ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO
Por Lopes al’Cançado Rocha
Entrevista especial para Semana da Pátria
setembro, 2024

Selecionamos o maestro Roberto de Souza Barros Kalili, que também é escritor e pesquisador da cultura brasileira. Fundador do grupo Alta Cultura, Kalili acredita que ainda temos muito por fazer. O esforço de sua iniciativa, junto de amigos e colegas, tem sido formar e contribuir para o aperfeiçoamento de professores dispostos a transmitir Alta Cultura, sobretudo nacional, por toda a Pátria, aos jovens brasileiros de hoje e das próximas gerações. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e filosofia são os principais conteúdos postados e comentados no Alta Cultura (f.book), espaço virtual com mais de 6.000 membros inscritos e super colaboradores reconhecidos em diversas áreas.
Natural de São Paulo, e hoje morando no interior do Paraná, o maestro tem atravessado o Florão da América nesses últimos anos. Travessia horizontal e transversal, tanto no sentido físico quanto em termos documentais, sentimentais e imaginários.
Com seu estilo ousado, às vezes em prosa imaginativa, noutras vezes em prosa didática, Roberto Kalili publicou recentemente na coletânea “Olavo de Carvalho: um filósofo do Brasil (2022)”, e sua obra individual “Alta Cultura Brasileira: uma caçada ao tesouro (2023)”, ambas pela editora Armada.
Kalili, obrigado pela correspondência em público. Poderíamos começar pela sua infância? Vida em família, a educação, os divertimentos e os trabalhos como ator mirim de televisão.
Quando criança, eu tinha um pequeno disco com duas músicas infantis, “O MACACO E A VELHA”, Festa No Céu, que escutava o dia todo. Joguei muito caxangá, que na versão original se apostam docinhos, tem um dado com quatro lados, tira, põe, deixa ficar e rapa tudo. Sabia fazer pipas interessantes que soltava com quatro rolos de 400 metros de linha emendados, construía miniaturas de aeromodelos e aviões de papel. Quando a criança brinca, está experimentando os diversos papéis que a vida pode nos dispor: aviador, espião, general, músico, automobilista, balonista, cowboy, índio; acho que este é o sentido de brincar; quando um menino constrói um carrinho de rolimã está descobrindo se quer ser um Enzo Ferrari ou Henry Ford, quando desce a ladeira embalado se imagina um Airton Senna ou Emerson Fittipaldi, destarte construímos nosso futuro a partir dos sonhos. Tive a oportunidade de experimentar muitos destes papéis na vida real, e assim fui construindo a vivência necessária para a formação de um escritor. A experiência como ator-mirim pode ser uma faca de dois gumes, pois gera algumas falsas expectativas. Não aconselho a ninguém colocar a seus filhos na frente das câmeras para ser julgado pela multidão, mas para brincar, aí sim pode ser legal. Eu trabalhei em comerciais antigos, ainda na televisão em preto e branco, para a Nestlé, Omo Total, Kibon, Viva Sabão, Arroz Brejeiro, Banco do Brasil e outros, entre 1964 e 1972.

E como foi o início nas artes? Adolescência, juventude, apreciação, aprendizagem…
Gostava de teatro e de apresentar peças de polícia e ladrão, compunha canções desde muito novo, comecei com paródias. Gostava de ler, mas após a quinta série tive maus professores que raramente me ofereciam a liberdade para escolher os livros. Me vestia de preto e pintava o rosto com carvão para andar como espião pela noite, também fabricava balões de São João e imaginava voar neles ao sabor dos ventos; acho que nem é sobre mim, mas sobretudo o que as crianças fazem de legal, coisas como subir em árvores, construir cabanas de pau e folhas, andar pelo mato feito bicho, escrever poesias. Rabiscava planos mirabolantes, vivia papéis de cowboy, gangster, índio, biólogo, vivia mesmo. Quando eu cismava em ser biólogo, trabalhei no Butantã, no departamento de recepção de animais peçonhentos (COBRAS E ARANHAS), alimentei a elefanta do zoológico, e o hipopótamo Cacareco, os camêlos, as ariranhas, criei uma cobra caninana, resgatei um falcão, uma tartaruga, montei aquários. Um dia resolvi virar índio e sumi pela floresta da Serra do Mar; quando resolvi que seria cowboy montei um touro de 700 quilos (aos seis anos de idade…) o que forma um escritor é viver!
Muitos artistas enxergam, ainda que poeticamente, uma certa interdisciplina entre as primeiras artes com que temos contato a partir da infância: música, dança, literatura oral e artes plásticas. Lembremos da afirmação de Goethe, de que “arquitetura é música petrificada”. Como o maestro percebe essas relações?
Toquei violão, depois guitarra, violino, contrabaixo, bandolim e cavaquinho. Fui da MPB ao rock, depois jazz rock, progressivo; toquei em orquestra, grupo renascentista, barroco, fui baixista de estúdio, morei na praia pintando barco de pescador, fui barman (menor de idade). O estudo musical favorece o desenvolvimento do complexo cognitivo estimulando a função do córtex.
Em geral, nossa relação com artes se dá na seguinte ordem: primeiro pelas atividades lúdicas; depois como instrumento de expressão da personalidade; em seguida como experiência de vida e reflexão filosófica; e por fim, como ritualização da nossa própria vida espiritual, uma forma de buscar o sagrado. No seu caso, está sendo mais ou menos dessa forma? O que o Kalili sexagenário de hoje diria ao Roberto quando adolescente e jovem?
É uma pergunta difícil, eu costumava fazer promessas para toda a vida, jurei que caso chegasse aos quarenta como uma pessoa normal enfiada numa vida sem graça eu iria jogar tudo para o alto e sair pelo mundo para recomeçar. Fiquei satisfeito com aquilo em que me tornei, não gostaria que fosse de outra forma. Meu conselho seria para começar a estudar música mais cedo. Creio que a maior parte do que disse até aqui comprova sua teoria, do brinquedo para a expressão, da experiência para a vida, apenas no meu caso a vida espiritual começou bem mais cedo. Acho que ainda sou assim, quando remo solitário durante a noite no Rio Ivaí, ou saio montado na fazenda atrás de vaca brava, quando toco meu cavaquinho ou viajo por aí a conhecer o Sul, a Argentina e o Paraguay, ainda sou aquele sonhador. Quem deixou de viver seus sonhos está morto para a vida espiritual. Algumas vezes eu puxo demais pelas pessoas porque desejo que elas percebam isto com clareza, que não desperdicem suas vidas. Acredito que o vitimismo é parte do medo que ancora o espírito; então você é capaz de me encontrar andando pelos andes vestido como um inca, ou na praia de Ilhabela vivendo como um caiçara, ou como um ganadero (pecuarista) no Paraguay, saiba que ainda estou vivendo intensamente o sonho da vida, e que o mundo espiritual é inacessível para quem não experimentou a realidade em sua essência mais pura.
Conte-nos como e quando você passou a ler e a estudar sobre filosofia e história da arte, os temas, autores etc.
Quem me influenciou um pouco mais a escutar música foi minha avó Evelina, nascida em Dresden, que era a pessoa de maior cultura em minha família, escutava muita música clássica e gostava de ler Seleções. Minha iniciação nos grandes mistérios se deu espontaneamente, ainda antes de completar quatro anos. Foi uma coisa mágica, através da graça, não havia qualquer mérito meu que justificasse. Fui sim interessado por diversas culturas ao longo da vida, os persas antigos, judeus, chineses, japoneses, indús, franceses, alemães, gregos, incas, jesuítas, busquei em todos os lugares na esperança de encontrar em algum.
Lopes:
– Mas e a relação com a dança?
– A dança ocupa o centro de equilíbrio na base do cérebro, envolve o labirinto (do ouvido interno). Dancei muito pouco, gostava das músicas lentas e o advento da “disco music” em São Paulo me afastou da prática. Me encantam os antigos bailes valseados de Johann Strauss, acho que se eu tivesse tido a oportunidade de vivenciá-los gostaria muito mais de dançar.
Lopes interrompe novamente:
– Sim, mas, durante a execução, maestro e músico dançam com as mãos, com os pés e a cabeça…é nesse sentido,não?
– Pode-se unir música com pintura, letra, canto, dança, acredito que nestes casos a música fica contida em um limite; eu quando estou regendo fico sentado, de olhos fechados, me comunico apenas de leve, faço o grupo repetir mil vezes, até soar como um dente-de-leão pairando na brisa. Minha formação deve muito à prática em quarteto de cordas. A parte literária tem como referência três pequenos livros azuis que recomendo a todos para serem lidos ao mesmo tempo: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), Ortodoxia (G.K.Chesterton) e Itinerário da Mente Para Deus (São Boaventura). Claro que há centenas, senão milhares de títulos para se estudar, escritores de ficção (Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, James Clavell, Agata Christie, que ajudam ao jovem a desenvolver o prazer da leitura, e diversos contistas brasileiros de qualidade (Gastão Cruls, Inglês de Souza, Vicente de Carvalho), com vocabulários bem mais sofisticados e estilo culto. A história da arte (assim como toda a história), é apenas uma narrativa, o que se deve estudar é autor por autor, não acredito em coletivos. Os livros “Subliminar” e “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodnow foram importantes para aumentar meu conhecimento em neurociências. De Mario Ferreira dos Santos o livro “Ontologia e Cosmologia” foi o melhor que encontrei para entender a relação entre a filosofia e a vida espiritual. Professor Olavo de Carvalho é uma grande leitura para o entendimento do mundo em que vivemos, sua capacidade de sintetizar pensamentos complexos em fórmulas simples e expor falácias e erros do pensamento moderno a partir do pensamento dos grandes gênios da humanidade é única no mundo. Recomendo começar pelo “Diário Filosófico”, e não parar.

A arquitetura visa acomodação familiar, segurança e praticidade; música por outro lado é arte abstrata, não visa o corpo, mas o espírito. Com exceção honrosa para Gothfried Leibnitz, tenho profundas desavenças com a filosofia alemã, pois em meu entender havia uma outra Alemanha, bela, poética e rural, que a filosofia de origem oriental e o protestantismo esmagaram. Um país de contos de fadas, talvez a maior perda da humanidade, a Alemanha católica. Deixando de lado o argumento “ad hominem”, a música é movimento, então a máxima de Goethe pode ser comparada à nossa ex-presidenta quando falou em “estocar o vento”. Quer dizer, petrificar movimento é, ou não é a mesma coisa que estocar o vento? Vamos à interdisciplinaridade, segundo São Boaventura, as seis asas do serafim para quem busca uma imagem do Deus invisível através de suas qualidades. A primeira asa para a escultura, o objeto real e material, as imagens dos Santos, a arte dos gregos, a expressão da beleza que fala diretamente ao espírito e cuja máxima expressão é a Pietá de Michelangelo, a imagem de Nossa Senhora com o corpo de Cristo em seus braços. A segunda asa do serafim para os grandes pintores, as obras eternas que exprimem a imagem, que estimulam o hipocampo, que mostram os grandes sentimentos, a vida superior, os momentos mágicos do passado, a grandeza de Deus em sua infinita misericórdia, os grandes mistérios, as visões de Pedro Américo, as imagens que tocam o coração e a alma humana. A terceira asa para a literatura, a construção da linguagem, oratória e retórica, a argumentação, o Organon de Aristóteles, a gramática e a ortografia, a matéria com que trabalham os escritores. A quarta asa para os grandes poetas, para as máximas literárias, e para a oração. O homem diante do seu Criador, a essência que pode ser transmitida através do diálogo com a tradição, as lições de vida condensadas de forma curta e objetiva, os exorcismos, a gratidão, o incensório a vibrar sobre nossas cabeças. A quinta asa para a música, a expressão do movimento, a vibração traduzindo as harmonias sutis que nos envolvem e governam, capazes de reger nossas interações sociais, essenciais para a construção de uma personalidade culta. A sexta asa para o planejamento, o seu trabalho, seu papel neste mundo. Que todas estas artes possam ser combinadas para produzir o efeito de imersão cultural é uma benção que raramente merecemos, mas vamos assistir ao filme “Música e Fantasia”, de Walt Disney e pensar melhor sobre isto.
Como você conheceu o poeta, filósofo, escritor e jornalista político Olavo Luiz Pimentel de Carvalho? Quais foram as suas primeiras impressões sobre ele?
Quando estudei contraponto, a partir de 1985, tive contato com o professor que morava com o Olavo, Ricardo Rizek, e estudei um tanto de filosofia. Rizek e o Professor Olavo faziam um interminável debate filosófico, do qual eu (10 anos mais jovem que o primeiro, e quinze anos mais jovem que o segundo) muitas vezes conseguia participar de forma certeira, dando a palavra final. Professor Olavo era como uma lenda para mim, o debate filosófico entre ele e o Professor Rizek atingia um nível raro que é difícil descrever, a arte de Tarkóvski, o Pitágoras de Mario F. dos Santos, os poetas da pérsia antiga, sufismo, taoísmo, xintoísmo, o contraponto de Bach, a integração de todas estas coisas. Eu nunca encontrava o Olavo pessoalmente, e só fui conversar direto com ele muitos anos depois, através da internet, quando já residia nos Estados Unidos. Ele me orientou bem, desmanchou algumas ideias que tinha como certas, mas que eram verdadeiros edemas em meu pensamento -por exemplo, o budismo, que me parecia lindo, um único ser eternamente amando a si próprio no auge da perfeição – ; mas na verdade era bem menos interessante do que o amor cristão piedoso pelo próximo, com qualidades e defeitos. Por isto os Santos budistas têm seus olhos fechados, e os católicos têm olhos bem abertos. Mas a maior influência veio mesmo daquela aula sobre Alta Cultura ministrada no programa “True Outspeak”, em que o Professor me demonstrou a necessidade de conhecer o mundo através de nossa própria cultura, o que me levou a formar o grupo de alunos no Facebook.

Alta cultura. Há trinta anos, os termos mais usados eram cultura erudita e cultura clássica. Muitos tinham certo preconceito, associavam a elitismos, à sujeição do brasileiro às antigas potências europeias coisa e tal. Hoje, alguns defendem até uma dita “aprofundada descolonização” de nossas heranças ibéricas e Norte-ocidentais. Que você tem a dizer sobre isso?
O termo alta cultura tem uma razão de ser, ele evita o uso de termos como “arte”, que foram degenerados pelo mau uso. Quando se fala em música erudita, por exemplo, você inclui as bobagens infantis de John Cage na mesma categoria de Bach. Isso é ofensivo! A degeneração cultural não deveria jamais ser chamada de arte, então sou obrigado a chamar de música clássica, não “erudita”, afinal ela se apoia em uma cadeia de valores clássicos gregos-romanos-hebraicos, ou seja, ela busca a virtude como expressão da natureza divina. Se Frida Kahlo (canibal, medonha, tosca e desprovida de virtudes, pode ser considerada arte, então o termo vale para o que um bebê deixa em suas fraldas, mas não serve mais para Jerônimo Telles-Júnior. Deixar de lado nossas influências europeias é voltar a um estado animalesco.
Lopes:
–John Riches, professor das áreas de Divindade e Crítica Bíblica, da Universidade de Glasgow, em seu livro “Bíblia: uma breve introdução” (L&PM Pocket), traduzido aqui por Denise Bottman, tem um capítulo só sobre a influência das Sagradas Escrituras nas artes. Riches, ou a tradutora, também usa o termo Alta Cultura. Chineses e russos, por exemplo, que hoje pretendem liderar a política na Ordem Internacional, valorizam enormemente as heranças europeias: as grandes epopeias, as arquiteturas, a sonata, o soneto etc. O dito “antropofagismo filosófico” e o freudomarxismo bestial, de um José Oswald de Souza Andrade, ainda são grandes desserviços para nós, nesse sentido. Membros da ABL fazem de tudo para ocultar um Olavo Bilac, um Olegário Mariano, um Ribeiro Couto…mas ainda exaltam os resultados da Semana de Arte Moderna e do modernismo paulista. O modernismo mineiro é outra coisa.
Kalili:
-Bem, falar sobre a “Semana de Arte Moderna de 1922” é coisa que geralmente não faço, mas como sei que muitos leitores jamais ouviram a verdade, vou contar a partir de uma experiência pessoal. Em 1978, morava na rua um vizinho coronel, bruto mesmo, que era pai de dois guris, o mais novo andava comigo, e era um rapaz muito perturbado: sofria de complexo de culpa e fazia coisas terríveis apenas para ser punido. O irmão mais velho era diferente, estudioso, responsável, tanto que o pai se sacrificou para lhe pagar um curso de direito em Londres. No último mês, o coronel não falava outra coisa: você é uma porcaria, nunca vai ser ninguém, deveria se espelhar em seu irmão, ele volta doutor formado, vai ser juiz – sonhava o pai. Quando o coronel e a esposa foram, cheios de orgulho e pompa, buscar o jovem prodígio no aeroporto eu estava na rua e vi tudo. Meu amigo se sentia um inseto; porém ao voltarem para casa, ao invés de um doutor de casaca, traziam um rapaz magro, com cara de mendigo, chinelão franciscano no pé imundo, cabelo parecendo ninho de urubu, calça de saco de arroz e camisão de estopa. Era o “doutor”. A única coisa que ele trouxe de Londres foi uma coleção de discos do Frank Zappa recheados com cartelas de LSD. Para piorar a situação o irmão mais novo se espelhou nele, assim como um grande grupo de jovens, que aprenderam música e gravaram até alguns discos de sucesso acompanhando um doido paranaense. Mas e a semana de arte moderna? Pois foi exatamente a mesma coisa; os pais aqui achando que estavam mandando seus pimpolhos estudarem na França para se tornarem gente, e eles voltaram como um grupo de vagabundos. A semana foi um fracasso, lixo dadaísta primário e ignaro; mas a mídia estava de cabresto. Juntos eles destruíram a cabeça de algumas gerações, o Brasil é um cemitério de talentos. A besteirada moderna não passa de proselitismo comunista com objetivo de destruição de nossa arte. Nada mais.
– Alguns diziam, por aqui, nos anos 90, que música clássica era a do classicismo.
– Classicismo que eles chamam de rococó, com algum desdém, como se Haydn fosse um sinônimo de mau gosto! Esses professorzinhos militantes me enojam.
Lopes respondeu:
– Opa….vai devagar aí, maestro…
Kalili:
– Mas deixar de lado a cultura europeia é comer os vizinhos, andar pelado e analfabeto no meio do mato, isso não tem nada a ver com cultura.
Lopes:
– Eu ri demais: “…andar pelo mato churrasqueando os vizinhos…” Nem todo mundo hoje está preparado para uma ironia dessa. Mas temos a consciência de que é por justa defesa da nossa cultura que o maestro ironiza.
Kalili:
– A música é uma descoberta católica.
Lopes:
– Canto polifônico, por exemplo.
Kalili:
– Sem a cultura (nem digo católica, mas especificamente jesuíta inaciana) não existe Brasil, a afinação é católica, do, ré, mi… Os pesquisadores reformistas e até os ateus reconhecem a Santa Igreja como a maioral na música.
Lopes:
– Já tive um professor de matemática, ateu, marxista e maestro que reconhecia o papel, “apenas histórico” da Santa Igreja…
Kalili:
– O papel civilizador dos jesuítas tiroleses é a melhor essência de nossa cultura, e deveria ser retomado visando o bem das futuras gerações, a recomposição de valores e a formação de inteligências sadias para substituir as mentes degradadas que hoje dominaram nossa atividade cultural, apesar de serem desprovidas de cultura, exceto sob o ponto de vista escatológico.
O músico Lobão certa vez afirmou que na cultura pop há muitos elementos de alta cultura. Qual a sua opinião a respeito?
Lobão, ele se acha; é inteligente sim, mas tem a mente deformada. Para começo de conversa jamais tocou rock, o ritmo da bateria dele é polca.
Lopes:
– Não queremos isso, por favor.
Kalili:
– Bem, o que posso dizer de Lobão?
Lopes:
Atenha-se à pergunta. É sobre a afirmação dele. Não sobre ele.
Kalili:
– Acho uma opinião forçada, existem elementos de alta cultura somente na proporção em que a cultura popular deixa de ser popular. Vou explicar: um músico popular, em geral, aprende poucos acordes, dó maior e sol com sétima, aprende a escala em modo jônio e mixolídio, isto é clássico e católico, ou seja: apenas na medida em que a cultura popular assimila elementos clássicos que constituem a essência da arte musical ela se torna música.
Lopes:
– Agora sim…você diz do aperfeiçoamento da toada para a canção.
Kalili continua:
– A cultura popular não significa ignorância absoluta, mas apenas ignorância relativa; o não saber que ao afinar um violão o músico está utilizando Pitágoras, e ao tocar uma escala ou acorde isto é uma herança católica. Mas temos que tomar cuidado ao afirmar essas coisas senão os catolicofóbicos vão tocar desafinado e fora da escala de propósito; então absolutamente todos os elementos que formam a música são criações clássicas, a diferença é quantos desses elementos aprendemos e quantos ignoramos.
Risos. Na sua opinião, quais limites ou fronteiras podemos estabelecer entre folclore, alta cultura, cultura popular e cultura pop?
Não acredito que o papel do professor seja estabelecer fronteiras entre cultura popular e alta cultura, a nossa função é apenas instruir os músicos de maneira elementar, ensinar acordes, escalas, ritmos, cada artista deve desenvolver uma linguagem própria, e isto já é um processo lento e natural, melhor não interferir, mas quando eu trabalhava vendendo guitarras, por exemplo, era comum ouvir um cliente dizer que tinha vendido um milhão de discos e que não sabia ler uma nota; como eu era apenas o vendedor, lhe dava os parabéns, pegava o dinheiro e entregava a guitarra, ganhava minha comissão e esperava o próximo cliente, mas como professor minha vontade era gritar: ENTÃO VÁ ESTUDAR, VAGABUNDO!
O brasileiro, em geral, se orgulha de ser burro, para um artista isso é uma vergonha, em minha opinião isto significa que tudo o que ele fará em sua vida será copiado, pois sem conhecer a estrutura musical não pode haver criação genuína.

Gostaríamos que comentasse os dois trechos abaixo:
a) “Aprendemos no céu o estilo da disposição, e o das palavras. […] as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que já sabem.” (Padre Antônio Vieira).
Kalili: Na prática é muito difícil atingir a todos da mesma forma; quando escrevo algo mais profundo, poucos alcançam; e quando escrevo algo acessível, não acrescenta muito aos que estão acompanhando o fluxo de ideias há mais tempo, então a oratória do Padre Vieira havia atingido um nível que seria raro encontrar nos dias de hoje. Só o Olavo mesmo para unir as duas coisas, então isso nos dá uma pista da quantidade e qualidade de leituras que são necessárias para um indivíduo se tornar capaz de exprimir a alta cultura com simplicidade.
b) “A literatura não é como a música; não é para os jovens, não há prodígios nesse campo. O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental, leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que se viveu. ( V.S Naipaul).
Kalili: Percebo que atualmente damos valor demasiado a obras pueris, acredito que o próprio Mozart só se tornou realmente o gênio que reconhecemos em suas últimas obras, como o quinteto para clarineta; porém com Beethoven deu-se o oposto, ele foi compositor pleno ainda muito jovem, conforme o hepteto opus 21 deixa claro, porém na medida em que foi envelhecendo sua música se tornou menos abstrata e repleta de sentimentos exacerbados. Não que com isso perca o valor, mas certamente é outra via. Também na literatura não é verdade, temos os exemplos de Castro Alves, um gênio ainda mal saído da juventude e Álvares de Azevedo idem, em sua “Lira dos Vinte Anos”, uma obra prima. Entretanto reconheço que comigo se deu assim, realmente fui adquirir maturidade literária somente depois dos cinquenta. Meus primeiros trabalhos eram desorganizados e reticentes. Cada caso é um caso.
-Última pergunta-
Revolucionários contemporâneos, tais como Boa Ventura de Sousa Santos, Miguel Gonzalez Arroyo e outros — partidários de doutrinas antieuropeias e dos “Direitos Humanos” de viés histórico-crítico, e marxista-leninista— e tantos outros multiplicadores dessa doutrina perestroika, acusam a nós, difusores da Alta Cultura, de “elitistas”; “de defensores do status-quo liberal-conservador Ocidental e Cristão”; tratam-nos como “pretensos altaneiros culturais” que desprezam os pobres. Nas palavras desses “esclarecidos”, “nós trataríamos as pessoas humildes como inferiores em moralidade, cultura e civilização, e teríamos o perverso objetivo de hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural”. Seríamos uma espécie de “arrogantes catequistas a serviço de colonizadores do passado”. Como você responderia a essa acusação leviana?
Lopes, agora você tocou no cerne do problema, vou tentar dividir a resposta de forma que fique bem compreensível para nossos leitores. Primeiro vou apontar os erros: a elite não é um coletivo que veio ao mundo para estragar a vida dos pobres. A elite é apenas um grupo de pessoas iguais a todo mundo, não possuem uma cultura diferente, assistem aos mesmos programas ruins da televisão. Reunir povos tão diferentes como portugueses e finlandeses numa única caixa e odiá-los por serem europeus, demonstra um ódio cego pelo próximo. A cultura “europeia” que eles odeiam é o catolicismo, cujas origens estão na África (Egito) e no povo judeu. Eles mesmos são bastante pretenciosos ao falar em nome da “autoridade moral” da esquerda, primeiro porque a esquerda não suporta moral, segundo porque se trata apenas de um projeto de poder, proselitismo em sua forma mais baixa e degradante. Os pobres que eles dizem defender e representar são católicos, conservadores, gente boa e honesta, que trabalha e não gosta de vagabundo; e as minorias que eles dizem defender, servem apenas como massa de manobra; veja os ataques covardes que fizeram ao Sergio Camargo, quando este esteve à frente do Instituto Palmares. Se a democracia é definida pela imposição do direito da maioria sobre a minoria e o “amor pelo coletivo” não é outra coisa senão o ódio travestido à individualidade, quem eles defendem? Não é você, nunca. Chato não é estudar, chato é ser burro. Dito isto, vamos agora pensar o certo: porém a maior parte dos grandes artistas foram de origem humilde, e todas as grandes artes tiveram seu berço na Igreja Católica, que também foi responsável pela criação das escolas, das universidades, dos hospitais, e em especial pelo fim da escravidão por dívidas (Santo Antônio). Desta forma, odiar a cultura católica também significa deixar de lado todas estas conquistas. Agora vamos analisar de forma pragmática o que eles têm a nos oferecer: a destruição da família, a submissão ao Estado, o confisco dos bens (inclusive dos pobres), a substituição dos valores estéticos na arte pela degradação moral do ser humano. A idolatria por falsos artistas que lhes servem como porta-vozes. A supressão de todos os seus direitos (tudo pelo Estado, nada contra o Estado). A escassez inevitável advinda da política keynesiana e da planificação da economia, também devido a supressão dos direitos sobre os meios de produção. A doutrinação no lugar da educação. A principal diferença entre os católicos e os comunistas é que os primeiros dividem o que possuem com os outros, e os segundos dividem o que é dos outros com os seus aliados. Mas mentir é uma parte indissociável dessa política, oferecer um paraíso que não pode distribuir para convencer vagabundo de que vai viver no bem-bom sem qualquer esforço pessoal. Então vem a terceira parte da nossa questão; o que a alta cultura pode lhe oferecer? E esta é a parte realmente importante, entender o que você ganha estudando a alta cultura brasileira. Alta cultura induz ao diálogo com a tradição. A tradição consiste em um esforço contínuo da humanidade para melhorar a vida através da leitura, da música, da pintura e da oração. Ler bons livros aumenta sua capacidade de compreender o mundo, escutar boa música instrumental ou clássica melhora a atividade cerebral e estimula a imaginação (interferindo na forma como reagimos em situações sociais e a maneira como enxergamos uns aos outros), e a pintura realista permite-nos perceber o mundo através do olhar de um artista, com profundidade e sentimento, quer dizer, ao estudar o mundo em nossa própria cultura, absorvemos os elementos necessários para ver a vida através dos olhos das grandes mentes do passado. Se além disto dermos o próximo passo, quer seja estudando um instrumento musical, aprendendo a pintar um quadro ou escrevendo um livro, também nos tornamos parte deste grande fluxo de pensamentos que ilumina a vida e ameniza a existência através da beleza. Por fim, e não menos importante, a oração, o estudo das vidas dos Santos, o conhecimento dos caminhos que podem conduzir a alma a uma existência mais bela. Tenho nisto minha própria experiência ao me deixar orientar, não pelo professor maconheiro de história, mas através do “Itinerário da Mente Para Deus”, um livro antigo escrito por um Santo. Agradecer sempre, mesmo diante das dificuldades, o fará mais forte e confiante diante dos desafios.
Conclusão:
Eles impõem uma cultura medonha, destrutiva e inútil, enquanto nos acusam de tentar recuperar as boas práticas artísticas, desenvolvidas ao longo de séculos pelos maiores expoentes da humanidade. Fica por conta do leitor a decisão de descobrir o melhor de nossa cultura, o trabalho é árduo, mas entre no grupo de Alta Cultura no facebook para conhecer outros artistas que você nunca pensou existirem no Brasil.
Endereço do grupo Alta Cultura:
https://www.facebook.com/groups/2543250742598003.

Últimas palavras de Roberto Kalili:
Um pequeno guia para quem deseja conhecer melhor nossa cultura:
Livros: Os XII Trabalhos de Hércules, Através do Brasil, Amazônia Misteriosa
Compositores: Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Leopoldo Miguez
Poesia: Castro Alves, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo
Pintura: Arthur Timóteo, João Batista da Costa, Oscar Pereira da Silva
Música Popular Brasileira: Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo
História do Brasil: Primeiras Cartas do Brasil, Viagens às Missões Jesuíticas
Livro didático de minha autoria: Alta Cultura Brasileira – Editora Armada
— FIM–


































































Você precisa fazer login para comentar.