VULTO LÍRICO, poeta de primeira grandeza

Vulto Lírico, poeta de primeira grandeza

imagem: lab61

Elogiado por Antônio Olinto, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros consagrados, o autor por quem nos manifestamos é um vulto do pensamento e de nossa literatura; lido, respeitado, conhecido e admirado nos círculos literários de todo o país. Podemos encontrá-lo facilmente nos mares da rede. Há boa quantidade de tributos, citações, entrevistas, conferências, trabalhos acadêmicos. Escritores das mais díspares vertentes debruçam sobre seus escritos. Euler de França Belém disse sem tremer: “(…) é uma espécie de Otto Maria Carpeaux que ainda não conquistou o Brasil, e com dois detalhes a mais: é excelente tradutor e poeta(…)”

Experimentemos, de entrada, nossa bebida socializadora, variável em cores, tons e intensidade. Assim somos nós brasileiros e brasileiras. A loira ocorre ao artista por acaso. Que sommelier não desejaria no seu material de merchant a voluptuosa degustação?

IMPROVISO ESPIRITUOSO

Loura e leve, sutil e deliciosa,

ao teu contacto a inspiração se apruma.

De te beijar a coma vaporosa,

tenho no lábio um mar de doce escuma.

§

Aspiro-te a fragrância capitosa,

sorvo-te as maravilhas, de uma em uma,

e ao fim me tens, rainha caprichosa,

ajoelhado escravo, a mente em bruma.

§

Teu espírito voa, e o meu, na trama

que voluptuosamente lhe entreteces,

voa também, em um céu, um céu reclama!

§

Mas eis sucumbe em sonolência espessa.

É que, gentil cerveja, se me desces

ao coração, tu sobes-me à cabeça.

Brasília, 25.III.1977

Coloquemos, em brevíssima passagem, a vida poética do homem antes do nome.

Um brasileiro nasce em meados dos anos 1930, em Minas Gerais, filho de pais professores e – vejam só!- poetas. Na infância, aproveitando a oportunidade, torna-se devorador de livros e gibis, não menos atento às improvisadas histórias contadas pela mãe educadora à cabeceira da cama. Esse período nutritivo passa-se em Goiânia. Enquanto cresce peregrina com os pais por várias cidades de Minas. Fixa-se em Leopoldina, cidade vizinha à Cataguases do modernismo mineiro. Sob o canto de Castro Alves, parnasianos e simbolistas, o rapaz é chamado a ser poeta.

CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece

que entoa a Criação da Ave-Maria,

canta a cigarra, canta e se estremece:

núncia da noite sepultando o dia.

§

Pobre cigarra! Canta como em prece,

e ninguém, escutando-a, desconfia

que no canto a alma simples lhe estremece

e é o canto o último raio do seu dia.

§

A tanta gente assim como a cigarra

a dor na pálpebra fechada esbarra,

mas— na suave transfiguração

§

que nos redime desta pobre argila—,

se em lágrimas dos olhos não destila,

vem aos lábios em forma de canção.

Leopoldina, 8.X.1950(…)

Pelo que nos parece, travessuras à parte, foi ótimo filho e excelente aluno. Fez e ainda faz jus à sorte do berço e à chance da vida. Trata-se de mais um de nossos cidadãos exemplares que idealizamos para entre nós, artistas de espírito público.

Chega à juventude e muda-se para o litoral. No Rio de Janeiro estuda, escreve, poetiza, dialoga com seu tempo desafiando as “vanguardas” estabanadas e barulhentas:

AO LARGO, OUSADO!

é mister tudo ousar

quebremos os nossos ídolos

depois colaremos os pedacinhos

os velhos

ídolos

caídos

entrecomidos

pelos séculos

o tempo é um gato que nos espreita

pra que chorar

copiemos a sagacidade dos ratos

olhemos com ternura os nossos ídolos

não é preciso quebrá-los

quebremos antes o encanto

Ao largo, ousado!

copiamos sempre alguma coisa de alguém

somos parentes do macaco

os nossos símbolos são sapatos velhos

mais cômodos porém gastos

Ora (direis) somos poços esgotados

pois eu digo enchamo-los de vento

nada mais moderno      abstrato

                                aéreo

altercam lá fora há muito barulho

enquanto isso a palavra vai roendo a poesia

mas o tempo espreita

Rio de janeiro, 17.XII.1957

Em 1960 finca raízes na sonhada Brasília. Nessa época dão-se os últimos graus da fervura ideológica alimentada em décadas anteriores. Tempo de rupturas, dissidências, divergências, interrupções de diálogos, proselitismos. O autor expressa bem o sofrimento nos ambientes socioculturais. Comoventes composições são desse momento difícil, de quando podemos citar: “Incomunicações”, “Babélica”, “O tempo do homem”, “Torres”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Desse período, cantemos baixinho a poesia em seu estado de potência, criatura à espera dos movimentos do criador:

APOESE

Mudas, incriadas,

jazem no possível

todas as palavras.

Nesse limbo inscrevem-se

invisivelmente

todos os poemas

ditos, por dizer,

mais os indizíveis.

Nesse limbo se amam,

bicam-se as palavras,

numa intimidade

por nós mal sonhada.

Relações repousam

insolicitadas,

frases adormecem

de desinvocadas,

e afinal se cruzam,

crispam-se, eriçadas

na ânsia de uma língua

—boca, pena, gesto.

Nesse inesgotável

lago das palavras,

onde tudo encontra

seu signo prateado,

mergulhou o Homem

e pescou sofismas,

teses, xingamentos,

jogos, alguns poemas.

Infinito é o Sonho

que, irrealizado,

dorme em apoese

nesse obscuro lago.

Brasília, 31.III.1963

Cultor da língua e das artes, não se rende aos desintegradores da linguagem. Posta-se consciente em defesa do que compreendemos por TRADITIO, o entendimento e a prática de receber, cuidar, trazer e entregar: eis a origem e o sentido amplo da palavra tradição. Nosso artista aperfeiçoa e tradiciona bem. Vejamos o poema abaixo em que o mineiro-candango se autodescreve com base no seu signo do zodíaco. Uma espécie de autorretrato temperamental. São, curiosamente, onze quadras de versos brancos e potentes, em consonância numérica com o mês de novembro do calendário gregoriano. Sem esmorecer o homem-poeta reluta e sonha alto com os pés no chão.

ESCORPIÃO

Metálico, magnético, mirífico,

concreção do mistério em geometrias:

escorpião. Equilíbrio e desengonço.

Tão telúrico bicho e tão dos astros frios.

§

Cauteloso, talvez triste, avança, lança em riste.

Que faz no escuro, no úmido e no mofo

que contradiz o seu perfil mecânico?

Pólo e deserto funde, gelo e cálculo.

§

O escorpião tem reservas de malícia

ocultas sob camadas de silêncio.

Mesmo em repouso, agudo: espinho a proteger-se

Invisível flor de inviso perigo.

§

Por isto o escorpião está sempre em guarda,

dormindo com dois dedos no gatilho.

E de repente, sem nenhuma ofensa aparente,

exorbita-se em fúria vingativa.

§

Uma inveja lhe dói: não se centauro,

não se anfíbio, o peixe-pássaro, ele

que atira os olhos no alto e, em vez de duas asas,

tem oito patas a prendê-lo à terra.

§

Por isto é tão concentrado o seu ódio

e lhe estorva ainda os passos mais serenos.

E para não poluir o sonho de tanto ódio

descarrega em si mesmo o seu veneno.

§

Ridículo animálculo romântico

e parnasiano, síntese grotesca:

sólida, fria construção de engates rígidos

e formas libertando-se dinâmicas;

§

maligno duende, anjo desamparado

das potências na solitária luta,

ferras à terra, em guerra, as possessivas garras

e acima, acima, a chispa metalúrgica!

§

Torturado escorpião, que os astros sondas

e em anfractos arrastas-te, maléfico,

ínfimo na íngreme escarpa evolutiva

marchas— mas que apoplético e perplexo!

§

Bicho da terra, animal metafísico,

os pés na pré-história e um olho no futuro,

passeando o apêndice interrogativo

no círculo de luzes do zodíaco,

§

animal sem presente, entre duas eternidades

sufocando oscilante, entanto lúcido,

oh! Ama este aracnídeo, ávido amante,

que não é Carne ainda e sonha-se Anjo.

Brasília, 24.X.1971

Não sejamos orgulhosos. Não tenhamos receio de afirmar: é vulto! Exerceu jornalismo, magistério e tradução. Fez e continua por fazer incontáveis amizades. Ensina com amor, é generoso com principiantes. Reconhece os talentos dos companheiros de ofício. Sensível, erudito, humilde, solidário. Ama os idiomas e as nações. Entrega-nos bastante de sua experiência humana. Participou e testemunhou boa parte do século XX e praticamente todo esse início de século em matéria de literatura brasileira e um pouco da latina. Entendido de Castro Alves, Bilac, Bandeira, Cruz e Sousa e tantos outros. Em seguida dois ensinamentos a nós aspirantes: a) entrevista concedida a Nelson Hoffmann pelo periódico O Nheçuano e b) poema que segue:

RECEITA

Essencial é não dizer nada,

mas não-o-dizer com toda a classe:

como quem veste a ausência da alma

pondo véus diáfanos na face.

§

Escolha, pois, bem as palavras,

preferindo as simples às raras:

porque, se acintoso o disfarce,

avulta, por contraste, a cara.

§

Combine-as com a harmonia maga

de bem temperada sintaxe:

nem tanto ao mar, nem tanto à praia,

discreto o barco se destaque.

§

E seja o efeito esta onda— vaga,

onde a razão do poema—nada.

Brasília, 25.II.1974

O homem é paciente e operoso, diz acertadamente o seu amigo José Jeronymo Rivera. Faz-se crítico e ensaísta com prosa estilística luminosa, capaz de nos revigorar o esforço pela beleza. E sua poesia ergue-se como um edifício firme, fácil de se captar e reter, justamente pelo equilíbrio entre sentimento, imaginação, técnica e sabedoria. Desfrutemos de um soneto dentre a coleção dos “visionários”:

PÂNTANOS

Caía o luar nos pântanos tranqüilos.

Um sapo-boi coaxava tristemente.

A sinfonia sem calor dos grilos

enchia o quarto e entrava-me na mente.

§

Pus-me a escutá-los, momentaneamente:

cantavam mal…E eu me cansei de ouvi-los,

metendo o olhar, indagadoramente,

dentro da noite plena de sigilos.

§

Loucas perguntas, que ninguém responde,

em mim ecoavam, como numa furna.

E ébrio de sono e angústia, de repente,

§

julguei que os homens fossem brejos, onde,

regendo a triste orquestração noturna,

um sapo-boi coaxasse gravemente…

Soneto Antigo, p.95

Para revitalizarmos a poesia brasileira faz-se necessário antes divulgarmos o peso dos que não puderam vir à baila numa intensidade compatível com sua grandeza. Precisamos reverberar com prazer máximo os autores que, astuciosamente, foram postos à margem por certos “movimentos editoriais” e “pactos de leitura”. Nós apreciadores de boa arte, crentes e enfezados na ideia certa de que obras excelentes contribuem para elevação da alma humana, sonhamos com eminente poesia em forte circulação.

A literatura desse vulto – poemas, ensaios, contos, entrevistas, aulas, palestras, traduções – pede por ser lida por mais pessoas, mais comentada por nossos críticos e jornalistas culturais. Insistimos não tanto pelo autor, homem moderado e consciente de já ter feito muito da sua parte, mas por solidariedade a nós mesmos, compatriotas e falantes da língua. Que sejam incluídas suas obras nos exames de vestibulares! Dos seus ensaios temos à mão “Testemunho & Participação” e “Do que é feito o poeta”. Há também o “Proclamações” a ser explorado. A respeito do primeiro alguém exclamou: “Como é que obra dessa fica fora de circulação comercial?! Só de dar com os olhos na mina já se encontra inúmeras pepitas…além de agradável leitura, trata-se duma compilação valiosa para estudo e pesquisa em história literária.”

Conselhos editoriais, comissões de vestibulares, institutos, enfim, o mercado de bens simbólicos adiando ou atendendo logo nossa solicitação, uma coisa é certa: Anderson Braga Horta já influencia leitores, escritores e poetas de hoje, bem como influenciará outros muitos de amanhã. Ao lermos seus fragmentos críticos, onde se registra cristalinas reflexões, concluímos definitivamente que o autor está dentre os mais bem estruturados ombros da poesia contemporânea, da língua portuguesa, do florão da América e de todo o continente.

É hora de irmos além da respeitabilidade, do reconhecimento, dos elogios e dos prêmios. É hora de pormos os frutos do lavrador à mesa dos famintos!

Despedimo-nos com…

SONETO DE AMOR ANTIGO

Antes de tu nasceres, eu te amava:

de um amor sem objeto,

de um puro amor à espera:

querendo-amar, nos limbos do intocado.

§

E inda antes de eu nascido, já te amava:

no antegosto secreto

da vida em outra esfera,

na alma anterior ao corpo entressonhado.

§

Eu sempre soube o teu olhar profundo,

antes mesmo dos olhos, num passado

quando eras pura essência, além do mundo.

§

Cerra o tempo as cortinas e as descerra,

e eis-me sempre a teus pés ajoelhado.

Meu amor é antigo como a Terra.

REFERÊNCIAS:

ANE. Associação Nacional de Escritores. Membros. Brasília, 1963. Disponível em:< https://anenet.com.br/> Acesso em 17 novembro de 2019.

ALMEIDA, Pinto J.R. de. Poesia de Brasília: duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2002. 136 p.

HORTA, Anderson Braga. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009. 213 p.

_______. Do que é feito o poeta. Brasília: Thesaurus, 2016. 412 p.

_______. Signo: antologia metapoética. Brasília: Thesaurus,2016. 412 p.

_______. Testemunho & Participação: ensaio e crítica literária. Brasília: Thesaurus, 2005. 375p.

_______. Poeta de primeira grandeza. O Nheçuano, Roque Gonzales – RS- Nº 42, p. 6-8, agosto/setembro. 2019. Entrevista concedida a Nelson Hoffmann.

_______. Encontro de cinco poetas numa não esquina de Brasília. Lab61(uma homenagem ao Brasil) Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J5Yi7FPiY_Y >. Acesso em 15 julho 2019.

_______. Recebe Condecoração Oficial da Casa del Poeta Peruano. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=gOLBNb8jxMM >. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Lança Livros de Ensaios. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/anderson-braga-horta-lanca-livro-de-ensaios-79915/>. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Poeta. Wikipédia, a enciclopédia livre ( Creative Commons – sujeito a condições adicionais). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Braga_Horta. Acesso em 15 julho 2019.

Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual)

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

                                                                                             fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo,sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade factual batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

 Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. Às vezes, publicamos algo de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço para autopromoção nem veículo interativo instantâneo, com vistas a adquirir visibilidade ou reconhecimento ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

 Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocarmos idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual e da coletividade saudável e recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

contato@pingodeouvido.com.br

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Se Otto Maria Carpeaux é um plagiário

Rascunho, um dedo na ferida

Rascunho, um dedo na ferida

 lopes al’Cançado de la rocha, o Cristiano

Lápis_2

O lápis __ a lapiseira é a sua versão mais aperfeiçoada e conveniente __ é um estilete, um instrumento cilíndrico de duas camadas. Na camada inferior está o material chamado mina, que produz marcas com grafita. A grafita vem misturada com argila fina, cera e outras substâncias. A parte exterior do lápis consiste num invólucro de madeira. Através desse instrumento registra-se todo um manancial de traços, códigos, signos e sinais.

Para gravar imagens, símbolos, letras e números nas superfícies (papeis, madeiras) com o lápis realizamos semi perfuração, isto é, perfuração rasa, fácil de ser cicatrizada, apagada, corrigida.

Mesmo em tempos digitais e de telas sensíveis ao toque, o lápis __ ou lapiseira para os mais elegantes __ é o instrumento portátil mais apropriado para o rascunho. Ele e sua companheira, a borracha, são mais econômicos e menos tóxicos do que o outro casal: caneta e corretor líquido ou de fita. O número de lápis vendidos a cada ano é aproximadamente o dobro do de todos os outros instrumentos para escrita e desenho.

Muito comum entre os aprendizes, escriturários, redatores, desenhistas, entre os que necessitam e valorizam o esboço é o lápis. Aliás, esboçar é prática frequente dos que se consideram eternos aprendizes e dos que resistem à “ditadura do agora é para já”, velocidade ilusória e degradante.

Quanto mais se emprega tempo e cuidado num texto, num desenho, num trabalho gráfico, mais satisfação ele nos traz. Porque o labor com zelo se torna mais relevante, menos passageiro. É inegável que a rapidez, sobretudo das coisas boas, o imediatismo, a exigência veloz e impensada torna a vida menos saborosa.

O refazer nos dá ânimo à vida. No entanto, não podemos nos esquecer do lado precário da sobrevivência que nos faz agir, muitas vezes, com certa urgência. Mas urgência e emergência são sempre circunstanciais…

Continuemos pela Wikipedia com informações interessantíssimas sobre essa nossa antiga e atual tecnologia que é o lápis:

“O precursor mais remoto do lápis talvez seja identificado como sendo as varas queimadas cujas pontas foram utilizadas pelos primitivos hominídeos para gravar inscrições nas cavernas, as famosas pinturas rupestres. Há cerca de 3.500 anos, na sociedade egípcia, as ‘varas’ de rabiscar evoluíram para pequenos pinceis capazes de produzir linhas finas e escuras nas superfícies.

Há cerca de 1.500 anos, os gregos e romanos perceberam que estiletes metálicos serviam igualmente bem ou mesmo melhor ao propósito de registrar dados em superfícies. Por suas qualidades, o chumbo passou a ser amplamente empregado com tal fim.

O verdadeiro antepassado do lápis talvez seja o seu equivalente romano, o stylus; que consistia num pedaço de metal fino, normalmente chumbo revestido com alguma proteção (usualmente madeira) para evitar que os dedos se sujassem. O stylus era utilizados para escreverem-se os papiros.

Os primeiros lápis livres de chumbo datam do século XVI. Neste século foi descoberta, perto de BorrowdaleCúmbriaInglaterra, uma grande jazida de um material bastante puro e sólido, hoje reconhecido como o estado alotrópico mais comum do carbono, a grafite. À época nomeava-se tal elemento ‘chumbo negro’ em alusão direta ao elemento concorrente e suas aplicações; e os habitantes locais descobriram rapidamente que o “chumbo negro” era muito útil para marcarem-se as ovelhas. Atando-se a grafite a varas de madeira, rapidamente surgiram os lápis rústicos, já livres de chumbo e parecidos aos que conhecemos hoje.” […]

Poemas e Canções

__Poemas_e_Canções_2001_e_2017

__Capa_Poemas_e_Canções

ÍNDICE

Prefácio, 03

Sobre o autor, 04

Dedicatórias 1ª edição, 05

Notas do autor e agradecimentos 1ª edição, 06

Poemas

Herança & Arteiros, 07

Santa Luzia de todo o mundo, 08

Da região metropolitana, 08

Resposta, 09

Homemgasto, 10

“Psicológico”, 10

Canção para crise, 11

Etária com ombro, 11

Violoncelo, 12

Sem título e Ficar, 13

2º plano, 14

Meus poemas e canção poesia, 15

Metalinguística, 16

Canções

Nos sinais e Temorte (na sua área), 18

Zumzumzum zimzimzim e Ô Bach, 19

Não há um violão e Avião de Luxo, 20

Do apá virado e Fili, 21

Culpa e Narua, 22

Cata-vento, 23

Neanderthal, 24

 Notas, 25

Créditos 1º edição

Informações 2ª Edição, canais e contato, 25

 

Prefácio

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

Em brochura grampeada, com sobras de papel da gráfica, de corte torto, capa feia e improvisada, saiu uma edição tôsca e pobre, não só pelo fato de ser independente e autofinanciada, mas também por incompetência de todos nós, autor-editor, diagramador, gráfica impressora etc.

A intenção era demonstrar a importância com que sempre tratei a Literatura e expor um estilo individual eclético, no intuito de agradar o maior número possível de leitores e ouvintes. Os poemas foram divididos em quatro partes: a) memória pessoal; b) temas políticos e socioeconômicos; c) experiências com namoros e d) metalinguística. Quanto às canções, selecionei as que eu julgava serem as melhores na época.

Quis modéstia no título e pus “Poemas e Canções”, pois admitia minha imaturidade pessoal e artística. Agora nessa segunda distribuição há um novo intuito: retomar esse marco de minha trajetória.

Obra de jovem estreante, percebe-se marcante cadência típica do letrista, rimas imperfeitas, versos livres a procura de certa harmonia assimétrica; um tom de fala ao mesmo tempo memorialístico e confessional. Artes e pecados da infância, paixões juvenis com influência de Adelino Moreira, o espaço semi-urbano, os sonhos e as aflições próprias dos que trabalham em reflexão e contemplação em meio as urgências da vida, das tragédias humanas e sociais. Veremos esses últimos cenários, por exemplo, em “psicológico” (página 10), “temorte (na sua área) ” e “Nos sinais” (página 18).

Nas duas últimas canções (Cata-vento e Neandertlhal) teremos canto à liberdade e um lamentoso apelo.  É que antes de nos apresentarmos como escritores, antes mesmo de declararmos a primeira estrofe, àquela época já percebíamos o desprezo e a indiferença para com os novatos. No geral, quando se falava em arte, só se pensava em reconhecimento, exposição, fama, carreira profissional e vida pública luxuosa. Esquecia-se dos artistas como exemplos à sociedade, como cidadãos influentes na ética e moral de um povo. Hoje, porém, sabemos que a fria educação pela pedra de um João Cabral de Mello Neto norteou o senso de um Ministro da Fazenda Antônio Palocci; e que aquele Glauber Rocha animou o coração e a mente dum poeta e Presidente da República José Sarney. Um simples estribilho pode, na sua devida proporção, influir na história de várias gerações.

Hoje o desprezo, a indiferença e o ato de recusar contribuições literárias e artísticas em geral são efeitos de várias causas, e dentre elas podemos citar o declínio do ensino e aprendizado, o desamor pelo idioma, a imposição do entretenimento e do lazer prazeroso, a anulação da atividade crítica e a intensificação das degradantes guerrilhas culturais e espirituais. Vejo as forças criativas perderem sua fecundidade e segregarem-se em ilhas tribais fervidas por conspirações, estratégias, táticas, agendas e atitudes que, às vezes, culminam em histerias coletivistas ou até em campanhas de reivindicações hostis e ódio. Essas vias obscuras em muito nos entristecem.

Os critérios norteadores do fazer literário deixaram de ser a beleza, o amadurecimento da escrita, a riqueza de conteúdo, a força das expressões, a hombridade ética e estética do autor. Vieses ideológicos, de crenças ou descrenças são fatores determinantes para fazer repercutir ou não a voz dum pobre sujeito. Serão forças suficientes para calar algum filho de Deus capaz apenas de honrar seus próprios ombros? Só Ele pode nos responder, e a resposta virá certamente no Tempo Dele.

A presente reedição, com prefácio e informações complementares confirma minha escolha desde o início: o caminho da arte livre, consciente, independente, sóbria, responsável, baseada na razão, no sentimento e na compaixão. Esse pequeno percurso me impulsiona e me alimenta na missão de alcançar o máximo de pessoas dispostas a apreciarem Língua Portuguesa do Brasil, Literatura Brasileira, poesia inspirada e letra de música.

Belo Horizonte, 07 de julho de 2017.

Sobre o autor

Filho de José Maria Rocha, bombeiro hidráulico e Dulce Francisca Lopes Cançado, do lar, nasci em 07 de julho de 1977 em Belo Horizonte. Meus pais, nessa época, moravam no bairro de Santa Efigênia. Em dezembro de 1981, movidos pelo sonho da casa própria, mudamos para o Conjunto Habitacional de Interesse Social (Cohab-MG), mais conhecido como Conj. Cristina, próximo ao bairro São Benedito, na cidade de Santa Luzia.

Estudei o primário na E.E Jacinta Enéas Orzil, onde iniciei meus primeiros escritos, estimulado pelas aulas de comunicação e por canções que ouvia na voz de minha mãe. As demais séries do primeiro e segundo graus cursei na E. E Raul Teixeira da Costa Sobrinho já compondo uma variedade de letras, poemas e demonstrando notório interesse por nossa Literatura Brasileira. Dentre as funções que exerci estão: vendedor ambulante, balconista, empacotador de compras em supermercado, repositor, office-boy, auxiliar de escritório e leiturista em relógios medidores de energia elétrica.

A partir de 2002 trabalhei como balconista novamente, auxiliar de tesouraria, carteiro, professor de violão, músico de bar, auxiliar de serviços gerais. Colaborei voluntariamente em duas associações culturais luzienses. Idealizei e concretizei dois periódicos literários: Cabeça de Papel (2002) e Pingo de Ouvido (2015). Em 2006 integrei o curso de crisma do método da Catequese Narrativa, na comunidade Santo Inácio entre os cristinenses; crismei, batizei e, sendo já cristão, firmei publicamente minha Fé Católica. Estudei um período de administração em 2007. Dediquei-me em dois cursos técnicos e vários outros profissionalizantes no período de 2009 a 2014. Apresentei-me em alguns festivais de música, mostras e recitais. Publiquei dois álbuns musicais nas plataformas Onerpm e Youtube. Até meados da década de 2000 almejava profissionalizar-me inteiramente nas atividades artísticas, até que em 2005 decidi por me tornar, antes de qualquer desejo profissionalizante, um artista de testemunho e obra. Trabalho, atualmente, como assistente administrativo e estudo várias disciplinas de forma autônoma. Conquistei amores e desafetos, como é natural com todo ser humano. Ganhei um filho amoroso. Nos últimos anos venho me reaproximando das origens familiares, curtindo tias-avós, tios, primos, primas, padrinho, madrinha. Ouvindo deliciosas histórias como nunca. Ganhei também duas afilhadas, quatro cachorrinhas lindas e a família só lá vai crescendo…

Hoje, sob as mais variadas influências, tanto da arte como das diversas convivências… “ao contrário dos que escrevem e rasgam, mando meu timbre não por vaidade; é para desafiar esse instrumento de infinitas faces, comprometedor e bambo que é a palavra. Contudo, lembro que não deixo apenas palavras, lanço também a minha unidade e um pedacinho do meu universo. Quando me ponho a liberar o que me borbulha aqui dentro, a letra e o som são os códigos de que disponho… um violão de estudo e u’a máquina de escrever, isso é tudo, tudo que eu tenho. Dependendo do estado em que me encontro, eles se entrelaçam ou pouco se aproximam. Cabe a mim então a paciência… esperar para ver ‘quem’ é que vai ficar só e ‘quem’ é que vai ficar junto. Isto é, a Inspiração Divina é quem determina se o texto permanece poema lírico ou se converte em letra musical, canção”.

Eis, junto dos poemas, algumas composições do período de 1997 a 2001, quando passei a compor com maior frequência e a realizar estudos autônomos em música.

Santa Luzia, 09 a 15 de maio de 2001.

Com informações complementares em 07 de julho de 2017.

a toda minha família

e amigos

a vin car lag, “cum panis

inseparável nessa

trilha

a Sebastião Villas Boas

por todo apoio

e pelas primeiras afinações

(em memória)

[2001].

 

“… numa transa com os nervos, a música instigando o ser e dando-lhe a insistência para falar de si, de seu meio, de seus atos.

Mais pela vontade de desengavetar, registrar e fazer repercutir. Já que todos nós sabemos de nossas dificuldades – e não somente no plano artístico –, deixo aqui aos leitores e ouvintes uma enorme consideração. ”

Parte_1

Agradeço a:

Deus, Mamãe, Alexandre (irmão), todos os meus professores, todas as pessoas que trabalharam comigo, meus amigos, colegas músicos e artistas, apoiadores e apreciadores. Flávio Aguiari (em especial) e a uma pessoa que, sem ela, esse trabalho não se concretizaria: Raquel Rezende.

[2001].

POEMAS

Como quem herda não furta

herdei de meus pais

coração e alma

De minhas mães

valentia e vigor

e isto me basta

me farta.

[1994], herança

Arteiros

Posso ovi de longe

ela cantando meu nome

Mamãe t’chamando

arruma essa franja

os canto da boca

tá sujo de manga

óia lá

não vai falá da chácara

nem do tiro de chumbim.

Dentre minhas espadas

não, não tive espadas

tampouco revólveres

E fui ladrão

de um brinco

e um litro de leite

Não possuía spray

mas fui vândalo

em minha escola

Dividi uma bola

um lance

sonhei como todos

hoje sou poeta e estudante.

[1999].

Santa Luzia de todo o mundo

Beco do Brasil,

da África.

Rua Japão, Israel,

Rússia.

Avenida States,

Das Indústrias.

Estrada velha asfaltada

Barrenta cheirando à cachaça

Trem trilho

mel milho

estribo, extravagante

esterco

Trem trilho

mel milho

casas casarões

barracos.

[2000].

Da região metropolitana

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea

conheço enxada mas nunca usei

e não me lembro de ter decepado capim

Tenho uma máquina sim

Gosto de cavalos, porém

tenho medo de montar

de gado nada sei mas,

quando trêbado

puxo os rabo das vaca

E a boca da calça

anda borrada de batom vermelho

das poças de água

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea.

Resposta

Ninguém saberá

sobre os quilômetros que ando

do peso que carrego

dos quilos que perco

Os números?

Sei apenas lê-los

Perdão se gesto

palavra

espaço

tempo

ação

não meço

Deixo de lado

até mesmo o sucesso

mas o espírito-paixão

não desprezo.

Parte_2

Homemgasto

Como seria o sentido da vida

para aquele homem que me oferece café?

aquele homem que mata minha sede com sua água

Agachado ali na rampa da entrada

misturando gíria com dialetos da roça

Qual é, para ele, o sentido da música

que vara o portão e cadencia meus passos?

O que pensa ele, ao olhar-me com os olhos

de minha gente, sobre o trabalho que faço?

Posso é somente imaginar

o que o trabalho fez com a vida

desse Homemgasto

“Psicológico”

O frio é psicológico

assim como é da psicologia

a alergia de lã

e a dor que a medicina

estampa no seu nome

A fome e a seca

são psicológicos quanto o medo

É psicológico o atrito

entre o religioso e o cientista

o refúgio de Kosovo[1]

a corrida armamentista

a ignorância do povo

os alunos assassinos

e todos os versos acima.

Canção para crise

As bolsas cheias de nenê e xistose

A miséria e a corda no pescoço do pai

Quem promete a melhora

tem moeda no bolso

E nós? Misericórdia Senhor!

Misericórdia de nós!

Batendo na bunda de quem passa

Quem passa leva um tapa no bolso detrás

É pobre, é pobre também!

Vá roubar, vagabundo, de quem tem

O bolso cheio de poesia em pó

A viola atira som que não mata ninguém

Boca manda palavras que não saram

Sarin: paralisia da massa.

Etária com ombro

Olha lá a ciência presumindo as batidas

durante a vida, uma vida qualquer.

Pegada a cambalear, fungar entrecortado

Soando em seu terreno, longe da teconoavançada

Tem sangue vermelho, corpo sem orifícios de borracha,

sem canudos – enfermo. Tem sete vidas.

Nasce e renasce das cinzas mais rápido do que humano

do que o tempo ou qualquer ação física,

Mistura-se com a terra

Fica pardo, forte, rico

Encorpado de raças

civilizações e ritos.

Prossegue…

Socorre-se de água, comida,

descanso e abrigo

Combate: famintos tigres

Suporta: carregadas nuvens

Degusta: delicadamente

Súbitos lagos límpidos.[2]

Parte_3

Violoncelo

Som de berrante rouco

Urro de boi quase morto

Quando o tocador acelera

arrepio

Belo brio!

Revanche!

Cai a velocidade

volto a amar a derrota

Corto a noite em versos

Morro!

Pela manhã é violão

à tarde,

violoncelo.

 

Sem título

o poema que plantei

em seu nome

ela não me devolve mesmo

muito eu gostaria

de extrair da mente

uma estrofe

…mas a memória salva-me um verso:

“amar em pé de igualdade.”

[março de 2001].

Ficar

Devo a você

letras de ouro,

devido ao poder

que arrumei nos dedos

ao tocar seus cachos dourados.

Contudo, ofereço-lhe

estas perplexas aqui,

pois bobelado fiquei

da surpresa de lhe conhecer

assim… tão pouco e de súbito

Meus olhos apuram

estas linhas

torcendo por um

daqueles nossos

encontros fortuitos.

Segundo Plano

Sonhei os mil elogios

que saem dos seus olhos

e com o brilho

que parte de seu sorriso.

Seus lindos pés maternos

ao suportarem dois corpos,

de longe me fascinam

De perto?

eliminam todo o nosso primeiro plano.

Ai! Vontade de usar de cafajeste

em vez de força-bruta-coração!

Então surgem retas, círculos

quase que em forma de coraçõezinhos.

Rolam gestos, palavras surpresas,

possíveis trocas de objetos

e mais reciprocidades

… e aí eu paro por aqui,

Pois já não mais consigo

expressar-me através de

tais códigos.

Parte_4

Meus poemas

Simples poemas

Tortos e destinados

ao matadouro

Que nasçam meus poemas

Que nasçam

Esse é o único voto

de um orgulhoso pai

semi-analfabeto.

[novembro de 1999].

Canção-poesia

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação da língua,

a insônia estão aqui na minha poesia

Será lida como anúncio de jornal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

um verso

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação dos sons,

a insônia estão aqui na minha canção

Será ouvida como barulho infernal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

uma melodia

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

ESTUDO DACTILOGRAFÔNICO[3]

vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô   verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  poisé  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia po

Babacanetababa

Babapelomenos

Babacanetababa

SoutristepremiadoDesgraçadofeliz

                                             Poetizo

[4]

Pentagrama

Sobre poesia

aprendi com um amigo-vizinho

conversar fiado sozinho…

Canções

CANÇÕES

Nos sinais

Deus branco nu olhando por uma criança negra

e uma branca fugindo de um demônio vestido de capa preta

Tv a teleguiar os olhos negros de uma índia

e uma daquelas amarelas trocando um chip

Uma ele, uma ela

de barriga cheia esperando mais crianças

sem barriga, sem pança

das que cansam de esperar a hora

das que jogam pedra, fumam pedra, jogam bola, dão bola

cheiram à fralda, cheiram coca, cola

das que correm, dormem, morrem, pedem, roubam

pé-de-cana, mão-de-caneca, pé-de-erva

das que não pedem para nascer

Maria que não queria família com filhos filhas

ouvindo: quem não crer, não quer criar, que não dê cria

Eu vi nos sinais sem tempos verbais

Quem é que vai relar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Quem é que vai acionar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Temorte (na sua área)

Mataram um cara na sua área, meu irmão

E eu nem sei bem se vi ou se ouvi falar

Só sei que a cena tá aqui no meu inculcar

O revólver cuspindo, a bala entrando

O corpo caindo, meu xará

O ferro cuspindo, a azeitona entrando

O presunto caindo, meu xará

E antes da polícia, a família da vítima a chegar

O chôro da mãe, a careta do pai

Desespero da irmã do rapaz

E isso num dia cinzento

Chapiscado com chuvisco

E o povo a comprar pro Natal

Não é época de se indignar

Além do mais, também, aliás

Isso tudo é “normal”.

 

Zumzumzum Zimzimzim[5]

Toda noite pousa um mosquitinho aqui

Em cima da minha folha e dança

Sobre a pauta, breca na pausa

Valsa em volta de mim

Zumzumzum zimzimzim

Zumzumzum zimzimzim

Ouve-me até o fim

Como quem pensa

Entende o meu lance

Compreende a maior

A menor frequência

De todos os ângulos:

Tarraxa de baixo

De cima do braço

Voando, montado

A cavalete

Oh! Deus, vigie essa criatura minúscula

Dá a todas as vidas o imenso prazer da música.

 

Ô Bach

Ô Bach! Eu vou roubar tuas notas

Quando baixares em mim

Mozart! O teu olhar agora é meu

Os dois acordes que eu tenho aqui

São repetidos e sempre se repetirão

Porque a música, Bach

Porque a música, Mozart

É uma mentira!

Ô Bach!

Pede a Deus que me ouça!

E mande um raio na caixa de som

Mozart!

Manda um anjo cortar minas mãos!

Porque o músico, Bach

Porque o músico, Mozart

É uma mentira!

Me tira, me tira, me tira daqui!

Todas as notas são repetidas, todos os textos…

Todas as frases e melodias, todos os caprichos…

Todos os ritmos e arranjos, todos os trechos…

 

 

Não há um violão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher

Amei e quando desamei

Corri pr’esse braço só

Compensação: uma voz polifônica

E muito mais polida que meu coração

Confesso sim

Não converso sozinho não

Mas não há… volto ao refrão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher.

Avião de luxo

Aquele avião de guerra que voava

Sobre a Rua Ituverava, procurava

U’a mulher que era faxineira dum

Supermercado bacana

Uma fita adesiva serviu-lhe de cinturão

Para sair carregada de batom, shampoo

Creme rinse e creme para as mãos

Na meia soquete balas e chicletes

Para um irmão mais novo

Em casa ela só tem arroz e feijão

Óleo e macarrão, manteiga e pão murcho

Ainda há quem diga que o que ela queria era luxo

Pois aquele avião de luxo que voava

Sobre a Rua Ituverava…

Ele vai achá-la lá na Praça Sete

Ela vai picá-lo lo todo no canivete.

 

Do apá virado

Me disseram que você já passara do ponto

Eu fui com o trigo e você voltou com o pão

Eu fingi amigo e ganhei um beijo na escuridão

Já ouvi falar, já ouvi falar

Da sua fama na Rua João de Sá

Já ouvi falar da sua fama

Na Avenida Joaquim

Agora diga:

Se realmente tem algum amor por mim

Se realmente tem algum amor por mim.

Fili

Dispare o tiro, toque o sino

Com licença tio, com licença tia

Mamãe postiça me chama

Dispersando canja no ar

Ar livre, ar leve, me livre, me leve

Me faça pole position

Lá fora se a fila não dobra a esquina

É por sorteio

Deputado reivindica

Saúde internada, ensino em tenda

Clientes da reforma no PROCON

Agricultor descadastrado

Clim’eaça a safra e as nuvens que pas’são

De famintos gafanhotos

Eu digo põe, põe, pois…

fili mãe tem cartão credi-canja master-sopa[6]

na mão

Até mãe, tenho de ir embora

Amanhã é dia de Vietnã

Já deu a minha hora, a do meu país eu não sei

A mãe terra gera seus filhos e é morta

Filhos sem mãe, órfãos de guerra.

 

Culpa

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Injeção de tais palavras

Fonadas no ouvido

Algemou-me, debruçou-me na mesa

Como explicar pro lápis

Preso em margens, perdido em linhas

Desapontado, pálido e incolor

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Quando fecha, incha e seca

Quando abre, rega e aflora

Se se zanga, embica

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Como dizer dos meus ditos

Pros escritos que escrevi pra ti?

Narua

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, arrota trovão!

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso namorar

Na rua eu posso beijar

Porque a rua, a rua não é sua!

É o puro caminho de quem quer se expressar

Um mar de quarteirões onde navegam guardas e vilões

E seu filho beco, bequim; e seu filho corgo, corguim

Conhece? Não, não recebem sermões

A rua, minha senhora, não é moça

Moça não, é dona!

A rua, meu senhor, é rapaz que não precisa de zona

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso reclamar

Na rua eu posso esbravejar

Porque a rua, a rua não é sua!

A rua, a ruinha, a ruaça

A rua, a ruinha, arruaça

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, cospe vulcão!

Cata-vento[7]

É que sou pipa, mutuca

Em mãos desconhecidas

Taquara de meio, vareta de enverga

Sou pipa, papagaio

Empinado com linha de aço

Cerol nenhum me corta

Ou rasga minha barbela

Quero me mandar daqui

Ficar perto do sol

Sei que corro o risco

De acabar ao chão, ao chão

Soltar da manivela

Remexer rabiola

Voar e voar

Me embolar nos ventos.

 

 

Neanderthal

Eu quero uma chance, ninguém me dá

Eu quero cantar, dizem que não sei

Cabelo dispara a crescer: animal!

As unhas, perguntam: pra quê?

E o tamanho dos olhos? E da boca?

Lobo mau! Lobo mau!

Meu objeto é mexer

Com sua alma um pouco

Essa é a idéia de cor

Não arrancar seu suor

Nem lhe jogar no forno

Eu quero tocar corações

Me chamam de homem do mau

E meu instrumento de pau

Neanderthal! Neanderthal!

Chega mais

Não pego, não mordo

Sou racional

Carne, osso

Açúcar, fel

Limão e sal

Pode vir

Não tenha medo

Não me faça mito

Sou desse mundo

Tá legal? Tá legal?

Notas

[1] Página 10. Referência ao conflito étnico-cultural entre albaneses e sérvios na região de Kosovo.

[2] Página 12. Estrofe utilizada posteriormente na canção “à espreita da aurora”, disponível em youtube.com/user/Lopesdelarocha.

[3] Página 16. Jogo fônico-formal. Só depois descobri que o Décio Pignatari tem algo parecido composto em 1977. É de fato influência dos concretistas por meio de livros didáticos de Língua e Literatura da década de 1990. Poema composto durante exercícios do curso de datilografia.

[4] Página 16. Grupo fônico da frase no pentagrama. Clave substituída pelo emblema do movimento anarquista. Frase expletiva exprimindo afirmação dúbia.

[5] Página 19. Esta canção inspirou uma outra intitulada “Tatame”, que integra o álbum “à espreita da aurora” de 2014.

[6] Página 21. “Credi-canja Master-Sopa” é expressão criada por Eder Jack de Andrade Silva na fila para servir a merenda da E.E Raul Teixeira da Costa Sobrinho, também em meados dos anos 90.

[7] Página 23. Letra da canção Cata-vento foi musicada e cantada por Flávio Aguiari na primeira edição em 2001.

Créditos

(Poemas e canções)

172.199.289-345 FBN

4124-105-030 E.M.D.A

C.I Nº 408 FBN

Capa e ilustrações 1º edição: Lopes C. de la rocha

Ilustração nº 03: Raquel Rezende

Voz e violão: Lopes C. de la rocha

Voz em ‘Cata-vento’ (Part. Especial): Flávio Aguiari

Gravado do Studio Plug-In em 09 e 15 de maio de 2001

CD reproduzido por Studio R&T

Impressão 1º edição em 2001

Edição independente e autofinanciada

2º Edição em pdf: Pingo de Ouvido. 07/07/17

Santa Luzia & Belo Horizonte, Brasil.

Canais do autor:

www.pingodeouvido.com.br

www.youtube.com/user/Lopesdelarocha

Contato:

contato@pingodeouvido.com.br

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

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 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

honorários

Pl. subst. de honorário.]

Substantivo masculino plural

1.Remuneração àqueles que exercem uma profissão liberal;

2.P. ext. Vencimentos, salário, remuneração. ~ V. honorário.

cachê

[Do fr. cachet.]

Substantivo masculino

1.Ordenado de qualquer integrante de companhia teatral, cinematográfica, de televisão, etc.:

2.Pagamento feito a qualquer pessoa que se apresente em espetáculo público ou que participe de anúncio. [Cf. cache e cachés.]

Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. Edição eletrônica autorizada à POSITIVO INFORMÁTICA LTDA.©2004 by Regis Ltda.

Agora que se tornaram mais nítidas as “subterrâneas guerrilhas”; agora que conservadores, liberais e libertários dos mais diversos graus se organizam na sociedade civil disputando com socialistas e coletivistas os espaços públicos e coletivos, os veículos de comunicação e as audiências, enfim, ruas e estradas; praças e palácios; templos e mercados; clubes e escolas têm se transformado em arenas que transpiram pluralidades político-ideológica, cultural e religiosa.

Em meio a essas “guerrilhas”, no meio desses fogos cruzados pela disputa do controle das pautas e temáticas estamos nós, os trabalhadores, empreendedores e profissionais da cultura artística, interessados em preservar tradições, inovar e oferecer à coletividade nossos serviços. Sem “maneirismos”, embora cada qual se identifique livremente com determinadas correntes e confissões.

Dos que já não foram muitos estão sendo convidados a erguerem bandeiras e a postar-se em tal ou qual lado na política, nos movimentos de lutas, em favor de religiões etc. É natural que aceitemos e façamos nossas escolhas com base em interesses ou princípios. Mas é importante conscientizarmos do risco de tornarmos meros instrumentos de causas injustas ou até perigosas e perversas; e do risco de sermos usados gratuitamente, por meio de explorações imorais, na transmissão de propagandas político-ideológicas totalitárias, cujos objetivos agridem liberdades e costumes já consagrados.

O presente trabalho, realizado em 2008 (basta atualizar valores mediante pesquisa de preços praticados conforme a região), visa contribuir no estabelecimento de parâmetros para compatibilizar interesses entre contratantes e contratados, garantindo ao verdadeiro trabalhador cultural uma remuneração condigna.

A cultura artística consiste em um dos campos que mais contribuem para a construção da cidadania em nosso esforço e percurso civilizatório, exigindo dos profissionais atualizações constantes, acompanhamento da tecnologia e muita dedicação, visando aprimorar e melhorar seus modos de expressar, o tratamento com os conteúdos, bem como a qualidade dos serviços prestados à coletividade.

As principais atividades exercidas por profissionais do setor são:

  • aprendizagem e treinamento
  • leitura e concepção
  • pesquisas de campo e documentais
  • composição e criação
  • revisão e adaptações
  • pré-produção
  • ensaios
  • produção
  • promoção e comunicação
  • apresentação
  • pós-produção
  • serviços de secretaria.

A cultura artística apresenta um caráter aparentemente de descontinuidade – emprega-se boa parte do tempo em formação, preparação e pesquisas, isto é, nas etapas que antecedem as apresentações e exposições finais dos trabalhos. Isso causa dificuldades no reconhecimento econômico-financeiro dos serviços, trazendo ao artista a necessidade de atendimentos simultâneos e/ou alternância com trabalhos de outros ramos.

Merecem destaque alguns aspectos relativos à qualificação, aos benefícios, às obrigações e aos custos:

  • os elementos necessários à elaboração de uma obra, de um espetáculo, de uma performance , por exemplo, não são coletados e organizados de uma só vez, exigindo sempre novas pesquisas e diligências;
  • atividade contínua do profissional, objetivando uma remuneração condizente com o trabalho que exerce, de forma a que possa levar uma vida de padrão médio, lhe oferece poucas oportunidades de férias integrais, não lhe dá direito a 13º salário, FGTS nem tão pouco seguro de vida ou aposentadoria conciliáveis com a atividade em seus anos mais produtivos;
  • exige participações em congressos, seminários, palestras, cursos de aperfeiçoamento, aquisição freqüente de livros, materiais didáticos, instrumentos, acessórios, aulas particulares, revistas especializadas e tecnologias, visando uma constante atualização para que o profissional acompanhe a evolução da cultura;
  • requer a manutenção permanente de pequeno escritório com infraestrutura básica, compreendendo computadores, programas, telefone, suprimentos e aparelhos que possibilitem o bom desempenho do empreendimento.

Na maioria dos projetos, além das etapas já citadas, o artista-empreendedor deve ainda realizar outras tarefas e exercícios que nem sempre lhe são creditados quando do arbitramento de seus honorários/cachês, talvez até por serem de difícil mensuração. São elas:

  • contemplação e reflexão
  • experimentação
  • busca de um grau de elaboração de linguagem satisfatório ao público
  • esforço mental e físico para se chegar a certa qualidade técnica e estética
  • escolha do repertório
  • captação de parceiros, colaboradores e/ou coadjuvantes
  • produção textual
  • captação de recursos

Assim, torna-se importante que a sociedade em geral tenha conhecimento das atividades que compõem os ramos da Cultura Artística e saiba dos custos e das obrigações que recaem sobre os profissionais.

Outras considerações:

  • Adiantamento

Qualquer que seja a forma de contratação é justo o profissional requerer um adiantamento de, no mínimo, 30% (trinta por cento) dos honorários/cachês acordados, visando custear despesas iniciais.

  • Cálculo das despesas adicionais

As despesas adicionais para realização dos trabalhos devem ser incorporadas aos honorários/cachês. Entre elas destacamos:

a) despesas com deslocamento e mobilização de pessoal;

b) custos relativos à execução da proposta formal e orçamento, sendo: papel, cartucho de tinta, impressão, arte gráfica etc.;

c) custos com manutenção de escritório, relacionando ao tempo em que o trabalho de contratação se inicia. Podemos destacar: telefone, provedor de internet, energia elétrica, suprimentos de informática e papelaria;

d) custos relacionados ao exercício da profissão e custos administrativos das contratações. Deve-se ratear os custos a seguir entre os trabalhos executados de forma ponderada, proporcional e inteligível. Destacamos os seguintes itens: despesas relativas a impostos, contribuições e taxas, locação de instalações, de mobílias e/ou equipamentos, registro de obras, anuidades de órgãos de classe, manutenção de inventário cultural particular, serviços de contabilidade, cursos de aperfeiçoamento, assinatura de periódicos etc.;

e) custos com viagem: quando o profissional tiver a necessidade de se deslocar para realização de trabalhos fora de sua região, devem ser contabilizados ainda os custos de deslocamento, bem como alimentação, estadia etc.;

f) as despesas de prestação de serviços técnicos de terceiros que envolvam iluminação, sonorização, desenhos, cenários, entre outros, devem ser cobradas com base na tabela de honorários do respectivo segmento profissional.

Cálculo do valor da remuneração e reajustes

Ao calcular o valor de sua remuneração, o profissional deve, também, levar em consideração:

  • quantidade de espectadores;
  • classe de renda do tomador de serviço (contratante);
  • região administrativa;
  • característica do local e tipo de instalações;
  • perfil do contratante;
  • evolução da participação de artistas do mesmo seguimento, modalidade e/ou linha de expressão (variação na oferta);
  • os profissionais podem utilizar índices econômicos como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como parâmetro os grupos educação, leitura e recreação.

Vejamos a tabela abaixo, cujos Valores Médios são expostos com base em levantamentos de características que determinam a formação de preços dos serviços prestados por músicos, dançarinos, animadores de festas, artistas circenses e atores performáticos. Como referência, realizamos pesquisa de coleta de preços na seguinte proporção e forma:

1 (uma) Cooperativa musical: músicos instrumentistas, cantores etc.;

8 (oito) músicos: voz e outro instrumento;

3 ( três) artistas circenses: figurino, malabarismo, mágica e brincadeiras;

3 (três) dançarinos: figurino e performance;

4 (quatro) animadores: figurino, brinquedos leves, brincadeiras e performance;

2(dois) atores performáticos: figurino, cenário portátil e performance.

 

       HONORÁRIOS/CACHÊS POR CLASSE DE RENDA

       VALORES EM REAIS POR ESPECTADOR/HORA

(* valores válidos para artistas que atuam individualmente)

Bairros por classe Bar Restaurante Salão Teatro Cs Show Festa Part. Festa Part.
de renda   P.F P.J
Popular/ Médio 4 (200) 7 (350) 7 7 7 5 (250) 10
Santa Efigênia 7 (350) 10 10 10 15 (750) 7 15
Barro Preto 7 10 10 10 15 10 20
Centro 7 10 10 10 15 10 20
Funcionários 15 20 25 25 30   30 (1500) 40 (2000)
Savassi 15 20 25 25 30 30 40
         Luxo 12 15 20 20 (1000) 25 20 30
                                                                                                                                                      Bhz e RMBH
Os números em parênteses acima dos valores indicam (em reais) o número de 50 espectadores multiplicado pelo valor unitário
 

Considerações finais

A informalidade e a inadimplência, decorrentes de falhas educacionais e morais graves, limitam as oportunidades de crescimento econômico e bem-estar social, além de corroerem a integridade dos cidadãos.

Do ponto de vista material, algumas atividades, como a artística, são relegadas a segundo plano. Isso é constrangedor – sobretudo em países de governos e instituições geridas por partidos e pessoas autodenominados democratas e progressistas, de inspiração social e comprometidos com os trabalhadores.

Há empresas que se utilizam de tais falhas como diferencial competitivo e trabalhadores que desvalorizam o seu próprio papel no universo corporativo.

Empresas (públicas e privadas), produtoras, organizadores e realizadores de eventos são empreendimentos mercantis e políticos, e se aproveitam do trabalhador cultural, do artista. Não se trata, aqui, porém, de converter a inteligência, o talento, as emoções ou o espírito criativo em meras mercadorias precificadas. Consiste na busca de uma justa, se não razoável locação da mão-de-obra, dos bens autorais e patrimoniais.

Se o artista não se apossar do que lhe é de direito, outro o fará. É necessário fortalecer a consciência profissional, especialmente para assegurarmos os direitos e o bem-estar das futuras gerações.

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