Mudas de bananeira

Mudas de bananeira

Em cidades do centro-oeste mineiro conta-se uma história com as mais variadas modificações. Sempre lembrada na quaresma. Já é estória conhecida e, quando alguém arrisca contá-la de qualquer jeito, para não perder o costume, algum ouvinte ativo ri e diz: “aí vem o outro e mata o defunto…”. Quer dizer:  lá vem alguém contar história já sabida sem nenhuma novidade antiga.

Nessa última quarta-feira de cinzas do ano de dois mil e dezenove, quem nos alembrou bem dessa estória, na roda de cozinha, foi a Sra. matriarca D. Lúcia:

“…dizem ter acontecido na Leandro Ferreira do Padre Libério. Mas o Sr. Irineu contava que se passou algo parecido também em Martinho Campos, antiga terra dos Kaxixós.

Vinham quatro companheiros carregando o defunto de uma mulher surda-muda, debaixo de chuva, quando um deles disse:

__  Num tempo bão desse, plantando essa muda na terra, ela vai pegar bem para danar…

Dos outros dois companheiros, um aconselhou em defesa da falecida:

__  Arrepende, moço, da besteira que ocê falou, retira essa palavra; do contrário com pouco vem o seu castigo. Não faz bem ficar zombando da morte dum semelhante.

O moço soltou um ai,ai,ai, ignorando a advertência:

__ Não vejo a hora de beber o defunto lá na venda do Tião. Para aliviar o peso só mesmo u’as pinga da boa!

Passado uns tempos, nenhum castigo veio.

Era um trigueiro cheio de malícia, desafiador. Para ele, juramento, castigo, praga, tudo isso eram besteiras que só servem para pôr medo em criança.

__ Pagar língua!? – ele dizia por lá – isso é trem de besta, sô!..

Então, foi de outra vez que vinham pela estrada uma mulher branca, com duas crianças pequenas, todas três magricelas, anêmicas e sofridas. A criança mais nova vinha no colo, carregada com dificuldades pela fraqueza da mãe; a menina maiorzinha, puxada por outro braço da mãe, cambaleava com as perninhas finas e ressecadas.

E outra vez, impiedoso, o moço:

__ Olha só, lá vem um cacho de bananas: amarelas e penduradas…

-Ô sô, pelo leite que ocê bebeu da sua mãe, não brinca com o sofrer dos outros não!…

Veio-lhe mais esse bom conselho aos ouvidos. Entrando num e saindo por outro, não teve nem tempo de parar na consciência do rapaz.

Outros tempos se passaram. O moço perdeu a mocidade, virou homem, arrumou casamento. Tirou a mão de uma mulher muito simples, magra e sem cor. Uma união modesta, sem festa nem lua de mel. Apenas a cerimônia, as alianças e um almoço simplório. Das duas vezes que a mulher engravidou, da primeira o rebento se perdeu. Na segunda vez, a criança nasceu, mas não vingou. Era menino.

O homem foi dali para frente desanimando, entrando na velhice sem muito vigor.

-Não quero saber mais de filho. Se não deu certo até agora é por conta da sorte do destino.

Foram-se os anos, o homem cansado e sem muita força para trabalhar, a mulher embucha e traz à luz uma mocinha. A segunda veio logo em seguida. E com a mesma deficiência da irmã, só que com alergia ao leite de vaca. Essa desnutriu-se. Não se soube se foi de nascença, mas enquanto cresciam perceberam que as crianças não escutavam bem e menos ainda conseguiam falar direito.

Aqueles tempos foram de muita falta.

__ É só um azar das temporada. Essas precisões vão passar… o homem acalmava a família, acreditando sabe se lá em quê.

A mulher também não acreditava muito no castigo de Deus, mas ao contrário do pai, era humilde e nunca teve vergonha de pedir ajuda. Até inventou uma toada para ir cantando pelo caminho, carregando e puxando suas duas crias:

Quem me dera s’eu tivesse

a grande sorte de ganhar

u’a penquinha de banana

e u’a tijela de fubá.

-Lá vem aquela branquela azeda pidona, muitos discriminavam.”

Nesses tempos de miséria, com gente até bebendo água de esgoto lá na Venezuela, quase ninguém gosta de ouvir essa história.

Conseguimos essa versão completa porque insistimos bastante com a Sra. matriarca D. Lúcia. Como ela mesmo diz: “…estragamos, por um bom pedaço de hora, a tradicional reunião de cozinha”.

Nossa mesa estava farta. E gozávamos perfeitamente de todos os nossos sentidos.

Lopes al’cançado rocha, O Cristiano.

Casa do mundo – poema

CASA DO MUNDO

 lopes al’Cançado rocha, O Cristiano

Casa_do_mundo

Todo santo dia nalguma hora me levanto

Não sei se muito tarde ou muito cedo

Pois nem lua nem sol sequer desponta

Nem um galo errado nos avisa com seu canto.

Planto os pés no chão frio do meu quarto

Miro o corredor, crio coragem e ando

Urino, agora, com muito alívio no banheiro

Abro os olhos, penteio-me, lavo a boca e o rosto.

Sorrio-me ao espelho.

Passo pela cozinha e pelo serviço

Já da porta para o quintal avisto meu poço

Aproximo, puxo a tampa e inclino-me com a cabeça

E sopro bastante. Tão leve e suave sôpro

Que apenas a mim mesmo ouço.

Uma vez ou outra; muito de vez em quando

Um eco lá do fundo me responde:

“Por Deus e por amor… não me esqueça

Socorro! ”

Um caso de três tragédias

Um Caso de três tragédias

Era início de dezembro do ano de 2018, depois de forte chuva, transbordamento do Onça e do Arrudas, quedas de árvores e de energia…ah bom, a falta de eletricidade obrigou o Sr. Helvécio a pegar o rádio movido à pilha. Lenoxx Sound Rp 60, tablete cinza de alça preta e antena expressiva, elegante no design. E o Sr. Helvécio não perde a oportunidade de sair pelas ruas com o seu Lenoxx, na altivez dum pastor sucedido carregando sua bíblia.

São os homens sociáveis exibindo suas armas de comunicação, ferramentas que alimentam as cabeças; esquentam as conversas e as discussões; apimentam a curiosidade pelas empresas do futebol, fortalecem as opiniões políticas e nutrem as grandes questões morais da sociedade.

– O Du disse que vão vender o goleiro do Atlético para um clube da Arábia. Mas pelo jeito é mentira. Não deu nada disso na Itatiaia.

No começo era só o livro, depois vieram o teatro, o folhetim, os panfletos e cartazes, o rádio, o cinema, as revistas. Por fim a televisão e o computador pessoal. Não cheguemos até os dias de hoje, nos aparelhos de telefones móveis, com tudo aquilo, somando-se aos acessórios e aos vídeos-jogos: essa avalanche perturbadora de informações maçantes, em cadeia e distribuídas em rede.

Já por volta das vinte e duas horas, a lua se expunha no seu quarto crescente, numa noite após à primeira tempestade do mês. Era frio e era calor, a depender da esquina que se curvasse naquele bairro de Stª Efigênia dos Negros e dos Militares.

O Sr. Tarcísio anunciava o fechar das portas, quando olhou para o céu à procura de sinal do tempo, abriu a boca como um animal regido, largou as cadeiras que recolhia – havia sido tomado por alguma lembrança marcante –, e passando para dentro do balcão, começou:

– Rádio é bom que a gente não precisa abrir os olhos. Pode deitar, descansar as vistas e só escutando fica sabendo de tudo. Vai misturando as notícias e as músicas com cochilo – disse isso olhando para o aparelho Lenoxx.

– A gente descansa as vistas das imagens, é isso aí Sr. Tarciso… apoiou um frequentador menos velho, estilo heavy metal.

Respeitemos a preferência do Sr. Helvécio:

– Esses rádios de celular não prestam porque só funcionam com fio de ouvido. O bom mesmo é ouvir as coisas com o rádio solto, de alto-falante livre.

E dito os pitacos dum outro botequeiro qualquer, tratando a todos sempre como “meu amigo”:

– Meu amigo, rádio ainda é bem melhor que aquela bagunça da internet. No rádio é tudo dentro dos horários, não precisa de ficar procurando as coisas; tem lá os programas de piada, o aviso de tempo e do trânsito, os comentários dos jogos, o resultado da loteria e do bicho, as notícias, as horas certas, as músicas…é só ligar nos momentos certos.

– As músicas eu escuto, mas logo fico enjoado da repetição delas – reforçou o Sr. Helvécio.

– É… rapaz – confirmou o Sr. Tarcísio, tomando de volta a vez da fala e emendando mais um de seus casos. Como de sua mania, iniciava a contação já no meio da história – … chamava-se Jocélio, mas o apelido era Churrasco: “ô Churrasco, vem cá!” Ele tinha um violão velho, ficava na cama de colchão de palha, deitado como se fosse sua mulher. “Tenho um ciúme danado dessa bicha”, o Jocélio falava. Ele tinha o violão como viola, sabe? Mas só depois da desgraça toda é que fui saber que’ra violão. Não conhecia essas coisas. Não sabia o que era um ou outra. Tanto violão como viola, para mim, eram uma coisa só.

O Antônio já freava os goles para segurar a dose, saborear o momento trágico e final na última talagada da cachaça.

–  Mas esse tal Churrasco era o que seu? – perguntou o Luizinho.

– Trabalhava para o papai nos roçados. Mas isso não importa. E papai sempre nos ensinava: “só ponha a mão no que é seu, só pega no que é dos outros em último caso, e mesmo assim se for a pedido do próprio dono da coisa, porque se…rã…”

– E o homem era bom na enxada e na viola? Pergunto do Churrasco – insistia o Luizinho.

– Nãnão…ninguém lá tinha mais força no braço pra capina igual eu não, sô…eu via aquela viola e sentia uma vontade de pegar nela. Ver se eu sabia tocar na bicha, sabe? Quer dizer, eu pensava que era viola também, porque o Churrasco tratava como viola. “Essa bicha é como se fosse a mulher do Churrasco”, o povo brincava. Mas era um violão.

(…)

– “Arrebentou duas cordilha da bicha. Fica essa falha feia no braço e no buraco”. “Pior é as músicas que saem tudo afrouxadas. Foi o Tacinho, esse cabeçudo que mete o dedo onde não deve.” Falavam assim comigo. Foi muito tempo ouvindo essas lamúrias. Era difícil achar alguém para trazer uma corda da cidade. E também era complicado porque cada corda tem uma finura, e nas muitas lojas só vendia o jogo completo das cordas.

– E seu pai?

– Me castigou com uma semana de capina sem ganho.

Depois foi o caso de um relógio – continuava o Sr. Tarcísio- que escorregou da minha mão como peixe e estourou no chão feito goiaba madura. Era do meu primo, mas disso papai nunca ficou sabendo.

Olhando esse radinho do Sr. Helvécio, pior de todos foi o rádio de minha madrinha. Fui na besteira de mexer na coisa e… “A rádia não manda mais notícia porque o Tacinho arrebentou o botão do aparelho”; “Ô meu Deus! Já era de se esperar…” mais essa chuva de lamúrias eu num ía aguentar…

– Já vi muito caso de gente mão-mole, mas no caso do senhor é o contrário.

Risos entre tragadas de cigarros. Ninguém interrompeu, esperando continuidade. E o contador continua:

– Vai escutando: fiquei muito chateado, triste… sabe? Nos dias que não deixei de dormir também almocei mal e nem jantei. De preocupação, de arrependimento. Pêso na consciência. Era mais u’a outra grande tragédia. O conselho do meu pai tintilava na minha idéia como o sino da igreja: “não põe a mão em coisa que não é sua…” Pensei até em pegar o facão…

– Cê num pensou em fazer u’a besteira dessa não, sô!?

– Pensei…ô?? Não só pensei como falei em cortar a mão, mas…

– Mas e aí?

– Mas minha irmã me deu o conselho, lembrando que ia dar mais trabalho ainda para os outros: lambrecar a camionete de sangue. E ainda mais com o pronto socorro naquela distância.

Então…hoje só ponho a mão no dinheiro que vem para ser meu e na mercadoria que vai para ser sua. Só pego na caneta para riscar o pagado e marcar o fiado devido. Faço o cálculo no papel que é meu, para não dar problema.

Quiseram me treinar para calcular em máquina. Falei: “nesse tipo de coisa dos outros eu não ponho a mão; só se um dia eu comprar ou ganhar u’a máquina dessas para mim.”

Das poucas vezes que peguei em aparelho dos outros deu em desgraça feia.

Não tomo nada emprestado. Não pego em nada dos outros para ver como funciona. Nas lojas, escolho a mercadoria sem pegar, olhando tudo no manuseio do vendedor. Depois que’u passo no caixa, aí a coisa já é minha. Se der qualquer quebrado, já paguei e o negócio sendo da minha posse, o prejuízo é meu. Ninguém pode mais falar nas minhas orelhas.

Daí o Sr. Tarcísio tornou a recolher as cadeiras e mesas dobráveis, de ferro, batendo-as com força, decidido, descarregando a raiva contida.

No balcão, o Sr. Helvécio havia desligado o rádio para não atrapalhar a conversa. Acertou a pinga e foi-se despedindo. Ao religar o aparelho – era chegada a hora do programa de piadas- o Lenoxx Sound Rp 60 não funcionou. Então disse baixinho consigo mesmo, conformado, o Sr. Helvécio:

– Acabou a pilha.

E como trovoada, o baixar das portas de aço do bar mercearia cortou o silêncio noturno do quarteirão.

Lopes al’Cançado Rocha, O Cristiano 181231

Eram muitas vezes

Eram muitas vezes

Numa dessas grandes casas, num edifício multifamiliar. Abrigava cerca de meia centena de pessoas. Pouquíssimos idosos. Cada unidade de apartamento com seus sete cômodos, esses ligados por um estreito corredor.

Viviam no prédio por volta de vinte e cinco jesuizinhos, a maioria tendo nascida durante a détente da Guerra Fria. E eis que seus pais, roceiros candidatos a operários e mestres, vinham daquela próxima Belo Horizonte, guiados pela estrela da esperança, da prosperidade e do sonho da casa própria.

Casinhas simples e predinhos idênticos em forma de “H”, variando apenas nas cores dos detalhes e saliências das fachadas, bem modestos e humildes, de chapisco e cacos de tijolos cerâmicos. Falamos desses conjuntinhos habitacionais de baixa renda, a que muitos apelidavam pejorativamente de pombais.

– Qual é mesmo o nome do seu pai? Pensei que era Bartolomeu. Ele tem cara de Bartolomeu.

– Que Bartolomeu, ou? Tá doido?

– Um que eu vi na televisão. Parece com seu pai.

(…)

– Te apresento meu amigo.

– Dá onde que ele veio?

– Da terra do além.

– O quê que ele merece?

– Viver sozinho sem ninguém…

– Credo, essa não teve graça, é paia demais.

– O Silvano inventa umas estranhas e sem graça… quem ia ficar vivendo sozinho sem ninguém no mundo? Só se for o próprio ninguém.

– É… é mesmo.

– Quê que ocê vai ganhar de Natal?

– Pedi uma calça jeans manchada e um Redley, pode ser imitação.

Nenhum dos imperadores – Ronaldo ou Constantino – se importaria com esses jesuizinhos tão comuns, diversos, semelhantes, desiguais e alegrados tão-somente pela esperança de crescer.

Aniversariantes esperando seus presentes com expectativas das mais variadas. Aquelas carinhas sorridentes, sapecas e cheias de espertezas inocentes:

– O Alê vai ganhar uma freestyle

– Aquelas de roda estrelada?

– É, toda freestyle tem roda estrelada…

– Não, nem toda…umas são com roda de raios…

– Pois então, o sol tem raios e é chamado de estrela. Toma distraído!!!

No pátio lateral a conversa, sugerida pelo esquentar dos fornos, era mais saborosa ou não era?

– Minha mãe vai assar dois frangos e comprou quatro garrafas de Del Rey.

– Lá em casa vai ter é chester

– Que isso?

– Quase a mesma coisa que peru.

– Não, meu irmão falou que é um frango mais grandão…

E não poderia faltar alguma rebeldia entre os que adolescem sabiamente:

– Onde o senhorzinho estava, hein Tuca? Tá se achando muito com essa idade tão pouca…

– Num esquenta não, mãe, tava ali na rua de trás conversando com meus novos colegas. “Tudo pela orde”, os cara tem “a moral”, eles são “da lei” …

– Gíria cê aprende rapidinho, né?

– Ah mãe, tava dando neles u’as boa ideia. Os caras tão meio que viajando demais na maionese.

Voltemos ao grupinho que, deixando o pátio lateral, caminha para a frente da grande casa de doze famílias:

– Nhuuuu! O céu parece que vai abrir, as nuvens andando com o vento, tipo tapete voador.

– Não vai chover hoje mais não.

– Meu pai vai assar uma leitoa.

– Humm, que delícia. Vou passar na sua casa primeiro quando der a meia-noite e todo mundo começar a dar o Feliz Natal!

– Deixa de ser gulosa, Laíde!

– Que ó!? Só como pra caramba no Natal e no Ano Novo. Tiro a barriga da miséria.

– Enquanto meu pai vai preparando a ceia, minha mãe vai na Missa do Galo com a dona Maria José e elas rezam para nós…

– Seu pai não vai junto com sua mãe não, eu hein!?

– Sua mãe reza para todo mundo mesmo?

– Hanrrã, ela não esquece de ninguém… nem da nossa família nem do pessoal daqui do prédio. Reza até pra algum vizinho que brigou com ela. Porque hoje é Natal. E Jesus não gosta que a gente guarda raiva de ninguém.

– É… meu avô fala que vizinho é o nosso parente mais próximo.

– Ainda bem que sua mãe reza pra mim então. Porque eu não gosto de ir na igreja…e esqueço de rezar quase toda noite.

– Minha mãe vai pedir a Jesus e a Deus que no ano que vem nenhum vizinho brigue por causa de barulho ou por causa de espaço no varal para suspender roupas.

Horas se passavam. Portas se abriam. Músicas invadindo as áreas comuns. Um festival sonoro de gostos variados. Eram sinceros os convites, os aromas se espalhavam pelo ar quente e chuvoso.

E vinham chegando parentes de vários bairros da capital, do São Geraldo, da Floresta, do Saudade, do São João Batista, do Céu Azul. Enchiam mais ainda a grande casa.

-Ano que vem a gente podia fazer um amigo oculto…que tal?

O ano vinha, o próximo Natal chegava. Todo mundo se esquecia da sugestão. Nenhuma brincadeira de troca de presentes era oficializada. 

(…)

Os jesuizinhos trocando chocolates e frutas. E os mais crescidos bicando, às escondidas, cada qual seu copo de vinho. Algum deles brinca mais pesadamente:

– O Papai Noel tem que passar o saco lá na sua casa, véio…já pôs a meia na janela?

– Pára com essas zoeiras, Zé. Opa! Lá vem mamãe e papai…falou, tchau!  Vou vazar. Chegou a hora de ir para o Culto de Natal.

– Ora pra nóis também, hein!?

– Vou orar para você deixar de ser trouxa e respeitar de verdade Jesus e o Natal!

– Ihhh… Zé, num endoida não, é só brincadeira. Deixa de ser prego! Apelou? Perdeu.

Meia noite em ponto. Estouravam-se os fogos e o céu tremia. Quem não havia ido às igrejas, saía passando pelas portas abertas, distribuindo abraços e saudações: “Feliz Natal!” “Feliz Natal, muita paz e serenidade! ”, desejando paz, perdão, reconciliação. Uns distribuindo cartões; outros petiscando azeitonas, comendo carnes, frutas, bebericando vinhos, champanhes e cervejas.

Na avenida principal os carros passam buzinando. Amigos de outras bandas nos cumprimentam; uns até bicam em nossos copos. Abraços. E seguem se espalhando as saudações natalinas. O mais desejado é saúde para toda família. Sa-ú-de, esse bem valioso, alicerce de todos os outros bens.

No andar do meio, o pastor Alair evangelizando:

– Devemos já estar decididos a respeito do presente que cada um de nós dará ao nosso Salvador Jesus Cristo…

– Dê algum presente para mim, que estarão dando a Jesus. Foi assim mesmo que Ele ensinou: “faça aos pequenos que estarão fazendo a Mim”. Sou uma pequena criança de nove anos. Podem me presentear à vontade – disse o brincalhão do Tuca.

No quintal, cada jesuizinho ia mostrando seus presentes: homenzinhos de guerra, helicópteros, banco imobiliário, bicicletas, aquaplays, bambolês.

Para os adolescentes o pior castigo era passar o Natal vestido de roupas velhas.

As meninas aprincesadas com suas sandálias Melissa, camisas de cores fortes e grandes botões.

– Ó a Janaína, gente!… mostrando relógio novo com pose de mãos na cintura…

Ela mesma, a Janaína – desviando-se do comentário – tapa com as mãos a luz do poste e solicita aos pequeninos:

– Quem aí pode me mostrar onde estão as Três Marias? E o Cruzeiro do Sul?

As nuvens iam-se rasgando e o Céu sorria-se por completo.

– Quê que você ganhou, Zequinha?

– Esse burrinho que carrega troços. Aperta o botão aqui e ó…

 E o burrico dava um pinote, jogando tudo para cima…era o “burrinho de quinquilharias”.

– Ganhei também um kichute.

Kichute é bom para andar no mato, pra quando a gente for pegar goiaba na mata do Picão.

– Credo…essas coisas é presente de menino da roça.

– Vejam só que o burrinho tem u’a cara de aborrecido igual ao Zequinha mesmo…

Os risos já começavam a escapar, ainda sem ritmo.

-Burrinho aborrecido? Hahahahaha

– Burro emburrado aborrecido e feio…

Ninguém mais segurou a explosão. Todo mundo rindo de segurar a barriga. Riam mais da cara do Zequinha do que da gozação mesmo. Gargalhadas altas foram se desafinando em risos, risadinhas, até se amenizarem nos gemidos, nos suspiros de quem não aguenta mais rir…

O Zequinha juntou seu burrinho com as quinquilharias e disparou do pátio para dentro. Entrou correndo, surdo, quase derrubou as bolinhas da árvore natalina. Foi direto para o quarto e bateu a porta. Enterrou o rosto na cama, cobriu a cabeça com travesseiro. Foi soltando de vagar um chôro abafado. Por alguns minutos já estava sendo tomado por um silêncio íntimo. Mas pelo basculante da janela entrava gritos de euforia aos passos de breakdance, vindos de longe. Na sala de estar daquele lar apertado, pela agulha de um Gradiente, tocava Nelson Rufino e Zé Luiz na elegante voz de Roberto Ribeiro, gravada em 1978: “Todo menino é um rei/ eu também já fui rei…”. Do chôro o Zequinha caiu ao cansaço. E dormiu.

Acordando pela madrugada, tudo fechado, apagado e calmo, foi até a sala e viu o pai, com camisa branca e larga, são, sóbrio e salvo; de volta ao lar, reconciliado com a mãe, sentado ao pé da árvore reluzente:

– Não chore meu filho… vem cá no papai, quero lhe dar um novo ensinamento…

lopes al’cançado rocha, O Cristiano, 20181221

Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

§

Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

§

Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

§

A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

§

A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

§

Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

§

A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

§

O fogo destrói e consome iluminando.

§

Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

§

Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

§

A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

§

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

§

A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

§

A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

§

A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

§

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

§

                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

§

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

§

Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual)

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)

Lopes al’Cançado rocha, O Cristiano

                                                                                             fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo,sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade factual batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

 Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. Às vezes, publicamos algo de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço para autopromoção nem veículo interativo instantâneo, com vistas a adquirir visibilidade ou reconhecimento ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

 Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocarmos idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual e da coletividade saudável e recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

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Olegário Mariano

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  Portinari – Retrato de Olegário Mariano

                           

Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,

Gosto da tua frívola cantiga,

Mas vou dar-te um conselho, rapariga:

Trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da Formiga.

Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro,

E tu, não tendo um pouso hospitaleiro,

Pedirás…e é bem triste ser mendiga.

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava

(Quem dá conselhos sempre se consome…)

Continuava cantando, continuava…

Parece que no canto ela dizia:

__ Se eu deixar de cantar, morro de fome…

Que a cantiga é o meu pão de cada dia.

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João da Cruz e Sousa

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Tasso da Silveira em 1972 – ao organizar e criticar poemas do autor na coleção Nossos Clássicos da Agir Editora – elegeu o presente poema como “talvez o mais belo do idioma”.

 

SORRISO INTERIOR

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!