CARTA DE JOSÉ DE ALENCAR

CARTA DE JOSÉ DE ALENCAR

(Apresentação de Castro Alves a Joaquim Maria Machado de Assis)

Tijuca, 18 de fevereiro de 1868.

Ilmo. Sr. Machado de Assis.

Recebi hontem a visita de um poeta.

O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, fallo do Brazil que sente; do coração e não do resto.

O Sr. Castro Alves é hospede d’esta grande cidade, alguns dias apenas. Vae a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda.

Nasceu na Bahia, a patria de tão bellos talentos; a Athenas brazileira que não cança de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.

Podia acrescentar que é filho de um médico illustre. Mas para que? A genealogia dos poetas começa com seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?

O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um pos pontífices da tribuna brazileira. Digo pontífice, porque nos caracteres d’essa tempera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio.

Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma gloria esplendida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora!

Mas também quanto, n’esse instante, deplorei minha pobreza, que não permittia dar a tão caros hospedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da intelligencia.

Se, ao menos, tivesse n’esse momento junto de mim a pleiade rica de jovens escriptores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocayuva, Muzio, Joaquim Serra, Varella, Rozendo Moniz, e tantos outros!…

Entre estes, porque não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, aquém o destino faz ave de arribação na terra natal? Em litteratura não ha suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família?

Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por ahi, como flôres de uma breve primavera.

Um fez da penna espada para defender a patria. Alguns têm as azas crestadas pela indifferença; outros, como douradas borboletas, presas na teia d’aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos.

Felizmente estava eu na Tijuca.

O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a collocou a duas leguas da Côrte, como um ninho para as almas cançadas de pousar no chão.

Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas crystallinas, como o espírito na limpidez d’este céo azul.

Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquelle halito celeste do Creador, que bafejou o mundo recem-nascido. Só nos ermos em que não chairam ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço.

Elevando-se a estas eminencias, o homem approxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pantano e a nuvem, entre a terra e o céo. O coração que sobe por este genuflexorio, para se prostrar aos pés do Omnipotente, conta trez degráos; em cada um d’elles, uma contricção.

No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade reptil, onde as paixões pupulam, a alma que se havia atrophiado no fóco do materialismo, sente-se homem. Em baixo era uma ambição; em cima contemplação.

Transposto esse primeiro estadio, além, para as bandas da Gavea, ha um lugar que chamam Vista Chineza. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela soblime, uma decoração magnifica d’este inimitável scenario fluminense. Dir-se-hia que Deus entregou a algum de seus archanjos o pincel de Apelles, e mandou-lhe encher aquelle panno de horizonte. Então o homem sente-se religioso.

Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado opposto. D’ahi os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dous oceanos, o oceano do mar e o oceano do ether. Parece que estes dous infinitos, o abysmo e o céo, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio d’essas immensidades, um atomo, mas um atomo, rei de tanta magnitude. Ahi o ímpio é christão e adora o Deus verdadeiro.

Quando a alma desce d’essas alturas e volve ao pó da civilização, leva comsigo uns pensamentos sublimes, que no mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nivel primitivo da água derivada do topo da terra.

N’estas paragens não podia meu hospede soffrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse á natureza que puzesse a meza, e enchesse as amphoras das cascatas de lympha mais deliciosa que o falerno do velho Horacio.

A Tijuca esmrou-se na hospitalidade. Ella sabia que o joven escriptor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espanneja em lagos de luz diaphana e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca ás caricias do poeta.

Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem d’aquellas impudencias celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens das nuvens. A chuva a borrifou de aljofares; as nevoas delgadas resvalam pelas encostas como as fimbrias da branca tunica roçagante de uma virgem christan.

Foi assim, a sorrir entre os nitidos véos, com um recato de donzella, que a Tijuca recebeu nosso poeta.

O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antiguidade de minha vida; que eu outr’ora escrevera para o theatro. Avaliando sobre medida minha experiencia n’este ramo difícil da litteratura, desejou ler-me um drama, primicia de seu talento.

Essa producção já passou pelas provas publicas em scena competente para julgal-a. A Bahia applaudiu com jubilos de mãe a ascensão da nova estrella de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modestia unicamente, é respeito á santidade de sua missão de poeta.

Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assumpto, colhido na tentativa revolucionaria de Minas, grande manancial de poesia historica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo auctor com episódios de vivo interesse.

O Sr. Castro Alves é um discípulo de Victor Hugo, na architectura do drama, como no colorido da ideia. O poema pertence á mesma escola do ideal; o estylo tem os mesmos toques brilhantes.

Imitar Victor Hugo só é dado ás inteligencias de primor. O Ticiano da litteratura possue uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua phrase são como os de Benevenuto Cellini; se o metal não fôr de superior afinação, em vez de estatuas sahem pastiços.   

Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponto no drama a inspiração original, que mais tarde ha de formar a individualidade litteraria do auctor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da patria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos.

Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do bello e da arte.

Ha no drama Gonzaga exhuberancia de poesia. Mas d’este defeito a culpa não foi do escriptor; foi da edade. Que poeta aos vinte annos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda?

A mocidade é uma sublime impaciencia. Deante d’ella a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivel-a mais que um instante. Põe os labios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de gloria, e quizera estancal-a de um sorvo.

A sobriedade vem com os annos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem apprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que elle há de achar um drama esboçado, em cada personagem d’esse drama.

Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões.

Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angustia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A acção, dirigida uma ou outra vez pelo accidente material, antes do que pela revolução intima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna.

Mas são esses defeitos da obra, ou do espirito em que elle se reflecte? Muitas vezes já não surprehendeu seu pensamento a fazer a critica de uma flor, de uma estrella, de uma aurora? Se o deixasse, creia que elle se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade.

Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. A Cascata de Paulo AffonsoAs duas ilhas e A visão dos mortos não cedem ás excelências da língua portuguesa n’este genero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo d’esse metro natural, d’essa rima suave e opulenta.

N’esta capital da civilização brazileira, que o é também de nossa indifferença, pouco apreço tem o verdadeiro merito quando se apresenta modestamente. Comtudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o joven poeta bahiano, fora mais que uma descortezia. Não lhe parece?

Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o theatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor d’esse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade.

Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos titulos. Para apresentar ao publico fluminense o poeta bahiano, é necessário não só ter fôro de cidade na imprensa da Côrte, como haver nascido n’este bello Valle do Guanabara, que ainda espera um cantor.

Seu melhor titulo, porém, é outro. O senhor foi o unico de nossos escriptores, que se dedicou sinceramente á cultura d’essa difficil sciencia que se chama critica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveital-o em creações próprias, teve a abnegação de aplical-o a formar o gosto e desenvolver a litteratura patria.

Do senhor, pois, do primeiro critico brazileiro, confio a brilhante vocação litteraria, que se revelou com tanto vigor.

Seja o Virgilio do joven Dante, conduza-o pelos invios caminhos por onde se vae á decepção, á indifferença e finalmente á gloria, que são os trez circulos maximos da divina comedia do talento.

José Martiniano de Alencar

Glossário:

Apelles= pintor da Grécia antiga.

Falerno = vinho da península itálica.

Espannejar= espoar, expor-se espalhadamente.

Fimbrias = franjas, guarnições.

Roçagante = que se arrasta pelo chão, que roçaga.

Ticiano = Tizian Vecellio De Gregorio, pintor renascentista italiano.

Benevenuto Cellini = artista da Renascença, escultor, ourives e escritor italiano. 

Pastiços = postiços, acrescentados depois da obra pronta.

                                                     PONTO DE ASSIS

PONTO DE ASSIS | Gracioso alinhavo no bordado de Cris

Por Maria da Graça Rios

                                           

Assentado próximo ao tear, um analista ponto cruza certa cambraia literária. Que formas puras cria tão gentil poeta? Onde fita sinhaninhas, malgrado informe bastidor? Através da peça de tule machadiana, rasga a bainha de todo infame verbo. Máquina afinada, corta com lâmina o feitio dos sectários de Lúcifer. Alfineta a gaze fina com a qual belzebu enrola inocentes, pregueados na sedução, roubo, ignomínia. O amigo sabe: Diabo chuleia, borda, ali, uma Igreja Única, Totalitária, Global. Por isso, utiliza ferrugens na bobina d’outras sés. Convence-se pintor manual dum cós de caimento livresco, sob as Leis do Tártaro. Estampa figuras em carreteis, ante divinos aviamentos, ao desforrar direitos humanos. Molda por baixo esperança, amor, paz. Por cima, moldura sevícia, orgulho, truculência. Ignora o designer de moda, Joaquim Maria, que tece trama de atar leitor. Cristiano emenda-se às malhas da Letra. Mestre realista fia, confia:                                      

Desalinha, desconserta, cose as patas do coisa-ruim, filho! Desfia a arquetípica franja de Lucius. Vanitas vanitatum omnia vanitas? Satã perde o fio da meada, misturando fuxicos contra o paradigma dos profetas e reformadores. Alfaiate fogoso, sonha enlaçar a nó górdio toda hegemonia das religiões e doutrinas. Sob véu de cinzas plumas, tudo julga, perverte, vende. Pai da negação, aperta alarga estreita qualquer plataforma alta ou arremate terreno. ‘Por trás da virtude, o vício’, ziguezagueia o tinhoso. Mira, pois, estilista crisântemo! O Sujo, ora traveste-se de tons aristotélicos: ‘O bom é sempre mau’. Sobre matrizes e telas, lantejoula Grande Ordem Nova e Insana das coisas a que denomina Legião. Blasfema aos pés do Onipotente: ‘Encorpado de purpurina carnaval vidrilho, seguidor nenhum terá sede de Ti. Plissará grinaldas em favor da noiva barbárie. Confeccionará panfletos acerca de maniqueísmos políticos… Eis que nesse instante, Lopes al’Cançado trança no bilro fios de renda: ‘Veludo ou seda, diacho, propendem-se a repuxos encolhimentos buracos. Representam o enviesado manto terrestre. Alvo macio hipoalérgênico, nosso terno algodão agasalha rebanhos celestes.  Modelas o nada, Anjo da treva. Desenha-te no abismo. Salve o Senhor Rei do bem costurado Universo’.  Ah! Parece-me que algum monge da Ordem de São Bento frisou a ferro de brasa esse babado: Éden versus Inferno. CristiAMO colcheteia-se.  Traspassa no dedo seu áureo dedal. Após, sutura definitivamente fibras soltas do manuscrito.

Sobre o texto de Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano intitulado “Sêde de Deus e de Civilização” (comentário a respeito do conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis).

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“ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO”

“ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO”

(Filme de Buñuel)

Maria da Graça Rios

O que move a existência humana? Eis uma pergunta formulada desde os primórdios da Filosofia. Platão, Nietzsche, Foucault, Saussure, consideram que o desejo é o motor das ações humanas. Teoricamente, deixam estabelecido que a partir da hiância (corte do cordão umbilical) todo indivíduo se torna eternamente desejante. Diante da impossibilidade de retorno ao estado homeostático uterino, o indivíduo projetará em objetivos futuros sua incompletude.

O desejo em Psicanálise não trata de algo a ser realizado, mas de uma falta jamais realizada. Em todas as escolhas, há sempre um novo desejo. Portanto, ele permanece insatisfeito. Renasce continuamente uma vez que está em outro lugar que não no objeto a que visa ou no significante suscetível de poder simbolizá-lo.

O próprio desejo persiste em designar o desejo do Todo (objeto perdido) pela expressão de desejo da parte (objetos substitutivos). Trata-se de um fluir metonímico, pois tal objeto estará sempre se deslocando em direção ao que aparenta ser o outro, perdido. O sujeito se vê aprisionado pela vã tentativa de obturar sua falta constitutiva. É nessa premissa que alicerçamos a construção desta tese.

Por que selecionamos Aleijadinho para fundamentar nossa proposta? Porque, à medida que empobrece e perde a saúde, suas imagens adquirem maior riqueza e beleza estética. Arminho, ouro, pedras preciosas, ornamentam as vestes sacras. Anjos rosados resplandecem desenhados na pedra sabão, enquanto a palidez marmórea desfigura o artista. Amarrados camartelo e pincel ao toquinho do braço, o pequeno grande escultor mineiro anseia pela perfeição artística. Aqui, um traço retilíneo conforma o ombro da santa; ali, uma curva acentuada faz seu olhar glorificado. A crença em alcançar a completa esfera paradisíaca como auxílio das mãos conduz beleza e mistério ao abandono da lepra deformante.

Morre a carne putrefata, mas nasce um gorducho Menino do seio da Virgem Maria. Nada obsta ao autor desconforme o prazer da criação. Faminto de pão e teto, ascende aos altares e frutos do jardim celestial. O difícil e conflituoso espírito barroco acalma Cristo no caminho do Calvário. A luta pelo ideal estético fica sempre à frente do infinito tempo e da sociedade colonial em que vive. Cravada na montanha, uma esplêndida Madona aspira à igreja ouro- pretana. A pujança da obra de Lisboa provém da mais dura miséria.

Os Profetas Inconfidentes identificam-se com o martírio do homem. Isaías trama Revolta, sublimando a do Poeta. Oseias corta correntes com a força indômita do Gênio adoecido. Os soldados, vestidos de roxo, veem flores perfumadas surgindo do estrume fétido com que ele julga  curar-se.  Então,  Monsenhor  se  comove  e  encomenda-lhe  um  frontispício.  Disfarçado de astúcia e paz, o aleijado colore a serpente, lançando o voo das pombas na  amplitude do adro. São horas sombrias e longas, recobertas de sinos e fitas. A realidade é urtiga, conduzindo aos roseirais. Escritos vagam nas vagas do mar sob os pés angélicos. Entre o divino e o profano, exausto em cima das tábuas, Aleijadinho adormece. Lá fora, o templo é tão simples; cá dentro, resplende luxúria.

O que suscita o desejo sobre esses objetos pintados no mundo? Algo indecifrável, diremos. Um brilho, uma textura, um som, um significante. Eles são, para Lacan, faces simbólicas ou imaginárias daquilo que está muito além do princípio do prazer. Tal elemento concreto passa  a ser o alvo do artista, concentrado em pleno gozo. No caso de Francisco, a linguagem da escultura se torna fundamental para a reconstrução do inconsciente recalcado pela mágoa. Alcançou o absoluto, mas há coisas maiores que o tudo.

Considerados tais aspectos concernentes ao tema proposto, comprovamos em larga escala a assertiva inicial. Aspiramos constantemente ao que ainda não conquistamos. Certa de que o desejo constantemente nos atravessa, dizemos que caminhamos ansiosamente ao encontro  de um ótimo conceito por esta eloquente escritura.

Nas línguas portuguesa e inglesa.

São destinados ao meu Curso de Inglês Avançado na UFMG. Espero que o apreciem. 07/07/2020.

“THIS OBSCURE OBJECT OF DESIRE”


(Buñuel Film)

What drives human existence? This is a question formulated since the beginning of philosophy. Plato, Nietzsche, Foucault, Saussure, consider the desire of human actions’ engine. Theoretically, let them establish that from the hyance (umbilical cord cut) to the individual becomes eternally desiring. Faced with the impossibility of returning to the uterine homeostatic state, the individual will project objectives that are supposed to compensate his incompleteness in the future.

Desire in Psychoanalysis is not something to be accomplished, but actually a lack of accomplishment. In all choices, there is always a new desire. Therefore, he remains dissatisfied. The object is continually reborn elsewhere its signifier can symbolize it.

The desire for the whole (lost object) is to be designated by its part’s expression of desire (substitute objects). It is a metonymic flow, because such an object will always be moving towards what appears to be the other, lost. The subject sees himself imprisoned by a vain attempt to fulfill the constitutive lack. It is on this premise we base the construction of this thesis.

Why did we select Aleijadinho to support our proposal? Because, as he impoverishes and loses health, his piece of Art acquires greater wealth and aesthetic beauty. Ermine, gold, precious stones, adorn the sacred robes. Rosy angels shine drawn on the soapstone, while the marble pallor disfigures the artist(1).

Tied hammers and brushes to his little arm, the great sculptor from Minas Gerais longs for artistic perfection. Here, a rectilinear trait conforms the Saint’s shoulder; there, a sharp curve makes her gaze glorified. The belief in achieving one complete paradisiac sphere is helped by his hands which leads to beauty and mystery in order to obliterate the deforming leprosy. The putrefied flesh dies, but a plump Boy is born from the Virgin Mary’s bosom.

Nothing precludes this author from the pleasure of creation. Hunger for bread and shelter ascends to the altars of the celestial garden’s fruits. The difficult and conflicted barroc spirit soothes Christ on the Calvary’s path. The struggle for the impossible ideal aesthetic is always ahead of his time in the colonial society in which he lives. Set in the mountain, that splendid Madonna aspires to the golden-black church.

The strength of Lisbon’s work comes from the harshest misery. Twelve Inconfident prophets identify with the men’s martyrdom. Isaiah sublimes Lisbon’s rebellion. Hosea cuts chains with the indomitable force of the sick Genius. The soldiers, dressed in purple, see fragrant flowers emerging from the foul manure with which he deems to heal himself. Then, a rich matrix bishop orders him a precious frontispiece.

Disguised as cunning and peaceful, the cripple dyes the biblical green snake, launching the dove’s flight across the churchyard. Time is dark, long hours, covered with bells and ribbons. The reality is made of nettle, leading to rose bushes. Writings roam the waves of the sea under the angelic feet. Between the divine and the profane, exhausted on the boards, Aleijadinho falls asleep. Outside, the temple remains simple; inside, shine lust.

What does arouse the great desire about these painted elements in the world? Something indecipherable, we could say. A glow, a texture, a sound, a signifier. This volition, for Lacan, symbolizes imaginary faces of what is far beyond the principle of pleasure. This concrete dream becomes the Art target, concentrated in full enjoyment. In Francis’ case, the known sculpture language becomes fundamental to an unconscious reconstruction repressed by sorrow. He had achieved the Absolute, but there are even more infinite greater things.

Considering these aspects related to the proposed theme, we proveon a large scale in the initial assertion. We constantly look at what we have not yet conquered. Certain that our desire constantly crosses everybody, let us say we walk anxiously to meet the most satisfactory concept for our eloquent scripture.

(1) Reference to Camões Inês de Castro’s episode.

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O Sino de Ouro

O SINO DE OURO

Júlia Lopes de Almeida

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Maria Matilde tinha um sonho: fazer construir rente à baía de São Marcos, na sua linda cidade de São Luís do Maranhão, uma torre alta, muito alta, encimada por um enorme sino de ouro com os nomes de todos os Estados do Brasil, formados com pedras preciosas. Quando o sino badalasse, reboaria na atmosfera as suas sonoridades, acompanhadas pelo ritmo das ondas, e, quando os astros o iluminassem, rutilaria no espaço esplendidamente.

Mas a velha parecia não ter um vintém de seu.

Morava num casebre em ruínas, vestia-se de trapos imundos, comia só raízes e ervas do mato e bebia água na concha da mão encarquilhada e ossuda. Não tinha dinheiro para as necessidades da vida, porque, se lhe davam uma esmola, ela corria a escondê-la para __o sino de ouro__, e ia iludir a fome com os sobejos atirados pela caridade, ou um rabo de peixe chupado à porta de um pescador. Ninguém o sabia, mas o seu colchão estava já tão cheio de moedas que lhe magoava o corpo miserável, a ponto de preferir estender-se no chão duro, sobre uma esteira esgarçada.

Já tinha a sua idéia fixa, e para realizá-la seria precisa uma fortuna! A sua tôrre de ouro, com um sino cravejado de pedras preciosas, maravilharia o mundo inteiro…. Em casa ou na rua a visionária falava só, gesticulando, movendo no ar os dedos nodosos, de unhas grandes.

As crianças fugiam atropeladamente ao ver-lhe, de longe, o busto esguio; os adultos afastavam-se daquela imundície, e ela, passava sem ver ninguém, resmungando: — Quando o sino de ouro fizer: Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! todo mundo dirá: “É o coração do Brasil que está batendo… Que lindo é e como bate bem!” E ela ria-se, sacudindo os longos braços magros, a repetir pelas ruas sossegadas: — O coração do Brasil está parado…. Quero fazê-lo palpitar com força… Ba-ba-la-ão! Dão! Dão!

Na noite de chuva e de relâmpagos, Maria Matilde chegou encharcada e tremendo com o frio da febre à sua choça; mas, logo ao entrar, esbarrou com uma pobre rapariga da vizinhança, que se ajoelhou chorando a seus pés!

Qual não foi o seu espanto! Se ninguém a procurava nunca…. Uns tinham medo da sua morada de louca, supunham-na outros feiticeira, o diabo em pessoa.

Ela parou no umbral, estarrecida; a outra exclamou de mãos postas:

— Maria Matilde, tem dó de mim! Minha madrasta, aquela má mulher, expulsou-me de casa e aos meus irmãozinhos, que foram mendigar por essas ruas quase nus…. É por eles que eu choro. Dá-me um filtro, Maria Matilde, para abrandar o coração de minha madrasta e fazer que meu pai abra a sua porta aos filhos pequeninos, que são inocentes e estão passando fome, sofrendo frio, com medo do escuro, por essas praias.
Se for preciso o meu sangue para salvar os anjinhos, toma-o! Abre-me as veias, aqui tens o meu corpo!

E a moça desnudava-se oferecendo os pulsos e o colo sùplicemente.

Maria Matilde, de olhos arregalados, dobrou-se toda sobre a linda cabeça da moça:
— Darás a vida por teus irmãos?
— Darei a vida!
— Jura?

— Juro! Aqui me tens, mata-me, se para bem deles a minha morte for precisa. Dizem que és feiticeira, mas o que tu és é surda! Não prolongues a agonia de meus irmãos, Maria Matilde! Aqui me tens!

A velha considerou a rapariga com espanto, depois, rapidamente, correu ao catre, sumiu as mãos trigueiras nos rasgões da enxêrga e atirou punhados de moedas, vertiginosamente, para o regaço da moça estupefata.

— Teus irmãos estão nus? Toma, vai comprar agasalho para eles! Têm fome? Dá-lhes pão…muito pão…. Toma! Toma! Toma! Vai para junto deles, boa irmã, vai com Deus!

A moça aparava aquelas moedas inesperadas num delírio de felicidade. A velha deu-lhe tudo, tudo, depois empurrou-a violentamente pela porta fora, fechou-se por dentro e desatou a chorar.

Como haveria ela agora de comprar o sino de ouro e construir a sua alta torre rutilante? Teria de recomeçar pelo primeiro vintém, e as costas doíam-lhe tanto… tanto! Ao menos nessa noite poderia dormir sobre o seu colchão… O que a fazia tremer eram aquelas cobrinhas de gelo que andavam a passear pela sua espinha… A cabeça estava-lhe girando…

Era a febre! Maria Matilde debateu-se toda a santa noite, com os lábios secos, os olhos em fogo, as roupas unidas aos membros doloridos.

Pela madrugada serenou e rompia a manhã gloriosa, quando ela ouviu a voz dulcíssima de um anjo dizer-lhe à cabeceira:

— Construíste esta noite a tua torre e por ela subirás ao céu!
Maria Matilde atirou para fora do catre as pernas finas, aconchegou aos rins os molambos da saia, aos ombros os farrapos de um xale e correu ansiosa para a praia.

A cidade dormia ainda; só os passarinhos despertavam cantando. No largo mar azul o sol nascente espelhava uma coluna de ouro tão larga e tão longa que ninguém poderia calcular-lhe as dimensões.

No ar voavam gaivotas até além, às nuvens de ametistas e de rubis, que engrinaldavam no horizonte a torre deslumbrante. Era a pedraria do sino que reluzia! Sumindo nela os olhos felizes e fascinados, Maria Matilde sacudiu os longos braços, gritando vitoriosa, antes de cair redondamente na areia fria:

— Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! Dão… Da…dão…

Quando a miragem do sol se desfez, já a louca tinha subido pela torre de ouro até o céu!

Vocabulário

Encarquilhada (adj.): enrugada
Sobejo (s.m): resto
Nodoso (adj.): cheio de nós, proeminente
Esguio (adj.): alto e delgado; comprido e delgado
Filtro (s.m): beberagem de fins supersticiosos
Catre (s.m): leito tôsco e pobre
Trigueiro (adj.): moreno
Enxêrga (s.m): colchão de palha muito estreito
Regaço (s.m): colo
Estupefato (adj.): espantado, admirado
Ametista (s.f): pedra semipreciosa

Versão retirada da obra Conheça o seu Idioma, de Osmar Barbosa. CIL. SP. 1971. P. 123.

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