Está muito difícil, de verdade, assistir a tudo isso.
O momento é histórico e cercado de dúvidas.
Com o olhar humano, num momento de distração me pergunto, por quê?
A razão humana nada sabe, somente Deus!
Não devemos nos consumir com as preocupações, embora seja quase impossível.
O que é estranho aos nossos olhos, o que nos causa desânimo e aflição, possui explicações sobrenaturais que muitas vezes não nos alcançam, somos muito limitados.
Ao homem foi dado todas as maravilhas, e esse, mesmo possuidor de tudo que há de mais belo e farto, se ocupa em insistir no engano e no erro.
Numa manhã dessas, acho que até para minha defesa, a luz encheu o ambiente onde eu estava e a minha consciência foi chamada a observar.
Deus é pai de amor infinito. Não descuida de suas ovelhas. Quando vê que estão se perdendo do rebanho, lança logo um feixe de luz e as trazem de volta ao campo seguro.
Confesso esse cuidado é muito sutil, quase imperceptível, temos de estar muito atentos.
Repentinamente, em meio a todas essas divagações, o Espírito Santo me invade, e eu, da minha cadeira de balanço assisto a um espetáculo que fora um dia sonhado.
O desejo, sempre passou como um vento no meu coração, nem esquentava lugar.
Na verdade eram pequenos caprichos de uma pessoa com poucos sonhos terrenos.
As prioridades sempre foram a saúde de todos, o trabalho providencial, a paz e alguma alegria.
Surpreendentemente Ele resolveu agir.
Foi tudo muito inesperado!
De repente foram acontecendo as Graças.
Hoje relembrando a sequência dos acontecimentos fui tomada por um sopro de emoção.
Me percebi de frente para um jardim.
A uns três metros, contemplei uma mini jabuticabeira, coisa mais linda de se ver!
Sempre foi desejada em razão das belezas vividas na infância.
Não há árvore mais bela que uma dessa coberta de frutos.
Logo ao lado uma bouganville, sorrindo e até tombada de flores.
Dia desses estava esquelética e desfalecida.
Do nada amanheceu carregada de flores com pétalas na cor bonina e com outras florzinhas brancas ao centro.
A textura suave ao toque imita um tecido de seda pura.
Nesta hora percebi o diálogo de Deus comigo.
Sabedor da tristeza que me habitava em razão das perdas humanas e de animais inocentes, decorrentes do recente desastre ocorrido, resolveu me consolar com o choque da beleza do meu pequeno jardim.
Em meio a tantos sobressaltos de notícias que nos tiram o sono, Ele vem pela manhã e nos mostra através da exuberância da natureza, que está entre nós e que ainda há muita esperança para ser vivida.
Afora as dádivas que me foram entregues por meio dos sinais já descritos, tenho a sorte de viver outras grandes maravilhas: Tenho pais e irmãos vivos, sou casada com uma pessoa mais que especial, num casamento muito feliz e próspero, vivo cercada de cuidados e afetos dos meus caríssimos e Ele ainda me dá saúde para usufruir de tudo isso.
Realmente não há palavras para descrever o amor divino, é algo inexplicável!
Gratidão a Deus sempre, e que ele nos dê forças, nos ajude e nos console para o que ainda está por vir!
Inspirado e escrito por Rita de Cácia Lacerda Gomes na época da grande enchente do Rio Grande do Sul
JOÃO, mais um FILHO de nossa orgulhosa BAHIA de SÃO SALVADOR
Entrevista
por Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano
Em certas rodas aqui por Minas, algumas vozes têm dito que entre os nascidos na Bahia, nenhum outro poeta recente tem se destacado quanto João Fernandes Filho. Os menores no Reino da Poesia conseguem facilmente dele uma entrevista especial, devido sua generosidade. Esse é o nosso caso.
João, conte-nos um pouco da sua infância, sua relação com a família e comunidade, sua região, sua terrinha. O escritor brotou na alma muito cedo, como nós leitores seus fomos informados. Queremos saber mais disso.
Minha infância se passou em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, e tive o amor, a proteção e a liberdade necessárias dos meus pais para viver uma meninice pobre, mas riquíssima em aventuras – brincar na chuva, brincar de roda, ouvir histórias na noite em frente à casa etc. –, passar as férias na casa do meu avô materno, em cima da serra, a luz era de fifó, e a água no pote buscada na fonte. Na rua Santa Luzia, no Bairro São Miguel, em Bom Jesus da Lapa, não havia calçamento, e, após as chuvas, encontrávamos pequenos cágados nas poças de lama. A mata era próxima, o rio era próximo. Meus pais – seu João Galego e dona Dilza – cuidaram de nós, meus irmãos e eu, com raro amor e responsabilidade. Agora, por meio de sua pergunta, revendo tudo isso, percebo que tive uma infância lendária por ser simplesmente isso – uma infância comum de menino do interior do Brasil na década de 1980.
Quem é João Filho? De onde veio, onde está e para onde pretende ir?
Sou um pecador. Vim da lama, estou tentando ser limpo pelo Cristo; o problema, é claro, não é Ele, mas eu que atrapalho. E, pela misericórdia d’Ele, tenho a esperança de morar nem que seja no último casebre da periferia do Céu. Em termos pedestres, João Filho é poeta e professor, doutorando em literatura portuguesa na USP.
Como foi a experiência rebelde de escrever letra de canções punk? Como está o letrista João hoje? O que tem ouvido? Qual o conselho que João daria aos letristas iniciantes?
Uma das minhas primeiras experiências literárias foi uma letra que escrevi com um amigo. Se não me engano, acho que com 13, 14 anos. De lá para cá, eu escrevi letras para os ritmos e gêneros mais diferentes, do punk como você indicou até o famigerado arrocha.
Hoje, os parceiros musicais mais constantes são compositores da linha do bom cancioneiro tupiniquim.
Ouço muita coisa. Para ficarmos em dois exemplos do momento: o primeiro disco do Clube da Esquina e Arvo Part.
O conselho é simples, e, acredito, todos os jovens letristas saibam: na letra prevalece a música, mas não deixem jamais de escrever letras belas, boas e verdadeiras.
Essa predileção pelo teatro lido ao assistido, queremos saber.
Na verdade, é uma deficiência minha. Tive, claro, contato com a área, escrevi uma peça – Auto do São Francisco –, mas não sou do métier do teatro. Para mim funciona mais ler a peça do que assisti-la no palco, o que é um contrassenso porque o teatro acontece no palco. Se as declamações forçadas de um poema me aborrecem, assim também as encenações antinaturais (eu sei que o termo é perigoso ao se falar de teatro) me entendiam sobremaneira.
Genética. Processo de criação. “Faço tudo no facão, depois tomo o estilete”. A fase artesanal ajuda a alma mesmo? Há quem considere que uma coisa é desligada da outra. Explique o seu caso.
Na poesia, eu tento lapidar no momento mesmo da primeira escrita. A cada verso procuro a melhor construção sonora e imagética dentro de um contexto que faça sentido. Claro, que, depois, relendo antes de publicar em livro, eu refaço alguns versos. Tenho um arquivo imenso com poemas que não deram certo, ou que não gostei, ou que ficaram pela metade etc. Aproveito muito desse arquivo. Guardo também imagens, e até mesmo palavras, surgidas ao longo dos anos, e que, algum dia, poderei usar num verso.
Na prosa é que faço anotações de ideias, cenas, diálogos para somente depois rearrumar, reescrever etc. Ao escrever prosa sempre refaço depois.
Forjar manifestos, escolas, movimentos hoje em dia soa cafona por quê? Para quem?
Não sei se soa cafona, mas os grupos são necessários. Escritores, de alguma maneira, sempre encontram sua “turma” estética mesmo que ideologicamente não se coadunem. Situação cada vez mais rara porque as ideologias têm prevalecido acima de todas as relações humanas. O que é uma coisa miserável. Mas, respondendo sua pergunta: cada poeta, consciente do seu ofício, possui uma cosmovisão, o que quer dizer, em outras palavras, traz escondido um manifesto, uma estética. No atual cenário brasileiro, e vejo também em outros países, a dimensão estética é a mais desprezada nos mais variados gêneros artísticos.
Proseie mais do poeta-balconista, comerciante, atendente, distribuidor de congêneres. Em verso, esse tema econômico e vital interessou bastante ao entrevistador, que defende a Rerum Novarum, o distributivismo justo. “Suum cuique tribuere” 《Dê a cada um o que é seu》》. Uma das unidades da Justiça ensinada por Ulpiano. O poeta Antônio Augusto de Mello Cançado, incansavelmente, reensina-nos até hoje aqui em Minas. (?)
A Venda do meu pai, João Galego, é um dos meus lugares míticos. Fui criado dentro da Venda (sempre com inicial maiúscula). Quando me perguntam das minhas influências literárias, eu uso a figura do poeta-balconista que sempre rouba um pouco de cada freguês-escritor que aparece no balcão da Venda. Escrevi muitos poemas que falam ou fazem referência à Venda e ao seu universo, mas há um que não posso ler em público porque não seguro as lágrimas, é o “A Venda por dentro”, do livro Auto da Romaria. O poeta-balconista, em outra perspectiva, é também um atendente que procura servir caridosamente os seus leitores. Um leitor é o maior presente para um poeta. Ninguém é obrigado a ler o que escrevemos, a comprar o livro que publicamos; devemos conquistar esse leitor com uma escrita que contenha algo daqueles versos de don Antonio Machado: “umas poucas palavras verdadeiras.”
Colecionamos muita poesia dos anos 60, 70, 80, 90 e da dita “Poesia da Era-Lula”. Nesta última, gargalos das anteriores, a meu ver, predominou as forças demasiadamente sensitivas, engajadas no coletivismo autoritário, utopia do socialismo-XXI. Em seu livro-balancete “Dez anos que encolheram o mundo (2001-2010)”, Piza aponta a migração e o exílio como temas repisados na prosa. Incrível como as 《《editorias enviesadas e dirigidas 》》de literatura antecipam os efeitos e consequências das sementes ideológicas. Hoje vemos os venezuelanos, os nossos exilados políticos, as perseguições e as injustiças.Na poesia (2001-2010), Daniel destaca Ferreira Gullar e Fabrício Carpinejar apenas. Qual sua opinião sobre esse balanço do jornalista?
Não li o livro do Daniel Piza. Mas concordo com o resumo que você faz. Direi o óbvio (cada vez mais é vital ser dito): literatura é a arte da linguagem trabalhada artisticamente. É preciso distinguir que linguagem nesse sentido não é beletrismo, e nem o seu contrário – o desleixo. É necessário equilibrar três pilares muito bem compilados por Bruno Tolentino: abrangência, profundidade e feeling (sentimento e sinceridade). Sustentados por esses três pilares a linguagem engendra a forma. A forma é a alma da obra (forma e não fôrma). Sem isso não há obra de arte em gênero algum. A melhor poesia moderna ou pós-moderna não fugiu desse caminho.
Não concordo com Daniel Piza no destaque de dois poetas apenas nesse período de 2001 a 2010. Entre os mais velhos, a grupo de 1965 de Pernambuco estava atuando e com renome nacional – Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly etc. Entre os mais jovens – Érico Nogueira, Astier Basílio, Mariana Ianelli etc. Cito apenas alguns nomes de destaque nacional.
Daniel Piza incomodou muitos “coletivildos tirânicos”, pelo que sei. Mas nesse caso somos dois na discordância. Serão procurados e lidos seus autores citados. Vamos falar um pouco de crítica literária. Em 2005 o Sr. Wilson Martins disse no Caderno Idéias do Jornal do Brasil: “só sou conservador na medida que a literatura é conservadora. Não se pode revolucionar a literatura todos os dias.” Comente, por favor.
Grande Wilson Martins! Em alguns pontos de vista (por sinal, é o nome da coleção em vários volumes de sua crítica que abarca de 1954 até 2000), eu não concordo com ele, um exemplo entre tantos: sua leitura historicista da obra de Cecília Meireles. Contudo, Wilson Martins foi um gigante da crítica brasileira e não apenas literária. Estou de acordo com o comentário que você destaca do escritor paranaense. Revolucionar a literatura todos os dias é tentar recriar a roda, esquecer a imensa história da literatura que nos antecede, de Homero para cá são mais de três mil anos de escrita literária! Há que se ter um mínimo de noção e humildade com esse quase infindável acervo. O surgimento de um James Joyce, de um Guimarães Rosa (cito os grandes revolucionários) é o ápice de um período que, por acúmulo e verticalização, radicalizou os experimentos na arte romanesca. E como disse o grande mineiro é no “mais mesmo da mesmice que vem a novidade.” Sei, claro, as formas literárias caducam, precisam ser renovadas, mas, antes, é a sensibilidade nova que pede formas novas, novos caminhos. E sensibilidade não é feito a moda que muda toda semana. Desse modo, as tais revoluções da literatura apregoadas todos os anos não passam de repetições mecânicas. Quem revoluciona o tempo todo não percebe paradoxalmente a imobilidade cadavérica do seu estado.
O escritor Douglas Lobo frisa sobre “a ingênua expectativa” do Afrânio Coutinho a respeito da atividade crítica migrar dos periódicos para as universidades; já outros autores se entusiasmaram pelo fato da crítica migrar das universidades para as redes de internet. No primeiro caso, teríamos um aperfeiçoamento do gênero; no segundo, por sua vez, ganharíamos mais liberdade e acessibilidade. Como o senhor vê esses fenômenos relacionados a suportes, ambientes, jargões etc.?
Vale deixar registrado aqui um livro que mapeia essa mudança – da chamada crítica impressionista (termo pejorativo cunhado por Afrânio Coutinho) para a crítica universitária – Crítica literária em busca do tempo perdido? De João Cezar de Castro Rocha.
Outro registro que acho necessário: é um abuso tratar como diletantes críticos da excelência de Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sergio Milliet, Lúcia Miguel Pereira, Augusto Meyer, Eugênio Gomes, Brito Broca, Fausto Nilo etc. Pois foi isso que fez uma boa parte da crítica universitária. Esta, no entanto, não pode ser ignorada, porque há material de altíssimo nível.
Com a mudança do suporte deveríamos ganhar mais espaço e liberdade. Por exemplo: na internet o espaço e a liberdade são maiores, e quem desejar é só escrever, mas a qualidade é muitas vezes duvidosa. O jargão, não obstante, é inescapável. É assim em todas as áreas, não é mesmo? Claro que há exageros. O suporte em si mesmo é algo bom. A internet, para o pesquisador sério, é uma ferramenta, hoje, inescapável.
Não sabia que Fausto Nilo escreve crítica. Deve ser ótimo, pois é arquiteto e compositor. Um ensinamento como “O ideal do Crítico” de Machado de Assis e os apontamentos de um José Veríssimo guardam ainda alguma utilidade para os dias de hoje?
Li os dois autores, mas confesso de que não me lembro de quase nada da crítica deles. Teria que relê-los para responder sua pergunta.
“O advogado é o poeta da Justiça. O poeta é o advogado da beleza”, disse José Martiniano de Alencar. Quais seriam as responsabilidades de um poeta nos dias de hoje nessas questões de ética, estética, direitos humanos (direitos culturais), justiça e paz social?
A primeira responsabilidade de um poeta é escrever boa poesia. Seu ofício tem como base o bom, o belo e o verdadeiro. A dimensão estética vem sempre em primeiro plano. O resto vem por acréscimo. Se ele deseja fazer justiça e promover a paz social, então, vá cuidar dos pobres e oprimidos. Mas em nome de Deus e não de uma ideologia qualquer.
Filosofia. No poema Luz Primeira, da terceira parte do livro A dimensão necessária encontramos a relação conflitante do atomismo grego com a genealogia judaica. Origens dos elementos (lumens e sons), o firmamento, as criaturas tais e quais. Poderia nos dizer de seu percurso nos exercícios filosóficos? Mais por questões, problemas e sensações ou mais pela historiografia?
Com certeza pelas questões e problemas que me surgiram ao longo da vida. Não sou filósofo, e, acho, não tenho capacidade para tanto. Mas algumas questões filosóficas básicas foram intuídas desde quando eu era menino. Claro, com a intuição infantil. Uma delas na quarta série primária, e eu só soube o nome décadas depois: o infinito quantitativo. Numa aula, a estagiária falou que poderíamos perguntar o que quiséssemos. Eu fiquei intimidado porque ela me pareceu com cara de poucos amigos, apesar de permitir as perguntas. No entanto, meu pensamento de menino partiu de onde estava, em Bom Jesus da Lapa, e foi se ampliando em círculos concêntricos cada vez maiores, Bahia, Brasil, América do Sul, planeta terra, Via Láctea, e esbarrou nessa imensidão. Minha pergunta seria se não tivesse ficado intimidado: – E depois? O que é que há depois? Porque, para o menino ali, o que vinha depois era um imenso vazio branco. Eu não conseguia ultrapassá-lo de nenhuma maneira.
Assim, minhas leituras filosóficas foram feitas a partir de questões que me surgiram ao longo dos anos. Mas também me apoiei na historiografia. O eixo geral de minhas perguntas é comum à história da filosofia – de onde viemos, para onde vamos, quem sou eu e o que faço aqui. Nada de novo.
Pergunta frequente. Afinal, poesia lírica é ou não é traduzível? Anderson Braga Horta diz que “alguns proeminentes autores dizem que não, mas os tradutores não acreditam e traduzem sem parar (…) território nebuloso, ambíguo.” Como João Filho imagina o efeito de sua poesia no leitor pensante e falante em outros idiomas?
A tradução é uma aproximação ao que foi escrito na língua de partida. E a tradução, de qualquer área que seja, é a veia aorta que ajuda a bombear vida às culturas. Quem é que conhece todas as línguas? Logo, é vital a tradução. Terá sempre perdas e ganhos, óbvio.
Está aí uma pergunta que nunca me fiz. Sério mesmo. Pensando nisso agora, eu mais desejo do que imagino: que os meus poemas, ou um verso, possam abrir uma pequenina janela de luz no coração do leitor estrangeiro.
Subsídios ( dois dos autores citados pelo entrevistador):
Vem-nos entrando esse dois mil e vinte e três. Já se passaram dois mil anos, meu Jesus! No lendário Gregoriano o porvir já se fez. A humanidade d’hoje leva u’a espinhosa cruz!
“De mil passarás! De dois mil anos não! ”, dizia a rústica sabedoria popular. Veio a virada do milênio, errou o ancião? Não. A virada virou, mas só o dígito a girar…
de anos, lustros, décadas, séc’los e milênios. Parece-nos que voltamos ao ano zero: Pestes, catástrofes, perseguições e incêndios.
Façamos por, instauremos paz e o amor sincero. Mais lealdade entre adversários e estranhos. Mais solidários nós, nativos e estrangeiros.
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Especial “Semana de Arte Moderna II” | por Graça Rios
Em busca da “língua(gem) natural” e contra o “lirismo bem-comportado” | o índio fundador da nossa cultura [pode ser contestado! |a ausência do negro na Semana | crítica a Paulo Menotti Del Picchia & Juca Mulato | Grupos: Nheengatu, Verde-amarelo, Tupi or not tupi |impossível se ater ao período| a música em ‘meu cu não é ímã |marginalização da mulher| à procura do Muiraquitã |o difícil escrever simples| Abaporu e Antropofagia |a Semana é um ovo, mas às vezes gora| Quem é que vai destruir o quê????
Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.
sonoplastia: lopes (“esquece zé, vem jantá!” e “…que meu chôro seja ouvido”).Muiraquitã – amuleto da sorte.
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Especial Semana de Arte Moderna I | moda estilo capiau | linguagens carnavalescase carnavalizadas | poética do mascaramento | desvarios libertários | o que foi e é nossa Pátria para os semanistas? | “o grande engano”, falação, repensar e questionar (…)
Por Graça Rios,
Bhz em 22.02.2022.
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Tarsila e Oswald a bordo do navio Lotus, em 1926. A pintora usa vestido assinado pelo costureiro francês Paul Poiret
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(Apresentação de Castro Alves a Joaquim Maria Machado de Assis)
Tijuca, 18 de fevereiro de 1868.
Ilmo. Sr. Machado de Assis.
Recebi hontem a visita de um poeta.
O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, fallo do Brazil que sente; do coração e não do resto.
O Sr. Castro Alves é hospede d’esta grande cidade, alguns dias apenas. Vae a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda.
Nasceu na Bahia, a patria de tão bellos talentos; a Athenas brazileira que não cança de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.
Podia acrescentar que é filho de um médico illustre. Mas para que? A genealogia dos poetas começa com seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?
O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um pos pontífices da tribuna brazileira. Digo pontífice, porque nos caracteres d’essa tempera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio.
Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma gloria esplendida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora!
Mas também quanto, n’esse instante, deplorei minha pobreza, que não permittia dar a tão caros hospedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da intelligencia.
Se, ao menos, tivesse n’esse momento junto de mim a pleiade rica de jovens escriptores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocayuva, Muzio, Joaquim Serra, Varella, Rozendo Moniz, e tantos outros!…
Entre estes, porque não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, aquém o destino faz ave de arribação na terra natal? Em litteratura não ha suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família?
Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por ahi, como flôres de uma breve primavera.
Um fez da penna espada para defender a patria. Alguns têm as azas crestadas pela indifferença; outros, como douradas borboletas, presas na teia d’aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos.
Felizmente estava eu na Tijuca.
O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a collocou a duas leguas da Côrte, como um ninho para as almas cançadas de pousar no chão.
Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas crystallinas, como o espírito na limpidez d’este céo azul.
Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquelle halito celeste do Creador, que bafejou o mundo recem-nascido. Só nos ermos em que não chairam ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço.
Elevando-se a estas eminencias, o homem approxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pantano e a nuvem, entre a terra e o céo. O coração que sobe por este genuflexorio, para se prostrar aos pés do Omnipotente, conta trez degráos; em cada um d’elles, uma contricção.
No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade reptil, onde as paixões pupulam, a alma que se havia atrophiado no fóco do materialismo, sente-se homem. Em baixo era uma ambição; em cima contemplação.
Transposto esse primeiro estadio, além, para as bandas da Gavea, ha um lugar que chamam Vista Chineza. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela soblime, uma decoração magnifica d’este inimitável scenario fluminense. Dir-se-hia que Deus entregou a algum de seus archanjos o pincel de Apelles, e mandou-lhe encher aquelle panno de horizonte. Então o homem sente-se religioso.
Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado opposto. D’ahi os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dous oceanos, o oceano do mar e o oceano do ether. Parece que estes dous infinitos, o abysmo e o céo, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio d’essas immensidades, um atomo, mas um atomo, rei de tanta magnitude. Ahi o ímpio é christão e adora o Deus verdadeiro.
Quando a alma desce d’essas alturas e volve ao pó da civilização, leva comsigo uns pensamentos sublimes, que no mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nivel primitivo da água derivada do topo da terra.
N’estas paragens não podia meu hospede soffrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse á natureza que puzesse a meza, e enchesse as amphoras das cascatas de lympha mais deliciosa que o falerno do velho Horacio.
A Tijuca esmrou-se na hospitalidade. Ella sabia que o joven escriptor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espanneja em lagos de luz diaphana e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca ás caricias do poeta.
Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem d’aquellas impudencias celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens das nuvens. A chuva a borrifou de aljofares; as nevoas delgadas resvalam pelas encostas como as fimbrias da branca tunica roçagante de uma virgem christan.
Foi assim, a sorrir entre os nitidos véos, com um recato de donzella, que a Tijuca recebeu nosso poeta.
O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antiguidade de minha vida; que eu outr’ora escrevera para o theatro. Avaliando sobre medida minha experiencia n’este ramo difícil da litteratura, desejou ler-me um drama, primicia de seu talento.
Essa producção já passou pelas provas publicas em scena competente para julgal-a. A Bahia applaudiu com jubilos de mãe a ascensão da nova estrella de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modestia unicamente, é respeito á santidade de sua missão de poeta.
Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assumpto, colhido na tentativa revolucionaria de Minas, grande manancial de poesia historica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo auctor com episódios de vivo interesse.
O Sr. Castro Alves é um discípulo de Victor Hugo, na architectura do drama, como no colorido da ideia. O poema pertence á mesma escola do ideal; o estylo tem os mesmos toques brilhantes.
Imitar Victor Hugo só é dado ás inteligencias de primor. O Ticiano da litteratura possue uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua phrase são como os de Benevenuto Cellini; se o metal não fôr de superior afinação, em vez de estatuas sahem pastiços.
Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponto no drama a inspiração original, que mais tarde ha de formar a individualidade litteraria do auctor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da patria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos.
Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do bello e da arte.
Ha no drama Gonzaga exhuberancia de poesia. Mas d’este defeito a culpa não foi do escriptor; foi da edade. Que poeta aos vinte annos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda?
A mocidade é uma sublime impaciencia. Deante d’ella a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivel-a mais que um instante. Põe os labios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de gloria, e quizera estancal-a de um sorvo.
A sobriedade vem com os annos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem apprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que elle há de achar um drama esboçado, em cada personagem d’esse drama.
Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões.
Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angustia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A acção, dirigida uma ou outra vez pelo accidente material, antes do que pela revolução intima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna.
Mas são esses defeitos da obra, ou do espirito em que elle se reflecte? Muitas vezes já não surprehendeu seu pensamento a fazer a critica de uma flor, de uma estrella, de uma aurora? Se o deixasse, creia que elle se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade.
Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. A Cascata de Paulo Affonso, As duas ilhas e A visão dos mortos não cedem ás excelências da língua portuguesa n’este genero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo d’esse metro natural, d’essa rima suave e opulenta.
N’esta capital da civilização brazileira, que o é também de nossa indifferença, pouco apreço tem o verdadeiro merito quando se apresenta modestamente. Comtudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o joven poeta bahiano, fora mais que uma descortezia. Não lhe parece?
Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o theatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor d’esse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade.
Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos titulos. Para apresentar ao publico fluminense o poeta bahiano, é necessário não só ter fôro de cidade na imprensa da Côrte, como haver nascido n’este bello Valle do Guanabara, que ainda espera um cantor.
Seu melhor titulo, porém, é outro. O senhor foi o unico de nossos escriptores, que se dedicou sinceramente á cultura d’essa difficil sciencia que se chama critica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveital-o em creações próprias, teve a abnegação de aplical-o a formar o gosto e desenvolver a litteratura patria.
Do senhor, pois, do primeiro critico brazileiro, confio a brilhante vocação litteraria, que se revelou com tanto vigor.
Seja o Virgilio do joven Dante, conduza-o pelos invios caminhos por onde se vae á decepção, á indifferença e finalmente á gloria, que são os trez circulos maximos da divina comedia do talento.
José Martiniano de Alencar
Glossário:
Apelles= pintor da Grécia antiga.
Falerno = vinho da península itálica.
Espannejar= espoar, expor-se espalhadamente.
Fimbrias = franjas, guarnições.
Roçagante = que se arrasta pelo chão, que roçaga.
Ticiano = Tizian Vecellio De Gregorio, pintor renascentista italiano.
Benevenuto Cellini = artista da Renascença, escultor, ourives e escritor italiano.
Pastiços = postiços, acrescentados depois da obra pronta.
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o real é o real — a rainha Realidade reina pelos mundos
não há que temer as certezas, amores: o certo é o certo;
o torto é o torto; há curvas, há retas e há os desencontros,
e não há que se ter prazer nesses ventos de ares imundos.
só porque se dizem soltos das réguas, uns tais inumanos
vendem-se como livres, estufam o peito, alargam os ombros
espalham-nos buracos ôcos, sonham tudo só de “espertos”
são vôos sem planos, rotas sem bússolas, cenas sem fundo.
querem desconstruir o que nem sequer esboçariam, ô dó!
esvaziarem o que não encheram?! Fazer-nos de meros robôs?!
almas não se esburacam como se dá em contrapisos chôcos…
nas cheias há respiros, abasteceres, devagares e bons retornos
o vazio pode ser espaço, mas primeiro da solidão, e só depois
da felicidade ou da beleza; da liberdade, jamais do abandono.
Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/
[3] Refere-se ao Capítulo X “O perigo das falsas perseguições e falsos mártires”, do Tratado sobre a Tolerância.
[2] Avenida principal do bairro de São Benedito da cidade de Santa Luzia/MG.
[1] Monumento do Muro de Pedra, onde teve fim a batalha entre Duque de Caxias e Teófilo Otoni (1842).
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Nesta segunda parte do especial literário com a escritora Graça Rios, abordaremos a literatura na web, a feminilidade, a pop art e algumas reflexões sobre a leitura.
Em 2012, ao inaugurarem o Blog das Belas Coletâneas Ridículas, você e o escritor Etelvaldo Vieira de Melo assinam um excelente manifesto, intitulado Blogu’eus, a respeito da publicação por meio do weblog. Daquele ano para cá como vocês veem a distribuição de literatura na rede mundial e a leitura pelas telas? Costumam pesquisar nos mares da rede sobre literatura contemporânea, buscam por novos autores?
1.Premissa: Toda semana, recebo urge rugindo a mensagem: ‘KD o texto para sábado? Etelvaldo.’. Às vezes, até em Inglês, por causa do aperto na UFMG, possuo alguma prosa pronta; noutras, opto pela crítica cinematográfica. Conforme afirmei, leio tudo que posso sobre o filme visto vivamente vivo. Por exemplo, procuro do excelente ‘O Insulto’: diretor, astros, ficha técnica, comentários, prêmios. Daí, associo essa pesquisa à mitologia grega ou romana. Se fosse agora, teria ligado Parasita ao drama real de terror Corona Vírus, sob o prisma de estar tudo parado. E escrevo: ‘-Não vale mandar de volta.’ E pur si muove o texto, renegando a possível visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição dele e do leitor.
Espero passarem-se dez e meio quartos de luas. Pergunto: Fomos condenados? E o IBOPE: Quanto?
Ele: -De sempre! ou: Na semana passada foi ruim, mas hoje tá um dia bão.
Temos 60% cliques na Europa. 30 %, na América. 5%, na Grécia.
– E no Brazil ou Brasil? – 2% dos amigos comentaram se…
Se a expressão tiver uma conotação hodierna, permita-me gritar: ‘- Teco-Teco, eu fico enfezada pqp com isso, orra!’. Mas o amigo é mansinho: ‘No exterior, o povo traduz bem o que escrevemos.’
Sábado seguinte, mando um poema: – Etel, será que na Cochichina entenderão minhas metáforas, enjambements, jogos de linguagem, tema? Ele– Elogiam muito os comentários futebolísticos do Ivani, Mariinha! Hão de a Voz entender-Vos também. (Eu sou a Mariinha).
PS: Ivani, esse o leitor já viu e adorou. É o jornalista, terceiro sócio da nossa dupla.
2. Tese: As bolas graciosas e tico-ticas caem bem nos cestos estrangeiros, mas brasileiro gosta mesmo é do goleiro Ivani. (Vide wwwbbcrblogspot.com)
Em termos de acessibilidade o texto na tela facilitaria a distribuição em rede e o alcance dos leitores. Era o que muitos profissionais esperavam, há quase uma década e meia, quando da chegada dos simuladores virtuais de livros e revistas. Na sua percepção, isso aconteceu? Ou está acontecendo?
A tecnologia é um fator de desenvolvimento universal. Não é ruim PARA O LEITOR AMBIENTADO COM ELA, E BOM CONHECEDOR DO QUE HÁ DE QUALIDADE PARA SER LIDO, mas nada substitui os volumes encapados e a cores, letra digitada, anotações, papel sedoso, da Coleção Temas da Arte Contemporânea, de Katia Canton ou O Café Filosófico, organizado por Markus Figueira da Silva em Natal, pela Editora da UFRN, para jovens vestibulandos ou universitários.
Quais os critérios utilizados pela internet para orientar o trabalho formidável de Machado de Assis? Que eu saiba, nenhum.
Ítalo Moriconi diz que a literatura de pensamento e sentimento, isto é, as belas letras da expressão humana devem ser guardados na memória e nos acervos. Você tem o seu acervo digital particular de arquivos? Tem uma lista de links para navegação constante? Na sua opinião, as vantagens das bibliotecas virtuais e digitais compensam suas respectivas desvantagens?
Há um filme, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que concedeu a Moriconi dez mil orgasmos múltiplos, com certeza. (Perverso! Orgasmo não é apenas sexual, bobão!)
Queimados por proibição governamental todos os livros de uma cidade, o bombeiro Montag e a vizinha Clarisse reúnem escondido um grupo sem função de intelectuais, e cada um memoriza um livro famoso no acervo cerebral. Daí pra frente, veja a película, ora, ora.
Tenho recebido mensagens sobre bibliotecas virtuais magníficas à disposição do internauta. KARAOQ ue mané desvantagem? Acho fantástico também pagar apenas dois reais a um site do Word para ler o que imaginar. Vou escrevendo e pesquisando, simultaneamente. (Ai, contei sem querer o meu segredo de gênia geniosa engenhosa). ‘Dilícia’ exulta o dolor lectorem (= leitor esperto). Onde é o site? Aonde ir? Não conto. Desconto, por dez contos, só o latim do Translate Google.
Não me referi, lógico, a quem põe em segundo lugar o livro de papel, seu saboroso olor verde, seu colírio para os amados olhos. Em outras palavras, aos vagabundos, trapaceiros, vigaristas, preguiçosos, embusteiros, tapeadores, golpistas, desonestos e… que só leem… isso mesmo que o leitor pescou. Guardo artigos, dissertações, poemas, coisas boas, no pen drive, dentro de um arquivo de aço. Peço a alguém de confiança que guarde capítulos de livros que parei de fazer, desde que um antigo psiquiatra me alertou pelo telefone para o fato de eu ter deixado a cabeça no consultório fazia quinze dias.
O mesmo Ítalo Moriconi no capítulo O pop e o após do livro Como e porque ler a poesia brasileira do século XX diz que “na cultura pop (inteligente) o mundo da diversão e o mundo da arte séria se reaproximam”. Muitos artistas tais como Ana C. César e Torquato Neto, sobretudo poetas-letristas trabalharam e ainda trabalham a popificação da literatura tornando-a mais acessível. Fale-nos de sua postura ao explorar os temas e as linguagens da pop art.
Pois eu não estou chateando você aqui com a pop Literatura? Nada mais sério que um escritor brincando. Quem quiser letra dura, econômica, vacinada pra quarqué virusinho ou virusão lav®ado em ducha corona, passa na Biblioteca, pega uma obra Parnasiana, das Academias Barrocas ou das Academias em Geral.
Se desconsiderar o pessoal marginal que procura um estilo diferente, a rebelião contra as Grandes Editoras e seus asseclas, como Cacaso, Ana Cristina, Leminski, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, nos anos setenta, os novos da pós-modernidade; se os desconsiderar, o Brasil cultua o princípio, meio e fim feliz dos romances açucarados. Os escolásticos imperam na Didática. Escolas têm horror a escritor ousado, demolidor do edifício de concreto armado Romântico. Porque não estudam, não se aprofundam na paixão e na técnica do pós-tudo, fornecem aos jovens os sonetos rimados, melosos, os versos de autoajuda. Caiu o muro de Berlim, porém o estudante brasileiro está do lado velho da Literatura. Desconhece Fernando Pessoa, Pirandello, Deleuze. E mais… E mais… Encantam-se com o padrão, com a norma culta e opressiva da Gramática em cima das escrituras. (Felizmente) leem quadrinhos, conhecem Ziraldo, Ana Maria Machado, Fernando Vilela, Daniel Mundukuru, Maurício de Sousa, …
Eu gosto de descobrir o exótico, acreditar na capacidade leitural, na inteligência da garotada. Os editores, exceto um ou dois, publicam textos imbecis e lhes repugnam os bem elaborados, pois querem vender, ganhar dinheiro e obedecer à política dos pobres de ideias e imaginação. Devolveram-me A Hora do Gol, pois adolescente não conhece futebol no meu estilo. Ah, ah, ah! Vingar-me-hei, podem temer.
Qualquer um tem medo de Virgínia Woolf, quando vê o destempero criativo mil anos-luz à frente em termos de ironia do poema seguinte, escrito no século passado. Afinal, os bons textos não têm pés quebrados: têm asas, certo, Emílio de Menezes? Ei-lo:
A Uma Deusa (O Quelso)
Luís Lisboa (maranhense)
Tu és o quelso do pental ganírio Saltando as rimpas do fermim calério, Carpindo as taipas do furor salírio Nos rúbios calos do pijom sidério.
És o bartólío do bocal empírio Que ruge e passa no festim sitério, Em ticoteios de partano estírio, Rompendo as gâmbias do hortomogenério.
Teus lindos olhos que têm barlacantes São camençúrias que carquejam lantes Nas duras pélias do pegal balônio.
São carmentórios de um carce metálio,
lúrias peles em que pulsa obálio Em vertimbáceas do pental perônio.
Barlacantes carmentórios
Pulsa obálio gâmbias lúrias Do pijom és o bartólio Carquejantes camençúrias.
A boa literatura pop… as nossas excelentes canções com letras inteligentes, podemos considerá-las como poesia culta?
Trovadores – aqueles que escreviam a letra da cantiga. Jograis – pessoas que tinham como função declamar poesia ,se deslocando de festa em festa, de sarau em sarau para declamar. Segréis – fidalgos que iam de corte em corte para disseminar arte e literatura, e podiam compor também, como os trovadores.Trovadores e segréis cantavam nos palácios ou nos feudos, acompanhados de flautas reta, transversal, cornamusa, viola de arco.
Tomei nota do exposto acima para mostrar a quem me lê as características da poesia medieval. Os cantores populares ouviam as lavadeiras entoar lindas canções nos rios. A partir desse leitmotif, ganhavam a vida tocando instrumentos e reelaborando o escutado. Seria o que hoje denominamos SIMULACRO?
Conheço um compositor Cristiamamos (Cris) ou um segrel/menestrel/trovador? Pop, pop, que nem nóis semo. Escuto-o cantar, ouço sua mãe assobiar, enquanto a esposa Rita tece (tessitura, tecido, texto) e me questiono Onde está a Margarita, olê, olê, olá? Ele também cola uns trecos esquisitos, põe uns pensamentos abalroados barrocos, uns cri-cris de sapassagrilofantes no entoo.
Em incerta feita, perguntei se aquilo era Debussy. Claude-Achille Debussy foi um músico e compositor francês. A sua música inovadora agiu como um fenômeno catalisador de diversos movimentos musicais em outros países. Ele achou Graça na comparação. De verdade: Wagner, Debussy, Ravel, me causaram uma espécie de agonia há uns anos atrás. Custei a engolir o Bolero. Mas fui a um concerto contemporâneo de música feita em fundo de mina. Que Minas Gerais, sô? Tô falando de mina d’água lá embaixo, com pedra batendo em galho, vento sussurruPIANDO vrum VRUUUUM FFFFFFFFFiiiiii, cascalho rolando na plateia, BAT BATTT, plamplam, impressão de estar no oco do toco do choco dos crocodilos, um Orror! Desculpe-me. Herrar é umano! Jogaram laser em torno das poltronas.
Laser, abreviação em inglês de “Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation” que significa Amplificação da Luz por Emissão Estimulada de Radiação é um dispositivo que cria e amplifica um intenso feixe de luz monocromático (contém exatamente uma cor ou comprimento de onda), coerente (a luz liberada é organizada e bem definida) e colimado (propaga-secomoumfeixe) Dicionário Google
Aí, endoidei memo.
Nunca vira aquela balbúrdia interplanetária subterrânea terrânea à minha volta. Paganini, dizem, era um virtuose do violino que tocava em cima dos túmulos no cemitério. Meu pai só não subia nos túmulos, mas virava um pagão do violão em cima da cama limpa e passada a ferro de brasa de minha mãe. Espere, leitor, que vai entender a mess (Mess= bagunça, ing.) organizada.
Aí, o laser, os treco caindo do teto em forma de imagens, a água, a gritaria nossa, aquilo me enlouqueceu de luxúria, vaidade, gula, setenta pecados capitais de prazer e gozo. Jamais tive algo assim: precisão de camisa de força.
Agora, dou um espaço pra não confundir os cabeludos.
Chegando em casa, contei a Sebastian Bach Rios a minha efusão confusa e deslumbrosa. Ele se fechou comigo no quarto, pegou o violino:
– Filha, temos de trancar a cela com a cancela, senão vamo de braço dado pro manicômio. Sua mãe chama os psicô e isso vira um kokô. Espaço.
Pegou a caneta e começou a compor em notas filhas da pauta o que eu cochichava.
O que eu cochichava? Você me jogaria rolling stones (pedras rolando, ingl.).
Pasme-se! Era a boa literatura pop…as nossas excelentes canções com letras inteligentes, consideradas só por nós ambos, pai e filha amantíssimos (da Arte), a poesia mais culta do mundo. Eu só a interpretarei algum dia em cima do meu próprio caixão. Sozinha, em solo comigo e meu papá.
Sabemos que uma grande quantidade de tarefas e responsabilidades quotidianas recaem sobre a mulher: realização, supervisão e/ou governança de inúmeras tarefas do lar e da família. Como a escritora se arranja com vistas a obter liberdade doméstica e tempo para criar?
Criar, tocar Órgão, fazer o Avançado de Inglês na UFMG, ser a síndica mais cínica do Edifício Amaralina, fazer Pilates, ir à psicóloga, ir ao consultório da minha Gnana botoqueira pra arrumar a cara, ficar com os netos no domingo, pôr freio na Rose, minha empregada que me freia, ler, comer, quase dormir… e tomar o comprimidinho. Quando começo a ficar muito MUITO e palhaça D+, a Rose fala: – Esqueceu o comprimidinho, melancólica? E MO enfia goela abaixo. Assim, fico calminha, domesticada e recreativa.
Com base na sua experiência, quais seriam as diferenças essenciais entre a mulher escritora atrelada 100% aos “velhos papéis” com a mulher escritora independente de hoje?
A atrelada usa antolhos (viseira para onagros) na leitura do mundo e da letra.
Escrevi um texto para os alunos cegos, chamado ANTOLHOS, com a independência literária e a birutice de sempre. Enviei-o para uma amiga boa de bolo de chuchu no exterior, e ela quis enviar dinheiro para o cego que, na crônica, iria operar o globo (ocular) para voltar a ver as florestas, o ouro, o céu, as nuvens brancas de antes.
A boa de cama e ruim de livro leu a história 100% nos ‘velhos papéis’. Certamente, cozinhando passando lavando roupa encerando o chão lavando o banheiro e lendo….
Sempre meia bandida, meia fada, meia Medusa, pedi que pusesse a quantia em minha conta bancária para os gastos com a cirurgia malvada como o Cão.
Depois, escrevi, inteira/mente safada, que o cego, minha filha, é uma figura de linguagem. Por Deus, entenda que representava metaforicamente o brasileiro. Ele, eu, tu, não enxerga a realidade política, social, econômica em que vive e, se bem operado, pode ver.
Quem manda eu gostar de contemplar mirar observar espreitar considerar bispar almejar as coisas com os olhos da Pequena Príncipa exuperyda:
Só vemos bem com olho vivo. Vários olhos. Olho clínico. Olho nu. Olho-de-peixe. Olho-de-gato. Perder de vista. O resto essencial é invisível para… quem usa antolhos na cara.
Vejamos o seguinte trecho: “a mulher escritora é como um jardim: respira cercada pelo mundo dos homens, e o enxerga em outras cores, carregada de todo um universo de sutilezas ainda ignoradas – mas vivas.” (sobre Virginia Woolf em O Status intelectual da mulher, editora Paz e Terra, 1996). O que Graça Rios pode nos contar sobre sua experiência intelectual sob e sobre o olhar masculino?
Vinicius d’Imorais, aquele machista metido a vítima, vivia comparando a mulher com objetos: a linda lua, um jardim, uma rosa, um pássaro… Cara misógino, bandoleiro mulherengo naquele Soneto da Infidelidade.
Um cego do Braille prometeu-me um disco do sofista marciano. Respondi: Seja, pois, um disco voador, para atravessar as galáxias e ser quebrado pelas serafinas.
Mulher é mulher de carne e osso, seu viniciado na pinga. Mulher é gente, não é diferente. Detesto quem acha que homem é homem; e mulher, lobisomem.
Desculpe-me, leitor, mas sei ler por além das linhas a poesia do velho Vinil, com a Psicanálise da Professora do Mestrado Ruth Silviano Brandão, sob o olhar capcioso da Lúcia Castello Branco. E tem muita demoiselle suspirando por aquela b-o-s-t-a fraca.
Ali, a mulher vale tanto quanto o pé quebrado das estrofes.
Faltou o ghost-writer acrescentar: ‘respira pelo próprio nariz no mundo dos homens e das mulheres. Escreve caminhando leve e solta.’. Veja só, amizade, se aguento carregar o universo! Virei guindaste super-sônico? Só se for o universo dos filhos e netos, nove meses na barriga. Já me bastam os Rios.
Cercada e carregada, só se for pra cadeia, depois de matar na Paz da Terra, o sutil ignorante que falou essas asneiras porcas dela, a Virgínia, fã, entretanto invejosa da minha Katherine Mansfield. Se ainda estivesse vivo…. Sei lá…1966. Deixa pra lá.
O olhar masculino há de ver graça, garça e raça e rios e riso nas minhas experiências intelectuais, morais, cerebrais. Gatona enxuta, ainda! Perigosa, embora.
Se me achar um jardim abafado pelo que ignoro e as tais sutilezas, esse crítico há de enxergar tudo em cores roxas – onde estiver.
Com ‘Licença Poética’ de Adélia Prado, em Divinópolis, perto de onde nasci, ‘Inauguro linhagens, fundo reinos. / Mulher é desdobrável. Eu sou.’
Thank you, AP. Merci beaucoup.
Sobre leitura e audição de histórias. A escritora adquiriu muita experiência trabalhando com estímulo e elevação do nível de leitura das pessoas, seja em programas culturais e projetos editoriais, seja no sistema de ensino público e privado, como professora. Penso, a população em geral compreende bem as linguagens simbólicas das telenovelas, dos filmes, dos seriados e da publicidade. Mas por que, então, demonstra certa resistência em ler histórias de ficção e poesia? Por que não aprecia ouvir histórias contadas por pessoas mais experientes e maduras?
It all depends on the counter. Escrevi em inglês para criar suspense no que vou narrar. Tenho uma conhecida que me indagou: – Graça, a professora da minha neta de nove anos pede o reconto de um livro todo mês. A menina enjoou de tanto recontar os autores… que até são bons. O que faço com ela?
Fiquei confusa: com a neta ou com a professora? Claro que a pê da goga é uma carrasca infernal. Faz a criança odiar a leitura, a escrita, o livro, o autor. Existem centenas de atividades incríveis com a leitura. Teatralização, entrevista com o autor (se falecido, um grupo estabelece as questões; outro, responde como se fosse, por exemplo, Alaíde Lisboa); mural com retratos, poesias, recortes de jornais, redações, desenhos de artistas da classe; poesias; jogral com as filas de carteiras; charadas sobre a obra; construção das personagens na aula de Artes; concursos; debates; filmagens; danças e músicas inventadas pelos grupos, bandas na aula de Música ou Artes; fantoches; documentários do livro ou do autor; visita à Editora com diálogos locais preparados antes; convite ao escritor para uma conversa na escola ou na sala… E vai, vem, vai, o trem da leitura, do conto, da história vai parar no Paraná, Nordeste, Minas, Além-mar.
Trabalhei com Antonieta A. Cunha na BIJBH. As crianças e nós, adultos, caíamos todos os nove queixos (cinco de cada um) nos Concursos de Contação de Histórias. Em BH há minas de ouro, prata, diamante, em termos de grandes contadores . Citarei alguns, entre os mil conhecidos (perdão, por não citá-los): Deborah Michelin, Sandra Lane, Pierre André, Beatriz Myrrha, Ana Raquel Coelho, Trupe Maria Farinha, Alessandra Visentin, Samuel Medina, Rosana Mont’Alverne. Ligue para eles: na BIJBH certamente haverá os endereços.
Você conviveu com a Maria Luiza Ramos (Fale-UFMG), um outro talento exemplar que nos legou iluminadas formas de pensar a leitura. Ela nos avisa em relação aos “círculos do livro” e “pactos de leitura”, fenômenos que encurtam o repertório de quem lê. Maria Luiza idealizou um leitor versátil, paradoxal, capaz de escapar das camisas-de-força, superar os demasiados enviesamentos (cortes transversais), libertando-se dos mecanismos de controle do imaginário. Mas hoje os movimentos editoriais assumem explicitamente seus vieses e os leitores estão encarcerados em suas preferências. Há como pensar uma pedagogia que ajude a criar/sugerir o leitor ideal de Maria Luiza Ramos?
Maria Luiza, surpreendente intelectual, minha querida amiga e professora, tinha o seu ‘Leitor Ideal’. Certa vez, discutimos sobre isso. O que é o Leitor Ideal? Cada autor, professor, filósofo, crítico literário tem uma ideia diferente a respeito do que isso significa.
Pense comigo: O que é o Leitor Ideal na tecnologia? Qual o Leitor Ideal na leitura do mundo (hoje, não se considera leitura apenas do grafo, a letra. Lemos tudo o que existe, o tempo todo: a face do amigo, o quadro de Renoir, o sistema de governo, a pessoa que nos fala sobre algo – quer me fazer de boba? Me vender isso aí? Está mentindo? – o ambiente, o céu, a tampinha de cerveja no passeio – Quem a comprou? Sabe que essa marca faz mal? Não vê televisão. Bebeu até perdê-la? Porco! A lixeira logo ali!
‘O ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois, ou seja, o que vemos vive em nossos olhos pelo que nos olha. Partindo desse paradoxo, o historiador da arte francês Didi-Huberman compõe um ensaio que se aprofunda nas questões da arte, da estética e da interpretação contemporâneas.’ (Didi Huberman: O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves, 1998 – 1ª edição, 2010 – 2ª edição. Editora 34).
Citei o Didi, primeiro porque me fascina; segundo, porque nos ensina que olhamos os objetos. E os objetos nos olham também. Aprendi que o sofá me vê e chama: ‘ – Venha descansar, mulher. Assente-se em mim. Traga os objetos, ponha em cima do meu vizinho.’. E a luz, brilhando de alegria: ‘- Prefere que eu fique assim, ou estou forte demais para você? Acenda a minha colega do corredor. Fica mais claro.’.
Serei eu, a Bolinha (meu irmão me chama assim) , a leitora ideal de meu pobre texto? Então, alguém será? Fale mal, mas…
O político se acha o Leitor Ideal da Constituição. O psiquiatra se julga o Leitor Ideal do analisando.
O marido se acha o Leitor Ideal da mulher, dos filhos, dos cachorros, dos cambau. O leitor deste texto se acha o Leitor Ideal da minha trapaça de sapiência sobre ele até aqui, mas a leitora tia/avó/irmã do meu leitor acha que ele é o rato besta que engoliu o queijo da minha ratoeira.
Neste tempo de Corona Vírus eu sou a Leitora Ideal dos safados dos Fake News? Da China gananciosa? Da Rússia? Da Coreia? O João das Couves disse que leu nisso uma arma biológica.
Maria Luiza viveu ainda na esperança da liberdade leitural. Dos pactos de leitura que Silviano Santiago descreve e descrê n’ As Malhas da Letra. Que pactos? De que leituras? De que estranhos mecanismos na telealdeia de McLuhan, já sem identidade privada. Sempre gostei das perguntas, porque cada um tem uma resposta geralmente errada para elas. O que acha disso, você, que não se acha o ‘José’ de Carlos Drummond de Andrade? Feliz é o peixe: conTudo, nada, nada… Quem falou isso? Em terra de olho quem tem um cego…Errei!
Graça Rios, 23/03/2020 às 03:15h
Av. Afonso Pena, por Charles Torres
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UMA POETISA NO PENHASCO DA CAPITAL – Entrevista especial com a escritora Graça Rios
Vencedora de vários concursos literários, como o João de Barro, Nacional de Literatura Infanto-Juvenil de Brasília, Poesia no ônibus, entre outros; às vezes feroz ao defender sua postura e sua livre expressão; noutras vezes delicada em contemplar a natureza, a humanidade e as artes. Personalidade homenageada por sua generosidade e empenho no incentivo à leitura, tem o nome identificando uma biblioteca comunitária na zona norte de Belo Horizonte.
Poetisa, prosadora, trocadilhista e brincalhona, trata-se de singular representante de nossa literatura feminina contemporânea.
Mulher que a um só tempo/lugar voa alto sem perder de vista o ninho. Intertextualiza-se com Ana Cristina César, Sylvia Plath e outros tantos autores nacionais e estrangeiros. Experiente na vida e nas letras, perspicaz nas relações humanas e suspicaz nas sociais, mantém-se ativa na criação literária, no estudo de idiomas e de música. Desde 2012 escreve para o blog BBCR (Blog das Belas Coletâneas Ridículas). Tudo isso sem deixar de arrumar um tempinho para a família, a vizinhança e os amigos. Neste mês de março de 2020, temos a honra de realizar uma especial entrevista com a professora, a escritora, a cidadã, artista versátil e poetisa Maria da Graça Rios. Desejamos que os corações se abram a esse convite destinado a todos.
Sinta-se à vontade, inicialmente, para se apresentar à nossa rede de apreciadores internautas. De onde veio, por onde passou, onde está e para onde vai Graça Rios?
Eis aí quatro perguntas profusamente metafísicas para as quais nenhum mortal teria respostas. Peninha de peixe e rato! (risos). Tornando-as terrenas, acessíveis, sou de Carmo da Mata/MG, casei-me, divorciei-me, morei em Lavras e Vespasiano. Vim para Belo Horizonte aos dez anos, onde cursei o ensino básico, médio, superior. Fiz Mestrado e todos os créditos do Doutorado na UFMG. Sniff! Sniff! Lecionei Português e Francês no Estado e na Prefeitura local e no interior. Finalmente, fui aprovada no Concurso para Professor(a) de Nível Superior da UFMG, lotada e aposentada no Centro Pedagógico. Atualmente, continuo (e morrerei) ali, aprovada para o Nível C1, primeiro Avançado de Inglês/2020. Caso escritora, ganhei muitos prêmios, viajei o que dinheiro (mais o dos filhos) me possibilitou, com especialização na Área de Português nos Açores. Continuarei! buscando! entender! tocando! a grandiosidade enigmática da Música, o que faço desde adolescente com meu papai, Maestro violinista Sebastião Rios. À última pergunta, eu, sem graça, respondo perguntando: -Poderei ainda acreditar que vá escrever algo razoavelmente bem/mal?
Só sei que netinhos e filhos são minha glória artística. Se for, talvez perdão quiçá – ora, ora, cristão! – (onde vai GR?), para o céu, ficarei sempre nas alturas, astrolando esse fato.
Desde quando resolveu tornar-se artista? E como aconteceu a escolha pela arte da palavra?
Minha vizinha diz ao mundo que ‘seu verdadeiro lugar é no picadeiro, ô paiaça. Por isso tem nome de Graça.’.
Serious now. O padre de CM (onde nasci) me buscava em casa aos seis anos para recitar poesia no meguenormefone da torre da Igreja, mil vezes maior que aquela/esta triste figurinha. A cidade toda me ouvia cheirando e comendo “A Flor do Maracujá”, de Catulo da Paixão (por mim, tadim!) Cearense.
Em BH, aos dez, o Grupo Escolar SB, solene, me premiou com um sabonete, uma pasta dental (‘dentifrício’), e uma fitinha verde-amarela, por ter comentado bonito o Hino Nacional antes do Bolsonaro. Eu andava pelas ruas num T: esticava os braços pra Capital saber que nas Letras eu era um Tesão. Daí pra frente, estudei D+ da conta, e escrevo o alfabeto até no banheiro, publicando o primeiro livro num Concurso da Bienal. Ah, ah! A Menção Honrosa seria a edição do Chuva Choveu pela Editora Miguilim, via minha musa Antonieta Antunes Cunha.
PS: A medalha de ouro do Concurso Brasil/Portugal foi conquistada com o poema Açor Emigrante, redigido a lápis crayon num rolo de papel higiênico, comigo ou sem migo assentada no tampo do vaso. A Ilha Terceira havia sido devastada por um sismo marítimo, e o meu coração explodiu.
Muitos de seus textos nos exigem prévios conhecimentos literários, contato com outros autores. Há uma fartura de intertextualidades, citações, recriações, paráfrases, expressões do francês e do inglês etc. Fale-nos sobre suas buscas por influências, sua abertura às diversas estéticas e estilos.
Preciso muito da pesquisa para escrever. Manuel Bandeira renega quem vasculha o vocábulo no dicionário em ‘Poética”, mas eu quero saber tudo sobre vento, pé de vento, ventos alísios, willy-willy, vendaval, se falo do tufão. Também detesto o lirismo comedido, funcionário público, mas adoro discutir com o Aurélio qual palavra fica boa num verso ou diversos. No mais, colo uma lata do Andy Warhol, um abridor de amanhecer do M. de Barros, um versinho de Virgílio (Libertas quae…), um risco/arrisco/rabisco num livro com nome de outro livro ou capítulo de algo que apreciei e ‘vão lendo vão lendo’ (ACC). Sou muito pop e papuda, embora me julguem kkk também erudita. Bolas!
(Risos). Sabemos que tem realizado algumas experimentações poéticas com dois ou três idiomas intercalando-se durante a narrativa. Possui textos escritos exclusivamente em francês ou inglês? Pretenderia publicá-los?
Não escrevi nada exclusivamente em língua estrangeira. Gosto da Flor do Lácio/Inculta e bela. Porém, com ajuda do Translate Image, misturo alemão com aramaico com turco e Venunês. Tenho um livro escondido porque louco, inédito porque ninguém o editaria, mesmo sendo polissêmico, poliglota, polichinelo, polipólen, polip(l)uto. Chama-seVertigem Babélica.
Como considera os simbolistas brasileiros em relação aos portugueses e franceses? E quanto ao Movimento Modernista, o que dele mais incide sobre seus escritos, tanto em prosa quanto em verso?
Amo Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé; mas minha sexy obsessão provém do ósculo ardente, alucinado de Camilo Pessanha. Eis o Segredo dessa alma e meu degredo. Ana Cristina Cesar é o navio que ancoro no ar; a tradução dos meus sete sentidos; a invenção de minha música em poesia de teclas desesperadas. Katherine Mansfield, ela, não reconto meu conto Bliss secreto de quando não defendi a tese de Doutorado porque me esqueci de fazer a rematrícula. Atordoamentos pós-tudo.
Ana e Katherine deixemos para as longas conferências que virão em breve. Alfhonsus, Dos Anjos e o Cruz e Sousa ficariam em que lugar na estante?
O Simbolismo de Cruz e Sousa dos trechos fugidios, cheios de buracos, chiaroscuros, questionamentos, dissoluções, agradava a turma do EJA, através dos excelentes professores.
O eclético e o contrastante se manifestam fortemente em muitos artistas mineiros. Há quem diga que tais características se devem ao nosso acidentado relevo e herança barroca, somando-se ao ecletismo do conjunto arquitetônico da capital. Concorda? Sente essas “atávicas” influências em suas expressões?
Quando Aleijadinho perdia a carne e os ossos, suas imagens encontravam a saúde, o esqueleto pétreo, a pele de cetim, carmim e ouro.
Empobrecido, roto, malquisto, enriquecia os santos e os altares com mantos tintos de sangue dos rubis, de brilho dos cristais, de amor pela justiça, paz, união entre os homens.
Deixei para o leitor um trecho menos esquecido (memória fraca, A.C.?) de um artigo que escrevi no Suplemento do Minas Gerais, sob o esplendor da amizade entre mim e o poeta Adão Ventura. O termo Barroco vem de Pérola de superfície irregular (esp.) ou é um processo mnemônico? O mineiro de trem vem dos dois.
Ótimo, ótimo… guardaremos mais esse fiapo de linha memorável sobre amizade e literatura. Estabelece limites formais “de caso pensado” no emprego do poema-prosa ou da poesia-prosaica? O que faz você decidir se vai expor o texto em versos fixos, em versos livres ou em prosa?
Pelo estilo inicial desta entrevista, o leitor já entendeu que eu não gosto de escrever com limites, nem com formas estabelecidas. Há um ditado que diz ‘O caminho a gente faz enquanto anda’. Vinicius adorava o soneto, porque os temas sensuais dele ficavam bem, ali dentro. Os parnasianos também (des)gastaram as formas ‘de caso pensado e impensado’.
Tenho me divertido escrevendo sonetos sem espaços: 14 linhas, geralmente brincantes, de baixo para cima. Também parafraseio ou pasticho os românticos, trocando as luas pelo sol, os dias pelas noites, os abraços por discussões e versa-vice. Literatura é liberdade. E eu luto por todo pássaro que possa tirar da gaiola. Mas, se me der na telha nestas 24 horas da noite do dia 02/03/2020, fazer um soneto de amor, eu o faço por seu gosto de doce de batata doce. Livre, morô?
Hai-Kai Balão, ilustração & arte de Maria Viegas
Hahahah….Ao iniciar o texto rola mesmo aquela indecisão como na hora de se arrumar para sair? Digamos, não sabe ao certo o que veste, o que calça, qual o peso da maquiagem tal e tal…diante de tantas opções? Conte-nos um pouco sobre seu processo pessoal de criação.
Levo dois anos para escrever um livro pequeno (30 páginas). Deixo-o na gaveta durante uns três meses para amadurecer. João Cabral: ‘O que hoje parece flor de prosa/poesia, amanhã ou depois parece fezes’.
Eu escrevo um hai-kai: Oh, que lindo! Que profundidade! Eu sou o Bashô que baxô em mim hoje. Sou fera na seara da (h)era.
Aí, deixo-o de molho no shoyu, enfiado num romance sobre suchi e antofagasta. Depois, num feio dia hibernal, encontro-o. Leio o primeiro verso e penso o quÊ? Que eu ou o Bashô endoidô ou era um spritu rúim que desceu fingindo ser ele. Eta, merreca! Fica mais de molho no shoyu.
(Ponho a culpa nos outros). ‘Foi o alquimista Paul Kuêyque me influenciou.’
Poesia dita, declamada, expõe a composição como trama viva. Poderia nos enviar um áudio de poesia falada, na voz da própria autora?
Se der, eu mando. A poesia moderna não nasceu para declamos(?). Por exemplo: Atirei uma pedra n’água/ de pesada foi ao fundo./ Os peixinhos declamaram: /’Ei, dona carmona, vamo pará co essas pedra aí?’
A escritora é bem sociável, aberta aos editores, aos leitores, colegas e familiares. Inclusive testa, de início, algumas de suas produções solicitando dos mais próximos uma primeira leitura e audição para colher opiniões. Até quando essa prática é recomendável a nós, escritores.
Ouvindo opiniões, xingamentos, elogios, a gente vai lá, cara de cachorro na igreja, e melhora, acrescenta, retira do ar o texto. Afinal, se escrever só para mim, será no hospício ou lendo o maravilhoso livro “O Duplo: um estudo Psicanalítico, de Otto Rank.”. Só os leitores nos dizem o que dissemos e deixamos faltoso sobre as coisas. Drummond diz no texto Mundo Grande:
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.
O livro merecidamente premiado “Fantasia” (1992) foi escrito para um público cuja faixa-etária é a mais complexa: a adolescência. Uma fase para qual a seleção de textos é mais difícil, exigindo atenção especial. Seu talento nos permitiu uma obra rica e ao mesmo tempo acessível. Comente um pouco sobre a criação, o prêmio, a publicação e a recepção do “Fantasia”.
Quando escrevi o Fantasia, eu estava lendo tudo sobre Isadora Duncan, a bailarina que dançava descalça enquanto perdia os filhos, o marido, o amante, a própria vida. My Life, seu livro, criou o meu. Era setembro, as cigarras faziam um grande barulho na Universidade. Havia um monte de cascas dessas cantatrizes fabulares pelas árvores, pelo chão. Eu via a dança do vento, as flores, estudava música e ouvia Seu Tãozico, meu pai, com os amigos seu Alencar, na flauta de prata; seu Araripe, no violão (ele enchia os bolsos de bicarbonato por causa da dor de estômago); e Helenice cantando soprano meu pai: Ohhhhh! Romeu. Oh, ciúmes dela. Minha mãe cozinhava e a cigarrita jogava os cachos no violino nosso!
Eu lia tanto sobre balé! Conhecia de cor o nome dos dançarinos russos do Bolshoi. Assistia aos espetáculos em BH. Todos. Clássicos e populares.
Dessa balbúrdia que revira eterna mente o meu viver, surgiu aquela obra.
Pena de jacu sem penas! Reatualizei o livro no ano passado, enviei o novo texto à Editora… que mo devolveu porque… porque…porque…
Mais um pouco sobre o “Fantasia”. É uma história cheia de poesia e notório domínio simbólico. E a meu ver expõe como pano de fundo uma ficção especulativa sobre a condição da mulher nas décadas seguintes. A autora, a narradora e os personagens ainda se conversam?
Depois da sua devolução, talvez porque eu não tenha… não tenha … sei não, abandonei-o às traças. Segundo minha loura Laura, professora atual de Órgão, nós, os caracteres melancólicos, somos assim mesmo. Deixamos de acreditar até na vida depois de uma decepção.
Se me perguntarem quem é Dora, a personagem vencedora do Concurso Nacional de Poesia Infantojuvenil da Fundação Nacional de Cultura e da secretaria de Cultura/1992, (memória fraca, Ana?), digo com Sócrates: Só sei que nada sei. Então, leitor, copiei o endereço na Agenda.
Entretanto, nunca desisto de tentar outras coisas: vou participar de um Concurso de Literatura importante em Portugal neste ano 20, ainda que para dançar um Solo Charleston de melindrosa. Se a gente dança na Arte aqui, aprende outro fado acolá.
Sobre “Canção do Asilo”. É uma obra mais ou menos curta, com bom ritmo e impacto. Foi difícil escrevê-lo?
Havia um Asilo de Velhos perto da E.M. Carlos Lacerda, a primeira em que lecionei, indicada pelo meu mentor/diretor Guilherme Lage. Eu acabara de completar o Curso Normal e passara direto no Vestibular da FALE/UFMG. Meus amores, ele e a esposa, indicaram-me para a Escola, no bairro União, ainda no primeiro ano de faculdade.
Ah, ah! Eu era a menina dos olhos dos idosos, ali, porque levava semanalmente cada uma das turmas para conversar, levar bolos, desenhos, roupas, violão, ao seu pobre lar. Saudade tenho daquela traquinagem apoiada pelos diretores David e Leonardo. Aula de Português, professora? Sim, aula de passear no Asilo com teatro no pátio confecção de murais felizes aniversários de cem anos…
E eu vivenciando aquilo de novo, em 2004, na Clínica onde minha mãe terminava seus dias. Se fôramos oponentes ferrenhas na minha adolescência até nos mínimos detalhes, tornamo-nos, em cerca de dois anos, cúmplices de sonhos, devaneios, memorialismos, pesadelos, unhas pintadas, estórias, remédios alzhêimicos (??). Os doentes pulavam salientes quando eu chegava com doces. ‘Aonde vai, monta um circo’, refletiam seríííssmas as eficientes enfermeiras (vizinhas).
Assinamos, mãe e filha, definitivamente, o pacto de paz no Hospital Vila da Serra. Ali, perdi/ganhei mamãe, assistida pelo meu fiim médico, Júnio, e pelas manas Valéria e Regina. Rodrigo, também fiutim, morava na Malásia com a familinda, a serviço da Vale. Aquela Vale dos humanos desastres, maltratada pela Imprensa, pelas gentes, pelos políticos, foi/é/será o encanto de meu viver e dos netinhos. Ainda direi por quê. Agora, falem mal do que afirmei, mas falem bem desse nosso Amor pela Empresa.
Tivemos, nesse ínterim, todos os bichos da terra: o cão Jimi Hendrix, o gato João, as vinte hamsters, a rã Weber (Max e…? Não, mãe, ela coaxa WEBER, WEBER, pra mim.), a cadela Chienne (mamãe e seu Francês…) – que trocou o nome por Suzana, quando a doei, pulguenta, ao pedreiro Malaquias. Peixes? Centenas. Havia aquário de parir, de nascer, de não se suicidar, de brigadores matadores assassinos… todos trazidos pela vovó sempre bem-vinda.
Mamãe se foi em 2016, levando um volume do seu Cancioneiro composto em 2005/6. “Esquecer para lembrar”, sussurrou-me Drummond naquela época. Inventei a asilada Benvinda, e dispus – depondo – aos alunos do Carlos Lacerda, Rodrigo, Jimi, CDA (vários deles), peixes, confusão, todos os elementos passados e assados num redemoinho de ideias literárias.
Na primeira edição da obra, prefaciada pela minha nossa magna Ídala Ilza Matias de Sousa, com orelha de BartoloMEU Queirós, foram vendidos dez mil exemplares para o EJA/Ministério da Cultura pela RHJ/BH. Até baile aconteceu.
Hoje, por onde anda a onda/ A onda do livro aonde anda, Bandeira? Esquecer, Drummond, o esquecido para nem lembrá-lo mais.
Nas circunstâncias em que se encontrava a protagonista, o “ponto de virada” só poderia ser sutil e surpreendente. Como bem sugerem a Ilza Matias de Souza no prefácio e o Bartolomeu de Campos Queirós na 4ª capa, histórias que, partindo de realidade concreta, explora(va)m temas de profundidade: morte, vida, memória, solidão. Canção do Asilo sempre acerta(va) na veia dos leitores de perfis variados. Pelo retorno recebido, quem mais comentou sobre o livro, as crianças, os adolescentes, os adultos ou os da melhor idade?
Recebi muitas cartas pelo livro, cumprimentos, até flores da saudade(vasos de bogaris, violetas, sempre-vivas) durante muito tempo. Viajei, dei cursos, palestras em companhia da colega e amiga Bernadete Patrus Ananias. Os cambau! Recebi homenagens do Asilo existente.
Quem quiser conhecê-lo, a Estante Virtual vende barato. E também a Editora RHJ.
PS: Não sou saudosista. ‘Cê e eu somos musicistas, portanto, melancólicas. Só isso. Miriveja só o Mozart, que melancolia! Os Noturnos de Chopin… As fugas de …” – lacrimeja entre risadas loucas a loura Laura, enquanto me esfola os dedos no Minuet 2, de Bach. Difícil, fessora… Ah, se te pego Johann Sebastian Rios, xará de meu pai!
A prova do vermelho? Leitor adora provas, principalmente Mestres. Então, de raiva, faço respostas para criar perguntas:
R: Acabei de contar um punhado de casos alegres nesta entrevista.
Pergunta do leitor:__________________________________________?
R: Descasei-me, mas juro que casarei um fulano de tal que jura ficar
sozinho até morrer no mato, antes do final do meu atual romance em Roma com a personagem Mara (digam Mária, segundo Bandeira).
Pergunta do leitor:__________________________________________?
R: Conto piadas calvas e cabeludas que nem o meu amigo (fomos amigos)
Ariano Suaçuna. kkk. (Suaçuna vem do tupi. Dddddeve ser escrito com Ç.- justificou-se o Aurélio). E ele: …mas vem do bisavô Suassuna, sô!
Pergunta do leitor:__________________________________________?
R: ‘Seu lugar é no picadeiro. Daí o nome Graça’ (vizinha). ‘Saudosista sou eu, dos ex-moradores do 202’.
Pergunta do leitor:__________________________________________?
R: Tenho escrito sobre o futuro num nível de duzentas páginas. Verdade.
Pergunta do leitor:__________________________________________?
PUR HOJE É SÓ Puro gesso.
frame retirado do vídeo “Conhecendo a Biblioteca Comunitária Graça Rios”, disponível no youtube.
Nota: as frases em negrito da entrevistada considerem como na cor vermelha.
Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/
Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica
Para brindar nossa perseverança, partilho com os amigos a carta-resposta do Joaquim Maria ao mestre Alencar, a respeito do seu Castro Alves, quando este último fora recomendado ao primeiro pelo segundo. No próximo 29.02 desse bissexto, nesse século que ainda amanhece, completam-se cento e cinquenta e dois anos do registro que segue. Tão atuais são essas vozes que parecem soprar por cima de nossos ombros.
Era carnaval, também ano bissexto, há 152 anos. Revivamos juntos:
Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.
Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebel-o das mãos de V. Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida litteraria. Abre os olhos em pleno Capitolio. Os seus primeiros cantos obtêm o applauso de um mestre.
Mas se isto me enthusiasma, outra cousa há que me commove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inutil fôra dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Ex. mais do que uma animação generosa.
A tarefa da critica precisa d’estes parabens; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas luctas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessaria para reavivar as forças exhaustas e reerguer o animo abatido.
Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de critica, fui movido pela idéa de contribuir com alguma cousa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e effectivamente se perde. Meus limitadissimos esforços não podiam impedir o tremendo desatre. Como impedil-o, se, por influencia irresistivel, o mal vinha de fora, e se impunha ao espirito litterario do paiz, ainda mal formado e quase sem consciencia de si? Era difficil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de litteratura, sem alento nem ideal, falseada e frivola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Ex., sabem exprimir sentimentos e idéas na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam oppôr um dique á torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.
Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: a este já não era a intelligencia que se expunha, era o caracter. Comprehende V. Ex. que, onde a critica não é instituição formada e assentada, a analyse litteraria tem de luctar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais bellas creanças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se affectos. Desfiguram-se os intentos da critica, attribue-se á inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipathia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que elle não pesaria no animo de quem põe acima do interesse pessôal o interesse perpetuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.
Cançados de ouvir chamar bella á poesia, os novos athenienses resolveram banil-a da republica.
O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veiu sentar-se no santuario e assim generalizou-se uma crise funesta ás lettras. Que enorme Alpheu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?
Eu bem sei que no Brazil, como fóra d’elle, severos espíritos protestam com o trabalho e a licção contra esse estado de cousas; tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do seculo. Mas sempre ha de triumphar a vida intelligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; comtudo, entendia e entendo – adoptando a bella definição do poeta que V.Ex. dá em sua carta – que ha para o cidadão da arte e do bello deveres imprescriptíveis, e que, quando uma tendencia do espirito o impelle para certa ordem de actividade, é sua obrigação prestar esse serviço ás lettras.
Em todo caso não tive imitadores. Tive um antecessor illustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria proseguido no caminho das suas estréas, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as creações que depois nos deu. Será peciso acrescentar que alludo a V. Ex.?
Escolhendo-me para Virgilio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a propria carta de V. Ex. não houvesse aberto ao neophyto as portas da mais vasta publicidade. A analyse póde agora esmerilhar nos escriptos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.
Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural anciedade que nos produz a noticia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.
Não tive, como V. Ex., a fortuna de os ouvir deante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes deante de mim: não tinha os pés n’essa formosa Tijuca, que V. Ex. chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano. Em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara á loucura: estávamos no carnaval.
No meio d’esse tumulto abrimos um Oasis de solidão.
V. Ex. já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou comsigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo publico, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escriptos do poeta.
Não podiam ser melhores as impessões. Achei uma vocação litteraria, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista – no dizer, nas idéas e nas imagens. Copial-as é anullar-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se advinha que a sua escola é a de Victor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irman levou-o a preferir o poeta das Orientaes ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.
Como poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com egual inspiração e methodo idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma fórma esculpida com arte, sentindo-se por baixo d’esses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a fórma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possue; veste as suas idéas com roupas finas e trabalhadas. O receio de cahir em um defeito, não o levará a cahir no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja d’elle. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas bellezas.
O drama esse li-o attentamente; depois de ouvil-o, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada pagina do volume.
O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metaphoras enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sophocles pede as azas a Pindaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o CEO de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.
Esta exhuberancia, que V. Ex. com justa razão attribue á edade, concordo que o poeta ha de reprimil-a com os annos. Então conseguirá separar completamente a língua lyrica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.
Estreando no theatro com um assumpto histórico, e assumpto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidencia tinham além d’isso a aureola do martyrio. Que melhor assumpto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquella veneração que as raças livres devem aos seus Spartacus. O insucesso fel-os criminosos; a victoria tel-os-hia feito Washingtons. Condemnou-os a justiça legal; rehabilita-os a justiça histórica.
Condensar estas idéas em uma obra dramática, transportar para a scena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objecto do Sr. Castro Alves, e não se póde esquecer que, se o intuito era nobre, o commettimento era grave. O talento do poeta superou a difficuldade; com uma sagacidade, que eu admiro em tão verdes annos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquella o póde accusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Ex., conhecem esta alliança, hão de avaliar esse primeiro mereceimento do drama do Sr. Castro Alves.
A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circumstancia dos seus legendários amores, de que é história aquella famosa Marilia de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circumstancia. Do processo resulta que o cantor de Marilia era tido por chefe da conspiração, em attenção aos seus talentos e lettras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu á conspiração com uma actividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.
Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao theatro o elemento feminino, e de um lance casavam-se em scena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circumstancia foi bem aproveitada pelo auctor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dous sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no teceiro acto, o poeta não hesita em repellir esse recurso, apesar de ser imminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se elle as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a licção do velho Horacio corneiliano; entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.
O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se póde deixar de recorrer á história; supprimir esta condição é expor-se a critica a não entender o poeta.
Que vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquelle conjurador impaciente e activo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e emprehende, que confia mais que todos no successo da causa, e paga emfim as demasias do seu cararcter com a morte na forca e a profanação do cadaver?
E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo alli, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aquelles emigrados do Terror?
Não lhe rola já na cabeça a Idea do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquelle o denunciante Silverio, aquelle o Alvarenga, aquelle o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência litteraria do auctor. A historia nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquella exaggeração artística, necessária ao theatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciaes de uma epocha ou de um acontecimento.
Concordo que a acção parece ás vezes desenvolver-se pelo accidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influencia do principio contrario em toda a peça.
O vigor dos caracteres pedia o vigor da acção; Ella é vigorosa e interessante em todo o livro; pathetica no ultimo acto. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns bellos versos fecham este drama, que póde conter as incertezas de uma talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréa.
N’esta rápida exposição de minhas impressões, vê V. Ex. que alguma cousa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a Idea da abolição. Luiz representa o elemento escravo. Comtudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr n’aquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela lucta entre a natureza e o facto social, entre a lei e o coração. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira affirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois.
Por isso, quando no terceiro acto Luiz a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluções, o coração chora com elle, e a memória, se a memória póde dominar taes comoções, nos traz aos olhos a bella scena do rei Lear, carregando nos braços Cordelia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.
Cumpre mencionar outras situações egualmente bellas. Entra n’esse numero a scena da prisão dos conjurados no terceiro acto. As scenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Ex. alludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astucia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.
As scenas amorosas são escriptas com paixão; as palavras sahem naturalmente de uma alma para outra, prorompem de um para outro coração. E que contraste melancholico não é aquelle idyllio ás portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dous amantes!
Dir-se-ha que eu só recommendo bellezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais – duas ou trez imagens que me não parecem felizes; e uma ou outra locução susceptível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da fórma? Que as demasias do estylo, a exhuberancia das metaphoras, o excesso das figuras devem obter a attenção do auctor, é cousa tão segura que eu me limito a mencional-as; mas como não acceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que póde ser a sabia economia de amanhan?
Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só a licção do facto, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessôaes aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caracter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dynastia, apagaram antipathias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.
Taes foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escripto com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do auctor suppre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciencia. Está moço, tem um bello futuro deante de si. Venha desde já alistar-se na fileiras dos que devem trabalhar e restaurar o império das musas.
O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o successo coroará a obra? É um ponto de interrogação que ha de ter surgido no espirito de V. Ex.. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que ha um obstáculo, e V. Ex. o sabe também: é a conspiração da indifferença. – Mas a perseverança não póde vencel-a? Devemos espera que sim.
Quanto a V. Ex., respirando nos degráos da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vae meditando, sem duvida, em outras obras primas com que nos há de vir surprehender cá em baixo. Deve fazel-o sem temor. Contra a conspiração da indifferença, tem V.Ex. um alliado invencível: é a conspiração da posteridade.
ASSIS. Joaquim Maria de; ALECAR, José de. Correspondências. Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson Inc. Editores, 1947.439p.
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Da coleção de poesias “Uma lua no céu”, publicado em 1961.
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Vulto Lírico, poeta de primeira grandeza e humildade
imagem: lab61
Elogiado por Antônio Olinto, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros consagrados, o autor por quem nos manifestamos é um vulto do pensamento e de nossa literatura; lido, respeitado, conhecido e admirado nos círculos literários de todo o país. Podemos encontrá-lo facilmente nos mares da rede. Há boa quantidade de tributos, citações, entrevistas, conferências, trabalhos acadêmicos. Escritores das mais díspares vertentes debruçam sobre seus escritos. Euler de França Belém afirma sem tremer: “(…) é uma espécie de Otto Maria Carpeaux que ainda não conquistou o Brasil, e com dois detalhes a mais: é excelente tradutor e poeta(…)”
Experimentemos, de entrada, nossa bebida socializadora, variável em cores, tons e intensidade. Assim somos nós brasileiros e brasileiras. Que sommelier não desejaria no seu material de merchant a voluptuosa degustação?
IMPROVISO ESPIRITUOSO
Loura e leve, sutil e deliciosa,
ao teu contacto a inspiração se apruma.
De te beijar a coma vaporosa,
tenho no lábio um mar de doce escuma.
§
Aspiro-te a fragrância capitosa,
sorvo-te as maravilhas, de uma em uma,
e ao fim me tens, rainha caprichosa,
ajoelhado escravo, a mente em bruma.
§
Teu espírito voa, e o meu, na trama
que voluptuosamente lhe entreteces,
voa também, em um céu, um céu reclama!
§
Mas eis sucumbe em sonolência espessa.
É que, gentil cerveja, se me desces
ao coração, tu sobes-me à cabeça.
Brasília, 25.III.1977
Coloquemos, em brevíssima passagem, a vida poética do homem antes do nome.
Um brasileiro nasce em meados dos anos 1930, em Minas Gerais, filho de pais professores e — vejam só! — poetas. Na infância, aproveitando a oportunidade, torna-se devorador de livros e gibis, não menos atento às improvisadas histórias contadas pela mãe educadora à cabeceira da cama. Esse período nutritivo passa-se em Goiânia. Enquanto cresce peregrina com os pais por várias cidades de Minas. Fixa-se em Leopoldina, cidade vizinha à Cataguases do modernismo mineiro. Sob o canto de Castro Alves, parnasianos e simbolistas, o rapaz é chamado a ser poeta.
CIGARRA
Quando à tarde no céu se escuta a prece
que entoa a Criação da Ave-Maria,
canta a cigarra, canta e se estremece:
núncia da noite sepultando o dia.
§
Pobre cigarra! Canta como em prece,
e ninguém, escutando-a, desconfia
que no canto a alma simples lhe estremece
e é o canto o último raio do seu dia.
§
A tanta gente assim como a cigarra
a dor na pálpebra fechada esbarra,
mas— na suave transfiguração
§
que nos redime desta pobre argila—,
se em lágrimas dos olhos não destila,
vem aos lábios em forma de canção.
Leopoldina, 8.X.1950(…)
Pelo que nos parece, travessuras à parte, foi ótimo filho e excelente aluno. Fez e ainda faz jus à sorte do berço e à chance da vida. Trata-se de mais um de nossos cidadãos exemplares que idealizamos para entre nós, artistas de espírito público.
Chega à juventude e muda-se para o litoral. No Rio de Janeiro estuda, escreve, poetiza, dialoga com seu tempo desafiando as “vanguardas” estabanadas e barulhentas:
AO LARGO, OUSADO!
é mister tudo ousar
quebremos os nossos ídolos
depois colaremos os pedacinhos
os velhos
ídolos
caídos
entrecomidos
pelos séculos
o tempo é um gato que nos espreita
pra que chorar
copiemos a sagacidade dos ratos
olhemos com ternura os nossos ídolos
não é preciso quebrá-los
quebremos antes o encanto
Ao largo, ousado!
copiamos sempre alguma coisa de alguém
somos parentes do macaco
os nossos símbolos são sapatos velhos
mais cômodos porém gastos
Ora (direis) somos poços esgotados
pois eu digo enchamo-los de vento
nada mais moderno abstrato
aéreo
altercam lá fora há muito barulho
enquanto isso a palavra vai roendo a poesia
mas o tempo espreita
Rio de janeiro, 17.XII.1957
Em 1960 finca raízes na sonhada Brasília. Nessa época dão-se os últimos graus da fervura ideológica alimentada em décadas anteriores. Tempo de rupturas, dissidências, divergências, interrupções de diálogos, proselitismos. O autor expressa bem o sofrimento nos ambientes socioculturais. Comoventes composições são desse momento difícil, de quando podemos citar: “Incomunicações”, “Babélica”, “O tempo do homem”, “Torres”, “Antipalavra” e “Antibabel”. Desse período, cantemos baixinho a poesia em seu estado de potência, criatura à espera dos movimentos do criador:
APOESE
Mudas, incriadas,
jazem no possível
todas as palavras.
Nesse limbo inscrevem-se
invisivelmente
todos os poemas
ditos, por dizer,
mais os indizíveis.
Nesse limbo se amam,
bicam-se as palavras,
numa intimidade
por nós mal sonhada.
Relações repousam
insolicitadas,
frases adormecem
de desinvocadas,
e afinal se cruzam,
crispam-se, eriçadas
na ânsia de uma língua
—boca, pena, gesto.
Nesse inesgotável
lago das palavras,
onde tudo encontra
seu signo prateado,
mergulhou o Homem
e pescou sofismas,
teses, xingamentos,
jogos, alguns poemas.
Infinito é o Sonho
que, irrealizado,
dorme em apoese
nesse obscuro lago.
Brasília, 31.III.1963
Cultor da língua e das artes, não se rende aos desintegradores da linguagem. Posta-se consciente em defesa do que compreendemos por TRADITIO, o entendimento e a prática de receber, cuidar, trazer e entregar: eis a origem e o sentido amplo da palavra tradição. Nosso artista aperfeiçoa e tradiciona bem. Vejamos o poema abaixo em que o mineiro-candango se autodescreve com base no seu signo do zodíaco. Uma espécie de autorretrato temperamental. São, curiosamente, onze quadras de versos brancos e potentes, em consonância numérica com o mês de novembro do calendário gregoriano. Sem esmorecer o homem-poeta reluta e sonha alto com os pés no chão.
ESCORPIÃO
Metálico, magnético, mirífico,
concreção do mistério em geometrias:
escorpião. Equilíbrio e desengonço.
Tão telúrico bicho e tão dos astros frios.
§
Cauteloso, talvez triste, avança, lança em riste.
Que faz no escuro, no úmido e no mofo
que contradiz o seu perfil mecânico?
Pólo e deserto funde, gelo e cálculo.
§
O escorpião tem reservas de malícia
ocultas sob camadas de silêncio.
Mesmo em repouso, agudo: espinho a proteger-se
Invisível flor de inviso perigo.
§
Por isto o escorpião está sempre em guarda,
dormindo com dois dedos no gatilho.
E de repente, sem nenhuma ofensa aparente,
exorbita-se em fúria vingativa.
§
Uma inveja lhe dói: não se centauro,
não se anfíbio, o peixe-pássaro, ele
que atira os olhos no alto e, em vez de duas asas,
tem oito patas a prendê-lo à terra.
§
Por isto é tão concentrado o seu ódio
e lhe estorva ainda os passos mais serenos.
E para não poluir o sonho de tanto ódio
descarrega em si mesmo o seu veneno.
§
Ridículo animálculo romântico
e parnasiano, síntese grotesca:
sólida, fria construção de engates rígidos
e formas libertando-se dinâmicas;
§
maligno duende, anjo desamparado
das potências na solitária luta,
ferras à terra, em guerra, as possessivas garras
e acima, acima, a chispa metalúrgica!
§
Torturado escorpião, que os astros sondas
e em anfractos arrastas-te, maléfico,
ínfimo na íngreme escarpa evolutiva
marchas— mas que apoplético e perplexo!
§
Bicho da terra, animal metafísico,
os pés na pré-história e um olho no futuro,
passeando o apêndice interrogativo
no círculo de luzes do zodíaco,
§
animal sem presente, entre duas eternidades
sufocando oscilante, entanto lúcido,
oh! Ama este aracnídeo, ávido amante,
que não é Carne ainda e sonha-se Anjo.
Brasília, 24.X.1971
Não sejamos orgulhosos. Não tenhamos receio de afirmar: é vulto! Exerceu jornalismo, magistério e tradução. Fez e continua por fazer incontáveis amizades. Ensina com amor, é generoso com principiantes. Reconhece os talentos dos companheiros de ofício. Sensível, erudito, humilde, solidário. Ama os idiomas e as nações. Entrega-nos bastante de sua experiência humana. Participou e testemunhou boa parte do século XX e praticamente todo esse início de século em matéria de literatura brasileira e um pouco da latina. Entendido de Castro Alves, Bilac, Bandeira, Cruz e Sousa e tantos outros. Em seguida dois ensinamentos a nós aspirantes: a) entrevista concedida a Nelson Hoffmann pelo periódico O Nheçuano e b) poema que segue:
O homem é paciente e operoso, diz acertadamente o seu amigo José Jeronymo Rivera. Faz-se crítico e ensaísta com prosa estilística luminosa, capaz de nos revigorar o esforço pela beleza. E sua poesia ergue-se como um edifício firme, fácil de se captar e reter, justamente pelo equilíbrio entre sentimento, imaginação, técnica e sabedoria. Desfrutemos de mais esse soneto, da coleção dos “visionários”:
PÂNTANOS
Caía o luar nos pântanos tranqüilos.
Um sapo-boi coaxava tristemente.
A sinfonia sem calor dos grilos
enchia o quarto e entrava-me na mente.
§
Pus-me a escutá-los, momentaneamente:
cantavam mal…E eu me cansei de ouvi-los,
metendo o olhar, indagadoramente,
dentro da noite plena de sigilos.
§
Loucas perguntas, que ninguém responde,
em mim ecoavam, como numa furna.
E ébrio de sono e angústia, de repente,
§
julguei que os homens fossem brejos, onde,
regendo a triste orquestração noturna,
um sapo-boi coaxasse gravemente…
Soneto Antigo, p.95
Para revitalização da poesia brasileira faz-se necessário antes divulgarmos o peso dos que não puderam vir à baila numa intensidade compatível com sua grandeza. Precisamos reverberar com prazer máximo os autores que foram astuciosamente postos à margem por certos “movimentos editoriais” e “pactos de leitura”. Nós apreciadores de boa arte, crentes e enfezados na ideia certa de que obras excelentes contribuem para elevação da alma humana, sonhamos com eminente poesia em forte circulação.
A literatura desse vulto – poemas, ensaios, contos, entrevistas, aulas, palestras, traduções – pede por ser lida e ouvida por mais pessoas, mais comentada por nossos críticos e jornalistas culturais. Insistimos não tanto pelo autor, homem moderado e consciente de já ter feito muito da sua parte, mas por solidariedade a nós mesmos, compatriotas e falantes da língua. Que sejam incluídas suas obras nos exames de vestibulares! Dos seus ensaios temos àmão “Testemunho & Participação” e “Do que é feito o poeta”. Há também o “Proclamações” a ser explorado. A respeito do primeiro alguém exclamou: “Como é que obra dessa fica fora de circulação comercial?! Só de dar com os olhos na mina já se encontra inúmeras pepitas…além de agradável leitura, trata-se duma compilação valiosa para estudo e pesquisa em história literária.”
Conselhos editoriais, comissões de vestibulares, institutos, enfim, o mercado de bens simbólicos adiando ou atendendo logo nossa solicitação, uma coisa é certa: Anderson Braga Horta já influencia leitores, escritores e poetas de hoje, bem como influenciará outros muitos de amanhã. Ao lermos seus fragmentos críticos, onde se registra cristalinas reflexões, concluímos definitivamente que o autor está dentre os mais bem estruturados ombros da poesia contemporânea, da língua portuguesa, do florão da América e de todo o continente.
É hora de irmos além da respeitabilidade, do reconhecimento, dos elogios e dos prêmios. É hora de pormos os frutos do lavrador à mesa dos famintos!
Encerramos com…
SONETO DE AMOR ANTIGO
Antes de tu nasceres, eu te amava:
de um amor sem objeto,
de um puro amor à espera:
querendo-amar, nos limbos do intocado.
§
E inda antes de eu nascido, já te amava:
no antegosto secreto
da vida em outra esfera,
na alma anterior ao corpo entressonhado.
§
Eu sempre soube o teu olhar profundo,
antes mesmo dos olhos, num passado
quando eras pura essência, além do mundo.
§
Cerra o tempo as cortinas e as descerra,
e eis-me sempre a teus pés ajoelhado.
Meu amor é antigo como a Terra.
REFERÊNCIAS:
ANE. Associação Nacional de Escritores. Membros. Brasília, 1963. Disponível em:< https://anenet.com.br/> Acesso em 17 novembro de 2019.
ALMEIDA, Pinto J.R. de. Poesia de Brasília: duas tendências. Brasília: Thesaurus, 2002. 136 p.
HORTA, Anderson Braga. Soneto Antigo. Brasília: Thesaurus, 2009. 213 p.
_______. Do que é feito o poeta. Brasília: Thesaurus, 2016. 412 p.
_______. Signo: antologia metapoética. Brasília: Thesaurus,2016. 412 p.
_______. Poeta de primeira grandeza. O Nheçuano, Roque Gonzales – RS- Nº 42, p. 6-8, agosto/setembro. 2019. Entrevista concedida a Nelson Hoffmann.
_______. Encontro de cinco poetas numa não esquina de Brasília. Lab61(uma homenagem ao Brasil) Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=J5Yi7FPiY_Y >. Acesso em 15 julho 2019.
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Nota: Nasci no inusitado dia 07/07/77, com sôpro inocente no coração, no bairro de Santa Efigênia , em Belo Horizonte. Minha mãe, que na época não acessou ultrassonografia, torcia por menina. Cresci no Conjunto Habitacional Cristina “C”, na parte baixa da cidade histórica de Santa Luzia/MG.
contato: lopeslarocha@gmail.com
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Tasso da Silveira em 1972 – ao organizar e criticar poemas do autor na coleção Nossos Clássicos da Agir Editora – elegeu o presente poema como “talvez o mais belo do idioma”.
SORRISO INTERIOR
O ser que é ser e que jamais vacila Nas guerras imortais entra sem susto, Leva consigo esse brasão augusto Do grande amor, da nobre fé tranquila
Os abismos carnais da triste argila Ele os vence sem ânsias e sem custo… Fica sereno, num sorriso justo, Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza Dão-lhe essa glória em frente à Natureza, Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores… E para ironizar as próprias dores Canta por entre as águas do Dilúvio!
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(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)
Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.
Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!
Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.
Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.
Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.
Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.
O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.
Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.
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A fala e a cala constituem o diálogo – ou o monólogo –, a prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.
O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.
A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.
Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.
O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaios para o clamor e louvor.
A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.
Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.
Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen Rosenstock–Huessy.
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A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.
É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.
É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.
Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?
O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…
Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.
Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!
Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.
Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.
Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.
A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.
Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.
Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.
Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.
Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.
Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.
Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?
Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.
Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.
Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?
É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.
Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.
Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.
A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.
Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.
O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.
Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!
Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.
Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/
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Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.
Em brochura grampeada, com sobras de papel da gráfica, de corte torto, capa feia e improvisada, saiu uma edição tôsca e pobre, não só pelo fato de ser independente e autofinanciada, mas também por incompetência de todos nós, autor-editor, diagramador, gráfica impressora etc.
A intenção era demonstrar a importância com que sempre tratei a Literatura e expor um estilo individual eclético, no intuito de agradar o maior número possível de leitores e ouvintes. Os poemas foram divididos em quatro partes: a) memória pessoal; b) temas políticos e socioeconômicos; c) experiências com namoros e d) metalinguística. Quanto às canções, selecionei as que eu julgava serem as melhores na época.
Quis modéstia no título e pus “Poemas e Canções”, pois admitia minha imaturidade pessoal e artística. Agora nessa segunda distribuição há um novo intuito: retomar esse marco de minha trajetória.
Obra de jovem estreante, percebe-se marcante cadência típica do letrista, rimas imperfeitas, versos livres a procura de certa harmonia assimétrica; um tom de fala ao mesmo tempo memorialístico e confessional. Artes e pecados da infância, paixões juvenis com influência de Adelino Moreira, o espaço semi-urbano, os sonhos e as aflições próprias dos que trabalham em reflexão e contemplação em meio as urgências da vida, das tragédias humanas e sociais. Veremos esses últimos cenários, por exemplo, em “psicológico” (página 10), “temorte (na sua área) ” e “Nos sinais” (página 18).
Nas duas últimas canções (Cata-vento e Neandertlhal) teremos canto à liberdade e um lamentoso apelo. É que antes de nos apresentarmos como escritores, antes mesmo de declararmos a primeira estrofe, àquela época já percebíamos o desprezo e a indiferença para com os novatos. No geral, quando se falava em arte, só se pensava em reconhecimento, exposição, fama, carreira profissional e vida pública luxuosa. Esquecia-se dos artistas como exemplos à sociedade, como cidadãos influentes na ética e moral de um povo. Hoje, porém, sabemos que a fria educação pela pedra de um João Cabral de Mello Neto norteou o senso de um Ministro da Fazenda Antônio Palocci; e que aquele Glauber Rocha animou o coração e a mente dum poeta e Presidente da República José Sarney. Um simples estribilho pode, na sua devida proporção, influir na história de várias gerações.
Hoje o desprezo, a indiferença e o ato de recusar contribuições literárias e artísticas em geral são efeitos de várias causas, e dentre elas podemos citar o declínio do ensino e aprendizado, o desamor pelo idioma, a imposição do entretenimento e do lazer prazeroso, a anulação da atividade crítica e a intensificação das degradantes guerrilhas culturais e espirituais. Vejo as forças criativas perderem sua fecundidade e segregarem-se em ilhas tribais fervidas por conspirações, estratégias, táticas, agendas e atitudes que, às vezes, culminam em histerias coletivistas ou até em campanhas de reivindicações hostis e ódio. Essas vias obscuras em muito nos entristecem.
Os critérios norteadores do fazer literário deixaram de ser a beleza, o amadurecimento da escrita, a riqueza de conteúdo, a força das expressões, a hombridade ética e estética do autor. Vieses ideológicos, de crenças ou descrenças são fatores determinantes para fazer repercutir ou não a voz dum pobre sujeito. Serão forças suficientes para calar algum filho de Deus capaz apenas de honrar seus próprios ombros? Só Ele pode nos responder, e a resposta virá certamente no Tempo Dele.
A presente reedição, com prefácio e informações complementares confirma minha escolha desde o início: o caminho da arte livre, consciente, independente, sóbria, responsável, baseada na razão, no sentimento e na compaixão. Esse pequeno percurso me impulsiona e me alimenta na missão de alcançar o máximo de pessoas dispostas a apreciarem Língua Portuguesa do Brasil, Literatura Brasileira, poesia inspirada e letra de música.
Belo Horizonte, 07 de julho de 2017.
Sobre o autor
Filho de José Maria Rocha, bombeiro hidráulico e Dulce Francisca Lopes Cançado, do lar, nasci em 07 de julho de 1977 em Belo Horizonte. Meus pais, nessa época, moravam no bairro de Santa Efigênia. Em dezembro de 1981, movidos pelo sonho da casa própria, mudamos para o Conjunto Habitacional de Interesse Social (Cohab-MG), mais conhecido como Conj. Cristina, próximo ao bairro São Benedito, na cidade de Santa Luzia.
Estudei o primário na E.E Jacinta Enéas Orzil, onde iniciei meus primeiros escritos, estimulado pelas aulas de comunicação e por canções que ouvia na voz de minha mãe. As demais séries do primeiro e segundo graus cursei na E. E Raul Teixeira da Costa Sobrinho já compondo uma variedade de letras, poemas e demonstrando notório interesse por nossa Literatura Brasileira. Dentre as funções que exerci estão: vendedor ambulante, balconista, empacotador de compras em supermercado, repositor, office-boy, auxiliar de escritório e leiturista em relógios medidores de energia elétrica.
A partir de 2002 trabalhei como balconista novamente, auxiliar de tesouraria, carteiro, professor de violão, músico de bar, auxiliar de serviços gerais. Colaborei voluntariamente em duas associações culturais luzienses. Idealizei e concretizei dois periódicos literários: Cabeça de Papel (2002) e Pingo de Ouvido (2015). Em 2006 integrei o curso de crisma do método da Catequese Narrativa, na comunidade Santo Inácio entre os cristinenses; crismei, batizei e, sendo já cristão, firmei publicamente minha Fé Católica. Estudei um período de administração em 2007. Dediquei-me em dois cursos técnicos e vários outros profissionalizantes no período de 2009 a 2014. Apresentei-me em alguns festivais de música, mostras e recitais. Publiquei dois álbuns musicais nas plataformas Onerpm e Youtube. Até meados da década de 2000 almejava profissionalizar-me inteiramente nas atividades artísticas, até que em 2005 decidi por me tornar, antes de qualquer desejo profissionalizante, um artista de testemunho e obra. Trabalho, atualmente, como assistente administrativo e estudo várias disciplinas de forma autônoma. Conquistei amores e desafetos, como é natural com todo ser humano. Ganhei um filho amoroso. Nos últimos anos venho me reaproximando das origens familiares, curtindo tias-avós, tios, primos, primas, padrinho, madrinha. Ouvindo deliciosas histórias como nunca. Ganhei também duas afilhadas, quatro cachorrinhas lindas e a família só lá vai crescendo…
Hoje, sob as mais variadas influências, tanto da arte como das diversas convivências… “ao contrário dos que escrevem e rasgam, mando meu timbre não por vaidade; é para desafiar esse instrumento de infinitas faces, comprometedor e bambo que é a palavra. Contudo, lembro que não deixo apenas palavras, lanço também a minha unidade e um pedacinho do meu universo. Quando me ponho a liberar o que me borbulha aqui dentro, a letra e o som são os códigos de que disponho… um violão de estudo e u’a máquina de escrever, isso é tudo, tudo que eu tenho. Dependendo do estado em que me encontro, eles se entrelaçam ou pouco se aproximam. Cabe a mim então a paciência… esperar para ver ‘quem’ é que vai ficar só e ‘quem’ é que vai ficar junto. Isto é, a Inspiração Divina é quem determina se o texto permanece poema lírico ou se converte em letra musical, canção”.
Eis, junto dos poemas, algumas composições do período de 1997 a 2001, quando passei a compor com maior frequência e a realizar estudos autônomos em música.
Santa Luzia, 09 a 15 de maio de 2001.
Com informações complementares em 07 de julho de 2017.
a toda minha família
e amigos
a vin car lag, “cum panis”
inseparável nessa
trilha
a Sebastião Villas Boas
por todo apoio
e pelas primeiras afinações
(em memória)
[2001].
“… numa transa com os nervos, a música instigando o ser e dando-lhe a insistência para falar de si, de seu meio, de seus atos.
Mais pela vontade de desengavetar, registrar e fazer repercutir. Já que todos nós sabemos de nossas dificuldades – e não somente no plano artístico –, deixo aqui aos leitores e ouvintes uma enorme consideração. ”
Agradeço a:
Deus, Mamãe, Alexandre (irmão), todos os meus professores, todas as pessoas que trabalharam comigo, meus amigos, colegas músicos e artistas, apoiadores e apreciadores. Flávio Aguiari (em especial) e a uma pessoa que, sem ela, esse trabalho não se concretizaria: Raquel Rezende.
vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô vê sô verso verso verso verso verso verso verso verso verso verso verso verso verso pois é pois é pois é pois é pois é pois é pois é pois é pois é pois é poisé poesia poesia poesia poesia poesia poesia poesia poesia poesia poesia po
Babacanetababa
Babapelomenos
Babacanetababa
SoutristepremiadoDesgraçadofeliz
Poetizo
[4]
Sobre poesia
aprendi com um amigo-vizinho
conversar fiado sozinho…
CANÇÕES
Nos sinais
Deus branco nu olhando por uma criança negra
e uma branca fugindo de um demônio vestido de capa preta
Tv a teleguiar os olhos negros de uma índia
e uma daquelas amarelas trocando um chip
Uma ele, uma ela
de barriga cheia esperando mais crianças
sem barriga, sem pança
das que cansam de esperar a hora
das que jogam pedra, fumam pedra, jogam bola, dão bola
cheiram à fralda, cheiram coca, cola
das que correm, dormem, morrem, pedem, roubam
pé-de-cana, mão-de-caneca, pé-de-erva
das que não pedem para nascer
Maria que não queria família com filhos filhas
ouvindo: quem não crer, não quer criar, que não dê cria
[1] Página 10. Referência ao conflito étnico-cultural entre albaneses e sérvios na região de Kosovo.
[2] Página 12. Estrofe utilizada posteriormente na canção “à espreita da aurora”, disponível em youtube.com/user/Lopesdelarocha.
[3] Página 16. Jogo fônico-formal. Só depois descobri que o Décio Pignatari tem algo parecido composto em 1977. É de fato influência dos concretistas por meio de livros didáticos de Língua e Literatura da década de 1990. Poema composto durante exercícios do curso de datilografia.
[4] Página 16. Grupo fônico da frase no pentagrama. Clave substituída pelo emblema do movimento anarquista. Frase expletiva exprimindo afirmação dúbia.
[5] Página 19. Esta canção inspirou uma outra intitulada “Tatame”, que integra o álbum “à espreita da aurora” de 2014.
[6] Página 21. “Credi-canja Master-Sopa” é expressão criada por Eder Jack de Andrade Silva na fila para servir a merenda da E.E Raul Teixeira da Costa Sobrinho, também em meados dos anos 90.
[7] Página 23. Letra da canção Cata-vento foi musicada e cantada por Flávio Aguiari na primeira edição em 2001.
Créditos
(Poemas e canções)
172.199.289-345 FBN
4124-105-030 E.M.D.A
C.I Nº 408 FBN
Capa e ilustrações 1º edição: Lopes C. de la rocha
Ilustração nº 03: Raquel Rezende
Voz e violão: Lopes C. de la rocha
Voz em ‘Cata-vento’ (Part. Especial): Flávio Aguiari
Gravado do Studio Plug-In em 09 e 15 de maio de 2001
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Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.
Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.
Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.
Peri: principal personagem do romance O Guarani, de José de Alencar.
Voragem: sorvedouro, abismo.
Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.
Jati: abelha pequenina.
Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.
Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.
Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.
Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.
Descambar: cair, derivar.
Arrojo: bravura.
Minuano: vento que sopra no pampa.
Rancheira: música típica da região sulina.
Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.
Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.
Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.
Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.
Osmar Barbosa — Poeta, escritor, tradutor e professor, nascido em vitória, no Espírito Santo, em 1915. Lecionou no Rio de Janeiro, na década de setenta. Colaborou em vários periódicos católicos sob o pseudônimo de Frei Solitário. Publicou numerosas obras sobre ensino e literatura, entre as quais História da Literatura Brasileira, Antologia da Língua Portuguesa, A arte de falar em público, Dicionário de Verbos Franceses, Dicionário de Sinônimos Comparados; Bilac: tempo e poesia; Colheita matinal, Para as mãos de meu amor.
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Além de sua família, vovó adora também plantas, animais, crianças e poesia. Na verdade, ela adora tudo o que é bonito, ela diz que é “fã da beleza”, seja a beleza material, seja a espiritual. Ela é capaz de ficar horas e horas admirando uma flor, olhando para o céu estrelado ou ouvindo o canto de um pássaro, como é capaz também de chorar de pura emoção ao ouvir contar de um gesto nobre, de um esforço sincero ou de um gesto de amor ou de perdão.
Agora, o que ela gosta mais do que tudo é de escrever, contar estórias, e principalmente, de fazer poesias. Todos os netos já têm uma poesia sua. No fundo do quintal há um grande caramanchão de palha por onde sobe um lindo pé de maracujá. Uma vez, quando ele estava todo em flor, vovó mostrou essa flor, também chamada “flor da Paixão”, é estranha e linda. Ela dá na época da Quaresma, é roxa como a Paixão, e tem todos os símbolos do sofrimento de Cristo: a coroa de espinhos, a cruz, os cravos com que ele foi pregado e a lança que abriu seu lado esquerdo. É uma verdadeira jóia da natureza.
Lá nesse caramanchão, de vez em quando, vovó gosta de reunir os netos e contar-lhes estórias; às vezes são estórias de imaginação e fantasia, com aventuras de fadas e bruxas, outras são estórias verdadeiras, “casos” acontecidos de verdade, que são igualmente interessantes. Aliás, ela diz que a verdade é mais extraordinária que a ficção, que as coisas mais assombrosas e mais incríveis não são tiradas da fantasia e, sim, da realidade…
Maria Alice Penna de Azevedo, “Domingo é dia de folclore”. Introdução. Sobre Vovó Lita. P.6. Editora Paulinas. 1988.
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Mancebos (se os há aí que se dêem às letras), vós que encetais a mui árdua e perigosa vereda que pelas letras conduz à fama, seja qual fôr o gênero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejam mais forem os louvores que os velhos na arte vos concedam, e os aplausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de aparecer: os conselhos que Horácio vos deu duram com toda a força que a natureza e a prática lhe bafejaram. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove anos, chamar e tornar a chamar dez vezes à unha a obra já perfeita. O amor próprio nos persuade e impele a aparecermos cedo: devia dêle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas.
Trecho retirado do Livro “Conheça o seu idioma 6º volume” CIL S.A (1971), de Osmar Barbosa.
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Percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.
§
Não que sejam iguais, nunca serão iguais!
São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.
§
Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
Nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
Nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
Um dia, sua mulher esteve numa canção
Numa história não sua, numa infância platônica
Todas as mulheres estarão num só romance
Queimam numa só paixão, numa só saudade
Gemem todas as mulheres.
§
Nossas mulheres vão à escola
Ensinar-nos o que é ser mulher,
Despertando-nos adolescentes paixões
Elas são únicas em si e sempre as mesmas
Dividem-se quando só
Multiplicam-se quando juntas:
§
Mamelucas com cacheados crespos
Mulatas de alisados loiros
Ruivas com tingidos castanhos
Cafuzas de trançados negros
Estéreis e felizes; férteis e entristecidas
Sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
Mulheres policiais, guardas e sargentos
Mulheres soldados rígidos
E delicadas freiras consagradas.
§
Há em todas apenas um chôro
Um mesmo desespero quando em desamparo
Sem um irmão, sem um filho, sem um pai
Sem nem um namorado ou sem um marido.
§
Trazemos em nossa memória
A velha virgem num leito de morte
Sonhando-se no altar à espera do noivo
Cortam nas maçãs de seu rosto
Duas lágrimas e explodem na cama
Como se arrebentam no mundo
Estrelas desprendidas do Céu.
§
Não consegue ver a sua no vestido da estranha?
Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado
de sua íntima e querida?
O perfume da que de vista se conhece
não coincide com o da sua mulher, às vezes?
E no detalhe duma sandália não expressará
a cor predileta de sua amada?
§
Pelas feiras perambulam
Pechinchando e fazendo compras
Com seus corpos __ velas de cêra
Cujas cabeças iluminam.
§
Unidas e separadas por preferências
e valores; por utopias e Religiões.
§
No fim das manhãs e das tardes
Na estação do trem e do Brt
São despejadas aos milhares:
Brotos e botões
Expansivas e acanhadas
Murchas e desabrochadas
Verdes e “de vez”
Maduras e apodrecidas.
§
Hoje vi uma apodrecida
De rancor e arrependimento
Confundiu um caso passageiro
C’o homem ideal de sua vida.
§
Vi também u’as entorpecidas
De corações aos vômitos
Pelo ópio das ideologias
Invertem Romeus em Rômulos*
E sentem-se perseguidas.
§
Sendo todas as mulheres uma só,
Com diferentes almas
Corpos e espíritos;
Com parecidas origens
E semelhantes destinos…
§
Tudo podemos tão somente
Por uma única mulher,
Já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única
Não vale à pena trocá-la por Outra
E nem às outras é justo enganá-las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.
***
(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.
Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.
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O que eu dizia em 1878 a este poeta, dizia-o em 1872 ao auctor das Nevoas matutinas. Não dissimulei que havia a sua primavera mais folhas pallidas que verdes; foram as minhas próprias expressões; e argui-o dessa melancolia prematura e exclusiva. Já lá vão sete annos. Há quatro, em 1875, o poeta publicou outra collecção, as Alvoradas; explicando o título, no prólogo, diz que seus versos não têm a luz nem as harmonias do amanhecer. Serão, accrescenta, como as madrugadas chuvosas: desconsoladas, mudas e monótonas. Não se illuda o leitor; não se refugie em casa com medo das intempéries que o Sr. Lucio Mendonça lhe annuncia; são requebros do poeta. A manhã é clara; choveu talvez durante a noite, porque as flores estão ainda humidas de lagrimas; mas a manhã é clara.
A comparação entre os dous livros é vantajosa para o poeta; certas incertezas do primeiro, certos tons mais vulgares que alli se notam, desappareceram no segundo. Mas o espírito geral ainda é o mesmo. Há, como nas Névoas matutinas, uma corrente pessoal e uma corrente política. A parte política tem as mesmas aspirações partidárias da geração recente: e aliás vinha já de 1872 e 1871. Para conhecer bem o talento deste poeta, há mais de uma pagina de lindos versos, como estes, Lenço branco:
Lembra-te, Anninha, perola roceira
Hoje engastada no ouro da cidade,
Lembras-te ainda, ó bella companheira,
Dos velhos tempos da primeira idade?
Longe dessa botina azul-celeste,
Folgava-te o pézinho no tamanco…
Eras roceira assim quando me déste,
Na hora de partir, teu lenço branco;
ou como as deliciosas estrophes Alice, que são das melhores composições que temos em tal genero; mas eu prefiro mostrar outra obra menos pessoal; prefiro citar A família. Trata-se de um moço, celibatário e prodigo, que sae a matar-se, uma noite, em direcção do mar; de repente, pára, olhando atravéz dos vidros de uma janella:
Era elegante a sala, e quente e confortada.
À meza, junto à luz, estava a mãe sentada.
Cosia. Mas além, um casal de crianças,
Risonhas e gentis como umas esperanças,
Olhavam juntamente um livro de gravuras,
Inclinando sobre elle as cabecinhas puras.
Num gabinete, além, que entreaberto se via,
Um homem __ era o pae __ calmo e grave, escrevia.
Enfim uma velhinha. Estava agora só
Porque estava rezando. Era, de certo, a avó.
E em tudo aquillo havia uma paz, um conforto…
Oh! A família! O lar! O bonançoso porto
No tormentoso mar. Abrigo, amor, carinho.
O moço esteve a olhar. E voltou do caminho.
Nada mais simples do que a ideia desta composição; mas a simplicidade da ideia, a sobriedade dos toques e a verdade da descripção, são aqui os elementos do effeito poético, e produzem nada menos que uma excelente página. O Sr. Lucio Mendonça possue o segredo da arte. Se nas Alvoradas não há outro quadro daquelle genero, póde havel-os num terceiro livro, porque o poeta tem dado recentemente na imprensa algumas composições em que a inspiração é menos exclusiva, mais imbuída da realidade exterior. Li-as, á proporção que ellas iam apparecendo; mas não as colligi tão completamente que possa analysal-as com alguma minuciosidade. Sei que taes versos formam segunda phase do Sr. Lucio Mendonça; e é por Ella que o poeta se prende mais intimamente á nova direcção dos espíritos. O auctor das Alvoradas tem a vantagem de entrar nesse terreno novo com a forma já trabalhada e lúcida.
Crítica Literária, a nova geração: sobre o poeta Lucio de Mendonça. Revista Brasileira, II, 1879.W.M. Jackson Inc. Editores, São Paulo, 1938. Págs. 240 a 243. Joaquim Maria Machado de Assis.
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História contada por habitantes da cidade de Leandro Ferreira/MG, numa região próxima à fazenda conhecida como “Fazenda do Souza”, isso por volta de 1955. Voz da gravação: Dulce Francisca Lopes Cançado Lobato.
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CERTA feita, um texto meu foi criando rabo. Eu fiquei meio sem saber o que fazer. Deixei-o dentro dum caderno, sob outros cadernos, livros e apostilas. Com o correr do tempo, resolvi procurá-lo. Achei. Havia já perdido o rabo e criado pernas. Aquilo me estarreceu completamente. Assombrado deveras fiquei quando me percebi focado por um punhado de olhinhos. Cada letra “o” era um. Aspas eram cílios. O diabinho desgramou a pirraçar. “Contraíra doença de livros”, pensei, “ e agora?”
Patinhas como as dos antiquíssimos peixes não se demoraram. Teve a quem puxar quanto as orelhas. Eram idênticas às das minhas agendas; e quão idênticas! Testa quadrada, estilo margem superior de papel almaço; e a pele meio que com rugas de papel reciclado artesanalmente.
Verdadeiro espetáculo da evolução gráfica. Seu engatinhar era a coisa mais linda, a vontade de caminhar nem me falo: passos trêmulos sobre a pauta. “Que lindinho!”, diria algum tio solteirão.
Fez golfar alguma tinta. Pirraça. Fez sem vontade, quase não fazendo, e disparou – ao que me pareceu – a rezar idéias. “Donde vêm suas prévias concepções?”, perguntei-me. “Donde vêm? Poucos objetos ao seu dispor, quase nada familiarizado com sons ou sinais, nem tampouco com arranjos e convenções. Como pode isso gente?!”. Não era possível. Não poderia haver naquela criatura nenhum pensamento. Talvez alguma longínqua memória de outras encarnações, isto é, “encadernações”.
Veio à hora em que ele se atreveu. Deu para falar – pelas entrelinhas – disparates jamais ensinados por mim. O bichinho foi crescendo e a coisa se complicando.
Deixei aquelas jabuticabinhas mágicas me olharem por algumas noites. Não conseguia acreditar no que tinha inventado ou no que havia permitido inventar-se. E a cria foi necessitando criação, correção e, é claro, outros companheiros textuais. Pedia argumentos contrários a fim de se debater, de se repensar. Repetia em defeituosa dicção e de maneira infeliz: “_Sinto-me inadequado, principalmente quando sonho com meus antepassados. Fico sem assunto às vezes.”
Senti o amor e a compaixão entre pai e filho. Tinha a obrigação de recuperar a dignidade do meu rebento.
Desesperado, eu recorria aos esquemas e mecanismos e técnicas. Ordenava ao tubo cilíndrico da caneta, contudo não havia mais carga. Em pouco, a esfera não deslizava ao campo branco. Eu chacoalhava, esquentava o acrílico e nada; e soprava pela tampa, e outra vez nada. Cheguei a ver, mediante a translucidez do tubo, algum vestígio de letras. Pura ilusão! É essa coisa do operário ver no instrumento alguma esperança de trabalho.
O filhote me dizia: “Eu não pedi pra nascer!”. Eu respondia de chapa: “Não valeu à pena trazer-lhe à luz da página! ”. Passamos a andar a tapas e aos cuspes. Teria eu de parar por ali mesmo. Então eu disse por fim:
“Respeita seu pai, menino! É uma coisa ou outra: ou você volta para entre os maços da gaveta, ou vai morar na rua! ”
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Havia sonhado com a ressurreição de Cristo. Às 06:45 da manhã tomou o ônibus, debitou o valor da passagem no cartão magnético, passou pela roleta e sentou-se num dos bancos que deixa passageiros uns de frente para os outros. Batom rosa e leve maquiagem. Mas o franzido na testa não conseguiu tirar. Carregava também na cabeça um programa policial de televisão que seus familiares assistiam. Encaixou o fone no ouvido e o rádio sintonizou aleatoriamente uma estação de noticiário alvissareiro. Procurou músicas, mas a conversação dos passageiros e o barulho do trânsito impediam a audição. Cumprimentava os conhecidos com um sorriso brando, tímido. Tirou o livro da bolsa e abriu na página 101. Tentou ler e não conseguiu. Fechou o livro. Fechou também os olhos e se pôs a pescar um cochilo. Acabou pescando, em seu rio de preocupações sonolentas, a pura realidade. Chovia já por semanas. O vidro sujo da janela do ônibus embaçado e manchas de imagens lá fora. As janelas fechadas, um braseiro. O ônibus era uma imensa lata velha de sardinha aquecida. A tarifa havia sido aumentada em 5,17% dias atrás.
Em sua pescaria de realidade e falas cruzadas dos outros, o rosto envelhecido de uma senhora, vociferando não só com a boca banguela, mas também com os ombros: “por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém a sua vida.” A velha falava e fazia caretas. Sem muita demora, uma freada brusca interrompeu o instante. Um grito de filho da puta motorista despertou o cochilo. Outra frase, “ô motorista, cê num tá carregando cavalo não sô, cê tá carregando é gente” trouxe por fim a sensação de alerta. Ela se recompôs. Abriu melhor os olhos e reconheceu onde estava. Estava em mais uma viagem de casa para o trabalho, uma hora e meia de viagem, viagem que fazia desde seus 15 anos, quando começou a trabalhar como office-girl. Já fazia 16 verões de muita trabalheira, aquele percurso diário, de segunda a sábado.
Apesar dos sustos das freadas e dos gritos, ela conseguiu segurar o enunciado na mente. “Por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém sua vida”. Foi repetindo no pensamento até desembarcar no centro da cidade.
No centro de BH, tudo lhe passava rápido e assustador. Os vendedores ambulantes, os vendedores nas portas das lojas e suas cantadas grosseiras: “nossa que trem gostoso; oi morena, tá delícia hein?” O cheiro de maconha na porta do café Nice. As mulheres penduradas em bolsas, os carros acelerando e freando no asfalto como se lutassem num tatame, os aposentados jogando xadrez, os batedores de carteira, os estelionatários, pregadores protestantes, tudo lhe queria desviar para outros mundos, explodindo em seus ouvidos que a vida seria mais difícil ainda.
Mas aquele imperativo de não dar sua vida a ninguém chegou tarde. Ela já tinha se entregado a ele. Casados já havia cinco anos. Um casamento frio sem traição nem filhos. E nos seus 34 anos ela sempre ouvia dele que não queria filhos. E seio sem filho seca. No entanto, ele uma vez e outra dizia que já tinha o carro, e que era como ter um casal de filhos, em termos de despesas. Ele dizia isso sem se dar conta da alma materna dela, igualando criança a carro em tom humorístico, achando-se criativo até. Nos finais de semana ele só fazia lavar o carro, dar uma voltinha no bairro, bater uma peladinha, tomar uma cerveja com os amigos, almoçar, cochilar, assistir futebol e dormir. No boteco perguntavam: “não vai arrumar um meleque não, véi?” “…que isso, nêgo, agora não posso arranjar outro menino, já tenho o Pretinho que me dá muito gasto”, ele respondia apontando para o Uno preto 4 portas.
O carro estava no nome dele, só ele dirigia. Porém custava mais a ela. A esposa era quem pagava as prestações e o seguro. Afinal ganhava quase três vezes mais do que o marido. Ela ia trabalhar todos os dias de ônibus. Ele ia com o carro. Não dava para levá-la ao serviço, pois a empresa em que ele trabalhava era do lado oposto ao centro da cidade.
Ela cansada daquele desânimo maquinal e automático. Uma vida sem viagem de lazer, sem clube nem festas, sem “um pulinho de cerca”, sem pimenta, e o pior de tudo: sem filhos. Estava cansada e insatisfeita, mas não dizia a ninguém, não desabafava, e o pior de tudo é que ninguém reparava na situação. Ninguém, nem seus pais, irmãos, amigas, colegas de trabalho, o marido muito menos.
Quando ia à casa de seus pais, só ouvia conversas sobre dinheiro, ganhar dinheiro, conseguir comprar isso e aquilo, adquirir, investir. A economia do país estava forte. Prosperava até o mercado de venda de cofres caseiros contra as instituições bancárias. E ele, o marido, entrava na roda e debatia com os cunhados sobre o mercado de veículos, sobre salários e classes, “quanto ganha um motorista de ônibus, quanto ganha um corretor de imóveis, um pedreiro autônomo etc.”. Ela ficava na cozinha com a mãe. As duas tão atarefadas que nem tinham tempo de falar sobre a vida. Ela sentia-se com sua vida entregue. Com sua vida, seu suor e seu corpo entregues. Só lhe restou, por inteiro, a alma, onde guardava às escondidas todo seu sofrimento. Pensava ter cometido o pior erro do mundo, como disse a velha loira desdentada durante a viagem dentro do ônibus.
Ele ia poupando seu salário, planejando trocar de carro pelo menos de dois em dois anos; ela seguia sustentando a casa e engolindo a seco o resto de vidinha que lhe sobrava. O salário dele era só dele, mas o dela era dos dois: eis o mais valioso segredo da intimidade do casal. Autêntica sociedade conjugal por detrás das cortinas da formalidade. Ela não desabafava com ninguém. Não por medo ou insegurança, mas porque não era mesmo de conversa. Além de tudo detestava alugar os ouvidos dos outros. Tinha preguiça de enfrentar a cara de desdém das amigas e ao final ouvir o vago conselho de “pede o divórcio ou mete um chifre nele”. Se elas soubessem o quanto ele cozinhava não diriam para acabar o casamento. Na verdade, tinha preguiça — e não medo — de chutar o balde e ter de criar asas, achar novos ares, construir novo ninho e buscar felicidade. E como se não bastasse, foi ela quem entregou a mão em casamento, antes mesmo de o noivo pedir. Desmanchar casamento é fácil, difícil é recomeçar sozinha uma vida de divorciada, ela pensava cautelosamente.
Morria de inveja de Josiane, sua amiga. Josiane era mãe solteira, viajava, deixava o filho com os avós e curtia a vida. Vestia Índia, fazia quantas tatuagens vinham-lhe na cabeça, trocava de ficante quando lhe convinha. Brincava com o corpo e com o coração, praticava Kama Sutra (sem cama). Foi Josiane quem lhe aplicou a linha do pensamento da “Biografia Humana”, uma forma de compreender a vida com base no passar de 7 em 7 anos. E ela se aproximava dos 35: cinco vezes o sete.
Era muita coincidência. Aos sete anos foi adotada, aos 14 perdeu a virgindade, aos 21 deu o primeiro verdadeiro beijo. Aos 28 se casou. Aos trinta e cinco aconteceria um novo marco.
Nessas alturas, naquele secreto e inconfidente desconforto, ela carregava um desejo macabro. Uma saída vinda dos desígnios do destino: ficar viúva por uma fatalidade. Ficar viúva lhe seria uma salvação sem culpa. Desejava que ele morresse e assim poderia recomeçar a vida, recuperar sua liberdade com mais alívio, pois a alma do marido estaria no além, sem lhe perturbar, sem lhe causar remoço. Mas ao mesmo tempo em que pensava e desenhava esse desejo esquisitão, algum arrependimento vinha na fantasia. Por mais que ele fosse superficial e estúpido, era carinhoso, meio meninão mimado, mas de atitude, muitas vezes prestativo e um bobão alegre que valesse à pena. Tinha um coração egoísta, porém atitudes de pai protetor.
O mais doído era quando ouvia a gratidão da sogra: “graças a Deus meu filho achou você, uma mulher certa, que cuida dele melhor do que eu”.
Chegou finalmente o dia. Ele se acidentou quando dirigia seu carro-xodó. O veículo se perdeu totalmente e por azar o seguro tinha acabado de vencer; estavam para renovar, mas não deu tempo. O prejuízo foi grande. Permaneceu o motorista por 20 dias na UTI. Ficou naquele vai ou não vai. Morre ou não morre. Ela andava pelos corredores do hospital entre cigarros e cafés, pensando em sua liberdade sem culpas, olhando a dor da família do marido, ouvindo as rezas, calculando o custo do velório, sofrendo antecipadamente o luto e gozando mais à frente sua viuvez desimpedida, depois de passado a dor da perda.
Então veio o pior. O homem sobreviveu, e paraplégico. Para todos foi uma dádiva das graças de Deus. As próximas palavras da sogra lhe cairiam como um fardo muito maior: “agora, minha filha, ele vai precisar de você como nunca, por tudo que ele te fez, eu peço que tenha paciência e perseverança para redobrar os cuidados com meu filho que sempre lhe foi um bom marido”. “Bom marido o quê, esse filho da puta me explorou o tempo todo; o tanto de bom que ele me foi era para ganhar de volta o meu suor”, ela cuspiu na mente.
Dali para frente ela passou a ser — a um tempo só — esposa sem filhos, mulher sem sexo, dona de casa, arrimo de família e enfermeira. Carregava-o até o banheiro, empurrava o cadeirante, acalmava os pesadelos. Ouvia as injúrias do injustiçado nos seus momentos de mal com Deus. Uma hora e outra a incapacidade do infeliz o fazia revoltado e desgostado da vida.
Foi um dia, numa daquelas suas viagens de ônibus do trabalho para a casa que ela retomou a página 101 do livro que havia fechado há tempos. Na décima quarta linha da página lia-se uma frase que ela guardou para si e não confessou nem mesmo ao mais íntimo pensamento. A frase morreu no silêncio de sua leitura…
Dias depois, num tempo nublado, quando os dois passeavam pelo parque municipal, ele colheu uma flor. Entregou a ela junto de um beijo na testa. Os dois choraram ali uma chuva de emoções que até mudou o tom do canto dos passarinhos, se abraçaram e continuaram juntos e tristes. Nasceu ali um novo casamento.
Até que depois de algum tempo a morte dela, por estafa, os separou aqui neste mundo. Ele viveu mais uma semana antes de também falecer. Alguma vizinha espalhou a superstição de que ele, mais veloz do que seu carro-xodó, voou atrás da alma da esposa. Uma senhorinha mais entendida atrapalhou o mistério: “…nada boba, morreu atrás por causa de desgosto mesmo. Essa coisa de dizer que uma alma persegue outra é imaginação que o povo toma emprestado dos livros.”
Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano é escritor e compositor de Santa Luzia/MG. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ); EP-Cristiano em 2016, [Epopéia do Cidadão Geral e Cancioneiro Urbano Montanhês] em 2017 e atualmente publica textos e edita o Pingo de ouvido: Literatura Brasileira e Memória Cultural.
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Ame amar, ame viajar, ame livros...encontre amor na simplicidade da vida e viva intensamente....amanhã pode ser tarde para tudo....até para amar quem já se foi.
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