VULTO LÍRICO, poeta de primeira grandeza

Vulto Lírico, poeta de primeira grandeza

imagem: lab61

Elogiado por Antônio Olinto, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros consagrados, o autor por quem nos manifestamos é um vulto do pensamento e de nossa literatura; lido, respeitado, conhecido e admirado nos círculos literários de todo o país. Podemos encontrá-lo facilmente nos mares da rede. Há boa quantidade de tributos, citações, entrevistas, conferências, trabalhos acadêmicos. Escritores das mais díspares vertentes debruçam sobre seus escritos. Euler de França Belém disse sem tremer: “(…) é uma espécie de Otto Maria Carpeaux que ainda não conquistou o Brasil, e com dois detalhes a mais: é excelente tradutor e poeta(…)”

Experimentemos, de entrada, nossa bebida socializadora, variável em cores, tons e intensidade. Assim somos nós brasileiros e brasileiras. A loira ocorre ao artista por acaso. Que sommelier não desejaria no seu material de merchant a voluptuosa degustação?

IMPROVISO ESPIRITUOSO

Loura e leve, sutil e deliciosa,

ao teu contacto a inspiração se apruma.

De te beijar a coma vaporosa,

tenho no lábio um mar de doce escuma.

§

Aspiro-te a fragrância capitosa,

sorvo-te as maravilhas, de uma em uma,

e ao fim me tens, rainha caprichosa,

ajoelhado escravo, a mente em bruma.

§

Teu espírito voa, e o meu, na trama

que voluptuosamente lhe entreteces,

voa também, em um céu, um céu reclama!

§

Mas eis sucumbe em sonolência espessa.

É que, gentil cerveja, se me desces

ao coração, tu sobes-me à cabeça.

Brasília, 25.III.1977

Coloquemos, em brevíssima passagem, a vida poética do homem antes do nome.

Um brasileiro nasce em meados dos anos 1930, em Minas Gerais, filho de pais professores e – vejam só!- poetas. Na infância, aproveitando a oportunidade, torna-se devorador de livros e gibis, não menos atento às improvisadas histórias contadas pela mãe educadora à cabeceira da cama. Esse período nutritivo passa-se em Goiânia. Enquanto cresce peregrina com os pais por várias cidades de Minas. Fixa-se em Leopoldina, cidade vizinha à Cataguases do modernismo mineiro. Sob o canto de Castro Alves, parnasianos e simbolistas, o rapaz é chamado a ser poeta.

CIGARRA

Quando à tarde no céu se escuta a prece

que entoa a Criação da Ave-Maria,

canta a cigarra, canta e se estremece:

núncia da noite sepultando o dia.

§

Pobre cigarra! Canta como em prece,

e ninguém, escutando-a, desconfia

que no canto a alma simples lhe estremece

e é o canto o último raio do seu dia.

§

A tanta gente assim como a cigarra

a dor na pálpebra fechada esbarra,

mas— na suave transfiguração

§

que nos redime desta pobre argila—,

se em lágrimas dos olhos não destila,

vem aos lábios em forma de canção.

Leopoldina, 8.X.1950(…)

Pelo que nos parece, travessuras à parte, foi ótimo filho e excelente aluno. Fez e ainda faz jus à sorte do berço e à chance da vida. Trata-se de mais um de nossos cidadãos exemplares que idealizamos para entre nós, artistas de espírito público.

Chega à juventude e muda-se para o litoral. No Rio de Janeiro estuda, escreve, poetiza, dialoga com seu tempo desafiando as “vanguardas” estabanadas e barulhentas:

AO LARGO, OUSADO!

é mister tudo ousar

quebremos os nossos ídolos

depois colaremos os pedacinhos

os velhos

ídolos

caídos

entrecomidos

pelos séculos

o tempo é um gato que nos espreita

pra que chorar

copiemos a sagacidade dos ratos

olhemos com ternura os nossos ídolos

não é preciso quebrá-los

quebremos antes o encanto

Ao largo, ousado!

copiamos sempre alguma coisa de alguém

somos parentes do macaco

os nossos símbolos são sapatos velhos

mais cômodos porém gastos

Ora (direis) somos poços esgotados

pois eu digo enchamo-los de vento

nada mais moderno      abstrato

                                aéreo

altercam lá fora há muito barulho

enquanto isso a palavra vai roendo a poesia

mas o tempo espreita

Rio de janeiro, 17.XII.1957

Em 1960 finca raízes na sonhada Brasília. Nessa época dão-se os últimos graus da fervura ideológica alimentada em décadas anteriores. Tempo de rupturas, dissidências, divergências, interrupções de diálogos, proselitismos. O autor expressa bem o sofrimento nos ambientes socioculturais. Comoventes composições são desse momento difícil, de quando podemos citar: “Incomunicações”, “Babélica”, “O tempo do homem”, “Torres”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Desse período, cantemos baixinho a poesia em seu estado de potência, criatura à espera dos movimentos do criador:

APOESE

Mudas, incriadas,

jazem no possível

todas as palavras.

Nesse limbo inscrevem-se

invisivelmente

todos os poemas

ditos, por dizer,

mais os indizíveis.

Nesse limbo se amam,

bicam-se as palavras,

numa intimidade

por nós mal sonhada.

Relações repousam

insolicitadas,

frases adormecem

de desinvocadas,

e afinal se cruzam,

crispam-se, eriçadas

na ânsia de uma língua

—boca, pena, gesto.

Nesse inesgotável

lago das palavras,

onde tudo encontra

seu signo prateado,

mergulhou o Homem

e pescou sofismas,

teses, xingamentos,

jogos, alguns poemas.

Infinito é o Sonho

que, irrealizado,

dorme em apoese

nesse obscuro lago.

Brasília, 31.III.1963

Cultor da língua e das artes, não se rende aos desintegradores da linguagem. Posta-se consciente em defesa do que compreendemos por TRADITIO, o entendimento e a prática de receber, cuidar, trazer e entregar: eis a origem e o sentido amplo da palavra tradição. Nosso artista aperfeiçoa e tradiciona bem. Vejamos o poema abaixo em que o mineiro-candango se autodescreve com base no seu signo do zodíaco. Uma espécie de autorretrato temperamental. São, curiosamente, onze quadras de versos brancos e potentes, em consonância numérica com o mês de novembro do calendário gregoriano. Sem esmorecer o homem-poeta reluta e sonha alto com os pés no chão.

ESCORPIÃO

Metálico, magnético, mirífico,

concreção do mistério em geometrias:

escorpião. Equilíbrio e desengonço.

Tão telúrico bicho e tão dos astros frios.

§

Cauteloso, talvez triste, avança, lança em riste.

Que faz no escuro, no úmido e no mofo

que contradiz o seu perfil mecânico?

Pólo e deserto funde, gelo e cálculo.

§

O escorpião tem reservas de malícia

ocultas sob camadas de silêncio.

Mesmo em repouso, agudo: espinho a proteger-se

Invisível flor de inviso perigo.

§

Por isto o escorpião está sempre em guarda,

dormindo com dois dedos no gatilho.

E de repente, sem nenhuma ofensa aparente,

exorbita-se em fúria vingativa.

§

Uma inveja lhe dói: não se centauro,

não se anfíbio, o peixe-pássaro, ele

que atira os olhos no alto e, em vez de duas asas,

tem oito patas a prendê-lo à terra.

§

Por isto é tão concentrado o seu ódio

e lhe estorva ainda os passos mais serenos.

E para não poluir o sonho de tanto ódio

descarrega em si mesmo o seu veneno.

§

Ridículo animálculo romântico

e parnasiano, síntese grotesca:

sólida, fria construção de engates rígidos

e formas libertando-se dinâmicas;

§

maligno duende, anjo desamparado

das potências na solitária luta,

ferras à terra, em guerra, as possessivas garras

e acima, acima, a chispa metalúrgica!

§

Torturado escorpião, que os astros sondas

e em anfractos arrastas-te, maléfico,

ínfimo na íngreme escarpa evolutiva

marchas— mas que apoplético e perplexo!

§

Bicho da terra, animal metafísico,

os pés na pré-história e um olho no futuro,

passeando o apêndice interrogativo

no círculo de luzes do zodíaco,

§

animal sem presente, entre duas eternidades

sufocando oscilante, entanto lúcido,

oh! Ama este aracnídeo, ávido amante,

que não é Carne ainda e sonha-se Anjo.

Brasília, 24.X.1971

Não sejamos orgulhosos. Não tenhamos receio de afirmar: é vulto! Exerceu jornalismo, magistério e tradução. Fez e continua por fazer incontáveis amizades. Ensina com amor, é generoso com principiantes. Reconhece os talentos dos companheiros de ofício. Sensível, erudito, humilde, solidário. Ama os idiomas e as nações. Entrega-nos bastante de sua experiência humana. Participou e testemunhou boa parte do século XX e praticamente todo esse início de século em matéria de literatura brasileira e um pouco da latina. Entendido de Castro Alves, Bilac, Bandeira, Cruz e Sousa e tantos outros. Em seguida dois ensinamentos a nós aspirantes: a) entrevista concedida a Nelson Hoffmann pelo periódico O Nheçuano e b) poema que segue:

RECEITA

Essencial é não dizer nada,

mas não-o-dizer com toda a classe:

como quem veste a ausência da alma

pondo véus diáfanos na face.

§

Escolha, pois, bem as palavras,

preferindo as simples às raras:

porque, se acintoso o disfarce,

avulta, por contraste, a cara.

§

Combine-as com a harmonia maga

de bem temperada sintaxe:

nem tanto ao mar, nem tanto à praia,

discreto o barco se destaque.

§

E seja o efeito esta onda— vaga,

onde a razão do poema—nada.

Brasília, 25.II.1974

O homem é paciente e operoso, diz acertadamente o seu amigo José Jeronymo Rivera. Faz-se crítico e ensaísta com prosa estilística luminosa, capaz de nos revigorar o esforço pela beleza. E sua poesia ergue-se como um edifício firme, fácil de se captar e reter, justamente pelo equilíbrio entre sentimento, imaginação, técnica e sabedoria. Desfrutemos de um soneto dentre a coleção dos “visionários”:

PÂNTANOS

Caía o luar nos pântanos tranqüilos.

Um sapo-boi coaxava tristemente.

A sinfonia sem calor dos grilos

enchia o quarto e entrava-me na mente.

§

Pus-me a escutá-los, momentaneamente:

cantavam mal…E eu me cansei de ouvi-los,

metendo o olhar, indagadoramente,

dentro da noite plena de sigilos.

§

Loucas perguntas, que ninguém responde,

em mim ecoavam, como numa furna.

E ébrio de sono e angústia, de repente,

§

julguei que os homens fossem brejos, onde,

regendo a triste orquestração noturna,

um sapo-boi coaxasse gravemente…

Soneto Antigo, p.95

Para revitalizarmos a poesia brasileira faz-se necessário antes divulgarmos o peso dos que não puderam vir à baila numa intensidade compatível com sua grandeza. Precisamos reverberar com prazer máximo os autores que, astuciosamente, foram postos à margem por certos “movimentos editoriais” e “pactos de leitura”. Nós apreciadores de boa arte, crentes e enfezados na ideia certa de que obras excelentes contribuem para elevação da alma humana, sonhamos com eminente poesia em forte circulação.

A literatura desse vulto – poemas, ensaios, contos, entrevistas, aulas, palestras, traduções – pede por ser lida por mais pessoas, mais comentada por nossos críticos e jornalistas culturais. Insistimos não tanto pelo autor, homem moderado e consciente de já ter feito muito da sua parte, mas por solidariedade a nós mesmos, compatriotas e falantes da língua. Que sejam incluídas suas obras nos exames de vestibulares! Dos seus ensaios temos à mão “Testemunho & Participação” e “Do que é feito o poeta”. Há também o “Proclamações” a ser explorado. A respeito do primeiro alguém exclamou: “Como é que obra dessa fica fora de circulação comercial?! Só de dar com os olhos na mina já se encontra inúmeras pepitas…além de agradável leitura, trata-se duma compilação valiosa para estudo e pesquisa em história literária.”

Conselhos editoriais, comissões de vestibulares, institutos, enfim, o mercado de bens simbólicos adiando ou atendendo logo nossa solicitação, uma coisa é certa: Anderson Braga Horta já influencia leitores, escritores e poetas de hoje, bem como influenciará outros muitos de amanhã. Ao lermos seus fragmentos críticos, onde se registra cristalinas reflexões, concluímos definitivamente que o autor está dentre os mais bem estruturados ombros da poesia contemporânea, da língua portuguesa, do florão da América e de todo o continente.

É hora de irmos além da respeitabilidade, do reconhecimento, dos elogios e dos prêmios. É hora de pormos os frutos do lavrador à mesa dos famintos!

Despedimo-nos com…

SONETO DE AMOR ANTIGO

Antes de tu nasceres, eu te amava:

de um amor sem objeto,

de um puro amor à espera:

querendo-amar, nos limbos do intocado.

§

E inda antes de eu nascido, já te amava:

no antegosto secreto

da vida em outra esfera,

na alma anterior ao corpo entressonhado.

§

Eu sempre soube o teu olhar profundo,

antes mesmo dos olhos, num passado

quando eras pura essência, além do mundo.

§

Cerra o tempo as cortinas e as descerra,

e eis-me sempre a teus pés ajoelhado.

Meu amor é antigo como a Terra.

REFERÊNCIAS:

ANE. Associação Nacional de Escritores. Membros. Brasília, 1963. Disponível em:< https://anenet.com.br/> Acesso em 17 novembro de 2019.

ALMEIDA, Pinto J.R. de. Poesia de Brasília: duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2002. 136 p.

HORTA, Anderson Braga. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009. 213 p.

_______. Do que é feito o poeta. Brasília: Thesaurus, 2016. 412 p.

_______. Signo: antologia metapoética. Brasília: Thesaurus,2016. 412 p.

_______. Testemunho & Participação: ensaio e crítica literária. Brasília: Thesaurus, 2005. 375p.

_______. Poeta de primeira grandeza. O Nheçuano, Roque Gonzales – RS- Nº 42, p. 6-8, agosto/setembro. 2019. Entrevista concedida a Nelson Hoffmann.

_______. Encontro de cinco poetas numa não esquina de Brasília. Lab61(uma homenagem ao Brasil) Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J5Yi7FPiY_Y >. Acesso em 15 julho 2019.

_______. Recebe Condecoração Oficial da Casa del Poeta Peruano. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=gOLBNb8jxMM >. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Lança Livros de Ensaios. Disponível em: <https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/anderson-braga-horta-lanca-livro-de-ensaios-79915/>. Acesso em 17 setembro 2019.

_______. Poeta. Wikipédia, a enciclopédia livre ( Creative Commons – sujeito a condições adicionais). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Braga_Horta. Acesso em 15 julho 2019.

Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

§

Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

§

Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

§

A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

§

A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

§

Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

§

A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

§

O fogo destrói e consome iluminando.

§

Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

§

Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

§

A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

§

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

§

A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

§

A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

§

A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

§

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

§

                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

§

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

§

Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual)

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

                                                                                             fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo,sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade factual batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

 Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. Às vezes, publicamos algo de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço para autopromoção nem veículo interativo instantâneo, com vistas a adquirir visibilidade ou reconhecimento ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

 Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocarmos idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual e da coletividade saudável e recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

contato@pingodeouvido.com.br

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Se Otto Maria Carpeaux é um plagiário

Sêde de Deus e de Civilização

Sêde de Deus e de Civilização

(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Imagem_Editora_Argos

Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.

Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!

Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.

Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.

Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.

Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.

O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

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|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

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A fala e a cala se constituem de diálogo – ou monólogo – e de prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaio para o louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

O Chateado II

 O Chateado

II

 lopes al’Cançado de la rocha, o Cristiano

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Passaram-se dias. Dias reflexivos para um, dias ansiosos, como de costume, para o outro. Este último então, solicitou novamente o aconselhador.

__  Meu amigo, aqui estou de volta. Não estabeleci prazo para lhe deixar à vontade…tenho ciência de como é desagradável importunar os ouvidos de quem conhece bem a si mesmo e aos outros.

O chateado relaxou-se um pouco da ânsia e seu semblante sorriu. O sábio continuou:

__ Enquanto esperava seu chamado fui pensando no seu caso e, se me permite…

O modesto elogio ainda ressoava na atenção do moço que, perdendo-se na conversa, interrompeu:

__ Meu velho, creio finalmente estar diante de alguém que me compreende. Gravei na cabeça parte daquela nossa conversa do outro dia. E isso me fez gerar uma certa preocupação. Receio ter sido contaminado de aporrinhamentos e tenho medo de tornar-me pessoa birrenta, como são as pessoas que me chateiam. Não me lembro se lhe fui maçador daquela vez, mas se fui, peço-lhe desculpas.

O sábio guardou sua fala interrompida e deu sequência:

__  Não há de quê. Não se preocupe, meu amigo. O destino não costuma ser irônico com a sinceridade.

Retraindo-se, fingindo não entender ao certo a última frase do velho, o aconselhado saiu-se com meia concordância:

__  Faz sentido.

O Chateado I

O Chateado

I

 lopes al’Cançado de la rocha, o Cristiano

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Ao devedor o cobrador é, mais das vezes, chato. O pedinte também se aborrece com quem não lhe efetua nenhuma doação. Já determinado atacante considera muito impertinente o defensor da equipe de futebol adversária. E assim vão se multiplicando as chatices, os chateados e, claro, multiplicam-se também as irritações.

Aconteceu que um dia, um sábio foi solicitado a aconselhar outro sujeito que andava sendo chateado por muitas pessoas. Humilde, educado e prestativo, recebendo a licença, o sabido iniciou a prosa:

___ O mais sensato seria evitar as pessoas que você considera chatas.

___ Mas são muitas…e preciso conviver com algumas delas, respondeu o sujeito.

___ Hum…então evite as que puder evitar e suporte as que precisa suportar. Separe-as conforme sua conveniência.

O chateado, expressando certa impaciência, foi alongando:

___ Mas é o que sempre tento fazer, porém vejo-me logo de saco cheio e, no fim das contas, acabo saindo das relações bastante zangado e dolorido.

O sábio então pensou por alguns instantes. Pensou mais um pouco e… encerrou a conversa:

___ O seu caso é bem específico. Perdoe-me se já lhe causo alguma chateação por aqui. Espero que não se zangue comigo. Jamais terei raiva de sua pessoa. Dê-me mais algum tempo para que eu possa pensar na questão e aí depois voltaremos ao assunto. Até breve.

PSICOLOGIA DA MULHER ELEGANTE, O LEQUE

(…) O nosso Manfredo de hoje veste o seu talmá, acende o seu havana, e vai para o Club, ou para o café, jogar sua partida de bilhar, e maldizer a sociedade, à qual ele dá a honra de fazer parte.

Foi um dos indivíduos dessa família que me fez presente do livro de que vos falei: o autor conservou o incógnito, e não quis fazer, como hoje se costuma, um brasão de títulos da sua primeira página.

Intitulou a obra Psicologia da mulher elegante, e dividiu-a em diversos capítulos, todos interessantes, senão pela forma e pelo estilo, ao menos pela originalidade.

O capítulo que vou ler tem por título O leque: é um estudo psicológico que o autor faz sobre este objeto de luxo, que serve de cetro às rainhas da moda.

Há, como estes, muitos outros capítulos a respeito do bouquet, do mantelete, do lenço, das fitas, das botinas, etc.

Mas prefiro o leque porque, estando no verão, tem a sua atualidade.

Portanto, se estais disposta a ouvir, abro o meu livro, e começo a leitura do meu capítulo.

Aí tendes:

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PSICOLOGIA DA MULHER ELEGANTE

CAPÍTULO ÚNICO

O LEQUE

I

As moças têm um companheiro fiel, confidente dos seus menores segredos.

É o leque.

À primeira vista parece um simples objeto de luxo; mas se ele pudesse contar o que viu e ouviu!…

Quando o rubor vem colorir uma bela face, aí está o leque para disfarçar e encobrir aos olhos profanos esse misteriozinho do pudor.

Um leque serve também de pretexto para baixar os olhos, e ocultar a vista que anda passeando pelo salão.

Se uma amiga quer dizer um segredo ao ouvido de outra, estende o seu leque aberto, e por sobre a madrepérola dourada deslizam essas palavras que, por saírem de lábios mimosos, não deixam de ser bem venenosas.

São como os espinhos que se escondem entre as folhas das rosas, com o fel que destila o cálice de uma flor alva e pura.

Por mim, apenas descubro um leque naquela posição temível de pára-raio, vou quebrando à direita, e colocando-me em respeitosa distância: uma das cousas que mais temo neste mundo é ver-me reduzido a passar da boca de uma moça ao ouvido de outra por entre as aspas de um leque.

Preferia passar por baixo das forças-caudinas, ou ser passado a fio de espada; porque duvido que haja ferro que doa mais do que aquelas tenazes de madrepérola dourada, quando são vibradas por uma mãozinha que calça luva de Jovin letra A.

Outra posição respeitável do leque é quando ele move-se com extrema rapidez ou abre-se e fecha-se com um certo trilho sonoro, porém de mau agouro.

Se reparardes bem, vereis que a mãozinha que lhe imprime este movimento está crispada por uma convulsão nervosa; é um sinal certo de mau humor, e bom será que não vos aproximeis neste momento.

Dizem alguns fisiologistas experientes que nesta ocasião a rapidez do movimento do leque é um termômetro exato da rapidez da circulação do sangue.

Não sou fisiologista; mas basta-me ver de longe um leque fazendo ziguezague, para compreender o que se passa na alma de uma moça, e para sentir-me tomado de dó e de compaixão pelo sujeito ameaçado por esta inocente arma de guerra feminina.

II

O leque tem a sua linguagem, como as flores linguagem telegráfica, (sic) um pouco simbólica, que os profanos nunca poderão entender; só os iniciados nos mistérios da vida elegante é que sabem interpretar os seus menores movimentos.

Não há fio elétrico, não há sinais de repercussão que transmitam o pensamento com mais rapidez e mais clareza, do que um leque na mão de uma moça; é de tal forma, que alguns homens peritos governam-se por ele no meio do salão, como o marinheiro no oceano por meio de uma boa agulha de marear.

Uma mãozinha que se estende indolentemente, e deixa cair a ponta do leque sobre a palhinha de uma cadeira, diz ao escravo submisso que “venha sentar-se ali”.

Quando o leque descreve um semicírculo, ou faz um movimento de retração, o sujeito de longe traduz imediatamente o gesto ao pé da letra: ___ “Passe para o outro lado” ___ ou ___ “aproxime-se”.

Se o escravo é um pouco rebelde, e não obedece sem hesitar, vereis o leque duas pancadinhas, uma após outra, sobre o espaldar da cadeira: isto em linguagem cabalística vale o mesmo que um ukase do sultão, ou uma sentença sem apelação nem agravo. Em linguagem profana significa simplesmente: Quero, quero já.

Entretanto o leque tem um momento delicioso; é quando se agita indolentemente sobre o seio, com o movimento suave das asas do cisne que se revê na flor do lago.

Então a sua linda senhora está em uma de suas horas de embevecimento; tudo nela respira a felicidade e o prazer.

Os olhos meio cerrados têm um requebro lânguido; um sopro ligeiro agita as rendas do seu vestido ou as fitas dos seus cabelos; e as sombras escassas que passam e repassam sobre o colo acetinado, dão-lhe umas ondulações voluptuosas, capazes de enlouquecer um pobre homem que tem olhos para ver todas estas cousas.

Então que segredos não ouve ele no palpitar desse seio mimoso, no bafejo dessa boca delicada que o perfuma com seu hálito de rosas?

Se o leque fosse uma cousa animada, eu diria que é o momento em que ele sorri; porque na sua linguagem misteriosa diz àquele por quem se agita: “Eu te olho, eu te amo, e sou feliz”.

Tenho visto muitos homens brincarem com o leque que alguma senhora deixa por acaso sobre a cadeira, como se fosse um objeto qualquer de luxo.

Eu não sou assim: para mim o leque é um livro de páginas douradas, um álbum de seda e de penas, em que a mulher guarda todos os seus segredos.

Por isso, quando alguma senhora me dá o seu leque a guardar, recebo-o com o mesmo respeito com que receberia o autógrafo de um romance de Alexandre Dumas, ou de uma poesia de Victor Hugo.

III

Para concluir este estudo fisiológico do leque, acrescentarei algumas observações sobre a sua história.

O leque é para a mulher o que a bengala é para o homem; na sua origem ambos estes objetos foram uma arma de defesa, mas a civilização, de transformação em transformação, reduziu-os a um traste de luxo, que às vezes ainda no fundo revelam o que foram.

A bengala na sua primitiva forma não era mais do que uma clava, um bastão ou um cajado; depois transformou-se em lança, adaga, espada ou florete; e finalmente no século XIX chegou ao seu estado de perfeição, que é a bengalinha de junco ou a chibatinha de barbatana.

Hércules, Abraão e Diógenes trouxeram a clava, o cajado e o bastão; César, Carlos Magno, Henrique IV e Turenne usaram da lança, da adaga, da espada; Napoleão tinha o seu sabre; Murat o seu chicotinho; Nicolau da Rússia andava de bengala: está pois bem próxima a época em que o cetro dos reis será uma chibatinha de unicórnio, com castão de coralina.

O leque passou com poucas diferenças pelas mesmas transformações que a bengala.

Nos tempos heróicos teve a forma de um punhal ou estilete; tornou-se depois um fuso, e afinal, com a descoberta do caminho da Índia, metamorfoseou-se no que é atualmente.

Sarah, Norma, Abigail e Medéia traziam à cinta o seu punhal; a rainha D. Sancha e as castelãs da Idade Média manejavam a roca e o fuso: a moça elegante do nosso tempo abana-se indolentemente com o seu leque dourado.

Passo por alto algumas outras transformações, verdadeiras aberrações, como por exemplo: o estilete que há bem pouco tempo usavam as andaluzas, e o fato da padeira de Aljubarrota, cujo leque foi uma pá de forno.

IV

Agora podem os meus leitores conhecer a razão por que ainda hoje o leque conserva alguma cousa da sua primitiva origem: apesar de toda a indolência e o capricho que lhe deu o gênio voluptuoso da Índia, é sempre a mesma arma terrível da mulher.

Sob as duas penas de Marabout, entre as aspas delicadas, a vista não vê, mas o coração do homem ainda sente o estilete de Norma, que a vingança muitas vezes estorce, como uma víbora no seio das flores.

Judith com o seu punhal cortou a cabeça de Holofernes e exultou pelo seu ato de coragem e de bravura; a Judith de luvas e mantelete dos nossos tempos, com o seu leque, esmaga, sorrindo, o coração dos Holofernes de casaca, e saboreia lentamente o prazer da tortura e do martírio que impõe à sua vítima; uma é pois digna da outra.

Ainda um paralelo:

Lucrécia para defender a sua honra serviu-se do seu leque, isto é, do seu punhal, e a ele deveu conservar-se pura e casta; a Lucrécia moderna, para defender o seu pudor, serve-se do seu punhal, isto é, do seu leque, e a ele confia a guarda do seu pejo.

A primeira, estando só e não podendo defender-se, apunhalou-se e morreu; a segunda, estando no meio do salão, e levando o vestido decotado, oculta o seio com o leque, e sorri.

Aqui infelizmente já a Lucrécia moderna não é nem a sombra da esposa romana; o que é que degenerou, foi a honra ou foi a mulher?

Deve ter sido a honra, porque a mulher é a mesma em todos os tempos: criai um paraíso, deitai nele um Adão, e achareis mil Evas ao alcance do braço.

Agora, meus leitores, inclinai a cabeça, chegai o ouvido, que vos quero dizer uma cousa em muito segredo.

É um conselho.

Se desejais viver tranquilos e felizes, quando virdes um leque fugi dele como de uma pistola carregada.

Talvez penseis que me contradigo; mas refleti que há pouco falava para o público, e especialmente para as senhoras; e agora falo-vos ao ouvido, e em confidência. Virgílio, descrevendo a verdadeira felicidade e a doce tranqülidade da vida campestre, disse: – Felix, qui procul negotiis , etc.

Se ele vivesse hoje, e vos falasse em meu lugar; se quisesse convidar-vos ao sossego e aos calmos prazeres do lar doméstico, em vez daquelas palavras, escreveria pouco mais ou menos estas: – Felix, qui procul lequis, etc.

Antigamente os cavalheiros ilustres, depois de uma vida de feitos brilhantes, guardavam a sua espada, como uma relíquia sagrada, que entregavam ao seu primogênito no dia que ele partia para a primeira campanha.

Talvez as mulheres elegantes façam o mesmo, e dêem às filhas, no dia da sua primeira entrada nos salões, o leque, troféu glorioso de suas conquistas.

Fui estudantinho, estudante vadio; entretanto nunca a férula do meu mestre del latim me meteu tanto medo como esse brinquedo das mulheres à moda.

Se eu governasse algum país, para conservar a paz do meu povo não consentiria no fabrico de leques; classificaria isto entre as indústrias proibidas, como a pólvora e os foguetes a congreve.

Mas não sou governo, e por isso a única esperança que me resta é que o Sr. Sampaio Vianna fará apreender como contrabando todos os leques que entrarem na alfândega, como já fez com pentes de tartaruga.

E assim fico um pouco tranquilo, confiando na sabedoria do nosso inspetor, a quem está reservada a glória de salvar o país, apreendendo os leques e os pentes.

Aqui termina o capítulo, minhas leitoras, e aqui termino eu igualmente.

O livro, como já vos disse, é anônimo, porém, se vos interessais muito em conhecer o autor, vou ensinar-vos a maneira de conseguir.

Deitai a costura sobre a banquinha, chegai depressa à janela, olhai para a rua, e o primeiro homem de bom senso que passar é o indivíduo que desejais conhecer.

Podeis escrever-lhe o nome no fim do capítulo, que eu servirei de testemunha, e assinarei depois dele.

José Martiniano de Alencar, Folhas soltas, 6/mar./1856

Fonte imagens:http://www.omundodegogoia.com.br/historia-do-leque/

 

 

 

 

 

A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

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Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

 

A véspera de Natal

A véspera de Natal

José de Alencar, ao correr da pena, 24/dez./1854.

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Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa que não há nada tão poético como esta legenda das Mil e Uma noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da Igreja, nesses símbolos que comemoram a poética tradição do nascimento de um menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia-noite, os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é, porém, na cidade que se pode gozar deste idílio suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado; mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo ao longe o tanger alegre de um sinozinho de aldeia, que vem quebrar a calada da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida, distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade, vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não vades à missa do galo nas igrejas da cidade. Escolhei alguma capelinha dos arrabaldes, à beira do mar, como a de São Cristóvão, cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada nalguma eminência, como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadida que não aspirais aos foros da alta fashion, porque caso deveis ficar na cidade e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma boa constipação na saída.

A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

                              Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

jose-alencar-romancista-brasileiro

A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Simoun:   talvez de Simão, o mágico, personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais impusesse as mãos (At 8.18-24). 
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

 

Rascunho, um dedo na ferida

Rascunho, um dedo na ferida

 lopes al’Cançado de la rocha, o Cristiano

Lápis_2

O lápis __ a lapiseira é a sua versão mais aperfeiçoada e conveniente __ é um estilete, um instrumento cilíndrico de duas camadas. Na camada inferior está o material chamado mina, que produz marcas com grafita. A grafita vem misturada com argila fina, cera e outras substâncias. A parte exterior do lápis consiste num invólucro de madeira. Através desse instrumento registra-se todo um manancial de traços, códigos, signos e sinais.

Para gravar imagens, símbolos, letras e números nas superfícies (papeis, madeiras) com o lápis realizamos semi perfuração, isto é, perfuração rasa, fácil de ser cicatrizada, apagada, corrigida.

Mesmo em tempos digitais e de telas sensíveis ao toque, o lápis __ ou lapiseira para os mais elegantes __ é o instrumento portátil mais apropriado para o rascunho. Ele e sua companheira, a borracha, são mais econômicos e menos tóxicos do que o outro casal: caneta e corretor líquido ou de fita. O número de lápis vendidos a cada ano é aproximadamente o dobro do de todos os outros instrumentos para escrita e desenho.

Muito comum entre os aprendizes, escriturários, redatores, desenhistas, entre os que necessitam e valorizam o esboço é o lápis. Aliás, esboçar é prática frequente dos que se consideram eternos aprendizes e dos que resistem à “ditadura do agora é para já”, velocidade ilusória e degradante.

Quanto mais se emprega tempo e cuidado num texto, num desenho, num trabalho gráfico, mais satisfação ele nos traz. Porque o labor com zelo se torna mais relevante, menos passageiro. É inegável que a rapidez, sobretudo das coisas boas, o imediatismo, a exigência veloz e impensada torna a vida menos saborosa.

O refazer nos dá ânimo à vida. No entanto, não podemos nos esquecer do lado precário da sobrevivência que nos faz agir, muitas vezes, com certa urgência. Mas urgência e emergência são sempre circunstanciais…

Continuemos pela Wikipedia com informações interessantíssimas sobre essa nossa antiga e atual tecnologia que é o lápis:

“O precursor mais remoto do lápis talvez seja identificado como sendo as varas queimadas cujas pontas foram utilizadas pelos primitivos hominídeos para gravar inscrições nas cavernas, as famosas pinturas rupestres. Há cerca de 3.500 anos, na sociedade egípcia, as ‘varas’ de rabiscar evoluíram para pequenos pinceis capazes de produzir linhas finas e escuras nas superfícies.

Há cerca de 1.500 anos, os gregos e romanos perceberam que estiletes metálicos serviam igualmente bem ou mesmo melhor ao propósito de registrar dados em superfícies. Por suas qualidades, o chumbo passou a ser amplamente empregado com tal fim.

O verdadeiro antepassado do lápis talvez seja o seu equivalente romano, o stylus; que consistia num pedaço de metal fino, normalmente chumbo revestido com alguma proteção (usualmente madeira) para evitar que os dedos se sujassem. O stylus era utilizados para escreverem-se os papiros.

Os primeiros lápis livres de chumbo datam do século XVI. Neste século foi descoberta, perto de BorrowdaleCúmbriaInglaterra, uma grande jazida de um material bastante puro e sólido, hoje reconhecido como o estado alotrópico mais comum do carbono, a grafite. À época nomeava-se tal elemento ‘chumbo negro’ em alusão direta ao elemento concorrente e suas aplicações; e os habitantes locais descobriram rapidamente que o “chumbo negro” era muito útil para marcarem-se as ovelhas. Atando-se a grafite a varas de madeira, rapidamente surgiram os lápis rústicos, já livres de chumbo e parecidos aos que conhecemos hoje.” […]

Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta_imagem_2-1

Machado de Assis. ___ Respondo á tua carta. Pouco preciso dizer-te. Fazes bem em dar ao prelo os teus primeiros ensaios dramaticos. Fazes bem, porque essa publicação envolve uma promessa e acarreta sobre ti uma reponsabilidade para com o publico. E o publico tem o direito de ser exigente comtigo. És moço, e foste dotado pela Providencia com um bello talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéa é uma força. Inoculal-a no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral. O homem que se civiliza, christianisa-se. Quem se illustra, edifica-se. Porque a luz que nos esclarece a razão é a que nos alumia a consciencia. Quem aspira a ser grande, não póde deixar de aspirar a ser bom. A virtude é a primeira grandeza d’este mundo. O grande homem é o homem de bem. Repito, pois, n’essa obra de cultivo litterario ha uma obra de edificação moral. Das muitas e variadas formas litterarias que existem e que se prestam ao conseguimento d’esse fim, escolheste a fórma dramatica. Acertaste. O drama é a fórma mais popular, a que mais recursos possue para actuar sobre o espírito, a que mais facilmente o comove e exalta; em resumo, a que tem meios mais poderosos para influir sobre seu coração. ___ Quando assim me exprimo, é claro que me refiro ás tuas comedias, acceitando-as como ellas devem ser aceitas por mim e por todos, isto é, como um ensaio, como uma gymnastica de estylo. ___ A minha franqueza e a lealdade que devo á estima que me confessas obrigam-me a dizer-te em publico o que já te disse em particular. As tuas duas comedias, modeladas ao gosto dos proverbios francezes, não revelam nada mais do que a maravilhosa aptidão do teu espirito, a profusa riqueza do teu estylo. Não inspiram nada mais do que sympathia e consideração por um talento que se amaneira a todas as fórmas da cancepção. ___ Como lhes falta a idéa, falta-lhes a base. São belas porque são bem escriptas. São valiosas, como artefactos litterarios, mas até onde a minha vaidosa presumpção critica póde ser tolerada, devo declarar-te que ellas são frias e insensiveis, como todo sujeito sem alma. ___ Debaixo d’este ponto de vista, respondendo a uma interrogação directa que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresental-as ao publico sobre a rampa da scena do que ha em offerecel-as á leitura calma e reflectida. O que no theatro podia servir de obstaculo á apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comedias são para serem lidas e não representadas. Como ellas são um brinco do espirito, podem distrahir o espirito. Como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguem. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom criterio comsigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os auctores. O que desejo, o que te peço, é que apresentes n’esse mesmo genero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te á grande pintura. ___ Posso garantir-te que conquistarás applausos mais convencidos e mais duradouros. ___ Em todo o caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te á critica de todos, para que possas dirigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretencioso, colherás o fructo são da tua modestia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em sympathia toda a consideração que me impõe a tua joven e vigorosa intelligencia. ___ Teu ___ Q. Bocayuva.

 

W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, São Paulo e Pôrto Alegre ___ 1947 ____ .

Correspondência: de Machado de Assis A Quintino Bocayuva

Correspondência:

 

de Machado de Assis a Quintino Bocayuva

Quintino e machado-1

Meu amigo. ___ Vou publicar as minhas duas comedias de estréa (1); e não quero fazel-o sem o conselho de tua competência. ___ Já uma crítica benevola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. ___ Sou immensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. ___ Mas o que recebeu na scena o baptismo do applauso póde sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? ___ É para a solução d’estas duvidas que recorro á sua autoridade litteraria. ___ O juízo da imprensa via n’estas duas comedias__ simples tentativas de autor timido e receoso. Se a minha affirmação  não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo n’esses trabalhos. Tenho o theatro por cousa mais séria e as minhas forças por cousa muito insufficiente; penso que as qualidades necessarias ao auctor dramatico desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho; cuido que é melhor tactear para achar; é o que procurei e procuro fazer. ___ Caminhar d’estes simples grupos de scenas á comedia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento pratico das condições do genero ___ eis uma ambição própria de animo juvenil e que eu tenho a immodestia de confessar. __ E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estadio que ha percorrer para alcançal-a. E mais. Tão difícil me parece este genero litterario que, sob as difficuldades apparentes, se me afigura que outras haverá, menos superaveis e tão subtis, que ainda as não posso ver. ___Até onde vae a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que espero saber de ti. ___ E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excellentes: razão de estima litteraria e razão de estima pessoal. Em respeito á tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. ___ O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo e eu docil; terás ainda por isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrivel sentença de um escriptor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles um regret? ___ Teu amigo e colega __ Machado de Assis.


(1) O caminho da porta e O Protocollo, comédias publicadas em 1863.

W.M Jackson Inc. Editores, Porto Alegre (1947).

 

Poemas e Canções

__Poemas_e_Canções_2001_e_2017

__Capa_Poemas_e_Canções

ÍNDICE

Prefácio, 03

Sobre o autor, 04

Dedicatórias 1ª edição, 05

Notas do autor e agradecimentos 1ª edição, 06

Poemas

Herança & Arteiros, 07

Santa Luzia de todo o mundo, 08

Da região metropolitana, 08

Resposta, 09

Homemgasto, 10

“Psicológico”, 10

Canção para crise, 11

Etária com ombro, 11

Violoncelo, 12

Sem título e Ficar, 13

2º plano, 14

Meus poemas e canção poesia, 15

Metalinguística, 16

Canções

Nos sinais e Temorte (na sua área), 18

Zumzumzum zimzimzim e Ô Bach, 19

Não há um violão e Avião de Luxo, 20

Do apá virado e Fili, 21

Culpa e Narua, 22

Cata-vento, 23

Neanderthal, 24

 Notas, 25

Créditos 1º edição

Informações 2ª Edição, canais e contato, 25

 

Prefácio

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

Em brochura grampeada, com sobras de papel da gráfica, de corte torto, capa feia e improvisada, saiu uma edição tôsca e pobre, não só pelo fato de ser independente e autofinanciada, mas também por incompetência de todos nós, autor-editor, diagramador, gráfica impressora etc.

A intenção era demonstrar a importância com que sempre tratei a Literatura e expor um estilo individual eclético, no intuito de agradar o maior número possível de leitores e ouvintes. Os poemas foram divididos em quatro partes: a) memória pessoal; b) temas políticos e socioeconômicos; c) experiências com namoros e d) metalinguística. Quanto às canções, selecionei as que eu julgava serem as melhores na época.

Quis modéstia no título e pus “Poemas e Canções”, pois admitia minha imaturidade pessoal e artística. Agora nessa segunda distribuição há um novo intuito: retomar esse marco de minha trajetória.

Obra de jovem estreante, percebe-se marcante cadência típica do letrista, rimas imperfeitas, versos livres a procura de certa harmonia assimétrica; um tom de fala ao mesmo tempo memorialístico e confessional. Artes e pecados da infância, paixões juvenis com influência de Adelino Moreira, o espaço semi-urbano, os sonhos e as aflições próprias dos que trabalham em reflexão e contemplação em meio as urgências da vida, das tragédias humanas e sociais. Veremos esses últimos cenários, por exemplo, em “psicológico” (página 10), “temorte (na sua área) ” e “Nos sinais” (página 18).

Nas duas últimas canções (Cata-vento e Neandertlhal) teremos canto à liberdade e um lamentoso apelo.  É que antes de nos apresentarmos como escritores, antes mesmo de declararmos a primeira estrofe, àquela época já percebíamos o desprezo e a indiferença para com os novatos. No geral, quando se falava em arte, só se pensava em reconhecimento, exposição, fama, carreira profissional e vida pública luxuosa. Esquecia-se dos artistas como exemplos à sociedade, como cidadãos influentes na ética e moral de um povo. Hoje, porém, sabemos que a fria educação pela pedra de um João Cabral de Mello Neto norteou o senso de um Ministro da Fazenda Antônio Palocci; e que aquele Glauber Rocha animou o coração e a mente dum poeta e Presidente da República José Sarney. Um simples estribilho pode, na sua devida proporção, influir na história de várias gerações.

Hoje o desprezo, a indiferença e o ato de recusar contribuições literárias e artísticas em geral são efeitos de várias causas, e dentre elas podemos citar o declínio do ensino e aprendizado, o desamor pelo idioma, a imposição do entretenimento e do lazer prazeroso, a anulação da atividade crítica e a intensificação das degradantes guerrilhas culturais e espirituais. Vejo as forças criativas perderem sua fecundidade e segregarem-se em ilhas tribais fervidas por conspirações, estratégias, táticas, agendas e atitudes que, às vezes, culminam em histerias coletivistas ou até em campanhas de reivindicações hostis e ódio. Essas vias obscuras em muito nos entristecem.

Os critérios norteadores do fazer literário deixaram de ser a beleza, o amadurecimento da escrita, a riqueza de conteúdo, a força das expressões, a hombridade ética e estética do autor. Vieses ideológicos, de crenças ou descrenças são fatores determinantes para fazer repercutir ou não a voz dum pobre sujeito. Serão forças suficientes para calar algum filho de Deus capaz apenas de honrar seus próprios ombros? Só Ele pode nos responder, e a resposta virá certamente no Tempo Dele.

A presente reedição, com prefácio e informações complementares confirma minha escolha desde o início: o caminho da arte livre, consciente, independente, sóbria, responsável, baseada na razão, no sentimento e na compaixão. Esse pequeno percurso me impulsiona e me alimenta na missão de alcançar o máximo de pessoas dispostas a apreciarem Língua Portuguesa do Brasil, Literatura Brasileira, poesia inspirada e letra de música.

Belo Horizonte, 07 de julho de 2017.

Sobre o autor

Filho de José Maria Rocha, bombeiro hidráulico e Dulce Francisca Lopes Cançado, do lar, nasci em 07 de julho de 1977 em Belo Horizonte. Meus pais, nessa época, moravam no bairro de Santa Efigênia. Em dezembro de 1981, movidos pelo sonho da casa própria, mudamos para o Conjunto Habitacional de Interesse Social (Cohab-MG), mais conhecido como Conj. Cristina, próximo ao bairro São Benedito, na cidade de Santa Luzia.

Estudei o primário na E.E Jacinta Enéas Orzil, onde iniciei meus primeiros escritos, estimulado pelas aulas de comunicação e por canções que ouvia na voz de minha mãe. As demais séries do primeiro e segundo graus cursei na E. E Raul Teixeira da Costa Sobrinho já compondo uma variedade de letras, poemas e demonstrando notório interesse por nossa Literatura Brasileira. Dentre as funções que exerci estão: vendedor ambulante, balconista, empacotador de compras em supermercado, repositor, office-boy, auxiliar de escritório e leiturista em relógios medidores de energia elétrica.

A partir de 2002 trabalhei como balconista novamente, auxiliar de tesouraria, carteiro, professor de violão, músico de bar, auxiliar de serviços gerais. Colaborei voluntariamente em duas associações culturais luzienses. Idealizei e concretizei dois periódicos literários: Cabeça de Papel (2002) e Pingo de Ouvido (2015). Em 2006 integrei o curso de crisma do método da Catequese Narrativa, na comunidade Santo Inácio entre os cristinenses; crismei, batizei e, sendo já cristão, firmei publicamente minha Fé Católica. Estudei um período de administração em 2007. Dediquei-me em dois cursos técnicos e vários outros profissionalizantes no período de 2009 a 2014. Apresentei-me em alguns festivais de música, mostras e recitais. Publiquei dois álbuns musicais nas plataformas Onerpm e Youtube. Até meados da década de 2000 almejava profissionalizar-me inteiramente nas atividades artísticas, até que em 2005 decidi por me tornar, antes de qualquer desejo profissionalizante, um artista de testemunho e obra. Trabalho, atualmente, como assistente administrativo e estudo várias disciplinas de forma autônoma. Conquistei amores e desafetos, como é natural com todo ser humano. Ganhei um filho amoroso. Nos últimos anos venho me reaproximando das origens familiares, curtindo tias-avós, tios, primos, primas, padrinho, madrinha. Ouvindo deliciosas histórias como nunca. Ganhei também duas afilhadas, quatro cachorrinhas lindas e a família só lá vai crescendo…

Hoje, sob as mais variadas influências, tanto da arte como das diversas convivências… “ao contrário dos que escrevem e rasgam, mando meu timbre não por vaidade; é para desafiar esse instrumento de infinitas faces, comprometedor e bambo que é a palavra. Contudo, lembro que não deixo apenas palavras, lanço também a minha unidade e um pedacinho do meu universo. Quando me ponho a liberar o que me borbulha aqui dentro, a letra e o som são os códigos de que disponho… um violão de estudo e u’a máquina de escrever, isso é tudo, tudo que eu tenho. Dependendo do estado em que me encontro, eles se entrelaçam ou pouco se aproximam. Cabe a mim então a paciência… esperar para ver ‘quem’ é que vai ficar só e ‘quem’ é que vai ficar junto. Isto é, a Inspiração Divina é quem determina se o texto permanece poema lírico ou se converte em letra musical, canção”.

Eis, junto dos poemas, algumas composições do período de 1997 a 2001, quando passei a compor com maior frequência e a realizar estudos autônomos em música.

Santa Luzia, 09 a 15 de maio de 2001.

Com informações complementares em 07 de julho de 2017.

a toda minha família

e amigos

a vin car lag, “cum panis

inseparável nessa

trilha

a Sebastião Villas Boas

por todo apoio

e pelas primeiras afinações

(em memória)

[2001].

 

“… numa transa com os nervos, a música instigando o ser e dando-lhe a insistência para falar de si, de seu meio, de seus atos.

Mais pela vontade de desengavetar, registrar e fazer repercutir. Já que todos nós sabemos de nossas dificuldades – e não somente no plano artístico –, deixo aqui aos leitores e ouvintes uma enorme consideração. ”

Parte_1

Agradeço a:

Deus, Mamãe, Alexandre (irmão), todos os meus professores, todas as pessoas que trabalharam comigo, meus amigos, colegas músicos e artistas, apoiadores e apreciadores. Flávio Aguiari (em especial) e a uma pessoa que, sem ela, esse trabalho não se concretizaria: Raquel Rezende.

[2001].

POEMAS

Como quem herda não furta

herdei de meus pais

coração e alma

De minhas mães

valentia e vigor

e isto me basta

me farta.

[1994], herança

Arteiros

Posso ovi de longe

ela cantando meu nome

Mamãe t’chamando

arruma essa franja

os canto da boca

tá sujo de manga

óia lá

não vai falá da chácara

nem do tiro de chumbim.

Dentre minhas espadas

não, não tive espadas

tampouco revólveres

E fui ladrão

de um brinco

e um litro de leite

Não possuía spray

mas fui vândalo

em minha escola

Dividi uma bola

um lance

sonhei como todos

hoje sou poeta e estudante.

[1999].

Santa Luzia de todo o mundo

Beco do Brasil,

da África.

Rua Japão, Israel,

Rússia.

Avenida States,

Das Indústrias.

Estrada velha asfaltada

Barrenta cheirando à cachaça

Trem trilho

mel milho

estribo, extravagante

esterco

Trem trilho

mel milho

casas casarões

barracos.

[2000].

Da região metropolitana

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea

conheço enxada mas nunca usei

e não me lembro de ter decepado capim

Tenho uma máquina sim

Gosto de cavalos, porém

tenho medo de montar

de gado nada sei mas,

quando trêbado

puxo os rabo das vaca

E a boca da calça

anda borrada de batom vermelho

das poças de água

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea.

Resposta

Ninguém saberá

sobre os quilômetros que ando

do peso que carrego

dos quilos que perco

Os números?

Sei apenas lê-los

Perdão se gesto

palavra

espaço

tempo

ação

não meço

Deixo de lado

até mesmo o sucesso

mas o espírito-paixão

não desprezo.

Parte_2

Homemgasto

Como seria o sentido da vida

para aquele homem que me oferece café?

aquele homem que mata minha sede com sua água

Agachado ali na rampa da entrada

misturando gíria com dialetos da roça

Qual é, para ele, o sentido da música

que vara o portão e cadencia meus passos?

O que pensa ele, ao olhar-me com os olhos

de minha gente, sobre o trabalho que faço?

Posso é somente imaginar

o que o trabalho fez com a vida

desse Homemgasto

“Psicológico”

O frio é psicológico

assim como é da psicologia

a alergia de lã

e a dor que a medicina

estampa no seu nome

A fome e a seca

são psicológicos quanto o medo

É psicológico o atrito

entre o religioso e o cientista

o refúgio de Kosovo[1]

a corrida armamentista

a ignorância do povo

os alunos assassinos

e todos os versos acima.

Canção para crise

As bolsas cheias de nenê e xistose

A miséria e a corda no pescoço do pai

Quem promete a melhora

tem moeda no bolso

E nós? Misericórdia Senhor!

Misericórdia de nós!

Batendo na bunda de quem passa

Quem passa leva um tapa no bolso detrás

É pobre, é pobre também!

Vá roubar, vagabundo, de quem tem

O bolso cheio de poesia em pó

A viola atira som que não mata ninguém

Boca manda palavras que não saram

Sarin: paralisia da massa.

Etária com ombro

Olha lá a ciência presumindo as batidas

durante a vida, uma vida qualquer.

Pegada a cambalear, fungar entrecortado

Soando em seu terreno, longe da teconoavançada

Tem sangue vermelho, corpo sem orifícios de borracha,

sem canudos – enfermo. Tem sete vidas.

Nasce e renasce das cinzas mais rápido do que humano

do que o tempo ou qualquer ação física,

Mistura-se com a terra

Fica pardo, forte, rico

Encorpado de raças

civilizações e ritos.

Prossegue…

Socorre-se de água, comida,

descanso e abrigo

Combate: famintos tigres

Suporta: carregadas nuvens

Degusta: delicadamente

Súbitos lagos límpidos.[2]

Parte_3

Violoncelo

Som de berrante rouco

Urro de boi quase morto

Quando o tocador acelera

arrepio

Belo brio!

Revanche!

Cai a velocidade

volto a amar a derrota

Corto a noite em versos

Morro!

Pela manhã é violão

à tarde,

violoncelo.

 

Sem título

o poema que plantei

em seu nome

ela não me devolve mesmo

muito eu gostaria

de extrair da mente

uma estrofe

…mas a memória salva-me um verso:

“amar em pé de igualdade.”

[março de 2001].

Ficar

Devo a você

letras de ouro,

devido ao poder

que arrumei nos dedos

ao tocar seus cachos dourados.

Contudo, ofereço-lhe

estas perplexas aqui,

pois bobelado fiquei

da surpresa de lhe conhecer

assim… tão pouco e de súbito

Meus olhos apuram

estas linhas

torcendo por um

daqueles nossos

encontros fortuitos.

Segundo Plano

Sonhei os mil elogios

que saem dos seus olhos

e com o brilho

que parte de seu sorriso.

Seus lindos pés maternos

ao suportarem dois corpos,

de longe me fascinam

De perto?

eliminam todo o nosso primeiro plano.

Ai! Vontade de usar de cafajeste

em vez de força-bruta-coração!

Então surgem retas, círculos

quase que em forma de coraçõezinhos.

Rolam gestos, palavras surpresas,

possíveis trocas de objetos

e mais reciprocidades

… e aí eu paro por aqui,

Pois já não mais consigo

expressar-me através de

tais códigos.

Parte_4

Meus poemas

Simples poemas

Tortos e destinados

ao matadouro

Que nasçam meus poemas

Que nasçam

Esse é o único voto

de um orgulhoso pai

semi-analfabeto.

[novembro de 1999].

Canção-poesia

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação da língua,

a insônia estão aqui na minha poesia

Será lida como anúncio de jornal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

um verso

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação dos sons,

a insônia estão aqui na minha canção

Será ouvida como barulho infernal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

uma melodia

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

ESTUDO DACTILOGRAFÔNICO[3]

vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô   verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  poisé  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia po

Babacanetababa

Babapelomenos

Babacanetababa

SoutristepremiadoDesgraçadofeliz

                                             Poetizo

[4]

Pentagrama

Sobre poesia

aprendi com um amigo-vizinho

conversar fiado sozinho…

Canções

CANÇÕES

Nos sinais

Deus branco nu olhando por uma criança negra

e uma branca fugindo de um demônio vestido de capa preta

Tv a teleguiar os olhos negros de uma índia

e uma daquelas amarelas trocando um chip

Uma ele, uma ela

de barriga cheia esperando mais crianças

sem barriga, sem pança

das que cansam de esperar a hora

das que jogam pedra, fumam pedra, jogam bola, dão bola

cheiram à fralda, cheiram coca, cola

das que correm, dormem, morrem, pedem, roubam

pé-de-cana, mão-de-caneca, pé-de-erva

das que não pedem para nascer

Maria que não queria família com filhos filhas

ouvindo: quem não crer, não quer criar, que não dê cria

Eu vi nos sinais sem tempos verbais

Quem é que vai relar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Quem é que vai acionar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Temorte (na sua área)

Mataram um cara na sua área, meu irmão

E eu nem sei bem se vi ou se ouvi falar

Só sei que a cena tá aqui no meu inculcar

O revólver cuspindo, a bala entrando

O corpo caindo, meu xará

O ferro cuspindo, a azeitona entrando

O presunto caindo, meu xará

E antes da polícia, a família da vítima a chegar

O chôro da mãe, a careta do pai

Desespero da irmã do rapaz

E isso num dia cinzento

Chapiscado com chuvisco

E o povo a comprar pro Natal

Não é época de se indignar

Além do mais, também, aliás

Isso tudo é “normal”.

 

Zumzumzum Zimzimzim[5]

Toda noite pousa um mosquitinho aqui

Em cima da minha folha e dança

Sobre a pauta, breca na pausa

Valsa em volta de mim

Zumzumzum zimzimzim

Zumzumzum zimzimzim

Ouve-me até o fim

Como quem pensa

Entende o meu lance

Compreende a maior

A menor frequência

De todos os ângulos:

Tarraxa de baixo

De cima do braço

Voando, montado

A cavalete

Oh! Deus, vigie essa criatura minúscula

Dá a todas as vidas o imenso prazer da música.

 

Ô Bach

Ô Bach! Eu vou roubar tuas notas

Quando baixares em mim

Mozart! O teu olhar agora é meu

Os dois acordes que eu tenho aqui

São repetidos e sempre se repetirão

Porque a música, Bach

Porque a música, Mozart

É uma mentira!

Ô Bach!

Pede a Deus que me ouça!

E mande um raio na caixa de som

Mozart!

Manda um anjo cortar minas mãos!

Porque o músico, Bach

Porque o músico, Mozart

É uma mentira!

Me tira, me tira, me tira daqui!

Todas as notas são repetidas, todos os textos…

Todas as frases e melodias, todos os caprichos…

Todos os ritmos e arranjos, todos os trechos…

 

 

Não há um violão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher

Amei e quando desamei

Corri pr’esse braço só

Compensação: uma voz polifônica

E muito mais polida que meu coração

Confesso sim

Não converso sozinho não

Mas não há… volto ao refrão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher.

Avião de luxo

Aquele avião de guerra que voava

Sobre a Rua Ituverava, procurava

U’a mulher que era faxineira dum

Supermercado bacana

Uma fita adesiva serviu-lhe de cinturão

Para sair carregada de batom, shampoo

Creme rinse e creme para as mãos

Na meia soquete balas e chicletes

Para um irmão mais novo

Em casa ela só tem arroz e feijão

Óleo e macarrão, manteiga e pão murcho

Ainda há quem diga que o que ela queria era luxo

Pois aquele avião de luxo que voava

Sobre a Rua Ituverava…

Ele vai achá-la lá na Praça Sete

Ela vai picá-lo lo todo no canivete.

 

Do apá virado

Me disseram que você já passara do ponto

Eu fui com o trigo e você voltou com o pão

Eu fingi amigo e ganhei um beijo na escuridão

Já ouvi falar, já ouvi falar

Da sua fama na Rua João de Sá

Já ouvi falar da sua fama

Na Avenida Joaquim

Agora diga:

Se realmente tem algum amor por mim

Se realmente tem algum amor por mim.

Fili

Dispare o tiro, toque o sino

Com licença tio, com licença tia

Mamãe postiça me chama

Dispersando canja no ar

Ar livre, ar leve, me livre, me leve

Me faça pole position

Lá fora se a fila não dobra a esquina

É por sorteio

Deputado reivindica

Saúde internada, ensino em tenda

Clientes da reforma no PROCON

Agricultor descadastrado

Clim’eaça a safra e as nuvens que pas’são

De famintos gafanhotos

Eu digo põe, põe, pois…

fili mãe tem cartão credi-canja master-sopa[6]

na mão

Até mãe, tenho de ir embora

Amanhã é dia de Vietnã

Já deu a minha hora, a do meu país eu não sei

A mãe terra gera seus filhos e é morta

Filhos sem mãe, órfãos de guerra.

 

Culpa

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Injeção de tais palavras

Fonadas no ouvido

Algemou-me, debruçou-me na mesa

Como explicar pro lápis

Preso em margens, perdido em linhas

Desapontado, pálido e incolor

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Quando fecha, incha e seca

Quando abre, rega e aflora

Se se zanga, embica

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Como dizer dos meus ditos

Pros escritos que escrevi pra ti?

Narua

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, arrota trovão!

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso namorar

Na rua eu posso beijar

Porque a rua, a rua não é sua!

É o puro caminho de quem quer se expressar

Um mar de quarteirões onde navegam guardas e vilões

E seu filho beco, bequim; e seu filho corgo, corguim

Conhece? Não, não recebem sermões

A rua, minha senhora, não é moça

Moça não, é dona!

A rua, meu senhor, é rapaz que não precisa de zona

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso reclamar

Na rua eu posso esbravejar

Porque a rua, a rua não é sua!

A rua, a ruinha, a ruaça

A rua, a ruinha, arruaça

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, cospe vulcão!

Cata-vento[7]

É que sou pipa, mutuca

Em mãos desconhecidas

Taquara de meio, vareta de enverga

Sou pipa, papagaio

Empinado com linha de aço

Cerol nenhum me corta

Ou rasga minha barbela

Quero me mandar daqui

Ficar perto do sol

Sei que corro o risco

De acabar ao chão, ao chão

Soltar da manivela

Remexer rabiola

Voar e voar

Me embolar nos ventos.

 

 

Neanderthal

Eu quero uma chance, ninguém me dá

Eu quero cantar, dizem que não sei

Cabelo dispara a crescer: animal!

As unhas, perguntam: pra quê?

E o tamanho dos olhos? E da boca?

Lobo mau! Lobo mau!

Meu objeto é mexer

Com sua alma um pouco

Essa é a idéia de cor

Não arrancar seu suor

Nem lhe jogar no forno

Eu quero tocar corações

Me chamam de homem do mau

E meu instrumento de pau

Neanderthal! Neanderthal!

Chega mais

Não pego, não mordo

Sou racional

Carne, osso

Açúcar, fel

Limão e sal

Pode vir

Não tenha medo

Não me faça mito

Sou desse mundo

Tá legal? Tá legal?

Notas

[1] Página 10. Referência ao conflito étnico-cultural entre albaneses e sérvios na região de Kosovo.

[2] Página 12. Estrofe utilizada posteriormente na canção “à espreita da aurora”, disponível em youtube.com/user/Lopesdelarocha.

[3] Página 16. Jogo fônico-formal. Só depois descobri que o Décio Pignatari tem algo parecido composto em 1977. É de fato influência dos concretistas por meio de livros didáticos de Língua e Literatura da década de 1990. Poema composto durante exercícios do curso de datilografia.

[4] Página 16. Grupo fônico da frase no pentagrama. Clave substituída pelo emblema do movimento anarquista. Frase expletiva exprimindo afirmação dúbia.

[5] Página 19. Esta canção inspirou uma outra intitulada “Tatame”, que integra o álbum “à espreita da aurora” de 2014.

[6] Página 21. “Credi-canja Master-Sopa” é expressão criada por Eder Jack de Andrade Silva na fila para servir a merenda da E.E Raul Teixeira da Costa Sobrinho, também em meados dos anos 90.

[7] Página 23. Letra da canção Cata-vento foi musicada e cantada por Flávio Aguiari na primeira edição em 2001.

Créditos

(Poemas e canções)

172.199.289-345 FBN

4124-105-030 E.M.D.A

C.I Nº 408 FBN

Capa e ilustrações 1º edição: Lopes C. de la rocha

Ilustração nº 03: Raquel Rezende

Voz e violão: Lopes C. de la rocha

Voz em ‘Cata-vento’ (Part. Especial): Flávio Aguiari

Gravado do Studio Plug-In em 09 e 15 de maio de 2001

CD reproduzido por Studio R&T

Impressão 1º edição em 2001

Edição independente e autofinanciada

2º Edição em pdf: Pingo de Ouvido. 07/07/17

Santa Luzia & Belo Horizonte, Brasil.

Canais do autor:

www.pingodeouvido.com.br

www.youtube.com/user/Lopesdelarocha

Contato:

contato@pingodeouvido.com.br

Lançamento nos mares da rede…

Lançamento nos mares da rede

poemas e canções,

cr. lopes cançado de la rocha

[2001]/(2017)

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

Maracujá, flôr da Paixão

Maracujá, flôr da Paixão

Flor da paixão

Além de sua família, vovó adora também plantas, animais, crianças e poesia. Na verdade, ela adora tudo o que é bonito, ela diz que é “fã da beleza”, seja a beleza material, seja a espiritual. Ela é capaz de ficar horas e horas admirando uma flor, olhando para o céu estrelado ou ouvindo o canto de um pássaro, como é capaz também de chorar de pura emoção ao ouvir contar de um gesto nobre, de um esforço sincero ou de um gesto de amor ou de perdão.

Agora, o que ela gosta mais do que tudo é de escrever, contar estórias, e principalmente, de fazer poesias. Todos os netos já têm uma poesia sua. No fundo do quintal há um grande caramanchão de palha por onde sobe um lindo pé de maracujá. Uma vez, quando ele estava todo em flor, vovó mostrou essa flor, também chamada “flor da Paixão”, é estranha e linda. Ela dá na época da Quaresma, é roxa como a Paixão, e tem todos os símbolos do sofrimento de Cristo: a coroa de espinhos, a cruz, os cravos com que ele foi pregado e a lança que abriu seu lado esquerdo. É uma verdadeira jóia da natureza.

Lá nesse caramanchão, de vez em quando, vovó gosta de reunir os netos e contar-lhes estórias; às vezes são estórias de imaginação e fantasia, com aventuras de fadas e bruxas, outras são estórias verdadeiras, “casos” acontecidos de verdade, que são igualmente interessantes. Aliás, ela diz que a verdade é mais extraordinária que a ficção, que as coisas mais assombrosas e mais incríveis não são tiradas da fantasia e, sim, da realidade…

Maria Alice Penna de Azevedo, “Domingo é dia de folclore”. Introdução. Sobre Vovó Lita. P.6. Editora Paulinas. 1988.

NECESSIDADE DE ESTUDAR OS ANTIGOS ESCRITORES


Castilho

Necessidade de estudar os antigos escritores

Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875)

            Mancebos (se os há aí que se dêem às letras), vós que encetais a mui árdua e perigosa vereda que pelas letras conduz à fama, seja qual fôr o gênero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejam mais forem os louvores que os velhos na arte vos concedam, e os aplausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de aparecer: os conselhos que Horácio vos deu duram com toda a força que a natureza e a prática lhe bafejaram. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove anos, chamar e tornar a chamar dez vezes à unha a obra já perfeita. O amor próprio nos persuade e impele a aparecermos cedo: devia dêle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas.

Trecho retirado do Livro “Conheça o seu idioma 6º volume” CIL S.A (1971), de Osmar Barbosa.

Uma noite nos bares

Uma noite nos bares

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Nessas horas que sinto falta dos chateados que não me ouviam. Aqueles que em meio de nós viviam reclamando do tal consumismo. Não há mais sentido para essas reclamações, pois sumiram os empregos, a renda, o crédito e o dinheiro em espécie. E a praça está pobre também em outros sentidos.

Não há mais mesas floridas de garrafas grandes onde os bebedores compartilham com copos lagoinha (americanos). Agora cada um com sua garrafinha individual. Ninguém confia em ninguém para dividir a conta. Ao perguntarmos por que não se divide mais as garrafas grandes, a desculpa vem aos farrapos: “ a garrafa grande esquenta na mesa”. Ora, esquenta porque não se oferece um copo ao próximo. Se não há oferta, não há partilha; se não há partilha, não há conversa. As crises silenciam os homens.

Os serrotes de longe já são rejeitados. E os pães duros que não doam nem sequer um cigarro se apoiam na impaciência. Aliás, é muito valiosa a paciência dos injustiçados que perderam sua felicidade por entre as falsas ilusões políticas e econômicas.

Mas aqui e acolá pipocam uma e outra discussão calorosa da noite. Divergências sobre noticiários e preferências, desentendimentos, velhas rixas de paixões clubísticas, incompreensões, denúncias de acusações, acusações de denúncias. As comidas e os tira-gostos, com ingredientes mais em conta, vão convencendo os paladares já esquecidos de tempos melhores. As mãos carinhosas que preparam as refeições e o sorriso alegre atendendo sem nenhuma depreciação. A esperança ainda está viva na boa intenção da capacidade humana.

Triste é ver a rapaziada das antigas como animais noturnos, revirando lixeiras, implorantes pedintes do comércio de narcóticos; espiritualmente em guerra com Deus e suas famílias. “Como vai seu pai que há muito não vejo no ônibus da integração das oito e quinze? ”, eu pergunto. O filho, drogado, ignora a pergunta e vem logo me contar a vantagem dum suposto padrinho malvado e assassino cruel. É dependente não só químico como existencial, coitado.

Que doces bárbaros libertários e sensíveis poderiam prever uma situação dessa?

bares

Raimundo de Farias Brito-Brasileiro filosófico

Pensador singular brasileiro, Farias Brito propôs uma filosofia do Espírito não reducionista sistematizada em seu livro O Mundo Interior.

via O mundo interior de Farias Brito — Ensaios e Notas

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida- Crítica

 

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida

 Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

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Já são muitos os analistas e comentaristas sobre tudo. Até gosto de ouvi-los. E depois fico pensando, dou uma volta na vida lá fora e venho aqui escrever.

São verdadeiros caminhões de conhecimentos que vão sendo despejados nos buracos da rede mundial de computadores. Quem não calcula o desaterro se complica no aterro. Se não delimita o espaço, o mundo nos parece mais vasto do que é.

E só podemos abraçar um amor de cada vez. Mas as paixões são tantas que o conteúdo escapa ao contentor e se precipita no desperdício. Derramam-se as opiniões, explicações, curiosidades, exposições inúteis e o pior de tudo: as… fa-ci-li-ta-ções! Quanto mais se facilita menos se compreende e menos gôsto tem o aprendiz. Os facilitadores escondem as fontes saudáveis, os tratados, os métodos, as didáticas e os manuais consagrados. Fecham as possibilidades de arranjar a razão, o coração e o espírito de quem busca. O máximo que dão é uma referência aqui e outra ali. Exaltam o acúmulo de experiências e vivências, coisa que tem lá sua importância, mas não é nada sem o essencial.

Que esconder os tratados, os métodos e desestimular a disciplina sempre foram táticas dos governos e empresas de instrução e treinamento todos nós sabemos, mas logo nossos internautas “influenciadores” ___ esses que sonham sociedade melhor ___ negligenciarem o fato e ainda contribuírem para  esse mal!?

O aterro é útil para nivelar os espaços e aproveitar a superfície. Mas a edificação se sustenta pela estrutura de fundação cravada na terra boa e natural. A fundação é na casa o que é a raiz na árvore. A casa forte proporciona lar saudável e oferece à família e à comunidade bons filhos. A isso corresponde a raiz robusta e a árvore firme com suas belas flores e bons frutos.

Para o estudante, a “terra natural ou pouco remexida” sãos as fontes primevas, os tratados, os métodos, os manuais úteis, os clássicos consagrados. Essa argamassa duradoura e bem dimensionada, esses moldes elaborados pelos primeiros homens que levantaram a civilização não podem ser substituídos por avalanches de teses, monografias, biografias, ensaios, artigos, citações intertextuais, nomes famosos, opiniões emotivas e conteúdos gerenciados por ideólogos a serviço de bestas poderosas…

Será justo esconder nossos tesouros em nome da fama pessoal, da exposição contínua ou em nome da miséria que a World Wide Webe  e a Google remuneram? Façamos essa pergunta aos internautas empenhados em contribuir para nossa inteligência.

contato@pingodeouvido.com.br

Mulheres Únicas – Poesia

 Mulheres Únicas

 lopes al’Cançado de la Rocha, o Cristiano

imagem-mulher

Numa só mulher estão todas as outras
Numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
Ainda que escondidos
Têm beleza sertaneja, meiguice morena
Clara maciez, negritude amorosa
Assentam-se na escadaria da Igreja
Debruçam-se nas janelas
Enamoram-se nos bares
Passeiam pelos clubes
Encontram-se nas cavalgadas
Desfilam-se nos shoppings
Amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
Percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
Nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
Nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
Um dia, sua mulher esteve numa canção
Numa história não sua, numa infância platônica
Todas as mulheres estarão num só romance
Queimam numa só paixão, numa só saudade
Gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

Ensinar-nos o que é ser mulher,

Despertando-nos adolescentes paixões

Elas são únicas em si e sempre as mesmas

Dividem-se quando só

Multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
Mulatas de alisados loiros
Ruivas com tingidos castanhos
Cafuzas de trançados negros
Estéreis e felizes; férteis e entristecidas
Sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
Mulheres policiais, guardas e sargentos
Mulheres soldados rígidos
E delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

Um mesmo desespero quando em desamparo

Sem um irmão, sem um filho, sem um pai

Sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
A velha virgem num leito de morte
Sonhando-se no altar à espera do noivo
Cortam nas maçãs de seu rosto
Duas lágrimas e explodem na cama
Como se arrebentam no mundo
Estrelas desprendidas do Céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
Pechinchando e fazendo compras
Com seus corpos __ velas de cêra
Cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e Religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
Na estação do trem e do Brt
São despejadas aos milhares:
Brotos e botões
Expansivas e acanhadas
Murchas e desabrochadas
Verdes e “de vez”
Maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

De rancor e arrependimento

Confundiu um caso passageiro

C’o  homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
De corações aos vômitos
Pelo ópio das ideologias
Invertem Romeus em Rômulos*
E sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

Com diferentes almas

Corpos e espíritos;

Com parecidas origens

E semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
Por uma única mulher,
Já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única
Não vale à pena trocá-la por Outra
E nem às outras é justo enganá-las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

       ***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

Caso exemplo, “o boi”

Caso exemplo, “o boi”

pastando-como-bode

AON, um jovem de 19 anos, procurou-nos no Centro de Orientação Sobre Drogas José Elias Murad (COSDJEM) encaminhado pela mãe. Perguntei-lhe que droga estava usando, ele respondeu:

__ “Boi”.

__ “Boi”?, o que é isso?__ Perguntei.

__ Uai, professor, o senhor não sabe o que é o “Boi”?

É o xarope.

__ Xarope? E por que você chama o xarope de “Boi”?

__ Porque você toma e fica… “pastando”…

 

 

Texto: José Elias Murad,  Drogas: o que é preciso saber, editora lê,1997. Imagem: homem ganha prêmio por viver pastando como um bode.

Lúcio de Mendonça

Crítico comenta sobre poeta da nova geração

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O que eu dizia em 1878 a este poeta, dizia-o em 1872 ao auctor das Nevoas matutinas. Não dissimulei que havia a sua primavera mais folhas pallidas que verdes; foram as minhas próprias expressões; e argui-o dessa melancolia prematura e exclusiva. Já lá vão sete annos. Há quatro, em 1875, o poeta publicou outra collecção, as Alvoradas; explicando o título, no prólogo, diz que seus versos não têm a luz nem as harmonias do amanhecer. Serão, accrescenta, como as madrugadas chuvosas: desconsoladas, mudas e monótonas. Não se illuda o leitor; não se refugie em casa com medo das intempéries que o Sr. Lucio Mendonça lhe annuncia; são requebros do poeta. A manhã é clara; choveu talvez durante a noite, porque as flores estão ainda humidas de lagrimas; mas a manhã é clara.

A comparação entre os dous livros é vantajosa para o poeta; certas incertezas do primeiro, certos tons mais vulgares que alli se notam, desappareceram no segundo. Mas o espírito geral ainda é o mesmo. Há, como nas Névoas matutinas, uma corrente pessoal e uma corrente política. A parte política tem as mesmas aspirações partidárias da geração recente: e aliás vinha já de 1872 e 1871. Para conhecer bem o talento deste poeta, há mais de uma pagina de lindos versos, como estes, Lenço branco:

Lembra-te, Anninha, perola roceira

Hoje engastada no ouro da cidade,

Lembras-te ainda, ó bella companheira,

Dos velhos tempos da primeira idade?

Longe dessa botina azul-celeste,

Folgava-te o pézinho no tamanco…

Eras roceira assim quando me déste,

Na hora de partir, teu lenço branco;

ou como as deliciosas estrophes Alice, que são das melhores composições que temos em tal genero; mas eu prefiro mostrar outra obra menos pessoal; prefiro citar A família. Trata-se de um moço, celibatário e prodigo, que sae a matar-se, uma noite, em direcção do mar; de repente, pára, olhando atravéz dos vidros de uma janella:

Era elegante a sala, e quente e confortada.

À meza, junto à luz, estava a mãe sentada.

Cosia. Mas além, um casal de crianças,

Risonhas e gentis como umas esperanças,

Olhavam juntamente um livro de gravuras,

Inclinando sobre elle as cabecinhas puras.

Num gabinete, além, que entreaberto se via,

Um homem __ era o pae __ calmo e grave, escrevia.

Enfim uma velhinha. Estava agora só

Porque estava rezando. Era, de certo, a avó.

E em tudo aquillo havia uma paz, um conforto…

Oh! A família! O lar! O bonançoso porto

No tormentoso mar. Abrigo, amor, carinho.

O moço esteve a olhar. E voltou do caminho.

Nada mais simples do que a ideia desta composição; mas a simplicidade da ideia, a sobriedade dos toques e a verdade da descripção, são aqui os elementos do effeito poético, e produzem nada menos que uma excelente página. O Sr. Lucio Mendonça possue o segredo da arte. Se nas Alvoradas não há outro quadro daquelle genero, póde havel-os num terceiro livro, porque o poeta tem dado recentemente na imprensa algumas composições em que a inspiração é menos exclusiva, mais imbuída da realidade exterior. Li-as, á proporção que ellas iam apparecendo; mas não as colligi tão completamente que possa analysal-as com alguma minuciosidade. Sei que taes versos formam segunda phase do Sr. Lucio Mendonça; e é por Ella que o poeta se prende mais intimamente á nova direcção dos espíritos. O auctor das Alvoradas tem a vantagem de entrar nesse terreno novo com a forma já trabalhada e lúcida.

Crítica Literária, a nova geração: sobre o poeta Lucio de Mendonça. Revista Brasileira, II, 1879.W.M. Jackson Inc. Editores, São Paulo, 1938. Págs. 240 a 243. Joaquim Maria Machado de Assis.

 

 

A alma du’a mulher na beira do rio

A alma du’a mulher na beira do rio

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História contada por habitantes da cidade de Leandro Ferreira/MG, numa região próxima à fazenda conhecida como “Fazenda do Souza”, isso por volta de 1955. Voz da gravação: Dulce Francisca Lopes Cançado Lobato.

Coração de pai

Coração de pai

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

M3367S-4507

CERTA feita, um texto meu foi criando rabo. Eu fiquei meio sem saber o que fazer. Deixei-o dentro dum caderno, sob outros cadernos, livros e apostilas. Com o correr do tempo, resolvi procurá-lo. Achei. Havia já perdido o rabo e criado pernas. Aquilo me estarreceu completamente. Assombrado deveras fiquei quando me percebi focado por um punhado de olhinhos. Cada letra “o” era um. Aspas eram cílios. O diabinho desgramou a pirraçar. “Contraíra doença de livros”, pensei, “ e agora?”

Patinhas como as dos antiguíssimos peixes não se demoraram. Teve a quem puxar quanto as orelhas. Eram idênticas às das minhas agendas; e quão idênticas! Testa quadrada, estilo margem superior de papel almaço; e a pele meio que com rugas de papel reciclado artesanalmente.

Verdadeiro espetáculo da evolução gráfica. Seu engatinhar era a coisa mais linda, a vontade de caminhar nem me falo: passos trêmulos sobre a pauta. “Que lindinho!”, diria algum tio solteirão.

Fez golfar alguma tinta. Pirraça. Fez sem vontade, quase não fazendo, e disparou – ao que me pareceu – a rezar idéias. “Donde vêm suas prévias concepções?”, perguntei-me. “Donde vêm? Poucos objetos ao seu dispor, quase nada familiarizado com sons ou sinais, nem tampouco com arranjos e convenções. Como pode isso gente?!”. Não era possível. Não poderia haver naquela criatura nenhum pensamento. Talvez alguma longínqua memória de outras encarnações, isto é, “encadernações”.

Veio à hora em que ele se atreveu. Deu para falar – pelas entrelinhas – disparates jamais ensinados por mim. O bichinho foi crescendo e a coisa se complicando.

Deixei aquelas jabuticabinhas mágicas olharem-me por algumas noites. Não conseguia acreditar no que tinha inventado ou no que havia permitido inventar-se. E a cria foi necessitando criação, correção e, é claro, outros companheiros textuais. Pedia argumentos contrários a fim de se debater, de se repensar. Repetia em defeituosa dicção e de maneira infeliz: “_Sinto-me inadequado, principalmente quando sonho com meus antepassados. Fico sem assunto às vezes.”

Senti o amor e a compaixão que se dá entre pai e filho. Tinha a obrigação de recuperar a dignidade do meu rebento.

Desesperado, eu recorria aos esquemas e mecanismos e técnicas. Ordenava ao tubo cilíndrico da caneta, contudo não havia mais carga. Em pouco, a esfera não deslizava ao campo branco. Eu chacoalhava, esquentava o acrílico e nada; e soprava pela tampa, e outra vez nada. Cheguei a ver, mediante a translucidez do tubo, algum vestígio de letras. Pura ilusão! É essa coisa do operário ver no instrumento alguma esperança de trabalho.

O filhote me dizia: “Eu não pedi pra nascer!”. Eu respondia de chapa: “Não valeu à pena trazer-lhe à luz da página! ”. Passamos a andar a tapas e aos cuspes. Teria eu de parar por ali mesmo. Então eu disse por fim:

“Respeita seu pai, menino! É uma coisa ou outra: ou você volta para entre os maços da gaveta, ou vai morar na rua! ”

Dicas para boa interpretação textual

SUGESTÕES PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

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Professor Adolfo Murilo, Santa Luzia-MG (1992).

  1. Considerar o texto como um ponto básico para as respostas, mas jamais uma fonte de solução para as questões; 
  2. usar da prática de produção de textos , da leitura de bons autores , boas obras e incrementar, bem como atualizar o vocabulário;
  3. Saber que todo texto retrata uma realidade por mais remota que seja;
  4. ter conhecimento de que uma interpretação é sempre trabalhosa, pois esta exige muito raciocínio por parte do leitor;
  5. procurar entender bem as questões, depois resolvê-las;
  6. evitar a extrapolação, pois esta se constitui em um grande erro de interpretação;
  7. não confundir reprodução e transcrição de texto com interpretação;
  8. ler o texto quantas vezes necessárias, ainda que seja para responder uma única questão ou resposta;
  9. ter consciência que responder com as próprias palavras nem sempre se alcança o objetivo desejado;
  10. não confundir resposta pessoal com resposta interpretativa, pois aquela representa uma simples opinião e esta uma solução abrangente;
  11. ter conhecimento de leitura vertical e leitura horizontal, pois uma tende para o concreto dito, a outra para o abstrato e entredito;
  12. ser minucioso e calmo ao responder qualquer pergunta ou questão, pois de forma precipitada, jamais alcançaremos o objetivo desejado;
  13. ter conhecimento da função dos conectivos quando as perguntas ou questões os exigirem ( expressões de sentido afirmativo, hipotético, adversativo etc);
  14. saber identificar e diferenciar os tipos de texto quanto a seu conteúdo: filosófico, científico, literário, jornalístico, didático, etc;
  15. identificar o tom da fala do autor (humor, seriedade, ironia ), bem como a linguagem por ele escolhida ( coloquial, formal), pois estas influenciam diretamente nas intenções e nos sentidos de suas colocações;
  16. Estar atento às intenções do autor (informar, instruir, conscientizar, provocar, criticar) e, se possível, correlacioná-las aos aspectos de sua formação e origem;
  17. ser claro ao redigir respostas, pois isto facilita o entendimento e a correção por parte do avaliador;
  18. saber que uma resposta subjetiva nada mais é do que a busca de uma resposta objetiva dentre quatro ou cinco proposições;
  19. ter aspecto lógico como fator primordial, levando-se em consideração outros aspectos tais como: psicológicos, sociológicos, econômico-sociais etc;
  20. ter certeza de que a tarefa de interpretar é bastante individual, mas o resultado tende para um ponto de convergência que é a resposta lógica de toda questão em evidência;
  21. saber que a interpretação é o resultado do comportamento e atitudes do ser humano, em confronto com seu semelhante, diante das circunstâncias que os rodeiam;
  22. o nível de interpretação de um  grupo social deve condizer com seu grau de instrução;
  23. ter consciência de que saber interpretar é desenvolver um processo muito importante para o crescimento intelectual e espiritual de cada um.

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

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 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

honorários

Pl. subst. de honorário.]

Substantivo masculino plural

1.Remuneração àqueles que exercem uma profissão liberal;

2.P. ext. Vencimentos, salário, remuneração. ~ V. honorário.

cachê

[Do fr. cachet.]

Substantivo masculino

1.Ordenado de qualquer integrante de companhia teatral, cinematográfica, de televisão, etc.:

2.Pagamento feito a qualquer pessoa que se apresente em espetáculo público ou que participe de anúncio. [Cf. cache e cachés.]

Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. Edição eletrônica autorizada à POSITIVO INFORMÁTICA LTDA.©2004 by Regis Ltda.

Agora que se tornaram mais nítidas as “subterrâneas guerrilhas”; agora que conservadores, liberais e libertários dos mais diversos graus se organizam na sociedade civil disputando com socialistas e coletivistas os espaços públicos e coletivos, os veículos de comunicação e as audiências, enfim, ruas e estradas; praças e palácios; templos e mercados; clubes e escolas têm se transformado em arenas que transpiram pluralidades político-ideológica, cultural e religiosa.

Em meio a essas “guerrilhas”, no meio desses fogos cruzados pela disputa do controle das pautas e temáticas estamos nós, os trabalhadores, empreendedores e profissionais da cultura artística, interessados em preservar tradições, inovar e oferecer à coletividade nossos serviços. Sem “maneirismos”, embora cada qual se identifique livremente com determinadas correntes e confissões.

Dos que já não foram muitos estão sendo convidados a erguerem bandeiras e a postar-se em tal ou qual lado na política, nos movimentos de lutas, em favor de religiões etc. É natural que aceitemos e façamos nossas escolhas com base em interesses ou princípios. Mas é importante conscientizarmos do risco de tornarmos meros instrumentos de causas injustas ou até perigosas e perversas; e do risco de sermos usados gratuitamente, por meio de explorações imorais, na transmissão de propagandas político-ideológicas totalitárias, cujos objetivos agridem liberdades e costumes já consagrados.

O presente trabalho, realizado em 2008 (basta atualizar valores mediante pesquisa de preços praticados conforme a região), visa contribuir no estabelecimento de parâmetros para compatibilizar interesses entre contratantes e contratados, garantindo ao verdadeiro trabalhador cultural uma remuneração condigna.

A cultura artística consiste em um dos campos que mais contribuem para a construção da cidadania em nosso esforço e percurso civilizatório, exigindo dos profissionais atualizações constantes, acompanhamento da tecnologia e muita dedicação, visando aprimorar e melhorar seus modos de expressar, o tratamento com os conteúdos, bem como a qualidade dos serviços prestados à coletividade.

As principais atividades exercidas por profissionais do setor são:

  • aprendizagem e treinamento
  • leitura e concepção
  • pesquisas de campo e documentais
  • composição e criação
  • revisão e adaptações
  • pré-produção
  • ensaios
  • produção
  • promoção e comunicação
  • apresentação
  • pós-produção
  • serviços de secretaria.

A cultura artística apresenta um caráter aparentemente de descontinuidade – emprega-se boa parte do tempo em formação, preparação e pesquisas, isto é, nas etapas que antecedem as apresentações e exposições finais dos trabalhos. Isso causa dificuldades no reconhecimento econômico-financeiro dos serviços, trazendo ao artista a necessidade de atendimentos simultâneos e/ou alternância com trabalhos de outros ramos.

Merecem destaque alguns aspectos relativos à qualificação, aos benefícios, às obrigações e aos custos:

  • os elementos necessários à elaboração de uma obra, de um espetáculo, de uma performance , por exemplo, não são coletados e organizados de uma só vez, exigindo sempre novas pesquisas e diligências;
  • atividade contínua do profissional, objetivando uma remuneração condizente com o trabalho que exerce, de forma a que possa levar uma vida de padrão médio, lhe oferece poucas oportunidades de férias integrais, não lhe dá direito a 13º salário, FGTS nem tão pouco seguro de vida ou aposentadoria conciliáveis com a atividade em seus anos mais produtivos;
  • exige participações em congressos, seminários, palestras, cursos de aperfeiçoamento, aquisição freqüente de livros, materiais didáticos, instrumentos, acessórios, aulas particulares, revistas especializadas e tecnologias, visando uma constante atualização para que o profissional acompanhe a evolução da cultura;
  • requer a manutenção permanente de pequeno escritório com infraestrutura básica, compreendendo computadores, programas, telefone, suprimentos e aparelhos que possibilitem o bom desempenho do empreendimento.

Na maioria dos projetos, além das etapas já citadas, o artista-empreendedor deve ainda realizar outras tarefas e exercícios que nem sempre lhe são creditados quando do arbitramento de seus honorários/cachês, talvez até por serem de difícil mensuração. São elas:

  • contemplação e reflexão
  • experimentação
  • busca de um grau de elaboração de linguagem satisfatório ao público
  • esforço mental e físico para se chegar a certa qualidade técnica e estética
  • escolha do repertório
  • captação de parceiros, colaboradores e/ou coadjuvantes
  • produção textual
  • captação de recursos

Assim, torna-se importante que a sociedade em geral tenha conhecimento das atividades que compõem os ramos da Cultura Artística e saiba dos custos e das obrigações que recaem sobre os profissionais.

Outras considerações:

  • Adiantamento

Qualquer que seja a forma de contratação é justo o profissional requerer um adiantamento de, no mínimo, 30% (trinta por cento) dos honorários/cachês acordados, visando custear despesas iniciais.

  • Cálculo das despesas adicionais

As despesas adicionais para realização dos trabalhos devem ser incorporadas aos honorários/cachês. Entre elas destacamos:

a) despesas com deslocamento e mobilização de pessoal;

b) custos relativos à execução da proposta formal e orçamento, sendo: papel, cartucho de tinta, impressão, arte gráfica etc.;

c) custos com manutenção de escritório, relacionando ao tempo em que o trabalho de contratação se inicia. Podemos destacar: telefone, provedor de internet, energia elétrica, suprimentos de informática e papelaria;

d) custos relacionados ao exercício da profissão e custos administrativos das contratações. Deve-se ratear os custos a seguir entre os trabalhos executados de forma ponderada, proporcional e inteligível. Destacamos os seguintes itens: despesas relativas a impostos, contribuições e taxas, locação de instalações, de mobílias e/ou equipamentos, registro de obras, anuidades de órgãos de classe, manutenção de inventário cultural particular, serviços de contabilidade, cursos de aperfeiçoamento, assinatura de periódicos etc.;

e) custos com viagem: quando o profissional tiver a necessidade de se deslocar para realização de trabalhos fora de sua região, devem ser contabilizados ainda os custos de deslocamento, bem como alimentação, estadia etc.;

f) as despesas de prestação de serviços técnicos de terceiros que envolvam iluminação, sonorização, desenhos, cenários, entre outros, devem ser cobradas com base na tabela de honorários do respectivo segmento profissional.

Cálculo do valor da remuneração e reajustes

Ao calcular o valor de sua remuneração, o profissional deve, também, levar em consideração:

  • quantidade de espectadores;
  • classe de renda do tomador de serviço (contratante);
  • região administrativa;
  • característica do local e tipo de instalações;
  • perfil do contratante;
  • evolução da participação de artistas do mesmo seguimento, modalidade e/ou linha de expressão (variação na oferta);
  • os profissionais podem utilizar índices econômicos como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como parâmetro os grupos educação, leitura e recreação.

Vejamos a tabela abaixo, cujos Valores Médios são expostos com base em levantamentos de características que determinam a formação de preços dos serviços prestados por músicos, dançarinos, animadores de festas, artistas circenses e atores performáticos. Como referência, realizamos pesquisa de coleta de preços na seguinte proporção e forma:

1 (uma) Cooperativa musical: músicos instrumentistas, cantores etc.;

8 (oito) músicos: voz e outro instrumento;

3 ( três) artistas circenses: figurino, malabarismo, mágica e brincadeiras;

3 (três) dançarinos: figurino e performance;

4 (quatro) animadores: figurino, brinquedos leves, brincadeiras e performance;

2(dois) atores performáticos: figurino, cenário portátil e performance.

 

       HONORÁRIOS/CACHÊS POR CLASSE DE RENDA

       VALORES EM REAIS POR ESPECTADOR/HORA

(* valores válidos para artistas que atuam individualmente)

Bairros por classe Bar Restaurante Salão Teatro Cs Show Festa Part. Festa Part.
de renda   P.F P.J
Popular/ Médio 4 (200) 7 (350) 7 7 7 5 (250) 10
Santa Efigênia 7 (350) 10 10 10 15 (750) 7 15
Barro Preto 7 10 10 10 15 10 20
Centro 7 10 10 10 15 10 20
Funcionários 15 20 25 25 30   30 (1500) 40 (2000)
Savassi 15 20 25 25 30 30 40
         Luxo 12 15 20 20 (1000) 25 20 30
                                                                                                                                                      Bhz e RMBH
Os números em parênteses acima dos valores indicam (em reais) o número de 50 espectadores multiplicado pelo valor unitário
 

Considerações finais

A informalidade e a inadimplência, decorrentes de falhas educacionais e morais graves, limitam as oportunidades de crescimento econômico e bem-estar social, além de corroerem a integridade dos cidadãos.

Do ponto de vista material, algumas atividades, como a artística, são relegadas a segundo plano. Isso é constrangedor – sobretudo em países de governos e instituições geridas por partidos e pessoas autodenominados democratas e progressistas, de inspiração social e comprometidos com os trabalhadores.

Há empresas que se utilizam de tais falhas como diferencial competitivo e trabalhadores que desvalorizam o seu próprio papel no universo corporativo.

Empresas (públicas e privadas), produtoras, organizadores e realizadores de eventos são empreendimentos mercantis e políticos, e se aproveitam do trabalhador cultural, do artista. Não se trata, aqui, porém, de converter a inteligência, o talento, as emoções ou o espírito criativo em meras mercadorias precificadas. Consiste na busca de uma justa, se não razoável locação da mão-de-obra, dos bens autorais e patrimoniais.

Se o artista não se apossar do que lhe é de direito, outro o fará. É necessário fortalecer a consciência profissional, especialmente para assegurarmos os direitos e o bem-estar das futuras gerações.

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Memórias sobre crises [lambujas

Memórias sobre crises [lambujas

5 CRUZEIRO

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Naquela manhã o bairro acordou cedo e calado. Ouvia-se o canto dos pardais novamente. Nenhum som musical saía pelas janelas. O silêncio e o diálogo contido, geralmente, sinalizam as crises econômicas dum país, a restrição de crédito e, conseqüentemente, de consumo.

Na avenida rufavam pouquíssimos motores de automóveis e motocicletas: o preço do combustível foi aos céus.

Eram tristes até o arrulhar dos pombos, pois o dono da Mercearia 36 passou também a regrar-lhes o milho. Os alcoólatras – de pernas inchadas e feridas nas mucosas, sem reflexos e decadentes – que amanheciam à porta do comércio exclamavam: “acabou o milho, acabou a pipoca”. A sobrevivência já não mais festejava.

A tradição doméstica de bater o bife passou a ser evitada, na época, também para que o vizinho mais necessitado não ouvisse o sinal da carne. A comida tão pouca não se pode dividir entre muitos. Não é tão triste o momento, no entanto, para os que costumam aparentar o luxo e padecer o bucho. Esses, que se fingem de seguros, se fazem de mal-entendidos perante as crises.

Pode-se estimular a modificação dos critérios de bem-estar de uma população ou comunidade. É isso, exatamente, o que fazem os controladores dos meios de comunicação coletiva e os agentes revolucionários, talvez a mando e a pedido de autoridades poderosas. Alguns atuam nesse sentido inocentemente, em busca de fama e reconhecimento.

Lê-se no jornal local (O grito) a seguinte chamada: “…como se alimentar em tempos de crise”; e no caderno Pensar do Jornal Estado de Minas “…pratos ecologicamente corretos e coletivos”. Neste último trata-se dum anúncio de dois livros, espécie de incentivo a “práticas alternativas”: duas moças saem de bicicletas pela cidade à procura de ervas , verduras, plantas comestíveis que brotam naturalmente nos terrenos e lotes baldios. Quem não vê nisso traços de precariedade e escassez? Na Venezuela já se usam o modismo vegetariano para esconder a calamidade e a fome.

Observo que o pobre de ontem já se acostuma com a miséria de hoje; assim o faz o bem-de-vida com a pobreza; e por sua vez, o rico já aceita a condição mediana. Um homem outro dia ajoelhou humilhantemente no corredor do ônibus para disputar as tão concorridas esmolas.

Trago na memória essas tais condições e, além, é claro, de consultar livros, revistas , jornais, sites confiáveis e gravar as boas conversas “sobre aqueles tempos de crises”.

(…)

Só agora sai de minha memória para o papel os divertidos sábados da feirinha da Av. Joaquim Lourenço de Oliveira, onde fixavam barracas à altura do número 518, em frente da E.E Jacinta Enéas Orzil, em meados dos anos 80. O dono e líder do negócio era o Sr. Tião, homem alto, de bigode, prestativo. E ele foi sempre solidário à comunidade. No início, por permitir que catássemos, rua abaixo, as laranjas que acidentalmente caíam ao serem despejadas dos caixotes para a bancada. Sentíamos úteis. Depois, foi generoso ao nos presentear com as frutas feias rejeitadas pela clientela. Meu amigo Sérgio perguntava convidando-nos: “Vão lá na feirinha esquematizar lambujas?” Lambuja era, inteligentemente, o apelido dado por ele às laranjas aproveitáveis, com pequenas partes apodrecidas. O Sr. Tião foi mais bondoso ainda quando, muito depois, com já anos de feira, passou a dar serviço para alguns dos lambujeiros dispostos a carregar caixas e também aos mais educados para ajudá-lo atender os fregueses. Esses amigos, que passaram a trabalhar na feira, foram ainda mais vitaminados e fortificados com verduras, frutas, ovos, leites e carnes.

Cristiano Lopes Cançado de la Rocha, escritor e compositor. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ) e atualmente trabalha em dois projetos artísticos: finalização de seu 2º álbum de canções e manutenção desse site.

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PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante

PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante reacionário

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Outro publicista de talento, muito espírito, boa linguagem e estilo elegante, ensaísta fecundo e original, polemista vigoroso e agudo, um verdadeiro escritor em suma pelas peregrinas qualidades da sua ideação e expressão, é Eduardo Prado. Chamava-se com todo o seu nome Eduardo Paulo da Silva Prado. Nasceu na capital de S. Paulo de uma velha, importante e opulenta família, ali vinculada, em 27 de fevereiro de 1860, e na mesma cidade formou-se em Direito e veio a falecer em 30 de agôsto de 1901.

A sua obra é copiosa e foi toda feita em jornais e revistas, um pouco ao acaso das circunstâncias e ocasiões. Hoje acha-se toda reunida em nove volumes e compõe-se de artigos literários, viagens, ensaios, discursos, crítica literária, social ou política, polêmica, etc. Na literatura brasileira, Eduardo Prado tem duas singularidades: ser um dos poucos senão o único homem rico e certamente o de mais valor que aqui se deu, sequer como diletante, às letras, e ser talvez em a nossa literatura o único escritor reacionário.  Refiro-me a escritor e não a políticos que ocasionalmente tenham escrito, nem a jornalistas, cuja obra efêmera não considero aqui. Joaquim Nabuco conquanto católico praticante e monarquista convicto, não pode ser tido por um reacionário, porque achou jeito de conciliar com o seu catolicismo, porventura mais de imaginação que de sentimento, o seu profundo liberalismo, e foi sempre, conquanto aristocrata de raça e temperamento, irredutìvelmente um liberal, um democrata em política. Eduardo Prado, que em tudo, em costumes, em opiniões e gostos, parece ter sido um diletante, um espírito cosmopolita, pode ser que fôsse também em crença religiosa e política.

A sua curiosidade intelectual, o seu gôsto do novo e do exótico, diga-se, a dose de snobismo que havia nêle, e certo senso de elegância e mundanismo hostil à nossa baixa democracia, e mais a sua frequentação de meios monárquicos e reacionários de Paris, explicam talvez o seu reacionarismo católico e monárquico em oposição com a sua natural independência mental e irreverência espiritual. É o nosso mais acabado tipo de diletante intelectual, do amador das coisas de espírito. E amador e diletante o foi em tudo, com bom humor, muito espírito e inconseqüentemente.  Com pontos de contato com Nabuco, não tem o seu talento, e menos a sua seriedade espiritual. O brilho mundano da sua existência de moço rico e pródigo, as suas longas viagens, a sua existência européia, o íntimo comércio com homens de letras europeus, deram-lhe um prestígio que a sua só obra literária, aliás documento de talento literário pouco vulgar, acaso não teria só por si dado. Aumentou-lho a perseguição tolamente feita pelo Governo Provisório da República ao seu brilhante panfleto A Ditadura Militar no Brasil e a atitude por ele tomada em face não só da República mas do geral sentimento do país.

Como escritor, Eduardo Prado foi, em suma, um jornalista, porém com mais talento, mais espírito, mais cultura e mais experiência do mundo que o comum dêles.  Da causa pública teve menos o interêsse que a curiosidade do seu elemento dramático. A política foi-lhe apenas um tema literário, que tratou com a desenvoltura de um espírito no fundo céptico e paradoxal.

História da Literatura Brasileira, 1901-1907.

José Veríssimo-Crítica, coleção Nossos Clássicos, editora Agir,1958.

AINDA O POSITIVISMO NO BRASIL

Ainda o positivismo no Brasil

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Por José Veríssimo

“O positivismo é, para o Sr. Sílvio Romero, uma coisa perigosa e deve ser combatida com seriedade. Desde que uma doutrina, continua êle, qualquer que ela seja,tornou-se o pão espiritual de algumas centenas de homens, essa doutrina constitui um fator social e um estímulo de ações; essa doutrina distribui alento e entusiasmo, aviventa as fôrças da alma, afirma-se como um incentivo em nome do futuro. E coisas assim tão graves, só podem ser tratadas com severidade e compostura.”

Excelentemente dito, sòmente se pode notar que arrastado pelo seu temperamento batalhador de polemista educado na péssima escola de Tobias Barreto, o Sr. Sílvio Romero não guardou, quanto talvez convinha à elevação do assunto, essa “severidade e compostura”. A sua desculpa seria que o seu livro, como toda a sua obra, é ainda de polêmica. Porque esta é a característica, a dominante do Sr. Sílvio Romero: ser um polemista. Fazendo história ou crítica literária, política ou filosofia, escrevendo ou conversando, apesar da bonomia afetuosa, natural e amável do seu trato, que estão longe de suspeitar os que só por seus livros o conhecem, o Sr. Sílvio Romero é um polemista. E eu direi, sem intenção de lisonjeá-lo, que não conheço entre nós nenhum de mais nervo, de mais valentia, de mais graça – uma graça para que não achamos ainda nome, o produto da chalaça portuguêsa com a pacholice ou a capadoçagem nacional, temperada pela alegria ingênua e fácil que o negro no herdou. Essa graça não admite a ironia. A ironia, como o humour, mais ainda talvez que êle, é estranha à índole brasileira. Uma e outro são entre nós produtos de cultura, resultados de imitação que em certos indivíduos, por disposições especiais de temperamento, podem ter sido assimiladas perfeitamente, completamente, mas que são em todo o caso raros e exóticos.

Livro de polêmica, livro de doutrina, o Evolucionismo e o Positivismo no Brasil distingue-se e recomenda-se pela valentia e brio com que o ilustre escritor dá combate àqueles de quem faz seus adversários ou de quem se faz adversário e, sobretudo, por vulgarizar as críticas que à filosofia de Comte fizeram H. Spencer, Stuart Mill, Huxley e outros. Com efeito é com longas citações dêstes pensadores e cientistas que o Sr. Sílvio Romero principalmente combate os princípios cardeais da construção positivista, a lei dos três estados, a classificação das ciências, a organização sociológica.

Esta falha é comum a todos os nossos críticos filosóficos, a começar por Tobias Barreto, aos quais a carência de estudos originais e da cultura científica indispensável força a reduzir os grandes problemas da filosofia moderna ao contraste entre os diversos pensadores, cujas opiniões soam respectivamente contrapostas, consoante a escolha ou as inclinações e simpatias do crítico. O processo, que tem cabimento no domínio da erudição, não me parece conveniente em se tratando de cogitações filosóficas, e o seu insistente emprêgo pelos que entre nós fazem filosofia ou crítica filosófica, provaria talvez ou a nossa incapacidade para as questões abstratas ou a insuficiência da nossa cultura geral.

Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

contato@pingodeouvido.com.br

O POSITIVISMO NO BRASIL

O POSITIVISMO NO BRASIL

Por José Veríssimo

…No Brasil, e aqui entramos na primeira das causas particulares da influência do positivismo, não se pode dizer haja alguma coisa organizada. Não o estava o próprio Estado, apesar de sessenta anos de monarquia, não o estava como ainda não o está a Igreja, e menos ainda o academicismo, o oficialismo, em suma qualquer dêsses elementos da vida nacional que alhures são um obstáculo à intrusão de certas idéias. Do seio das próprias corporações que por sua mesma essência deviam sustentar o Estado, defender a Igreja, que lhe era conjunta, manter a tradição acadêmica, sustentar o oficialismo, surdiam pregadores da doutrina cujo fim declarado era destruir tudo isso.

A monarquia esfacelada e decomposta, não tendo por si sequer a crença do imperante no regime imbecil, no rigor vernáculo da palavra; a Igreja, impotente, desmoralizada pelo regalismo, sem recursos materiais e morais, que nem clero possuía suficiente para as necessidades rituais; o academicismo, vegetando no egoísmo da vida prática, na inércia do privilégio, livre de estímulos pela segurança da vitaliciedade e pela falta de concorrência, nenhuma hierarquia, nenhuma casta, nenhuma coesão entre essas diferentes moléculas do corpo social, êste era como a matéria mole, excessivamente plástica e dúctil, em que podia trabalhar à vontade quem tivesse uma convicção e um objetivo. Quem fôsse uma organização, conseqüente e forte, acabaria fatalmente por atuar nesse meio sem consistência nem resistência. Foi o que sucedeu ao positivismo aqui.

Fazendo da matemática a primeira pedra do seu alicerce filosófico, a doutrina de Augusto Comte lisonjeava a minoria cujas carreiras profissionais assentavam também sôbre êsse fundamento, e levavam-na envaidecida pela vulgar ilusão de fazermos dos nossos próprios estudos o centro do mundo dos conhecimentos, a considerar o positivismo a única e verdadeira concepção filosófica. Sendo a matemática, segundo conceitua um pensador contemporâneo, a arte de não ver senão um lado das coisas, êsses positivistas, esquecidos das objurgatórias do seu mestre contra o domínio dos geômetras, não viram na doutrina que abraçavam senão o aspecto que lhes seduzia a vaidade profissional.

Como quer que seja, porém, foi mediante a matemática que penetrou a filosofia positiva nas escolas militares, ganhando assim o seu maior número de adeptos e propagadores na corporação que entre nós era talvez a única que tinha tal ou qual organização e mantinha algum espírito de classe. E por uma dessas fenomenais incoerências de que parece temos o privilégio, foi da sementeira do exército que saíram, senão os sacerdotes, os acólitos da doutrina fundamentalmente hostil aos conflitos armados, ao regime militar, aos exércitos permanentes. Com o positivismo entrou o republicanismo, que lavrando no exército apressou a eliminação inevitável prevista, anunciada – até por partidários seus – da monarquia.

O positivismo que até então só tinha por si a convicção, o entusiasmo, a fé, começa a ter a força. É uma minoria, mas forte, unida, disciplinada, hierarquizada, sabendo o que quer e sabendo querer. Em todos os tempos foram tais minorias que governaram, principalmente quando se lhes não antolha nenhuma fôrça organizada que as contraste. Espertos apóstolos – e a mais profunda convicção, mais ardente fanatismo, se aliam perfeitamente com a mais solerte habilidade – os positivistas aumentaram e encareceram a sua influência, mais que a sua influência, a sua ação, no advento e na constituição da República. Uma porção de idéias que já faziam parte do cabedal comum dos espíritos liberais, patrocinadas algumas por sujeitos de ambos os partidos constitucionais ou do republicano democrata, e até por aquêles partidos, como o casamento civil, a separação da igreja do Estado, a federação, o regime presidencial, reclamaram êles como suas, gabando-se de as terem feito vingar.

                                        Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

JOÃO LISBOA

JOÃO LISBOA, poderoso escritor

João Lisboa

Não é vulgar o caso de João Francisco Lisboa, o poderoso escritor maranhense, no nosso meio e na nossa literatura.

Êle foi, como grande número de brasileiros cultos, um autodidata. Nunca passou por escolas e academias. Delas mesmo, os que lhes saem mais eminentes, são entre nós verdadeiros autodidatas, tão pouco foi sempre, e o é ainda mais hoje, o que nelas se aprendeu. Provinciano sertanejo, fêz na província, mais talvez consigo que com mestres, a sua educação intelectual. Essa educação ou melhor instrução, nêle como em todos que a fizeram como êle, – e são a imensa maioria em nosso país – se ressente sempre de falhas e incoerências. Não tenho nenhum preconceito pelo regime acadêmico; sobretudo quando êle é, qual entre nós sucede, tão acanhado nos seus moldes, nos seus meios, no seu espírito. As escolas superiores isoladas e estreitamente profissionais como as lemos, poderão produzir bons clínicos, espertos legistas, hábeis engenheiros; não formaram jamais, por elas só, um bom espírito. Como diria um pedagogista, tal qual estamos constituídos podem ensinar mais não educar. Não há dúvida, porém, que a educação é uma obra de unidade, de método, de sistema, que não exclui por forma alguma, antes favorece, o desenvolvimento, mesmo espontâneo e livre, das faculdades. Uma tal educação salvo casos excepcionalíssimos, só pode ser realizada convenientemente em institutos animado do seu espírito, e onde a instrução seja de fato uma cultura. Não é absolutamente, hoje mais que nunca, o nosso caso, nas nossas escolas e faculdades entregues à repetição, mais ou menos bem feita, dos compêndios franceses – e à última hora italianos e, mais raro, alemães, – e que nenhum espírito filosófico anima, nem excita nenhum alto ideal humano ou social.

A instrução que se deu João Lisboa foi puramente literária, e não seria nem extensa, nem profunda; a matemática elementar e a geografia, ainda assim rudimentarmente estudadas, a nossa língua e a sua literatura, a latina, e a francesa e, menos bem, a inglêsa – e a história. Com esta pequena bagagem, que o primeiro dos nossos preparatorianos desdenharia, êle fez, entretanto, grandes coisas, relativamente à mentalidade nacional. É que êle não estudou para fazer exames senão para saber, e não tendo um certificado oficial que lhe atestasse a ciência, não parou o estudo com o recebimento do diploma.

Demais a instrução vale principalmente pelo talento que a frutifica. E o talento de João Lisboa tirou daquele pequeno cabedal enorme juro. Por muitos aspectos é, porventura, êle o mais poderoso escritor brasileiro. Como prosador é um dos mais originais, copiosos, puros e elegantes da nossa língua moderna. No Brasil pode ser apontado como clássico por excelência, sem afetações descabidas de purismo, nem o culto obsoleto do arcaísmo. Somente conhece o léxico da sua língua e por isso sem a rebusca fácil dos dicionários, é ela mais rica do que costuma ser nos nossos escritores. Como historiador, sua obra curta e fragmentária, é, todavia, bastante para assentarmos que nenhum outro escritor do gênero no Brasil teria como êle pôsto ao serviço da nossa ária ou aridificada história um talento mais compreensivo, maior seriedade de estudo, imaginação mais poderosa, espírito mais conceituoso, e mais as qualidades literárias e artísticas da sua língua e do seu estilo, que tanto pautaram ao ilustre, inestimável, mas pesado e enfadonho Varnhagen. O seu estudo sôbre a revolta do Bequimão, onde tôdas aquelas suas capacidades e qualidades se reúnem e apuram, é uma das nossas melhores monografias históricas, e A vida do Padre Antônio Vieira, não obstante inacabada e sem o último polimento, uma das mais bem feitas biografias da nossa língua. Com a última demão do escritor e menos preconceitos liberais que às vezes empanam o juízo do historiador, poderiam fàcilmente ter sido o livro definitivo, que ainda espera o grande jesuíta. A obra, porém, mais original, a mais nova ao menos – e refiro-me sempre à nossa literatura – de João Lisboa é o seu Jornal de Timon, na parte relativa à política e eleições, especialmente na porção dela, a mais considerável, sôbre partidos e eleições no Maranhão.

(Estudos de Literatura Brasileira, 2ª série, 1901 a 1907)

Estudo crítico sobre a crítica de Machado de Assis, por José Aderaldo Castello

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Ideal do Crítico, de joaquim maria machado de assis

Coleção nossos clássicos. Publicados sob direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa. Nº 38. Organizado por José Aderaldo Castello. 1959.

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