Resposta de Quintino Bocayuva.

Resposta de Quintino Bocayuva.

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Machado de Assis. ___ Respondo á tua carta. Pouco preciso dizer-te. Fazes bem em dar ao prelo os teus primeiros ensaios dramaticos. Fazes bem, porque essa publicação envolve uma promessa e acarreta sobre ti uma reponsabilidade para com o publico. E o publico tem o direito de ser exigente comtigo. És moço, e foste dotado pela Providencia com um bello talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéa é uma força. Inoculal-a no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral. O homem que se civiliza, christianisa-se. Quem se illustra, edifica-se. Porque a luz que nos esclarece a razão é a que nos alumia a consciencia. Quem aspira a ser grande, não póde deixar de aspirar a ser bom. A virtude é a primeira grandeza d’este mundo. O grande homem é o homem de bem. Repito, pois, n’essa obra de cultivo litterario ha uma obra de edificação moral. Das muitas e variadas formas litterarias que existem e que se prestam ao conseguimento d’esse fim, escolheste a fórma dramatica. Acertaste. O drama é a fórma mais popular, a que mais recursos possue para actuar sobre o espírito, a que mais facilmente o comove e exalta; em resumo, a que tem meios mais poderosos para influir sobre seu coração. ___ Quando assim me exprimo, é claro que me refiro ás tuas comedias, acceitando-as como ellas devem ser aceitas por mim e por todos, isto é, como um ensaio, como uma gymnastica de estylo. ___ A minha franqueza e a lealdade que devo á estima que me confessas obrigam-me a dizer-te em publico o que já te disse em particular. As tuas duas comedias, modeladas ao gosto dos proverbios francezes, não revelam nada mais do que a maravilhosa aptidão do teu espirito, a profusa riqueza do teu estylo. Não inspiram nada mais do que sympathia e consideração por um talento que se amaneira a todas as fórmas da cancepção. ___ Como lhes falta a idéa, falta-lhes a base. São belas porque são bem escriptas. São valiosas, como artefactos litterarios, mas até onde a minha vaidosa presumpção critica póde ser tolerada, devo declarar-te que ellas são frias e insensiveis, como todo sujeito sem alma. ___ Debaixo d’este ponto de vista, respondendo a uma interrogação directa que me diriges, devo dizer-te que havia mais perigo em apresental-as ao publico sobre a rampa da scena do que ha em offerecel-as á leitura calma e reflectida. O que no theatro podia servir de obstaculo á apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comedias são para serem lidas e não representadas. Como ellas são um brinco do espirito, podem distrahir o espirito. Como não têm coração, não podem pretender sensibilizar a ninguem. Tu mesmo assim as consideras, e reconhecer isso é dar prova de bom criterio comsigo mesmo, qualidade rara de encontrar-se entre os auctores. O que desejo, o que te peço, é que apresentes n’esse mesmo genero algum trabalho mais sério, mais novo, mais original e mais completo. Já fizeste esboços, atira-te á grande pintura. ___ Posso garantir-te que conquistarás applausos mais convencidos e mais duradouros. ___ Em todo o caso, repito-te que fazes bem. Sujeita-te á critica de todos, para que possas dirigir-te a ti mesmo. Como te mostras despretencioso, colherás o fructo são da tua modestia não fingida. Pela minha parte estou sempre disposto a acompanhar-te, retribuindo-te em sympathia toda a consideração que me impõe a tua joven e vigorosa intelligencia. ___ Teu ___ Q. Bocayuva.

 

W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, São Paulo e Pôrto Alegre ___ 1947 ____ .

Correspondência: de Machado de Assis A Quintino Bocayuva

Correspondência:

 

de Machado de Assis a Quintino Bocayuva

Quintino e machado-1

Meu amigo. ___ Vou publicar as minhas duas comedias de estréa (1); e não quero fazel-o sem o conselho de tua competência. ___ Já uma crítica benevola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação. ___ Sou immensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa. ___ Mas o que recebeu na scena o baptismo do applauso póde sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dous meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra? ___ É para a solução d’estas duvidas que recorro á sua autoridade litteraria. ___ O juízo da imprensa via n’estas duas comedias__ simples tentativas de autor timido e receoso. Se a minha affirmação  não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo n’esses trabalhos. Tenho o theatro por cousa mais séria e as minhas forças por cousa muito insufficiente; penso que as qualidades necessarias ao auctor dramatico desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho; cuido que é melhor tactear para achar; é o que procurei e procuro fazer. ___ Caminhar d’estes simples grupos de scenas á comedia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento pratico das condições do genero ___ eis uma ambição própria de animo juvenil e que eu tenho a immodestia de confessar. __ E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estadio que ha percorrer para alcançal-a. E mais. Tão difícil me parece este genero litterario que, sob as difficuldades apparentes, se me afigura que outras haverá, menos superaveis e tão subtis, que ainda as não posso ver. ___Até onde vae a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? Eis o que espero saber de ti. ___ E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excellentes: razão de estima litteraria e razão de estima pessoal. Em respeito á tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento. ___ O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo e eu docil; terás ainda por isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrivel sentença de um escriptor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles um regret? ___ Teu amigo e colega __ Machado de Assis.


(1) O caminho da porta e O Protocollo, comédias publicadas em 1863.

W.M Jackson Inc. Editores, Porto Alegre (1947).