DA FILOSOFIA TÉORICA (E CONTIDIANA) À CULTURA LITERÁRIA E FILOSÓFICA EM GERAL – Entrevista Especial com Fernando Santos de Jesus

Fernando Santos de Jesus é doutor em educação e autor dos livros “O negro no livro paradidático”, “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” e “A radiografia de um Brasil que agoniza. ” Numa histórica interlocução, eis o registro de um estudioso respondendo às perguntas que angustiam as preocupações nacionais.

História e escravidão aqui. Em que medida podemos confiar na contribuição da Quarta Carta de Erasmo (1867-1868), escrita por José de Alencar ao Imperador, em que ele trata da Emancipação dos escravos brasileiros? Muitos interpretam que o nosso maior mestre literato defendeu, irracional e incondicionalmente, a continuidade do opressivo instituto. Gostaria de saber de sua interpretação.

Temos aqui um tema bastante espinhoso, sobretudo porque põe em xeque a credibilidade do expoente da literatura nacional enquanto pessoa. José de Alencar foi o homem que deu o pontapé inicial para uma identidade nacional, já que transitava pelo romance indianista, pelo regionalismo e pela vida cotidiana da cidade, fornecendo para os seus sucessores um rico panorama sobre as vozes do povo no período colonial brasileiro.

É importante também destacar que ele se posicionava contrário a influência política da Inglaterra sobre o Brasil, pois acreditava na autonomia do império e era protecionista na economia. Suas cartas ao imperador D. Pedro II criticava a decadência do império e sinalizava preocupação sobre aquilo que o Brasil poderia se transformar após sua queda, com uma nova formação da identidade do povo e uma dinâmica produtiva articulada com interesses externos. José de Alencar é considerado reacionário por desconsiderar as transformações do pensamento social e político de sua época, conservando o sentimento de posse dos negros escravizados como um ativo financeiro.

Nesse sentido, o literato e advogado enxergava-os como um bem nacional, protegidos pelo sistema que não os punha a toda sorte de uma vida sem as garantias dadas pelos seus donos. Poderíamos levar em consideração que se tratava de um pensamento de época, caso não houvesse um debate instaurado, onde ideias diametralmente opostas se apresentavam e demonstravam equívocos na maneira de pensar defendida por ele. Este é o caso de vários abolicionistas contemporâneos de José Alencar.

Todavia, neste complexo emaranhado de ideias, o fim do regime de fato trouxera resultados desastrosos para os negros, inseridos numa nova dinâmica que a longo prazo agudizou os problemas sociais e econômicos do país. Isto quer dizer que a defesa de José de Alencar ao regime escravocrata não se justifica sob o ponto de vista humanitário, mas a soma de suas ideias, como a salvaguarda dos interesses econômicos nacionais e a manutenção da ordem moral interna, devem ser considerados como pontos positivos na observância geral dos desdobramentos da abolição, sobretudo porque gradativamente pôs os negros em outra modalidade de escravidão, ou seja, aquela mediada pela dependência do Estado, para o benefício de grandes globalistas e órgãos multilaterais.

Grosso modo, podemos dizer que é condenável a defesa do regime escravocrata, por parte de José de Alencar, mas que as suas críticas poderiam ter constituído um bom aprendizado para adequação dos métodos da abolição e das medidas a serem adotadas imediatamente a sua efetivação.

Bom, na minha interpretação considero o Mestre Alencar um abolicionista, mas que temia, natural e humanamente, vinganças sangrentas. Segundo o poeta, pesquisador e antropólogo Antônio Risério (2012), a FNB – Frente Negra Brasileira chegou a Minas Gerais. Como a Frente teria atuado por aqui? Você saberia de alguma pesquisa entre os mineiros a respeito?

A fim de manter a fidedignidade da entrevista, não me lancei a nenhuma pesquisa posterior ao questionário, tanto para não lhes passar informações rasas, quanto para preservar o que tenho de conhecimento sobre o assunto, ou seja, deixo claro que o meu volume de informações a respeito desta pergunta está limitado ao trivial.

Até onde sei, os mineiros que aderiram a FNB se mantiveram fiéis aos princípios norteadores de fundação, e em Mina Gerais o movimento se encerrou pelos mesmos motivos que levara o núcleo nacional a encerrar as atividades. A despeito disto, é importante registrar que há um estudo de caso sobre o negro no Estado de Minas Gerais, cujo tema é “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, publicado na década de 1940 por Aires Machado. Todavia, este livro não menciona a FNB.

Da mesma forma, o livro “O Negro no Pará”, de Vicente Salles, publicado em 1971, é uma obra chave sobre a as contribuições dos negros na formação cultural da Amazônia, e ele surge muito após ao declínio da FNB sem deixar vestígios sobre a atuação deste grupo naquela região. Estes livros são importantes para revelar que em todo o Brasil e no decorrer da nossa história, houve organizações negras inclinadas para o pleito por cidadania para este grupo étnico, ou seja, independente da Frente Negra Brasileira, que se tornou o primeiro grupo organizado enquanto movimento social brasileiro, outras pequenas agremiações negras, menores e voltadas para interesses mais específicas, existiram em diversos Estados brasileiros e reivindicaram, cada um à sua maneira, reconhecimento, combate ao racismo e tratamento igualitário.

Minha sugestão para os leitores que queiram conhecer a história dos movimentos negros, é que, além do meu livro, leiam as obras de Amauri Pereira, Joselina da Silva (que foi minha orientadora de doutorado), Petrônio Domingues, Nei Lopes, Clóvis Moura e Antônio Risério. Estes autores darão um bom panorama acerca da temática, mas os seus escritos jamais devem ser considerados portadores de verdades absolutas, pois em meio aos escritos há informações imprecisas e análises orientadas segundo interesses pessoais, coletivos ou embebidas por tendências epistemológicas e ideológicas dos contextos os quais estiveram inseridos.

Com quantas pessoas explicitamente racistas você já teve o desprazer de esbarrar durante toda a sua vida?

Nunca parei para contar, mas o número é infinitamente ínfimo se comparado com a quantidade de pessoas boas as quais me relacionei ou tive contatos corriqueiros. O menor problema na vida do negro é o racismo, que quando acontece, é de forma episódica.

Há milhares de pessoas negras no mundo e a maioria delas nunca sofreu racismo. Grande parte delas sabe que ele existe, mas não faz ideia de como reagiria se fosse vítima de um ataque racista. As pessoas que vivem em função de descortinar uma atitude racista ou expor um sujeito por uma atitude supostamente racista, está embebida da ideologia “antirracista”, cega pelo ininterrupto ímpeto militante, é incapaz de perceber e reconhecer que os problemas cotidianos que afetam igualmente todas as pessoas, não possuem nenhuma articulação ou referência às questões raciais.

Vou te contar um fato; há alguns anos, talvez no ano de 2012, eu fiz uma viagem ao Estado do Pará em um voo noturno direto do Rio de Janeiro e no meio do caminho uma pessoa começou a passar muito mal. Via-se os esforços e a intensa preocupação da tripulação em resolver o problema. Diante das dificuldades de ordem técnica, da cabine do piloto foi solicitado que se caso houvesse um médico a bordo, que se identificasse. Em um voo noturno as pessoas costumam dormir, ouvir música com fone de ouvido ou se ocupar de outros passatempos. Por este motivo, as comissárias de bordo estavam perguntando de poltrona em poltrona se haviam médicos nos assentos. Passaram duas comissárias por mim e nenhuma delas me perguntou. O passageiro foi medicado por um profissional de saúde não médico, melhorou um pouco e desembarcou em Belém.

Quando voltei ao Rio de Janeiro relatei o ocorrido para alguns colegas que cursavam o mestrado comigo na época, sinalizando sobre o quão prejudicial é para todos, o apego aos estereótipos sociais, e que eu poderia ser um médico e surpreender a todos, porém, pela ética profissional e não por uma resposta ao imaginário engessado daquela equipe especificamente. A maioria dos meus colegas acharam um absurdo, alguns disseram até que eu deveria me insurgir contra a companhia por racismo.

O fato é que eu não resolveria o problema, já que não sou médico, e qualquer indagação naquele momento poderia deixar as pessoas ainda mais nervosas diante da urgência. Embora tenha sido uma situação que demonstre despreparo da equipe – que não estão ali para interpretar ou julgar, sim para servir e tentar resolver os problemas decorrentes dos passageiros durante o voo, e isso requeria perguntar a todos, sem distinções –, não encarei de forma negativa e passou longe de mim ver aquelas mulheres trabalhando para salvar uma vida, como racistas. De fato, o número de médicos negros é menor do que o de médicos brancos, mas este é um outro debate.

Em sala de aula com Prof. Mauro Rosa

E instituições declaradamente racistas? Clubes sociais, de lazer, por exemplo, já foram identificados por aí, no Rio, em décadas passadas?

Ao longo da história há diversas acusações documentadas contra bares e restaurantes, ao passo que na maioria dos casos os estabelecimentos não precisam sequer fundamentar uma extensa defesa, já que a sua própria composição étnica é observável através do quadro de funcionários e pelo público frequentador, abrangendo todas as raças e tipos sociais.

Há dois anos um Moto Clube teve uma sede fechada por propaganda nazista. O caso aconteceu na zona Norte da cidade RJ. Lá foram encontrados vários artefatos contendo suásticas, drogas embaladas e material pornográfico. Coincidentemente o presidente daquele núcleo fazia musculação na mesma academia que eu e costumávamos conversar durante o treino. O rapaz nunca apresentou nenhuma antipatia comigo ou com os demais alunos negros. Para completar, ele é filho de nordestinos e o seu irmão é homossexual.

Nesta mesma agremiação há negros, orientais, mestiços e a orientação sexual dos sócios pode ser dissimulada por eles como estratégia de pertencimento. Registrado o fato, não houve indícios de que em outras filiais estejam armazenados utensílios que aludem ao nazismo. A contradição revela pelo menos duas possibilidades: A) Naquele núcleo poderia estar prevalecendo o alinhamento ideológico de um único membro, ou a de um grupo de membros, mas não de sua totalidade, e pode ser que a denúncia tenha partido desde dentro; B) Se havia consenso entre os participantes, então temos a certeza de que grupos étnicos e raciais diferentes dos brancos, podem ser racistas, inclusive contra “sua própria raça”.

Se levarmos em conta este exemplo, teremos então um oceano de perspectivas sinalizando que a hostilidade racial pode partir de funcionários, ou dos donos, de diversos estabelecimentos, o que não reflete necessariamente num ordenamento institucional, mas a conduta da pessoa. Se assim não o fosse, teríamos instituições sabidamente racistas, contrariando os princípios constitucionais e com punições diretas e baseadas nas leis vigentes.

Às vésperas de responder esta entrevista houve um caso de xenofobia no bairro da Lapa, região central da cidade do Rio de Janeiro. Um restaurante, cujo dono é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, fixou uma placa advertindo que israelenses e estadunidenses não seriam bem-vindos ao estabelecimento. O caso foi parar na justiça, os donos foram obrigados a pagar multa, mas será que responderão por xenofobia? Este fato me conduz a convidar os leitores para uma reflexão um pouco mais densa e respaldada por fatos históricos.

No ano de 2001 em Durban, África do Sul, fora realizada a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O Brasil participou enviando uma delegação que votou favorável ao rol de medidas compensatórias às vítimas destas formas de preconceito e para a criminalização de atos racistas, discriminatórios, intolerantes e xenófobos.

A Fundação Cultural Palmares, sob a presidência do Senhor Carlos Alves de Moura, publicou o plano de ação redigido e aprovado na conferência e fez questão de enfatizar que “[as] sugestões devem ser absorvidas e adotadas pelas instâncias governamentais e por todos os segmentos da sociedade”.

O tempo passou e no ano de 2022 um congolês chamado Moise Kabagambe foi assassinado por dois homens negros em um quiosque na Barra da Tijuca. O desfecho do caso determinou como crime motivado por racismo e xenofobia, enfatizando que no Brasil o racismo é estrutural. A família do jovem recebeu um quiosque no parque de Madureira, doado com verba pública (ou seja, dos pagadores de impostos, independentemente de termos uma minoria absoluta de racistas no país).

Vamos indagar: Se diante do caso ilustrado na foto, dois cidadãos, um israelense e outro estadunidense, reclamarem de “xenofobia estrutural” no país e argumentar que o Brasil é signatário do mais importante documento internacional de combate à xenofobia, como as autoridades nacionais devem reagir?

Eu sei que o bar já foi multado, mas há muitos imbecis que desconhecem e ignoram a gravidade diplomática deste fato, comentando em favor do bar nas redes sociais. Também o silêncio dos setores universitários e dos movimentos sociais, dizem muito sobre o que eles realmente são.

Para que o leitor tenha ideia da dimensão de como estes problemas tomam conta do cenário público, na universidade em que cursei duas graduações, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, desde o ano de 2005 funciona um coletivo de estudantes negros que possui uma sala doada pela reitoria da instituição. Nela os militantes associados desenvolvem grupos de estudos, eventos culturais e reuniões, atividades restritas para pessoas negras, sob o crivo da identificação racial dos membros mais sectários.

Ao vedar o acesso de pessoas de outras origens raciais ao interior da sala, o coletivo comete crime de racismo e isso acontece desde a sua fundação, com total anuência dos sucessivos reitores, chefes de departamentos, técnicos administrativos e outros setores da representação estudantil.

Portanto, é muito importante que se tenha uma reflexão muito mais ampliada e aguçada da complexidade do debate e de como as contradições demonstram a necessidade de equilíbrio analítico sobre o processo de ideologização em que o país patina. Portanto, a nível pessoal e empírico é o que tenho a dizer a respeito deste tema.

Na sua atenta leitura, em que pontos Djamila Ribeiro e Silvio Almeida estariam, mais ou menos, certos em suas respectivas visões?

Djamila Ribeiro obteve maior visibilidade em sua obra “Lugar de Fala”, donde afirma que é preciso considerar como critério de verdade o ponto de partida vivencial dos negros para relatar dores e dificuldades advindas do racismo. Não é difícil perceber que a autora escreveu este panfleto direcionado para os movimentos negros, sobretudo atuantes nas universidades, e com a intenção de escalar como liderança destes grupos, sobretudo ao ser ungida pelos partidos políticos de esquerda. Academicamente é um conceito muito frágil e serve ao dogmatismo que setores dos movimentos há algum tempo tem forçado, na tentativa de afugentar pesquisadores brancos e dominarem a pauta e o mercado racial brasileiro.

A ideia de “Lugar de Fala” exige que a vivência prática seja considerada acima de proposições analíticas feitas por quem não carrega a empiria como constatação pessoal da força do racismo. Ao invalidar análises e propostas de pesquisadores não negros sobre o fenômeno, a tese incorre nos seguintes erros: 1) O dogmatismo do empirismo consiste em desconsiderar o conhecimento que não advém da experiência. Entretanto, os conceitos não são da ordem da experiência, são faculdades do entendimento e sistematizam o que é fornecido pela intuição. O racismo não precisa ser presenciado para se saber que ele existe e que deve ser combatido; 2) Se a única forma de combater o racismo for dada pelo crivo da experiência, o ato de raciocinar sobre ele simplesmente se torna inexistente, já que o conhecimento sobre o objeto ou o fenômeno se dá por meio de sua extração da dinâmica do tempo e do espaço para entender as suas estruturas e possibilidade de funcionamento na diversidade de situações. Sujeito e substância operam de maneira necessária, isto é, como um múltiplo de intuições. Por isso os sujeitos organizam suas experiências por meio da “substância”, algo que não é empírico, mas também não é fixo na transcendência, funcionando como uma antecipação da ação por meio de conhecimentos possíveis. Os conhecimentos adquiridos através dos estudos não mudam a “substância”, mas atuam diretamente na forma de sua base (ler Kant). Por isso, confiar apenas na empiria como fonte de conhecimento e desconsiderar as estruturações racionais neste processo, não contribui em nada para um debate minimamente propositivo; 3) Ao rejeitar a contribuição de não negros no combate ao racismo, além de empobrecer o debate, deixam os negros mais suscetíveis às pessoas realmente racistas.

Do mesmo modo, a professora Conceição Evaristo cria o “conceito” de “Escrevivência”, que funciona de forma análoga ao que Djamila propõe com o “Lugar de Fala”. A confusão é tanta que ambas tentam estabelecer conceitos, mas a própria definição clássica de conceito, em Kant, refere-se a algo a priori, ou seja, substâncias que não dependem da experiência e criam estruturas necessárias para a experiência acontecer.

O debate conceitual de fato, passa muito longe das capacidades cognitivas de ambas, para compreender a complexidade epistemológica que se envolveram. Restou se aproveitar do “hype” que a esquerda viabilizou para ambas ao disseminar os seus panfletos entre os negros fragilizados pelo discurso que os torna figuras passivas diante do racismo e entre os brancos esquerdistas com eterno sentimento de culpa por terem nascidos brancos e condicionados a acreditar que são privilegiados, herdeiros de uma ordem etérea de um racismo construído alhures, mas que se manifesta imediatamente nos traços físicos que carregam. Uma loucura!

Já o ex-ministro Sílvio de Almeida, acusado de assédio sexual pela ministra Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, importa a tese de “Racismo Estrutural” dos EUA, originalmente defendida por Stokely Carmichael e Charles Hamilton.

Marxista ortodoxo, ele aplica os conceitos de estrutura, infraestrutura e superestrutura para explicar por que o racismo deve ser concebido como o pilar do mundo ocidental desde a modernidade. Em linhas gerais, a coisa se explica da seguinte maneira: A) estrutura – Constitui a base simbólica que determina as outras duas; B) infraestrutura – trata-se da base tangível e útil para a mobilidade da máquina burocrática; C) superestrutura – Constitui o funcionamento da engrenagem, ou seja, as instituições onde estão alocados os sujeitos que tracionam as leis, os conteúdos educativos, informativos e artísticos necessários para a retroalimentação do ethos social, conduzindo a estrutura ao “eterno retorno”; uma renovação do ciclo de opressões de classes que renascem nos simbolismos da estrutura, se mantem na infraestrutura e são ajustadas pela superestrutura.

Utilizando a fórmula marxista descrita acima, Sílvio de Almeida inclui o elemento racial como a base da exploração material (o continente africano como lugar dos negros, virgem e inocente até ser saqueado pelos europeus), da força produtiva (escravidão negra e subemprego após a abolição) e do rebaixamento simbólico (estereótipos negativos, desvalorização da estética, arte e cultura), conduzindo os seus leitores a entender que as instituições seculares erguidas pelo ocidente, devem ruir porque sua gênese é racista.

O filósofo e advogado não desenvolve, no entanto, uma explicação coerente de como estas bases estruturais também serviram para contrapor o racismo científico comum entre os séculos XVII e XIX, os movimentos abolicionistas pelo mundo e uma miríade de acordos internos entre governos do mundo inteiro para combater o racismo contra os negros. O senhor Sílvio de Almeida também não presenteou o seu público com sequer uma mísera linha explicando que o racismo científico não inaugurou a escravidão, ou seja, que ela existe ao longo da história e não constitui exclusividade de um povo.

Basta olharmos para a história e veremos povos caucasianos ocidentais se escravizando mutuamente. Os gauleses, por exemplo, escravizaram outros povos e mantinham a escravidão interna, o líder Vercigentórix lutava contra o domínio romano, mas também era um dominador. Após perderem a guerra, eles, os gauleses, foram escravizados pelos romanos sob o comando de Júlio César. Do mesmo modo, Hitler escravizou os judeus em seu regime nazista. Os Gulags soviéticos eram campos de escravidão para onde eram enviados os inimigos do comunismo. Geralmente para as gélidas cidades de Norilsk, Vorkuta e outros lugares com vasto campo de exploração de minério e gás. Entre os Incas a escravidão foi tão cruel quanto a dos negros africanos, chegando a dizimar outros povos indígenas concorrentes. O mesmo se pode dizer sobre a escravidão muçulmana no continente africano pré-colonial.

Será que o professor e ex-ministro Sílvio de Almeida não dispõe destas informações ou solenemente as negligencia? Fico com a segunda opção.

Pelos motivos expostos, eu penso que ambos – Sílvio e Djamila – estão com a razão nos pontos consensuais entre qualquer cidadão razoável, o de que o racismo existe e ele deve ser combatido. Dito isto, os vejo como manipuladores da temática racial, adjetivados por mim de “AGIOTAS RACIAIS”, sujeitos inescrupulosos e ávidos por fama e poder, capazes de manipular e induzir ao erro outros negros, só para se manterem no mainstream acadêmico através do monopólio da temática.

Qual seria, no caso, o grau de influência da Conferência de Bandung (1955) na obra de Alberto Guerreiro Ramos, de 1957?

Hoje é comum que os correligionários da ideia de “decolonialidade” associem este “conceito” à sociologia de Alberto Guerreiro Ramos, que não está mais entre nós para se defender desta grave acusação. Fazem isso porque parte da obra de Guerreiro Ramos tece ácidas críticas à dependência nacional em relação a epistemologia estrangeira. Leia-se interesses nacionais, e não a defesa de grupos que se vendem como oprimidos por não terem prosperado economicamente como os grandes centros de pensamento e desenvolvimento tecnológico.

Há várias críticas a serem feitas aos grupos “decoloniais”, porém, como este não é o objeto da questão, limito-me em deixar claro que se trata de um grupo de neomarxistas que se reuniram para monopolizar as ciências humanas do meio acadêmico dos países latino-americanos, sob a falsa premissa de uma opressão epistemológica sistêmica. Fazem isso mentindo descaradamente para os neófitos da vida universitária e pessoas inocentes e empolgadas com qualquer “novidade”, já que não abrem mão dos referenciais teóricos ocidentais. E mais, esta possibilidade de conceito jamais existiria se não fosse a filosofia clássica tão criticada por eles.

Voltando a Alberto Guerreiro Ramos, afirmo categoricamente que ele não apresentou sequer uma linha de ressentimento ao que se produzia no ocidente, ao contrário, ele sinalizava que de lá emergiram fontes universais de pensamento, ferramentas de análises indispensáveis para entender o Brasil na dinâmica dos acontecimentos globais.

No livro “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira” isso fica muito claro. Sobretudo porque ele critica o modo como os sociólogos nacionais trataram a questão do negro, sempre retirando-o da dinâmica social cotidiana e reintegrando-o repleto de vícios interpretativos, adoecendo pretos e brancos a partir da visão tematizada que uns incorporam dos outros.

Ué, mas de que modo isso não dialoga com os princípios da “decolonialidade”, já que critica a dependência epistemológica do Brasil aos países europeus e EUA? Se um pascácio te perguntar isso, diga-lhe que a crítica da dependência é relacionada ao transplante epistemológico e aos caminhos metodológicos adotados, não aos paradigmas universais e necessários para que se produza ciência social.

Um bom sociólogo deve saber que o conhecimento universal é indispensável na construção de uma pesquisa original e inovadora. O que os “decoloniais” estão fazendo é limitar o estudante universitário à uma realidade restrita e pobre de elementos estruturais, condicionando-os a viver em uma bolha de pesquisas e análises muito fragilizadas, que geralmente nem podem ser consideradas como pesquisas, já que se sabem os resultados desde a primeira linha. Cada vez mais estas atitudes têm isolado o Brasil dos grandes centros desenvolvedores de cultura, ciência e tecnologia.

Vale a pena também comentar brevemente outro de seus grandes livros; “A REDUÇÃO SOCIOLÓGICA”; Obra clássica lançada em 1958 com o intuito de despertar no brasileiro o ímpeto investigativo sobre a história e a cultura nacional a partir de uma metodologia própria e sem transplantes conceituais estrangeiros para explicar a realidade concreta do país.

“A personalidade histórica de um povo se constitui quando, graças a estímulos concretos, é levado à percepção dos fatores que o determinam, o que equivale à aquisição de consciência crítica” (p.22-23).

Segundo ele, a aquisição de consciência crítica não está solta à toda sorte de invenções e interpretações grosseiras da vida a partir da própria vivência (como sugeria Paulo Freire), pois emerge da conexão entre diversas categorias assentadas no espírito e a capacidade de “apreender os seus determinantes, de tal modo que, em outro contexto, possa servir, subsidiariamente, e não como modelo, para nova elaboração” (p.63).

Logo, “A autodeterminação está (…) associada ao refinamento dos motivos da vida ordinária” (p.41). Isso quer dizer que por mais que os afazeres elementares sejam importantes na organização da vida prática, eles não carregam os equipamentos necessários para o amadurecimento analítico que permita uma nova sociologia.

Portanto, o conhecimento necessário para uma boa abordagem sociológica transita entre dispor de ferramentas universais para verificações locais, sem se sobrepor aos elementos concretos que informam particularidades e contextos históricos, e que devem estar aplicados às categorias e conceitos vizinhos ao objeto de análise.

Esta minha análise me permite ir na contramão do que o povo da “decolonialidade” anda dizendo por aí, ou seja, que a “conferência de Bandung” tenha produzido efeito determinante na obra de Guerreiro Ramos, pelo seu suposto teor anticolonialista.

Guerreiro Ramos estava para além da mera dicotomia militante que opunha “colonizadores e colonizados” em uma eterna e interminável disputa. Ele esteve debruçado nas complexidades inscritas entre as contradições das relações cotidianas e o caráter temporal dos conceitos nas explicações dos fenômenos. Por isso a sua sociologia é atemporal e dinâmica.

É importante salientar que Guerreiro Ramos foi um intelectual eclético, e um dos seus principais focos de pesquisa se inscrevia na sociologia das instituições, observando a “ciência das organizações” a partir da sua lente trabalhista. 

À vista disso, reitero que não há nada de extraordinário na conferência, a ponto de influenciar decisivamente na obra de Alberto Guerreiro Ramos, tão somente elementos de análise que se somaram ao vasto repertório teórico e conceitual que o sociólogo construía ao longo de sua carreira.

Quais seriam os distanciamentos e aproximações, que poderíamos marcar, entre a perspectiva de Ramos e a de Frantz Fanon, numa visão geral?

Há muitas aproximações entre Guerreiros Ramos e Frantz Fanon em suas respectivas obras e eu vou tentar apontar algumas delas. Também há distanciamentos, mas de forma geral, eu creio que são relativos ao foco, muito mais do que em relação aos métodos.

Se analisarmos as obras; “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira”, de Alberto Guerreiro Ramos, e “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, veremos que o fundo sociológico é o mesmo, pois ambos concluem que o capitalismo terceiro-mundista é o sistema econômico que estruturou as sociedades nos seus respectivos países (Brasil e Martinica) e que, por isso, a dependência de ambos não se restringe ao modelo econômico, mas também ao conceitual filosófico.

Com efeito, a organização do ethos destes países passa pelo crivo de realidades artificiais, alheias ao que se vivencia no cotidiano das cidades. Essa relação de dependência aos modelos embalados e entregues para a população, produz psicopatologias que fragmenta o povo e causam divisão de classes, sobretudo por parte daqueles que possuem mais acesso aos bens materiais e culturais, sob a crença de que a posse do capital cultural oferecido pelos modelos hegemônicos será capaz de operar distinções entre as pessoas e pô-las em iguais condições simbólicas que os homens dos grandes centros de decisões políticas.

Na perspectiva de Frantz Fanon a elite provinciana e colonial se desterritorializa em pensamento através da adesão de uma conduta alinhada ao habitus desejado, ao passo que se reterritorializa no choque causado ao se deparar com as elites colonizadoras, quando cruzam as fronteiras físicas. No entanto, segundo ele, mesmo atordoados diante do fato de não passarem de cópias malfeitas das tendências do centro, o atraso simbólico é mantido nas colônias a fim de garantir status e poder sobre os colonizados.

Em Guerreiro Ramos são os intelectuais que mantêm a pirâmide social desfavorável para os mais pobres, uma vez que toda produção cultural, conceitual e literária, se dilui nos ordenamentos institucionais, são normalizadas e se convertem em normativas. A absorção irrefletida pela classe média a conduz a operar de forma automática os preconceituosos que criam danos aos mais pobres.

Na base desta análise, ambos se aproximam do marxismo, mas se inclinam para a subversão da perspectiva de Marx, indicando que em uma economia de base informal, de passado escravagista e colonial, o potencial revolucionário não estará na classe burguesa que, segundo eles, é reprodutora do modelo hegemônico. Logo, o lumpemproletariado seria a classe mais fiel às transformações necessárias e genuínas para impulsionar um novo modelo de sociedade, ou, nos termos de Fanon, um “homem novo”.

Os livros indicados também são interessantes do ponto de vista histórico, já que se inscrevem em contextos de lutas anticoloniais em países africanos, na emergência do debate por leis antirracistas nos EUA, na Guerra Fria, no Apartheid na África do Sul, de diversas conferências da ONU, num novo painel cultural mundial, no avanço tecnológico e diversos outros acontecimentos. No fervilhar de tudo isso, os autores mantiveram o foco em suas sociedades, mas suas lupas acompanharam as influências externas e as relações de causa e efeito que elas provocavam.

Portanto, acredito que o maior distanciamento entre as perspectivas dos autores se deva ao fato de que Frantz Fanon manteve o seu foco na questão racial, enquanto o Guerreiro Ramos analisou a sua sociedade de forma mais ampla e com maior diversidade de ferramentas conceituais, permitindo-lhe entender com mais destreza o funcionamento das instituições e como a subordinação e o peleguismo da elite intelectual brasileira foi danoso para o desenvolvimento do país.

Na sua análise, a perspectiva de Muniz Sodré, com o dito “fascismo da cor” consegue corrigir as distorções do “estruturalismo racial” de Silvio Almeida?

Não tenho como fazer essa análise com profundidade, uma vez que não li o livro. Conheço o debate proposto por Muniz Sodré através de algumas entrevistas e não percebi mudanças radicais na forma de analisar o racismo, já que ele foca na questão simbólica como elemento estruturante das relações cotidianas.

Pelo que pude perceber, Muniz é mais astuto e agrega diferentes influências para defender a sua tese, além de aproveitar o “hype” do debate em torno do conceito de fascismo, para se esquivar da alusão à sua forma histórica e datada, imprimindo sobre ele o racismo como ponto central da brutalidade humana, mesmo quando o indivíduo é negro, pois, segundo ele, o “fascismo de cor” é um projeto da “branquitude” para converter os negros em correligionários de uma ordem sistêmica racista, sem que os mesmos percebam.

Ora, não há absolutamente nada de diferente da tese de racismo estrutural, apenas algo dito de outra maneira.

No geral, o que eu penso destes trabalhos é que eles são encomendados e escritos para manter uma perspectiva política operando o poder. Embora isso aconteça, há nestes escritos diversas coisas interessantes e que agregam conhecimentos. O cuidado que temos que ter gira em torno da não adesão ipsis litteris do que estes intelectuais produzem.

Por isso eu incentivo a leitura e providenciarei este livro para que possa debatê-lo como mais elementos para a crítica. Este é um exercício salutar para todo cidadão que deseja discutir a temática, sobretudo para os que compõe os staffs governamentais e acadêmicos.

A respeito da dita “parditude”, da identidade parda. Quais suas considerações a respeito de mais esta nuance do identitarismo?

Acompanhei um pouco do debate feito por uma jovem aluna de mestrado da Universidade Federal Fluminense – UFF e não ficou muito claro o que ela exatamente queria e se realmente foi expulsa da instituição. O fato é que tem surgido uma geração de estudantes muito presunçosos querendo ganhar espaço na academia e nas redes sociais através de escândalos e da confecção de supostos conceitos. Fazem isso sem o mínimo de leitura dos clássicos sobre os temas os quais querem dissertar, e tampouco sem a reflexão necessária, isto é, sem a maturidade intelectual que uma boa crítica exige.

Pelo motivo exposto, tenho pouquíssimo interesse sobre o tema “parditude”, mas asseguro-lhes uma verdade; o mestiço sempre existiu e nunca foi um problema até ser tematizado pelo universo sociológico.

Na história, os povos sempre se relacionaram entre si, e de sua diversidade étnica e das múltiplas características fenotípicas nasciam os mestiços. Por óbvio, mestiços não são apenas aqueles que decorrem da miscigenação entre negros e brancos, há mestiços de grupos étnicos de pele branca, ou alguém seria tão grosseiro em não aceitar que da relação entre uma mulher norueguesa e um homem português, nascerá um mestiço? Embora ambos sejam brancos, originalmente há diferenças na tonalidade da pele, textura do cabelo, densidade óssea, estatura etc., todas condicionadas por várias variantes, desde o clima, herança genética, cultura alimentar e daí por diante.

Por que este fato é ignorado pelos debatedores raciais brasileiros? Porque aqui os grupos políticos se alimentam do Estado, tanto os que estão articulados com as políticas públicas focais, quanto aqueles que são eleitos no parlamento através da crítica. Pouquíssimos querem resolver os problemas mais prementes do Brasil, e por isso inventam conceitos vazios.

Para essas pessoas há um “limbo” racial para onde o mestiço fora jogado ao decorrer da história, uma vez que basicamente se fala em identidade e cultura negra ou branca. Daí decorre que os mestiços estariam subsumidos entre os negros e também apagados pelos brancos ao serem absorvidos como tal.

Veja bem, o mestiço, segundo ambas as perspectivas, passa a não existir, já que está subsumido nos grupos raciais brancos e pretos. Isso aconteceria segundo a aproximação dos traços fenotípicos em relação ao grupo que será acolhido. Na prática o que ocorre ao longo da história do país, é que as famílias agregam ou rejeitam um membro por critérios totalmente dispersos da questão racial; alcoolismo, envolvimento com crime, questões morais e contendas pessoais por inveja, dívida ou qualquer outro motivo diferente da verificação do fenótipo. A rejeição racial constitui uma realidade ínfima de casos de abandono familiar.

Logo, o membro da família que permanece unido ao seu núcleo central e expandido (primos, tios etc.), participa da dinâmica cultural do país, já que a culinária, a música ou os setores produtivos da economia manufatureira, carregam os traços idiossincráticos do Brasil que estão para além de uma única assinatura racial ou regional. Isso quer dizer que o Brasil está todo conectado e é essencialmente mestiço, isto é, a interdependência cultural é indissociada da conexão étnico-racial.

É, portanto, tautológico dizer que o Brasil é mestiço. Aliás, o mundo é mestiço. O que há de diferença são os graus de mestiçagem, ou, novamente, alguém seria louco de dizer que no casamento entre um homem do Sudão do Sul e uma mulher pigmeia do Gabão, não nasceria um mestiço?

Indo mais longe, é possível afirmar que o homem do Sudão ou a mulher do Gabão são, eles próprios mestiços. A árvore genealógica de ambos poderá revelar um alto grau de mistura étnica que a desejada pureza racial não demonstre visivelmente, levando as pessoas a se apegarem ao fator exógeno, fenotípico.

Quando se cria um conceito para afirmar identidade, em si, há a negação da mestiçagem, o que torna o conceito frágil. Ora, se quero desestabilizar o purismo racial, por que eu cunharia um conceito que dá ao pardo uma identidade, já que ele é justamente o contraponto ao que há de estático no racialismo? Em outras palavras, eu não posso criar uma identidade para algo que é fluído. Ou eu proponho uma identidade unificada, mestiça, que logo cumpra o papel de exterminar o identitarismo, ou estarei criando mais uma categoria identitária e reforçando a ideia de raças puras.

Portanto, o conceito é muito frágil e não foge ao escopo do identitarismo, fornecendo elementos retóricos para os mesmos arroubos autoritários de qualquer pretensa supremacia baseada na raça, como o nazismo ou o panafricanismo.

Os próprios intelectuais socialistas que outrora defenderam, lutaram e, por fim, conseguiram implantar a dita educação popular (e revolucionária) de um Paulo Freire, de um Ivan Illich, de outro Pierre Bourdieu ou dum Jean-Glaude Passeron, assumem que as universidades hoje estão demasiadamente massificadas, porém o que falta agora é a qualidade no ensino. Os intelectuais liberais defendem uma universidade livre dos excessos socializantes e estatizantes. Já entre os conservadores há a defesa do modelo clássico, com a Paideia e as Artes Liberais por exemplo. Como o doutor Fernando se situa por esses caminhos? Quais seriam os paralelos e as convergências entre os três?

Para os ditos socialistas a universidade só terá qualidade se o currículo e a organização administrativa e pedagógica estiverem alinhados aos ideais políticos de uma suposta luta de classe. Para eles o intento é destituir totalmente uma perspectiva clássica de ensino e qualquer conteúdo diferente do que eles produzem enquanto conhecimentos e narrativas.

A meu ver, o problema posto no Brasil de hoje é o nível de imersão comunista na universidade e a dificuldade de políticos e intelectuais sérios em equilibrar esta balança e promover uma educação mais plural e menos unilateral.

Acontece que ao longo do século XX os comunistas gradativamente ganharam posições institucionais, ao passo que se preparavam para integrar as instituições e formar gerações de adeptos às suas ideias e ideais. Em contrapartida, os conservadores relaxaram, não se debruçaram para que as instituições atualizassem suas bases e diminuíssem as possibilidades de transformações radicais, que enfraquecessem as suas vigas.

O resultado foi o assentamento das bases do pensamento comunista nas instituições formativas. Isso quer dizer que quem se enxerga nas narrativas ofertadas pela educação superior as absorve indiscriminadamente e leva à frente tais ideias, encontrando apoio institucional dos seus “companheiros”. Inversamente, os conservadores não possuem redes de apoio, uma vez que o individualismo os separa, e eles se apegam aos frágeis conteúdos produzidos por pessoas sem formação acadêmica (influenciadores digitais e políticos).

Por terem se tornado axiomáticos, os conteúdos produzidos pelos comunistas nas universidades e espraiados através da arte, informação, educação e até por meio da religião, formam também os conservadores que, cotidianamente, reproduzem conceitos, frases de efeito e ideias de fundo comunista.

Hoje se tornou distintivo moral entre os que se dizem conservadores, não enviar mais os filhos para as universidades públicas e mandá-los para as privadas, como se isso fosse mudar alguma coisa. Mal sabem eles que as instituições particulares reproduzem o mesmo modelo, a única diferença é que a militância mostrada por influenciadores digitais que fazem barraco com estudantes das federais e estaduais, estão menos visíveis, são menos barulhentas.

Ao seguir a recomendação destes caçadores de “likes” que possuem interesses meramente eleitoreiros, o conservador deixa de enviar os seus filhos para as melhores universidades do Brasil. Isso implica na entrega das universidades nas mãos dos comunistas, agora com unidades por eles privatizadas, exclusivamente para fins militantes, e o pior de tudo, financiada com o erário público. Dinheiro este do próprio conservador que recusa mandar o seu filho para a universidade.

Perceba que há uma cadeia de motivos e causas, e na base dela a impossibilidade de confiar na formação de caráter do próprio filho no seio familiar. Ou seja, a possibilidade de corrupção ética, moral e intelectual se tornou motivo de interdição da ciência no nosso país, já que muitos pais sequer dão a oportunidade de os seus filhos descobrirem suas vocações profissionais. Os que possuem melhores condições financeiras e evadem para o exterior e, mais uma vez, o Brasil perde.

Veja bem, aqui nós temos uma perspectiva muita alinhada ao que Pierre Bourdieu sinalizou, o habitus das classes sociais reproduz um ethos desejado. A organização do pensamento operado nas bases políticas hoje se converge apenas na absorção e na repetição dos conceitos cunhados pelo comunismo, mas entram em divergência no método e no pragmatismo.

Se os comunistas (numa nova fase de manutenção do poder) primam por gerar conteúdos simbólicos que organizam uma práxis revolucionária, os conservadores se ocupam em se apegar aos fatos concretos como constructo da vida cotidiana. Ambas as perspectivas integram componentes importantes, o problema são os fins aos quais se inclinam e o modo de realização.

Quando um conservador se nega a avolumar o seu repertório simbólico e conceitual, crendo que lhe bastam os fatos, sem se dar conta ele está rejeitando a transcendência e reproduzindo o materialismo histórico marxista. Do mesmo modo, o comunista que se esquiva dos fatos, se esconde na suposição e na representação meramente simbólica do devir, está se contradizendo do materialismo histórico.

Kant é um filósofo essencial e atualmente mal interpretado. Para ele as coisas aconteciam a partir de uma necessidade, e a necessidade é transcendente, dispõe os conceitos e ordena a experiência. O homem só é capaz de conhecer o outro, mas o conhece por conceitos, não em sua plenitude. Para que isso aconteça é preciso existir, e a existência é mediada por outra coisa que a experiência não consegue explicar. Logo, o materialismo representa a concretude da vida, mas a transcendência representa a organização das possibilidades, o planejamento e a sistematização das ações.

Paulo Freire tinha como perspectiva instrumentalizar as pessoas mais pobres a se inclinarem para a “luta de classes”. Segundo ele, a concretude do cotidiano delas seria o informativo mais precioso da condição de oprimido que ocupavam, devendo rejeitar conteúdos que reproduzissem um ethos burguês e se alfabetizar em “dialeto próprio”, isto é, escapando da formalidade. Aos poucos estes homens e mulheres teriam “consciência revolucionária” e se oporiam aos opressores; homens, brancos, heterossexuais, europeus e cristãos.

Em vários dos seus livros Thomas Sowell parte da premissa de que nada escapa as evidências, ou seja, a comprovação prática de existência ou efetividade de um suposto fenômeno ou de um planejamento baseado em suposições. O autor não rejeita a força do simbolismo, mas adverte que se não houver instrumentos empíricos de mensuração dos seus efeitos a fim de comprovar suas implicações, eles são inúteis ao progresso, servem somente como maneira de mobilização para a servidão voluntária e benefício para os que instrumentalizam narrativas.

Apesar das ideias políticas antagônicas, em um possível diálogo entre Paulo Freire e Thomas Sowell, ficaria claro que ambos jamais renunciariam à profundidade epistemológica que permite compreender que não é possível conhecer aquilo que está fora da experiência, mas também não rejeitariam a transcendência como organização da inteligência, ou seja, de estruturas a priori que viabilizam o conhecimento.

Portanto, devemos explorar as epistemologias a fim de extrair delas o que há de interessante para o provimento de uma educação de processos e resultados positivos, em que o estudante consiga se cercar de possibilidades e não se torne um homem unidimensional (não falo aqui sob o termo utilizado por Marcuse), mas alguém realmente autônomo e capaz de desempenhar os seus papeis com perícia, ética e segurança. Os autores citados na questão apresentam elementos importantes e que epistemologicamente se aproximam, ao passo que ofertam métodos ajustados aos fins revolucionários que, em última análise, beneficiam grupos de interesses alheios ao povo.


Como seria, em resumo, uma universidade pública brasileira de excelência, no seu ideal? Pensemos, nesse sentido, em tradições, em pluralismo, consciência nacional e patriótica, na vida estudantil e no papel da UNE, pesquisa, extensão universitária e interação com o mercado de trabalho etc.  

A universidade pública brasileira não é de excelência porque as suas funções foram confundidas e misturadas com a política partidária. A verdade é que o ensino superior no Brasil cresceu desordenadamente após a reforma de 1968 e os atores que passaram a nele atuar, estiveram muito comprometidos em massificar conteúdos de mobilização e organização de grupos políticos, do que em promover ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Até hoje é assim.

Penso que uma segunda reforma precisa ser feita, e desta vez combinando elementos de dissuasão para que o progressismo não se instale novamente como força motriz da gestão universitária. Isto deve ser feito através de transformações legais que retirem a autonomia universitária e que haja reforma curricular, novos parâmetros para ingresso de professores, diferentes fontes de geração de receita e rígidas avaliações que permitam necessários ajustes.

Se uma reforma desta magnitude acontecer, haverá muita resistência da oposição, mas os resultados apontarão um caminho necessário e sem retorno, já que o diálogo com os setores privados da economia e da sociedade civil se darão através de cooperação, não de submissão ou por prescrição de normas.

Quero dizer que nenhum movimento social deve ser esmagado por forças repressivas ou negligenciado pela instituição universitária, mas não deveriam compor o quadro técnico através da alocação de militantes que utilizam a universidade como plataforma política e para a fabricação de conteúdo para o usufruto de partidos políticos e para a sociedade civil organizada.

Nas áreas de tecnologia, ciências médicas, exatas e da natureza, os investimentos devem ser ainda mais pesados e o mais “desideologizados” possível. Um ambiente bem equipado, saudável, seguro, bem remunerado, epistemologicamente forte e articulado com os setores privados, pode propiciar boas parcerias, com satisfatória entrega para o pagador de impostos, estímulo para as gerações e a contenção da fuga de mão-de-obra qualificada para o exterior.

Neste diapasão não há lugar para movimentos estudantis, e as possíveis representações estudantis devem estar restritas à articulação com os setores da base ocupacional e para a resolução de questões mais simples e pontuais, visando desfavorecer qualquer vínculo de compadrio, assédio moral ou sexual e todo tipo de cooptação política. Isso não se traduz em falta de transparência ou despotismo, mas do necessário remédio amargo para que os problemas não tornem a prejudicar a universidade.

Portanto, penso que o melhor modelo de universidade para o Brasil deve salvaguardar a pluralidade de ideias e de pessoas (sem a necessidade de cotas raciais, sociais ou de qualquer outra ordem, pois elas contribuem para a formação de cartéis nas instituições), a oferta de alta cultura e diálogos de alto nível com a comunidade do entorno em projetos de extensão de qualidade, e mais um apanhado de ações orientadas para a pesquisa e para o exercício do pensamento livre de ideologia político-partidária. A universidade foi a viga mestra da civilização ocidental, mas hoje cumpre o papel de destruí-la, por isso a sua retomada é dever de todo cidadão consciente, patriota e que acredita na ordem e no progresso.

–   Fernando, conte-nos um pouco sobre sua infância, sobre a vida escolar, a convivência em família e no bairro…adolescência, divertimentos de rua, memórias e convivências.

Ah a infância!!! Não há nada mais saboroso para mim do que as reminiscências da infância.

Sou nascido e criado nas ruas do bairro do Engenho de Dentro, mais especificamente na Rua Pernambuco. Trata-se de um bairro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro em que outrora já foi um grande engenho, se transformando num bairro pacato e que algumas personalidades como o Cisne Negro, Cruz e Souza, já residiram.

A minha infância e adolescência esteve marcada pela transição de duas décadas, a de 1980 e 1990, o que me inscreve num caldeirão cultural bastante interessante, dado que o painel musical e o estético mudaram bastante nos anos de 1990, mas a nostalgia dos anos de 1980 ainda estava indisfarçável na alma do brasileiro em fase adulta naquela década.

Quero dizer com isso que por ter sido uma criança que mesmo tendo todas as experiências das pessoas da minha idade, também estive muito conectado ao mundo adulto, absorvendo muitos elementos culturais dos anos de 1980, ao passo que vivia o acesso mais acelerado da tecnologia, nova estética musical e tantos outros bens simbólicos. Além da observância da escalada da violência e da pauperização dos cidadãos, com o crescimento das favelas, o declínio da educação e o aumento da corrupção na política.

Venho de família numerosa, somos 9 irmãos, entre 4 mulheres e 5 homens, um número infinito de primos, tios e agregados. Destes 9, além de ser o mais novo, sou temporão, nascido aos 45 minutos do segundo tempo, quando os meus pais já tinham 47 anos. Hoje a minha mãe tem 92 e caminha para os 93, com muita saúde, graças a Deus. Já o meu pai faleceu em novembro de 2000.

Por este motivo, eu brincava com as crianças na rua, mas tinha amplo contato com os amigos da família, todos já adulto. Fui alfabetizado em casa pelos meus irmãos e quando fui para a escola já sabia ler e escrever. Me recordo de um jogo de conhecimentos geográficos que me ajudou muito a acumular muitas informações sobre diversos países, despertando em mim o desejo de conhecer o mundo.

Eu adorava ir para a escola, e desde os anos iniciais eu fiz amizades que perduram. Na minha primeira escolarização, na década de 1980, eu estudei na Escola Municipal Tobias Barreto, onde se preservavam fortes valores morais e eu tomei gosto pela leitura e pela escrita, mas também pelos esportes.

Aos 9 anos de idade eu já era atleta de futsal do Social Clube Marabú, disputando o campeonato carioca na categoria fraldinha, depois pré-mirim e mirim, quando fui jogar pelo América Futebol Clube na modalidade de futebol de campo. Aos 16 anos fui dispensado pelo clube porque na minha posição (lateral direito) havia um atleta com melhor compleição física.

Na adolescência eu também iniciei minha incursão nas artes marciais, tendo treinado luta olímpica, a famosa “luta greco-romana”. No meu bairro tradicionalmente há muitos atletas de Jiu-Jitsu e Judô, e logo fui estimulado por eles. Mais tarde iniciei na capoeira e no Jiu-Jitsu. A capoeira eu abandonei, mas a arte suave eu pratico até hoje.

Durante aqueles anos eu dividia o esporte com os estudos e o gosto pela música. Sempre adorei rock n roll, blues, jazz e bossa nova. Aprendo música desde os 9 anos de idade, quando iniciei com um violão emprestado pela minha madrinha, até ganhar um de presente, dado pela minha mãe, aos 14 anos.

Não tive muitas dificuldades durante o meu processo de escolarização, mas amarguei uma reprovação no ensino fundamental ocasionada por problemas de disciplina, que me faziam faltar às aulas para jogar futebol e fez cair o meu rendimento nas matérias. Me recuperei e passei a me interessar pelos estudos como antes, obtendo resultados positivos adiante.

Sempre gostei de conhecer novas palavras e me interessava muito por geografia. Atravessei a infância e a adolescência conciliando as brincadeiras com os amigos e certa visão de que deveria absorver conhecimentos e guardá-los no espírito, por isso sempre quis diversificar o aprendizado em instrumentos musicais (baixo, violão, guitarra e percussão) e diversos estilos de música, a disciplina e filosofia do esporte e todo conhecimento geral que me fosse possível.

Na adolescência fiz parte de uma banda afro (Olorum) que se apresentava em várias festas públicas nos subúrbios da cidade. Depois montei a minha primeira banda de rock, com o mesmo baterista que toca comigo até hoje.

Tudo isso me conduziu para uma convivência em diversos meios sociais, um trânsito que mais tarde contribuiu para oportunidades de trabalho e socializações que eu jamais teria se não tivesse tido uma infância tão rica em cultura.

No geral, foi uma infância de pouquíssimos recursos materiais, dificuldades financeiras, mas riquíssima em cultura, afeto, amizades, e tudo de ruim que aconteceu – como a morte de vários amigos que se envolveram com a criminalidade ou com uso excessivo de drogas – não rebaixa a qualidade da minha infância e adolescência no cômputo geral da vida.

Hoje eu sinto muita falta da convivência intensa e harmoniosa que tínhamos com os vizinhos, os amigos de bairro e os visitantes. Foram incontáveis os sábados com uma boa pelada no asfalto pela manhã, o baralho no início da tarde, a conversa fiada no paralelepípedo e o violão entoando as músicas da Legião Urbana, dos Paralamas do Sucesso, dos Guns N Roses, Alice In Chains, Bon Jovi e afins.

Para finalizar, registro que eu gostaria muito que as atuais e futuras gerações pudessem experimentar uma infância menos tóxica; de mais amizade, mais presença física, menos politicamente correto e mais afeto. Por mais que atualmente tenhamos mais acessos aos espaços esportivos e culturais, conexão com o mundo através de redes sociais e sites de notícia, plataformas de entretenimento e mobilidade urbana; o vazio existencial, a dispersão religiosa, o esfacelamento da ética política e o rebaixamento cultural, nos obriga a olhar para trás e resgatar os melhores valores morais e as formas mais genuínas de relacionamento. Penso que isso seja urgente, caso contrário naufragaremos para uma dimensão inimaginável de ausência total de socialização.

Gostaria de saber um pouco de sua experiência com a capoeira. Quais seriam suas considerações de entendimento histórico-cultural e, claro, suas percepções sociológicas sobre a arte, sobre os princípios, os valores e a disciplina dos capoeiristas propriamente. Pergunto: o que as outras organizações e associações civis brasileiras poderiam aprender, em teoria e prática, com uma escola ou um grupo formal de capoeiristas?

Conforme registrado na resposta anterior, treinei capoeira durante um tempo, aproximadamente cinco anos, mas depois me afastei, e o motivo esteve ligado às novas dinâmicas que as agremiações têm tido com ela. Grosso modo, posso dizer-lhe que a capoeira, em muitos casos, passou a ser superexplorada comercialmente no seu aspecto expositivo. Registra-se que isso acontece em escalonamento e confunde-se com “sobrevivência” da arte e das próprias pessoas envolvidas.

Quando os primeiros grupos de capoeira surgiram no Rio de Janeiro, havia uma grande rivalidade entre os grupos que adotavam estilos diferentes. Os grupos que utilizavam o cordel com as cores da bandeira nacional como forma de graduação, estavam assentados em zonas mais pobres da cidade e dos municípios da região metropolitana. Já os grupos com outra forma de graduação e a utilização de corda, estavam mais presentes no subúrbio da central, centro e zona sul.

A divisão socioeconômica da capoeira foi fundamental para a sua internacionalização em massa desde os anos de 1990. As escolas situadas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro eram frequentadas por pessoas com maior poder aquisitivo e profissões mais valorizadas. Logo, médicos, empresários, advogados, universitários e afins, passaram a treinar capoeira ou a matricular os seus filhos. Por óbvio, o público letrado e economicamente bem situado, é melhor articulado, esteticamente mais apresentável, dominam outros idiomas e podem pagar mensalidades mais altas.

Esta dinâmica começou a atrair os estrangeiros e muitos optavam por criar vínculos mais duradouros. Daí surgiam relações “amorosas” e possibilidades de intercâmbios ou empregos fixos para ensinar a arte aos estrangeiros em seus países de origem. Foi assim que as filiais se expandiram mundo afora e a capoeira passou a ser incorporada como estilo de vida por pessoas de várias origens ao redor do planeta.

Com a internacionalização e profissionalização, sobretudo a partir da década de 1990, o jogo-dança e luta-esporte que surgiu como instrumento de defesa contra o poder senhorial no período colonial, transformou-se num elemento cultural de penetração em várias vertentes artísticas. Enquanto isso, mestres mais velhos e tradicionais sucumbiam ao ostracismo e perdiam os alunos mais habilidosos para os centros de treinamento de grife (Centro Cultural Senzala de Capoeira – Mestre Peixinho, Abadá Capoeira – Mestre Camisa e Capoeira Brasil – Mestre Boneco), sendo relegados a apresentações de rua e aulas para projetos sociais em ONGs e praças públicas.

Não podemos esquecer que aquele período (entre 1996 e 2007), séries como “Malhação” faziam muito sucesso e propagandeavam um estilo de vida despojado e cheio de gírias e gingas, marcando uma idiossincrasia do carioca. Em diversos episódios a prática esportiva da capoeira esteve no centro da trama. Inclusive os filhos do Mestre Boneco (Capoeira Brasil) iniciaram no mundo da telenovela, fazendo muito sucesso como jovens galãs do estilo capoeirista da zona sul. A partir de então muitos artistas e esportistas do MMA começaram a treinar.

O mesmo observei nos grupos de capoeira Angola, sobretudo no ima que esta perspectiva tem em atrair pessoas artificiais, alunos que nela buscam uma válvula de escape para um “mundo totalmente opressivo”, levando para o interior da agremiação uma perspectiva política que nega o teor conflituoso do mundo e tenta constranger as pessoas de opiniões contrárias a não estarem ali porque em tese a capoeira angola deve se restringir ao séquito que crê numa “luta anticolonial” e “antirracista”, transformando o universo da capoeira numa sigla de esquerda, como se somente eles fossem contrários ao racismo ou a dominação cultural estrangeira.

Ao perceber toda esta dinâmica e considerá-la predatória, motivo de muita inimizade, fofoca e propaganda política, decidi não treinar mais capoeira. Me afastei completamente deste universo, mas penso que se temos que aprender algo com a capoeira em si, que olhemos para as antigas escolas, onde havia disciplina e honra, valores inegociáveis para os mestres do passado, que não comercializavam o seu povo e não rebaixava a moral dos seus adeptos.

Embora esta dinâmica seja muito ruim e de fato tenha ocorrido, a capoeira, de modo geral, é uma cultura nacional e que agrega pontos muito positivos na vida das pessoas, desde a prática esportiva – que engendra a busca por uma vida saudável – até o seu teor gregário, lugar de encontros, amizades e mobilidade social.

A minha experiência não se resume aos fatos negativos sinalizados acima, pois também vivenciei momentos mágicos de aprendizado e de absorção de conhecimentos que só são viabilizados nas conversas e rodas de capoeira. Sou muito grato por aquele tempo em que pude praticar este esporte e pelas amizades que perduram a partir dela.

Não poderia deixar de escrever tais críticas porque nem tudo são flores e não posso negligenciar o que vivenciei naquele período e o que posso concluir a partir de análises sobre fatos públicos e notórios. É claro que talvez as minhas observações sejam centradas no universo da capoeira na cidade do Rio de Janeiro. Porém, observei um cenário degradante em Salvador, cidade repleta de “capoeira show”, isto é, praticantes da arte fazendo exibições em praças públicas para estrangeiros e nacionais contribuírem com o que lhes apetecer. O problema reside na forma intimidatória e na relação belicosa entre eles para fatiar o espaço de atuação e o montante arrecadado.

Por este motivo, peço aos leitores que entendam as críticas como construtivas, porque de nada adiantará falar apenas do lado positivo da capoeira ou romantizá-la, como se vivêssemos um looping histórico de traços que ficaram nos séculos passados, e um jovem observar muitas contradições e excessos que o levará à execração da cultura, antes mesmo de uma análise mais sóbria e equilibrada. Isto quer dizer que é sumamente importante que, antes de tudo, saibamos que a capoeira é feita por seres humanos e os mesmos, em sua diversidade, são falhos.

Música. Sinta-se livre para escrever a respeito de sua relação com ela.

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A minha relação com a música vem de infância, como mencionei acima. Desde a infância eu me impressionava com a beleza das melodias e das letras de Gonzaguinha, Djavan, Guilherme Arantes e da guitarra de Celso Blues Boy, Jimi Hendrix, Steve Ray Vaughan e outros.

Na minha casa todos sempre gostaram de música, mas os meus irmãos nunca quiseram aprender um instrumento musical. Foi na convivência com os meus vizinhos e com o meu primo Marquinhos que eu comecei a tocar um instrumento, neste caso o violão, mais acessível e comum no bate-papo de início de noite no nosso bairro.

Naquele tempo era comum comprarmos revistas com músicas cifradas, pois elas eram vendidas em bancas de jornais e era a maneira mais objetiva de alguém que estava aprendendo música a tirar as canções que gosta, já que para “tirar a música de ouvido” requer um pouco mais de experiência, não havia internet e uma escola de música era muito cara, não podíamos pagar.

A perseverança era tamanha, porque nem sempre eu podia trocar as cordas do instrumento, fazer algum tipo de manutenção para deixá-lo mais confortável quanto à tocabilidade, quiçá comprar um de qualidade superior. Nada disso me impediu de aprender, e vagarosamente eu fui me entrosando com o instrumento e conseguindo acompanhar os amigos e o meu primo.

No início da adolescência arrumei uma guitarra emprestada e montamos a nossa primeira banda, os Antissociais, com um grande amigo de escola (Andrey) na bateria, meu primo Marquinhos na guitarra, o vizinho Márcio Zaca no vocal e eu no baixo. Pois é, eu comecei tocando o baixo, instrumento do meu primo e ele tocava a guitarra que eu peguei emprestada.

A banda era boa, tocava muito punk rock e trash metal (Ratos de Porão, Sepultura, Bad Religion, The Offspring) e músicas autorais, com letras escritas por mim. Com esta formação e repertório, chegamos a tocar em alguns lugares da cena alternativa do rock carioca, como o antigo Bar da Rosa, Bar do Português, Garage, Universidade do Rock e no festival de rock do colégio SENAC.

Quando a banda acabou, eu e o Andrey, o baterista, formamos a banda Declive Urbano, com Mr. Break no vocal e André Jacaré no baixo. Desta vez eu estava na guitarra. Tocamos em alguns lugares e eventos, mas a banda também acabou, desta vez desgastados pela relação complicada com o baixista, que há alguns anos veio a falecer devido uso de drogas.

Aliás, drogas é um tema muito importante para mim. O universo musical é repleto de pessoas que abusam das drogas e do álcool, e no meu tempo de adolescente era ainda pior. Apesar de estar presente neste universo desde cedo, nunca fui usuário de drogas e não consumo álcool excessivamente, bebo apenas cerveja e em pouca quantidade. Já tive muitos problemas com outros músicos por conta disto, porém, nunca com os que aqui citei, pois eles também não usam drogas.

Desde aquele tempo o meu primo Marquinhos foi para outra dimensão musical, começou a tocar com o Tchakabum (grupo de axé) e depois se tornou baixista do cantor Dudu Nobre, deslanchou a carreira como músico e produtor musical tocando com artistas de pagode, dentre eles; Belo, Mumuzinho, Grupo Molejo, Arlindo Cruz, Gruo Revelação, Leandro Sapucahy e vários outros. O Mr. Break se tornou rapper e tem boa aceitação no mercado musical, mantém parceria com os cantores Filipe Ret e Marcelo D2.

Eu e o Andrey seguimos juntos com bandas de Reggae, Samba Rock e Rock, até nos separarmos e ele ir tocar com outras bandas. Neste entremeio eu fiz algumas gravações com músicos independentes e cheguei a compor a banda da vencedora de um prêmio oferecido pela companhia de energia elétrica AMPLA, nos dando o direito de tocar com o Monobloco e a Fernanda Abreu em uma das maiores casas de show do Brasil na época, o Citbank Hall.

Na primeira metade dos anos 2000 eu também toquei e gravei com a banda MAU e acompanhei o músico de Samba Rock, André Severo, com qual eu gravei os contrabaixos de um de seus discos e toquei em algumas casas de shows da cidade do Rio de Janeiro. Também fui músico do Grupo Cultural Reconca Rio, tocando viola caipira e tendo participado de vários eventos pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Apesar de ter estudado um pouco de jazz e blues, não cheguei a tocar com bandas destes gêneros musicais que tanto amo. Fiquei um tempo parado de tocar com banda, já que precisei me ausentar do Estado do Rio de Janeiro para cumprir disciplinas do doutorado, em Fortaleza. Quando retornei formei a banda The Seven One, com o Osvaldo na bateria, um amigo que estudou filosofia comigo na UERJ, os amigos de infância, Márcio Zaca no vocal e Cláudio Gonçalves no Baixo, além do filho do Márcio, Ryan, na guitarra. O grupo fez algumas apresentações e perdeu força quando fui convidado pelo amigo baterista, Andrey me convidou para formar a banda Los Artanas, junto com o mesmo vocalista, Márcio Zaca, e o baixista Hélder Montenegro, que também já conhecia desde a adolescência.

A banda Los Artanas emplacou na cena alternativa do Rio de Janeiro e segue ativa, porém, com nova formação, Carlo Di Carvalho no vocal e Cláudio Gonçalves no baixo. Temos tocado em diversos eventos particulares e pubs da cidade. Aos leitores da página peço que nos siga no Instagram: @losartanas. https://www.instagram.com/losartanas/

 Portanto, a minha relação com a música é vital, não escreveria estas linhas sem estar ouvindo música, não raciocino sem música, não estudo sem música, não fico um dia sequer sem pegar nos meus instrumentos, quando viajo sempre procuro uma loja de música, um instrumento para tocar ou dou uma canja com os artistas locais. A música faz parte da minha vida tal qual a hidratação ou alimentação.

E quanto ao humilde, gigante e já saudoso Gustavo Ribeiro de Moraes, o pai de cinco, deixe suas palavras.

Com Gustavo de Mores, o pai de cinco. Ambos fundadores do PL – Integração

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Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante como se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contaram”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundamento e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.

Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante com se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contava”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundado e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.


Considero o Gustavo um exemplar leitor crítico e comunicador. Muitas análises dele ainda podem ser aproveitadas.  E a respeito do professor Mauro Rosa, que tens a dizer?

Conheci o professor Mauro no ano de 2023 através do trabalho de assessoria parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ. No início tínhamos uma relação cordial mediada pela obrigação do trabalho. A rotina e as responsabilidades atinentes à comissão de educação nos puseram em um contato de maior aproximação e conduziu-nos ao estreitamento dos laços de amizade.

Desde o início o que mais me causou admiração no professor foi a sua elegância diante de conversas complexas, sobretudo porque o nível de erudição diluído na simplicidade das explicações, ganhava tônus através da humildade em ouvir respeitosamente os argumentos alheios e em tons suaves sugerir olhares mais analíticos diante das discordâncias, ou seja, sempre sem agressividade ou ruptura de diálogo.

No decorrer desta relação de amizade e admiração, o professor passou a me convidar para participar dos seus projetos, até que me tornei um componente ativo na contribuição para o desenvolvimento deles. Não tenho dúvidas de que isso tenha se dado pelo fato de que temos perspectivas políticas, filosóficas e pedagógicas muito parecidas.

O professor Mauro tem larga experiência no meio acadêmico e profissional, conhece profundamente a história e a literatura nacional, além de ser expert em administração pública. Tudo está comprovado pela produção literária, trajetória profissional e pelo legado material e simbólico que o mestre constrói ao longo de sua vida.

Diante disto, e da sua entrega ética, eu o vejo como um dos homens mais capacitados para assumir uma posição estratégica na política nacional. O professor Mauro possui todos os atributos que parte substancial dos políticos eleitos desde a primeira eleição direta após o regime militar, não possuiriam nem se nascessem novamente. Raras são as exceções e os poucos que os tinham, foram ostracizados ou rebaixados moralmente pelo sistema através das mídias. Caso do Dr. Enéas Carneiro.

Conforme já sinalizei, há uma gama de projetos autorais do professor Mauro em andamento. Todos eles são de iniciativa própria, sem nenhum apoio por parte de empresários ou políticos, e o professor faz questão de mantê-los assim para que não sejam contaminados por políticos de má índole e suas eternas promessas, a avidez por lucros e desinteresse pela autonomia da população. Obviamente que isto tem sido motivo de muita inveja e ressentimento por parte de indivíduos ligado a política partidária, se desdobrando em diversas tentativas de enfraquecer o seu trabalho.

Todos os projetos do professor Mauro possuem enorme potencial transformador, uma vez que operam com profundidade na seara do conhecimento e proporcionam autonomia para as pessoas. Aliás, desconheço no meio parlamentar e no terceiro setor, projetos que tenham a força transformadora daquilo que propõe o professor Mauro. Além da genialidade, mais dois motivos são preponderantes para a ausência de projetos educativos da mesma envergadura do que propõe o professor: 1) A falta de preparo e equipe especializada por parte dos parlamentares brasileiros, para propor ações de natureza similar; 2) A falta de vontade política para proporcionar deslocamentos positivos e transformações concretas no seio da sociedade.

Apesar das dificuldades que o professor tem encontrado para dar continuidade ao trabalho, há substancial e efetiva adesão por parte de pessoas preparadas e dispostas a lutar por um Brasil melhor, sobretudo nos interiores do Estado do Rio de Janeiro.

Geralmente se aproximam do professor as pessoas bem formadas, educadas e de famílias tradicionais nas cidades em que residem. São cidadãos que estão enfraquecidos na esperança pelo Brasil devido aos escândalos da atual política. Fartas de tanta incoerência e corrupção, desaprovam sobejamente a eleição de jovens performáticos e influenciadores digitais, optando por credibilizar a experiência e a solidez de bons projetos de quem tem trajetória profissional e educacional de excelência.

Tenho absoluta certeza de que o Brasil tem desperdiçado os melhores talentos e isso ocorre porque, de um lado, a vaidade, o medo e a ganância de políticos profissionais inviabilizam a assunção de novos atores; de outro, a distração do povo e a adesão imediata ao que está na superfície dos problemas, dificulta que os bons projetos floresçam. Tudo isso interdita o país, rebaixando a sua moral, a sua cultura, a sua inteligência, o seu espírito e a sua produção.

O professor Mauro é uma mente prodigiosa acoplada em ser de caráter ilibado e um corpo fortalecido pelo espírito aguerrido de quem sabe que o caminho não é nada fácil; que o reconhecimento muitas vezes acontece postumamente, mas que nada disso pode impedir-lhe de ter coragem. Nenhum homem produz algo realmente revolucionário (no emprego correto da palavra) sem se preparar e sem se testar. 

Definitivamente, hoje o professor Mauro é um dos meus melhores amigos, mas eu não escrevo estas linhas para agradá-lo, e sim como um homem estudioso e justo, que sabe reconhecer o verdadeiro valor da vida, da guerra e da morte. Tenho um profundo desejo de ver triunfar todos os seus projetos e se possível continuar fazendo parte de sua equipe.

O professor Dr. Mauro Rosa é um grande expoente da cultura e da educação, um homem que deve ser aplaudido de pé e valorizado, a ele devemos todas as honrarias e orgulharmo-nos diante da certeza de que em nossa amada terra ainda existem homens brilhantes, varonis e éticos, capazes de sacrificar o próprio patrimônio material pelo bem comum.

Ao leitor que ainda não conhece o professor Mauro, deixo aqui o arrouba do seu Instagram para que possa se deleitar das análises e conhecer os projetos de que tanto falei nestas linhas: @prof.mauro.rosa.

Ao professor Mauro, todas as reverências de um amigo fiel e admirador do importante e necessário trabalho realizado em benefício da população brasileira, sobretudo a fluminense, que recebe de forma direta e objetiva os benefícios dos seus projetos.

As análises e as propostas do professor Mauro Rosa realmente são de alta relevância. Recomendo a todos. Para finalizar, Esperança?

É a última que morre, diz o ditado. “Enquanto há vida, há esperança”; e para mim esta é a tradução perfeita para o bem viver, pois na medida em que perdemos a esperança e a fé, enfraquecemos o nosso espírito.

Portanto, eu tenho a esperança de que o mundo melhore, as pessoas se tornem mais inteligentes e nenhum absurdo seja tolerado. Que haja equilíbrio na política e na economia global.

Em âmbito mais específico, oro para que o Brasil resolva suas questões éticas e morais, fazendo florescer uma cultura mais leve e saudável, no entanto, sem deixar de punir os que das melhores normas de convivência se afastarem. Nesta equação, o meu senso de justiça está assentado no clamor por severas sanções para políticos envolvidos com corrupção e bandidos de todas as ordens (assaltantes, homicidas, estelionatários etc.).

Pode parecer clichê, mas nosso Brasil precisa de mais educação, saúde, infraestrutura urbana, oportunidades de emprego, moradia para os mais necessitados, segurança, menos burocracia, liberdade econômica e estabilidade política, elementos fundamentais para que possamos estar desinterditados.

Nesse sentido, a minha esperança ainda reside no retorno a sã política, na abertura para que homens como o professor Mauro – experientes, preparados e bem-intencionados – tenham a chance de mostrar o valor do brasileiro que ama o seu país e o seu povo.

Com sua mamãe Dona Eunice.

FIM

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

Fernando Santos de Jesus e suas contribuições à sociologia brasileira

( Sobre cultura e nossas questões étnicas)

Em entrevista com o economista José Coimbra.
Em entrevista com o economista José Coimbra

Alguns importantes nomes tenho acompanhado há mais de três anos, pelos esforços humanísticos e, por isso, não menos patrióticos, conscientes e raciocinantes. Dois deles são Fernando Santos de Jesus e Gustavo Ribeiro de Moraes.

Vamos pela ordem. Conhecer um cidadão também por sua escrita, além de vê-lo por vídeo ou ouvir sua voz em mensagem de áudio, fascina a todos os que valorizam o conhecimento e a vida. A escrita nos transmite um sentido de… “mensagens cravadas”. Ensinaram-me que a poesia é a síntese do homem contemplativo e sensitivo. No caso de Fernando, em sua prosa e dissertação teremos a analítica de suas vivências, pesquisas e reflexões.

Em sua obra “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” (2022, edição do autor), o carioca de Engenho de Dentro se apresenta já demonstrando seu bom manejo na arte da sociabilidade. Vindo de uma família humilde e extensa, tornou-se doutor, professor e pesquisador não sem antes viver a música, a capoeira e a cidadania participativa. Após formar o ensino médio, trabalhou como auxiliar administrativo. Passou pela UFRRJ por 4 períodos, onde tomou contato com a literatura de questões raciais, e depois ingressou na UERJ, quando sentiu na pele o movimento estudantil. Participou de congressos, viveu, testemunhou e, como ele mesmo escreve, “encheu-se de reminiscências que dariam outro livro”. Fez o seu trajeto como faria qualquer brasileiro típico que adolesceu na década de 90: sobreviveu a juventude até o início dos anos 2000; estudou, parou; voltou a estudar e conseguiu se mobilizar socioculturalmente durante a segunda década deste século.

Sobre o apelido Senzala? Está lá na página 12. Mais por aspectos gregários do que pela temática espinhosa deste escravo da liberdade. Repetimos: tratamos de um cidadão participativo, familiar, amigável. Por isso, suas vivências amistosas já são sua extensão à vida acadêmica.

Doutorou-se no Ceará e lá testemunhou os tentáculos do globalismo, digamos, racialista e causador de mais injustiças. Estudou a Conferência de Durban (2001) e os respectivos efeitos das conhecidas deformações, também no Uruguai. Entrevistou em Brasília, perquiriu, pesquisou, investigou. E o que mais nos admira em Fernando Santos é a sua cristandade de não guardar ressentimento dos ex-colegas que permanecem no erro. O estudioso aponta e critica as incongruências e as distorções prejudiciais aos brasileiros.

Músico, ele dá um stop nos ruídos e chama à ordem e à harmonia todos os tons e timbres. Retira os floreios excessivos do identitarismo, afasta a péssima regência dos globalistas e enfrenta os falsos alicerces da militância de base, desmascarando carreiristas, oportunistas e covardes. Como está na sinopse, às costas do livro, o escritor “não apenas conceitua e teoriza, mas expõe, cronologicamente, exemplos práticos e ilustrativos do painel”. 

Defende a verdade dos fatos, descreve os atos como eles são, reivindica o mérito, este que é um dos pesos da balança da justiça.

Tem a ginga. Sabe a briga com lealdade. Suas entrevistas, seus painéis têm sabor. Afrobrasileiro autêntico como os de décadas e séculos mais distantes. Um homem do oeste e dos trópicos. Do Rio de Janeiro de São Sebastião. Nota por nota, o capoeirista demonstra como os agiotas aliciam. Os aliciados não podem pensar de forma autônoma. Ficam presos numa dívida impagável. A expressão “agiotas raciais” foi inspirada do livro “Podre de Mimados”, de Theodore Dalrymple.

“Senzala” ousa ao dar “lugar de fala” a um branco bem-sucedido. O prefácio do escritor e desembargador William Douglas tem sido lido aqui em Minas em voz alta por algum membro-afro do Tribunal de Ética da OAB. Douglas nos ajuda a dar peso ao labor precioso de quem sabe colocar princípios e verdadeira causa acima dos movimentos e dos processos viciados.

Apropriação cultural. Dívida histórica da escravidão. Necropolítica, todos esses slogans “são teores e teorias de um racialismo, disseminando distopias sufocantes e climas esquizofrênicos, em que os indivíduos devem estar antecipados às circunstâncias, prevendo o cenário e as características físicas dos seus inimigos imaginários”, afirma o autor na introdução, último texto de apoio. 

O livro se desenvolve em sete partes. Ricas são as referências bibliográficas, com autores de vários espectros e nuances doutrinárias. O anexo de encerramento fecha a tampa da caixa anteriormente obscura que, após a conclusão da leitura, torna-se bem clara para quem fora da caixa consegue pensar. Encerramos agradecendo a Gustavo Reis e a toda equipe do Aliados Brasil Oficial pela apresentação deste importante e talentoso pensador brasileiro.

Abaixo o link para aquisição de exemplares.

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Abrindo a Caixa Preta ⋆ Loja Uiclap

Próximo lançamento

Artigo publicado anteriormente no site Aliados Brasil em 03.07.2025: https://www.aliadosbrasiloficial.com.br/coluna/fernando-santos-de-jesus-e-suas-contribuicoes-a-sociologia-brasileira

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

RUI BARBOSA, 1920

Trecho de “A imprensa e o dever da verdade”.

A IMPRENSA – E SUAS FUNÇÕES VITAIS

Podcast IA

VER. A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxergam o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alveja, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que ilhe interessa, e se acautela do que a ameaça. Sem vista mal se vive.

Vida sem vista é vida no escuro, vida na soledade, vida no medo, morte em vida: o receio de tudo; dependência de todos; rumo à mercê do acaso; a cada passo acidentes, perigos, despenhadeiros. Tal a condição do país, onde a publicidade se avariou, e, em vez de ser os olhos, é a obscuridade, onde se perde, a ruim lente, que lhe turva, ou a droga maligna, que lha perverte, obstando-lhe a notícia da realidade, ou não lha deixando senão adulterada, invertida, enganosa.

VENTILAR, RESPIRAR E CIRCULAR. Já lhe não era pouco ser o órgão visual da nação. Mas a imprensa, entre os povos livres, não é só o instrumento da vista, não é unicamente o aparelho de ver, a serventia de um só sentido. Participa, nesses organismos coletivos, de quase todas as funções vitais. É, sobretudo, mediante a publicidade que os povos respiram.

Todos sabem que cada um de nós tem na ação respiratória, uma das mais complexas do corpo, e uma das em que se envolvem maior número de elementos orgânicos. A respiração pulmonar combina-se com os tecidos, para constituir sistema de ventilação, cuja essência consiste na troca incessante dos princípios necessários à vida entre o ar atmosférico e o sangue, da circulação do qual vivemos. Nos pulmões está o grande campo dessas permutas. Mas os músculos também respiram, e o centro respiratório se encontra, bem longe do aparelho pulmonar, nesse bulbo misterioso, que lhe preside à respiração, e lhe rege os movimentos.

NUTRIR, AVIVENTAR E REGENERAR. Da mesma sorte, senhores, nos corpos morais, nas sociedades humanas, essa respiração, propriedade e necessidade absoluta de toda célula viva, representa, com a mesma principalidade, o papel da nutrição, de aviventação, de regeneração, que lhe é comum em todo o mundo orgânico, animado ou vegetativo.

Nos indivíduos, ou nos povos, o mundo espiritual também tem a sua atmosfera, donde eles absorvem o ar respirável, e para onde exalam o ar respirado. Cada um dos entes que se utilizam desse ambiente incorpóreo, desenvolve, na sua existência, graças às permutas que com esse ambiente entretém, uma circulação, uma atividade sanguínea, condição primordial de toda a sua vida, que dele depende. Não há vida possível, se esse meio, onde todos respiram, lhe não elabora o ar respirável, ou se lhes deixa viciar pelo ar respirado.

ELABORAR, DEPURAR E INSPIRAR. Entre as sociedades modernas, esse grande aparelho de elaboração e depuração reside na publicidade organizada, universal e perene: a imprensa. Eliminai-a da economia desses seres morais, eliminai-a, ou envenenai-a, e será como se obstruísseis as vias respiratórias a um vivente, o pusésseis no vazio, ou o condenásseis à inspiração de gases letais. Tais são os que uma imprensa corrupta ministra aos espíritos, que lhe respiram as exalações perniciosas. 

Um país de imprensa degenerada ou degenerescente é, portanto, um país cego e um país miasmado, um país de ideias falsas e sentimentos pervertidos, um país, que, explorado na sua consciência, não poderá lutar com os vícios que lhe exploram as instituições.

Perestroika, Glasnost e Teoria do 4º Poder (Olavo de Carvalho contra Alexandr Dugin)

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ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

Por Lopes al’Cançado Rocha

Entrevista especial para Semana da Pátria

setembro, 2024

Selecionamos o maestro Roberto de Souza Barros Kalili, que também é escritor e pesquisador da cultura brasileira. Fundador do grupo Alta Cultura, Kalili acredita que ainda temos muito por fazer. O esforço de sua iniciativa, junto de amigos e colegas, tem sido formar e contribuir para o aperfeiçoamento de professores dispostos a transmitir Alta Cultura, sobretudo nacional, por toda a Pátria, aos jovens brasileiros de hoje e das próximas gerações. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e filosofia são os principais conteúdos postados e comentados no Alta Cultura (f.book), espaço virtual com mais de 6.000 membros inscritos e super colaboradores reconhecidos em diversas áreas.   

Natural de São Paulo, e hoje morando no interior do Paraná, o maestro tem atravessado o Florão da América nesses últimos anos. Travessia horizontal e transversal, tanto no sentido físico quanto em termos documentais, sentimentais e imaginários.

Com seu estilo ousado, às vezes em prosa imaginativa, noutras vezes em prosa didática, Roberto Kalili publicou recentemente na coletânea “Olavo de Carvalho: um filósofo do Brasil (2022)”, e sua obra individual “Alta Cultura Brasileira: uma caçada ao tesouro (2023)”, ambas pela editora Armada.

Kalili, obrigado pela correspondência em público. Poderíamos começar pela sua infância? Vida em família, a educação, os divertimentos e os trabalhos como ator mirim de televisão. 

Quando criança, eu tinha um pequeno disco com duas músicas infantis, “O MACACO E A VELHA”, Festa No Céu, que escutava o dia todo. Joguei muito caxangá, que na versão original se apostam docinhos, tem um dado com quatro lados, tira, põe, deixa ficar e rapa tudo. Sabia fazer pipas interessantes que soltava com quatro rolos de 400 metros de linha emendados, construía miniaturas de aeromodelos e aviões de papel. Quando a criança brinca, está experimentando os diversos papéis que a vida pode nos dispor: aviador, espião, general, músico, automobilista, balonista, cowboy, índio; acho que este é o sentido de brincar; quando um menino constrói um carrinho de rolimã está descobrindo se quer ser um Enzo Ferrari ou Henry Ford, quando desce a ladeira embalado se imagina um Airton Senna ou Emerson Fittipaldi, destarte construímos nosso futuro a partir dos sonhos. Tive a oportunidade de experimentar muitos destes papéis na vida real, e assim fui construindo a vivência necessária para a formação de um escritor. A experiência como ator-mirim pode ser uma faca de dois gumes, pois gera algumas falsas expectativas. Não aconselho a ninguém colocar a seus filhos na frente das câmeras para ser julgado pela multidão, mas para brincar, aí sim pode ser legal. Eu trabalhei em comerciais antigos, ainda na televisão em preto e branco, para a Nestlé, Omo Total, Kibon, Viva Sabão, Arroz Brejeiro, Banco do Brasil e outros, entre 1964 e 1972.

E como foi o início nas artes? Adolescência, juventude, apreciação, aprendizagem…

Gostava de teatro e de apresentar peças de polícia e ladrão, compunha canções desde muito novo, comecei com paródias. Gostava de ler, mas após a quinta série tive maus professores que raramente me ofereciam a liberdade para escolher os livros. Me vestia de preto e pintava o rosto com carvão para andar como espião pela noite, também fabricava balões de São João e imaginava voar neles ao sabor dos ventos; acho que nem é sobre mim, mas sobretudo o que as crianças fazem de legal, coisas como subir em árvores, construir cabanas de pau e folhas, andar pelo mato feito bicho, escrever poesias. Rabiscava planos mirabolantes, vivia papéis de cowboy, gangster, índio, biólogo, vivia mesmo. Quando eu cismava em ser biólogo, trabalhei no Butantã, no departamento de recepção de animais peçonhentos (COBRAS E ARANHAS), alimentei a elefanta do zoológico, e o hipopótamo Cacareco, os camêlos, as ariranhas, criei uma cobra caninana, resgatei um falcão, uma tartaruga, montei aquários. Um dia resolvi virar índio e sumi pela floresta da Serra do Mar; quando resolvi que seria cowboy montei um touro de 700 quilos (aos seis anos de idade…) o que forma um escritor é viver!

Muitos artistas enxergam, ainda que poeticamente, uma certa interdisciplina entre as primeiras artes com que temos contato a partir da infância: música, dança, literatura oral e artes plásticas. Lembremos da afirmação de Goethe, de que “arquitetura é música petrificada”. Como o maestro percebe essas relações?

        Toquei violão, depois guitarra, violino, contrabaixo, bandolim e cavaquinho. Fui da MPB ao rock, depois jazz rock, progressivo; toquei em orquestra, grupo renascentista, barroco, fui baixista de estúdio, morei na praia pintando barco de pescador, fui barman (menor de idade). O estudo musical favorece o desenvolvimento do complexo cognitivo estimulando a função do córtex.

Em geral, nossa relação com artes se dá na seguinte ordem: primeiro pelas atividades lúdicas; depois como instrumento de expressão da personalidade; em seguida como experiência de vida e reflexão filosófica; e por fim, como ritualização da nossa própria vida espiritual, uma forma de buscar o sagrado. No seu caso, está sendo mais ou menos dessa forma? O que o Kalili sexagenário de hoje diria ao Roberto quando adolescente e jovem?

É uma pergunta difícil, eu costumava fazer promessas para toda a vida, jurei que caso chegasse aos quarenta como uma pessoa normal enfiada numa vida sem graça eu iria jogar tudo para o alto e sair pelo mundo para recomeçar. Fiquei satisfeito com aquilo em que me tornei, não gostaria que fosse de outra forma. Meu conselho seria para começar a estudar música mais cedo. Creio que a maior parte do que disse até aqui comprova sua teoria, do brinquedo para a expressão, da experiência para a vida, apenas no meu caso a vida espiritual começou bem mais cedo. Acho que ainda sou assim, quando remo solitário durante a noite no Rio Ivaí, ou saio montado na fazenda atrás de vaca brava, quando toco meu cavaquinho ou viajo por aí a conhecer o Sul, a Argentina e o Paraguay, ainda sou aquele sonhador. Quem deixou de viver seus sonhos está morto para a vida espiritual. Algumas vezes eu puxo demais pelas pessoas porque desejo que elas percebam isto com clareza, que não desperdicem suas vidas. Acredito que o vitimismo é parte do medo que ancora o espírito; então você é capaz de me encontrar andando pelos andes vestido como um inca, ou na praia de Ilhabela vivendo como um caiçara, ou como um ganadero (pecuarista) no Paraguay, saiba que ainda estou vivendo intensamente o sonho da vida, e que o mundo espiritual é inacessível para quem não experimentou a realidade em sua essência mais pura.

Conte-nos como e quando você passou a ler e a estudar sobre filosofia e história da arte, os temas, autores etc.

Quem me influenciou um pouco mais a escutar música foi minha avó Evelina, nascida em Dresden, que era a pessoa de maior cultura em minha família, escutava muita música clássica e gostava de ler Seleções. Minha iniciação nos grandes mistérios se deu espontaneamente, ainda antes de completar quatro anos. Foi uma coisa mágica, através da graça, não havia qualquer mérito meu que justificasse. Fui sim interessado por diversas culturas ao longo da vida, os persas antigos, judeus, chineses, japoneses, indús, franceses, alemães, gregos, incas, jesuítas, busquei em todos os lugares na esperança de encontrar em algum.

Lopes:                                                                     

– Mas e a relação com a dança?

 – A dança ocupa o centro de equilíbrio na base do cérebro, envolve o labirinto (do ouvido interno). Dancei muito pouco, gostava das músicas lentas e o advento da “disco music” em São Paulo me afastou da prática. Me encantam os antigos bailes valseados de Johann Strauss, acho que se eu tivesse tido a oportunidade de vivenciá-los gostaria muito mais de dançar.

Lopes interrompe novamente:

– Sim, mas, durante a execução, maestro e músico dançam com as mãos, com os pés e a cabeça…é nesse sentido,não?                                                                   

– Pode-se unir música com pintura, letra, canto, dança, acredito que nestes casos a música fica contida em um limite; eu quando estou regendo fico sentado, de olhos fechados, me comunico apenas de leve, faço o grupo repetir mil vezes, até soar como um dente-de-leão pairando na brisa. Minha formação deve muito à prática em quarteto de cordas. A parte literária tem como referência três pequenos livros azuis que recomendo a todos para serem lidos ao mesmo tempo: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), Ortodoxia (G.K.Chesterton) e Itinerário da Mente Para Deus (São Boaventura). Claro que há centenas, senão milhares de títulos para se estudar, escritores de ficção (Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, James Clavell, Agata Christie, que ajudam ao jovem a desenvolver o prazer da leitura, e diversos contistas brasileiros de qualidade (Gastão Cruls, Inglês de Souza, Vicente de Carvalho), com vocabulários bem mais sofisticados e estilo culto. A história da arte (assim como toda a história), é apenas uma narrativa, o que se deve estudar é autor por autor, não acredito em coletivos. Os livros “Subliminar” e “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodnow foram importantes para aumentar meu conhecimento em neurociências. De Mario Ferreira dos Santos o livro “Ontologia e Cosmologia” foi o melhor que encontrei para entender a relação entre a filosofia e a vida espiritual. Professor Olavo de Carvalho é uma grande leitura para o entendimento do mundo em que vivemos, sua capacidade de sintetizar pensamentos complexos em fórmulas simples e expor falácias e erros do pensamento moderno a partir do pensamento dos grandes gênios da humanidade é única no mundo. Recomendo começar pelo “Diário Filosófico”, e não parar.

A arquitetura visa acomodação familiar, segurança e praticidade; música por outro lado é arte abstrata, não visa o corpo, mas o espírito. Com exceção honrosa para Gothfried Leibnitz, tenho profundas desavenças com a filosofia alemã, pois em meu entender havia uma outra Alemanha, bela, poética e rural, que a filosofia de origem oriental e o protestantismo esmagaram. Um país de contos de fadas, talvez a maior perda da humanidade, a Alemanha católica. Deixando de lado o argumento “ad hominem”, a música é movimento, então a máxima de Goethe pode ser comparada à nossa ex-presidenta quando falou em “estocar o vento”. Quer dizer, petrificar movimento é, ou não é a mesma coisa que estocar o vento? Vamos à interdisciplinaridade, segundo São Boaventura, as seis asas do serafim para quem busca uma imagem do Deus invisível através de suas qualidades.  A primeira asa para a escultura, o objeto real e material, as imagens dos Santos, a arte dos gregos, a expressão da beleza que fala diretamente ao espírito e cuja máxima expressão é a Pietá de Michelangelo, a imagem de Nossa Senhora com o corpo de Cristo em seus braços. A segunda asa do serafim para os grandes pintores, as obras eternas que exprimem a imagem, que estimulam o hipocampo, que mostram os grandes sentimentos, a vida superior, os momentos mágicos do passado, a grandeza de Deus em sua infinita misericórdia, os grandes mistérios, as visões de Pedro Américo, as imagens que tocam o coração e a alma humana. A terceira asa para a literatura, a construção da linguagem, oratória e retórica, a argumentação, o Organon de Aristóteles, a gramática e a ortografia, a matéria com que trabalham os escritores. A quarta asa para os grandes poetas, para as máximas literárias, e para a oração. O homem diante do seu Criador, a essência que pode ser transmitida através do diálogo com a tradição, as lições de vida condensadas de forma curta e objetiva, os exorcismos, a gratidão, o incensório a vibrar sobre nossas cabeças. A quinta asa para a música, a expressão do movimento, a vibração traduzindo as harmonias sutis que nos envolvem e governam, capazes de reger nossas interações sociais, essenciais para a construção de uma personalidade culta. A sexta asa para o planejamento, o seu trabalho, seu papel neste mundo. Que todas estas artes possam ser combinadas para produzir o efeito de imersão cultural é uma benção que raramente merecemos, mas vamos assistir ao filme “Música e Fantasia”, de Walt Disney e pensar melhor sobre isto.

Como você conheceu o poeta, filósofo, escritor e jornalista político Olavo Luiz Pimentel de Carvalho? Quais foram as suas primeiras impressões sobre ele?

Quando estudei contraponto, a partir de 1985, tive contato com o professor que morava com o Olavo, Ricardo Rizek, e estudei um tanto de filosofia. Rizek e o Professor Olavo faziam um interminável debate filosófico, do qual eu (10 anos mais jovem que o primeiro, e quinze anos mais jovem que o segundo) muitas vezes conseguia participar de forma certeira, dando a palavra final. Professor Olavo era como uma lenda para mim, o debate filosófico entre ele e o Professor Rizek atingia um nível raro que é difícil descrever, a arte de Tarkóvski, o Pitágoras de Mario F. dos Santos, os poetas da pérsia antiga, sufismo, taoísmo, xintoísmo, o contraponto de Bach, a integração de todas estas coisas. Eu nunca encontrava o Olavo pessoalmente, e só fui conversar direto com ele muitos anos depois, através da internet, quando já residia nos Estados Unidos. Ele me orientou bem, desmanchou algumas ideias que tinha como certas, mas que eram verdadeiros edemas em meu pensamento -por exemplo, o budismo, que me parecia lindo, um único ser eternamente amando a si próprio no auge da perfeição  – ; mas na verdade era bem menos interessante do que o amor cristão piedoso pelo próximo, com qualidades e defeitos. Por isto os Santos budistas têm seus olhos fechados, e os católicos têm olhos bem abertos. Mas a maior influência veio mesmo daquela aula sobre Alta Cultura ministrada no programa “True Outspeak”, em que o Professor me demonstrou a necessidade de conhecer o mundo através de nossa própria cultura, o que me levou a formar o grupo de alunos no Facebook.

Alta cultura. Há trinta anos, os termos mais usados eram cultura erudita e cultura clássica. Muitos tinham certo preconceito, associavam a elitismos, à sujeição do brasileiro às antigas potências europeias coisa e tal. Hoje, alguns defendem até uma dita “aprofundada descolonização” de nossas heranças ibéricas e Norte-ocidentais. Que você tem a dizer sobre isso?

O termo alta cultura tem uma razão de ser, ele evita o uso de termos como “arte”, que foram degenerados pelo mau uso. Quando se fala em música erudita, por exemplo, você inclui as bobagens infantis de John Cage na mesma categoria de Bach. Isso é ofensivo! A degeneração cultural não deveria jamais ser chamada de arte, então sou obrigado a chamar de música clássica, não “erudita”, afinal ela se apoia em uma cadeia de valores clássicos gregos-romanos-hebraicos, ou seja, ela busca a virtude como expressão da natureza divina. Se Frida Kahlo (canibal, medonha, tosca e desprovida de virtudes, pode ser considerada arte, então o termo vale para o que um bebê deixa em suas fraldas, mas não serve mais para Jerônimo Telles-Júnior. Deixar de lado nossas influências europeias é voltar a um estado animalesco.

Lopes:

John Riches, professor das áreas de Divindade e Crítica Bíblica, da Universidade de Glasgow, em seu livro “Bíblia: uma breve introdução” (L&PM Pocket), traduzido aqui por Denise Bottman, tem um capítulo só sobre a influência das Sagradas Escrituras nas artes. Riches, ou a tradutora, também usa o termo Alta Cultura. Chineses e russos, por exemplo, que hoje pretendem liderar a política na Ordem Internacional, valorizam enormemente as heranças europeias: as grandes epopeias, as arquiteturas, a sonata, o soneto etc. O dito “antropofagismo filosófico” e o freudomarxismo bestial, de um José Oswald de Souza Andrade, ainda são grandes desserviços para nós, nesse sentido. Membros da ABL fazem de tudo para ocultar um Olavo Bilac, um Olegário Mariano, um Ribeiro Couto…mas ainda exaltam os resultados da Semana de Arte Moderna e do modernismo paulista. O modernismo mineiro é outra coisa.

Kalili:

-Bem, falar sobre a “Semana de Arte Moderna de 1922” é coisa que geralmente não faço, mas como sei que muitos leitores jamais ouviram a verdade, vou contar a partir de uma experiência pessoal. Em 1978, morava na rua um vizinho coronel, bruto mesmo, que era pai de dois guris, o mais novo andava comigo, e era um rapaz muito perturbado: sofria de complexo de culpa e fazia coisas terríveis apenas para ser punido. O irmão mais velho era diferente, estudioso, responsável, tanto que o pai se sacrificou para lhe pagar um curso de direito em Londres. No último mês, o coronel não falava outra coisa: você é uma porcaria, nunca vai ser ninguém, deveria se espelhar em seu irmão, ele volta doutor formado, vai ser juiz – sonhava o pai. Quando o coronel e a esposa foram, cheios de orgulho e pompa, buscar o jovem prodígio no aeroporto eu estava na rua e vi tudo. Meu amigo se sentia um inseto; porém ao voltarem para casa, ao invés de um doutor de casaca, traziam um rapaz magro, com cara de mendigo, chinelão franciscano no pé imundo, cabelo parecendo ninho de urubu, calça de saco de arroz e camisão de estopa. Era o “doutor”. A única coisa que ele trouxe de Londres foi uma coleção de discos do Frank Zappa recheados com cartelas de LSD. Para piorar a situação o irmão mais novo se espelhou nele, assim como um grande grupo de jovens, que aprenderam música e gravaram até alguns discos de sucesso acompanhando um doido paranaense. Mas e a semana de arte moderna? Pois foi exatamente a mesma coisa; os pais aqui achando que estavam mandando seus pimpolhos estudarem na França para se tornarem gente, e eles voltaram como um grupo de vagabundos. A semana foi um fracasso, lixo dadaísta primário e ignaro; mas a mídia estava de cabresto. Juntos eles destruíram a cabeça de algumas gerações, o Brasil é um cemitério de talentos. A besteirada moderna não passa de proselitismo comunista com objetivo de destruição de nossa arte. Nada mais.

– Alguns diziam, por aqui, nos anos 90, que música clássica era a do classicismo.

– Classicismo que eles chamam de rococó, com algum desdém, como se Haydn fosse um sinônimo de mau gosto! Esses professorzinhos militantes me enojam.          

Lopes respondeu:

– Opa….vai devagar aí, maestro…

Kalili:

– Mas deixar de lado a cultura europeia é comer os vizinhos, andar pelado e analfabeto no meio do mato, isso não tem nada a ver com cultura.

Lopes:

– Eu ri demais: “…andar pelo mato churrasqueando os vizinhos…” Nem todo mundo hoje está preparado para uma ironia dessa. Mas temos a consciência de que é por justa defesa da nossa cultura que o maestro ironiza.

Kalili:

– A música é uma descoberta católica.

Lopes:

– Canto polifônico, por exemplo.

Kalili:

– Sem a cultura (nem digo católica, mas especificamente jesuíta inaciana) não existe Brasil, a afinação é católica, do, ré, mi… Os pesquisadores reformistas e até os ateus reconhecem a Santa Igreja como a maioral na música.

Lopes:

– Já tive um professor de matemática, ateu, marxista e maestro que reconhecia o papel, “apenas histórico” da Santa Igreja…

Kalili:

– O papel civilizador dos jesuítas tiroleses é a melhor essência de nossa cultura, e deveria ser retomado visando o bem das futuras gerações, a recomposição de valores e a formação de inteligências sadias para substituir as mentes degradadas que hoje dominaram nossa atividade cultural, apesar de serem desprovidas de cultura, exceto sob o ponto de vista escatológico.

O músico Lobão certa vez afirmou que na cultura pop há muitos elementos de alta cultura. Qual a sua opinião a respeito?

Lobão, ele se acha; é inteligente sim, mas tem a mente deformada. Para começo de conversa jamais tocou rock, o ritmo da bateria dele é polca.

Lopes:

– Não queremos isso, por favor.

Kalili:

– Bem, o que posso dizer de Lobão?

Lopes:

Atenha-se à pergunta. É sobre a afirmação dele. Não sobre ele.

Kalili:

– Acho uma opinião forçada, existem elementos de alta cultura somente na proporção em que a cultura popular deixa de ser popular. Vou explicar: um músico popular, em geral, aprende poucos acordes, dó maior e sol com sétima, aprende a escala em modo jônio e mixolídio, isto é clássico e católico, ou seja: apenas na medida em que a cultura popular assimila elementos clássicos que constituem a essência da arte musical ela se torna música.

Lopes:

– Agora sim…você diz do aperfeiçoamento da toada para a canção.

Kalili continua:

– A cultura popular não significa ignorância absoluta, mas apenas ignorância relativa; o não saber que ao afinar um violão o músico está utilizando Pitágoras, e ao tocar uma escala ou acorde isto é uma herança católica. Mas temos que tomar cuidado ao afirmar essas coisas senão os catolicofóbicos vão tocar desafinado e fora da escala de propósito; então absolutamente todos os elementos que formam a música são criações clássicas, a diferença é quantos desses elementos aprendemos e quantos ignoramos.

Risos. Na sua opinião, quais limites ou fronteiras podemos estabelecer entre folclore, alta cultura, cultura popular e cultura pop?

Não acredito que o papel do professor seja estabelecer fronteiras entre cultura popular e alta cultura, a nossa função é apenas instruir os músicos de maneira elementar, ensinar acordes, escalas, ritmos, cada artista deve desenvolver uma linguagem própria, e isto já é um processo lento e natural, melhor não interferir, mas quando eu trabalhava vendendo guitarras, por exemplo, era comum ouvir um cliente dizer que tinha vendido um milhão de discos e que não sabia ler uma nota; como eu era apenas o vendedor, lhe dava os parabéns, pegava o dinheiro e entregava a guitarra, ganhava minha comissão e esperava o próximo cliente, mas como professor minha vontade era gritar: ENTÃO VÁ ESTUDAR, VAGABUNDO!

O brasileiro, em geral, se orgulha de ser burro, para um artista isso é uma vergonha, em minha opinião isto significa que tudo o que ele fará em sua vida será copiado, pois sem conhecer a estrutura musical não pode haver criação genuína.

Gostaríamos que comentasse os dois trechos abaixo:

a) “Aprendemos no céu o estilo da disposição, e o das palavras. […] as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que já sabem.” (Padre Antônio Vieira).

Kalili: Na prática é muito difícil atingir a todos da mesma forma; quando escrevo algo mais profundo, poucos alcançam; e quando escrevo algo acessível, não acrescenta muito aos que estão acompanhando o fluxo de ideias há mais tempo, então a oratória do Padre Vieira havia atingido um nível que seria raro encontrar nos dias de hoje. Só o Olavo mesmo para unir as duas coisas, então isso nos dá uma pista da quantidade e qualidade de leituras que são necessárias para um indivíduo se tornar capaz de exprimir a alta cultura com simplicidade.

b) “A literatura não é como a música; não é para os jovens, não há prodígios nesse campo. O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental, leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que se viveu. ( V.S Naipaul).

Kalili: Percebo que atualmente damos valor demasiado a obras pueris, acredito que o próprio Mozart só se tornou realmente o gênio que reconhecemos em suas últimas obras, como o quinteto para clarineta; porém com Beethoven deu-se o oposto, ele foi compositor pleno ainda muito jovem, conforme o hepteto opus 21 deixa claro, porém na medida em que foi envelhecendo sua música se tornou menos abstrata e repleta de sentimentos exacerbados. Não que com isso perca o valor, mas certamente é outra via. Também na literatura não é verdade, temos os exemplos de Castro Alves, um gênio ainda mal saído da juventude e Álvares de Azevedo idem, em sua “Lira dos Vinte Anos”, uma obra prima. Entretanto reconheço que comigo se deu assim, realmente fui adquirir maturidade literária somente depois dos cinquenta. Meus primeiros trabalhos eram desorganizados e reticentes. Cada caso é um caso.

-Última pergunta-

Revolucionários contemporâneos, tais como Boa Ventura de Sousa Santos, Miguel Gonzalez Arroyo e outros — partidários de doutrinas antieuropeias e dos “Direitos Humanos” de viés histórico-crítico, e marxista-leninista— e tantos outros multiplicadores dessa doutrina perestroika, acusam a nós, difusores da Alta Cultura, de “elitistas”; “de defensores do status-quo liberal-conservador Ocidental e Cristão”; tratam-nos como “pretensos altaneiros culturais” que desprezam os pobres. Nas palavras desses “esclarecidos”, “nós trataríamos as pessoas humildes como inferiores em moralidade, cultura e civilização, e teríamos o perverso objetivo de hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural”. Seríamos uma espécie de “arrogantes catequistas a serviço de colonizadores do passado”. Como você responderia a essa acusação leviana?

Lopes, agora você tocou no cerne do problema, vou tentar dividir a resposta de forma que fique bem compreensível para nossos leitores. Primeiro vou apontar os erros: a elite não é um coletivo que veio ao mundo para estragar a vida dos pobres. A elite é apenas um grupo de pessoas iguais a todo mundo, não possuem uma cultura diferente, assistem aos mesmos programas ruins da televisão. Reunir povos tão diferentes como portugueses e finlandeses numa única caixa e odiá-los por serem europeus, demonstra um ódio cego pelo próximo. A cultura “europeia” que eles odeiam é o catolicismo, cujas origens estão na África (Egito) e no povo judeu. Eles mesmos são bastante pretenciosos ao falar em nome da “autoridade moral” da esquerda, primeiro porque a esquerda não suporta moral, segundo porque se trata apenas de um projeto de poder, proselitismo em sua forma mais baixa e degradante. Os pobres que eles dizem defender e representar são católicos, conservadores, gente boa e honesta, que trabalha e não gosta de vagabundo; e as minorias que eles dizem defender, servem apenas como massa de manobra; veja os ataques covardes que fizeram ao Sergio Camargo, quando este esteve à frente do Instituto Palmares. Se a democracia é definida pela imposição do direito da maioria sobre a minoria e o “amor pelo coletivo” não é outra coisa senão o ódio travestido à individualidade, quem eles defendem? Não é você, nunca. Chato não é estudar, chato é ser burro. Dito isto, vamos agora pensar o certo: porém a maior parte dos grandes artistas foram de origem humilde, e todas as grandes artes tiveram seu berço na Igreja Católica, que também foi responsável pela criação das escolas, das universidades, dos hospitais, e em especial pelo fim da escravidão por dívidas (Santo Antônio). Desta forma, odiar a cultura católica também significa deixar de lado todas estas conquistas. Agora vamos analisar de forma pragmática o que eles têm a nos oferecer: a destruição da família, a submissão ao Estado, o confisco dos bens (inclusive dos pobres), a substituição dos valores estéticos na arte pela degradação moral do ser humano. A idolatria por falsos artistas que lhes servem como porta-vozes. A supressão de todos os seus direitos (tudo pelo Estado, nada contra o Estado). A escassez inevitável advinda da política keynesiana e da planificação da economia, também devido a supressão dos direitos sobre os meios de produção. A doutrinação no lugar da educação. A principal diferença entre os católicos e os comunistas é que os primeiros dividem o que possuem com os outros, e os segundos dividem o que é dos outros com os seus aliados. Mas mentir é uma parte indissociável dessa política, oferecer um paraíso que não pode distribuir para convencer vagabundo de que vai viver no bem-bom sem qualquer esforço pessoal. Então vem a terceira parte da nossa questão; o que a alta cultura pode lhe oferecer? E esta é a parte realmente importante, entender o que você ganha estudando a alta cultura brasileira. Alta cultura induz ao diálogo com a tradição. A tradição consiste em um esforço contínuo da humanidade para melhorar a vida através da leitura, da música, da pintura e da oração. Ler bons livros aumenta sua capacidade de compreender o mundo, escutar boa música instrumental ou clássica melhora a atividade cerebral e estimula a imaginação (interferindo na forma como reagimos em situações sociais e a maneira como enxergamos uns aos outros), e a pintura realista permite-nos perceber o mundo através do olhar de um artista, com profundidade e sentimento, quer dizer, ao estudar o mundo em nossa própria cultura, absorvemos os elementos necessários para ver a vida através dos olhos das grandes mentes do passado. Se além disto dermos o próximo passo, quer seja estudando um instrumento musical, aprendendo a pintar um quadro ou escrevendo um livro, também nos tornamos parte deste grande fluxo de pensamentos que ilumina a vida e ameniza a existência através da beleza. Por fim, e não menos importante, a oração, o estudo das vidas dos Santos, o conhecimento dos caminhos que podem conduzir a alma a uma existência mais bela. Tenho nisto minha própria experiência ao me deixar orientar, não pelo professor maconheiro de história, mas através do “Itinerário da Mente Para Deus”, um livro antigo escrito por um Santo. Agradecer sempre, mesmo diante das dificuldades, o fará mais forte e confiante diante dos desafios.

Conclusão:

Eles impõem uma cultura medonha, destrutiva e inútil, enquanto nos acusam de tentar recuperar as boas práticas artísticas, desenvolvidas ao longo de séculos pelos maiores expoentes da humanidade. Fica por conta do leitor a decisão de descobrir o melhor de nossa cultura, o trabalho é árduo, mas entre no grupo de Alta Cultura no facebook para conhecer outros artistas que você nunca pensou existirem no Brasil.

Endereço do grupo Alta Cultura:

https://www.facebook.com/groups/2543250742598003.

Últimas palavras de Roberto Kalili:

Um pequeno guia para quem deseja conhecer melhor nossa cultura:

Livros: Os XII Trabalhos de Hércules, Através do Brasil, Amazônia Misteriosa

Compositores: Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Leopoldo Miguez

Poesia: Castro Alves, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo

Pintura: Arthur Timóteo, João Batista da Costa, Oscar Pereira da Silva

Música Popular Brasileira: Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo

História do Brasil: Primeiras Cartas do Brasil, Viagens às Missões Jesuíticas

Livro didático de minha autoria: Alta Cultura Brasileira – Editora Armada

— FIM–

Especial “Semana de Arte Moderna V 

Especial “Semana de Arte Moderna V” | por Graça Rios

a condição da mulher no início do século XX | a família, o marido e os filhos | analogias, associações e imaginações | declamação | Anita Malfatti e suas dúvidas | sobre a (des)valorização da arte e do artista em seu tempo

Anita Malfatti, em 1955 fotografada por Guilherme Malfatti
Clique acima para ouvir o “papo de rádio” literário. Trilha: Markos Paullo, cello em teclados.

suspense | Monteiro Lobato x Anita Malfatti | a exposição e a fúria | “paranóia ou mistificação” | loucura e comparações com a Paulicéia | SP hoje e àquela época | desvarios | em defesa de Anita | mortificação de uma artista e os ciúmes masculinos

Anita Malfatti e Tarsila do Amaral em sua Exposição 1955 no MASP/SP.
Clique acima para ouvir o “papo de rádio” literário. Trilha: Markos Paullo, cello em teclados.

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Especial “Semana de Arte Moderna II”

Especial “Semana de Arte Moderna II” | por Graça Rios

Em busca da “língua(gem) natural” e contra o “lirismo bem-comportado” | o índio fundador da nossa cultura [pode ser contestado! | a ausência do negro na Semana | crítica a Paulo Menotti Del Picchia & Juca Mulato | Grupos: Nheengatu, Verde-amarelo, Tupi or not tupi | impossível se ater ao período | a música em ‘meu cu não é ímã | marginalização da mulher | à procura do Muiraquitã | o difícil escrever simples | Abaporu e Antropofagia | a Semana é um ovo, mas às vezes gora | Quem é que vai destruir o quê????

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

sonoplastia: lopes (“esquece zé, vem jantá!” e “…que meu chôro seja ouvido”).
Muiraquitã – amuleto da sorte.

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Especial Semana de Arte Moderna I | Por Graça Rios

Especial Semana de Arte Moderna I | moda estilo capiau | linguagens carnavalescas e carnavalizadas | poética do mascaramento | desvarios libertários | o que foi e é nossa Pátria para os semanistas? | “o grande engano”, falação, repensar e questionar (…)

Por Graça Rios,

Bhz em 22.02.2022.

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

sonoplastia: lopes, amilton matos e vicente jr.
Tarsila e Oswald a bordo do navio Lotus, em 1926. A pintora usa vestido assinado pelo costureiro francês Paul Poiret

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Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Para brindar nossa perseverança, partilho com os amigos a carta-resposta do Joaquim Maria ao mestre Alencar, a respeito do seu Castro Alves, quando este último fora recomendado ao primeiro pelo segundo. No próximo 29.02 desse bissexto, nesse século que ainda amanhece, completam-se cento e cinquenta e dois anos do registro que segue. Tão atuais são essas vozes que parecem soprar por cima de nossos ombros.


Era carnaval, também ano bissexto, há 152 anos. Revivamos juntos:

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebel-o das mãos de V. Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida litteraria. Abre os olhos em pleno Capitolio. Os seus primeiros cantos obtêm o applauso de um mestre.

Mas se isto me enthusiasma, outra cousa há que me commove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inutil fôra dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Ex. mais do que uma animação generosa.

A tarefa da critica precisa d’estes parabens; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas luctas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessaria para reavivar as forças exhaustas e reerguer o animo abatido.

Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de critica, fui movido pela idéa de contribuir com alguma cousa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e effectivamente se perde. Meus limitadissimos esforços não podiam impedir o tremendo desatre. Como impedil-o, se, por influencia irresistivel, o mal vinha de fora, e se impunha ao espirito litterario do paiz, ainda mal formado e quase sem consciencia de si? Era difficil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de litteratura, sem alento nem ideal, falseada e frivola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Ex., sabem exprimir sentimentos e idéas na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam oppôr um dique á torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.

Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: a este já não era a intelligencia que se expunha, era o caracter. Comprehende V. Ex. que, onde a critica não é instituição formada e assentada, a analyse litteraria tem de luctar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais bellas creanças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se affectos. Desfiguram-se os intentos da critica, attribue-se á inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipathia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que elle não pesaria no animo de quem põe acima do interesse pessôal o interesse perpetuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.

Cançados de ouvir chamar bella á poesia, os novos athenienses resolveram banil-a da republica.

O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veiu sentar-se no santuario e assim generalizou-se uma crise funesta ás lettras. Que enorme Alpheu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?

Eu bem sei que no Brazil, como fóra d’elle, severos espíritos protestam com o trabalho e a licção contra esse estado de cousas; tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do seculo. Mas sempre ha de triumphar a vida intelligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; comtudo, entendia e entendo – adoptando a bella definição do poeta que V.Ex. dá em sua carta – que ha para o cidadão da arte e do bello deveres imprescriptíveis, e que, quando uma tendencia do espirito o impelle para certa ordem de actividade, é sua obrigação prestar esse serviço ás lettras.

Em todo caso não tive imitadores. Tive um antecessor illustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria proseguido no caminho das suas estréas, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as creações que depois nos deu. Será peciso acrescentar que alludo a V. Ex.?

Escolhendo-me para Virgilio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a propria carta de V. Ex. não houvesse aberto ao neophyto as portas da mais vasta publicidade. A analyse póde agora esmerilhar nos escriptos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.

Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural anciedade que nos produz a noticia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.

Não tive, como V. Ex., a fortuna de os ouvir deante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes deante de mim: não tinha os pés n’essa formosa Tijuca, que V. Ex. chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano. Em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara á loucura: estávamos no carnaval.

No meio d’esse tumulto abrimos um Oasis de solidão.

V. Ex. já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou comsigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo publico, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escriptos do poeta.

Não podiam ser melhores as impessões. Achei uma vocação litteraria, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista – no dizer, nas idéas e nas imagens. Copial-as é anullar-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se advinha que a sua escola é a de Victor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irman levou-o a preferir o poeta das Orientaes ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.

Como poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com egual inspiração e methodo idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma fórma esculpida com arte, sentindo-se por baixo d’esses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a fórma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possue; veste as suas idéas com roupas finas e trabalhadas. O receio de cahir em um defeito, não o levará a cahir no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja d’elle. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas bellezas.

O drama esse li-o attentamente; depois de ouvil-o, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada pagina do volume.

O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metaphoras enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sophocles pede as azas a Pindaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o CEO de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.

Esta exhuberancia, que V. Ex. com justa razão attribue á edade, concordo que o poeta ha de reprimil-a com os annos. Então conseguirá separar completamente a língua lyrica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.

Estreando no theatro com um assumpto histórico, e assumpto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidencia tinham além d’isso a aureola do martyrio. Que melhor assumpto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquella veneração que as raças livres devem aos seus Spartacus. O insucesso fel-os criminosos; a victoria tel-os-hia feito Washingtons. Condemnou-os a justiça legal; rehabilita-os a justiça histórica.

Condensar estas idéas em uma obra dramática, transportar para a scena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objecto do Sr. Castro Alves, e não se póde esquecer que, se o intuito era nobre, o commettimento era grave. O talento do poeta superou a difficuldade; com uma sagacidade, que eu admiro em tão verdes annos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquella o póde accusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Ex., conhecem esta alliança, hão de avaliar esse primeiro mereceimento do drama do Sr. Castro Alves.

A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circumstancia dos seus legendários amores, de que é história aquella famosa Marilia de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circumstancia. Do processo resulta que o cantor de Marilia era tido por chefe da conspiração, em attenção aos seus talentos e lettras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu á conspiração com uma actividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.

Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao theatro o elemento feminino, e de um lance casavam-se em scena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circumstancia foi bem aproveitada pelo auctor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dous sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no teceiro acto, o poeta não hesita em repellir esse recurso, apesar de ser imminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se elle as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a licção do velho Horacio corneiliano; entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.

O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se póde deixar de recorrer á história; supprimir esta condição é expor-se a critica a não entender o poeta.

Que vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquelle conjurador impaciente e activo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e emprehende, que confia mais que todos no successo da causa, e paga emfim as demasias do seu cararcter com a morte na forca e a profanação do cadaver?

E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo alli, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aquelles emigrados do Terror?

Não lhe rola já na cabeça a Idea do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquelle o denunciante Silverio, aquelle o Alvarenga, aquelle o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência litteraria do auctor. A historia nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquella exaggeração artística, necessária ao theatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciaes de uma epocha ou de um acontecimento.

Concordo que a acção parece ás vezes desenvolver-se pelo accidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influencia do principio contrario em toda a peça.

O vigor dos caracteres pedia o vigor da acção; Ella é vigorosa e interessante em todo o livro; pathetica no ultimo acto. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns bellos versos fecham este drama, que póde conter as incertezas de uma talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréa.

N’esta rápida exposição de minhas impressões, vê V. Ex. que alguma cousa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a Idea da abolição. Luiz representa o elemento escravo. Comtudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr n’aquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela lucta entre a natureza e o facto social, entre a lei e o coração. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira affirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois.

Por isso, quando no terceiro acto Luiz a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluções, o coração chora com elle, e a memória, se a memória póde dominar taes comoções, nos traz aos olhos a bella scena do rei Lear, carregando nos braços Cordelia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.

Cumpre mencionar outras situações egualmente bellas. Entra n’esse numero a scena da prisão dos conjurados no terceiro acto. As scenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Ex. alludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astucia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.

As scenas amorosas são escriptas com paixão; as palavras sahem naturalmente de uma alma para outra, prorompem de um para outro coração. E que contraste melancholico não é aquelle idyllio ás portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dous amantes!

Dir-se-ha que eu só recommendo bellezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais – duas ou trez imagens que me não parecem felizes; e uma ou outra locução susceptível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da fórma? Que as demasias do estylo, a exhuberancia das metaphoras, o excesso das figuras devem obter a attenção do auctor, é cousa tão segura que eu me limito a mencional-as; mas como não acceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que póde ser a sabia economia de amanhan?

Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só a licção do facto, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessôaes aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caracter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dynastia, apagaram antipathias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.

Taes foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escripto com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do auctor suppre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciencia. Está moço, tem um bello futuro deante de si. Venha desde já alistar-se na fileiras dos que devem trabalhar e restaurar o império das musas.

O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o successo coroará a obra? É um ponto de interrogação que ha de ter surgido no espirito de V. Ex.. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que ha um obstáculo, e V. Ex. o sabe também: é a conspiração da indifferença. – Mas a perseverança não póde vencel-a? Devemos espera que sim.

Quanto a V. Ex., respirando nos degráos da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vae meditando, sem duvida, em outras obras primas com que nos há de vir surprehender cá em baixo. Deve fazel-o sem temor. Contra a conspiração da indifferença, tem V.Ex. um alliado invencível: é a conspiração da posteridade.


Correio Mercantil, Rio, 1 de março de 1868.

ASSIS. Joaquim Maria de; ALECAR, José de. Correspondências. Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson Inc. Editores, 1947.439p.

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Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

§

Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

§

Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

§

A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

§

A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

§

Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

§

A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

§

O fogo destrói e consome iluminando.

§

Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

§

Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

§

A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

§

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

§

A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

§

A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

§

A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

§

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

§

                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

§

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

§

Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

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Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual) – Crítica

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)
– Crítica

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

                                                    fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo, sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade fática batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. E claro, alguma manifestação de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço exclusivamente para autopromoção nem veículo interativo instantâneo visando atingir visibilidade superficial ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocar idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual, letiva e da coletividade saudável, recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas eu era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos! Pérfidos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, ressentimentos, mágoas, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

contato: lopeslarocha@gmail.com

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Sêde de Deus e de Civilização(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Sêde de Deus e de Civilização

(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Imagem_Editora_Argos

Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.

Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!

Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.

Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.

Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.

Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.

O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

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A igreja do Diabo

A igreja do Diabo

Leitura dramática: Marcelo Lima

machado-de-assis-1904
Joaquim Maria  Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

__ Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II

ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

__ Que me queres tu? perguntou este.

__ Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

__ Explica-te.

__ Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…

__ Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

__ Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?

__ Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

__ Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

__ Vai !

__ Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

__ Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

__ Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…

__ Velho retórico! murmurou o Senhor.

__ Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda… Vou a negócios mais altos…

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

__ Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

__ Já vos disse que não.

__ Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

__ Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

__ Negas esta morte?

__ Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…

__ Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Ill

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

__ Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão dos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV

FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

__ Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Vocabulário: ______________________________________

Mirífica= Maravilhosa, admirável, extraordinária, excelente.

Cogula= Túnica larga de religiosos.

Prédicas= Sermões, discursos religiosos.

Sulfúreas= da natureza do enxofre.

Esgalgada= magra como um galgo; galgo= cão de pernas longas; esfomeado.

Peleu= da mitologia grega, rei, navegador, amigo de Centauro e de Hércules e pai de Aquiles.

Rabelais= relativo a François Rabelais (1494-1553), escritor renascentista francês; que lembra seu gênero libertino, devasso e licencioso.

Hissope= referência a “O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva” poema heroico e cômico; [De hissopo, por ser com raminhos desta planta que se fazia a bênção.]; Aspersório: instrumento para borrifar (orvalhar) água benta.

Lúculo= Lucius Licinius Lucullus, político e combatente da Republica Romana (118–56 a.C); Indivíduo amante de banquetes suntuosos.

Galiani= Padre Italiano Ferdinando Galiani, sociólogo e economista.

Turbas= multidões.

Insolvável= insolvente.

Muezim= almuadem, entre os muçulmanos, aquele que anuncia, em voz alta, do alto das almádenas, a hora das preces; almádenas= Minarete, torre de mesquita.

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

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A fala e a cala constituem o diálogo – ou o monólogo –,  a prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaios para o clamor e louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

 
Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

contato: lopeslarocha@gmail.com

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Aurora sem dia – Conto

Aurora sem dia

Joaquim Maria Machado de Assis

Leitura dramática: Marcelo Lima ; música: Sonata para cordas de Carlos Gomes [1894]

machado-de-assis-1904

Naquele tempo contava Luís Tinoco vinte e um anos. Era um rapaz de estatura meã, olhos vivos, cabelos em desordem, língua inesgotável e paixões impetuosas. Exercia um modesto emprego no foro, donde tirava o parco sustento, e morava com o padrinho cujos meios de subsistência consistiam no ordenado da sua aposentadoria. Tinoco estimava o velho Anastácio e este tinha ao afilhado igual afeição.

Luís Tinoco possuía a convicção de que estava fadado para grandes destinos, e foi esse durante muito tempo o maior obstáculo da sua existência. No tempo em que o Dr. Lemos o conheceu começava a arder-lhe a chama poética. Não se sabe como começou aquilo. Naturalmente os louros alheios entraram a tirar-lhe o sono. O certo é que um dia de manhã acordou Luís Tinoco escritor e poeta; a inspiração, flor abotoada ainda na véspera, amanheceu pomposa e viçosa. O rapaz atirou-se ao papel com ardor e perseverança, e entre as seis horas e as nove, quando o foram chamar para almoçar, tinha produzido um soneto, cujo principal defeito era ter cinco versos com sílabas de mais e outros cinco com sílabas de menos. Tinoco levou a produção ao Correio Mercantil, que a publicou entre os pedidos.

Mal dormida, entremeada de sonhos interruptos, de sobressaltos e ânsias, foi a noite que precedeu a publicação. A aurora raiou enfim, e Luís Tinoco, apesar de pouco madrugador, levantou-se com o sol e foi ler o soneto impresso. Nenhuma mãe contemplou o filho recém-nascido com mais amor do que o rapaz leu e releu a produção poética, aliás decorada desde a véspera. Afigurou-se-lhe que todos os leitores do Correio Mercantil estavam fazendo o mesmo; e que cada um admirava a recente revelação literária, indagando de quem seria esse nome até então desconhecido.

Não dormiu sobre os louros imaginários. Daí a dois dias, nova composição, e desta vez saiu uma longa ode sentimental em que o poeta se queixava à lua do desprezo em que o deixara a amada, e já entrevia no futuro a morte melancólica de Gilbert. Não podendo fazer despesas, alcançou, por intermédio de um amigo, que a poesia fosse impressa de graça, motivo este que retardou a publicação por alguns dias. Luís Tinoco tragou a custo a demora, e não sei se chegou a suspeitar de inveja dos redatores do Correio Mercantil. A poesia saiu enfim; e tal contentamento produziu no poeta que foi logo fazer ao padrinho a grande revelação.

— Leu hoje o Correio Mercantil, meu padrinho? perguntou ele.

— Homem, tu sabes que eu só lia os jornais no tempo em que era empregado efetivo. Desde que me aposentei não li mais os periódicos…

— Pois é pena! disse Tinoco com ar frio; queria que me dissesse o que pensa de uns versos que lá vêm.

— E de mais a mais versos! Os jornais já não falam de política? No meu tempo não falavam de outra coisa.

— Falam de política e publicam versos, porque ambas as coisas têm entrada na imprensa. Quer ler os versos?

— Dá cá.

— Aqui estão.

O poeta puxou da algibeira o Correio Mercantil, e o velho Anastácio entrou a ler para si a obra do afilhado. Com os olhos pregados no padrinho, Luís Tinoco parecia querer adivinhar as impressões que produziam nele os seus elevados conceitos, metrificados com todas as liberdades possíveis e impossíveis do consoante. Anastácio acabou de ler os versos e fez com a boca um gesto de enfado.

— Isto não tem graça, disse ele ao afilhado estupefato; que diabo tem a lua com a indiferença dessa moça, e a que vem aqui a morte deste estrangeiro?

Luís Tinoco teve vontade de descompor o padrinho, mas limitou-se a atirar os cabelos para trás e a dizer com supremo desdém:

— São coisas de poesia que nem todos entendem; esses versos sem graça são meus.

— Teus? perguntou Anastácio no cúmulo do espanto.

— Sim, senhor.

— Pois tu fazes versos?

— Assim dizem.

— Mas quem te ensinou a fazer versos?

— Isto não se aprende; traz-se do berço.

Anastácio leu outra vez os versos, e só então reparou na assinatura do afilhado. Não havia que duvidar: o rapaz dera em poeta. Para o velho aposentado era isto uma grande desgraça. Esse, ligava à idéia de poeta a idéia de mendicidade. Tinham-lhe pintado Camões e Bocage, que eram os nomes literários que ele conhecia, como dois improvisadores de esquina, expectorando sonetos em troca de algumas moedas, dormindo nos adros das igrejas e comendo nas cocheiras das casas-grandes. Quando soube que o seu querido Luís estava atacado da terrível moléstia, Anastácio ficou triste, e foi nessa ocasião que se encontrou com o Dr. Lemos e lhe deu notícia da gravíssima situação do afilhado.

— Dou-lhe parte de que o Luís está poeta.

— Sim? perguntou-lhe o Dr. Lemos. E que tal lhe saiu o poeta?

— Não me importa se saiu mau ou bom. O que sei é que é a maior desgraça que lhe podia acontecer, porque isto de poesia não dá nada de si. Tenho medo que deixe o emprego, e fique aí pelas esquinas a falar à lua, cercado de moleques.

O Dr. Lemos tranqüilizou o homem dizendo-lhe que os poetas não eram esses vadios que ele imaginava; mostrou-lhe que a poesia não era obstáculo para andar como os outros, para ser deputado, ministro ou diplomata.

— No entanto, disse o Dr. Lemos, desejarei falar ao Luís; quero ver o que ele tem feito, porque como eu também fui outrora um pouco versejador, posso já saber se o rapaz dá de si.

Luís Tinoco foi ter com ele; levou-lhe o soneto e a ode impressos, e mais algumas produções não publicadas. Estas orçavam pela ode ou pelo soneto. Imagens safadas, expressões comuns, frouxo alento e nenhuma arte; apesar de tudo isso, havia de quando em quando algum lampejo que indicava da parte do neófito propensão para o mister; podia ser ao cabo de algum tempo um excelente trovador de salas.

O Dr. Lemos disse-lhe com franqueza que a poesia era uma arte difícil e que pedia longo estudo; mas que, a querer cultivá-la a todo o transe, devia ouvir alguns conselhos necessários.

— Sim, respondeu ele, pode lembrar alguma coisa; eu não me nego a aceitar-lhe o que me parecer bom, tanto mais que eu fiz estes versos muito à pressa e não tive ocasião de os emendar.

— Não me parecem bons estes versos, disse o Dr. Lemos; poderia rasgá-los e estudar antes algum tempo.

Não é possível descrever o gesto de soberbo desdém, com que Luís Tinoco arrancou os versos ao doutor e lhe disse:

— Os seus conselhos valem tanto como a opinião de meu padrinho. Poesia não se aprende, traz-se do berço. Eu não dou atenção a invejosos. Se os versos não fossem bons, o Mercantil não os publicava.

E saiu.

Daí em diante foi impossível ter-lhe mão.

Tinoco entrou a escrever como quem se despedia da vida. Os jornais andavam cheios de produções suas, umas tristes, outras alegres, não daquela tristeza nem daquela alegria que vem diretamente do coração, mas de uma tristeza que fazia sorrir, e de uma alegria que fazia bocejar. Luís Tinoco confessava singelamente ao mundo que fora invadido do ceticismo byroniano, que tragara até às fezes a taça do infortúnio, e que para ele a vida tinha escrita na porta a inscrição dantesca. A inscrição era citada com as próprias palavras do poeta, sem que aliás Luís Tinoco o tivesse lido nunca. Ele respingava nas alheias produções uma coleção de alusões e nomes literários, com que fazia as despesas de sua erudição, e não lhe era preciso, por exemplo, ter lido Shakespeare para falar do to be or not to be, do balcão de Julieta e das torturas de Otelo. Tinha a respeito de biografias ilustres noções extremamente singulares. Uma vez, agastando-se com a sua amada — pessoa que ainda não existia, — aconteceu-lhe dizer que o clima fluminense podia produzir monstros daquela espécie, do mesmo modo que o sol italiano dourara os cabelos da menina Aspásia. Lera casualmente alguns dos salmos do Padre Caldas, e achou-os soporíferos; falava mais benevolamente da “Morte de Lindóia”, nome que ele dava ao poema de J. Basílio da Gama, de que só conhecia quatro versos.

Ao cabo de cinco meses tinha Luís Tinoco produzido uma quantia razoável de versos, e podia, mediante muitos claros e páginas em branco, dar um volume de cento e oitenta páginas. A idéia de imprimir um livro sorriu-lhe; e daí a pouco era raro passar por uma loja sem ver no mostrador um prospecto assim concebido:

GOIVOS E CAMÉLIAS
POR
LUÍS TINOCO
Um volume de 200 páginas… 2$000 rs.

O Dr. Lemos encontrou-o algumas vezes na rua. Andava com o ar inspirado de todos os poetas novéis que se supõem apóstolos e mártires. Cabeça alta, olhos vagos, cabelos grandes e caídos; algumas vezes abotoava o paletó e punha a mão ao peito por ter visto assim um retrato de Guizot; outras vezes andava com as mãos para trás.

O Dr. Lemos falou-lhe a terceira vez que o viu assim, porque das duas primeiras o rapaz esquivou-se por modo que não pôde deter-lhe o passo. Fez-lhe alguns elogios às suas produções. Expandiu-se-lhe o rosto:

— Obrigado, disse ele; esses elogios são o melhor prêmio das minhas fadigas. O povo não está preparado para a poesia: as pessoas inteligentes, como o doutor, podem julgar do merecimento dos outros. Leu a minha “Flor pálida”?

— Uns versos publicados no domingo?

— Sim.

— Li; são galantíssimos.

— E sentimentais. Fiz aquela poesia em meia hora, e não emendei nada. Acontece-me isso muita vez. Que lhe parecem aqueles esdrúxulos?

— Acho-os esdrúxulos.

— São excelentes. Agora vou levar algumas estrofes que compus ontem. Intitulam-se “À beira de um túmulo”.

— Ah!

— Já assinou o meu livro?

— Ainda não.

— Nem assine. Quero dar-lhe um volume. Sai brevemente. Estou recolhendo as assinaturas. Goivos e camélias; que lhe parece o título?

— Magnífico.

— Achei-o de repente. Lembraram-me outros, mas eram comuns. Goivos e Camélias parece que é um título distinto e original; é o mesmo que se dissesse: tristezas e alegrias.

— Justamente.

Durante esse tempo, ia o poeta tirando do bolso uma aluvião de papéis. Procurava as estrofes de que falara. O Dr. Lemos quis esquivar-se, mas o homem era implacável; segurou-lhe no braço. Ameaçado de ouvir ler os versos na rua, o doutor convidou o poeta a ir jantar com ele.

Foram a um hotel próximo.

— Ah! meu amigo, dizia ele em caminho, não imagina quantos invejosos andam a denegrir o meu nome. O meu talento tem sido o alvo de mil ataques; mas eu já estava disposto a isto. Não me espanto. A enxerga de Camões é um exemplo e uma consolação. Prometeu, atado ao Cáucaso, é o emblema do gênio. A posteridade é a vingança dos que sofrem os desdéns do seu tempo.

No hotel procurou o Dr. Lemos um lugar mais afastado, onde não chamassem muito a atenção das outras pessoas.

— Aqui estão as estrofes, disse Luís Tinoco conseguindo arrancar de um maço de papéis a poesia anunciada.

— Não lhe parece melhor lê-las à sobremesa?

— Como quiser, respondeu ele; tem razão, porque eu também estou com fome.

Luís Tinoco era todo prosa à mesa do jantar; comeu desencadernadamente.

— Não repare, dizia ele de quando em quando; isto é o animal que se está alimentando. O espírito aqui não tem culpa nenhuma.

À sobremesa, estando na sala apenas uns cinco fregueses, desdobrou Luís Tinoco o fatal papel e leu as anunciadas estrofes, com uma melopéia afetada e perfeitamente ridícula. Os versos falavam de tudo, da morte e da vida, das flores e dos vermes, dos amores e dos ódios; havia mais de oito ciprestes, cerca de vinte lágrimas, e mais túmulos do que um verdadeiro cemitério.

Os cinco fregueses jantantes voltaram a cabeça, quando Luís Tinoco começou a recitar os versos; depois começaram a sorrir e a murmurar alguma coisa que os dois não puderam ouvir. Quando o poeta acabou, um dos circunstantes, assaz grosseiro, soltou uma gargalhada. Luís Tinoco voltou-se enfurecido, mas o Dr. Lemos conteve-o dizendo:

— Não é conosco.

— É, meu amigo, disse ele resignado; mas que lhe havemos de fazer? quem entende a poesia para a respeitar em toda a parte?

— Deixemos este lugar, disse o Dr. Lemos; aqui não compreendem o que é um poeta.

— Vamos!

O Dr. Lemos pagou a conta e saiu atrás de Luís Tinoco, que deitou ao rideiro um olhar de desafio.

Luís Tinoco acompanhou-o até à casa. Recitou-lhe em caminho alguns versos que sabia de cor. Quando ele se entregava à poesia, não a alheia, que o não preocupava muito, mas a própria, podia-se dizer que tudo mais se lhe apagava da memória; bastava-lhe a contemplação de si mesmo. O Dr. Lemos ia ouvindo calado com a resignação de quem suporta a chuva, que não pode impedir.

Pouco tempo depois saíram a lume os Goivos e Camélias, que todos os jornais prometeram analisar mais de espaço.

Dizia o poeta no prólogo da obra, que era audácia da sua parte “vir assentar-se na mesa da comunhão da poesia, mas que todo aquele que sentia dentro de si o j’ai quelque chose là, de André Chénier, devia dar à pátria aquilo que a natureza lhe deu”. Em seguida pedia desculpa para os seus verdes anos, e afirmava ao público que não tinha sido “embalado em berços de seda”. Concluía dando a bênção ao livro e chamando a atenção para a lista dos assinantes que vinha no fim.

Esta obra monumental passou despercebida no meio da indiferença geral. Apenas um folhetinista do tempo escreveu a respeito dela algumas linhas que fizeram rir a toda a gente, menos o autor, que foi agradecer ao folhetinista.

O Dr. Lemos perdeu de vista o seu poeta durante algum tempo. Digo mal; só perdeu de vista o homem, porque o poeta de quando em quando lhe aparecia metido em alguma produção literária que o Dr. Lemos invariavelmente lia para se benzer da estéril pertinácia de Luís Tinoco. Não havia ocasião, enterro ou espetáculo solene que escapasse à inspiração do fecundo escritor. Como o número de suas idéias fosse mui limitado, podia-se dizer que ele só havia escrito um necrológio, uma elegia, uma ode ou uma congratulação. Os diferentes exemplares de cada uma destas coisas eram a mesma coisa dita por outro modo. O modo, porém, constituía a originalidade do poeta, originalidade que ele não teve a princípio, mas que se desenvolveu muito com o tempo.

Infelizmente enquanto se entregava com ardor às lides literárias, esquecia-se o poeta das lides forenses, de onde lhe vinha o pão. Anastácio queixou-se um dia desta desgraça ao Dr. Lemos, numa carta que acabava assim: “Não sei, meu amigo Sr. Lemos, aonde irá parar este rapaz. Não lhe vejo outra conclusão: hospício ou xadrez”.

O Dr. Lemos mandou chamar o poeta. Elogiou-lhe as suas obras com o fim de lhe dispor o espírito a ouvir o que ia dizer. O rapaz expandiu-se.

— Ainda bem que eu ouço de quando em quando alguma voz animadora, disse ele; não sabe o que tem sido a inveja a meu respeito. Mas que importa? Tenho confiança no futuro; o que me vinga é a posteridade.

— Tem razão, a posteridade é que vinga das maroteiras contemporâneas.

— Li há dias num papelucho, que eu era um alinhavador de ninharias. Percebi a intenção. Acusava-me de não meter ombros a obra de mais largo fôlego. Vou desmentir o papelucho: estou escrevendo um poema épico!

“Ai!” disse o Dr. Lemos consigo, adivinhando alguma leitura forçada do poema.

— Podia mostrar-lhe alguma coisa, continuou Luís Tinoco, mas prefiro que leia a obra quando estiver mais adiantada.

— Muito bem.

— Tem dez cantos, cerca de 10.000 versos. Mas quer saber a minha desgraça?

— Qual é?

— Estou apaixonado…

— Realmente, é uma desgraça na sua posição.

— Que tem a minha posição?

— Creio que não é excelente. Dizem-me que se tem descuidado um pouco das suas obrigações do foro, e que brevemente lhe vão tirar o emprego.

— Fui despedido ontem.

— Já?

— É verdade. Se ouvisse o discurso com que eu respondi ao escrivão, diante de toda a gente que enchia o cartório! Vinguei-me.

— Mas… de que viverá agora? seu padrinho não pode, creio eu, com o peso da casa.

— Deus me ajudará. Não tenho eu uma pena na mão? Não recebi do berço um tal ou qual engenho, que já tem dado alguma coisa de si? Até agora nenhum lucro tentei tirar das minhas obras; mas era só amador. Daqui em diante o caso muda de figura; é necessário ganhar o pão, ganharei o pão.

A convicção com que Luís Tinoco dizia estas palavras, entristeceu o amigo do padrinho. O Dr. Lemos contemplou durante alguns segundos — com inveja, talvez, — aquele sonhador incorrigível, tão desapegado da realidade da vida, acreditando não só nos seus grandes destinos, mas também na verossimilhança de fazer da sua pena uma enxada.

— Oh! deixe estar! continuou Luís Tinoco; eu hei de provar-lhes, ao senhor e a meu padrinho, que não sou tão inútil como lhes pareço. Não me falta coragem, doutor; quando me faltasse, há uma estrela…

Luís Tinoco calou-se, retorceu o bigode, e olhou melancolicamente para o céu. O Dr. Lemos também olhou para o céu, mas sem melancolia, e perguntou rindo:

— Uma estrela? Ao meio-dia é raro…

— Oh! não falo dessas, interrompeu Luís Tinoco; lá é que ela devia estar, ali no espaço azul, entre as outras suas irmãs, mais velhas do que ela e menos formosas…

— Uma moça?

— Uma moça, é pouco; diga a mais gentil criatura que o sol ainda alumiou, uma sílfide, a minha Beatriz, a minha Julieta, a minha Laura…

— Escusa dizê-lo; deve ser muito formosa se fez apaixonar um poeta.

— Meu amigo, o senhor é um grande homem; Laura é um anjo, e eu adoro-a…

— E ela?

— Ela ignora talvez que eu me consumo.

— Isso é mau!

— Que quer? disse Luís Tinoco enxugando com o lenço uma lágrima imaginária; é fado dos poetas arderem por coisas que não podem obter. É esse o pensamento de uns versos que escrevi há oito dias. Publiquei-os no Caramanchão Literário.

— Que diacho é isso?

— É a minha folha, que eu lhe mando de quinze em quinze dias… E diz que lê as minhas obras!

— As obras leio… Agora os títulos podem escapar. Vamos porém ao que importa. Ninguém lhe contesta talento nem inspiração fecunda; mas o senhor ilude-se pensando que pode viver dos versos e dos artigos literários… Note que os seus versos e os seus artigos são muito superiores ao entendimento popular, e por isso devem ter muito menos aceitação.

Este desenganar com as mãos cheias de rosas produziu salutar efeito no ânimo de Luís Tinoco; o poeta não pôde sofrear um sorriso de satisfação e bem-aventurança. O amigo do padrinho concluiu o seu discurso oferecendo-lhe um lugar de escrevente em casa de um advogado. Luís Tinoco olhou para ele algum tempo sem dizer palavra. Depois:

— Volto ao foro, não? disse ele com a mais melancólica resignação deste mundo. Minha inspiração deve descer outra vez a empoeirar-se nos libelos, a aturar os rábulas, a engrolar o vocabulário da chicana! E a troco de quê? A troco de uns magros mil-réis que eu não tenho e me são necessários para viver. Isto é sociedade, doutor?

— Má sociedade, se lhe parece, respondeu o Dr. Lemos com doçura, mas não há outra à mão, e a menos de não estar disposto a reformá-la, não tem outro recurso senão tolerá-la e viver.

O poeta deu alguns passos na sala; no fim de dois minutos estendeu a mão ao amigo.

— Obrigado, disse ele, aceito; vejo que trata de meus interesses, sem desconhecer que me oferece um exílio.

— Um exílio e um ordenado, emendou o Dr. Lemos.

Daí a dias estava o poeta a copiar razões de embargos e de apelação, a lastimar-se, a maldizer da fortuna, sem adivinhar que daquele emprego devia nascer uma mudança nas suas aspirações. O Dr. Lemos não lhe falou durante cinco meses. Um dia encontraram-se na rua. Perguntou-lhe pelo poema.

— Está parado, respondeu Luís Tinoco.

— Deixa-o de mão?

— Conclui-lo-ei quando tiver tempo.

— E a folha?

— Deve saber que acabei com ela; não lha mando há muito tempo.

— É verdade, mas podia ser um esquecimento. Muito me conta! Então acabou o Caramanchão Literário?

— Deixei-o morrer no melhor período de vitalidade: tinha oitenta assinantes pagantes…

— Mas então abandona as letras?

— Não, mas… Adeus.

— Adeus.

Pareceu simples tudo aquilo; mas tendo-se ganho alguma coisa, que era empregá-lo, o Dr. Lemos deixou que o próprio poeta lhe fosse anunciar a causa do seu sono literário. Seria o namoro de Laura?

Esta Laura, preciso é que se diga, não era Laura, era simplesmente Inocência; o poeta chamava-lhe Laura nos seus versos, nome que lhe parecia mais doce, e efetivamente o era. Até que ponto existiu esse namoro, e em que proporções correspondeu a moça à chama do rapaz? A história não conservou muita informação a este respeito. O que se sabe com certeza é que um dia apareceu um rival no horizonte, tão poeta como o padrinho de Luís Tinoco, elemento muito mais conjugal do que o redator do Caramanchão Literário, e que de um só lance lhe derrubou todas as esperanças.

Não é preciso dizer ao leitor que este acontecimento enriqueceu a literatura com uma extensa e chorosa elegia, em que Luís Tinoco metrificou todas as queixas que pode ter de uma mulher um namorado traído. Esta obra tinha por epígrafe o nessun maggior dolore do poeta florentino. Quando ele a acabou e emendou, releu-a em voz alta, passeando na alcova, deu o último apuro a um ou outro verso, admirou a harmonia de muitos, e singelamente confessou de si para si que era a sua melhor produção. O Caramanchão Literário ainda existia; Luís Tinoco apressou-se a levar o escrito ao prelo, não sem o ler aos seus colaboradores, cuja opinião foi idêntica à dele. Apesar da dor que o devia consumir, o poeta leu as provas com o maior desvelo e escrúpulo, assistiu à impressão dos primeiros exemplares da folha, e durante muitos dias releu os versos até cansar. Do que ele menos se lembrava era da perfídia que os inspirou.

Esta porém não era a razão do sono literário de Luís Tinoco. A razão era puramente política. O advogado, cujo escrevente ele era, tinha sido deputado e colaborava numa gazeta política. O seu escritório era um centro, onde iam ter muitos homens públicos e se conversava largamente dos partidos e do governo. Luís Tinoco ouviu a princípio essas conversas com a indiferença de um deus envolvido no manto da sua imortalidade. Mas a pouco e pouco foi adquirindo gosto ao que ouvia. Já lia os discursos parlamentares e os artigos de polêmica. Da atenção passou rapidamente ao entusiasmo, porque naquele rapaz tudo era extremo, entusiasmo ou indiferença. Um dia levantou-se com a convicção de que os seus destinos eram políticos.

— A minha carreira literária está feita, disse ele ao Dr. Lemos quando falaram nisto; agora outro campo me chama.

— A política? Parece-lhe que é essa a sua vocação?

— Parece-me que posso fazer alguma coisa.

— Vejo que é modesto, e não duvido que alguma voz interior o esteja convidando a queimar as suas asas de poeta. Mas, cuidado! Há de ter lido Macbeth… Cuidado com a voz das feiticeiras, meu amigo. Há no senhor demasiado sentimento, muita suscetibilidade, e não me parece que…

— Estou disposto a acudir à voz do destino, interrompeu impetuosamente Luís Tinoco. A política chama-me ao seu campo; não posso, não devo, não quero cerrar-lhe os ouvidos. Não! as opressões do poder, as baionetas dos governos imorais e corrompidos, não podem desviar uma grande convicção do caminho que ela mesma escolheu. Sinto que sou chamado pela voz da verdade. Quem foge à voz da verdade? Os covardes e os ineptos. Não sou inepto nem covarde.

Tal foi a estréia oratória com que ele brindou o Dr. Lemos numa esquina onde felizmente não passava ninguém.

— Só lhe peço uma coisa, disse o ex-poeta.

— O que é?

— Recomende-me ao doutor. Quero acompanhá-lo, e ser seu protegido; é o meu desejo.

O Dr. Lemos cedeu ao desejo de Luís Tinoco. Foi ter com o advogado e recomendou-lhe o escrevente, não com muita solicitude, mas também sem excessiva frieza. Felizmente o advogado era uma espécie de São Francisco Xavier do partido, desejoso como ninguém de aumentar o pessoal militante; recebeu a recomendação com a melhor cara do mundo, e logo no dia seguinte, disse algumas palavras benévolas ao escrevente, que as ouviu trêmulo de comoção.

— Escreva alguma coisa, disse o advogado, e traga-me para ver se lhe achamos propensão.

Não foi preciso dizer-lho duas vezes. Dois dias depois, levou o ex-poeta ao seu protetor um artigo extenso e difuso, mas cheio de entusiasmo e fé. O advogado achou defeitos no trabalho; apontou-lhe demasias e nebulosidades, frouxidão de argumentos, mais ornamentação que solidez; todavia prometeu publicá-lo. Ou fosse porque lhe fizesse estas observações com muito jeito e benevolência, ou porque Luís Tinoco houvesse perdido alguma coisa da antiga suscetibilidade, ou porque a promessa da publicação lhe adoçasse o amargo da censura, ou por todas estas razões juntas, o certo é que ele ouviu com exemplar modéstia e alegria as palavras do protetor.

— Há de perder os defeitos com o tempo, disse este mostrando o artigo aos amigos.

O artigo foi publicado e Luís Tinoco recebeu alguns apertos de mão. Aquela doce e indefinível alegria que ele sentira quando estampou no Correio Mercantil os seus primeiros versos, voltou a experimentá-la agora, mas alegria complicada de uma virtuosa resolução: Luís Tinoco desde aquele dia sinceramente acreditou que tinha uma missão, que a natureza e o destino o haviam mandado à terra para endireitar os tortos políticos.

Poucas pessoas se terão esquecido do período final da estréia política do ex-redator do Caramanchão Literário. Era assim:

Releve o poder — hipócrita e sanhudo, — que eu lhe diga muito humildemente que não temo o desprezo nem o martírio. Moisés, conduzindo os hebreus à terra da promissão, não teve a fortuna de entrar nela: é o símbolo do escritor que leva os homens à regeneração moral e política, sem lhe transpor as portas de ouro. Que poderia eu temer? Prometeu atado ao Cáucaso, Sócrates bebendo a cicuta, Cristo expirando na cruz, Savonarola indo ao suplício, John Brown esperneando na forca, são os grandes apóstolos da luz, o exemplo e o conforto dos que amam a verdade, o remorso dos tiranos, e o terremoto do despotismo.

Luís Tinoco não parou nestas primícias. Aquela mesma fecundidade da estação literária veio a reproduzir-se na estação política; o protetor, entretanto, disse-lhe que era conveniente escrever menos e mais assentado. O ex-poeta não repeliu a advertência, e até lucrou com ela, produzindo alguns artigos menos desgrenhados no estilo e no pensamento. A erudição política de Luís Tinoco era nenhuma; o protetor emprestou-lhe alguns livros, que o ex-poeta aceitou com infinito prazer. Os leitores compreendem facilmente que o autor dos Goivos e Camélias não era homem que meditasse uma página de leitura; ele ia atrás das grandes frases, — sobretudo das frases sonoras — demorava-se nelas, repetia-as, ruminava-as com verdadeira delícia. O que era reflexão, observação, análise parecia-lhe árido, e ele corria depressa por elas.

Algum tempo depois houve uma eleição primária. O publicista sentiu que havia em si um eleitor, e foi dizê-lo afoitamente ao advogado. O desejo não foi mal aceito; trabalharam-se as coisas de modo que Luís Tinoco teve o gosto de ser incluído numa chapa e a surpresa de ficar batido. Batê-lo foi possível ao governo; abatê-lo, não. O ex-poeta, ainda quente do combate, traduziu em largos e floreados períodos o desprezo que lhe inspirava aquela vitória dos adversários. A esse artigo responderam os amigos do governo com um, que terminava assim: “Até onde quererá ir, com semelhante descomedimento de linguagem, o pimpolho do ex-deputado Z.?”

Luís Tinoco quase morreu de júbilo ao receber em cheio aquela descarga ministerial. A imprensa adversa não o havia tratado até então com a consideração que ele desejava. Uma ou outra vez, haviam discutido argumentos seus; mas faltava o melhor, faltava o ataque pessoal, que lhe parecia ser o batismo de fogo naquela espécie de campanha. O advogado, lendo o ataque, disse ao ex-poeta que a sua posição era idêntica à do primeiro Pitt quando o ministro Walpole lhe respondeu chamando-lhe moço em plena Câmara dos Comuns, e que era necessário repelir no mesmo tom a ofensa ministerial. Luís Tinoco ignorava até aquela data a existência de Pitt e de Walpole; achou todavia muito engenhosa a comparação das duas situações, e com habilidade e cautela perguntou ao advogado se lhe podia emprestar o discurso do orador britânico “para refrescar a memória”. O advogado não tinha o discurso, mas deu-lhe idéia dele, quanto bastou para que Luís Tinoco fosse escrever um longo artigo acerca do que era e não era pimpolho.

Entretanto, a luta eleitoral lhe descobrira um novo talento. Como fosse necessário arengar algumas vezes, fê-lo o pimpolho a grande aprazimento seu e no meio às palmas gerais. Luís Tinoco perguntou a si mesmo se lhe era lícito aspirar às honras da tribuna. A resposta foi afirmativa. Esta nova ambição era mais difícil de satisfazer; o ex-poeta o reconheceu, e armou-se de paciência para esperar.

Aqui há uma lacuna na vida de Luís Tinoco. Razões que a história não conservou levaram o jovem publicista à província natal do seu amigo e protetor, dois anos depois dos acontecimentos eleitorais. Não percamos tempo em conjecturar as causas desta viagem, nem as que ali o demoraram mais do que queria. Vamos já encontrá-lo alguns meses depois, colaborando num jornal com o mesmo ardor juvenil, de que dera tanta prova na capital. Recomendado pelo advogado aos seus amigos políticos e parentes, depressa criou Luís Tinoco um círculo de companheiros, e não tardou que assentasse em ali ficar algum tempo. O padrinho já estava morto; Luís Tinoco achava-se absolutamente sem família.

A ambição do orador não estava apagada pela satisfação do publicista; pelo contrário, uma coisa avivava a outra. A idéia de possuir duas armas, brandi-las ao mesmo tempo, ameaçar e bater com ambas os adversários, tornou-se-lhe idéia crônica, presente, inextinguível. Não era a vaidade que o levava, quero dizer, uma vaidade pueril. Luís Tinoco acreditava piamente que ele era um artigo do programa da Providência, e isso o sustinha e contentava. A sinceridade que nunca teve quando versificava os seus infortúnios entre suas palestras de rapazes, teve-a quando se enterrou a mais e mais na política. É claro que, se alguém lhe pusesse em dúvida o mérito político, feri-lo-ia do mesmo modo que os que lhe contestavam excelências literárias; mas não era só a vaidade que lhe ofendiam, era também, e muito mais, a fé — fé profunda e intolerante — que ele tinha de que o seu talento fazia parte da harmonia universal.

Luís Tinoco mandava ao Dr. Lemos na corte todos os seus escritos da província, e contava-lhe singelamente as suas novas esperanças. Um dia noticiou-lhe que a sua eleição para a Assembléia Provincial era objeto de negociações que se lhe afiguravam propícias. O correio seguinte trouxe notícia de que a candidatura de Luís Tinoco entrara na ordem dos fatos consumados.

A eleição fez-se e não deu pouco trabalho ao candidato fluminense, que à força de muita luta e muito empenho pôde ter a honra de ser incluído na lista dos vencedores. Quando lhe deram notícia da vitória, entoou a alma de Luís Tinoco um verdadeiro e solene Te Deum Laudamus. Um suspiro, o mais entranhado e desentranhado de quantos suspiros jamais soltaram homens, desafogou o coração do ex-poeta das dúvidas e incertezas de longas e cruéis semanas. Estava enfim eleito! Ia subir o primeiro degrau do Capitólio.

A noite foi mal dormida, como a da véspera da publicação do primeiro soneto, e entremeada de sonhos análogos à situação. Luís Tinoco via-se já troando na Assembléia Provincial, entre os aplausos de uns, as imprecações de outros, a inveja de quase todos, e lendo em toda a imprensa da província os mais calorosos aplausos à sua nova e original eloqüência. Vinte exórdios fez o jovem deputado para o primeiro discurso, cujo assunto seria naturalmente digno de grandes rasgos e nervosos períodos. Ele já estudava mentalmente os gestos, a atitude, todo o exterior da figura que ia honrar a sala dos representantes da província.

Muitos grandes nomes da política haviam começado no parlamento provincial. Era verossímil, era indispensável até, para que ele cumprisse o mandato imperativo do destino, que saísse dali em pouco tempo para vir transpor a porta mais ampla da reapresentação nacional. O ex-poeta ocupava já no espírito uma das cadeiras da Cadeia Velha, e remirava-se na própria pessoa e no brilhante papel que teria de desempenhar. Via já diante de si a oposição ou o ministério estatelado no chão, com quatro ou cinco daqueles golpes que ele supunha saber dar como ninguém, e as gazetas a falarem, e o povo a ocupar-se dele, e o seu nome a repercutir em todos os ângulos do império, e uma pasta a cair-lhe nas mãos, ao mesmo tempo que o bastão do comando ministerial.

Tudo isto, e muito mais imaginava o recente deputado, embrulhado nos lençóis, com a cabeça no travesseiro e o espírito a vagar por esse mundo fora, que é a coisa pior que pode acontecer a um corpo mortificado como estava o dele naquela ocasião.

Não se demorou Luís Tinoco em escrever ao Dr. Lemos, e contar-lhe as suas esperanças e o programa que tencionava observar, desde que a fortuna lhe abria mais ampla estrada na vida pública. A carta tratava longamente do efeito provável da sua primeira oração, e terminava assim:

Qualquer que seja o posto a que eu suba; qualquer, entenda bem, ainda aquele que é o primeiro do país, abaixo do imperador (e creio que irei até lá), nunca me há de esquecer que ao senhor o devo, à animação que me dispensou, à recomendação que fez de mim. Parece-me que até hoje tenho correspondido à confiança dos meus amigos; espero continuar a merecê-la.

Inauguraram-se enfim os trabalhos. Tão ansioso estava Luís Tinoco de falar que, logo nas primeiras sessões, a propósito de um projeto sobre a colocação de um chafariz, fez um discurso de duas horas em que demonstrou por A + B que a água era necessária ao homem. Mas a grande batalha foi dada na discussão do orçamento provincial. Luís Tinoco fez um longo discurso em que combateu o governo geral, o presidente, os adversários, a polícia e o despotismo. Seus gestos eram até então desconhecidos na escala da gesticulação parlamentar; na província, pelo menos, ninguém tivera nunca a satisfação de contemplar aquele sacudir de cabeça, aquele arquear de braço, aquele apontar, alçar, cair e bater com a mão direita.

O estilo também não era vulgar. Nunca se falou de receita e despesa com maior luxo de imagens e figuras. A receita foi comparada ao orvalho que as flores recolhem durante a noite, a despesa à brisa da manhã que as sacode e lhes entorna um pouco do sereno vivificante. Um bom governo é apenas brisa; o presidente atual foi declarado siroco e pampeiro. Toda a maioria protestou solenemente contra essa qualificação injuriosa, ainda que poética. Um dos secretários confessou que nunca do Rio de Janeiro lhes fora uma aura mais refrigerante.

Infelizmente os adversários não dormiam. Um deles, apenas Luís Tinoco acabou o discurso entre alguns aplausos dos seus amigos, pediu a palavra e cravou longo tempo os olhos no orador estreante. Depois sacou do bolso um maço de jornais e um folheto, concertou a garganta e disse:

— Mandaram-nos do Rio de Janeiro o nobre deputado que me precedeu nesta tribuna. Diziam que era uma ilustração fluminense, destinada a arrasar os talentos da província. Imediatamente, Sr. presidente, tratei de obter as obras do nobre deputado.

Aqui tenho eu, Sr. presidente, o Caramanchão Literário, folha redigida pelo meu adversário, e o volume dos Goivos e Camélias. Tenho lá em casa mais outras obras. Abramos os Goivos e Camélias.

O SR. LUÍS TINOCO. — O nobre deputado está fora da ordem! (Apoiados).

O orador: — Continuo, Sr. presidente; aqui tenho os Goivos e Camélias. Vejamos um goivo.

A Ela.

Quem és tu que me atormentas
Com teus prazenteiros sorrisos?
Quem és tu que me apontas
As portas dos paraísos?

Imagem do céu és tu?
És filha da divindade?
Ou vens prender em teus cabelos
A minha liberdade?

Vê V. Ex.ª, Sr. presidente, que já nesse tempo o nobre deputado era inimigo de todas as leis opressoras. A assembléia tem visto como ele trata as leis do metro.

Todo o resto do discurso foi assim. A minoria protestou, Luís Tinoco fez-se de todas as cores, e a sessão acabou em risada. No dia seguinte os jornais amigos de Luís Tinoco agradeceram ao adversário deste o triunfo que lhe proporcionou mostrando à província “uma antiga e brilhante face do talento do ilustre deputado”. Os que indecorosamente riram dos versos, foram condenados com estas poucas linhas: “Há dias um deputado governista disse que a situação era uma caravana de homens honestos e bons. É caravana, não há dúvida; vimos ontem os seus camelos”.

Nem por isso Luís Tinoco ficou mais consolado. As cartas do deputado ao Dr. Lemos começaram a escassear, até que de todo cessaram de aparecer. Decorreram assim silenciosos uns três anos, ao cabo dos quais o Dr. Lemos foi nomeado não sei para que cargo na província onde se achava Luís Tinoco. Partiu. Apenas empossado do cargo, tratou de procurar o ex-poeta, e pouco tempo gastou, recebendo logo um convite dele para ir a um estabelecimento rural onde se achava.

— Há de me chamar ingrato, não? disse Luís Tinoco, apenas viu assomar à porta de casa o Dr. Lemos. Mas não sou; contava ir vê-lo daqui a um ano; e se lhe não escrevi… Mas que tem, doutor? está espantado?

O Dr. Lemos estava efetivamente pasmado a olhar para a figura de Luís Tinoco. Era aquele o poeta dos Goivos e camélias, o eloqüente deputado, o fogoso publicista? O que ele tinha diante de si era um honrado e pacato lavrador, ar e maneiras rústicas, sem o menor vestígio das atitudes melancólicas do poeta, do gesto arrebatado do tribuno, — uma transformação, uma criatura muito outra e muito melhor.

Riram-se ambos, um da mudança, outro do espanto, pedindo o Dr. Lemos a Luís Tinoco lhe dissesse se era certo haver deixado a política, ou se aquilo eram apenas umas férias para renovar a alma.

— Tudo lhe explicarei, doutor, mas há de ser depois de ter examinado a minha casa e a minha roça, depois de lhe apresentar minha mulher e meus filhos…

— Casado?

— Há vinte meses.

— E não me disse nada!

— Ia este ano à corte e esperava surpreendê-lo… Que duas criancinhas as minhas… lindas como dois anjos. Saem à mãe, que é a flor da província. Oxalá se pareçam também com ela nas qualidades de dona de casa; que atividade! que economia!…

Feita a apresentação, beijadas as crianças, examinado tudo, Luís Tinoco declarou ao Dr. Lemos que definitivamente deixara a política.

— De vez?

— De vez.

— Mas que motivo? desgostos, naturalmente.

— Não; descobri que não era fadado para grandes destinos. Um dia leram-me na assembléia alguns versos meus. Reconheci então quanto eram pífios os tais versos; e podendo vir mais tarde a olhar com a mesma lástima e igual arrependimento para as minhas obras políticas, arrepiei carreira e deixei a vida pública. Uma noite de reflexão e nada mais.

— Pois teve ânimo?…

— Tive, meu amigo, tive ânimo de pisar terreno sólido, em vez de patinhar nas ilusões dos primeiros dias. Eu era um ridículo poeta e talvez ainda mais ridículo orador. Minha vocação era esta. Com poucos anos mais estou rico. Ande agora beber o café que nos espera e feche a boca, que as moscas andam no ar.

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A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

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Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

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A véspera de Natal

A véspera de Natal

José de Alencar, ao correr da pena, 24/dez./1854.

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Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa que não há nada tão poético como esta legenda das Mil e Uma noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da Igreja, nesses símbolos que comemoram a poética tradição do nascimento de um menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia-noite, os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é, porém, na cidade que se pode gozar deste idílio suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado; mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo ao longe o tanger alegre de um sinozinho de aldeia, que vem quebrar a calada da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida, distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade, vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não vades à missa do galo nas igrejas da cidade. Escolhei alguma capelinha dos arrabaldes, à beira do mar, como a de São Cristóvão, cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada nalguma eminência, como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadida que não aspirais aos foros da alta fashion, porque caso deveis ficar na cidade e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma boa constipação na saída.

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A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

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A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

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Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta de Quintino Bocayuva.

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Machado de Assis. ___ Respondo á tua carta. Pouco preciso dizer-te. Fazes bem em dar ao prelo os teus primeiros ensaios dramaticos. Fazes bem, porque essa publicação envolve uma promessa e acarreta sobre ti uma reponsabilidade para com o publico. E o publico tem o direito de ser exigente comtigo. És moço, e foste dotado pela Providencia com um bello talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéa é uma força. Inoculal-a no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral. O homem que se civiliza, christianisa-se. Quem se illustra, edifica-se. Porque a luz que nos esclarece a razão é a que nos alumia a consciencia. Quem aspira a ser grande, não póde deixar de aspirar a ser bom. A virtude é a primeira grandeza d’este mundo. O grande homem é o homem de bem. Repito, pois, n’essa obra de cultivo litterario ha uma obra de edificação moral. Das muitas e variadas formas litterarias que existem e que se prestam ao conseguimento d’esse fim, escolheste a fórma dramatica. Acertaste. O drama é a fórma mais popular, a que mais recursos possue para actuar sobre o espírito, a que mais facilmente o comove e exalta; em resumo, a que tem meios mais poderosos para influir sobre seu coração. ___ Quando assim me exprimo, é claro que me refiro ás tuas comedias, acceitando-as como ellas devem ser aceitas por mim e por todos, isto é, como um ensaio, como uma gymnastica de estylo. ___ A minha franqueza e a lealdade que devo á estima que me confessas obrigam-me a dizer-te em publico o que já te disse em particular. As tuas duas comedias, modeladas ao gosto dos proverbios francezes, não revelam nada mais do que a maravilhosa aptidão do teu espirito, a profusa riqueza do teu estylo. Não inspiram nada mais do que sympathia e consideração por um talento que se amaneira a todas as fórmas da cancepção. ___ Como lhes falta a idéa, falta-lhes a base. São belas porque são bem escriptas. São valiosas, como artefactos litterarios, mas até onde a minha vaidosa presumpção critica póde ser tolerada, devo declarar-te que ellas são frias e insensiveis, como todo sujeito sem alma. ___ Debaixo d’este ponto de vista, respondendo a uma interrogação directa que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresental-as ao publico sobre a rampa da scena do que ha em offerecel-as á leitura calma e reflectida. O que no theatro podia servir de obstaculo á apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comedias são para serem lidas e não representadas. Como ellas são um brinco do espirito, podem distrahir o espirito. Como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguem. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom criterio comsigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os auctores. O que desejo, o que te peço, é que apresentes n’esse mesmo genero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te á grande pintura. ___ Posso garantir-te que conquistarás applausos mais convencidos e mais duradouros. ___ Em todo o caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te á critica de todos, para que possas dirigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretencioso, colherás o fructo são da tua modestia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em sympathia toda a consideração que me impõe a tua joven e vigorosa intelligencia. ___ Teu ___ Q. Bocayuva.

W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, São Paulo e Pôrto Alegre ___ 1947 ____ .

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Correspondência: de Machado de Assis A Quintino Bocayuva

Correspondência:

de Machado de Assis a Quintino Bocayuva

Quintino e machado-1

Meu amigo. ___ Vou publicar as minhas duas comedias de estréa (1); e não quero fazel-o sem o conselho de tua competência. ___ Já uma crítica benevola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. ___ Sou immensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. ___ Mas o que recebeu na scena o baptismo do applauso póde sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? ___ É para a solução d’estas duvidas que recorro á sua autoridade litteraria. ___ O juízo da imprensa via n’estas duas comedias__ simples tentativas de autor timido e receoso. Se a minha affirmação  não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo n’esses trabalhos. Tenho o theatro por cousa mais séria e as minhas forças por cousa muito insufficiente; penso que as qualidades necessarias ao auctor dramatico desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho; cuido que é melhor tactear para achar; é o que procurei e procuro fazer. ___ Caminhar d’estes simples grupos de scenas á comedia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento pratico das condições do genero ___ eis uma ambição própria de animo juvenil e que eu tenho a immodestia de confessar. __ E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estadio que ha percorrer para alcançal-a. E mais. Tão difícil me parece este genero litterario que, sob as difficuldades apparentes, se me afigura que outras haverá, menos superaveis e tão subtis, que ainda as não posso ver. ___Até onde vae a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que espero saber de ti. ___ E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excellentes: razão de estima litteraria e razão de estima pessoal. Em respeito á tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. ___ O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo e eu docil; terás ainda por isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrivel sentença de um escriptor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles um regret? ___ Teu amigo e colega __ Machado de Assis.


(1) O caminho da porta e O Protocollo, comédias publicadas em 1863.

W.M Jackson Inc. Editores, Porto Alegre (1947).

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“EU SOU BRASILEIRO”- POESIA

“EU SOU BRASILEIRO” —poesia

Osmar Barbosa, poeta e professor

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__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

__ Sim, eu sou brasileiro!

Glossário:

Tejo: famoso rio da Península Ibérica.

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do romance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.


Osmar Barbosa —  Poeta, escritor, tradutor e professor, nascido em vitória, no Espírito Santo, em 1915. Lecionou no Rio de Janeiro, na década de setenta. Colaborou em vários periódicos católicos sob o pseudônimo de Frei Solitário. Publicou numerosas obras sobre ensino e literatura, entre as quais História da Literatura Brasileira, Antologia da Língua Portuguesa, A arte de falar em público, Dicionário de Verbos Franceses, Dicionário de Sinônimos Comparados; Bilac: tempo e poesia; Colheita matinal, Para as mãos de meu amor.

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Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida- Crítica

 

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida

 Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

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São verdadeiros caminhões de conhecimentos que vão sendo despejados nos buracos da rede mundial de computadores. Quem não calcula o desaterro se complica no aterro. Se não delimita o espaço, o mundo nos parece mais vasto do que é.

Já são muitos os analistas e comentaristas sobre tudo. Até gosto de ouvi-los. E depois fico pensando, dou uma volta na vida lá fora e venho aqui escrever.

E só podemos abraçar um amor de cada vez. Mas as paixões são tantas que o conteúdo escapa ao contentor e se precipita no desperdício. Derramam-se as opiniões, explicações, curiosidades, exposições inúteis e o pior de tudo: as… fa-ci-li-ta-ções! Quanto mais se facilita menos se compreende e menos gôsto tem o aprendiz.

Os facilitadores escondem as fontes saudáveis, os tratados, os métodos, as didáticas e os manuais consagrados. Fecham as possibilidades de arranjar a razão, o coração e o espírito de quem busca. O máximo que dão é uma referência aqui e outra ali. Exaltam o acúmulo de experiências e vivências, coisa que tem lá sua importância, mas não é nada sem o essencial.

Que esconder os tratados, os métodos e desestimular a disciplina sempre foram táticas dos governos e empresas de instrução e treinamento todos nós sabemos, mas logo nossos internautas “influenciadores” ___ esses que sonham sociedade melhor ___ negligenciarem o fato e ainda contribuírem para  esse mal!?

O aterro é útil para nivelar os espaços e aproveitar a superfície. Mas a edificação se sustenta pela estrutura de fundação cravada na terra boa e natural. A fundação é na casa o que é a raiz na árvore. A casa forte proporciona lar saudável e oferece à família e à comunidade bons filhos. A isso corresponde a raiz robusta e a árvore firme com suas belas flores e bons frutos.

Para o estudante, a “terra natural ou pouco remexida” sãos as fontes primevas, os tratados, os métodos, os manuais úteis, os clássicos consagrados. Essa argamassa duradoura e bem dimensionada, esses moldes elaborados pelos primeiros homens que levantaram a civilização não podem ser substituídos por avalanches de teses, monografias, biografias, ensaios, artigos, citações intertextuais, nomes famosos, opiniões emotivas e conteúdos gerenciados por ideólogos a serviço de bestas poderosas…

Será justo esconder nossos tesouros em nome da fama pessoal, da exposição contínua ou em nome da miséria que a World Wide Webe  e a Google remuneram? Façamos essa pergunta aos internautas empenhados em contribuir para nossa inteligência.

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210e site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

Mulheres Únicas – Poesia

Mulheres Únicas

lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

imagem-mulher

Numa só mulher estão todas as outras
numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
ainda que escondidos
têm beleza sertaneja, meiguice morena
clara maciez, negritude amorosa
assentam-se na escadaria da Igreja
debruçam-se nas janelas
enamoram-se nos bares
passeiam pelos clubes
encontram-se nas cavalgadas
desfilam-se nos shoppings
amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
um dia, esteve sua mulher numa canção
numa história não sua, numa infância platônica
todas as mulheres estarão num só romance
queimam numa só paixão, numa só saudade
gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

ensinar-nos o que é ser mulher,

despertando-nos adolescentes paixões

elas são únicas em si e sempre as mesmas

dividem-se quando só e..

multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
mulatas de alisados loiros
ruivas com tingidos castanhos
cafuzas de trançados negros
estéreis e felizes; férteis e entristecidas
sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
mulheres policiais, guardas e sargentos
mulheres soldados rígidos
e delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

um mesmo desespero quando em desamparo

sem um irmão, sem um filho, sem um pai

sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
a velha virgem num leito de morte
sonhando-se no altar à espera do noivo
cortam nas maçãs de seu rosto
duas lágrimas e explodem na cama
como se arrebentam no mundo
estrelas desprendidas do céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
pechinchando e fazendo compras
com seus corpos – velas de cêra
cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
na estação do trem e do BRT
são despejadas aos milhares:
brotos e botões
expansivas e acanhadas
murchas e desabrochadas
verdes e “de vez”
maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

de rancor e arrependimento

confundiu um caso passageiro

c’o homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
de corações aos vômitos
pelo ópio das ideologias
invertem Romeus em Rômulos*
e sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

com diferentes almas

corpos e espíritos;

com parecidas origens

e semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
por uma única mulher,
já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única,
não vale à pena trocá-La por outra…
e nem às Outras é justo enganá-Las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

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Pompeu e a cascavel

Pompeu e a cascavel Por José Estanislau

Fonte: Pompeu e a cascavel

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Dicas para boa interpretação textual

SUGESTÕES PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

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Professor Adolfo Murilo, Santa Luzia-MG (1992).

  1. Considerar o texto como um ponto básico para as respostas, mas jamais uma fonte de solução para as questões; 
  2. usar da prática de produção de textos , da leitura de bons autores , boas obras e incrementar, bem como atualizar o vocabulário;
  3. Saber que todo texto retrata uma realidade por mais remota que seja;
  4. ter conhecimento de que uma interpretação é sempre trabalhosa, pois esta exige muito raciocínio por parte do leitor;
  5. procurar entender bem as questões, depois resolvê-las;
  6. evitar a extrapolação, pois esta se constitui em um grande erro de interpretação;
  7. não confundir reprodução e transcrição de texto com interpretação;
  8. ler o texto quantas vezes necessárias, ainda que seja para responder uma única questão ou resposta;
  9. ter consciência que responder com as próprias palavras nem sempre se alcança o objetivo desejado;
  10. não confundir resposta pessoal com resposta interpretativa, pois aquela representa uma simples opinião e esta uma solução abrangente;
  11. ter conhecimento de leitura vertical e leitura horizontal, pois uma tende para o concreto dito, a outra para o abstrato e entredito;
  12. ser minucioso e calmo ao responder qualquer pergunta ou questão, pois de forma precipitada, jamais alcançaremos o objetivo desejado;
  13. ter conhecimento da função dos conectivos quando as perguntas ou questões os exigirem ( expressões de sentido afirmativo, hipotético, adversativo etc);
  14. saber identificar e diferenciar os tipos de texto quanto a seu conteúdo: filosófico, científico, literário, jornalístico, didático, etc;
  15. identificar o tom da fala do autor (humor, seriedade, ironia ), bem como a linguagem por ele escolhida ( coloquial, formal), pois estas influenciam diretamente nas intenções e nos sentidos de suas colocações;
  16. Estar atento às intenções do autor (informar, instruir, conscientizar, provocar, criticar) e, se possível, correlacioná-las aos aspectos de sua formação e origem;
  17. ser claro ao redigir respostas, pois isto facilita o entendimento e a correção por parte do avaliador;
  18. saber que uma resposta subjetiva nada mais é do que a busca de uma resposta objetiva dentre quatro ou cinco proposições;
  19. ter aspecto lógico como fator primordial, levando-se em consideração outros aspectos tais como: psicológicos, sociológicos, econômico-sociais etc;
  20. ter certeza de que a tarefa de interpretar é bastante individual, mas o resultado tende para um ponto de convergência que é a resposta lógica de toda questão em evidência;
  21. saber que a interpretação é o resultado do comportamento e atitudes do ser humano, em confronto com seu semelhante, diante das circunstâncias que os rodeiam;
  22. o nível de interpretação de um  grupo social deve condizer com seu grau de instrução;
  23. ter consciência de que saber interpretar é desenvolver um processo muito importante para o crescimento intelectual e espiritual de cada um.

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