Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Para brindar nossa perseverança, partilho com os amigos a carta-resposta do Joaquim Maria ao mestre Alencar, a respeito do seu Castro Alves, quando este último fora recomendado ao primeiro pelo segundo. No próximo 29.02 desse bissexto, nesse século que ainda amanhece, completam-se cento e cinquenta e dois anos do registro que segue. Tão atuais são essas vozes que parecem soprar por cima de nossos ombros.


Era carnaval, também ano bissexto, há 152 anos. Revivamos juntos:

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebel-o das mãos de V. Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida litteraria. Abre os olhos em pleno Capitolio. Os seus primeiros cantos obtêm o applauso de um mestre.

Mas se isto me enthusiasma, outra cousa há que me commove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inutil fôra dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Ex. mais do que uma animação generosa.

A tarefa da critica precisa d’estes parabens; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas luctas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessaria para reavivar as forças exhaustas e reerguer o animo abatido.

Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de critica, fui movido pela idéa de contribuir com alguma cousa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e effectivamente se perde. Meus limitadissimos esforços não podiam impedir o tremendo desatre. Como impedil-o, se, por influencia irresistivel, o mal vinha de fora, e se impunha ao espirito litterario do paiz, ainda mal formado e quase sem consciencia de si? Era difficil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de litteratura, sem alento nem ideal, falseada e frivola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Ex., sabem exprimir sentimentos e idéas na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam oppôr um dique á torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.

Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: a este já não era a intelligencia que se expunha, era o caracter. Comprehende V. Ex. que, onde a critica não é instituição formada e assentada, a analyse litteraria tem de luctar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais bellas creanças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se affectos. Desfiguram-se os intentos da critica, attribue-se á inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipathia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que elle não pesaria no animo de quem põe acima do interesse pessôal o interesse perpetuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.

Cançados de ouvir chamar bella á poesia, os novos athenienses resolveram banil-a da republica.

O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veiu sentar-se no santuario e assim generalizou-se uma crise funesta ás lettras. Que enorme Alpheu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?

Eu bem sei que no Brazil, como fóra d’elle, severos espíritos protestam com o trabalho e a licção contra esse estado de cousas; tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do seculo. Mas sempre ha de triumphar a vida intelligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; comtudo, entendia e entendo – adoptando a bella definição do poeta que V.Ex. dá em sua carta – que ha para o cidadão da arte e do bello deveres imprescriptíveis, e que, quando uma tendencia do espirito o impelle para certa ordem de actividade, é sua obrigação prestar esse serviço ás lettras.

Em todo caso não tive imitadores. Tive um antecessor illustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria proseguido no caminho das suas estréas, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as creações que depois nos deu. Será peciso acrescentar que alludo a V. Ex.?

Escolhendo-me para Virgilio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a propria carta de V. Ex. não houvesse aberto ao neophyto as portas da mais vasta publicidade. A analyse póde agora esmerilhar nos escriptos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.

Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural anciedade que nos produz a noticia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.

Não tive, como V. Ex., a fortuna de os ouvir deante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes deante de mim: não tinha os pés n’essa formosa Tijuca, que V. Ex. chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano. Em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara á loucura: estávamos no carnaval.

No meio d’esse tumulto abrimos um Oasis de solidão.

V. Ex. já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou comsigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo publico, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escriptos do poeta.

Não podiam ser melhores as impessões. Achei uma vocação litteraria, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista – no dizer, nas idéas e nas imagens. Copial-as é anullar-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se advinha que a sua escola é a de Victor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irman levou-o a preferir o poeta das Orientaes ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.

Como poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com egual inspiração e methodo idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma fórma esculpida com arte, sentindo-se por baixo d’esses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a fórma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possue; veste as suas idéas com roupas finas e trabalhadas. O receio de cahir em um defeito, não o levará a cahir no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja d’elle. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas bellezas.

O drama esse li-o attentamente; depois de ouvil-o, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada pagina do volume.

O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metaphoras enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sophocles pede as azas a Pindaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o CEO de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.

Esta exhuberancia, que V. Ex. com justa razão attribue á edade, concordo que o poeta ha de reprimil-a com os annos. Então conseguirá separar completamente a língua lyrica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.

Estreando no theatro com um assumpto histórico, e assumpto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidencia tinham além d’isso a aureola do martyrio. Que melhor assumpto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquella veneração que as raças livres devem aos seus Spartacus. O insucesso fel-os criminosos; a victoria tel-os-hia feito Washingtons. Condemnou-os a justiça legal; rehabilita-os a justiça histórica.

Condensar estas idéas em uma obra dramática, transportar para a scena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objecto do Sr. Castro Alves, e não se póde esquecer que, se o intuito era nobre, o commettimento era grave. O talento do poeta superou a difficuldade; com uma sagacidade, que eu admiro em tão verdes annos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquella o póde accusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Ex., conhecem esta alliança, hão de avaliar esse primeiro mereceimento do drama do Sr. Castro Alves.

A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circumstancia dos seus legendários amores, de que é história aquella famosa Marilia de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circumstancia. Do processo resulta que o cantor de Marilia era tido por chefe da conspiração, em attenção aos seus talentos e lettras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu á conspiração com uma actividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.

Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao theatro o elemento feminino, e de um lance casavam-se em scena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circumstancia foi bem aproveitada pelo auctor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dous sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no teceiro acto, o poeta não hesita em repellir esse recurso, apesar de ser imminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se elle as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a licção do velho Horacio corneiliano; entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.

O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se póde deixar de recorrer á história; supprimir esta condição é expor-se a critica a não entender o poeta.

Que vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquelle conjurador impaciente e activo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e emprehende, que confia mais que todos no successo da causa, e paga emfim as demasias do seu cararcter com a morte na forca e a profanação do cadaver?

E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo alli, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aquelles emigrados do Terror?

Não lhe rola já na cabeça a Idea do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquelle o denunciante Silverio, aquelle o Alvarenga, aquelle o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência litteraria do auctor. A historia nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquella exaggeração artística, necessária ao theatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciaes de uma epocha ou de um acontecimento.

Concordo que a acção parece ás vezes desenvolver-se pelo accidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influencia do principio contrario em toda a peça.

O vigor dos caracteres pedia o vigor da acção; Ella é vigorosa e interessante em todo o livro; pathetica no ultimo acto. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns bellos versos fecham este drama, que póde conter as incertezas de uma talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréa.

N’esta rápida exposição de minhas impressões, vê V. Ex. que alguma cousa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a Idea da abolição. Luiz representa o elemento escravo. Comtudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr n’aquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela lucta entre a natureza e o facto social, entre a lei e o coração. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira affirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois.

Por isso, quando no terceiro acto Luiz a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluções, o coração chora com elle, e a memória, se a memória póde dominar taes comoções, nos traz aos olhos a bella scena do rei Lear, carregando nos braços Cordelia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.

Cumpre mencionar outras situações egualmente bellas. Entra n’esse numero a scena da prisão dos conjurados no terceiro acto. As scenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Ex. alludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astucia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.

As scenas amorosas são escriptas com paixão; as palavras sahem naturalmente de uma alma para outra, prorompem de um para outro coração. E que contraste melancholico não é aquelle idyllio ás portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dous amantes!

Dir-se-ha que eu só recommendo bellezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais – duas ou trez imagens que me não parecem felizes; e uma ou outra locução susceptível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da fórma? Que as demasias do estylo, a exhuberancia das metaphoras, o excesso das figuras devem obter a attenção do auctor, é cousa tão segura que eu me limito a mencional-as; mas como não acceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que póde ser a sabia economia de amanhan?

Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só a licção do facto, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessôaes aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caracter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dynastia, apagaram antipathias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.

Taes foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escripto com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do auctor suppre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciencia. Está moço, tem um bello futuro deante de si. Venha desde já alistar-se na fileiras dos que devem trabalhar e restaurar o império das musas.

O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o successo coroará a obra? É um ponto de interrogação que ha de ter surgido no espirito de V. Ex.. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que ha um obstáculo, e V. Ex. o sabe também: é a conspiração da indifferença. – Mas a perseverança não póde vencel-a? Devemos espera que sim.

Quanto a V. Ex., respirando nos degráos da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vae meditando, sem duvida, em outras obras primas com que nos há de vir surprehender cá em baixo. Deve fazel-o sem temor. Contra a conspiração da indifferença, tem V.Ex. um alliado invencível: é a conspiração da posteridade.


Correio Mercantil, Rio, 1 de março de 1868.

ASSIS. Joaquim Maria de; ALECAR, José de. Correspondências. Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson Inc. Editores, 1947.439p

Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

§

Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

§

Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

§

A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

§

A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

§

Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

§

A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

§

O fogo destrói e consome iluminando.

§

Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

§

Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

§

A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

§

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

§

A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

§

A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

§

A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

§

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

§

                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

§

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

§

Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual) – Crítica

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)
– Crítica

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

                                                                                             fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo,sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade factual batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

 Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. E claro, alguma manifestação de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço exclusivamente para autopromoção nem veículo interativo instantâneo visando atingir visibilidade superficial ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

 Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocarmos idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual e da coletividade saudável e recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

contato: lopeslarocha@gmail.com

Vídeo recomendado:

Se Otto Maria Carpeaux é um plagiário

Sêde de Deus e de Civilização(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Sêde de Deus e de Civilização

(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Imagem_Editora_Argos

Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.

Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!

Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.

Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.

Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.

Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.

O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

contato@pingodeouvido.com.br

A igreja do Diabo

A igreja do Diabo

machado-de-assis-1904
Joaquim Maria  Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

__ Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II

ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

__ Que me queres tu? perguntou este.

__ Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

__ Explica-te.

__ Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…

__ Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

__ Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?

__ Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

__ Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

__ Vai !

__ Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

__ Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

__ Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…

__ Velho retórico! murmurou o Senhor.

__ Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda… Vou a negócios mais altos…

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

__ Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

__ Já vos disse que não.

__ Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

__ Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

__ Negas esta morte?

__ Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…

__ Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Ill

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

__ Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão dos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV

FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

__ Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Vocabulário: ______________________________________

Mirífica= Maravilhosa, admirável, extraordinária, excelente.

Cogula= Túnica larga de religiosos.

Prédicas= Sermões, discursos religiosos.

Sulfúreas= da natureza do enxofre.

Esgalgada= magra como um galgo; galgo= cão de pernas longas; esfomeado.

Peleu= da mitologia grega, rei, navegador, amigo de Centauro e de Hércules e pai de Aquiles.

Rabelais= relativo a François Rabelais (1494-1553), escritor renascentista francês; que lembra seu gênero libertino, devasso e licencioso.

Hissope= referência a “O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva” poema heroico e cômico; [De hissopo, por ser com raminhos desta planta que se fazia a bênção.]; Aspersório: instrumento para borrifar (orvalhar) água benta.

Lúculo= Lucius Licinius Lucullus, político e combatente da Republica Romana (118–56 a.C); Indivíduo amante de banquetes suntuosos.

Galiani= Padre Italiano Ferdinando Galiani, sociólogo e economista.

Turbas= multidões.

Insolvável= insolvente.

Muezim= almuadem, entre os muçulmanos, aquele que anuncia, em voz alta, do alto das almádenas, a hora das preces; almádenas= Minarete, torre de mesquita.

|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

edit

A fala e a cala se constituem de diálogo – ou monólogo – e de prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaio para o louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

contato: lopeslarocha@gmail.com

Aurora sem dia – Conto

Aurora sem dia

Joaquim Maria Machado de Assis

machado-de-assis-1904

Naquele tempo contava Luís Tinoco vinte e um anos. Era um rapaz de estatura meã, olhos vivos, cabelos em desordem, língua inesgotável e paixões impetuosas. Exercia um modesto emprego no foro, donde tirava o parco sustento, e morava com o padrinho cujos meios de subsistência consistiam no ordenado da sua aposentadoria. Tinoco estimava o velho Anastácio e este tinha ao afilhado igual afeição.

Luís Tinoco possuía a convicção de que estava fadado para grandes destinos, e foi esse durante muito tempo o maior obstáculo da sua existência. No tempo em que o Dr. Lemos o conheceu começava a arder-lhe a chama poética. Não se sabe como começou aquilo. Naturalmente os louros alheios entraram a tirar-lhe o sono. O certo é que um dia de manhã acordou Luís Tinoco escritor e poeta; a inspiração, flor abotoada ainda na véspera, amanheceu pomposa e viçosa. O rapaz atirou-se ao papel com ardor e perseverança, e entre as seis horas e as nove, quando o foram chamar para almoçar, tinha produzido um soneto, cujo principal defeito era ter cinco versos com sílabas de mais e outros cinco com sílabas de menos. Tinoco levou a produção ao Correio Mercantil, que a publicou entre os pedidos.

Mal dormida, entremeada de sonhos interruptos, de sobressaltos e ânsias, foi a noite que precedeu a publicação. A aurora raiou enfim, e Luís Tinoco, apesar de pouco madrugador, levantou-se com o sol e foi ler o soneto impresso. Nenhuma mãe contemplou o filho recém-nascido com mais amor do que o rapaz leu e releu a produção poética, aliás decorada desde a véspera. Afigurou-se-lhe que todos os leitores do Correio Mercantil estavam fazendo o mesmo; e que cada um admirava a recente revelação literária, indagando de quem seria esse nome até então desconhecido.

Não dormiu sobre os louros imaginários. Daí a dois dias, nova composição, e desta vez saiu uma longa ode sentimental em que o poeta se queixava à lua do desprezo em que o deixara a amada, e já entrevia no futuro a morte melancólica de Gilbert. Não podendo fazer despesas, alcançou, por intermédio de um amigo, que a poesia fosse impressa de graça, motivo este que retardou a publicação por alguns dias. Luís Tinoco tragou a custo a demora, e não sei se chegou a suspeitar de inveja dos redatores do Correio Mercantil. A poesia saiu enfim; e tal contentamento produziu no poeta que foi logo fazer ao padrinho a grande revelação.

— Leu hoje o Correio Mercantil, meu padrinho? perguntou ele.

— Homem, tu sabes que eu só lia os jornais no tempo em que era empregado efetivo. Desde que me aposentei não li mais os periódicos…

— Pois é pena! disse Tinoco com ar frio; queria que me dissesse o que pensa de uns versos que lá vêm.

— E de mais a mais versos! Os jornais já não falam de política? No meu tempo não falavam de outra coisa.

— Falam de política e publicam versos, porque ambas as coisas têm entrada na imprensa. Quer ler os versos?

— Dá cá.

— Aqui estão.

O poeta puxou da algibeira o Correio Mercantil, e o velho Anastácio entrou a ler para si a obra do afilhado. Com os olhos pregados no padrinho, Luís Tinoco parecia querer adivinhar as impressões que produziam nele os seus elevados conceitos, metrificados com todas as liberdades possíveis e impossíveis do consoante. Anastácio acabou de ler os versos e fez com a boca um gesto de enfado.

— Isto não tem graça, disse ele ao afilhado estupefato; que diabo tem a lua com a indiferença dessa moça, e a que vem aqui a morte deste estrangeiro?

Luís Tinoco teve vontade de descompor o padrinho, mas limitou-se a atirar os cabelos para trás e a dizer com supremo desdém:

— São coisas de poesia que nem todos entendem; esses versos sem graça são meus.

— Teus? perguntou Anastácio no cúmulo do espanto.

— Sim, senhor.

— Pois tu fazes versos?

— Assim dizem.

— Mas quem te ensinou a fazer versos?

— Isto não se aprende; traz-se do berço.

Anastácio leu outra vez os versos, e só então reparou na assinatura do afilhado. Não havia que duvidar: o rapaz dera em poeta. Para o velho aposentado era isto uma grande desgraça. Esse, ligava à idéia de poeta a idéia de mendicidade. Tinham-lhe pintado Camões e Bocage, que eram os nomes literários que ele conhecia, como dois improvisadores de esquina, expectorando sonetos em troca de algumas moedas, dormindo nos adros das igrejas e comendo nas cocheiras das casas-grandes. Quando soube que o seu querido Luís estava atacado da terrível moléstia, Anastácio ficou triste, e foi nessa ocasião que se encontrou com o Dr. Lemos e lhe deu notícia da gravíssima situação do afilhado.

— Dou-lhe parte de que o Luís está poeta.

— Sim? perguntou-lhe o Dr. Lemos. E que tal lhe saiu o poeta?

— Não me importa se saiu mau ou bom. O que sei é que é a maior desgraça que lhe podia acontecer, porque isto de poesia não dá nada de si. Tenho medo que deixe o emprego, e fique aí pelas esquinas a falar à lua, cercado de moleques.

O Dr. Lemos tranqüilizou o homem dizendo-lhe que os poetas não eram esses vadios que ele imaginava; mostrou-lhe que a poesia não era obstáculo para andar como os outros, para ser deputado, ministro ou diplomata.

— No entanto, disse o Dr. Lemos, desejarei falar ao Luís; quero ver o que ele tem feito, porque como eu também fui outrora um pouco versejador, posso já saber se o rapaz dá de si.

Luís Tinoco foi ter com ele; levou-lhe o soneto e a ode impressos, e mais algumas produções não publicadas. Estas orçavam pela ode ou pelo soneto. Imagens safadas, expressões comuns, frouxo alento e nenhuma arte; apesar de tudo isso, havia de quando em quando algum lampejo que indicava da parte do neófito propensão para o mister; podia ser ao cabo de algum tempo um excelente trovador de salas.

O Dr. Lemos disse-lhe com franqueza que a poesia era uma arte difícil e que pedia longo estudo; mas que, a querer cultivá-la a todo o transe, devia ouvir alguns conselhos necessários.

— Sim, respondeu ele, pode lembrar alguma coisa; eu não me nego a aceitar-lhe o que me parecer bom, tanto mais que eu fiz estes versos muito à pressa e não tive ocasião de os emendar.

— Não me parecem bons estes versos, disse o Dr. Lemos; poderia rasgá-los e estudar antes algum tempo.

Não é possível descrever o gesto de soberbo desdém, com que Luís Tinoco arrancou os versos ao doutor e lhe disse:

— Os seus conselhos valem tanto como a opinião de meu padrinho. Poesia não se aprende, traz-se do berço. Eu não dou atenção a invejosos. Se os versos não fossem bons, o Mercantil não os publicava.

E saiu.

Daí em diante foi impossível ter-lhe mão.

Tinoco entrou a escrever como quem se despedia da vida. Os jornais andavam cheios de produções suas, umas tristes, outras alegres, não daquela tristeza nem daquela alegria que vem diretamente do coração, mas de uma tristeza que fazia sorrir, e de uma alegria que fazia bocejar. Luís Tinoco confessava singelamente ao mundo que fora invadido do ceticismo byroniano, que tragara até às fezes a taça do infortúnio, e que para ele a vida tinha escrita na porta a inscrição dantesca. A inscrição era citada com as próprias palavras do poeta, sem que aliás Luís Tinoco o tivesse lido nunca. Ele respingava nas alheias produções uma coleção de alusões e nomes literários, com que fazia as despesas de sua erudição, e não lhe era preciso, por exemplo, ter lido Shakespeare para falar do to be or not to be, do balcão de Julieta e das torturas de Otelo. Tinha a respeito de biografias ilustres noções extremamente singulares. Uma vez, agastando-se com a sua amada — pessoa que ainda não existia, — aconteceu-lhe dizer que o clima fluminense podia produzir monstros daquela espécie, do mesmo modo que o sol italiano dourara os cabelos da menina Aspásia. Lera casualmente alguns dos salmos do Padre Caldas, e achou-os soporíferos; falava mais benevolamente da “Morte de Lindóia”, nome que ele dava ao poema de J. Basílio da Gama, de que só conhecia quatro versos.

Ao cabo de cinco meses tinha Luís Tinoco produzido uma quantia razoável de versos, e podia, mediante muitos claros e páginas em branco, dar um volume de cento e oitenta páginas. A idéia de imprimir um livro sorriu-lhe; e daí a pouco era raro passar por uma loja sem ver no mostrador um prospecto assim concebido:

GOIVOS E CAMÉLIAS
POR
LUÍS TINOCO
Um volume de 200 páginas… 2$000 rs.

O Dr. Lemos encontrou-o algumas vezes na rua. Andava com o ar inspirado de todos os poetas novéis que se supõem apóstolos e mártires. Cabeça alta, olhos vagos, cabelos grandes e caídos; algumas vezes abotoava o paletó e punha a mão ao peito por ter visto assim um retrato de Guizot; outras vezes andava com as mãos para trás.

O Dr. Lemos falou-lhe a terceira vez que o viu assim, porque das duas primeiras o rapaz esquivou-se por modo que não pôde deter-lhe o passo. Fez-lhe alguns elogios às suas produções. Expandiu-se-lhe o rosto:

— Obrigado, disse ele; esses elogios são o melhor prêmio das minhas fadigas. O povo não está preparado para a poesia: as pessoas inteligentes, como o doutor, podem julgar do merecimento dos outros. Leu a minha “Flor pálida”?

— Uns versos publicados no domingo?

— Sim.

— Li; são galantíssimos.

— E sentimentais. Fiz aquela poesia em meia hora, e não emendei nada. Acontece-me isso muita vez. Que lhe parecem aqueles esdrúxulos?

— Acho-os esdrúxulos.

— São excelentes. Agora vou levar algumas estrofes que compus ontem. Intitulam-se “À beira de um túmulo”.

— Ah!

— Já assinou o meu livro?

— Ainda não.

— Nem assine. Quero dar-lhe um volume. Sai brevemente. Estou recolhendo as assinaturas. Goivos e camélias; que lhe parece o título?

— Magnífico.

— Achei-o de repente. Lembraram-me outros, mas eram comuns. Goivos e Camélias parece que é um título distinto e original; é o mesmo que se dissesse: tristezas e alegrias.

— Justamente.

Durante esse tempo, ia o poeta tirando do bolso uma aluvião de papéis. Procurava as estrofes de que falara. O Dr. Lemos quis esquivar-se, mas o homem era implacável; segurou-lhe no braço. Ameaçado de ouvir ler os versos na rua, o doutor convidou o poeta a ir jantar com ele.

Foram a um hotel próximo.

— Ah! meu amigo, dizia ele em caminho, não imagina quantos invejosos andam a denegrir o meu nome. O meu talento tem sido o alvo de mil ataques; mas eu já estava disposto a isto. Não me espanto. A enxerga de Camões é um exemplo e uma consolação. Prometeu, atado ao Cáucaso, é o emblema do gênio. A posteridade é a vingança dos que sofrem os desdéns do seu tempo.

No hotel procurou o Dr. Lemos um lugar mais afastado, onde não chamassem muito a atenção das outras pessoas.

— Aqui estão as estrofes, disse Luís Tinoco conseguindo arrancar de um maço de papéis a poesia anunciada.

— Não lhe parece melhor lê-las à sobremesa?

— Como quiser, respondeu ele; tem razão, porque eu também estou com fome.

Luís Tinoco era todo prosa à mesa do jantar; comeu desencadernadamente.

— Não repare, dizia ele de quando em quando; isto é o animal que se está alimentando. O espírito aqui não tem culpa nenhuma.

À sobremesa, estando na sala apenas uns cinco fregueses, desdobrou Luís Tinoco o fatal papel e leu as anunciadas estrofes, com uma melopéia afetada e perfeitamente ridícula. Os versos falavam de tudo, da morte e da vida, das flores e dos vermes, dos amores e dos ódios; havia mais de oito ciprestes, cerca de vinte lágrimas, e mais túmulos do que um verdadeiro cemitério.

Os cinco fregueses jantantes voltaram a cabeça, quando Luís Tinoco começou a recitar os versos; depois começaram a sorrir e a murmurar alguma coisa que os dois não puderam ouvir. Quando o poeta acabou, um dos circunstantes, assaz grosseiro, soltou uma gargalhada. Luís Tinoco voltou-se enfurecido, mas o Dr. Lemos conteve-o dizendo:

— Não é conosco.

— É, meu amigo, disse ele resignado; mas que lhe havemos de fazer? quem entende a poesia para a respeitar em toda a parte?

— Deixemos este lugar, disse o Dr. Lemos; aqui não compreendem o que é um poeta.

— Vamos!

O Dr. Lemos pagou a conta e saiu atrás de Luís Tinoco, que deitou ao rideiro um olhar de desafio.

Luís Tinoco acompanhou-o até à casa. Recitou-lhe em caminho alguns versos que sabia de cor. Quando ele se entregava à poesia, não a alheia, que o não preocupava muito, mas a própria, podia-se dizer que tudo mais se lhe apagava da memória; bastava-lhe a contemplação de si mesmo. O Dr. Lemos ia ouvindo calado com a resignação de quem suporta a chuva, que não pode impedir.

Pouco tempo depois saíram a lume os Goivos e Camélias, que todos os jornais prometeram analisar mais de espaço.

Dizia o poeta no prólogo da obra, que era audácia da sua parte “vir assentar-se na mesa da comunhão da poesia, mas que todo aquele que sentia dentro de si o j’ai quelque chose là, de André Chénier, devia dar à pátria aquilo que a natureza lhe deu”. Em seguida pedia desculpa para os seus verdes anos, e afirmava ao público que não tinha sido “embalado em berços de seda”. Concluía dando a bênção ao livro e chamando a atenção para a lista dos assinantes que vinha no fim.

Esta obra monumental passou despercebida no meio da indiferença geral. Apenas um folhetinista do tempo escreveu a respeito dela algumas linhas que fizeram rir a toda a gente, menos o autor, que foi agradecer ao folhetinista.

O Dr. Lemos perdeu de vista o seu poeta durante algum tempo. Digo mal; só perdeu de vista o homem, porque o poeta de quando em quando lhe aparecia metido em alguma produção literária que o Dr. Lemos invariavelmente lia para se benzer da estéril pertinácia de Luís Tinoco. Não havia ocasião, enterro ou espetáculo solene que escapasse à inspiração do fecundo escritor. Como o número de suas idéias fosse mui limitado, podia-se dizer que ele só havia escrito um necrológio, uma elegia, uma ode ou uma congratulação. Os diferentes exemplares de cada uma destas coisas eram a mesma coisa dita por outro modo. O modo, porém, constituía a originalidade do poeta, originalidade que ele não teve a princípio, mas que se desenvolveu muito com o tempo.

Infelizmente enquanto se entregava com ardor às lides literárias, esquecia-se o poeta das lides forenses, de onde lhe vinha o pão. Anastácio queixou-se um dia desta desgraça ao Dr. Lemos, numa carta que acabava assim: “Não sei, meu amigo Sr. Lemos, aonde irá parar este rapaz. Não lhe vejo outra conclusão: hospício ou xadrez”.

O Dr. Lemos mandou chamar o poeta. Elogiou-lhe as suas obras com o fim de lhe dispor o espírito a ouvir o que ia dizer. O rapaz expandiu-se.

— Ainda bem que eu ouço de quando em quando alguma voz animadora, disse ele; não sabe o que tem sido a inveja a meu respeito. Mas que importa? Tenho confiança no futuro; o que me vinga é a posteridade.

— Tem razão, a posteridade é que vinga das maroteiras contemporâneas.

— Li há dias num papelucho, que eu era um alinhavador de ninharias. Percebi a intenção. Acusava-me de não meter ombros a obra de mais largo fôlego. Vou desmentir o papelucho: estou escrevendo um poema épico!

“Ai!” disse o Dr. Lemos consigo, adivinhando alguma leitura forçada do poema.

— Podia mostrar-lhe alguma coisa, continuou Luís Tinoco, mas prefiro que leia a obra quando estiver mais adiantada.

— Muito bem.

— Tem dez cantos, cerca de 10.000 versos. Mas quer saber a minha desgraça?

— Qual é?

— Estou apaixonado…

— Realmente, é uma desgraça na sua posição.

— Que tem a minha posição?

— Creio que não é excelente. Dizem-me que se tem descuidado um pouco das suas obrigações do foro, e que brevemente lhe vão tirar o emprego.

— Fui despedido ontem.

— Já?

— É verdade. Se ouvisse o discurso com que eu respondi ao escrivão, diante de toda a gente que enchia o cartório! Vinguei-me.

— Mas… de que viverá agora? seu padrinho não pode, creio eu, com o peso da casa.

— Deus me ajudará. Não tenho eu uma pena na mão? Não recebi do berço um tal ou qual engenho, que já tem dado alguma coisa de si? Até agora nenhum lucro tentei tirar das minhas obras; mas era só amador. Daqui em diante o caso muda de figura; é necessário ganhar o pão, ganharei o pão.

A convicção com que Luís Tinoco dizia estas palavras, entristeceu o amigo do padrinho. O Dr. Lemos contemplou durante alguns segundos — com inveja, talvez, — aquele sonhador incorrigível, tão desapegado da realidade da vida, acreditando não só nos seus grandes destinos, mas também na verossimilhança de fazer da sua pena uma enxada.

— Oh! deixe estar! continuou Luís Tinoco; eu hei de provar-lhes, ao senhor e a meu padrinho, que não sou tão inútil como lhes pareço. Não me falta coragem, doutor; quando me faltasse, há uma estrela…

Luís Tinoco calou-se, retorceu o bigode, e olhou melancolicamente para o céu. O Dr. Lemos também olhou para o céu, mas sem melancolia, e perguntou rindo:

— Uma estrela? Ao meio-dia é raro…

— Oh! não falo dessas, interrompeu Luís Tinoco; lá é que ela devia estar, ali no espaço azul, entre as outras suas irmãs, mais velhas do que ela e menos formosas…

— Uma moça?

— Uma moça, é pouco; diga a mais gentil criatura que o sol ainda alumiou, uma sílfide, a minha Beatriz, a minha Julieta, a minha Laura…

— Escusa dizê-lo; deve ser muito formosa se fez apaixonar um poeta.

— Meu amigo, o senhor é um grande homem; Laura é um anjo, e eu adoro-a…

— E ela?

— Ela ignora talvez que eu me consumo.

— Isso é mau!

— Que quer? disse Luís Tinoco enxugando com o lenço uma lágrima imaginária; é fado dos poetas arderem por coisas que não podem obter. É esse o pensamento de uns versos que escrevi há oito dias. Publiquei-os no Caramanchão Literário.

— Que diacho é isso?

— É a minha folha, que eu lhe mando de quinze em quinze dias… E diz que lê as minhas obras!

— As obras leio… Agora os títulos podem escapar. Vamos porém ao que importa. Ninguém lhe contesta talento nem inspiração fecunda; mas o senhor ilude-se pensando que pode viver dos versos e dos artigos literários… Note que os seus versos e os seus artigos são muito superiores ao entendimento popular, e por isso devem ter muito menos aceitação.

Este desenganar com as mãos cheias de rosas produziu salutar efeito no ânimo de Luís Tinoco; o poeta não pôde sofrear um sorriso de satisfação e bem-aventurança. O amigo do padrinho concluiu o seu discurso oferecendo-lhe um lugar de escrevente em casa de um advogado. Luís Tinoco olhou para ele algum tempo sem dizer palavra. Depois:

— Volto ao foro, não? disse ele com a mais melancólica resignação deste mundo. Minha inspiração deve descer outra vez a empoeirar-se nos libelos, a aturar os rábulas, a engrolar o vocabulário da chicana! E a troco de quê? A troco de uns magros mil-réis que eu não tenho e me são necessários para viver. Isto é sociedade, doutor?

— Má sociedade, se lhe parece, respondeu o Dr. Lemos com doçura, mas não há outra à mão, e a menos de não estar disposto a reformá-la, não tem outro recurso senão tolerá-la e viver.

O poeta deu alguns passos na sala; no fim de dois minutos estendeu a mão ao amigo.

— Obrigado, disse ele, aceito; vejo que trata de meus interesses, sem desconhecer que me oferece um exílio.

— Um exílio e um ordenado, emendou o Dr. Lemos.

Daí a dias estava o poeta a copiar razões de embargos e de apelação, a lastimar-se, a maldizer da fortuna, sem adivinhar que daquele emprego devia nascer uma mudança nas suas aspirações. O Dr. Lemos não lhe falou durante cinco meses. Um dia encontraram-se na rua. Perguntou-lhe pelo poema.

— Está parado, respondeu Luís Tinoco.

— Deixa-o de mão?

— Conclui-lo-ei quando tiver tempo.

— E a folha?

— Deve saber que acabei com ela; não lha mando há muito tempo.

— É verdade, mas podia ser um esquecimento. Muito me conta! Então acabou o Caramanchão Literário?

— Deixei-o morrer no melhor período de vitalidade: tinha oitenta assinantes pagantes…

— Mas então abandona as letras?

— Não, mas… Adeus.

— Adeus.

Pareceu simples tudo aquilo; mas tendo-se ganho alguma coisa, que era empregá-lo, o Dr. Lemos deixou que o próprio poeta lhe fosse anunciar a causa do seu sono literário. Seria o namoro de Laura?

Esta Laura, preciso é que se diga, não era Laura, era simplesmente Inocência; o poeta chamava-lhe Laura nos seus versos, nome que lhe parecia mais doce, e efetivamente o era. Até que ponto existiu esse namoro, e em que proporções correspondeu a moça à chama do rapaz? A história não conservou muita informação a este respeito. O que se sabe com certeza é que um dia apareceu um rival no horizonte, tão poeta como o padrinho de Luís Tinoco, elemento muito mais conjugal do que o redator do Caramanchão Literário, e que de um só lance lhe derrubou todas as esperanças.

Não é preciso dizer ao leitor que este acontecimento enriqueceu a literatura com uma extensa e chorosa elegia, em que Luís Tinoco metrificou todas as queixas que pode ter de uma mulher um namorado traído. Esta obra tinha por epígrafe o nessun maggior dolore do poeta florentino. Quando ele a acabou e emendou, releu-a em voz alta, passeando na alcova, deu o último apuro a um ou outro verso, admirou a harmonia de muitos, e singelamente confessou de si para si que era a sua melhor produção. O Caramanchão Literário ainda existia; Luís Tinoco apressou-se a levar o escrito ao prelo, não sem o ler aos seus colaboradores, cuja opinião foi idêntica à dele. Apesar da dor que o devia consumir, o poeta leu as provas com o maior desvelo e escrúpulo, assistiu à impressão dos primeiros exemplares da folha, e durante muitos dias releu os versos até cansar. Do que ele menos se lembrava era da perfídia que os inspirou.

Esta porém não era a razão do sono literário de Luís Tinoco. A razão era puramente política. O advogado, cujo escrevente ele era, tinha sido deputado e colaborava numa gazeta política. O seu escritório era um centro, onde iam ter muitos homens públicos e se conversava largamente dos partidos e do governo. Luís Tinoco ouviu a princípio essas conversas com a indiferença de um deus envolvido no manto da sua imortalidade. Mas a pouco e pouco foi adquirindo gosto ao que ouvia. Já lia os discursos parlamentares e os artigos de polêmica. Da atenção passou rapidamente ao entusiasmo, porque naquele rapaz tudo era extremo, entusiasmo ou indiferença. Um dia levantou-se com a convicção de que os seus destinos eram políticos.

— A minha carreira literária está feita, disse ele ao Dr. Lemos quando falaram nisto; agora outro campo me chama.

— A política? Parece-lhe que é essa a sua vocação?

— Parece-me que posso fazer alguma coisa.

— Vejo que é modesto, e não duvido que alguma voz interior o esteja convidando a queimar as suas asas de poeta. Mas, cuidado! Há de ter lido Macbeth… Cuidado com a voz das feiticeiras, meu amigo. Há no senhor demasiado sentimento, muita suscetibilidade, e não me parece que…

— Estou disposto a acudir à voz do destino, interrompeu impetuosamente Luís Tinoco. A política chama-me ao seu campo; não posso, não devo, não quero cerrar-lhe os ouvidos. Não! as opressões do poder, as baionetas dos governos imorais e corrompidos, não podem desviar uma grande convicção do caminho que ela mesma escolheu. Sinto que sou chamado pela voz da verdade. Quem foge à voz da verdade? Os covardes e os ineptos. Não sou inepto nem covarde.

Tal foi a estréia oratória com que ele brindou o Dr. Lemos numa esquina onde felizmente não passava ninguém.

— Só lhe peço uma coisa, disse o ex-poeta.

— O que é?

— Recomende-me ao doutor. Quero acompanhá-lo, e ser seu protegido; é o meu desejo.

O Dr. Lemos cedeu ao desejo de Luís Tinoco. Foi ter com o advogado e recomendou-lhe o escrevente, não com muita solicitude, mas também sem excessiva frieza. Felizmente o advogado era uma espécie de São Francisco Xavier do partido, desejoso como ninguém de aumentar o pessoal militante; recebeu a recomendação com a melhor cara do mundo, e logo no dia seguinte, disse algumas palavras benévolas ao escrevente, que as ouviu trêmulo de comoção.

— Escreva alguma coisa, disse o advogado, e traga-me para ver se lhe achamos propensão.

Não foi preciso dizer-lho duas vezes. Dois dias depois, levou o ex-poeta ao seu protetor um artigo extenso e difuso, mas cheio de entusiasmo e fé. O advogado achou defeitos no trabalho; apontou-lhe demasias e nebulosidades, frouxidão de argumentos, mais ornamentação que solidez; todavia prometeu publicá-lo. Ou fosse porque lhe fizesse estas observações com muito jeito e benevolência, ou porque Luís Tinoco houvesse perdido alguma coisa da antiga suscetibilidade, ou porque a promessa da publicação lhe adoçasse o amargo da censura, ou por todas estas razões juntas, o certo é que ele ouviu com exemplar modéstia e alegria as palavras do protetor.

— Há de perder os defeitos com o tempo, disse este mostrando o artigo aos amigos.

O artigo foi publicado e Luís Tinoco recebeu alguns apertos de mão. Aquela doce e indefinível alegria que ele sentira quando estampou no Correio Mercantil os seus primeiros versos, voltou a experimentá-la agora, mas alegria complicada de uma virtuosa resolução: Luís Tinoco desde aquele dia sinceramente acreditou que tinha uma missão, que a natureza e o destino o haviam mandado à terra para endireitar os tortos políticos.

Poucas pessoas se terão esquecido do período final da estréia política do ex-redator do Caramanchão Literário. Era assim:

Releve o poder — hipócrita e sanhudo, — que eu lhe diga muito humildemente que não temo o desprezo nem o martírio. Moisés, conduzindo os hebreus à terra da promissão, não teve a fortuna de entrar nela: é o símbolo do escritor que leva os homens à regeneração moral e política, sem lhe transpor as portas de ouro. Que poderia eu temer? Prometeu atado ao Cáucaso, Sócrates bebendo a cicuta, Cristo expirando na cruz, Savonarola indo ao suplício, John Brown esperneando na forca, são os grandes apóstolos da luz, o exemplo e o conforto dos que amam a verdade, o remorso dos tiranos, e o terremoto do despotismo.

Luís Tinoco não parou nestas primícias. Aquela mesma fecundidade da estação literária veio a reproduzir-se na estação política; o protetor, entretanto, disse-lhe que era conveniente escrever menos e mais assentado. O ex-poeta não repeliu a advertência, e até lucrou com ela, produzindo alguns artigos menos desgrenhados no estilo e no pensamento. A erudição política de Luís Tinoco era nenhuma; o protetor emprestou-lhe alguns livros, que o ex-poeta aceitou com infinito prazer. Os leitores compreendem facilmente que o autor dos Goivos e Camélias não era homem que meditasse uma página de leitura; ele ia atrás das grandes frases, — sobretudo das frases sonoras — demorava-se nelas, repetia-as, ruminava-as com verdadeira delícia. O que era reflexão, observação, análise parecia-lhe árido, e ele corria depressa por elas.

Algum tempo depois houve uma eleição primária. O publicista sentiu que havia em si um eleitor, e foi dizê-lo afoitamente ao advogado. O desejo não foi mal aceito; trabalharam-se as coisas de modo que Luís Tinoco teve o gosto de ser incluído numa chapa e a surpresa de ficar batido. Batê-lo foi possível ao governo; abatê-lo, não. O ex-poeta, ainda quente do combate, traduziu em largos e floreados períodos o desprezo que lhe inspirava aquela vitória dos adversários. A esse artigo responderam os amigos do governo com um, que terminava assim: “Até onde quererá ir, com semelhante descomedimento de linguagem, o pimpolho do ex-deputado Z.?”

Luís Tinoco quase morreu de júbilo ao receber em cheio aquela descarga ministerial. A imprensa adversa não o havia tratado até então com a consideração que ele desejava. Uma ou outra vez, haviam discutido argumentos seus; mas faltava o melhor, faltava o ataque pessoal, que lhe parecia ser o batismo de fogo naquela espécie de campanha. O advogado, lendo o ataque, disse ao ex-poeta que a sua posição era idêntica à do primeiro Pitt quando o ministro Walpole lhe respondeu chamando-lhe moço em plena Câmara dos Comuns, e que era necessário repelir no mesmo tom a ofensa ministerial. Luís Tinoco ignorava até aquela data a existência de Pitt e de Walpole; achou todavia muito engenhosa a comparação das duas situações, e com habilidade e cautela perguntou ao advogado se lhe podia emprestar o discurso do orador britânico “para refrescar a memória”. O advogado não tinha o discurso, mas deu-lhe idéia dele, quanto bastou para que Luís Tinoco fosse escrever um longo artigo acerca do que era e não era pimpolho.

Entretanto, a luta eleitoral lhe descobrira um novo talento. Como fosse necessário arengar algumas vezes, fê-lo o pimpolho a grande aprazimento seu e no meio às palmas gerais. Luís Tinoco perguntou a si mesmo se lhe era lícito aspirar às honras da tribuna. A resposta foi afirmativa. Esta nova ambição era mais difícil de satisfazer; o ex-poeta o reconheceu, e armou-se de paciência para esperar.

Aqui há uma lacuna na vida de Luís Tinoco. Razões que a história não conservou levaram o jovem publicista à província natal do seu amigo e protetor, dois anos depois dos acontecimentos eleitorais. Não percamos tempo em conjecturar as causas desta viagem, nem as que ali o demoraram mais do que queria. Vamos já encontrá-lo alguns meses depois, colaborando num jornal com o mesmo ardor juvenil, de que dera tanta prova na capital. Recomendado pelo advogado aos seus amigos políticos e parentes, depressa criou Luís Tinoco um círculo de companheiros, e não tardou que assentasse em ali ficar algum tempo. O padrinho já estava morto; Luís Tinoco achava-se absolutamente sem família.

A ambição do orador não estava apagada pela satisfação do publicista; pelo contrário, uma coisa avivava a outra. A idéia de possuir duas armas, brandi-las ao mesmo tempo, ameaçar e bater com ambas os adversários, tornou-se-lhe idéia crônica, presente, inextinguível. Não era a vaidade que o levava, quero dizer, uma vaidade pueril. Luís Tinoco acreditava piamente que ele era um artigo do programa da Providência, e isso o sustinha e contentava. A sinceridade que nunca teve quando versificava os seus infortúnios entre suas palestras de rapazes, teve-a quando se enterrou a mais e mais na política. É claro que, se alguém lhe pusesse em dúvida o mérito político, feri-lo-ia do mesmo modo que os que lhe contestavam excelências literárias; mas não era só a vaidade que lhe ofendiam, era também, e muito mais, a fé — fé profunda e intolerante — que ele tinha de que o seu talento fazia parte da harmonia universal.

Luís Tinoco mandava ao Dr. Lemos na corte todos os seus escritos da província, e contava-lhe singelamente as suas novas esperanças. Um dia noticiou-lhe que a sua eleição para a Assembléia Provincial era objeto de negociações que se lhe afiguravam propícias. O correio seguinte trouxe notícia de que a candidatura de Luís Tinoco entrara na ordem dos fatos consumados.

A eleição fez-se e não deu pouco trabalho ao candidato fluminense, que à força de muita luta e muito empenho pôde ter a honra de ser incluído na lista dos vencedores. Quando lhe deram notícia da vitória, entoou a alma de Luís Tinoco um verdadeiro e solene Te Deum Laudamus. Um suspiro, o mais entranhado e desentranhado de quantos suspiros jamais soltaram homens, desafogou o coração do ex-poeta das dúvidas e incertezas de longas e cruéis semanas. Estava enfim eleito! Ia subir o primeiro degrau do Capitólio.

A noite foi mal dormida, como a da véspera da publicação do primeiro soneto, e entremeada de sonhos análogos à situação. Luís Tinoco via-se já troando na Assembléia Provincial, entre os aplausos de uns, as imprecações de outros, a inveja de quase todos, e lendo em toda a imprensa da província os mais calorosos aplausos à sua nova e original eloqüência. Vinte exórdios fez o jovem deputado para o primeiro discurso, cujo assunto seria naturalmente digno de grandes rasgos e nervosos períodos. Ele já estudava mentalmente os gestos, a atitude, todo o exterior da figura que ia honrar a sala dos representantes da província.

Muitos grandes nomes da política haviam começado no parlamento provincial. Era verossímil, era indispensável até, para que ele cumprisse o mandato imperativo do destino, que saísse dali em pouco tempo para vir transpor a porta mais ampla da reapresentação nacional. O ex-poeta ocupava já no espírito uma das cadeiras da Cadeia Velha, e remirava-se na própria pessoa e no brilhante papel que teria de desempenhar. Via já diante de si a oposição ou o ministério estatelado no chão, com quatro ou cinco daqueles golpes que ele supunha saber dar como ninguém, e as gazetas a falarem, e o povo a ocupar-se dele, e o seu nome a repercutir em todos os ângulos do império, e uma pasta a cair-lhe nas mãos, ao mesmo tempo que o bastão do comando ministerial.

Tudo isto, e muito mais imaginava o recente deputado, embrulhado nos lençóis, com a cabeça no travesseiro e o espírito a vagar por esse mundo fora, que é a coisa pior que pode acontecer a um corpo mortificado como estava o dele naquela ocasião.

Não se demorou Luís Tinoco em escrever ao Dr. Lemos, e contar-lhe as suas esperanças e o programa que tencionava observar, desde que a fortuna lhe abria mais ampla estrada na vida pública. A carta tratava longamente do efeito provável da sua primeira oração, e terminava assim:

Qualquer que seja o posto a que eu suba; qualquer, entenda bem, ainda aquele que é o primeiro do país, abaixo do imperador (e creio que irei até lá), nunca me há de esquecer que ao senhor o devo, à animação que me dispensou, à recomendação que fez de mim. Parece-me que até hoje tenho correspondido à confiança dos meus amigos; espero continuar a merecê-la.

Inauguraram-se enfim os trabalhos. Tão ansioso estava Luís Tinoco de falar que, logo nas primeiras sessões, a propósito de um projeto sobre a colocação de um chafariz, fez um discurso de duas horas em que demonstrou por A + B que a água era necessária ao homem. Mas a grande batalha foi dada na discussão do orçamento provincial. Luís Tinoco fez um longo discurso em que combateu o governo geral, o presidente, os adversários, a polícia e o despotismo. Seus gestos eram até então desconhecidos na escala da gesticulação parlamentar; na província, pelo menos, ninguém tivera nunca a satisfação de contemplar aquele sacudir de cabeça, aquele arquear de braço, aquele apontar, alçar, cair e bater com a mão direita.

O estilo também não era vulgar. Nunca se falou de receita e despesa com maior luxo de imagens e figuras. A receita foi comparada ao orvalho que as flores recolhem durante a noite, a despesa à brisa da manhã que as sacode e lhes entorna um pouco do sereno vivificante. Um bom governo é apenas brisa; o presidente atual foi declarado siroco e pampeiro. Toda a maioria protestou solenemente contra essa qualificação injuriosa, ainda que poética. Um dos secretários confessou que nunca do Rio de Janeiro lhes fora uma aura mais refrigerante.

Infelizmente os adversários não dormiam. Um deles, apenas Luís Tinoco acabou o discurso entre alguns aplausos dos seus amigos, pediu a palavra e cravou longo tempo os olhos no orador estreante. Depois sacou do bolso um maço de jornais e um folheto, concertou a garganta e disse:

— Mandaram-nos do Rio de Janeiro o nobre deputado que me precedeu nesta tribuna. Diziam que era uma ilustração fluminense, destinada a arrasar os talentos da província. Imediatamente, Sr. presidente, tratei de obter as obras do nobre deputado.

Aqui tenho eu, Sr. presidente, o Caramanchão Literário, folha redigida pelo meu adversário, e o volume dos Goivos e Camélias. Tenho lá em casa mais outras obras. Abramos os Goivos e Camélias.

O SR. LUÍS TINOCO. — O nobre deputado está fora da ordem! (Apoiados).

O orador: — Continuo, Sr. presidente; aqui tenho os Goivos e Camélias. Vejamos um goivo.

A Ela.

Quem és tu que me atormentas
Com teus prazenteiros sorrisos?
Quem és tu que me apontas
As portas dos paraísos?

Imagem do céu és tu?
És filha da divindade?
Ou vens prender em teus cabelos
A minha liberdade?

Vê V. Ex.ª, Sr. presidente, que já nesse tempo o nobre deputado era inimigo de todas as leis opressoras. A assembléia tem visto como ele trata as leis do metro.

Todo o resto do discurso foi assim. A minoria protestou, Luís Tinoco fez-se de todas as cores, e a sessão acabou em risada. No dia seguinte os jornais amigos de Luís Tinoco agradeceram ao adversário deste o triunfo que lhe proporcionou mostrando à província “uma antiga e brilhante face do talento do ilustre deputado”. Os que indecorosamente riram dos versos, foram condenados com estas poucas linhas: “Há dias um deputado governista disse que a situação era uma caravana de homens honestos e bons. É caravana, não há dúvida; vimos ontem os seus camelos”.

Nem por isso Luís Tinoco ficou mais consolado. As cartas do deputado ao Dr. Lemos começaram a escassear, até que de todo cessaram de aparecer. Decorreram assim silenciosos uns três anos, ao cabo dos quais o Dr. Lemos foi nomeado não sei para que cargo na província onde se achava Luís Tinoco. Partiu. Apenas empossado do cargo, tratou de procurar o ex-poeta, e pouco tempo gastou, recebendo logo um convite dele para ir a um estabelecimento rural onde se achava.

— Há de me chamar ingrato, não? disse Luís Tinoco, apenas viu assomar à porta de casa o Dr. Lemos. Mas não sou; contava ir vê-lo daqui a um ano; e se lhe não escrevi… Mas que tem, doutor? está espantado?

O Dr. Lemos estava efetivamente pasmado a olhar para a figura de Luís Tinoco. Era aquele o poeta dos Goivos e camélias, o eloqüente deputado, o fogoso publicista? O que ele tinha diante de si era um honrado e pacato lavrador, ar e maneiras rústicas, sem o menor vestígio das atitudes melancólicas do poeta, do gesto arrebatado do tribuno, — uma transformação, uma criatura muito outra e muito melhor.

Riram-se ambos, um da mudança, outro do espanto, pedindo o Dr. Lemos a Luís Tinoco lhe dissesse se era certo haver deixado a política, ou se aquilo eram apenas umas férias para renovar a alma.

— Tudo lhe explicarei, doutor, mas há de ser depois de ter examinado a minha casa e a minha roça, depois de lhe apresentar minha mulher e meus filhos…

— Casado?

— Há vinte meses.

— E não me disse nada!

— Ia este ano à corte e esperava surpreendê-lo… Que duas criancinhas as minhas… lindas como dois anjos. Saem à mãe, que é a flor da província. Oxalá se pareçam também com ela nas qualidades de dona de casa; que atividade! que economia!…

Feita a apresentação, beijadas as crianças, examinado tudo, Luís Tinoco declarou ao Dr. Lemos que definitivamente deixara a política.

— De vez?

— De vez.

— Mas que motivo? desgostos, naturalmente.

— Não; descobri que não era fadado para grandes destinos. Um dia leram-me na assembléia alguns versos meus. Reconheci então quanto eram pífios os tais versos; e podendo vir mais tarde a olhar com a mesma lástima e igual arrependimento para as minhas obras políticas, arrepiei carreira e deixei a vida pública. Uma noite de reflexão e nada mais.

— Pois teve ânimo?…

— Tive, meu amigo, tive ânimo de pisar terreno sólido, em vez de patinhar nas ilusões dos primeiros dias. Eu era um ridículo poeta e talvez ainda mais ridículo orador. Minha vocação era esta. Com poucos anos mais estou rico. Ande agora beber o café que nos espera e feche a boca, que as moscas andam no ar.

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Romance V ou DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Da obra: Romanceiro da Inconfidência [1953].

 

Cecília Meireles

Cecilia-Meireles-1978-696x414

 

Dorme, meu menino, dorme,

que o mundo vai se acabar.

Vieram cavalos de fogo:

são do Conde de Assumar.

Pelo Arraial de Ouro Podre,

começa  o incêndio a lavrar.

 

 

O Conde jurou no Carmo

não fazer mal a ninguém

(Vede agora pelo morro

que palavra o Conde tem!

Casas, muros, gente aflita

no fogo rolando vêm!)

 

 

D. Pedro, de uma varanda,

viu desfazer-se o arraial.

Grande vilania, Conde,

cometes para teu mal.

Mas o que aguenta as coroas

é sempre a espada brutal.

 

 

Riqueza grande da terra,

quantos por ti morrerão!

(Vede as sombras dos soldados

entre pólvora e alcatrão!

Valha-nos Santa Ifigênia!

__ e isto é ser povo cristão!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Dorme e não queiras sonhar.

Morreu Felipe dos Santos

e, por castigo exemplar,

depois de morto na forca,

mandaram-no esquartejar!

 

 

Cavalos a que o prenderam,

estremeciam de dó,

por arrastarem seu corpo

ensanguentado, no pó.

Há multidão para os vivos:

Porém quem morre vai só.

 

 

Dentro do tempo há mais tempo,

e, na roca da ambição,

vai se preparando a teia

dos castigos que virão:

há mais forcas, mas suplícios

para os netos da traição.

 

 

Embaixo e em cima da terra,

o ouro um dia vai secar.

Toda vez que um justo grita,

um carrasco o vem calar.

Quem não presta, fica vivo;

quem é bom, mandam matar.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Fogo vai, fumaça vem…

Um vento de cinzas negras

levou tudo para além…

Dizem que o conde se ria!

Mas quem ri chora também.

 

 

Quando um dia fores grande

e passares por ali,

dirás: “Morro da Queimada,

como foste, nunca vi;

mas, só de te ver agora,

ponho-me a chorar por ti:

 

 

por tuas casas caídas,

pelos teus negros quintais,

pelos corações queimados

em labaredas fatais,

__ por essa cobiça de ouro

Que ardeu nas minas gerais.”

 

 

Foi numa noite medonha,

numa noite sem perdão.

Dissera o Conde: “Estais livres”.

E deu ordem de prisão.

Isso, Dom Pedro de Almeida,

é o que faz qualquer vilão.

 

 

Dorme, meu menino, dorme…

Que fumo subiu pelo ar!

As ruas se misturaram,

tudo perdeu seu lugar.

Quem vos deu poder tamanho,

Senhor Conde de Assumar?

 

 

Jurisdição para tanto

não tinha, Senhor, bem sei…

(Vede os pequenos tiranos

que mandam mais do que o Rei!

Onde a fonte do ouro corre,

apodrece a flor da Lei!)

 

 

Dorme, meu menino, dorme

__ que Deus te ensine a lição

dos que sofrem neste mundo

violência e perseguição.

Morreu Felipe dos Santos:

outros, porém, nascerão.

 

 

Não há Conde, não há forca,

não há coroa real

mais seguros que estas casas,

que estas pedras do arraial,

deste arraial do Ouro Podre

Que foi de Mestre Pascoal.

 

 

__________________
Notas
Ouro Podre: arraial, talvez o mais próspero de Vila Rica.
Conde de Assumar: título criado pelo então príncipe regente D. Pedro II, O Pacífico (1648-1706). Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos recebeu tal título; D. Pedro de Almeida também foi 3º governador e capitão-mor da capitania de São Paulo e Minas do Ouro em Mariana Minas Gerais, no Brasil.
Assumar: Freguesia portuguesa do concelho de Monforte na região do Alentejo.
Felipe dos Santos: tropeiro e fazendeiro que liderou a Revolta de Vila Rica (1720) contra o Quinto.
Mestre Pascoal: Pascoal da Silva Guimarães, caixeiro, mascate, explorador e pesquisador que levou para Vila Rica método de mineração da Nova Espanha.
Fonte secundária da imagem: http://cidademuseu.blogspot.com.br/2008/10/o-surgimento-da-vila-rica.html; https://www.revistaprosaversoearte.com/cecilia-meireles-poemas/

A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

jose-alencar-romancista-brasileiro

Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

 

A véspera de Natal

A véspera de Natal

José de Alencar, ao correr da pena, 24/dez./1854.

Jose-de-Alencar-capa-site

Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa que não há nada tão poético como esta legenda das Mil e Uma noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da Igreja, nesses símbolos que comemoram a poética tradição do nascimento de um menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia-noite, os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é, porém, na cidade que se pode gozar deste idílio suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado; mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo ao longe o tanger alegre de um sinozinho de aldeia, que vem quebrar a calada da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida, distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade, vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não vades à missa do galo nas igrejas da cidade. Escolhei alguma capelinha dos arrabaldes, à beira do mar, como a de São Cristóvão, cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada nalguma eminência, como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadida que não aspirais aos foros da alta fashion, porque caso deveis ficar na cidade e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma boa constipação na saída.

A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

                              Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

jose-alencar-romancista-brasileiro

A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Simoun:   talvez de Simão, o mágico, personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais impusesse as mãos (At 8.18-24). 
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

 

Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta_imagem_2-1

Machado de Assis. ___ Respondo á tua carta. Pouco preciso dizer-te. Fazes bem em dar ao prelo os teus primeiros ensaios dramaticos. Fazes bem, porque essa publicação envolve uma promessa e acarreta sobre ti uma reponsabilidade para com o publico. E o publico tem o direito de ser exigente comtigo. És moço, e foste dotado pela Providencia com um bello talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéa é uma força. Inoculal-a no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral. O homem que se civiliza, christianisa-se. Quem se illustra, edifica-se. Porque a luz que nos esclarece a razão é a que nos alumia a consciencia. Quem aspira a ser grande, não póde deixar de aspirar a ser bom. A virtude é a primeira grandeza d’este mundo. O grande homem é o homem de bem. Repito, pois, n’essa obra de cultivo litterario ha uma obra de edificação moral. Das muitas e variadas formas litterarias que existem e que se prestam ao conseguimento d’esse fim, escolheste a fórma dramatica. Acertaste. O drama é a fórma mais popular, a que mais recursos possue para actuar sobre o espírito, a que mais facilmente o comove e exalta; em resumo, a que tem meios mais poderosos para influir sobre seu coração. ___ Quando assim me exprimo, é claro que me refiro ás tuas comedias, acceitando-as como ellas devem ser aceitas por mim e por todos, isto é, como um ensaio, como uma gymnastica de estylo. ___ A minha franqueza e a lealdade que devo á estima que me confessas obrigam-me a dizer-te em publico o que já te disse em particular. As tuas duas comedias, modeladas ao gosto dos proverbios francezes, não revelam nada mais do que a maravilhosa aptidão do teu espirito, a profusa riqueza do teu estylo. Não inspiram nada mais do que sympathia e consideração por um talento que se amaneira a todas as fórmas da cancepção. ___ Como lhes falta a idéa, falta-lhes a base. São belas porque são bem escriptas. São valiosas, como artefactos litterarios, mas até onde a minha vaidosa presumpção critica póde ser tolerada, devo declarar-te que ellas são frias e insensiveis, como todo sujeito sem alma. ___ Debaixo d’este ponto de vista, respondendo a uma interrogação directa que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresental-as ao publico sobre a rampa da scena do que ha em offerecel-as á leitura calma e reflectida. O que no theatro podia servir de obstaculo á apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comedias são para serem lidas e não representadas. Como ellas são um brinco do espirito, podem distrahir o espirito. Como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguem. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom criterio comsigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os auctores. O que desejo, o que te peço, é que apresentes n’esse mesmo genero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te á grande pintura. ___ Posso garantir-te que conquistarás applausos mais convencidos e mais duradouros. ___ Em todo o caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te á critica de todos, para que possas dirigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretencioso, colherás o fructo são da tua modestia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em sympathia toda a consideração que me impõe a tua joven e vigorosa intelligencia. ___ Teu ___ Q. Bocayuva.

 

W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, São Paulo e Pôrto Alegre ___ 1947 ____ .

Correspondência: de Machado de Assis A Quintino Bocayuva

Correspondência:

 

de Machado de Assis a Quintino Bocayuva

Quintino e machado-1

Meu amigo. ___ Vou publicar as minhas duas comedias de estréa (1); e não quero fazel-o sem o conselho de tua competência. ___ Já uma crítica benevola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. ___ Sou immensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. ___ Mas o que recebeu na scena o baptismo do applauso póde sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? ___ É para a solução d’estas duvidas que recorro á sua autoridade litteraria. ___ O juízo da imprensa via n’estas duas comedias__ simples tentativas de autor timido e receoso. Se a minha affirmação  não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo n’esses trabalhos. Tenho o theatro por cousa mais séria e as minhas forças por cousa muito insufficiente; penso que as qualidades necessarias ao auctor dramatico desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho; cuido que é melhor tactear para achar; é o que procurei e procuro fazer. ___ Caminhar d’estes simples grupos de scenas á comedia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento pratico das condições do genero ___ eis uma ambição própria de animo juvenil e que eu tenho a immodestia de confessar. __ E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estadio que ha percorrer para alcançal-a. E mais. Tão difícil me parece este genero litterario que, sob as difficuldades apparentes, se me afigura que outras haverá, menos superaveis e tão subtis, que ainda as não posso ver. ___Até onde vae a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que espero saber de ti. ___ E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excellentes: razão de estima litteraria e razão de estima pessoal. Em respeito á tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. ___ O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo e eu docil; terás ainda por isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrivel sentença de um escriptor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles um regret? ___ Teu amigo e colega __ Machado de Assis.


(1) O caminho da porta e O Protocollo, comédias publicadas em 1863.

W.M Jackson Inc. Editores, Porto Alegre (1947).

 

“EU SOU BRASILEIRO”- POESIA

“EU SOU BRASILEIRO” —poesia

Osmar Barbosa, poeta e professor

Brasil_florão-da-américa

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

__ Sim, eu sou brasileiro!

Glossário:

Tejo: famoso rio da Península Ibérica.

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do romance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.


Osmar Barbosa —  Poeta, escritor, tradutor e professor, nascido em vitória, no Espírito Santo, em 1915. Lecionou no Rio de Janeiro, na década de setenta. Colaborou em vários periódicos católicos sob o pseudônimo de Frei Solitário. Publicou numerosas obras sobre ensino e literatura, entre as quais História da Literatura Brasileira, Antologia da Língua Portuguesa, A arte de falar em público, Dicionário de Verbos Franceses, Dicionário de Sinônimos Comparados; Bilac: tempo e poesia; Colheita matinal, Para as mãos de meu amor.

 

Uma noite nos bares

Uma noite nos bares

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Nessas horas que sinto falta dos chateados que não me ouviam. Aqueles que em meio de nós viviam reclamando do tal consumismo. Não há mais sentido para essas reclamações, pois sumiram os empregos, a renda, o crédito e o dinheiro em espécie. E a praça está pobre também em outros sentidos.

Não há mais mesas floridas de garrafas grandes onde os bebedores compartilham com copos lagoinha (americanos). Agora cada um com sua garrafinha individual. Ninguém confia em ninguém para dividir a conta. Ao perguntarmos por que não se divide mais as garrafas grandes, a desculpa vem aos farrapos: “ a garrafa grande esquenta na mesa”. Ora, esquenta porque não se oferece um copo ao próximo. Se não há oferta, não há partilha; se não há partilha, não há conversa. As crises silenciam os homens.

Os serrotes de longe já são rejeitados. E os pães duros que não doam nem sequer um cigarro se apoiam na impaciência. Aliás, é muito valiosa a paciência dos injustiçados que perderam sua felicidade por entre as falsas ilusões políticas e econômicas.

Mas aqui e acolá pipocam uma e outra discussão calorosa da noite. Divergências sobre noticiários e preferências, desentendimentos, velhas rixas de paixões clubísticas, incompreensões, denúncias de acusações, acusações de denúncias. As comidas e os tira-gostos, com ingredientes mais em conta, vão convencendo os paladares já esquecidos de tempos melhores. As mãos carinhosas que preparam as refeições e o sorriso alegre atendendo sem nenhuma depreciação. A esperança ainda está viva na boa intenção da capacidade humana.

Triste é ver a rapaziada das antigas como animais noturnos, revirando lixeiras, implorantes pedintes do comércio de narcóticos; espiritualmente em guerra com Deus e suas famílias. “Como vai seu pai que há muito não vejo no ônibus da integração das oito e quinze? ”, eu pergunto. O filho, drogado, ignora a pergunta e vem logo me contar a vantagem dum suposto padrinho malvado e assassino cruel. É dependente não só químico como existencial, coitado.

Que doces bárbaros libertários e sensíveis poderiam prever uma situação dessa?

bares

Raimundo de Farias Brito-Brasileiro filosófico

Pensador singular brasileiro, Farias Brito propôs uma filosofia do Espírito não reducionista sistematizada em seu livro O Mundo Interior.

via O mundo interior de Farias Brito — Ensaios e Notas

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida- Crítica

 

Internautas “influenciadores”: caminhões de terra remexida

 Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

relogio-de-bolso_gohete

Já são muitos os analistas e comentaristas sobre tudo. Até gosto de ouvi-los. E depois fico pensando, dou uma volta na vida lá fora e venho aqui escrever.

São verdadeiros caminhões de conhecimentos que vão sendo despejados nos buracos da rede mundial de computadores. Quem não calcula o desaterro se complica no aterro. Se não delimita o espaço, o mundo nos parece mais vasto do que é.

E só podemos abraçar um amor de cada vez. Mas as paixões são tantas que o conteúdo escapa ao contentor e se precipita no desperdício. Derramam-se as opiniões, explicações, curiosidades, exposições inúteis e o pior de tudo: as… fa-ci-li-ta-ções! Quanto mais se facilita menos se compreende e menos gôsto tem o aprendiz. Os facilitadores escondem as fontes saudáveis, os tratados, os métodos, as didáticas e os manuais consagrados. Fecham as possibilidades de arranjar a razão, o coração e o espírito de quem busca. O máximo que dão é uma referência aqui e outra ali. Exaltam o acúmulo de experiências e vivências, coisa que tem lá sua importância, mas não é nada sem o essencial.

Que esconder os tratados, os métodos e desestimular a disciplina sempre foram táticas dos governos e empresas de instrução e treinamento todos nós sabemos, mas logo nossos internautas “influenciadores” ___ esses que sonham sociedade melhor ___ negligenciarem o fato e ainda contribuírem para  esse mal!?

O aterro é útil para nivelar os espaços e aproveitar a superfície. Mas a edificação se sustenta pela estrutura de fundação cravada na terra boa e natural. A fundação é na casa o que é a raiz na árvore. A casa forte proporciona lar saudável e oferece à família e à comunidade bons filhos. A isso corresponde a raiz robusta e a árvore firme com suas belas flores e bons frutos.

Para o estudante, a “terra natural ou pouco remexida” sãos as fontes primevas, os tratados, os métodos, os manuais úteis, os clássicos consagrados. Essa argamassa duradoura e bem dimensionada, esses moldes elaborados pelos primeiros homens que levantaram a civilização não podem ser substituídos por avalanches de teses, monografias, biografias, ensaios, artigos, citações intertextuais, nomes famosos, opiniões emotivas e conteúdos gerenciados por ideólogos a serviço de bestas poderosas…

Será justo esconder nossos tesouros em nome da fama pessoal, da exposição contínua ou em nome da miséria que a World Wide Webe  e a Google remuneram? Façamos essa pergunta aos internautas empenhados em contribuir para nossa inteligência.

contato@pingodeouvido.com.br

Mulheres Únicas – Poesia

 Mulheres Únicas

 lopes al’Cançado de la Rocha, o Cristiano

imagem-mulher

Numa só mulher estão todas as outras
Numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
Ainda que escondidos
Têm beleza sertaneja, meiguice morena
Clara maciez, negritude amorosa
Assentam-se na escadaria da Igreja
Debruçam-se nas janelas
Enamoram-se nos bares
Passeiam pelos clubes
Encontram-se nas cavalgadas
Desfilam-se nos shoppings
Amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
Percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
Nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
Nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
Um dia, sua mulher esteve numa canção
Numa história não sua, numa infância platônica
Todas as mulheres estarão num só romance
Queimam numa só paixão, numa só saudade
Gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

Ensinar-nos o que é ser mulher,

Despertando-nos adolescentes paixões

Elas são únicas em si e sempre as mesmas

Dividem-se quando só

Multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
Mulatas de alisados loiros
Ruivas com tingidos castanhos
Cafuzas de trançados negros
Estéreis e felizes; férteis e entristecidas
Sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
Mulheres policiais, guardas e sargentos
Mulheres soldados rígidos
E delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

Um mesmo desespero quando em desamparo

Sem um irmão, sem um filho, sem um pai

Sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
A velha virgem num leito de morte
Sonhando-se no altar à espera do noivo
Cortam nas maçãs de seu rosto
Duas lágrimas e explodem na cama
Como se arrebentam no mundo
Estrelas desprendidas do Céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
Pechinchando e fazendo compras
Com seus corpos __ velas de cêra
Cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e Religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
Na estação do trem e do Brt
São despejadas aos milhares:
Brotos e botões
Expansivas e acanhadas
Murchas e desabrochadas
Verdes e “de vez”
Maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

De rancor e arrependimento

Confundiu um caso passageiro

C’o  homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
De corações aos vômitos
Pelo ópio das ideologias
Invertem Romeus em Rômulos*
E sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

Com diferentes almas

Corpos e espíritos;

Com parecidas origens

E semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
Por uma única mulher,
Já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única
Não vale à pena trocá-la por Outra
E nem às outras é justo enganá-las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

       ***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

Pompeu e a cascavel

Pompeu e a cascavel Por José Estanislau

 

Fonte: Pompeu e a cascavel

Dicas para boa interpretação textual

SUGESTÕES PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Imagem_fontes_texto 001

Professor Adolfo Murilo, Santa Luzia-MG (1992).

  1. Considerar o texto como um ponto básico para as respostas, mas jamais uma fonte de solução para as questões; 
  2. usar da prática de produção de textos , da leitura de bons autores , boas obras e incrementar, bem como atualizar o vocabulário;
  3. Saber que todo texto retrata uma realidade por mais remota que seja;
  4. ter conhecimento de que uma interpretação é sempre trabalhosa, pois esta exige muito raciocínio por parte do leitor;
  5. procurar entender bem as questões, depois resolvê-las;
  6. evitar a extrapolação, pois esta se constitui em um grande erro de interpretação;
  7. não confundir reprodução e transcrição de texto com interpretação;
  8. ler o texto quantas vezes necessárias, ainda que seja para responder uma única questão ou resposta;
  9. ter consciência que responder com as próprias palavras nem sempre se alcança o objetivo desejado;
  10. não confundir resposta pessoal com resposta interpretativa, pois aquela representa uma simples opinião e esta uma solução abrangente;
  11. ter conhecimento de leitura vertical e leitura horizontal, pois uma tende para o concreto dito, a outra para o abstrato e entredito;
  12. ser minucioso e calmo ao responder qualquer pergunta ou questão, pois de forma precipitada, jamais alcançaremos o objetivo desejado;
  13. ter conhecimento da função dos conectivos quando as perguntas ou questões os exigirem ( expressões de sentido afirmativo, hipotético, adversativo etc);
  14. saber identificar e diferenciar os tipos de texto quanto a seu conteúdo: filosófico, científico, literário, jornalístico, didático, etc;
  15. identificar o tom da fala do autor (humor, seriedade, ironia ), bem como a linguagem por ele escolhida ( coloquial, formal), pois estas influenciam diretamente nas intenções e nos sentidos de suas colocações;
  16. Estar atento às intenções do autor (informar, instruir, conscientizar, provocar, criticar) e, se possível, correlacioná-las aos aspectos de sua formação e origem;
  17. ser claro ao redigir respostas, pois isto facilita o entendimento e a correção por parte do avaliador;
  18. saber que uma resposta subjetiva nada mais é do que a busca de uma resposta objetiva dentre quatro ou cinco proposições;
  19. ter aspecto lógico como fator primordial, levando-se em consideração outros aspectos tais como: psicológicos, sociológicos, econômico-sociais etc;
  20. ter certeza de que a tarefa de interpretar é bastante individual, mas o resultado tende para um ponto de convergência que é a resposta lógica de toda questão em evidência;
  21. saber que a interpretação é o resultado do comportamento e atitudes do ser humano, em confronto com seu semelhante, diante das circunstâncias que os rodeiam;
  22. o nível de interpretação de um  grupo social deve condizer com seu grau de instrução;
  23. ter consciência de que saber interpretar é desenvolver um processo muito importante para o crescimento intelectual e espiritual de cada um.

Memórias sobre crises [lambujas

Memórias sobre crises [lambujas

5 CRUZEIRO

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Naquela manhã o bairro acordou cedo e calado. Ouvia-se o canto dos pardais novamente. Nenhum som musical saía pelas janelas. O silêncio e o diálogo contido, geralmente, sinalizam as crises econômicas dum país, a restrição de crédito e, conseqüentemente, de consumo.

Na avenida rufavam pouquíssimos motores de automóveis e motocicletas: o preço do combustível foi aos céus.

Eram tristes até o arrulhar dos pombos, pois o dono da Mercearia 36 passou também a regrar-lhes o milho. Os alcoólatras – de pernas inchadas e feridas nas mucosas, sem reflexos e decadentes – que amanheciam à porta do comércio exclamavam: “acabou o milho, acabou a pipoca”. A sobrevivência já não mais festejava.

A tradição doméstica de bater o bife passou a ser evitada, na época, também para que o vizinho mais necessitado não ouvisse o sinal da carne. A comida tão pouca não se pode dividir entre muitos. Não é tão triste o momento, no entanto, para os que costumam aparentar o luxo e padecer o bucho. Esses, que se fingem de seguros, se fazem de mal-entendidos perante as crises.

Pode-se estimular a modificação dos critérios de bem-estar de uma população ou comunidade. É isso, exatamente, o que fazem os controladores dos meios de comunicação coletiva e os agentes revolucionários, talvez a mando e a pedido de autoridades poderosas. Alguns atuam nesse sentido inocentemente, em busca de fama e reconhecimento.

Lê-se no jornal local (O grito) a seguinte chamada: “…como se alimentar em tempos de crise”; e no caderno Pensar do Jornal Estado de Minas “…pratos ecologicamente corretos e coletivos”. Neste último trata-se dum anúncio de dois livros, espécie de incentivo a “práticas alternativas”: duas moças saem de bicicletas pela cidade à procura de ervas , verduras, plantas comestíveis que brotam naturalmente nos terrenos e lotes baldios. Quem não vê nisso traços de precariedade e escassez? Na Venezuela já se usam o modismo vegetariano para esconder a calamidade e a fome.

Observo que o pobre de ontem já se acostuma com a miséria de hoje; assim o faz o bem-de-vida com a pobreza; e por sua vez, o rico já aceita a condição mediana. Um homem outro dia ajoelhou humilhantemente no corredor do ônibus para disputar as tão concorridas esmolas.

Trago na memória essas tais condições e, além, é claro, de consultar livros, revistas , jornais, sites confiáveis e gravar as boas conversas “sobre aqueles tempos de crises”.

(…)

Só agora sai de minha memória para o papel os divertidos sábados da feirinha da Av. Joaquim Lourenço de Oliveira, onde fixavam barracas à altura do número 518, em frente da E.E Jacinta Enéas Orzil, em meados dos anos 80. O dono e líder do negócio era o Sr. Tião, homem alto, de bigode, prestativo. E ele foi sempre solidário à comunidade. No início, por permitir que catássemos, rua abaixo, as laranjas que acidentalmente caíam ao serem despejadas dos caixotes para a bancada. Sentíamos úteis. Depois, foi generoso ao nos presentear com as frutas feias rejeitadas pela clientela. Meu amigo Sérgio perguntava convidando-nos: “Vão lá na feirinha esquematizar lambujas?” Lambuja era, inteligentemente, o apelido dado por ele às laranjas aproveitáveis, com pequenas partes apodrecidas. O Sr. Tião foi mais bondoso ainda quando, muito depois, com já anos de feira, passou a dar serviço para alguns dos lambujeiros dispostos a carregar caixas e também aos mais educados para ajudá-lo atender os fregueses. Esses amigos, que passaram a trabalhar na feira, foram ainda mais vitaminados e fortificados com verduras, frutas, ovos, leites e carnes.

Cristiano Lopes Cançado de la Rocha, escritor e compositor. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ) e atualmente trabalha em dois projetos artísticos: finalização de seu 2º álbum de canções e manutenção desse site.

contato@pingodeouvido.com.br