LÍNGUA FRANCA E VIVA (PORTUGUÊS + KIMBUNDU) EM MINAS GERAIS

LÍNGUA FRANCA E VIVA (PORTUGUÊS + KIMBUNDU) EM MINAS GERAIS

(Entrevista especial com Antônio Benício Cabral: memória afetiva e literatura com base na Língua dos Negros da Costa – Língua da Tabatinga)

Nossa Língua Portuguesa aqui no Brasil constitui-se por inúmeras contribuições de povos nativos e africanos: antropônimos, topônimos, expressões que denominam alimentos, crenças, utensílios, membros do corpo, animais, vegetais, danças, ritmos, enfermidades e deformidades. Para nossas Minas Gerais vieram sobretudo povos da nação Bantu, falante do abrasileirado quimbundo [kimbundu em Angola]. Estes africanos, não por coincidência, trouxeram à colônia técnicas artesanais de mineração, metalurgia, agricultura, culinária, músicas e, claro, sua língua e crenças.

Conceituada referência sobre o assunto é o livro intitulado “PÉ PRETO NO BARRO BRANCO: A Língua dos negros da Tabatinga (Editora UFMG, 1998), da escritora Sônia Queiroz, cuja cuidadosa pesquisa se alicerça na memória da própria autora, natural de Bom Despacho, bem como num respeitoso trabalho documental e de campo.

Nessa publicação especial, entrevistaremos outro convivente e falante da Língua da Tabatinga (ou Língua do Negro da Costa), Antônio Benício Cabral. Assim como Sônia, ele praticou quando menino e ainda guarda em sua memória afetiva o código. Benício organizou um vocabulário e nos presenteia com uma narrativa de ficção de sua autoria, contribuindo ainda mais aos interessados e pesquisadores.    

Comecemos por sua apresentação, onde nasceu e viveu, por onde andou e anda, seus escritos e como tomou contato com a Língua do Negro da Costa. Nasci em Bom Despacho mesmo, na chamada Rua da Biquinha, nos idos de 1958. Aos 3 anos de idade me mudei para a Rua dos Expedicionários (antiga Travessa Lambari), onde vivi até sair de Bom Despacho, após terminar o antigo Curso Científico, com 17 anos de idade. Morei em Brasília, Campinas-SP, Campo Grande-MS, Santos-SP, Belo Horizonte, Divinópolis e, com a aposentadoria, retornei para Bom Despacho. Sou formado em Economia, na UnB, com pós-graduação na Unicamp, e Direito, na UFMG. Sempre gostei de estudar línguas estrangeiras e falo inglês, espanhol, francês, italiano e básico de alemão. O meu contato com a Língua da Tabatinga se deu desde a infância, nos folguedos de rua, quando a gente usava várias palavras da língua para se comunicar usualmente. O uso era maior quando havia contato com os meninos da antiga Tabatinga, hoje Bairro Ana Rosa. Depois de adulto decidi elaborar o Vocabulário e realizei algumas pesquisas específicas.

Por que é considerada uma língua franca? Poderia nos explicar com suas palavras? Para mim não há dúvida de que se trata de uma língua. Entretanto, conforme leituras minhas nessa área há alguns anos, creio que a classificação correta é “Língua Franca”, que é a mistura de várias línguas de molde a possibilitar a comunicação entre gentes originárias de várias nações. O sustentáculo da Língua da Tabatinga é o português, porém há um grande uso de vocabulário de origem africana. Essa língua franca, no caso a Língua da Tabatinga, possibilitou que negros originários de várias regiões da África, conseguissem se comunicar entre si, pelo uso de vocabulário mesclado de várias línguas africanas, com o português. Cabe destacar que o português, por exemplo, já funcionou como Língua Franca em toda a Ásia, após os grandes descobrimentos, no Século XVI. Um ponto importante a destacar é que, a meu ver, é totalmente errado chamar a Língua da Tabatinga de “dialeto”. Para uma língua ser “dialeto” ela tem que se referir a outra língua da qual deriva ou que deu origem. Por exemplo, o português, o castelhano, o Catalão, o Asturiano, o Galego (este muito parecido com o português), são todos dialetos do mesmo ramo linguístico. São variações regionais da mesma língua mãe, em última análise, regredindo 2.000 anos, do latim que era falado em Roma. A Língua da Tabatinga é uma língua autônoma, independente, não está referida a nenhuma outra.

Como você bem disse no seu site, alguns vocábulos se inscreveram na cidade, nomeando estabelecimentos comerciais etc. As pessoas costumam comentar a origem? Como funcionou e funciona o processo de conscientização histórico-cultural na região? Infelizmente se comenta muito pouco. Essa cultura se perde. As pessoas, geralmente, nem procuram saber ou comentar que aqueles nomes de estabelecimentos são palavras da Língua da Tabatinga, a qual é um produto genuinamente bondespachense. É pena. E mais, eu gostaria que bairros novos, logradouros, por exemplo, fossem batizados com palavras da Língua da Tabatinga, mas não vejo esse interesse, essa verve. Percebe-se inclusive a má pronuncia de palavras, por desconhecimento. A palavra “peito”, na Língua da Tabatinga, é “mavero”, que é a marca de um laticínio de Bom Despacho, produtos “Mavero”. A pronúncia correta é com “é” aberto, porém, por desconhecimento as pessoas pronunciam com “ê” fechado, mudando a palavra. Já vi pessoas lendo a palavra “cuete” (homem, rapaz) como “cuetê”, que não é o caso.

Existem várias pesquisas e registros interessantes sobre a língua disponíveis na web. Seu texto fictício e vocabulário são um exemplo contributivo para conservação e sobrevivência do fenômeno. A nomeação de logradouros seria mesmo ótimo exemplo cívico-cultural, além, é claro, do fazer literário e da prática de conversação. Registramos aqui, enfim, essas sugestões. No vocabulário organizado (1985-1998) – ao que nos parece você e a Sônia intercambiaram material e memória – há palavras acrescidas e reinventadas, mostrando-nos dinâmica dos falantes, tipo: “cureio” = comida (antigo) e “Banjerê” = comida (forma atual). Na sua opinião, quais fenômenos poderíamos destacar nessa espécie de atualização? Não é bem esse o fato. O meu vocabulário foi elaborado pela primeira vez em 1985, com a grande ajuda do meu amigo Comodoro, que já não reside em Bom Despacho. Anos depois, quando da publicação do Livro da Professora Sônia, acresci palavras ao meu Vocabulário. De fato, existem palavras que possuem sinônimos, não sei o motivo. Eu conheci comida como “cureio” e comer como “caxá o cureio” e mais tarde conheci a palavra “banjerê”. Tem falante que usa a palavra “chap-chap”, no mesmo sentido. São variações, mas não sei a origem. As invenções existem e ficam por conta da combinação de palavras conhecidas, para formar outras, como por exemplo “caramboia catita que ingira no fute” é uma invenção dos falantes, que uniram “galinha” “pequena” que “anda no céu, voa” para significar “passarinho”. Outro exemplo, “orongó” é cavalo e “tiploque” é sapato, unindo as duas “tiploque de orongó”, penso em uma ferradura. “Cuete-ocaia” é homem homossexual, combinação de “cuete”, homem, com “ocaia”, mulher.

Há pessoas que aprenderam a língua em outras cidades, como o caso do meu tio que a conheceu numa carvoaria em Uberlândia. Ele contava que o signo servia como código secreto e resistência às ações exageradas da polícia, às certas perseguições injustas. Servia também para despistar dos alcaguetes colaboradores dos patrões severos. Por outro lado, comentava meu tio, também corria-se boatos de que criminosos se utilizavam do código para encobertar pequenos delitos. Imagino que situação como essa última poderia comprometer a sociabilidade do falar…o que você tem a nos dizer sobre isso? Sabendo que essa Língua só existe em Bom Despacho, seguramente seu tio manteve contato com bondespachenses que foram morar/trabalhar em Uberlândia. De fato, os falantes usavam muito a Língua para, de certa forma, se protegerem, da Polícia, dos cidadãos de posse, que eram o patrões etc. Percebia-se muito o uso da Língua em bares mais simples e nas zonas boêmias da cidade. Usava-se a Língua para fazer comentários maldosos sobre as mulheres atraentes, coisas do gênero. O possível uso por criminosos é uma hipótese bastante aceitável, porém não tenho informações a respeito. Na verdade, por questões de discriminação racial e social, os moradores da antiga Tabatinga eram tidos como criminosos em geral, como são vistos, atualmente, os moradores das favelas das grandes cidades. Não acredito que isso tenha comprometido o uso da Língua, a questão é mais histórico/social mesmo, com a morte e a diáspora dos falantes, ao longo dos anos.

João Francisco L. Cançado (1956-2019)

Penso que, a partir dos registros já acumulados, iniciativas da comunidade junto de outros estudiosos, bem como a prática recreativa por novos falantes e a divulgação da língua nos ajudariam na compreensão histórica de nós mesmos, enquanto nação e povo de origens várias. Você vê as discriminações como obstáculos contra esse possível esforço conjunto? Verifica bons resultados nessas últimas décadas, em face de tantas lutas no sentido de superarmos tais estigmas?  Atualmente, não vejo mais discriminação, como houve no passado. Os moradores da antiga Tabatinga, por volta das décadas de 1960/1970, eram vistos como maus elementos, pessoas brigadoras, com tendências criminosas. Eram, quase todos, negros e eram muito pobres. Havia prostituição no Bairro. O bairro era provavelmente o mais pobre de Bom Despacho. Havia, visivelmente, muita discriminação por parte da gente dos Bairros mais chiques, especialmente do Centro. A Língua da Tabatinga era vista como coisa de gente baixa, os moradores do Centro da cidade não viam com bons olhos a prática dessa Língua. Era como se a Língua fosse usada para enganar e roubar os “brancos” da cidade. Hoje, ao contrário não percebo nenhuma discriminação com relação à Língua, que passou a ser vista como um patrimônio cultural da cidade. Percebo que a Prefeitura Municipal vem incentivando o conhecimento da Língua pelos alunos das escolas e vem incentivando a sua divulgação como patrimônio cultural. O antigo Sesc, que foi devolvido para a Prefeitura, foi batizado como “Conjolo de Vissunga” (Casa de Cultura, ou Casa de Festa). Não acredito que a Língua voltará a ser falada, mesmo porque o seu uso era totalmente espontâneo, mas já é alvissareiro saber que a Prefeitura e os cidadãos vêm dando mais valor à memória da Língua da Tabatinga. Seria muito bom ver pessoas usando a Língua da Tabatinga na rua, novamente, mas creio que isso é uma utopia.

Quando você escreveu e o que mais lhe motivou a escrever o conto “O cuete que caxô imbuete dos viriango”? Quando foi publicado pela primeira vez, enfim, fale-nos um pouco do processo. Escrevi esse conto há alguns anos, não me recordo precisamente. O que me motivou, especialmente, foi tentar manter a memória da Língua da Tabatinga, porém demonstrando na prática como se dá a sua utilização. Uma coisa é um Vocabulário, frio, estático, outra bem diferente é um texto, que flui, que tem ritmo, que simula a fala de alguém. O ruim é que não dá para fugir muito do assunto abordado no conto. O vocabulário remanescente da Língua da Tabatinga é muito restrito e fica limitado a questões de trabalho, bebida, sexo, casamento, polícia, coisas mais comuns na vida das pessoas mais simples, que eram os autênticos falantes da Língua da Tabatinga. Eu tinha um receio de que, com o passar dos anos, eu mesmo perderia a capacidade de produzir um texto, um discurso, uma narrativa, na Língua da Tabatinga, coisa que já está ocorrendo. A memória vai ficando difusa, diáfana, em razão da falta da prática, infelizmente.

Maria Joaquina da Silva, a Dona Fiota (1928-2012). Guardiã e transmissora da remanescente tradição oral na cidade de Bom Despacho/MG. Dona Fiota, seus familiares e comunidade trabalharam em projeto com a Fundação Guimarães Rosa e contribuíram com inúmeras pesquisas acadêmicas.
Maria Joaquina da Silva, a Dona Fiota (1928-2012). Guardiã e transmissora da remanescente tradição oral na cidade de Bom Despacho/MG. Dona Fiota, seus familiares e comunidade trabalharam em projeto com a Fundação Guimarães Rosa e contribuíram com inúmeras pesquisas acadêmicas.

Vimos que o autor é mais que bissexto nas modalidades de poesia e ficção. Quais são suas obras escritas e publicadas? Gosto de escrever e tenho alguns projetos, para o futuro próximo, entretanto não me considero um escritor. Mesmo porque tenho mais facilidade com assuntos técnicos do que com literatura. O único livro que escrevi, que nunca foi publicado em papel e está no meu Blog, é “O ESTADO NO ESTADO, por que os Funcionários Públicos são indolentes?”. É uma análise da Administração Pública brasileira, por alguém que atuou como Servidor Público Federal concursado, até então, por 22 anos, além de algum tempo anterior como contratado. Cumpri 34 anos como Servidor Público Federal concursado. Já publiquei artigos em jornais universitários, jornal local, jornais murais da cidade e semelhantes. Trabalhos acadêmicos foram muitos, nos anos de faculdade. Algumas Monografias para conclusão de curso. Eventualmente, escrevo alguma coisa, mais de cunho político, nas redes sociais. Tenho um Blog que precisa ser mais movimentado. Tenho dois projetos de livros para o futuro próximo, um sobre “Ideologia” e outro sobre “tópicos de Direito Penal”, que tem relação direta com minha vida profissional no Serviço Público.

Bom, é isso, espero haver atendido o esperado. Coloco-me à inteira disposição. Muita satisfação poder falar sobre a Língua da Tabatinga, da qual tenho muito orgulho, orgulho natal.

O CUETE QUE CAXÔ IMBUETE DOS VIRIANGO

O cuete-atiapo caxava curimba no sengue, lá no Quebra-Cocão, no conjolo do cavinguero da ingura avura. O cavinguero era avuraça, tipurava os cuete do cumbaro avura de Brasia, os cuete que caxa ingura avura e ingira no fute, na uruma-do-fute e caxa urunanga opepa, com cavu e tiploque de coro de cangura-do-sengue. Na curimba do sengue, o cavinguero ingira na uruma avura, caxa urunanga opepa e tiploque de sengue caxado nos istazunidos. O cuete-cavinguero é cheio dos tiparo dos imbondo, com oronha de oro e percinê de cuete-avura. O cavinguero é dotô. As gibera do cavinguero é cheia das ingura avura.

O cuete-atiapo curimbava carregano uruma de carguero, com assangue, tipoquê, pungue e as veiz cajuvira. O cuete ingirava do isquife quando o carambóia-cuete tipurava um cacarejo, antes do unde tipurá no sengue. O cuete tipurava um cajuvira com caviconve e uns cumicove e adispôis tipurava um marcanjo de paia de pungue. Aí o cuete ia caxá curimba. Caxá o haver de gombê. E aí era ingirá pro sengue e batê moco no conjema. O cuete prantava vianjê, tipoquê, pungue e assangue.

Quando caxava a sexta-feira o cavingueiro ia caxá as ingura dos cuete do sengue. A ingura catita. O cuete tipurava a ingura e o tué do cuete caxava uarrufo. Os cuetim ingirava caladim, só cramano, tué baixado. Aí os cuete ingirava pra redovia mode caxá o camba, pá ingirá pro conjolo, no cumbaro. Os cuete ia ingirano no camba, só tipurano as ocaia dos tinhame avura, os mavera bão de caxá e as urunanga catita. Os cuetim ia tipurano uns pros outros, pra ingirá pro conjolo de matuaba e caxá uma omenha-de-vianjê, no oteque.

O pobrema é que o cuetim era cassucarado e o cassucara do cuete foi coisa séria, no conjolo-do-Granjão, com inganga de verdade. E a ocaia-do-cuete tava no conjolo só tipurano o cuete caxá. A ocaia já ia tipurano as ingura do cuete, mode caxá os tiparo dos imbondo pro camonim. O camonim do cuete era catita e caxava muito haver de gombê. Aí o cuete caxô um tiquim de ingura na gibera, mode a ocaia num tipurá, pra caxá os grozope com os cuete lá.

Quando é fé, a ocaia ingirô pro conjolo da ocora dela pra tipurá a uruma de tipurá, as novela da grobo. A ocaia ingirô com o camunim. O cuete caxô uns cureio que a ocaia dexô no conjolo. Tinha tipoquê com assangue, biguibote, camberela de gombê, urufim frito, haver de carambóia, mantambu cuzido e uns pedaço de orelo. Aí o cuete tipurô, tipurô, tipurô… tipurô a uruma de tempo, caxô um marcanjo de paia de pungue e ingirô pro conjolo-de-matuaba. As ingura tava na gibera do cuete. O cuete caxô umas urunanga avura pra caxá ocaia e tipurô um tiploque opepa que o cuete catiolô no conjolo dos tiparo dos imbondo de ingura avura. O cinto do cuete tinha fivela de tiploque-de-orongó.

O conjolo do cuete era no Quenta-Sol, mais o conjolo-das-matuaba era na Tabatinga, pertinho do conjolo do Bené-Pião. Aí o cuete ingirô na uruma-de-equilíbrio.

No conjolo-da-matuaba o cuetim já foi caxano os grozope com os outros cuete e o tué do cuete ia só ingirano. O cuete tipurava tudo quanto é ocaia e as ocaia caxava uarrufo com o cuete. As ocaia só mandava o cuete ir ingirá no conjolo-do-Demonho, o cangura oveva de coreã-de-gombê. As ocaia mandava o cuete ir caxá cuxipa no janô. O tué do cuete só ingirano no fute.

O cuete resorveu ingirá pro conjolo das ocaia-de-cuxipa, na Rua da Garça. O tué do cuete tava ingirano no fute, por causa da matuaba avura. Quando o cuete passou na Praça da Matriz tinha um cuetim tipurano marcanjo avura. O cuetim ofereceu pro cuete. O cuete falô: “num tipuro marcanjo avura não, cuete; sô cuete curimbadô; cuete de cassucara; os viriango tipura ocê, sô”. Aí o cuetim falou: “tipura um tiquim aí, cuete-ocaia, pro tué ingirá; é bão, sô”. Aí o cuete tipurô o marcanjo avura e ingirô pro conjolo-das-ocaia. O tué do cuete tava ingirano no fute por causa da matuaba e do marcanjo avura.

Aí o cuete chegô no conjolo-das-ocaia-que-rasta-cuxipa e tipurô uma ocaia cafuvira do janô avura e caranguela catita. O tué do cuete ingirô que nem pião. O cuxipo do cuete foi ficano avura e o cuete foi tipurano o janô da ocaia. O janô da ocaia era opepa. O oranjê da ocaia era opepa. Os tiparo da ocaia era opepa tamém. O cuete perguntô pra ocaia cafuvira quanto que era de ingura pra caxá cuxipa. A ocaia falô pro cuete que era cem cruzeiro e o cuete perguntô se a ocaia rastava cuxipa no janô, porque o janô da ocaia era avura. A ocaia caxô uarrufo e mandô o cuete e caxá cuxipa no janô. A ocaia falô que só tipurava cuxipa na marcela. Aí o cuete chamô a ocaia para ir pro isquife rastá cuxipa.

Quando o cuete cabô, falô pra ocaia que tava atchapo, que num ia caxá ingura não. Falô pra ocaia que a ingura ingirô no conjolo-das-matuaba. O cuete falô que só ia caxá vissongue na outra sexta-feira. Aí a ocaia cafuvira caxô uarrufo e ingirô um turisco na cabeça do cuete. Aí o conjolo-das-ocaia virô foi uma vizunga, aquês tiparo dos imbondo, com as ocaia tudo encima do cuete e ês prancheano e o cuete tentano ingirá. Aí caxaro os viriango.

Os cuete-viriango já foro tipurano os moco-de-undaro no tué do cuete. Aí os viriango falaro pro cuete: “ô cuete, seu tué tá ingirano, cê fica queto se num quisé fitá viru”. Caxaro o cuete na uruma-de-viriango e ingiraro pro conjolo-dos-viriango. No conjolo-dos-viriango é que foi a verdadeira vissunga. Aí os viriango ia caxano imbuete no cuete. Caxava imbuete no tué do cuete, caxava imbuete no janô do cuete, no babatimão do cuete, pra toda banda. O cuete caxô imbuete dos viriango até prancheá. Aí o cuete rastô tiprequé no conjolo-dos-viriango.

Aí quando o carambóia-cuete tipurô o cacarejo o cuete levantô do isquife oveva e tipurô o cumba-do-bélude caxá quadrado.

Belo Horizonte, 18 de outubro de 2009-

BENÍCIO CABRAL

VOCABULÁRIO DA LÍNGUA DA TABACA

(Também chamada “Língua dos Negros da Costa” [Angola])

Vocábulos de “a-x”

Aiaquinzim. S.m. Queijinho

Arumute. S.f. Abóbora; Var: Urumute.

Arunanga. S.f. Roupa, calça. Var: Urunanga.

Assangue. S.m. Arroz. Var: Assango; Assengue; Imassango; Missangue.

Assengue. S.m. Arroz. Var: Assangue.

Atchapo. Adj. Pouco; Esfarrapado; Maltrapilho; Roto; Estragado; Inutilizado

etc.; sem dinheiro. S.m. Pobre. Sin. Tchapo ou Tiapo.

Atiapo. Adj. Vide Atchapo.

Avura. Adj. Grande; Grosso; Depressa; Muita quantidade. Também usado para designar pessoa boa, coisa boa, bonita, ou coisa positiva de um modo geral (nesta acepção, o mais correto é Opepa).

Avuraço. Adj. Grandalhão; Muito grande.

Avurinha. Adj. Bonitinho.

Babatimão. S.m. Suã de vaca.

Bambi. S.m. Frio.

Banjeco. S.m. Qualquer instrumento musical. Var: Imbanjeco.

Banjerê. S.m. Comida. Var: Conjerê. Sin: Cureio (esta é a forma mais usada atualmente).

Bélude. S.m. Dia (por oposição a noite, que é Oteque).

Biguibote. S.m. Macarrão.

Bugue: S.m. Milho. Var: Pungue.

Cachar. V. Pegar; trazer; cair (chuva); dar; entregar; tomar; roubar; beber; comer; etc. “Funciona como verbo passe-partout cujo sentido se define pelo contexto.” Var: Acachar.

Cachar Covera. V. Adoecer.

Cachar o Cureio. V. Almoçar; jantar; ceiar.

Cachar Curimba. V. Trabalhar.

Cachar Cuxipa. V. Transar; fornicar; prostituir-se; etc. Sin: Rastar Cuxipa.

Cachar Esquife. V. Ir deitar-se; ir domir.

Cachar Janô. V. Sin. Cachar Cuxipa, só que mais usado para a atitude passiva.

Cachar Matuaba. V. Beber bebida alcoólica.

Cachar Matuaba no Tué. V. Encher a cara; beber até se embebedar.

Cafanhaque.S.m. Dente; Mandíbula;Queixada.Var:Cafanhaco; Gafanhaque.

Cafunguera. Var. de Cavinguero.

Cafuvira. S.m. e Adj. Preto; Negro; Escuro; Crioulo. S.m. ou f. Homem Preto ou Mulher Preta. Var: Cavuvira.

Cajuvira. S.m. Café.

Camargo. S.m. Saco.

Camargo Catita. S.m. Embornal.

Camba. S.m. Ônibus. Var: Cambajara; Cambajarra.

Cambajara. Var: Camba.

Cambém. S.m. Vasilha; recipiente; panela; copo.

Cambém de Cajuvira. S.m. Xícara (para café).

Cambém de Cureio. S.m. Panela

Cambém de Caxá o Cureio. S.m. Prato.

Cambém de Curimba. S.m. Ferramenta (instrumento de trabalho).

Cambém de Omenha. S.m. Copo (vasilha para água).

Cambém de Caxá Omenha. S.m. Talha.

Camberela. S.f. Carne. Var: Camberelo; Timbere; Timberéia.

Camberelo. Var: Camberela.

Camberela de Cangura. S.f. Carne de porco.

Camberela de Cangura de Omenha. S.f. Carne de peixe.

Camberela de Cangura do Sengue. S.f. Carne de caça.

Camberela de Carambóia. S.f. Carne de galinha (de frango).

Camberela de Gombê. S.f. Carne de vaca (de boi).

Cambereluda. S.f. Carnuda; gorda; boazuda.

Cambóia. S.f. Locomotiva.

Cambuá. S.m. Cachorro; cão.

Cambuá-Camoninho. S.m. Cachorrinho; filhote de cachorro.

Cambuá do Sengue. S.m. Lobo; cachorro do mato.

Camoná. S.m. ou f. Menino; menina; criança. Var: Camoninho (mais usado).

Camoninho. S.m. ou f. Criança; menino; garoto; guri (masc. ou fem.).

Camoninho no Jequê. Adj. Grávida.

Canambóia. S.f. Galinha. Var: Carambóia (atualmente mais usado).

Candambora. Var. Carambóia (atualmente mais usado).

Cangura. S.m. Porco; leitão; cachaço. Var: Canguro.

Cangura do Sengue. S.m. Bicho; animal selvagem.

Cangura de Omenha. S.m. Peixe (bicho que vive na água).

Carambóia. S.f. Galinha; frango; por extensão: galo (Carambóia-Cuete). Var: Canambóia; Candambóia Candambora; Candombóia; Candombora.

Carambóia Catita que Injira no Fute. S.f. Passarinho.

Caranguela. S.f. Aparelho sexual feminino; vulva; vagina. Sin: Marcela.

Cassucara. S.m. Casamento; matrimônio. Var: Cassucaro.

Cassucarar. V. Casar-se; contrair matrimônio.

Catiolar. V. Roubar.

Catita. Adj. Pequeno. Var: Catito. Por ext.: feio; sem valor; inútil; fraco etc. (nestes últimos sentidos, o mais correto é utilizar Oveva.

Catovelana ou Cotovelana. S.f. Faca.

Cavicome. Vide Caviconve.

Cavicongo. Vide: Caviconve.

Cavicongue. Vide: Caviconve.

Caviconve. S.m. Pão. Var: Cavicome; Cavicongo; Cavicongue; Conviconve; Conficonfe.

Cavinguero. S.m. Fazendeiro; patrão. Por ext: dono; chefe. Adj. Rico. Var: Cafunguera; Cavinguera; Cavinguerão; Cavunguera; Cavunguero; Vindero.

Cavu. S.m. Paletó.

Conema. Cocô; fezes; esterco.Var: Conena.

Conficonfe. Vide: Caviconve.

Conjema. S.m. Cemitério; morte. Por ext: terra. Fitar Viru: morrer.

Conjerê. S.m. Comida; Almoço; Janta; Ceia. Var: Banjerê. Sin: Cureio.

Conjolo (ô). S.m. Casa; residência. Por ext.: prédio; repartição etc. Var: Conjor; Conjô; Canjolo.

Conjolo das Ocaia. S.m. Zona boêmia; cabaré; randevu.

Conjolo de Camberela. S.m. Açougue.

Conjolo de Conena. S.m. Banheiro; instalações sanitárias.

Conjolo de Conjema. S.m. Cemitério (pode-se usar apenas Conjema).

Conjolo de Covera. S.m. Hospital.

Conjolo de Curimba. S.m. Local de trabalho; escritório; oficina.

Conjolo de Cuxipa. Sin. Conjolo das Ocaias; motel.

Conjolo de Gombê. S.m. Curral.

Conjolo de Grozope. S.m. Bar (mesmo que Conjolo de Matuaba).

Conjolo de Ingura. S.m. Banco.

Conjolo de Matuaba. S.m. Bar.

Conjolo de Omenha. S.m. Mictório; banheiro.

Conjolo de Viru. S.m. Cemitério. Sin: Conjolo de Conjema.

Conjolo do Granjão. S.m. Igreja.

Conjolo do Longado. S.m. Discoteca; clube; casa de dança.

Conjolo dos Cuete-Ocora. S.m. Asilo.

Conjolo dos Viriangos. S.m. Cadeia. Por ext: batalhão.

Conteque (ê). S.m. Noite. Mais usado: Oteque.

Conviconve. Vide: Caviconve.

Coreã. S.m. Chapéu; cobertura.

Coreã de Gombê. S.m. Chifre.

Covera. S.f. Doença. Var: Corvera.

Cuete (ê). S.m. Homem; moço; rapaz; cara; sujeito. Por ext: macho.

Cuete-Avura. S.m. Cara Grande. Por ext: Cara legal; cara bonito; cara rico.

Cuete Curimbador. S.m. Trabalhador; operário; proletário.

Cuete da Ocaia. S.m. Marido.

Cuete do Conjolo de Granjão. S.m. Padre; sacristão. Sin: Inganga.

Cuete-Ocaia. S.m. Homem homossexual; pederasta passivo; bicha; homem gay.

Cuete-Ocora. S.m. Homem velho. Por ext: Pai.

Cuete-Omano. S.m. Irmão. Sin: Imbanje.

Cuete-Tata. S.m. Pai.

Cumba. S.m. Luz; lâmpada. Var: Pumba.

Cumba do Bélude. S.m. Sol. Sin: Unde.

Cumba do Oteque. S.m. Lua.

Cumbaro. S.m. Cidade. Var: Cumbara.

Cumicove. S.m. Quitanda; salgado; tira-gosto. (Trata-se de variação de Caviconve).

Cureiar. Sin: Cachar o Cureio. Var: Curiar.

Cureio. S.m. Comida; almoço; janta; ceia. Sin: Banjerê ou Conjerê. Var: Cureia; Curei.

Curimba. S.m. Trabalho; ocupação; ofício. Var: Curimbo; Curima; Curimo.

Curimbar. V. Trabalhar. Var: Curimar.

Cuxipa. S.f. Pênis; órgão sexual masculino. Var: Cuxipo. Sin: Erpido.

Cuxipador. S.m. Aquele que pratica sexo com freqüência. Gíria: comedor;

fodedor.

Cuxipar. V. Sin. Rastar Cuxipa.

Cuxipo. S.m. Pênis; órgão sexual masculino. Var: Cuxipa. Sin: Erpido.

Encachar. V. Sin. Cachar.

Erpido. S.m. Pênis. Sin: Cuxipa, Cuxipo.

Esquife. S.m. Cama; leito. Var: Isquife. Sin: Tiprequé.

Fitar Viru. V. Morrer; falecer.

Fute. S.m. Céu; firmamento; ar; espaço sideral.

Gafanhaque. S.m. Dente; Queixo; Mandíbula. Var: Cafanhaque e Cafanhaco.

Gombê. S.m. Gado; vaca; boi.

Gombê-Camoninho. S.m. Bezerro (Gombê Catita).

Granjão. S.m. Deus; o Todo-Poderoso. Var: Garanjão; Garanjame.

Grozope. S.m. Cerveja.

Grozopiado. Adj. Bêbado.

Grozopim. S.m. Bebidinha; qualquer bebida alcoólica de dose.

Haver de Carambóia. S.m. Ovo. Sin: Sabor.

Haver de Gombê. S.m. Leite.

Imassango: S.m. Arroz; Var: Assangue; Assengue; Missangue.

Imbanje. S.m. Irmão. Sin: Cuete-Omano. Var: Imbangue.

Imbanjeco. S.m. Qualquer instrumento musical. Por ext: toca-disco; toca-fita; toca CD. Var: Imbanjeque; Banjeco.

Imbanjeco de Imbuete. S.m. Violão.

Imbera. S.f. Chuva. Sin: Omenha do Fute.

Imbiá. S.m. Cigarro. Sin: Marcanjo.

Imbondo. S.m. Qualquer coisa; objeto.

Imbuete (ê). S.m. Pedaço de pau; madeira; cacete; porro; taco. Por ext: pênis.

Imbuete de Undaro. S.m. Pau de fogo; arma de fogo; espingarda. Sin: Moco de Undaro.

Imbuta. S.f. Cobra; lingüiça. Var: Imbuca.

Inca. S.m. Ânus; cu. Sin: Janô.

Indaro. S.m. Fogo. Sin: Undaro.

Indu. S.m. Feijão. Sin: Tipoquê.

Inganga. S.m. Padre; sacerdote; feiticeiro (pajé); Sin: Cuete do Conjolo de Granjão.

Ingora. S.m. Cavalgadura; cavalo; jegue; burro. Sin: Orongó.

Ingura. S.f. Dinheiro; numerário; riqueza.

Ingura Avura. S.f. Rico; cheio da nota.

Ingura Catita. S.f. Pobre; pobretão; sem dinheiro. Sin.: Tchapo.

Injara. S.f. Pênis. Sin: Cuxipa.

Injara Mitomo. S.f. Barriga (pouco usado). Sin: Jequé.

Injira. S.f. Carona; transporte.

Injirar. V. Andar; fugir; correr; voar; sair; sumir; escafeder-se; jogar (pedra ou objeto); atirar etc.

Injirar no Fute. V. Voar.

Injirar no Viru. V. Morrer; falecer. Sin: Fitar Viru.

Injirar pro Esquife. V. Ir deitar-se; ir dormir.

Insu. Adj. Azedo.

Isquife. S.m. Cama. Var: Esquife.

Janô. S.m. Ânus; cu; bunda.

Jequê. S.m. 1. Barriga; ventre; útero; pança. 2. Buraco. Var: Jequé.

Jiqui. S.m. Buraco.

Liporê. S.m. Fruta. Var: Tiporê.

Longado. S.m. Rebolado; dança; jeito de andar;

Mantambu. S.m. Mandioca. Var: Matambu.

Marcanjo. S.m. Cigarro; pito; fumo. Sin: Imbiá. Por ext.: Marcanjo Avura: maconha.

Marcanjo Cafuvira. Fumo de rolo.

Marcela. S.f. Vulva. Sin. Caranguela.

Maruco. S.m. Litro de cachaça.

Massarundá. S.f. Banana.

Matambu. S.m. Mandioca. Var: Mantambu.

Matuaba. S.f. Bebida alcoólica; cachaça.

Matuaba no Tué. Adj. Bêbado; borracho; bebum.

Mavero. S.m. Mama; peito de mulher; seio. Var: Mavera.

Mingüé. S.m. Gato; felino (masc. ou fem.).

Mingüé do Sengue. S.m. Onça.

Missango. S.m. Arroz. Missangue.

Missongue. S.m. Dinheiro (pouco usado). Sin: Ingura.

Mitomo. Ver: Injara Mitomo.

Moco. S.m.Qualquer ferramenta ou instrumento de trabalho;enxada; enxadeco.

Moco de undaro. S.m. Arma de fogo; revólver; espingarda. Sin: Imbuete de Undaro.

Moná. S.m. Criança (Var. de Camoná ou Camoninho).

Mongo. S.m. Sal. Var: Mungo; Mungue.

Montecristo. S.m. Carvão.

Moxé. S.m. Sapo.

Ocaia. S.f. Mulher; moça; garota; fêmea etc.

Ocaia de Cuxipa. S.f. Prostituta; Sin: Ocaia que Rasta Cuxipa.

Ocaia-Ocora. S.f. Mulher velha. Por ext: Mãe.

Ocaia-Omana. S.f. Irmã.

Ocaia que Rasta Cuxipa. S.f. Prostituta; piranha; galinha.

Ocora. S.m. ou f. Homem velho; pai. Mulher velha; mãe.

Oli. S.m. e Adj. Branco.

Omana. S.f. Irmã. Omano. S.m. Irmão.

Omenha. S.f. Água; água potável.

Omenha de Cuxipa. S.f. Urina; xixi; mijo.

Omenha de Vianjê. S.f. Pinga; cachaça; aguardente de cana.

Omenha do Fute. S.f.: Chuva Sin. Imbera.

Opepa. Adj. Bonito; bom. Pessoa loura. Var: Apepa; Apepe; Atleba; Opepe; Oprepa.

Oranjê. S.m. Cabelo; cabelos. Por ext: pêlos. Var: Aranjê.

Oranjê de Cafanhaque. S.m. Barba; Bigote.

Oranjê de Cafuvira. S.m. Pixaim, carapinha.

Oranjê Opepa. S.m. Cabelo bonito; por ext: louro; liso.

Oranjê de Geada. S.m. cabelo grisalho.

Orelo. S.m. Gordura; Toicinho.

Orongó. S.m. Cavalo;égua;cavalgadura.Sin: Ingora.Var:Arangó; Arangome; Aranguão; Orangó; Orongome.

Oronha. S.m. Relógio. Também se diz: Uruma de Tempo.

Orufim. S.m. Peixe. Var: Orufino; Ourofino; Urufim.

Oruma. S.f. Carro. Var: Uruma.

Otata. S.m. Pai. Var: Tata.

Oteque (ê). S.m. Noite. Var: Conteque.

Oveva. Adj. Torto; feio; atrapalhado; machucado.

Percinê. S.m. Óculos.

Pó de Bugue. S.m. Farinha de Milho. Var: Pó de Pungue.

Pó de Mantambu. S.m. Farinha de Mandioca.

Pranchear. V. Cair; levar um tombo.

Prancheio. S.m. Queda; tombo; caída.

Protiuda. S.f. Bunda; nádegas; traseiro. Var: Protiude.

Pungue. S.m. Milho. Var: Bugre; Bugue; Burre.

Radiopipa. S.f. Bunda; nádegas. Sin: Protiuda.

Rastar Cuxipa. V. Fornicar; transar; fazer amor.

Rastar Longado. V. Dançar.

Rastar Tiprequé. V. Dormir; deitar-se.

Rastar Urunanga na Omenha. V. Lavar roupa.

Sabor. S.m. Ovo. Sin: Haver de Carambóia.

Sengue. S.m. Roça; mato; mata. Por ext: Fazenda; zona rural. Var: Sengo.

Tata. S.m. Pai; genitor. Var: Otata.

Teia. S.m. Tatu.  

Tchapo. Adj. Esfarrapado; maltrapilho; roto; estragado; inutilizado etc. Sem dinheiro; pobre. Var: Atchapo.

Tibanga. Adj. Bobo; idiota; imbecil; otário; inepto; simplório; ingênuo; boçal; trouxa; parvo etc. Var: Tibanguara.

Tibanguara. Var: Tibanga.

Timbuá. S.m. Mão.

Timbere. S.f. Carne. Var: Camberela (mais usado atualmente).

Timberéia. S.f. Carne Var: Camberela (mais usado atualmente).

Tinhame. S.m. Perna; coxa; coxa feminina. Var: Quiname.

Tinhame de Uruma. S.m. Roda (de carro).

Tiparo. S.m. Olho. Var: Tipara.

Tiparo dos Imbondos. S.m. (geralmente usado no plural) Rolo; quinquilharia; bricabraque; badulaque; coisa confusa e desconexa; gambiarra; objeto não identificado etc.

Tiploque. S.m. Sapato; calçado de um modo geral. Var: Tipoque; Tiproque.

Tiploque de Orongó. S.m. Ferradura.

Tiploque de Uruma. S.m. Pneu.

Tipomo. S.m. Chapéu. Sin: Coreã. Var: Ticomo; Pongo.

Tipoque. S.m. Sapato. Var: Tiploque.

Tipoquê. S.m. Feijão. Sin: Indu.

Tiporê. S.m. Fruta. Var: Liporê; Ariporê.

Tiporê de Insu. S.m. Limão.

Tiporê de Uíque. S.m. Laranja; tangerina.

Tiporê do Sengue. S.m. Fruta silvestre.

Tiprequé. S.f. Cama. Sin: Esquife. Var: Tipequera; Tipeqüera; Tipequé; Tiprequero.

Tiproque. S.m. Sapato. Var: Tiploque.

Tipurar. V. Olhar; observar; ver etc.

Tué. S.m. Cabeça; crânio; cérebro; inteligência etc.

Tué Uarrufo. S.m. Nervoso; cabeça quente; alterado; preocupado.

Turisco. S.m. Pedra; seixo; cascalho; rocha. Por ext: Bola de sinuca.

Uarrufo. Adj. Bravo; selvagem; forte; arredio. Var: Arrubo; Arrufo; Uarrubo; Uarrufa.

Uba. S.f. Cerveja. Sin: Grozope.

Uíque. Adj. Doce; coisa doce. S.m. Açúcar.

Undaro. S.m. Fogo; fósforo; isqueiro; faísca etc. Var: Indaro; Sundaro; Undara.

Unde. S.m. Sol. Sin: Cumba do Bélude.

Urufaco. S.m. Sapato. Sin: Tiploque. Var: Uruvaco.

Urufim. S.m. Peixe. Var: Orufim.

Uruma. S.f. Carro; veículo. Por ext: máquina. Var: Orum; Oruma; Orume; Orumo; Urum; Urumo.

Uruma de Equilíbrio. S.f. Moto; motocicleta; motoneta; lambreta; vespa.

Uruma de Gombê. S.f. Carro de boi.

Uruma de Omenha. S.f. Barco; navio; canoa.

Uruma de Orongó. S.f. Charrete; carroça.

Uruma de Pedal. S.f. Bicicleta.

Uruma de Tempo. S.f. Relógio. Sin. Oronha.

Uruma de Urunanga. S.f. Máquina de costura.

Uruma do Fute. S.f. Avião.

Urumute: S.f. Abóbora; Var: Arumute.

Urunanga. S.f. Roupa; vestimenta; calça; camisa; vestuário. Var: Arundanga; Arunanga; Urundanga.

Urunanga Catita de Cuete. S.f. Cueca.

Urunanga Catita de Ocaia. S.f. Calcinha.

Urunanga de Mavero. S.f. Sutiã.

Vianjê. S.m. Cana-de-açúcar.

Vindero. S.m. Patrão. Var. de Cavinguero.

Viriango. S.m. Soldado; policial; polícia; meganha; samango; etc.

Viru. S.m. Defunto; morto; cadáver.

Vissongue. S.m. Dinheiro (pouco usado, antiquado). Sin. Ingura.

Vissunga. S.f. Festa; baile; pagode. Var: Vizunga.

Vizunga. S.f. Festa. Var: Vissunga.

Xapixape. S.m. Comida. Sin mais usado: Cureio.

Bondês; Bederodes; BD; (Bom Despacho),

28 de maio de 1985. ANTÔNIO BENÍCIO DE CASTRO CABRAL & IVÃ RODRIGUES DO COUTO (COMODORO)

Atualizado com a união com o vocabulário da Professora Sônia Queiroz, integrante do seu livro “PÉ PRETO NO BARRO BRANCO, A língua dos negros da Tabatinga”; pg. 112 a 138. Editora UFMG, Belo Horizonte, 1998.

Referências:

CABRAL, Antônio Benício. Benício Cabral Produções. A Língua da Tabatinga. O Cuete que caxô imbuete dos viriango.Coordenação e desenvolvimento do autor. Disponível em: <https://beniciocabral.wordpress.com/>. Acesso em: 19 maio 2020.

CABRAL, Antônio Benício. Entrevista Especial sobre Literatura e a Língua da Tabatinga. Mensagem recebida por <beniciocabral@gmail.com> 05 de agosto de 2020.

GATTUCO, Gio. Linguas Africanas: 10 palavras do Kimbundu usadas pelos brasileiros. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_4OGwDEmBLc >. Acesso em 07 maio 2020.

MAZZITELLO, Maria Catarina. Cuete Cavinguero tá injirando. Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Desenvolvimento da autora. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=OwblIAp9Myk >. Acesso em: 07 maio 2020.

QUEIROZ, Sônia Maria de Melo. Pé preto no barro branco: a língua dos negros da Tabatinga. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.149 p.

MOPC LÍNGUÍSITCA. Kimbundo – Língua Africana de Anola Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WdABeeTsCNw&list=PLVtynsD4LmFGc97McUYUkkBwuZU8RtwzZ&index=66&t=0s>. Acesso em 07 maio 2020.

O Sino de Ouro

O SINO DE OURO

Júlia Lopes de Almeida

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Maria Matilde tinha um sonho: fazer construir rente à baía de São Marcos, na sua linda cidade de São Luís do Maranhão, uma torre alta, muito alta, encimada por um enorme sino de ouro com os nomes de todos os Estados do Brasil, formados com pedras preciosas. Quando o sino badalasse, reboaria na atmosfera as suas sonoridades, acompanhadas pelo ritmo das ondas, e, quando os astros o iluminassem, rutilaria no espaço esplendidamente.

Mas a velha parecia não ter um vintém de seu.

Morava num casebre em ruínas, vestia-se de trapos imundos, comia só raízes e ervas do mato e bebia água na concha da mão encarquilhada e ossuda. Não tinha dinheiro para as necessidades da vida, porque, se lhe davam uma esmola, ela corria a escondê-la para __o sino de ouro__, e ia iludir a fome com os sobejos atirados pela caridade, ou um rabo de peixe chupado à porta de um pescador. Ninguém o sabia, mas o seu colchão estava já tão cheio de moedas que lhe magoava o corpo miserável, a ponto de preferir estender-se no chão duro, sobre uma esteira esgarçada.

Já tinha a sua idéia fixa, e para realizá-la seria precisa uma fortuna! A sua tôrre de ouro, com um sino cravejado de pedras preciosas, maravilharia o mundo inteiro…. Em casa ou na rua a visionária falava só, gesticulando, movendo no ar os dedos nodosos, de unhas grandes.

As crianças fugiam atropeladamente ao ver-lhe, de longe, o busto esguio; os adultos afastavam-se daquela imundície, e ela, passava sem ver ninguém, resmungando: — Quando o sino de ouro fizer: Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! todo mundo dirá: “É o coração do Brasil que está batendo… Que lindo é e como bate bem!” E ela ria-se, sacudindo os longos braços magros, a repetir pelas ruas sossegadas: — O coração do Brasil está parado…. Quero fazê-lo palpitar com força… Ba-ba-la-ão! Dão! Dão!

Na noite de chuva e de relâmpagos, Maria Matilde chegou encharcada e tremendo com o frio da febre à sua choça; mas, logo ao entrar, esbarrou com uma pobre rapariga da vizinhança, que se ajoelhou chorando a seus pés!

Qual não foi o seu espanto! Se ninguém a procurava nunca…. Uns tinham medo da sua morada de louca, supunham-na outros feiticeira, o diabo em pessoa.

Ela parou no umbral, estarrecida; a outra exclamou de mãos postas:

— Maria Matilde, tem dó de mim! Minha madrasta, aquela má mulher, expulsou-me de casa e aos meus irmãozinhos, que foram mendigar por essas ruas quase nus…. É por eles que eu choro. Dá-me um filtro, Maria Matilde, para abrandar o coração de minha madrasta e fazer que meu pai abra a sua porta aos filhos pequeninos, que são inocentes e estão passando fome, sofrendo frio, com medo do escuro, por essas praias.
Se for preciso o meu sangue para salvar os anjinhos, toma-o! Abre-me as veias, aqui tens o meu corpo!

E a moça desnudava-se oferecendo os pulsos e o colo sùplicemente.

Maria Matilde, de olhos arregalados, dobrou-se toda sobre a linda cabeça da moça:
— Darás a vida por teus irmãos?
— Darei a vida!
— Jura?

— Juro! Aqui me tens, mata-me, se para bem deles a minha morte for precisa. Dizem que és feiticeira, mas o que tu és é surda! Não prolongues a agonia de meus irmãos, Maria Matilde! Aqui me tens!

A velha considerou a rapariga com espanto, depois, rapidamente, correu ao catre, sumiu as mãos trigueiras nos rasgões da enxêrga e atirou punhados de moedas, vertiginosamente, para o regaço da moça estupefata.

— Teus irmãos estão nus? Toma, vai comprar agasalho para eles! Têm fome? Dá-lhes pão…muito pão…. Toma! Toma! Toma! Vai para junto deles, boa irmã, vai com Deus!

A moça aparava aquelas moedas inesperadas num delírio de felicidade. A velha deu-lhe tudo, tudo, depois empurrou-a violentamente pela porta fora, fechou-se por dentro e desatou a chorar.

Como haveria ela agora de comprar o sino de ouro e construir a sua alta torre rutilante? Teria de recomeçar pelo primeiro vintém, e as costas doíam-lhe tanto… tanto! Ao menos nessa noite poderia dormir sobre o seu colchão… O que a fazia tremer eram aquelas cobrinhas de gelo que andavam a passear pela sua espinha… A cabeça estava-lhe girando…

Era a febre! Maria Matilde debateu-se toda a santa noite, com os lábios secos, os olhos em fogo, as roupas unidas aos membros doloridos.

Pela madrugada serenou e rompia a manhã gloriosa, quando ela ouviu a voz dulcíssima de um anjo dizer-lhe à cabeceira:

— Construíste esta noite a tua torre e por ela subirás ao céu!
Maria Matilde atirou para fora do catre as pernas finas, aconchegou aos rins os molambos da saia, aos ombros os farrapos de um xale e correu ansiosa para a praia.

A cidade dormia ainda; só os passarinhos despertavam cantando. No largo mar azul o sol nascente espelhava uma coluna de ouro tão larga e tão longa que ninguém poderia calcular-lhe as dimensões.

No ar voavam gaivotas até além, às nuvens de ametistas e de rubis, que engrinaldavam no horizonte a torre deslumbrante. Era a pedraria do sino que reluzia! Sumindo nela os olhos felizes e fascinados, Maria Matilde sacudiu os longos braços, gritando vitoriosa, antes de cair redondamente na areia fria:

— Ba-ba-la-ão! Ba-ba-la-ão! Dão… Da…dão…

Quando a miragem do sol se desfez, já a louca tinha subido pela torre de ouro até o céu!

Vocabulário

Encarquilhada (adj.): enrugada
Sobejo (s.m): resto
Nodoso (adj.): cheio de nós, proeminente
Esguio (adj.): alto e delgado; comprido e delgado
Filtro (s.m): beberagem de fins supersticiosos
Catre (s.m): leito tôsco e pobre
Trigueiro (adj.): moreno
Enxêrga (s.m): colchão de palha muito estreito
Regaço (s.m): colo
Estupefato (adj.): espantado, admirado
Ametista (s.f): pedra semipreciosa

Versão retirada da obra Conheça o seu Idioma, de Osmar Barbosa. CIL. SP. 1971. P. 123.