A LÚCIDA E DELICADA POESIA de Maria Braga Horta

Já manifestamos por aqui a referência monumental de um dos Braga Horta, o Anderson, poeta, prosador, crítico e tradutor. Nos orgulha sua poderosa poesia e sua prosa estilística aliadas às dos seus inúmeros amigos escritores, concretizando relevantes serviços à literatura brasileira já praticamente por três quartos de século, sobretudo junto à ANE – Associação Nacional de Escritores fundada em 1963. Chegaram-nos por intermédio de um outro amigo-poeta, mineiro e radicado no Rio de Janeiro, Edmo Frossard Paixão. Conhecemos primeiro amostras da obra de Maria por meio do Livro de Rua da Biblioteca do Cidadão – Série Escritores Brasileiros Contemporâneos (Thesaurus,2004). Fomos surpreendidos com poemas cheios de amor sincero, graciosas homenagens, memórias, cumplicidade familiar. Alicerces de uma vida terrena com propósitos. Depois acessamos as obras do filho e, por conseguinte, a do pai Anderson de Araújo Horta. Por último, alegramo-nos com a voz da cantora Glória (hoje entoando em plagas espirituais) e Goiano Braga, o caçula que também é cantor e compositor de música popular.

Como nos ensina José Veríssimo: “um só escrito pode fazer uma obra, porém muitos livros, às vezes, não a fazem.” Maria Braga Horta (1913-1980), em vista das mais consagradas e tidas como fundamentais de nossa história, escreveu não muito em quantidade, mas deixou o legado. É a sábia e delicada poesia! Transita pelo dramático — por esse gênero não muito, vemos em Retorno dos Retirantes —, pelas diversas líricas (amorosa, onírica, metalinguística…) e pelo épico (com exemplo em Goiás e em O Garimpeiro). Vejamos:

DIVERSIDADE

Vendo o sol percorrer sempre o mesmo caminho,

lá do alto do céu dominando o universo,

me pergunto: – Por quê, neste mundo mesquinho,

o destino da gente é tão vário e disperso?

Por quê, da rota azul que percorre sozinho

irradiando calor, fez, contudo, diverso

o calor que recebe o quintal do vizinho

do calor que recebe a rima do meu verso?

Meu vizinho, que planta o seu solo em agosto,

colhe em breve o seu fruto de ouro. E ri e canta,

e se sente feliz, tão feliz que dá gosto!

E eu aqui, sol a sol, faço versos de amor!

e o meu verso não tem, como o grão que ele planta,

o condão de fazer feliz o próprio autor…

Lajinha, 26-02-1956.

POETA

Quando nasce um poeta, é só seu corpo humano,

pois na alma do poeta o infinito vem preso

e o seu corpo não é mais que um verme profano

em que vibra o esplendor do céu, na terra aceso.

É o inútil labor do seu cérebro insano

-sentindo, pela vida, ansiedade e desprezo-

semeia as ilusões e colhe o desengano

e entre a terra e o céu pára o vôo, surpreso.

A alma de cada poeta é um sensível compasso

medindo os sons e a cor, os ritmos e a luz,

procurando o infinito e se abrindo no espaço!

Seu destino, na vida, é um dilema fatal:

ama a terra e ama o céu e em seus versos traduz

a ambição de ser deus e a dor de ser mortal!

Lajinha, 04-03-1956.

No lindo poema a seguir teremos o exame de consciência, um conselho a si mesma num momento de decisões importantes. Foram muitas as peregrinações da família, como conta o primogênito ABH em suas publicações.

EXORTAÇÃO

Alma inquieta e sem rumo, sem morada

dentro do próprio ser, que te acontece?

Para onde vais? Que buscarás na estrada

onde o esplendor do sol desaparece?

Que desejas colher nessa encantada

terra de sonhos? Que dourada messe

supões haver na senda extraviada

onde nem mesmo o sonho permanece?

Olha em torno de ti. Volta e procura

em ti mesma o caminho da ventura

que andas buscando sem saber se existe…

Encontrando-te, enfim, terás a glória

de tornar a existência transitória

mais serena, mais terna, e menos triste.

Escritora, professora, colaborou em periódicos, escreveu poemas infantis. Homenageou Carlos Drummond de Andrade. Celebrou Florbela Espanca e conquistou prêmios. Sobre a vida da escritora há minúcias interessantíssimas narradas por Anderson Braga Horta em “Legado Poético” e por ela mesma em “Autobiobibliografia”, textos de abertura do livro Caminho de Estrelas -Poesia reunida (Massao Ohno Ed.,1996). Pois então, a exemplo dos demais apreciadores e apoiadores da boa arte literária, resta-nos destacar alguns poemas, impulsionando a poetisa. Um maior número de leitores precisa conhecê-la. Urge distribuição mais eficaz, maior partilha de obra literária tão útil nesse momento de reflexão e restauração cultural.

Numa noite de fevereiro desse ano de 2021, retornei à colheita: escrever é plantar, ler é colher. A poesia simples, clara, direta e despretensiosa (classificação do gênio-filho), creio que deve ser lida como se escolhêssemos frutos de tão amadurecidos e delicados. A atenção deve ir mais na essência do sentimento, da inspiração.

Retomando trilhas pelo “Caminho de Estrelas”, parei no desfrute de Sonhando, da parte Nossa História de Amor, à página 213:

SONHANDO

Ao Anderson, com os votos de Ano-Bom

Os meus sonhos e os teus sempre foram iguais

sempre foram assim como irmãos no sentir:

ora tecem do amor os ternos madrigais

ora traçam da vida o dourado porvir.

Tem um elo comum para bem definir

a expressão interior dos seus pontos vitais:

para nós o sonhar é mais que construir

porque atinge o infinito e as belezas ideais.

Nos meus sonhos, nos teus, alcançamos os dons

em que o amor, a justiça, a esperança, a ternura

criam traços de luz, tomam cores e tons…

E ao voltarmos o olhar para a vida em redor

nós sentimos, então, a suprema ventura

de construirmos, em sonho, outro mundo melhor. 

Goiânia, 30-12-1944.

Temos aí a expressão da cumplicidade idealizada e concretizada no casal. Olham juntos o mundo e nele interferem com marcada e prudente contribuição. O homem como esposo, pai, avô, poeta, professor, operador do direito; a mulher como esposa, mãe, escritora, também professora e cidadã participativa. Os amantes se ocupam com o presente ao redor e se preocupam em contribuir para com a sociedade e as gerações futuras. A harmonia conjugal atenta às necessidades da vida exterior. Vi nesse poema a igualdade-irmã perante a Deus, as cores do arco-íris, os Sete Dons do Espírito Santo, o esforço por uma vida com menos sofrimentos.  Farol de que nós, amantes e fazedores de poesia, precisamos tanto nesses dias de hoje.

Por feliz coincidência, antes de eleger o soneto acima, tínhamos anotado do nosso caderninho de locuções e brocardos latinos: Qui amant, ipsi sibi somnia fingunt. “Aqueles que amam criam sonhos para si mesmos”. Gratidão aos Braga Horta! 

Casa do mundo – poema

CASA DO MUNDO

 lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

Casa_do_mundo

Todo santo dia nalguma hora me levanto

Não sei se muito tarde ou muito cedo

Pois nem lua nem sol sequer desponta

Nem um galo errado nos avisa com seu canto.

Planto os pés no chão frio do meu quarto

Miro o corredor, crio coragem e ando

Urino, agora, com muito alívio no banheiro

Abro os olhos, penteio-me, lavo a boca e o rosto.

Sorrio-me ao espelho.

Passo pela cozinha e pelo serviço

Já da porta para o quintal avisto meu poço

Aproximo, puxo a tampa e inclino-me com a cabeça

E sopro bastante. Tão leve e suave sôpro

Que apenas a mim mesmo ouço.

Uma vez ou outra; muito de vez em quando

Um eco lá do fundo me responde:

“Por Deus e por amor… não me esqueça,

Socorro! ”

contato: lopeslarocha@gmail.com

“EU SOU BRASILEIRO”- POESIA

“EU SOU BRASILEIRO” —poesia

Osmar Barbosa, poeta e professor

Brasil_florão-da-américa

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

__ Sim, eu sou brasileiro!

Glossário:

Tejo: famoso rio da Península Ibérica.

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do romance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.


Osmar Barbosa —  Poeta, escritor, tradutor e professor, nascido em vitória, no Espírito Santo, em 1915. Lecionou no Rio de Janeiro, na década de setenta. Colaborou em vários periódicos católicos sob o pseudônimo de Frei Solitário. Publicou numerosas obras sobre ensino e literatura, entre as quais História da Literatura Brasileira, Antologia da Língua Portuguesa, A arte de falar em público, Dicionário de Verbos Franceses, Dicionário de Sinônimos Comparados; Bilac: tempo e poesia; Colheita matinal, Para as mãos de meu amor.