PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante

PUBLICISTAS [ Eduardo Prado: um diletante reacionário

 

Imagem_Militão_SP

Outro publicista de talento, muito espírito, boa linguagem e estilo elegante, ensaísta fecundo e original, polemista vigoroso e agudo, um verdadeiro escritor em suma pelas peregrinas qualidades da sua ideação e expressão, é Eduardo Prado. Chamava-se com todo o seu nome Eduardo Paulo da Silva Prado. Nasceu na capital de S. Paulo de uma velha, importante e opulenta família, ali vinculada, em 27 de fevereiro de 1860, e na mesma cidade formou-se em Direito e veio a falecer em 30 de agôsto de 1901.

A sua obra é copiosa e foi toda feita em jornais e revistas, um pouco ao acaso das circunstâncias e ocasiões. Hoje acha-se toda reunida em nove volumes e compõe-se de artigos literários, viagens, ensaios, discursos, crítica literária, social ou política, polêmica, etc. Na literatura brasileira, Eduardo Prado tem duas singularidades: ser um dos poucos senão o único homem rico e certamente o de mais valor que aqui se deu, sequer como diletante, às letras, e ser talvez em a nossa literatura o único escritor reacionário.  Refiro-me a escritor e não a políticos que ocasionalmente tenham escrito, nem a jornalistas, cuja obra efêmera não considero aqui. Joaquim Nabuco conquanto católico praticante e monarquista convicto, não pode ser tido por um reacionário, porque achou jeito de conciliar com o seu catolicismo, porventura mais de imaginação que de sentimento, o seu profundo liberalismo, e foi sempre, conquanto aristocrata de raça e temperamento, irredutìvelmente um liberal, um democrata em política. Eduardo Prado, que em tudo, em costumes, em opiniões e gostos, parece ter sido um diletante, um espírito cosmopolita, pode ser que fôsse também em crença religiosa e política.

A sua curiosidade intelectual, o seu gôsto do novo e do exótico, diga-se, a dose de snobismo que havia nêle, e certo senso de elegância e mundanismo hostil à nossa baixa democracia, e mais a sua frequentação de meios monárquicos e reacionários de Paris, explicam talvez o seu reacionarismo católico e monárquico em oposição com a sua natural independência mental e irreverência espiritual. É o nosso mais acabado tipo de diletante intelectual, do amador das coisas de espírito. E amador e diletante o foi em tudo, com bom humor, muito espírito e inconseqüentemente.  Com pontos de contato com Nabuco, não tem o seu talento, e menos a sua seriedade espiritual. O brilho mundano da sua existência de moço rico e pródigo, as suas longas viagens, a sua existência européia, o íntimo comércio com homens de letras europeus, deram-lhe um prestígio que a sua só obra literária, aliás documento de talento literário pouco vulgar, acaso não teria só por si dado. Aumentou-lho a perseguição tolamente feita pelo Governo Provisório da República ao seu brilhante panfleto A Ditadura Militar no Brasil e a atitude por ele tomada em face não só da República mas do geral sentimento do país.

Como escritor, Eduardo Prado foi, em suma, um jornalista, porém com mais talento, mais espírito, mais cultura e mais experiência do mundo que o comum dêles.  Da causa pública teve menos o interêsse que a curiosidade do seu elemento dramático. A política foi-lhe apenas um tema literário, que tratou com a desenvoltura de um espírito no fundo céptico e paradoxal.

 

História da Literatura Brasileira, 1901-1907.

José Veríssimo-Crítica, coleção Nossos Clássicos, editora Agir,1958.

 

 

AINDA O POSITIVISMO NO BRASIL

Ainda o positivismo no Brasil

José_veríssimo

Por José Veríssimo

“O positivismo é, para o Sr. Sílvio Romero, uma coisa perigosa e deve ser combatida com seriedade. Desde que uma doutrina, continua êle, qualquer que ela seja,tornou-se o pão espiritual de algumas centenas de homens, essa doutrina constitui um fator social e um estímulo de ações; essa doutrina distribui alento e entusiasmo, aviventa as fôrças da alma, afirma-se como um incentivo em nome do futuro. E coisas assim tão graves, só podem ser tratadas com severidade e compostura.”

Excelentemente dito, sòmente se pode notar que arrastado pelo seu temperamento batalhador de polemista educado na péssima escola de Tobias Barreto, o Sr. Sílvio Romero não guardou, quanto talvez convinha à elevação do assunto, essa “severidade e compostura”. A sua desculpa seria que o seu livro, como toda a sua obra, é ainda de polêmica. Porque esta é a característica, a dominante do Sr. Sílvio Romero: ser um polemista. Fazendo história ou crítica literária, política ou filosofia, escrevendo ou conversando, apesar da bonomia afetuosa, natural e amável do seu trato, que estão longe de suspeitar os que só por seus livros o conhecem, o Sr. Sílvio Romero é um polemista. E eu direi, sem intenção de lisonjeá-lo, que não conheço entre nós nenhum de mais nervo, de mais valentia, de mais graça – uma graça para que não achamos ainda nome, o produto da chalaça portuguêsa com a pacholice ou a capadoçagem nacional, temperada pela alegria ingênua e fácil que o negro no herdou. Essa graça não admite a ironia. A ironia, como o humour, mais ainda talvez que êle, é estranha à índole brasileira. Uma e outro são entre nós produtos de cultura, resultados de imitação que em certos indivíduos, por disposições especiais de temperamento, podem ter sido assimiladas perfeitamente, completamente, mas que são em todo o caso raros e exóticos.

Livro de polêmica, livro de doutrina, o Evolucionismo e o Positivismo no Brasil distingue-se e recomenda-se pela valentia e brio com que o ilustre escritor dá combate àqueles de quem faz seus adversários ou de quem se faz adversário e, sobretudo, por vulgarizar as críticas que à filosofia de Comte fizeram H. Spencer, Stuart Mill, Huxley e outros. Com efeito é com longas citações dêstes pensadores e cientistas que o Sr. Sílvio Romero principalmente combate os princípios cardeais da construção positivista, a lei dos três estados, a classificação das ciências, a organização sociológica.

Esta falha é comum a todos os nossos críticos filosóficos, a começar por Tobias Barreto, aos quais a carência de estudos originais e da cultura científica indispensável força a reduzir os grandes problemas da filosofia moderna ao contraste entre os diversos pensadores, cujas opiniões soam respectivamente contrapostas, consoante a escolha ou as inclinações e simpatias do crítico. O processo, que tem cabimento no domínio da erudição, não me parece conveniente em se tratando de cogitações filosóficas, e o seu insistente emprêgo pelos que entre nós fazem filosofia ou crítica filosófica, provaria talvez ou a nossa incapacidade para as questões abstratas ou a insuficiência da nossa cultura geral.

Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

contato@pingodeouvido.com.br

O POSITIVISMO NO BRASIL

O POSITIVISMO NO BRASIL

Por José Veríssimo

…No Brasil, e aqui entramos na primeira das causas particulares da influência do positivismo, não se pode dizer haja alguma coisa organizada. Não o estava o próprio Estado, apesar de sessenta anos de monarquia, não o estava como ainda não o está a Igreja, e menos ainda o academicismo, o oficialismo, em suma qualquer dêsses elementos da vida nacional que alhures são um obstáculo à intrusão de certas idéias. Do seio das próprias corporações que por sua mesma essência deviam sustentar o Estado, defender a Igreja, que lhe era conjunta, manter a tradição acadêmica, sustentar o oficialismo, surdiam pregadores da doutrina cujo fim declarado era destruir tudo isso.

A monarquia esfacelada e decomposta, não tendo por si sequer a crença do imperante no regime imbecil, no rigor vernáculo da palavra; a Igreja, impotente, desmoralizada pelo regalismo, sem recursos materiais e morais, que nem clero possuía suficiente para as necessidades rituais; o academicismo, vegetando no egoísmo da vida prática, na inércia do privilégio, livre de estímulos pela segurança da vitaliciedade e pela falta de concorrência, nenhuma hierarquia, nenhuma casta, nenhuma coesão entre essas diferentes moléculas do corpo social, êste era como a matéria mole, excessivamente plástica e dúctil, em que podia trabalhar à vontade quem tivesse uma convicção e um objetivo. Quem fôsse uma organização, conseqüente e forte, acabaria fatalmente por atuar nesse meio sem consistência nem resistência. Foi o que sucedeu ao positivismo aqui.

Fazendo da matemática a primeira pedra do seu alicerce filosófico, a doutrina de Augusto Comte lisonjeava a minoria cujas carreiras profissionais assentavam também sôbre êsse fundamento, e levavam-na envaidecida pela vulgar ilusão de fazermos dos nossos próprios estudos o centro do mundo dos conhecimentos, a considerar o positivismo a única e verdadeira concepção filosófica. Sendo a matemática, segundo conceitua um pensador contemporâneo, a arte de não ver senão um lado das coisas, êsses positivistas, esquecidos das objurgatórias do seu mestre contra o domínio dos geômetras, não viram na doutrina que abraçavam senão o aspecto que lhes seduzia a vaidade profissional.

Como quer que seja, porém, foi mediante a matemática que penetrou a filosofia positiva nas escolas militares, ganhando assim o seu maior número de adeptos e propagadores na corporação que entre nós era talvez a única que tinha tal ou qual organização e mantinha algum espírito de classe. E por uma dessas fenomenais incoerências de que parece temos o privilégio, foi da sementeira do exército que saíram, senão os sacerdotes, os acólitos da doutrina fundamentalmente hostil aos conflitos armados, ao regime militar, aos exércitos permanentes. Com o positivismo entrou o republicanismo, que lavrando no exército apressou a eliminação inevitável prevista, anunciada – até por partidários seus – da monarquia.

O positivismo que até então só tinha por si a convicção, o entusiasmo, a fé, começa a ter a força. É uma minoria, mas forte, unida, disciplinada, hierarquizada, sabendo o que quer e sabendo querer. Em todos os tempos foram tais minorias que governaram, principalmente quando se lhes não antolha nenhuma fôrça organizada que as contraste. Espertos apóstolos – e a mais profunda convicção, mais ardente fanatismo, se aliam perfeitamente com a mais solerte habilidade – os positivistas aumentaram e encareceram a sua influência, mais que a sua influência, a sua ação, no advento e na constituição da República. Uma porção de idéias que já faziam parte do cabedal comum dos espíritos liberais, patrocinadas algumas por sujeitos de ambos os partidos constitucionais ou do republicano democrata, e até por aquêles partidos, como o casamento civil, a separação da igreja do Estado, a federação, o regime presidencial, reclamaram êles como suas, gabando-se de as terem feito vingar.

                                        Estudos de Literatura Brasileira, 1ª série [1901 a 1907].

JOÃO LISBOA

JOÃO LISBOA, poderoso escritor

João Lisboa

Não é vulgar o caso de João Francisco Lisboa, o poderoso escritor maranhense, no nosso meio e na nossa literatura.

Êle foi, como grande número de brasileiros cultos, um autodidata. Nunca passou por escolas e academias. Delas mesmo, os que lhes saem mais eminentes, são entre nós verdadeiros autodidatas, tão pouco foi sempre, e o é ainda mais hoje, o que nelas se aprendeu. Provinciano sertanejo, fêz na província, mais talvez consigo que com mestres, a sua educação intelectual. Essa educação ou melhor instrução, nêle como em todos que a fizeram como êle, – e são a imensa maioria em nosso país – se ressente sempre de falhas e incoerências. Não tenho nenhum preconceito pelo regime acadêmico; sobretudo quando êle é, qual entre nós sucede, tão acanhado nos seus moldes, nos seus meios, no seu espírito. As escolas superiores isoladas e estreitamente profissionais como as lemos, poderão produzir bons clínicos, espertos legistas, hábeis engenheiros; não formaram jamais, por elas só, um bom espírito. Como diria um pedagogista, tal qual estamos constituídos podem ensinar mais não educar. Não há dúvida, porém, que a educação é uma obra de unidade, de método, de sistema, que não exclui por forma alguma, antes favorece, o desenvolvimento, mesmo espontâneo e livre, das faculdades. Uma tal educação salvo casos excepcionalíssimos, só pode ser realizada convenientemente em institutos animado do seu espírito, e onde a instrução seja de fato uma cultura. Não é absolutamente, hoje mais que nunca, o nosso caso, nas nossas escolas e faculdades entregues à repetição, mais ou menos bem feita, dos compêndios franceses – e à última hora italianos e, mais raro, alemães, – e que nenhum espírito filosófico anima, nem excita nenhum alto ideal humano ou social.

A instrução que se deu João Lisboa foi puramente literária, e não seria nem extensa, nem profunda; a matemática elementar e a geografia, ainda assim rudimentarmente estudadas, a nossa língua e a sua literatura, a latina, e a francesa e, menos bem, a inglêsa – e a história. Com esta pequena bagagem, que o primeiro dos nossos preparatorianos desdenharia, êle fez, entretanto, grandes coisas, relativamente à mentalidade nacional. É que êle não estudou para fazer exames senão para saber, e não tendo um certificado oficial que lhe atestasse a ciência, não parou o estudo com o recebimento do diploma.

Demais a instrução vale principalmente pelo talento que a frutifica. E o talento de João Lisboa tirou daquele pequeno cabedal enorme juro. Por muitos aspectos é, porventura, êle o mais poderoso escritor brasileiro. Como prosador é um dos mais originais, copiosos, puros e elegantes da nossa língua moderna. No Brasil pode ser apontado como clássico por excelência, sem afetações descabidas de purismo, nem o culto obsoleto do arcaísmo. Somente conhece o léxico da sua língua e por isso sem a rebusca fácil dos dicionários, é ela mais rica do que costuma ser nos nossos escritores. Como historiador, sua obra curta e fragmentária, é, todavia, bastante para assentarmos que nenhum outro escritor do gênero no Brasil teria como êle pôsto ao serviço da nossa ária ou aridificada história um talento mais compreensivo, maior seriedade de estudo, imaginação mais poderosa, espírito mais conceituoso, e mais as qualidades literárias e artísticas da sua língua e do seu estilo, que tanto pautaram ao ilustre, inestimável, mas pesado e enfadonho Varnhagen. O seu estudo sôbre a revolta do Bequimão, onde tôdas aquelas suas capacidades e qualidades se reúnem e apuram, é uma das nossas melhores monografias históricas, e A vida do Padre Antônio Vieira, não obstante inacabada e sem o último polimento, uma das mais bem feitas biografias da nossa língua. Com a última demão do escritor e menos preconceitos liberais que às vezes empanam o juízo do historiador, poderiam fàcilmente ter sido o livro definitivo, que ainda espera o grande jesuíta. A obra, porém, mais original, a mais nova ao menos – e refiro-me sempre à nossa literatura – de João Lisboa é o seu Jornal de Timon, na parte relativa à política e eleições, especialmente na porção dela, a mais considerável, sôbre partidos e eleições no Maranhão.

(Estudos de Literatura Brasileira, 2ª série, 1901 a 1907)