Pompeu e a cascavel

Pompeu e a cascavel Por José Estanislau

 

Fonte: Pompeu e a cascavel

Quininha, jogo de rua

Quininha, jogo de rua

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

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COMO se sabe, no bairro Belo Vale as ruas locais não passam dos seus oito metros de largura. E o espaço para pedestres não chega a um metro e sessenta centímetros. Ali, quando cai a tarde e as casas disseminam aquele cheiro maravilhoso de janta, os meninos brincam um jogo de rua que pouco se conhece: é a quininha.

Em ambos os passeios se improvisam com chinelos as traves dos gols ao pé dos muros. Do gradil à guia (meio-fio) representa-se a “pequena área” dos jogadores.

Regras. Cada jogador defende o seu gol e tem por vez o direito de lançar a bola com as mãos visando acertá-la na quina do paralelepípedo oposto. Acertando o alvo, o lançador aproveita o rebote dominando a bola – agora sem o apoio das mãos, valendo apenas cabeça, tronco, pernas e pés –  sob o limite de três toques antes de finalizar com o chute ao gol adversário. Se não acertar a quina, passa-se a vez.

Quando do trânsito de automóveis e motocicletas paralisa-se a jogada repetindo-a em seguida. No caso de bicicletas a jogada corre normalmente. Ótima brincadeira urbana ao ar livre para áreas preferencialmente residenciais com pouca movimentação de veículos. A molecada desenvolve e aperfeiçoa uma série de habilidades e atributos.

Em nossa época, há uns vinte anos atrás, as brincadeiras de rua eram mais grosseiras, porém não menos criativas. Sumiram muito rapidamente. Citemos as seguintes: finca, carrinho de rolimã, novo tôco melão, mamãe-da-rua, garrafão, latinha, paredão, hoje não! e meadinha.

contato: lopeslarocha@gmail.com

Coração de pai

Coração de pai

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

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CERTA feita, um texto meu foi criando rabo. Eu fiquei meio sem saber o que fazer. Deixei-o dentro dum caderno, sob outros cadernos, livros e apostilas. Com o correr do tempo, resolvi procurá-lo. Achei. Havia já perdido o rabo e criado pernas. Aquilo me estarreceu completamente. Assombrado deveras fiquei quando me percebi focado por um punhado de olhinhos. Cada letra “o” era um. Aspas eram cílios. O diabinho desgramou a pirraçar. “Contraíra doença de livros”, pensei, “ e agora?”

Patinhas como as dos antiguíssimos peixes não se demoraram. Teve a quem puxar quanto as orelhas. Eram idênticas às das minhas agendas; e quão idênticas! Testa quadrada, estilo margem superior de papel almaço; e a pele meio que com rugas de papel reciclado artesanalmente.

Verdadeiro espetáculo da evolução gráfica. Seu engatinhar era a coisa mais linda, a vontade de caminhar nem me falo: passos trêmulos sobre a pauta. “Que lindinho!”, diria algum tio solteirão.

Fez golfar alguma tinta. Pirraça. Fez sem vontade, quase não fazendo, e disparou – ao que me pareceu – a rezar idéias. “Donde vêm suas prévias concepções?”, perguntei-me. “Donde vêm? Poucos objetos ao seu dispor, quase nada familiarizado com sons ou sinais, nem tampouco com arranjos e convenções. Como pode isso gente?!”. Não era possível. Não poderia haver naquela criatura nenhum pensamento. Talvez alguma longínqua memória de outras encarnações, isto é, “encadernações”.

Veio à hora em que ele se atreveu. Deu para falar – pelas entrelinhas – disparates jamais ensinados por mim. O bichinho foi crescendo e a coisa se complicando.

Deixei aquelas jabuticabinhas mágicas olharem-me por algumas noites. Não conseguia acreditar no que tinha inventado ou no que havia permitido inventar-se. E a cria foi necessitando criação, correção e, é claro, outros companheiros textuais. Pedia argumentos contrários a fim de se debater, de se repensar. Repetia em defeituosa dicção e de maneira infeliz: “_Sinto-me inadequado, principalmente quando sonho com meus antepassados. Fico sem assunto às vezes.”

Senti o amor e a compaixão que se dá entre pai e filho. Tinha a obrigação de recuperar a dignidade do meu rebento.

Desesperado, eu recorria aos esquemas e mecanismos e técnicas. Ordenava ao tubo cilíndrico da caneta, contudo não havia mais carga. Em pouco, a esfera não deslizava ao campo branco. Eu chacoalhava, esquentava o acrílico e nada; e soprava pela tampa, e outra vez nada. Cheguei a ver, mediante a translucidez do tubo, algum vestígio de letras. Pura ilusão! É essa coisa do operário ver no instrumento alguma esperança de trabalho.

O filhote me dizia: “Eu não pedi pra nascer!”. Eu respondia de chapa: “Não valeu à pena trazer-lhe à luz da página! ”. Passamos a andar a tapas e aos cuspes. Teria eu de parar por ali mesmo. Então eu disse por fim:

“Respeita seu pai, menino! É uma coisa ou outra: ou você volta para entre os maços da gaveta, ou vai morar na rua! ”

O caso da ferramenta

O caso da ferramenta

Lopes al’Cançado rocha, o CristianoFoto0538

Peça rara é um desses senhores joviais disputado por solteironas na mesa do bar. É o sô Germano.

Ele tem seu jeito saboroso de contar histórias fazendo boca boa cheia d’água, pausando quando uma buzina rompe a conversa, pedindo aos ouvintes para ajudá-lo a retomar o ponto em que parou e, como se exige dum bom contador, dando a merecida importância ao passado e às vidas que já se foram. Sem pressa e bem compassado. É o porto seguro aos nossos ouvidos, pois pouco se diz do presente e menos ainda do futuro.

Nessa última noite de São João, o sô Germano nos contou um caso para aquietar os que não suportam desaforados prejuízos de forma alguma. Adiante as palavras são dele:

Em 1980 ganhei uma ferramenta não sei se alemã ou dos Estados Unidos. Só sei que…algum dos meninos lá de casa a emprestou para outro alguém da vizinhança e se esqueceu. O tomador também não se alembrou de devolver e assim ficou. Como dizia mamãe lá na época da roça: “quando é assim, amarra no rabo do capeta e esquece”. Foi o que eu fiz.

Depois duns mais ou menos quinze anos eu precisei duma chave para sanar um vazamento lá em casa. Comentei da precisão e uma vizinha ouviu. Ela entrou correndo para casa dela…, mas correndo mesmo como quem corre para socorrer. E voltou com a cara meio que indecisa ou até meio arrependida. E alguma coisa na mão. “Olha essa daqui sô Germano, vê se essa te serve”. Era, por essa luz que me ilumina, a chave que eu tinha ganhado em 1980.Tanto era que estava lá no cabo a marca dum desgaste provando ser mais minha ainda. “Mas vou dizer uma coisa”, continuou ela, “empresto só porque é para o senhor; se fosse para outro, jamais. Só peço, se o senhor não se importa senhor Germano, que tenha muito cuidado no uso”, disse a dona com aquela mais pura inocência e verdadeiramente sentida, sabe? “ Porque essa ferramenta é a coisa que mais me faz lembrar do meu filho. Deus o tenha…” e olhou para o chão ao invés de olhar para o céu.

Então eu disse: “não dona…, não quero incomodar preocupando a senhora, deixa que arrumo um jeito ali com fulano e coisa e tal”…né? A dona, mesmo assim, insistiu que eu tomasse emprestado dizendo inclusive que se seu filho estivesse vivo seria eu a única pessoa da rua a quem ele emprestaria. E por fim pediu, quase que se humilhando, que eu aceitasse a ajuda por consideração à família, meio que em memória do falecido.

Fiquei tão desapontado que peguei a ferramenta já agradecendo de antemão, fiz o reparo mais que depressa e devolvi antes do almoço, agradecendo também no ato da devolução. À noite rezei três vezes a Ave Maria e cinco vezes o Pai Nosso pela alma do filho e pela bondade da mãe.

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano é escritor e compositor de Santa Luzia,MG, Brasil. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ) e  atualmente trabalha em dois projetos artísticos: finalização de seu 2º álbum virtual de canções e manutenção desse site.

Dicas para boa interpretação textual

SUGESTÕES PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

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Professor Adolfo Murilo, Santa Luzia-MG (1992).

  1. Considerar o texto como um ponto básico para as respostas, mas jamais uma fonte de solução para as questões; 
  2. usar da prática de produção de textos , da leitura de bons autores , boas obras e incrementar, bem como atualizar o vocabulário;
  3. Saber que todo texto retrata uma realidade por mais remota que seja;
  4. ter conhecimento de que uma interpretação é sempre trabalhosa, pois esta exige muito raciocínio por parte do leitor;
  5. procurar entender bem as questões, depois resolvê-las;
  6. evitar a extrapolação, pois esta se constitui em um grande erro de interpretação;
  7. não confundir reprodução e transcrição de texto com interpretação;
  8. ler o texto quantas vezes necessárias, ainda que seja para responder uma única questão ou resposta;
  9. ter consciência que responder com as próprias palavras nem sempre se alcança o objetivo desejado;
  10. não confundir resposta pessoal com resposta interpretativa, pois aquela representa uma simples opinião e esta uma solução abrangente;
  11. ter conhecimento de leitura vertical e leitura horizontal, pois uma tende para o concreto dito, a outra para o abstrato e entredito;
  12. ser minucioso e calmo ao responder qualquer pergunta ou questão, pois de forma precipitada, jamais alcançaremos o objetivo desejado;
  13. ter conhecimento da função dos conectivos quando as perguntas ou questões os exigirem ( expressões de sentido afirmativo, hipotético, adversativo etc);
  14. saber identificar e diferenciar os tipos de texto quanto a seu conteúdo: filosófico, científico, literário, jornalístico, didático, etc;
  15. identificar o tom da fala do autor (humor, seriedade, ironia ), bem como a linguagem por ele escolhida ( coloquial, formal), pois estas influenciam diretamente nas intenções e nos sentidos de suas colocações;
  16. Estar atento às intenções do autor (informar, instruir, conscientizar, provocar, criticar) e, se possível, correlacioná-las aos aspectos de sua formação e origem;
  17. ser claro ao redigir respostas, pois isto facilita o entendimento e a correção por parte do avaliador;
  18. saber que uma resposta subjetiva nada mais é do que a busca de uma resposta objetiva dentre quatro ou cinco proposições;
  19. ter aspecto lógico como fator primordial, levando-se em consideração outros aspectos tais como: psicológicos, sociológicos, econômico-sociais etc;
  20. ter certeza de que a tarefa de interpretar é bastante individual, mas o resultado tende para um ponto de convergência que é a resposta lógica de toda questão em evidência;
  21. saber que a interpretação é o resultado do comportamento e atitudes do ser humano, em confronto com seu semelhante, diante das circunstâncias que os rodeiam;
  22. o nível de interpretação de um  grupo social deve condizer com seu grau de instrução;
  23. ter consciência de que saber interpretar é desenvolver um processo muito importante para o crescimento intelectual e espiritual de cada um.

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

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 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

honorários

Pl. subst. de honorário.]

Substantivo masculino plural

1.Remuneração àqueles que exercem uma profissão liberal;

2.P. ext. Vencimentos, salário, remuneração. ~ V. honorário.

cachê

[Do fr. cachet.]

Substantivo masculino

1.Ordenado de qualquer integrante de companhia teatral, cinematográfica, de televisão, etc.:

2.Pagamento feito a qualquer pessoa que se apresente em espetáculo público ou que participe de anúncio. [Cf. cache e cachés.]

Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. Edição eletrônica autorizada à POSITIVO INFORMÁTICA LTDA.©2004 by Regis Ltda.

Agora que se tornaram mais nítidas as “subterrâneas guerrilhas”; agora que conservadores, liberais e libertários dos mais diversos graus se organizam na sociedade civil disputando com socialistas e coletivistas os espaços públicos e coletivos, os veículos de comunicação e as audiências, enfim, ruas e estradas; praças e palácios; templos e mercados; clubes e escolas têm se transformado em arenas que transpiram pluralidades político-ideológica, cultural e religiosa.

Em meio a essas “guerrilhas”, no meio desses fogos cruzados pela disputa do controle das pautas e temáticas estamos nós, os trabalhadores, empreendedores e profissionais da cultura artística, interessados em preservar tradições, inovar e oferecer à coletividade nossos serviços. Sem “maneirismos”, embora cada qual se identifique livremente com determinadas correntes e confissões.

Dos que já não foram muitos estão sendo convidados a erguerem bandeiras e a postar-se em tal ou qual lado na política, nos movimentos de lutas, em favor de religiões etc. É natural que aceitemos e façamos nossas escolhas com base em interesses ou princípios. Mas é importante conscientizarmos do risco de tornarmos meros instrumentos de causas injustas ou até perigosas e perversas; e do risco de sermos usados gratuitamente, por meio de explorações imorais, na transmissão de propagandas político-ideológicas totalitárias, cujos objetivos agridem liberdades e costumes já consagrados.

O presente trabalho, realizado em 2008 (basta atualizar valores mediante pesquisa de preços praticados conforme a região), visa contribuir no estabelecimento de parâmetros para compatibilizar interesses entre contratantes e contratados, garantindo ao verdadeiro trabalhador cultural uma remuneração condigna.

A cultura artística consiste em um dos campos que mais contribuem para a construção da cidadania em nosso esforço e percurso civilizatório, exigindo dos profissionais atualizações constantes, acompanhamento da tecnologia e muita dedicação, visando aprimorar e melhorar seus modos de expressar, o tratamento com os conteúdos, bem como a qualidade dos serviços prestados à coletividade.

As principais atividades exercidas por profissionais do setor são:

  • aprendizagem e treinamento
  • leitura e concepção
  • pesquisas de campo e documentais
  • composição e criação
  • revisão e adaptações
  • pré-produção
  • ensaios
  • produção
  • promoção e comunicação
  • apresentação
  • pós-produção
  • serviços de secretaria.

A cultura artística apresenta um caráter aparentemente de descontinuidade – emprega-se boa parte do tempo em formação, preparação e pesquisas, isto é, nas etapas que antecedem as apresentações e exposições finais dos trabalhos. Isso causa dificuldades no reconhecimento econômico-financeiro dos serviços, trazendo ao artista a necessidade de atendimentos simultâneos e/ou alternância com trabalhos de outros ramos.

Merecem destaque alguns aspectos relativos à qualificação, aos benefícios, às obrigações e aos custos:

  • os elementos necessários à elaboração de uma obra, de um espetáculo, de uma performance , por exemplo, não são coletados e organizados de uma só vez, exigindo sempre novas pesquisas e diligências;
  • atividade contínua do profissional, objetivando uma remuneração condizente com o trabalho que exerce, de forma a que possa levar uma vida de padrão médio, lhe oferece poucas oportunidades de férias integrais, não lhe dá direito a 13º salário, FGTS nem tão pouco seguro de vida ou aposentadoria conciliáveis com a atividade em seus anos mais produtivos;
  • exige participações em congressos, seminários, palestras, cursos de aperfeiçoamento, aquisição freqüente de livros, materiais didáticos, instrumentos, acessórios, aulas particulares, revistas especializadas e tecnologias, visando uma constante atualização para que o profissional acompanhe a evolução da cultura;
  • requer a manutenção permanente de pequeno escritório com infraestrutura básica, compreendendo computadores, programas, telefone, suprimentos e aparelhos que possibilitem o bom desempenho do empreendimento.

Na maioria dos projetos, além das etapas já citadas, o artista-empreendedor deve ainda realizar outras tarefas e exercícios que nem sempre lhe são creditados quando do arbitramento de seus honorários/cachês, talvez até por serem de difícil mensuração. São elas:

  • contemplação e reflexão
  • experimentação
  • busca de um grau de elaboração de linguagem satisfatório ao público
  • esforço mental e físico para se chegar a certa qualidade técnica e estética
  • escolha do repertório
  • captação de parceiros, colaboradores e/ou coadjuvantes
  • produção textual
  • captação de recursos

Assim, torna-se importante que a sociedade em geral tenha conhecimento das atividades que compõem os ramos da Cultura Artística e saiba dos custos e das obrigações que recaem sobre os profissionais.

Outras considerações:

  • Adiantamento

Qualquer que seja a forma de contratação é justo o profissional requerer um adiantamento de, no mínimo, 30% (trinta por cento) dos honorários/cachês acordados, visando custear despesas iniciais.

  • Cálculo das despesas adicionais

As despesas adicionais para realização dos trabalhos devem ser incorporadas aos honorários/cachês. Entre elas destacamos:

a) despesas com deslocamento e mobilização de pessoal;

b) custos relativos à execução da proposta formal e orçamento, sendo: papel, cartucho de tinta, impressão, arte gráfica etc.;

c) custos com manutenção de escritório, relacionando ao tempo em que o trabalho de contratação se inicia. Podemos destacar: telefone, provedor de internet, energia elétrica, suprimentos de informática e papelaria;

d) custos relacionados ao exercício da profissão e custos administrativos das contratações. Deve-se ratear os custos a seguir entre os trabalhos executados de forma ponderada, proporcional e inteligível. Destacamos os seguintes itens: despesas relativas a impostos, contribuições e taxas, locação de instalações, de mobílias e/ou equipamentos, registro de obras, anuidades de órgãos de classe, manutenção de inventário cultural particular, serviços de contabilidade, cursos de aperfeiçoamento, assinatura de periódicos etc.;

e) custos com viagem: quando o profissional tiver a necessidade de se deslocar para realização de trabalhos fora de sua região, devem ser contabilizados ainda os custos de deslocamento, bem como alimentação, estadia etc.;

f) as despesas de prestação de serviços técnicos de terceiros que envolvam iluminação, sonorização, desenhos, cenários, entre outros, devem ser cobradas com base na tabela de honorários do respectivo segmento profissional.

Cálculo do valor da remuneração e reajustes

Ao calcular o valor de sua remuneração, o profissional deve, também, levar em consideração:

  • quantidade de espectadores;
  • classe de renda do tomador de serviço (contratante);
  • região administrativa;
  • característica do local e tipo de instalações;
  • perfil do contratante;
  • evolução da participação de artistas do mesmo seguimento, modalidade e/ou linha de expressão (variação na oferta);
  • os profissionais podem utilizar índices econômicos como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como parâmetro os grupos educação, leitura e recreação.

Vejamos a tabela abaixo, cujos Valores Médios são expostos com base em levantamentos de características que determinam a formação de preços dos serviços prestados por músicos, dançarinos, animadores de festas, artistas circenses e atores performáticos. Como referência, realizamos pesquisa de coleta de preços na seguinte proporção e forma:

1 (uma) Cooperativa musical: músicos instrumentistas, cantores etc.;

8 (oito) músicos: voz e outro instrumento;

3 ( três) artistas circenses: figurino, malabarismo, mágica e brincadeiras;

3 (três) dançarinos: figurino e performance;

4 (quatro) animadores: figurino, brinquedos leves, brincadeiras e performance;

2(dois) atores performáticos: figurino, cenário portátil e performance.

 

       HONORÁRIOS/CACHÊS POR CLASSE DE RENDA

       VALORES EM REAIS POR ESPECTADOR/HORA

(* valores válidos para artistas que atuam individualmente)

Bairros por classe Bar Restaurante Salão Teatro Cs Show Festa Part. Festa Part.
de renda   P.F P.J
Popular/ Médio 4 (200) 7 (350) 7 7 7 5 (250) 10
Santa Efigênia 7 (350) 10 10 10 15 (750) 7 15
Barro Preto 7 10 10 10 15 10 20
Centro 7 10 10 10 15 10 20
Funcionários 15 20 25 25 30   30 (1500) 40 (2000)
Savassi 15 20 25 25 30 30 40
         Luxo 12 15 20 20 (1000) 25 20 30
                                                                                                                                                      Bhz e RMBH
Os números em parênteses acima dos valores indicam (em reais) o número de 50 espectadores multiplicado pelo valor unitário
 

Considerações finais

A informalidade e a inadimplência, decorrentes de falhas educacionais e morais graves, limitam as oportunidades de crescimento econômico e bem-estar social, além de corroerem a integridade dos cidadãos.

Do ponto de vista material, algumas atividades, como a artística, são relegadas a segundo plano. Isso é constrangedor – sobretudo em países de governos e instituições geridas por partidos e pessoas autodenominados democratas e progressistas, de inspiração social e comprometidos com os trabalhadores.

Há empresas que se utilizam de tais falhas como diferencial competitivo e trabalhadores que desvalorizam o seu próprio papel no universo corporativo.

Empresas (públicas e privadas), produtoras, organizadores e realizadores de eventos são empreendimentos mercantis e políticos, e se aproveitam do trabalhador cultural, do artista. Não se trata, aqui, porém, de converter a inteligência, o talento, as emoções ou o espírito criativo em meras mercadorias precificadas. Consiste na busca de uma justa, se não razoável locação da mão-de-obra, dos bens autorais e patrimoniais.

Se o artista não se apossar do que lhe é de direito, outro o fará. É necessário fortalecer a consciência profissional, especialmente para assegurarmos os direitos e o bem-estar das futuras gerações.

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Memórias sobre crises [lambujas

Memórias sobre crises [lambujas

5 CRUZEIRO

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Naquela manhã o bairro acordou cedo e calado. Ouvia-se o canto dos pardais novamente. Nenhum som musical saía pelas janelas. O silêncio e o diálogo contido, geralmente, sinalizam as crises econômicas dum país, a restrição de crédito e, conseqüentemente, de consumo.

Na avenida rufavam pouquíssimos motores de automóveis e motocicletas: o preço do combustível foi aos céus.

Eram tristes até o arrulhar dos pombos, pois o dono da Mercearia 36 passou também a regrar-lhes o milho. Os alcoólatras – de pernas inchadas e feridas nas mucosas, sem reflexos e decadentes – que amanheciam à porta do comércio exclamavam: “acabou o milho, acabou a pipoca”. A sobrevivência já não mais festejava.

A tradição doméstica de bater o bife passou a ser evitada, na época, também para que o vizinho mais necessitado não ouvisse o sinal da carne. A comida tão pouca não se pode dividir entre muitos. Não é tão triste o momento, no entanto, para os que costumam aparentar o luxo e padecer o bucho. Esses, que se fingem de seguros, se fazem de mal-entendidos perante as crises.

Pode-se estimular a modificação dos critérios de bem-estar de uma população ou comunidade. É isso, exatamente, o que fazem os controladores dos meios de comunicação coletiva e os agentes revolucionários, talvez a mando e a pedido de autoridades poderosas. Alguns atuam nesse sentido inocentemente, em busca de fama e reconhecimento.

Lê-se no jornal local (O grito) a seguinte chamada: “…como se alimentar em tempos de crise”; e no caderno Pensar do Jornal Estado de Minas “…pratos ecologicamente corretos e coletivos”. Neste último trata-se dum anúncio de dois livros, espécie de incentivo a “práticas alternativas”: duas moças saem de bicicletas pela cidade à procura de ervas , verduras, plantas comestíveis que brotam naturalmente nos terrenos e lotes baldios. Quem não vê nisso traços de precariedade e escassez? Na Venezuela já se usam o modismo vegetariano para esconder a calamidade e a fome.

Observo que o pobre de ontem já se acostuma com a miséria de hoje; assim o faz o bem-de-vida com a pobreza; e por sua vez, o rico já aceita a condição mediana. Um homem outro dia ajoelhou humilhantemente no corredor do ônibus para disputar as tão concorridas esmolas.

Trago na memória essas tais condições e, além, é claro, de consultar livros, revistas , jornais, sites confiáveis e gravar as boas conversas “sobre aqueles tempos de crises”.

(…)

Só agora sai de minha memória para o papel os divertidos sábados da feirinha da Av. Joaquim Lourenço de Oliveira, onde fixavam barracas à altura do número 518, em frente da E.E Jacinta Enéas Orzil, em meados dos anos 80. O dono e líder do negócio era o Sr. Tião, homem alto, de bigode, prestativo. E ele foi sempre solidário à comunidade. No início, por permitir que catássemos, rua abaixo, as laranjas que acidentalmente caíam ao serem despejadas dos caixotes para a bancada. Sentíamos úteis. Depois, foi generoso ao nos presentear com as frutas feias rejeitadas pela clientela. Meu amigo Sérgio perguntava convidando-nos: “Vão lá na feirinha esquematizar lambujas?” Lambuja era, inteligentemente, o apelido dado por ele às laranjas aproveitáveis, com pequenas partes apodrecidas. O Sr. Tião foi mais bondoso ainda quando, muito depois, com já anos de feira, passou a dar serviço para alguns dos lambujeiros dispostos a carregar caixas e também aos mais educados para ajudá-lo atender os fregueses. Esses amigos, que passaram a trabalhar na feira, foram ainda mais vitaminados e fortificados com verduras, frutas, ovos, leites e carnes.

Cristiano Lopes Cançado de la Rocha, escritor e compositor. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ) e atualmente trabalha em dois projetos artísticos: finalização de seu 2º álbum de canções e manutenção desse site.

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PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante

PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante reacionário

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Outro publicista de talento, muito espírito, boa linguagem e estilo elegante, ensaísta fecundo e original, polemista vigoroso e agudo, um verdadeiro escritor em suma pelas peregrinas qualidades da sua ideação e expressão, é Eduardo Prado. Chamava-se com todo o seu nome Eduardo Paulo da Silva Prado. Nasceu na capital de S. Paulo de uma velha, importante e opulenta família, ali vinculada, em 27 de fevereiro de 1860, e na mesma cidade formou-se em Direito e veio a falecer em 30 de agôsto de 1901.

A sua obra é copiosa e foi toda feita em jornais e revistas, um pouco ao acaso das circunstâncias e ocasiões. Hoje acha-se toda reunida em nove volumes e compõe-se de artigos literários, viagens, ensaios, discursos, crítica literária, social ou política, polêmica, etc. Na literatura brasileira, Eduardo Prado tem duas singularidades: ser um dos poucos senão o único homem rico e certamente o de mais valor que aqui se deu, sequer como diletante, às letras, e ser talvez em a nossa literatura o único escritor reacionário.  Refiro-me a escritor e não a políticos que ocasionalmente tenham escrito, nem a jornalistas, cuja obra efêmera não considero aqui. Joaquim Nabuco conquanto católico praticante e monarquista convicto, não pode ser tido por um reacionário, porque achou jeito de conciliar com o seu catolicismo, porventura mais de imaginação que de sentimento, o seu profundo liberalismo, e foi sempre, conquanto aristocrata de raça e temperamento, irredutìvelmente um liberal, um democrata em política. Eduardo Prado, que em tudo, em costumes, em opiniões e gostos, parece ter sido um diletante, um espírito cosmopolita, pode ser que fôsse também em crença religiosa e política.

A sua curiosidade intelectual, o seu gôsto do novo e do exótico, diga-se, a dose de snobismo que havia nêle, e certo senso de elegância e mundanismo hostil à nossa baixa democracia, e mais a sua frequentação de meios monárquicos e reacionários de Paris, explicam talvez o seu reacionarismo católico e monárquico em oposição com a sua natural independência mental e irreverência espiritual. É o nosso mais acabado tipo de diletante intelectual, do amador das coisas de espírito. E amador e diletante o foi em tudo, com bom humor, muito espírito e inconseqüentemente.  Com pontos de contato com Nabuco, não tem o seu talento, e menos a sua seriedade espiritual. O brilho mundano da sua existência de moço rico e pródigo, as suas longas viagens, a sua existência européia, o íntimo comércio com homens de letras europeus, deram-lhe um prestígio que a sua só obra literária, aliás documento de talento literário pouco vulgar, acaso não teria só por si dado. Aumentou-lho a perseguição tolamente feita pelo Governo Provisório da República ao seu brilhante panfleto A Ditadura Militar no Brasil e a atitude por ele tomada em face não só da República mas do geral sentimento do país.

Como escritor, Eduardo Prado foi, em suma, um jornalista, porém com mais talento, mais espírito, mais cultura e mais experiência do mundo que o comum dêles.  Da causa pública teve menos o interêsse que a curiosidade do seu elemento dramático. A política foi-lhe apenas um tema literário, que tratou com a desenvoltura de um espírito no fundo céptico e paradoxal.

História da Literatura Brasileira, 1901-1907.

José Veríssimo-Crítica, coleção Nossos Clássicos, editora Agir,1958.

AINDA O POSITIVISMO NO BRASIL

Ainda o positivismo no Brasil

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Por José Veríssimo

“O positivismo é, para o Sr. Sílvio Romero, uma coisa perigosa e deve ser combatida com seriedade. Desde que uma doutrina, continua êle, qualquer que ela seja,tornou-se o pão espiritual de algumas centenas de homens, essa doutrina constitui um fator social e um estímulo de ações; essa doutrina distribui alento e entusiasmo, aviventa as fôrças da alma, afirma-se como um incentivo em nome do futuro. E coisas assim tão graves, só podem ser tratadas com severidade e compostura.”

Excelentemente dito, sòmente se pode notar que arrastado pelo seu temperamento batalhador de polemista educado na péssima escola de Tobias Barreto, o Sr. Sílvio Romero não guardou, quanto talvez convinha à elevação do assunto, essa “severidade e compostura”. A sua desculpa seria que o seu livro, como toda a sua obra, é ainda de polêmica. Porque esta é a característica, a dominante do Sr. Sílvio Romero: ser um polemista. Fazendo história ou crítica literária, política ou filosofia, escrevendo ou conversando, apesar da bonomia afetuosa, natural e amável do seu trato, que estão longe de suspeitar os que só por seus livros o conhecem, o Sr. Sílvio Romero é um polemista. E eu direi, sem intenção de lisonjeá-lo, que não conheço entre nós nenhum de mais nervo, de mais valentia, de mais graça – uma graça para que não achamos ainda nome, o produto da chalaça portuguêsa com a pacholice ou a capadoçagem nacional, temperada pela alegria ingênua e fácil que o negro no herdou. Essa graça não admite a ironia. A ironia, como o humour, mais ainda talvez que êle, é estranha à índole brasileira. Uma e outro são entre nós produtos de cultura, resultados de imitação que em certos indivíduos, por disposições especiais de temperamento, podem ter sido assimiladas perfeitamente, completamente, mas que são em todo o caso raros e exóticos.

Livro de polêmica, livro de doutrina, o Evolucionismo e o Positivismo no Brasil distingue-se e recomenda-se pela valentia e brio com que o ilustre escritor dá combate àqueles de quem faz seus adversários ou de quem se faz adversário e, sobretudo, por vulgarizar as críticas que à filosofia de Comte fizeram H. Spencer, Stuart Mill, Huxley e outros. Com efeito é com longas citações dêstes pensadores e cientistas que o Sr. Sílvio Romero principalmente combate os princípios cardeais da construção positivista, a lei dos três estados, a classificação das ciências, a organização sociológica.

Esta falha é comum a todos os nossos críticos filosóficos, a começar por Tobias Barreto, aos quais a carência de estudos originais e da cultura científica indispensável força a reduzir os grandes problemas da filosofia moderna ao contraste entre os diversos pensadores, cujas opiniões soam respectivamente contrapostas, consoante a escolha ou as inclinações e simpatias do crítico. O processo, que tem cabimento no domínio da erudição, não me parece conveniente em se tratando de cogitações filosóficas, e o seu insistente emprêgo pelos que entre nós fazem filosofia ou crítica filosófica, provaria talvez ou a nossa incapacidade para as questões abstratas ou a insuficiência da nossa cultura geral.

Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

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O POSITIVISMO NO BRASIL

O POSITIVISMO NO BRASIL

Por José Veríssimo

…No Brasil, e aqui entramos na primeira das causas particulares da influência do positivismo, não se pode dizer haja alguma coisa organizada. Não o estava o próprio Estado, apesar de sessenta anos de monarquia, não o estava como ainda não o está a Igreja, e menos ainda o academicismo, o oficialismo, em suma qualquer dêsses elementos da vida nacional que alhures são um obstáculo à intrusão de certas idéias. Do seio das próprias corporações que por sua mesma essência deviam sustentar o Estado, defender a Igreja, que lhe era conjunta, manter a tradição acadêmica, sustentar o oficialismo, surdiam pregadores da doutrina cujo fim declarado era destruir tudo isso.

A monarquia esfacelada e decomposta, não tendo por si sequer a crença do imperante no regime imbecil, no rigor vernáculo da palavra; a Igreja, impotente, desmoralizada pelo regalismo, sem recursos materiais e morais, que nem clero possuía suficiente para as necessidades rituais; o academicismo, vegetando no egoísmo da vida prática, na inércia do privilégio, livre de estímulos pela segurança da vitaliciedade e pela falta de concorrência, nenhuma hierarquia, nenhuma casta, nenhuma coesão entre essas diferentes moléculas do corpo social, êste era como a matéria mole, excessivamente plástica e dúctil, em que podia trabalhar à vontade quem tivesse uma convicção e um objetivo. Quem fôsse uma organização, conseqüente e forte, acabaria fatalmente por atuar nesse meio sem consistência nem resistência. Foi o que sucedeu ao positivismo aqui.

Fazendo da matemática a primeira pedra do seu alicerce filosófico, a doutrina de Augusto Comte lisonjeava a minoria cujas carreiras profissionais assentavam também sôbre êsse fundamento, e levavam-na envaidecida pela vulgar ilusão de fazermos dos nossos próprios estudos o centro do mundo dos conhecimentos, a considerar o positivismo a única e verdadeira concepção filosófica. Sendo a matemática, segundo conceitua um pensador contemporâneo, a arte de não ver senão um lado das coisas, êsses positivistas, esquecidos das objurgatórias do seu mestre contra o domínio dos geômetras, não viram na doutrina que abraçavam senão o aspecto que lhes seduzia a vaidade profissional.

Como quer que seja, porém, foi mediante a matemática que penetrou a filosofia positiva nas escolas militares, ganhando assim o seu maior número de adeptos e propagadores na corporação que entre nós era talvez a única que tinha tal ou qual organização e mantinha algum espírito de classe. E por uma dessas fenomenais incoerências de que parece temos o privilégio, foi da sementeira do exército que saíram, senão os sacerdotes, os acólitos da doutrina fundamentalmente hostil aos conflitos armados, ao regime militar, aos exércitos permanentes. Com o positivismo entrou o republicanismo, que lavrando no exército apressou a eliminação inevitável prevista, anunciada – até por partidários seus – da monarquia.

O positivismo que até então só tinha por si a convicção, o entusiasmo, a fé, começa a ter a força. É uma minoria, mas forte, unida, disciplinada, hierarquizada, sabendo o que quer e sabendo querer. Em todos os tempos foram tais minorias que governaram, principalmente quando se lhes não antolha nenhuma fôrça organizada que as contraste. Espertos apóstolos – e a mais profunda convicção, mais ardente fanatismo, se aliam perfeitamente com a mais solerte habilidade – os positivistas aumentaram e encareceram a sua influência, mais que a sua influência, a sua ação, no advento e na constituição da República. Uma porção de idéias que já faziam parte do cabedal comum dos espíritos liberais, patrocinadas algumas por sujeitos de ambos os partidos constitucionais ou do republicano democrata, e até por aquêles partidos, como o casamento civil, a separação da igreja do Estado, a federação, o regime presidencial, reclamaram êles como suas, gabando-se de as terem feito vingar.

                                        Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

JOÃO LISBOA

JOÃO LISBOA, poderoso escritor

João Lisboa

Não é vulgar o caso de João Francisco Lisboa, o poderoso escritor maranhense, no nosso meio e na nossa literatura.

Êle foi, como grande número de brasileiros cultos, um autodidata. Nunca passou por escolas e academias. Delas mesmo, os que lhes saem mais eminentes, são entre nós verdadeiros autodidatas, tão pouco foi sempre, e o é ainda mais hoje, o que nelas se aprendeu. Provinciano sertanejo, fêz na província, mais talvez consigo que com mestres, a sua educação intelectual. Essa educação ou melhor instrução, nêle como em todos que a fizeram como êle, – e são a imensa maioria em nosso país – se ressente sempre de falhas e incoerências. Não tenho nenhum preconceito pelo regime acadêmico; sobretudo quando êle é, qual entre nós sucede, tão acanhado nos seus moldes, nos seus meios, no seu espírito. As escolas superiores isoladas e estreitamente profissionais como as lemos, poderão produzir bons clínicos, espertos legistas, hábeis engenheiros; não formaram jamais, por elas só, um bom espírito. Como diria um pedagogista, tal qual estamos constituídos podem ensinar mais não educar. Não há dúvida, porém, que a educação é uma obra de unidade, de método, de sistema, que não exclui por forma alguma, antes favorece, o desenvolvimento, mesmo espontâneo e livre, das faculdades. Uma tal educação salvo casos excepcionalíssimos, só pode ser realizada convenientemente em institutos animado do seu espírito, e onde a instrução seja de fato uma cultura. Não é absolutamente, hoje mais que nunca, o nosso caso, nas nossas escolas e faculdades entregues à repetição, mais ou menos bem feita, dos compêndios franceses – e à última hora italianos e, mais raro, alemães, – e que nenhum espírito filosófico anima, nem excita nenhum alto ideal humano ou social.

A instrução que se deu João Lisboa foi puramente literária, e não seria nem extensa, nem profunda; a matemática elementar e a geografia, ainda assim rudimentarmente estudadas, a nossa língua e a sua literatura, a latina, e a francesa e, menos bem, a inglêsa – e a história. Com esta pequena bagagem, que o primeiro dos nossos preparatorianos desdenharia, êle fez, entretanto, grandes coisas, relativamente à mentalidade nacional. É que êle não estudou para fazer exames senão para saber, e não tendo um certificado oficial que lhe atestasse a ciência, não parou o estudo com o recebimento do diploma.

Demais a instrução vale principalmente pelo talento que a frutifica. E o talento de João Lisboa tirou daquele pequeno cabedal enorme juro. Por muitos aspectos é, porventura, êle o mais poderoso escritor brasileiro. Como prosador é um dos mais originais, copiosos, puros e elegantes da nossa língua moderna. No Brasil pode ser apontado como clássico por excelência, sem afetações descabidas de purismo, nem o culto obsoleto do arcaísmo. Somente conhece o léxico da sua língua e por isso sem a rebusca fácil dos dicionários, é ela mais rica do que costuma ser nos nossos escritores. Como historiador, sua obra curta e fragmentária, é, todavia, bastante para assentarmos que nenhum outro escritor do gênero no Brasil teria como êle pôsto ao serviço da nossa ária ou aridificada história um talento mais compreensivo, maior seriedade de estudo, imaginação mais poderosa, espírito mais conceituoso, e mais as qualidades literárias e artísticas da sua língua e do seu estilo, que tanto pautaram ao ilustre, inestimável, mas pesado e enfadonho Varnhagen. O seu estudo sôbre a revolta do Bequimão, onde tôdas aquelas suas capacidades e qualidades se reúnem e apuram, é uma das nossas melhores monografias históricas, e A vida do Padre Antônio Vieira, não obstante inacabada e sem o último polimento, uma das mais bem feitas biografias da nossa língua. Com a última demão do escritor e menos preconceitos liberais que às vezes empanam o juízo do historiador, poderiam fàcilmente ter sido o livro definitivo, que ainda espera o grande jesuíta. A obra, porém, mais original, a mais nova ao menos – e refiro-me sempre à nossa literatura – de João Lisboa é o seu Jornal de Timon, na parte relativa à política e eleições, especialmente na porção dela, a mais considerável, sôbre partidos e eleições no Maranhão.

(Estudos de Literatura Brasileira, 2ª série, 1901 a 1907)

Estudo crítico sobre a crítica de Machado de Assis, por José Aderaldo Castello

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Ideal do Crítico, de joaquim maria machado de assis

Coleção nossos clássicos. Publicados sob direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa. Nº 38. Organizado por José Aderaldo Castello. 1959.

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Página 101 – Conto

Página 101

 lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

fotografia: Charles Tôrres Charles_Tôrres_fotografia

Havia sonhado com a ressurreição de Cristo. Às 06:45 da manhã tomou o ônibus, debitou o valor da passagem no cartão magnético, passou pela roleta e sentou-se num dos bancos que deixa passageiros uns de frente para os outros. Batom rosa e leve maquiagem. Mas o franzido na testa não conseguiu tirar. Carregava também na cabeça um programa policial de televisão que seus familiares assistiam. Encaixou o fone no ouvido e o rádio sintonizou aleatoriamente uma estação de noticiário alvissareiro. Procurou músicas, mas a conversação dos passageiros e o barulho do trânsito impediam a audição. Cumprimentava os conhecidos com um sorriso brando, tímido. Tirou o livro da bolsa e abriu na página 101. Tentou ler e não conseguiu. Fechou o livro. Fechou também os olhos e se pôs a pescar um cochilo. Acabou pescando, em seu rio de preocupações sonolentas, a pura realidade. Chovia já por semanas. O vidro sujo da janela do ônibus embaçado e manchas de imagens lá fora. As janelas fechadas, um braseiro. O ônibus era uma imensa lata velha de sardinha aquecida. A tarifa havia sido aumentada em 5,17% dias atrás.

Em sua pescaria de realidade e falas cruzadas dos outros, o rosto envelhecido de uma senhora, vociferando não só com a boca banguela, mas também com os ombros: “por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém a sua vida.” A velha falava e fazia caretas. Sem muita demora, uma freada brusca interrompeu o instante. Um grito de filho da puta motorista despertou o cochilo. Outra frase, “ô motorista, cê num tá carregando cavalo não sô, cê tá carregando é gente” trouxe por fim a sensação de alerta. Ela se recompôs. Abriu melhor os olhos e reconheceu onde estava. Estava em mais uma viagem de casa para o trabalho, uma hora e meia de viagem, viagem que fazia desde seus 15 anos, quando começou a trabalhar como office-girl. Já fazia 16 verões de muita trabalheira, aquele percurso diário, de segunda a sábado.

Apesar dos sustos das freadas e dos gritos, ela conseguiu segurar o enunciado na mente. “Por mais que você goste de alguém, não dê a ninguém sua vida”. Foi repetindo no pensamento até desembarcar no centro da cidade.

No centro de BH, tudo lhe passava rápido e assustador. Os vendedores ambulantes, os vendedores nas portas das lojas e suas cantadas grosseiras: “nossa que trem gostoso; oi morena, tá delícia hein?” O cheiro de maconha na porta do café Nice. As mulheres penduradas em bolsas, os carros acelerando e freando no asfalto como se lutassem num tatame, os aposentados jogando xadrez, os batedores de carteira, os estelionatários, pregadores protestantes, tudo lhe queria desviar para outros mundos, explodindo em seus ouvidos que a vida seria mais difícil ainda.

Mas aquele imperativo de não dar sua vida a ninguém chegou tarde. Ela já tinha se entregado a ele. Casados já havia cinco anos. Um casamento frio sem traição nem filhos. E nos seus 34 anos ela sempre ouvia dele que não queria filhos. E seio sem filho seca. No entanto, ele uma vez e outra dizia que já tinha o carro, e que era como ter um casal de filhos, em termos de despesas. Ele dizia isso sem se dar conta da alma materna dela, igualando criança a carro em tom humorístico, achando-se criativo até. Nos finais de semana ele só fazia lavar o carro, dar uma voltinha no bairro, bater uma peladinha, tomar uma cerveja com os amigos, almoçar, cochilar, assistir futebol e dormir. No boteco perguntavam: “não vai arrumar um meleque não, véi?” “…que isso, nêgo, agora não posso arranjar outro menino, já tenho o Pretinho que me dá muito gasto”, ele respondia apontando para o Uno preto 4 portas.

O carro estava no nome dele, só ele dirigia. Porém custava mais a ela. A esposa era quem pagava as prestações e o seguro. Afinal ganhava quase três vezes mais do que o marido. Ela ia trabalhar todos os dias de ônibus. Ele ia com o carro. Não dava para levá-la ao serviço, pois a empresa em que ele trabalhava era do lado oposto ao centro da cidade.

Ela cansada daquele desânimo maquinal e automático. Uma vida sem viagem de lazer, sem clube nem festas, sem “um pulinho de cerca”, sem pimenta, e o pior de tudo: sem filhos. Estava cansada e insatisfeita, mas não dizia a ninguém, não desabafava, e o pior de tudo é que ninguém reparava na situação. Ninguém, nem seus pais, irmãos, amigas, colegas de trabalho, o marido muito menos.

Quando ia à casa de seus pais, só ouvia conversas sobre dinheiro, ganhar dinheiro, conseguir comprar isso e aquilo, adquirir, investir. A economia do país estava forte. Prosperava até o mercado de venda de cofres caseiros contra as instituições bancárias. E ele, o marido, entrava na roda e debatia com os cunhados sobre o mercado de veículos, sobre salários e classes, “quanto ganha um motorista de ônibus, quanto ganha um corretor de imóveis, um pedreiro autônomo etc.”. Ela ficava na cozinha com a mãe. As duas tão atarefadas que nem tinham tempo de falar sobre a vida. Ela sentia-se com sua vida entregue. Com sua vida, seu suor e seu corpo entregues. Só lhe restou, por inteiro, a alma, onde guardava às escondidas todo seu sofrimento. Pensava ter cometido o pior erro do mundo, como disse a velha loira desdentada durante a viagem dentro do ônibus.

Ele ia poupando seu salário, planejando trocar de carro pelo menos de dois em dois anos; ela seguia sustentando a casa e engolindo a seco o resto de vidinha que lhe sobrava. O salário dele era só dele, mas o dela era dos dois: eis o mais valioso segredo da intimidade do casal. Autêntica sociedade conjugal por detrás das cortinas da formalidade. Ela não desabafava com ninguém. Não por medo ou insegurança, mas porque não era mesmo de conversa. Além de tudo detestava alugar os ouvidos dos outros. Tinha preguiça de enfrentar a cara de desdém das amigas e ao final ouvir o vago conselho de “pede o divórcio ou mete um chifre nele”. Se elas soubessem o quanto ele cozinhava não diriam para acabar o casamento. Na verdade, tinha preguiça – e não medo – de chutar o balde e ter de criar asas, achar novos ares, construir novo ninho e buscar felicidade. E como se não bastasse, foi ela quem entregou a mão em casamento, antes mesmo de o noivo pedir. Desmanchar casamento é fácil, difícil é recomeçar sozinha uma vida de divorciada, ela pensava cautelosamente.

Morria de inveja de Josiane, sua amiga. Josiane era mãe solteira, viajava, deixava o filho com os avós e curtia a vida. Vestia Índia, fazia quantas tatuagens vinham-lhe na cabeça, trocava de ficante quando lhe convinha. Brincava com o corpo e com o coração, praticava Kama Sutra (sem cama). Foi Josiane quem lhe aplicou a linha do pensamento da “Biografia Humana”, uma forma de compreender a vida com base no passar de 7 em 7 anos. E ela se aproximava dos 35: cinco vezes o sete.

Era muita coincidência. Aos sete anos foi adotada, aos 14 perdeu a virgindade, aos 21 deu o primeiro verdadeiro beijo. Aos 28 se casou. Aos trinta e cinco aconteceria um novo marco.

Nessas alturas, naquele secreto e inconfidente desconforto, ela carregava um desejo macabro. Uma saída vinda dos desígnios do destino: ficar viúva por uma fatalidade. Ficar viúva lhe seria uma salvação sem culpa. Desejava que ele morresse e assim poderia recomeçar a vida, recuperar sua liberdade com mais alívio, pois a alma do marido estaria no além, sem lhe perturbar, sem lhe causar remoço. Mas ao mesmo tempo em que pensava e desenhava esse desejo esquisitão, algum arrependimento vinha na fantasia. Por mais que ele fosse superficial e estúpido, era carinhoso, meio meninão mimado, mas de atitude, muitas vezes prestativo e um bobão alegre que valesse à pena. Tinha um coração egoísta, porém atitudes de pai protetor.

O mais doído era quando ouvia a gratidão da sogra: “graças a Deus meu filho achou você, uma mulher certa, que cuida dele melhor do que eu”.

Chegou finalmente o dia. Ele se acidentou quando dirigia seu carro-xodó. O veículo se perdeu totalmente e por azar o seguro tinha acabado de vencer; estavam para renovar, mas não deu tempo. O prejuízo foi grande. Permaneceu o motorista por 20 dias na UTI. Ficou naquele vai ou não vai. Morre ou não morre. Ela andava pelos corredores do hospital entre cigarros e cafés, pensando em sua liberdade sem culpas, olhando a dor da família do marido, ouvindo as rezas, calculando o custo do velório, sofrendo antecipadamente o luto e gozando mais à frente sua viuvez desimpedida, depois de passado a dor da perda.

Então veio o pior. O homem sobreviveu, e paraplégico. Para todos foi uma dádiva das graças de Deus. As próximas palavras da sogra lhe cairiam como um fardo muito maior: “agora, minha filha, ele vai precisar de você como nunca, por tudo que ele te fez, eu peço que tenha paciência e perseverança para redobrar os cuidados com meu filho que sempre lhe foi um bom marido”. “Bom marido o quê, esse filho da puta me explorou o tempo todo; o tanto de bom que ele me foi era para ganhar de volta o meu suor”, ela cuspiu na mente.

Dali para frente ela passou a ser – a um tempo só – esposa sem filhos, mulher sem sexo, dona de casa, arrimo de família e enfermeira. Carregava-o até o banheiro, empurrava o cadeirante, acalmava os pesadelos. Ouvia as injúrias do injustiçado nos seus momentos de mal com Deus. Uma hora e outra a incapacidade do infeliz o fazia revoltado e desgostado da vida.

Foi um dia, numa daquelas suas viagens de ônibus do trabalho para a casa que ela retomou a página 101 do livro que havia fechado há tempos. Na décima quarta linha da página lia-se uma frase que ela guardou para si e não confessou nem mesmo ao mais íntimo pensamento. A frase morreu no silêncio de sua leitura…

Dias depois, num tempo nublado, quando os dois passeavam pelo parque municipal, ele colheu uma flor. Entregou a ela junto de um beijo na testa. Os dois choraram ali uma chuva de emoções que até mudou o tom do canto dos passarinhos, se abraçaram e continuaram juntos e tristes. Nasceu ali um novo casamento.

Até que depois de algum tempo a morte dela, por estafa, os separou aqui neste mundo. Ele viveu mais uma semana antes de também falecer. Alguma vizinha espalhou a superstição de que ele, mais veloz do que seu carro-xodó, voou atrás da alma da esposa. Uma senhorinha mais entendida atrapalhou o mistério: “…nada boba, morreu atrás por causa de desgosto mesmo. Essa coisa de dizer que uma alma persegue outra é imaginação que o povo toma emprestado dos livros.”

Cristiano Lopes Cançado de la Rocha, escritor e compositor de Santa Luzia/MG. Publicou “poemas e canções” em 2001 (independente e auto-financiado), “à espreita da aurora” em 2014 (coleção de canções na internet ); EP-Cristiano em 2016 [Epopéia do Cidadão Geral e Cancioneiro Urbano Montanhês] em 2017 e  atualmente publica textos aqui no Pingo de ouvido.

Visite o site do fotógrafo Charles Tôrres : http://www.bhumafotopordia.com/

túneis e tonéis, canção

Túneis e tonéis é a 4ª faixa do 1º álbum virtual intitulado “à espreita da aurora” de Lopes de la rocha, músico compositor brasileiro do estado de minas gerais.

Uma fábula e um conto que apanhei na porta da galeria

Cabeçalho_ouvidor

História_1
Fábula

História_2
Conto

Fluxograma

Fluxograma é 5ª faixa do meu álbum virtual à espreita da aurora, lançado em 2014. Nessa canção dialogo com o escritor Roberto Drummond, em cuja obra Hitler manda lembranças um dos personagens  diz ‘…no tempo em que Belo Horizonte era uma São Paulo de bolso.’

Por Lopes de la rocha, o Cristiano

Página do álbum: https://onerpm.com.br/disco/profile&a…

 

Toda noite e todo dia

“Toda noite me deito pensando em desistir. Toda manhã me levanto decidido a continuar…”