Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

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Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

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Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

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A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

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A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

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Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

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A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

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O fogo destrói e consome iluminando.

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Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

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Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

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A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

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A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

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A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

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A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

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A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

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O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

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                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

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Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

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Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual)

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)

Cristiano Lopes al’Cançado Rocha

                                                                                             fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo,sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade factual batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

 Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. Às vezes, publicamos algo de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço para autopromoção nem veículo interativo instantâneo, com vistas a adquirir visibilidade ou reconhecimento ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

 Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinua má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocarmos idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual e da coletividade saudável e recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam,aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou“tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças,os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro,podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrado se os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, complexos de inferioridade, indignações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam transformadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”. De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas,invejosos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviatã. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

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Se Otto Maria Carpeaux é um plagiário

A igreja do Diabo

A igreja do Diabo

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Joaquim Maria  Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

__ Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

 

II

ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

__ Que me queres tu? perguntou este.

__ Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

__ Explica-te.

__ Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…

__ Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

__ Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?

__ Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

__ Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

__ Vai !

__ Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

__ Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

__ Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…

__ Velho retórico! murmurou o Senhor.

__ Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda… Vou a negócios mais altos…

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

__ Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

__ Já vos disse que não.

__ Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

__ Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

__ Negas esta morte?

__ Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…

__ Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Ill

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

__ Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão dos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

 

IV

FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

__ Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

 

 

Vocabulário: ______________________________________

Mirífica= Maravilhosa, admirável, extraordinária, excelente.

Cogula= Túnica larga de religiosos.

Prédicas= Sermões, discursos religiosos.

Sulfúreas= da natureza do enxofre.

Esgalgada= magra como um galgo; galgo= cão de pernas longas; esfomeado.

Peleu= da mitologia grega, rei, navegador, amigo de Centauro e de Hércules e pai de Aquiles.

Rabelais= relativo a François Rabelais (1494-1553), escritor renascentista francês; que lembra seu gênero libertino, devasso e licencioso.

Hissope= referência a “O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva” poema heroico e cômico; [De hissopo, por ser com raminhos desta planta que se fazia a bênção.]; Aspersório: instrumento para borrifar (orvalhar) água benta.

Lúculo= Lucius Licinius Lucullus, político e combatente da Republica Romana (118–56 a.C); Indivíduo amante de banquetes suntuosos.

Galiani= Padre Italiano Ferdinando Galiani, sociólogo e economista.

Turbas= multidões.

Insolvável= insolventes.

Muezim= almuadem, entre os muçulmanos, aquele que anuncia, em voz alta, do alto das almádenas, a hora das preces; almádenas= Minarete, torre de mesquita.

 

 

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Da obra: Romanceiro da Inconfidência [1953].

 

Cecília Meireles

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Dorme, meu menino, dorme,

que o mundo vai se acabar.

Vieram cavalos de fogo:

são do Conde de Assumar.

Pelo Arraial de Ouro Podre,

começa  o incêndio a lavrar.

 

 

O Conde jurou no Carmo

não fazer mal a ninguém

(Vede agora pelo morro

que palavra o Conde tem!

Casas, muros, gente aflita

no fogo rolando vêm!)

 

 

D. Pedro, de uma varanda,

viu desfazer-se o arraial.

Grande vilania, Conde,

cometes para teu mal.

Mas o que aguenta as coroas

é sempre a espada brutal.

 

 

Riqueza grande da terra,

quantos por ti morrerão!

(Vede as sombras dos soldados

entre pólvora e alcatrão!

Valha-nos Santa Ifigênia!

__ e isto é ser povo cristão!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Dorme e não queiras sonhar.

Morreu Felipe dos Santos

e, por castigo exemplar,

depois de morto na forca,

mandaram-no esquartejar!

 

 

Cavalos a que o prenderam,

estremeciam de dó,

por arrastarem seu corpo

ensanguentado, no pó.

Há multidão para os vivos:

Porém quem morre vai só.

 

 

Dentro do tempo há mais tempo,

e, na roca da ambição,

vai se preparando a teia

dos castigos que virão:

há mais forcas, mas suplícios

para os netos da traição.

 

 

Embaixo e em cima da terra,

o ouro um dia vai secar.

Toda vez que um justo grita,

um carrasco o vem calar.

Quem não presta, fica vivo;

quem é bom, mandam matar.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Fogo vai, fumaça vem…

Um vento de cinzas negras

levou tudo para além…

Dizem que o conde se ria!

Mas quem ri chora também.

 

 

Quando um dia fores grande

e passares por ali,

dirás: “Morro da Queimada,

como foste, nunca vi;

mas, só de te ver agora,

ponho-me a chorar por ti:

 

 

por tuas casas caídas,

pelos teus negros quintais,

pelos corações queimados

em labaredas fatais,

__ por essa cobiça de ouro

Que ardeu nas minas gerais.”

 

 

Foi numa noite medonha,

numa noite sem perdão.

Dissera o Conde: “Estais livres”.

E deu ordem de prisão.

Isso, Dom Pedro de Almeida,

é o que faz qualquer vilão.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Que fumo subiu pelo ar!

As ruas se misturaram,

tudo perdeu seu lugar.

Quem vos deu poder tamanho,

Senhor Conde de Assumar?

 

 

Jurisdição para tanto

não tinha, Senhor, bem sei…

(Vede os pequenos tiranos

que mandam mais do que o Rei!

Onde a fonte do ouro corre,

apodrece a flor da Lei!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme

__ que Deus te ensine a lição

dos que sofrem neste mundo

violência e perseguição.

Morreu Felipe dos Santos:

outros, porém, nascerão.

 

 

Não há Conde, não há forca,

não há coroa real

mais seguros que estas casas,

que estas pedras do arraial,

deste arraial do Ouro Podre

Que foi de Mestre Pascoal.

 

 

__________________
Notas
Ouro Podre: arraial, talvez o mais próspero de Vila Rica.
Conde de Assumar: título criado pelo então príncipe regente D. Pedro II, O Pacífico (1648-1706). Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos recebeu tal título; D. Pedro de Almeida também foi 3º governador e capitão-mor da capitania de São Paulo e Minas do Ouro em Mariana Minas Gerais, no Brasil.
Assumar: Freguesia portuguesa do concelho de Monforte na região do Alentejo.
Felipe dos Santos: tropeiro e fazendeiro que liderou a Revolta de Vila Rica (1720) contra o Quinto.
Mestre Pascoal: Pascoal da Silva Guimarães, caixeiro, mascate, explorador e pesquisador que levou para Vila Rica método de mineração da Nova Espanha.
Fonte secundária da imagem: http://cidademuseu.blogspot.com.br/2008/10/o-surgimento-da-vila-rica.html; https://www.revistaprosaversoearte.com/cecilia-meireles-poemas/

A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

jose-alencar-romancista-brasileiro

Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

 

A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

                              Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

jose-alencar-romancista-brasileiro

A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Simoun:   talvez de Simão, o mágico, personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais impusesse as mãos (At 8.18-24). A simonia veio a se referir à concessão ou obtenção de qualquer coisa espiritual ou sagrada mediante remuneração, seja ela monetária ou de outra espécie. Fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/342/o-pecado-da-simonia-uma-versao-protestante
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

 

 

EU SOU BRASILEIRO

EU SOU BRASILEIRO

Osmar Barbosa, poeta e professor

 

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

 

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

 

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

 

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

 

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

 

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

 

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

 

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

 

 

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

 

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó moiro/loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

 

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

 

__ Sim, eu sou brasileiro!

 

 

 

Tejo: famoso rio da Península Ibérica

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do reomance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.