos passos de breakdance, vindos de longe. Na sala de estar daquele lar apertado, pela agulha de um Gradiente, tocava Nelson Rufino e Zé Luiz na elegante voz de Roberto Ribeiro, gravada em 1978: “Todo menino é um rei/ eu também já fui rei…”. Do chôro o Zequinha caiu ao cansaço. E dormiu.

Acordando pela madrugada, tudo fechado, apagado e calmo, foi até a sala e viu o pai, com camisa branca e larga, são, sóbrio e salvo; de volta ao lar, reconciliado com a mãe, sentado ao pé da árvore reluzente:

– Não chore meu filho… vem cá no papai, quero lhe dar um novo ensinamento…

lopes al’cançado rocha, o Cristiano, 20181221 contato@pingodeouvido.com.br

Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

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Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

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Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

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A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

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A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

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Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

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A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

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O fogo destrói e consome iluminando.

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Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

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Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

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A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

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A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

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A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

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A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

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A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

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O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

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                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

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Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

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Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.