Rosilene Alves: o dom de criar, contar e escrever histórias  (entrevista especial)

O dom de criar, contar e escrever histórias (entrevista especial com Rosilene Alves)

Rosilene Alves nasceu em Sabará (Minas Gerais), iniciou os estudos no Grupo Escolar Cristiano Guimarães, depois na Escola Estadual Professor Zoroastro Viana Passos, onde aos 12 anos, ganhou o prêmio de melhor redação da escola e lhe foi conferido a medalha de honra ao mérito. Aos 15 anos mudou- se com a família para Belo Horizonte e estudou na Escola Estadual Melo Viana, no Bairro Carlos Prates, onde por diversas vezes teve suas redações expostas no mural como melhor redação da escola, e, foi neste ambiente escolar que conheceu sua grande incentivadora, a professora de português, Ofélia Vianna Schettini, que ao perceber em suas expressões uma veia literária, a encorajou a continuar escrevendo, e disse não ter dúvidas de que um dia se tornaria escritora.

Alimentando-se deste propósito, não parou de escrever, tendo como inspiração as lembranças da infância, fantasia e o cotidiano, retratados em personagens diversos.

Rosilene, conte-nos mais sobre a redação premiada aos 12 anos, sobre a professora Ofélia… sua infância, a escola, as brincadeiras, a vida em família.

A professora de história, sem que os alunos soubessem, promoveu um concurso literário com o tema “O Brasil que queremos”. Por se tratar de futuro, deveríamos colocar nossos sonhos e expectativas, além evidentemente de falarmos sobre o que gostávamos no Brasil atual. Eu falei sobre sonhos, oportunidades e, como estava iniciando o conhecimento em política, resolvi abordar também esse tema. Em setembro daquele ano, em comemoração à independência do Brasil, ela anunciou os vencedores. Naquela época, por ser muito jovem, não entendi que tinha ficado em primeiro lugar, achei que tinha ficado em terceiro, pois fui a última a ser chamada para ler a redação para o público que nos assistia. Em seguida a professora me deu a honra de hastear a bandeira do Brasil, pensei ser pelo fato de já estar em cima do palco. Estranhei muito quando desci, pois, professores e alunos me parabenizavam.  Fui para casa com uma medalha de honra ao mérito banhada a ouro.Descobri anos depois que fiquei em primeiro lugar e só assim entendi o que aconteceu naquele dia.

A professora Ofélia, era muito séria, pouco interagia com os alunos, porém dedicada,estava sempre a disposição para sanar as dúvidas dos alunos, ninguém ficava sem resposta. Ela tinha como hábito, ensinar usando uma única frase como exemplo para tudo “O lenhador derrubou a árvore”. Um dia, cansados desta frase reclamamos e ela mudou para “A árvore foi cortada pelo lenhador”, depois rindo,contou- nos que a frase não era dela e sim do seu professor na faculdade. Estudei com ela no ano de 1983/84 no colégio Melo Vianna no bairro Carlos Prates em Belo Horizonte, lá ela introduziu o hábito de redações, que no início era a cada quinze dias para suas turmas, depois,se juntou a outros professores e passaram a aplicá-las uma vez por mês a todas as turmas e os professores escolhiam as melhores, que eram expostas no mural da escola. A minha participação no mural era freqüente, despertando a atenção dos professores que vinham me cumprimentar e me encorajar a continuar escrevendo. Certa vez, Ofélia se dirigiu a mim e falou que eu tinha uma veia literária rara, podendo dissertar sobre vários temas e me encorajou a seguir carreira literária. Sou-lhe muito grata por isso e, em todos os livros que eu publicar, há de constar uma dedicatória a ela.

Embora tudo tenha acontecido no mesmo período, eu divido a minha infância em duas fases.

A primeira foi maravilhosa, nasci em Sabará e morava numa vila chamada Santa Cruz. A vila foi construída pela companhia Siderúrgica Belgo Mineira, para abrigar seus funcionários. Eu morava na Rua Caratinga, em frente a um parque de diversão, também construído pela empresa, com diversos brinquedos, numa grande área verde, onde pude desfrutar com grande alegria de brincadeiras ao lado das crianças vizinhas, ou que passeavam pelo parque. Além disso, a companhia siderúrgica construiu para seus funcionários que se associavam por um valor irrisório, um clube esportivo chamado Clube Caça e Pesca, onde além de piscina, quadra de vôlei e campo de futebol, tinha uma grande área de confraternização, com dois enormes galpões cobertos com sapê. Alguns brinquedos, árvores frutíferas e tinha também diversos animais em grandes viveiros e jaulas, além de peixes ornamentais num pequeno riacho que corria livremente pelo clube, sendo construídas sobre ele três pequenas pontes em pontos estratégicos. Aos finais de ano, por ocasião do Natal, eram sorteados brinquedos aos filhos dos sócios e certa vez, ganhei uma bicicleta. Tudo isso ajudou para que hoje eu tenha algo bom para contar.

Todas as crianças da Vila estudavam na mesma escola, também construída pela então Belgo Mineira, assim, acompanhávamos nossos pares também na escola. À noite, com o parque escuro, brincávamos na rua, o importante era não parar de brincar.

A segunda fase exigiu de mim bastante criatividade e sensibilidade para desenvolver o senso de justiça, empatia e uma habilidade de observação, que foram significativos para sobreviver à tortura, humilhação, violência física e psicológica sofridas em casa. A minha força e capacidade de sobreviver num ambiente hostil, contou com a ajuda e aconchego de várias famílias vizinhas. Hoje percebo que elas me deram não apenas esperanças, mas também confiança, que, somados à minha maturidade e conhecimento, geram inspiração e vontade de escrever sobre temas que precisam de conscientização, já que o público infantil desperta em mim grande senso de proteção à infância.

Sobre contação e criação de histórias para as crianças. Você fazia questão de escolher algum lugar mais propício para se contar as histórias aos pequenos? Ou não fazia muita questão do ambiente?

Geralmente contava as histórias aos meus filhos à noite, no quarto, antes deles dormirem, por ser o momento de relaxamento em que eu disponibilizava de mais tempo, mas, o ambiente não importa se a criança demonstrar interesse na história.

Como você via a participação das crianças,a interação com o pai e os demais membros da família? Há algum caso inusitado que você poderia partilhar conosco?Digamos, alguma lição aprendida sobre personagens ou a reação de alguma criança para com determinada história? 

As crianças prestavam muita atenção no que eu estava criando e, muitas vezes, ao final, pediam para que eu criasse outra história. Por esse motivo, nasceram vários contos infantis.  A partir disso, tomei como hábito ler minhas histórias, não apenas para os meus filhos, mas, para outras crianças antes de defini-las como terminadas, a fim de ver suas reações e ouvir suas opiniões, para me adequar melhor ao seu mundo imaginário, mesmo tendo buscado em minhas memórias, lembranças da infância e as introduzido nos personagens.

O pai de meus filhos também tinha talento literário e algumas vezes me substituiu na incansável busca pela criação de contos, porém faleceu antes de escrever suas histórias. 

Dois fatos inusitados em relação ao meu livro, o primeiro, foi quando recebi de uma amiga uma postagem de uma criança de São Paulo indicando o meu livro por considerá-lo muito bom e dizendo que o livro trazia muitos ensinamentos. O segundo caso ocorreu quando uma criança de apenas três anos puxou minha filha pela mão, dizendo que iria mostrar seus brinquedos. Ao chegar em seu quarto, ele foi em direção ao livro de minha autoria e lhe mostrou, em seguida pediu para que o lesse. Sua mãe então, contou o quanto ele adorava a história e pedia para ler todas as noites antes dele dormir. Ao Sabê-lo, meu coração se encheu de alegria.

Um comentário sobre o seu primeiro livro. A obra realmente é riquíssima e ensina magnificamente. Aqui em nossa família fez muito sucesso. Lara, nossa pequenina de 3 aninhos, não se cansa de pedir para recontar. Uma obra que, sinceramente, merece e precisa ser mais bem difundida. Uma história que nos leva a refletir sobre a diferença entre educar e instruir, sobre o papel das famílias e do poder público nessas atividades etc. Muito a ver com o que a autora diz na pergunta nº 01 (segunda fase da infância), sobre a solidariedade entre famílias vizinhas, a comunidade… a arte da palavra, da experiência literária ajuda a criança a crescer.

A criança cresce muito, quando vive num ambiente com hábitos de leitura, quanto mais lemos, melhores nos tornamos. Quando escrevi O Professor da Floresta, pensei que o livro seria direcionado as crianças a partir de seis anos, porém com muita alegria recebo informações de crianças mais jovens que apreciam a leitura e sinto-me honrada por isso. Gostaria que o livro alcançasse um número maior de leitores, por entender que a história traz reflexões sobre pontos específicos, como, respeito, empatia, direitos e deveres.  Como bem o disse, existe uma grande diferença, entre educar e instruir e, embora, inicialmente a história seja direcionada ao público infantil, ela oferece ponto de reflexão aos adultos, sobre o seu papel e influência na vida de outras pessoas e também sobre suas realizações pessoais. O livro possui um vasto material com temas enriquecedores a serem trabalhados nas escolas.

Ainda sobre “O Professor da Floresta” (Ed. Viseu, 2019), uma fábula escrita há mais de 20 (vinte) anos, paraboliza uma questão atual: a disputa pelo cargo de professor. Grandes escritores-observadores já registraram que “para o ensino e para a representação política nunca faltam candidatos”. Para Rosilene Alves, quais seriam os atributos básicos para ser um bom professor? E um bom político?

Para ser um bom professor, é necessário o dom para ensinar, a empatia pelo estudante, o amor ao trabalho e senso de justiça apurado.

Um bom político deve ter senso de justiça, empatia pelo povo e legislar principalmente para os menos favorecidos.

A maioria dos contadores de histórias infantis consideram que o enredo precisa se bastar, ou seja, não é preciso dar muitas explicações, justificativas etc. Você toma isso como regra? Comente um pouco mais sobre sua experiência nesse sentido.

Depende do público-alvo, penso que, se tratando de histórias infantis, é necessário desenvolver o tema com muitos detalhes para que a criança possa acompanhar o personagem, torcer por eles e até mesmo se ver como parte da história.

Sobre o segundo livro “Foi você!” (Ed. Viseu 2019), que se destina aos jovens e adultos. São casos insólitos, histórias engraçadas e de gafes, algumas delas traumatizantes. Estilo claro, acessível, fluido e com um narrador despretensioso. O livro é tão divertido quanto útil, em termos de literatura como conhecimento, pois os casos encerram uma variedade de sentidos sobre a convivência humana. Como e quando surgiu a ideia de reunir a coleção das pequenas histórias? Conte-nos um pouco do processo, do plano da obra, da pré-escrita, escrita, redação e editoração final.

A ideia de escrever essas histórias teve como objetivo principal levar entretenimento aos leitores. Como os casos, em sua maioria, me proporcionaram momentos de descontração, e ao contá-los exerciam nos ouvintes o mesmo efeito, pensei em dividir esses momentos com mais pessoas, por isso comecei as escrevê-las. Foi muito divertido fazê-lo e muitas vezes, precisei interromper o processo porque tinha crises de risos.  Depois de prontas, a maior dificuldade, foi selecioná-las, para o primeiro livro, uma vez que tenho inúmeras por editar.

O livro FOI VOCÊ relata situações verídicas, diferentes e hilariantes que aconteceram comigo, amigos, familiares, parentes, colegas de trabalho e até mesmo com a minha avó. Quando a notícia de que eu estava escrevendo um livro desse gênero se espalhou, recebi vários relatos de pessoas que me contaram suas gafes ou constrangimentos, aumentando significativamente o meu repertório. Como fonte de trabalho, comecei a prestar atenção nas coisas contadas por pessoas comuns, dentro dos ônibus, nas filas de bancos e por todos os lugares por onde eu passava. Assim, consegui muitos relatos que ficaram para um segundo livro.

Quais critérios a autora utilizou para escolher os títulos de cada história? E quanto ao título do livro?

Foi bem difícil elaborar os títulos para as histórias. Passei muitas horas dedicando-me a isso. Busquei comicamente algo que tivesse a ver com o que estava sendo contado e, ao mesmo tempo, despertasse o interesse do leitor e isso não foi nada fácil.

Quanto ao título da obra, eu queria algo impactante, que remetesse ao leitor à impressão de que suas gafes poderiam estar sendo contadas neste livro e o instigasse a ler.

O nome do livro eu tinha em mente, faltava a ideia para a capa, então, um dia, navegando pela internet, vi uma imagem que me chamou atenção e combinava perfeitamente com o meu propósito. Neste exato momento, decidi como seria. A editora acolheu a minha sugestão e trabalhou nela.

Uma curiosidade sobre as notas da autora: o fato de evitar fazer referências a lugares tais como ruas, bairros e cidades, foi mesmo por temor de sofrer processos judiciais?

Sim.  Nem todas as histórias apresentadas foram autorizadas por seus agentes causadores. Algumas pessoas já faleceram, assim sendo, temendo que algum de seus descendentes pudesse se sentir ofendido pela exposição, me resguardei, evitando mencionar os locais. A ideia era colocar todas as histórias protagonizadas por Maria e José, porém, em alguns casos, com mais personagens, precisei utilizar outros recursos, mas, em sua maioria, nomes comuns.

A autora pensou em convidar um outro autor para prefaciar? Ou um comentador para texto orelha?

Por se tratar de um livro divertido, com temáticas livres, é necessário alguém de bom humor para conseguir extrair o melhor das leituras e não é fácil encontrar pessoas dispostas a argumentar em livros que não sejam considerados intelectuais. Assim como no teatro, esse tipo de estrutura ainda enfrenta muito preconceito, embora seja, necessário, admirado, procurado e lido por muitas pessoas como forma de entretenimento.

No conto “A Barbie Frustrada”, a mensagem central insinua uma lição séria a tirar, que envolve ciúmes em família, fugindo um pouco da linha descontraída dos outros casos-contados. Essa diferenciação foi de fato intencional? Ou é apenas um acidente?

Nada neste livro foi acidental. Assim como reuni histórias engraçadas, também acrescentei histórias constrangedoras e essa, além de constrangedora para a Barbie, trás uma lição de vida.

Das obras que estão na gaveta ou no prelo, o que a autora pode adiantar ao público internauta?

Terminei recentemente um romance e tenho iniciado um conto baseado na mitologia grega, um drama em andamento, além de uma autobiografia. Quanto aos infantis, tenho seis livros terminados, aguardando por oportunidades.

Um pouco sobre hábito e necessidade de leitura literária. Há muito tempo considera-se que o desinteresse de jovens e adultos pela poesia, pela prosa imaginária, ou seja, pela leitura de textos artísticos, pode estar relacionado com a pouca experiência de escuta desses gêneros durante a infância. Nas últimas quatro décadas, o poder público, vários institutos e as editoras investiram com força na literatura infanto-juvenil. Mas as pesquisas sobre livro e leitura mostraram que o brasileiro começa a ler cedo e cedo abandona a leitura. Na sua opinião, quais são os fatores e atores que interferem nessa problemática?

Penso que a falta de estímulo dos pais seja um fator de grande relevância. Acredito que, se as crianças fossem levadas a conhecer bibliotecas, museus e recebessem como presentes livros, esse quadro mudaria.

O governo também tem sua parcela, por diminuir os investimentos na área de educação, deixando o ensino obsoleto e desinteressante.

Há atualmente constantes bombardeios midiáticos, políticos e desinformação que acabam por disseminar uma cultura de ataque aos clássicos da literatura, sobretudo aqueles que, em geral, tratam do lúdico, retirando-os das prateleiras, afetando os futuros leitores.

Não posso deixar de trazer a questão gananciosa de alguns grupos editoriais que têm se interessado por temas inapropriados à infância, como, por exemplo, o terror infantil, desencorajando os pais a incentivar a leitura.

A literatura ajuda a criança a crescer, o adolescente a aprender e auxilia no amadurecimento de jovens e adultos. Ouvimos uma variedades de vozes. Vivemos situações no imaginário por meio da ficção e da poesia. Ampliamos, por meio da arte da palavra, experiências teóricas que podemos colocar em prática. Em geral, são esses alguns dos benefícios.Quais os autores mineiros mais reconhecidos que Rosilene Alves indicaria para quem deseja se habituar na leitura artística?

Bartolomeu Campos Queiroz, Walter Lara, Danilo Arnaldo Briskevicz (Autor do livro Triângulo), Jorge Fernando dos Santos (Autor do livro O Rei da Rua).

Ler literatura de novos autores ainda é considerado uma espécie de sacrifício? Como poderíamos conscientizar alfabetizados porém não-leitores? A autora acompanha críticos ou jornalistas culturais que poderiam ajudar nesse sentido?

Não vejo como sacrifício ler novos autores, entendo como sacrificante a vida deles, que precisam de muito esforço para apresentar seus trabalhos e de quem os indique. Tomo para mim essa verdade, pois os meus livros são muito lidos através de plataformas específicas e, mesmo com grande relevância, ainda não foram indicados ao MEC.

Penso que a forma de conscientizar alfabetizados não leitores seria através do acesso a livros de entretenimento que às façam sorrir, depois de longas horas de trabalho, trazendo leveza as suas vidas. Acredito que esse acesso traga novamente o amor pela leitura e quem sabe mais tarde, para temas mais complexos. 

Estou sempre buscando saber algo sobre cultura, conhecendo novos autores e lendo notícias do meio.  Sou membro do conselho de cultura da Cidade de Santa Luzia, porém não sigo ninguém em específico.

Estímulo à produção literária e revelação de autores. O Concurso da Prefeitura de Santa Luzia (2001) revelou, dentre outros trabalhos, a sua prestigiada fábula. A partir daquele ano, eventos artísticos de competição passaram a ser substituídos por sarais temáticos, mostras, feiras e festivais segmentados por estilo e linha de expressão. Nestas últimas duas décadas, o que você observou no que diz respeito aos esforços para se revelar talentos ou abrir oportunidades aos novos escritores? Em Santa Luzia e em Minas, particularmente.

No setor privado, muitos editais de concurso vêm sendo amplamente divulgados, no entanto, algumas dificuldades, como a unificação do concurso para infanto/juvenil, proporcionaram muitas desigualdades uma vez que a linguagem, recursos e quantidade de laudas são diferentes para cada grupo, ficando em desvantagem a premiação de autores voltados ao público infantil.

Não vi grandes esforços, inclusive as leis de incentivo à cultura, que a princípio deveriam ajudar os artistas, disponibilizam pouco recurso para a confecção de livros, alimentando apenas a cadeia produtiva.

Não é fácil abrir portas para publicação e enfrentamos também dificuldades em alguns concursos literários, que premiam apenas livros já editados, dificultando a apresentação de novas obras ao mercado. Outros promovem concursos em que classificam, por gênero, como iniciante, autores já editados, reduzindo absurdamente o valor da premiação.

Música e literatura. Acredita-se que a música mista: ópera, canção, cordel, embolada, desafios, enfim, números com texto em verso, ajudam bastante no desenvolvimento da interpretação literária. Conte-nos um pouco sobre sua experiência com o coral de música e com a produção teatral.

Trabalhei durante seis anos para um coral de meninos cantores de Santa Luzia (MG), onde exerci a função de diretora de eventos, serviço este voluntário. Era de minha responsabilidade divulgar o coral, bem como a sua manutenção. Para isso, foram feitos eventos diversos, muitas apresentações em diversas cidades mineiras, como também no Rio de Janeiro e Santa Catarina, além de participações em programas de televisão, congressos, casamentos, empresas privadas, entre outros.

Como corista, participei do Coro Angélico por quatro anos, realizando assim um sonho de infância. Como produtora cultural, trabalhei na venda do espetáculo teatral infantil, A Princesa Engasgada, pela extinta Produtora Submarino.

Essas experiências trouxeram-me grande conhecimento artístico e pude, com isso, assumir um cargo de coordenadora cultural pela Associação de Promoção Humana Divina Providência, quando coordenei o setor de oficinas onde eram ministrados cursos de música, teatro, dança, canto coral e pintura artística.

Uma deixa sobre a Moção Honrosa no ano de 2019, pela Câmara Municipal de Santa Luzia e sobre a sua atuação na Academia de Letras e Artes de santa Luzia (ALUZ), sobre a importância do reconhecimento público, dos eventos, grêmios literários e academias de escritores.

Fui indicada pelo então vereador Neilor Audrin Vieira Cabral a receber a Moção Honrosa pela relevância dos serviços prestados na área cultural ao município de Santa Luzia, envolvendo também a literatura. Esse reconhecimento me deixou muito honrada e grata ao vereador, apreciador da arte, que voltou o seu olhar à minha pessoa.

Recebi do senhor José Rodrigues de França, então presidente da Academia de letras e Artes de Santa Luzia, o convite para ser membro, onde ocupo a cadeira de número 32. Também recebi das mãos do presidente o diploma de honra ao Mérito.

A Academia é um órgão de muita importância e relevância, mas enfrenta muitos problemas por falta de incentivo do poder público, não tendo ainda um espaço físico seguro para manter os trabalhos. Porém, luta bravamente, levando seu nome através de seu presidente a várias cidades mineiras.

O pensador pós-moderno Gilles Deleuze teria dito, por volta da década de 80, que o narrador literário (cronista, contista, romancista) exerce a memória e a reminiscência, pois relata determinados fatos, atos, constrói e descreve espaços e personagens. Para ele, as lembranças seriam uma forma de recuperar verdades e valores perdidos ou esquecidos. Na sua opinião, a literatura brasileira contemporânea deveria recuperar quais verdades e quais valores?

Penso que cada época traz consigo suas verdades, assim sendo, devemos manter o respeito acima de nossas opiniões e gostos pessoais, este seria um dos maiores exemplos e dos melhores valores que devemos preservar, pois o público é diverso assim como os gostos e estilos.

Nossos agradecimentos pela participação e até a próxima.

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Cristiano, escritor e pesquisador

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

Por Lopes al’Cançado Rocha

Entrevista especial para Semana da Pátria

setembro, 2024

Selecionamos o maestro Roberto de Souza Barros Kalili, que também é escritor e pesquisador da cultura brasileira. Fundador do grupo Alta Cultura, Kalili acredita que ainda temos muito por fazer. O esforço de sua iniciativa, junto de amigos e colegas, tem sido formar e contribuir para o aperfeiçoamento de professores dispostos a transmitir Alta Cultura, sobretudo nacional, por toda a Pátria, aos jovens brasileiros de hoje e das próximas gerações. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e filosofia são os principais conteúdos postados e comentados no Alta Cultura (f.book), espaço virtual com mais de 6.000 membros inscritos e super colaboradores reconhecidos em diversas áreas.   

Natural de São Paulo, e hoje morando no interior do Paraná, o maestro tem atravessado o Florão da América nesses últimos anos. Travessia horizontal e transversal, tanto no sentido físico quanto em termos documentais, sentimentais e imaginários.

Com seu estilo ousado, às vezes em prosa imaginativa, noutras vezes em prosa didática, Roberto Kalili publicou recentemente na coletânea “Olavo de Carvalho: um filósofo do Brasil (2022)”, e sua obra individual “Alta Cultura Brasileira: uma caçada ao tesouro (2023)”, ambas pela editora Armada.

Kalili, obrigado pela correspondência em público. Poderíamos começar pela sua infância? Vida em família, a educação, os divertimentos e os trabalhos como ator mirim de televisão. 

Quando criança, eu tinha um pequeno disco com duas músicas infantis, “O MACACO E A VELHA”, Festa No Céu, que escutava o dia todo. Joguei muito caxangá, que na versão original se apostam docinhos, tem um dado com quatro lados, tira, põe, deixa ficar e rapa tudo. Sabia fazer pipas interessantes que soltava com quatro rolos de 400 metros de linha emendados, construía miniaturas de aeromodelos e aviões de papel. Quando a criança brinca, está experimentando os diversos papéis que a vida pode nos dispor: aviador, espião, general, músico, automobilista, balonista, cowboy, índio; acho que este é o sentido de brincar; quando um menino constrói um carrinho de rolimã está descobrindo se quer ser um Enzo Ferrari ou Henry Ford, quando desce a ladeira embalado se imagina um Airton Senna ou Emerson Fittipaldi, destarte construímos nosso futuro a partir dos sonhos. Tive a oportunidade de experimentar muitos destes papéis na vida real, e assim fui construindo a vivência necessária para a formação de um escritor. A experiência como ator-mirim pode ser uma faca de dois gumes, pois gera algumas falsas expectativas. Não aconselho a ninguém colocar a seus filhos na frente das câmeras para ser julgado pela multidão, mas para brincar, aí sim pode ser legal. Eu trabalhei em comerciais antigos, ainda na televisão em preto e branco, para a Nestlé, Omo Total, Kibon, Viva Sabão, Arroz Brejeiro, Banco do Brasil e outros, entre 1964 e 1972.

E como foi o início nas artes? Adolescência, juventude, apreciação, aprendizagem…

Gostava de teatro e de apresentar peças de polícia e ladrão, compunha canções desde muito novo, comecei com paródias. Gostava de ler, mas após a quinta série tive maus professores que raramente me ofereciam a liberdade para escolher os livros. Me vestia de preto e pintava o rosto com carvão para andar como espião pela noite, também fabricava balões de São João e imaginava voar neles ao sabor dos ventos; acho que nem é sobre mim, mas sobretudo o que as crianças fazem de legal, coisas como subir em árvores, construir cabanas de pau e folhas, andar pelo mato feito bicho, escrever poesias. Rabiscava planos mirabolantes, vivia papéis de cowboy, gangster, índio, biólogo, vivia mesmo. Quando eu cismava em ser biólogo, trabalhei no Butantã, no departamento de recepção de animais peçonhentos (COBRAS E ARANHAS), alimentei a elefanta do zoológico, e o hipopótamo Cacareco, os camêlos, as ariranhas, criei uma cobra caninana, resgatei um falcão, uma tartaruga, montei aquários. Um dia resolvi virar índio e sumi pela floresta da Serra do Mar; quando resolvi que seria cowboy montei um touro de 700 quilos (aos seis anos de idade…) o que forma um escritor é viver!

Muitos artistas enxergam, ainda que poeticamente, uma certa interdisciplina entre as primeiras artes com que temos contato a partir da infância: música, dança, literatura oral e artes plásticas. Lembremos da afirmação de Goethe, de que “arquitetura é música petrificada”. Como o maestro percebe essas relações?

        Toquei violão, depois guitarra, violino, contrabaixo, bandolim e cavaquinho. Fui da MPB ao rock, depois jazz rock, progressivo; toquei em orquestra, grupo renascentista, barroco, fui baixista de estúdio, morei na praia pintando barco de pescador, fui barman (menor de idade). O estudo musical favorece o desenvolvimento do complexo cognitivo estimulando a função do córtex.

Em geral, nossa relação com artes se dá na seguinte ordem: primeiro pelas atividades lúdicas; depois como instrumento de expressão da personalidade; em seguida como experiência de vida e reflexão filosófica; e por fim, como ritualização da nossa própria vida espiritual, uma forma de buscar o sagrado. No seu caso, está sendo mais ou menos dessa forma? O que o Kalili sexagenário de hoje diria ao Roberto quando adolescente e jovem?

É uma pergunta difícil, eu costumava fazer promessas para toda a vida, jurei que caso chegasse aos quarenta como uma pessoa normal enfiada numa vida sem graça eu iria jogar tudo para o alto e sair pelo mundo para recomeçar. Fiquei satisfeito com aquilo em que me tornei, não gostaria que fosse de outra forma. Meu conselho seria para começar a estudar música mais cedo. Creio que a maior parte do que disse até aqui comprova sua teoria, do brinquedo para a expressão, da experiência para a vida, apenas no meu caso a vida espiritual começou bem mais cedo. Acho que ainda sou assim, quando remo solitário durante a noite no Rio Ivaí, ou saio montado na fazenda atrás de vaca brava, quando toco meu cavaquinho ou viajo por aí a conhecer o Sul, a Argentina e o Paraguay, ainda sou aquele sonhador. Quem deixou de viver seus sonhos está morto para a vida espiritual. Algumas vezes eu puxo demais pelas pessoas porque desejo que elas percebam isto com clareza, que não desperdicem suas vidas. Acredito que o vitimismo é parte do medo que ancora o espírito; então você é capaz de me encontrar andando pelos andes vestido como um inca, ou na praia de Ilhabela vivendo como um caiçara, ou como um ganadero (pecuarista) no Paraguay, saiba que ainda estou vivendo intensamente o sonho da vida, e que o mundo espiritual é inacessível para quem não experimentou a realidade em sua essência mais pura.

Conte-nos como e quando você passou a ler e a estudar sobre filosofia e história da arte, os temas, autores etc.

Quem me influenciou um pouco mais a escutar música foi minha avó Evelina, nascida em Dresden, que era a pessoa de maior cultura em minha família, escutava muita música clássica e gostava de ler Seleções. Minha iniciação nos grandes mistérios se deu espontaneamente, ainda antes de completar quatro anos. Foi uma coisa mágica, através da graça, não havia qualquer mérito meu que justificasse. Fui sim interessado por diversas culturas ao longo da vida, os persas antigos, judeus, chineses, japoneses, indús, franceses, alemães, gregos, incas, jesuítas, busquei em todos os lugares na esperança de encontrar em algum.

Lopes:                                                                     

– Mas e a relação com a dança?

 – A dança ocupa o centro de equilíbrio na base do cérebro, envolve o labirinto (do ouvido interno). Dancei muito pouco, gostava das músicas lentas e o advento da “disco music” em São Paulo me afastou da prática. Me encantam os antigos bailes valseados de Johann Strauss, acho que se eu tivesse tido a oportunidade de vivenciá-los gostaria muito mais de dançar.

Lopes interrompe novamente:

– Sim, mas, durante a execução, maestro e músico dançam com as mãos, com os pés e a cabeça…é nesse sentido,não?                                                                   

– Pode-se unir música com pintura, letra, canto, dança, acredito que nestes casos a música fica contida em um limite; eu quando estou regendo fico sentado, de olhos fechados, me comunico apenas de leve, faço o grupo repetir mil vezes, até soar como um dente-de-leão pairando na brisa. Minha formação deve muito à prática em quarteto de cordas. A parte literária tem como referência três pequenos livros azuis que recomendo a todos para serem lidos ao mesmo tempo: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), Ortodoxia (G.K.Chesterton) e Itinerário da Mente Para Deus (São Boaventura). Claro que há centenas, senão milhares de títulos para se estudar, escritores de ficção (Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, James Clavell, Agata Christie, que ajudam ao jovem a desenvolver o prazer da leitura, e diversos contistas brasileiros de qualidade (Gastão Cruls, Inglês de Souza, Vicente de Carvalho), com vocabulários bem mais sofisticados e estilo culto. A história da arte (assim como toda a história), é apenas uma narrativa, o que se deve estudar é autor por autor, não acredito em coletivos. Os livros “Subliminar” e “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodnow foram importantes para aumentar meu conhecimento em neurociências. De Mario Ferreira dos Santos o livro “Ontologia e Cosmologia” foi o melhor que encontrei para entender a relação entre a filosofia e a vida espiritual. Professor Olavo de Carvalho é uma grande leitura para o entendimento do mundo em que vivemos, sua capacidade de sintetizar pensamentos complexos em fórmulas simples e expor falácias e erros do pensamento moderno a partir do pensamento dos grandes gênios da humanidade é única no mundo. Recomendo começar pelo “Diário Filosófico”, e não parar.

A arquitetura visa acomodação familiar, segurança e praticidade; música por outro lado é arte abstrata, não visa o corpo, mas o espírito. Com exceção honrosa para Gothfried Leibnitz, tenho profundas desavenças com a filosofia alemã, pois em meu entender havia uma outra Alemanha, bela, poética e rural, que a filosofia de origem oriental e o protestantismo esmagaram. Um país de contos de fadas, talvez a maior perda da humanidade, a Alemanha católica. Deixando de lado o argumento “ad hominem”, a música é movimento, então a máxima de Goethe pode ser comparada à nossa ex-presidenta quando falou em “estocar o vento”. Quer dizer, petrificar movimento é, ou não é a mesma coisa que estocar o vento? Vamos à interdisciplinaridade, segundo São Boaventura, as seis asas do serafim para quem busca uma imagem do Deus invisível através de suas qualidades.  A primeira asa para a escultura, o objeto real e material, as imagens dos Santos, a arte dos gregos, a expressão da beleza que fala diretamente ao espírito e cuja máxima expressão é a Pietá de Michelangelo, a imagem de Nossa Senhora com o corpo de Cristo em seus braços. A segunda asa do serafim para os grandes pintores, as obras eternas que exprimem a imagem, que estimulam o hipocampo, que mostram os grandes sentimentos, a vida superior, os momentos mágicos do passado, a grandeza de Deus em sua infinita misericórdia, os grandes mistérios, as visões de Pedro Américo, as imagens que tocam o coração e a alma humana. A terceira asa para a literatura, a construção da linguagem, oratória e retórica, a argumentação, o Organon de Aristóteles, a gramática e a ortografia, a matéria com que trabalham os escritores. A quarta asa para os grandes poetas, para as máximas literárias, e para a oração. O homem diante do seu Criador, a essência que pode ser transmitida através do diálogo com a tradição, as lições de vida condensadas de forma curta e objetiva, os exorcismos, a gratidão, o incensório a vibrar sobre nossas cabeças. A quinta asa para a música, a expressão do movimento, a vibração traduzindo as harmonias sutis que nos envolvem e governam, capazes de reger nossas interações sociais, essenciais para a construção de uma personalidade culta. A sexta asa para o planejamento, o seu trabalho, seu papel neste mundo. Que todas estas artes possam ser combinadas para produzir o efeito de imersão cultural é uma benção que raramente merecemos, mas vamos assistir ao filme “Música e Fantasia”, de Walt Disney e pensar melhor sobre isto.

Como você conheceu o poeta, filósofo, escritor e jornalista político Olavo Luiz Pimentel de Carvalho? Quais foram as suas primeiras impressões sobre ele?

Quando estudei contraponto, a partir de 1985, tive contato com o professor que morava com o Olavo, Ricardo Rizek, e estudei um tanto de filosofia. Rizek e o Professor Olavo faziam um interminável debate filosófico, do qual eu (10 anos mais jovem que o primeiro, e quinze anos mais jovem que o segundo) muitas vezes conseguia participar de forma certeira, dando a palavra final. Professor Olavo era como uma lenda para mim, o debate filosófico entre ele e o Professor Rizek atingia um nível raro que é difícil descrever, a arte de Tarkóvski, o Pitágoras de Mario F. dos Santos, os poetas da pérsia antiga, sufismo, taoísmo, xintoísmo, o contraponto de Bach, a integração de todas estas coisas. Eu nunca encontrava o Olavo pessoalmente, e só fui conversar direto com ele muitos anos depois, através da internet, quando já residia nos Estados Unidos. Ele me orientou bem, desmanchou algumas ideias que tinha como certas, mas que eram verdadeiros edemas em meu pensamento -por exemplo, o budismo, que me parecia lindo, um único ser eternamente amando a si próprio no auge da perfeição  – ; mas na verdade era bem menos interessante do que o amor cristão piedoso pelo próximo, com qualidades e defeitos. Por isto os Santos budistas têm seus olhos fechados, e os católicos têm olhos bem abertos. Mas a maior influência veio mesmo daquela aula sobre Alta Cultura ministrada no programa “True Outspeak”, em que o Professor me demonstrou a necessidade de conhecer o mundo através de nossa própria cultura, o que me levou a formar o grupo de alunos no Facebook.

Alta cultura. Há trinta anos, os termos mais usados eram cultura erudita e cultura clássica. Muitos tinham certo preconceito, associavam a elitismos, à sujeição do brasileiro às antigas potências europeias coisa e tal. Hoje, alguns defendem até uma dita “aprofundada descolonização” de nossas heranças ibéricas e Norte-ocidentais. Que você tem a dizer sobre isso?

O termo alta cultura tem uma razão de ser, ele evita o uso de termos como “arte”, que foram degenerados pelo mau uso. Quando se fala em música erudita, por exemplo, você inclui as bobagens infantis de John Cage na mesma categoria de Bach. Isso é ofensivo! A degeneração cultural não deveria jamais ser chamada de arte, então sou obrigado a chamar de música clássica, não “erudita”, afinal ela se apoia em uma cadeia de valores clássicos gregos-romanos-hebraicos, ou seja, ela busca a virtude como expressão da natureza divina. Se Frida Kahlo (canibal, medonha, tosca e desprovida de virtudes, pode ser considerada arte, então o termo vale para o que um bebê deixa em suas fraldas, mas não serve mais para Jerônimo Telles-Júnior. Deixar de lado nossas influências europeias é voltar a um estado animalesco.

Lopes:

John Riches, professor das áreas de Divindade e Crítica Bíblica, da Universidade de Glasgow, em seu livro “Bíblia: uma breve introdução” (L&PM Pocket), traduzido aqui por Denise Bottman, tem um capítulo só sobre a influência das Sagradas Escrituras nas artes. Riches, ou a tradutora, também usa o termo Alta Cultura. Chineses e russos, por exemplo, que hoje pretendem liderar a política na Ordem Internacional, valorizam enormemente as heranças europeias: as grandes epopeias, as arquiteturas, a sonata, o soneto etc. O dito “antropofagismo filosófico” e o freudomarxismo bestial, de um José Oswald de Souza Andrade, ainda são grandes desserviços para nós, nesse sentido. Membros da ABL fazem de tudo para ocultar um Olavo Bilac, um Olegário Mariano, um Ribeiro Couto…mas ainda exaltam os resultados da Semana de Arte Moderna e do modernismo paulista. O modernismo mineiro é outra coisa.

Kalili:

-Bem, falar sobre a “Semana de Arte Moderna de 1922” é coisa que geralmente não faço, mas como sei que muitos leitores jamais ouviram a verdade, vou contar a partir de uma experiência pessoal. Em 1978, morava na rua um vizinho coronel, bruto mesmo, que era pai de dois guris, o mais novo andava comigo, e era um rapaz muito perturbado: sofria de complexo de culpa e fazia coisas terríveis apenas para ser punido. O irmão mais velho era diferente, estudioso, responsável, tanto que o pai se sacrificou para lhe pagar um curso de direito em Londres. No último mês, o coronel não falava outra coisa: você é uma porcaria, nunca vai ser ninguém, deveria se espelhar em seu irmão, ele volta doutor formado, vai ser juiz – sonhava o pai. Quando o coronel e a esposa foram, cheios de orgulho e pompa, buscar o jovem prodígio no aeroporto eu estava na rua e vi tudo. Meu amigo se sentia um inseto; porém ao voltarem para casa, ao invés de um doutor de casaca, traziam um rapaz magro, com cara de mendigo, chinelão franciscano no pé imundo, cabelo parecendo ninho de urubu, calça de saco de arroz e camisão de estopa. Era o “doutor”. A única coisa que ele trouxe de Londres foi uma coleção de discos do Frank Zappa recheados com cartelas de LSD. Para piorar a situação o irmão mais novo se espelhou nele, assim como um grande grupo de jovens, que aprenderam música e gravaram até alguns discos de sucesso acompanhando um doido paranaense. Mas e a semana de arte moderna? Pois foi exatamente a mesma coisa; os pais aqui achando que estavam mandando seus pimpolhos estudarem na França para se tornarem gente, e eles voltaram como um grupo de vagabundos. A semana foi um fracasso, lixo dadaísta primário e ignaro; mas a mídia estava de cabresto. Juntos eles destruíram a cabeça de algumas gerações, o Brasil é um cemitério de talentos. A besteirada moderna não passa de proselitismo comunista com objetivo de destruição de nossa arte. Nada mais.

– Alguns diziam, por aqui, nos anos 90, que música clássica era a do classicismo.

– Classicismo que eles chamam de rococó, com algum desdém, como se Haydn fosse um sinônimo de mau gosto! Esses professorzinhos militantes me enojam.          

Lopes respondeu:

– Opa….vai devagar aí, maestro…

Kalili:

– Mas deixar de lado a cultura europeia é comer os vizinhos, andar pelado e analfabeto no meio do mato, isso não tem nada a ver com cultura.

Lopes:

– Eu ri demais: “…andar pelo mato churrasqueando os vizinhos…” Nem todo mundo hoje está preparado para uma ironia dessa. Mas temos a consciência de que é por justa defesa da nossa cultura que o maestro ironiza.

Kalili:

– A música é uma descoberta católica.

Lopes:

– Canto polifônico, por exemplo.

Kalili:

– Sem a cultura (nem digo católica, mas especificamente jesuíta inaciana) não existe Brasil, a afinação é católica, do, ré, mi… Os pesquisadores reformistas e até os ateus reconhecem a Santa Igreja como a maioral na música.

Lopes:

– Já tive um professor de matemática, ateu, marxista e maestro que reconhecia o papel, “apenas histórico” da Santa Igreja…

Kalili:

– O papel civilizador dos jesuítas tiroleses é a melhor essência de nossa cultura, e deveria ser retomado visando o bem das futuras gerações, a recomposição de valores e a formação de inteligências sadias para substituir as mentes degradadas que hoje dominaram nossa atividade cultural, apesar de serem desprovidas de cultura, exceto sob o ponto de vista escatológico.

O músico Lobão certa vez afirmou que na cultura pop há muitos elementos de alta cultura. Qual a sua opinião a respeito?

Lobão, ele se acha; é inteligente sim, mas tem a mente deformada. Para começo de conversa jamais tocou rock, o ritmo da bateria dele é polca.

Lopes:

– Não queremos isso, por favor.

Kalili:

– Bem, o que posso dizer de Lobão?

Lopes:

Atenha-se à pergunta. É sobre a afirmação dele. Não sobre ele.

Kalili:

– Acho uma opinião forçada, existem elementos de alta cultura somente na proporção em que a cultura popular deixa de ser popular. Vou explicar: um músico popular, em geral, aprende poucos acordes, dó maior e sol com sétima, aprende a escala em modo jônio e mixolídio, isto é clássico e católico, ou seja: apenas na medida em que a cultura popular assimila elementos clássicos que constituem a essência da arte musical ela se torna música.

Lopes:

– Agora sim…você diz do aperfeiçoamento da toada para a canção.

Kalili continua:

– A cultura popular não significa ignorância absoluta, mas apenas ignorância relativa; o não saber que ao afinar um violão o músico está utilizando Pitágoras, e ao tocar uma escala ou acorde isto é uma herança católica. Mas temos que tomar cuidado ao afirmar essas coisas senão os catolicofóbicos vão tocar desafinado e fora da escala de propósito; então absolutamente todos os elementos que formam a música são criações clássicas, a diferença é quantos desses elementos aprendemos e quantos ignoramos.

Risos. Na sua opinião, quais limites ou fronteiras podemos estabelecer entre folclore, alta cultura, cultura popular e cultura pop?

Não acredito que o papel do professor seja estabelecer fronteiras entre cultura popular e alta cultura, a nossa função é apenas instruir os músicos de maneira elementar, ensinar acordes, escalas, ritmos, cada artista deve desenvolver uma linguagem própria, e isto já é um processo lento e natural, melhor não interferir, mas quando eu trabalhava vendendo guitarras, por exemplo, era comum ouvir um cliente dizer que tinha vendido um milhão de discos e que não sabia ler uma nota; como eu era apenas o vendedor, lhe dava os parabéns, pegava o dinheiro e entregava a guitarra, ganhava minha comissão e esperava o próximo cliente, mas como professor minha vontade era gritar: ENTÃO VÁ ESTUDAR, VAGABUNDO!

O brasileiro, em geral, se orgulha de ser burro, para um artista isso é uma vergonha, em minha opinião isto significa que tudo o que ele fará em sua vida será copiado, pois sem conhecer a estrutura musical não pode haver criação genuína.

Gostaríamos que comentasse os dois trechos abaixo:

a) “Aprendemos no céu o estilo da disposição, e o das palavras. […] as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que já sabem.” (Padre Antônio Vieira).

Kalili: Na prática é muito difícil atingir a todos da mesma forma; quando escrevo algo mais profundo, poucos alcançam; e quando escrevo algo acessível, não acrescenta muito aos que estão acompanhando o fluxo de ideias há mais tempo, então a oratória do Padre Vieira havia atingido um nível que seria raro encontrar nos dias de hoje. Só o Olavo mesmo para unir as duas coisas, então isso nos dá uma pista da quantidade e qualidade de leituras que são necessárias para um indivíduo se tornar capaz de exprimir a alta cultura com simplicidade.

b) “A literatura não é como a música; não é para os jovens, não há prodígios nesse campo. O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental, leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que se viveu. ( V.S Naipaul).

Kalili: Percebo que atualmente damos valor demasiado a obras pueris, acredito que o próprio Mozart só se tornou realmente o gênio que reconhecemos em suas últimas obras, como o quinteto para clarineta; porém com Beethoven deu-se o oposto, ele foi compositor pleno ainda muito jovem, conforme o hepteto opus 21 deixa claro, porém na medida em que foi envelhecendo sua música se tornou menos abstrata e repleta de sentimentos exacerbados. Não que com isso perca o valor, mas certamente é outra via. Também na literatura não é verdade, temos os exemplos de Castro Alves, um gênio ainda mal saído da juventude e Álvares de Azevedo idem, em sua “Lira dos Vinte Anos”, uma obra prima. Entretanto reconheço que comigo se deu assim, realmente fui adquirir maturidade literária somente depois dos cinquenta. Meus primeiros trabalhos eram desorganizados e reticentes. Cada caso é um caso.

-Última pergunta-

Revolucionários contemporâneos, tais como Boa Ventura de Sousa Santos, Miguel Gonzalez Arroyo e outros — partidários de doutrinas antieuropeias e dos “Direitos Humanos” de viés histórico-crítico, e marxista-leninista— e tantos outros multiplicadores dessa doutrina perestroika, acusam a nós, difusores da Alta Cultura, de “elitistas”; “de defensores do status-quo liberal-conservador Ocidental e Cristão”; tratam-nos como “pretensos altaneiros culturais” que desprezam os pobres. Nas palavras desses “esclarecidos”, “nós trataríamos as pessoas humildes como inferiores em moralidade, cultura e civilização, e teríamos o perverso objetivo de hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural”. Seríamos uma espécie de “arrogantes catequistas a serviço de colonizadores do passado”. Como você responderia a essa acusação leviana?

Lopes, agora você tocou no cerne do problema, vou tentar dividir a resposta de forma que fique bem compreensível para nossos leitores. Primeiro vou apontar os erros: a elite não é um coletivo que veio ao mundo para estragar a vida dos pobres. A elite é apenas um grupo de pessoas iguais a todo mundo, não possuem uma cultura diferente, assistem aos mesmos programas ruins da televisão. Reunir povos tão diferentes como portugueses e finlandeses numa única caixa e odiá-los por serem europeus, demonstra um ódio cego pelo próximo. A cultura “europeia” que eles odeiam é o catolicismo, cujas origens estão na África (Egito) e no povo judeu. Eles mesmos são bastante pretenciosos ao falar em nome da “autoridade moral” da esquerda, primeiro porque a esquerda não suporta moral, segundo porque se trata apenas de um projeto de poder, proselitismo em sua forma mais baixa e degradante. Os pobres que eles dizem defender e representar são católicos, conservadores, gente boa e honesta, que trabalha e não gosta de vagabundo; e as minorias que eles dizem defender, servem apenas como massa de manobra; veja os ataques covardes que fizeram ao Sergio Camargo, quando este esteve à frente do Instituto Palmares. Se a democracia é definida pela imposição do direito da maioria sobre a minoria e o “amor pelo coletivo” não é outra coisa senão o ódio travestido à individualidade, quem eles defendem? Não é você, nunca. Chato não é estudar, chato é ser burro. Dito isto, vamos agora pensar o certo: porém a maior parte dos grandes artistas foram de origem humilde, e todas as grandes artes tiveram seu berço na Igreja Católica, que também foi responsável pela criação das escolas, das universidades, dos hospitais, e em especial pelo fim da escravidão por dívidas (Santo Antônio). Desta forma, odiar a cultura católica também significa deixar de lado todas estas conquistas. Agora vamos analisar de forma pragmática o que eles têm a nos oferecer: a destruição da família, a submissão ao Estado, o confisco dos bens (inclusive dos pobres), a substituição dos valores estéticos na arte pela degradação moral do ser humano. A idolatria por falsos artistas que lhes servem como porta-vozes. A supressão de todos os seus direitos (tudo pelo Estado, nada contra o Estado). A escassez inevitável advinda da política keynesiana e da planificação da economia, também devido a supressão dos direitos sobre os meios de produção. A doutrinação no lugar da educação. A principal diferença entre os católicos e os comunistas é que os primeiros dividem o que possuem com os outros, e os segundos dividem o que é dos outros com os seus aliados. Mas mentir é uma parte indissociável dessa política, oferecer um paraíso que não pode distribuir para convencer vagabundo de que vai viver no bem-bom sem qualquer esforço pessoal. Então vem a terceira parte da nossa questão; o que a alta cultura pode lhe oferecer? E esta é a parte realmente importante, entender o que você ganha estudando a alta cultura brasileira. Alta cultura induz ao diálogo com a tradição. A tradição consiste em um esforço contínuo da humanidade para melhorar a vida através da leitura, da música, da pintura e da oração. Ler bons livros aumenta sua capacidade de compreender o mundo, escutar boa música instrumental ou clássica melhora a atividade cerebral e estimula a imaginação (interferindo na forma como reagimos em situações sociais e a maneira como enxergamos uns aos outros), e a pintura realista permite-nos perceber o mundo através do olhar de um artista, com profundidade e sentimento, quer dizer, ao estudar o mundo em nossa própria cultura, absorvemos os elementos necessários para ver a vida através dos olhos das grandes mentes do passado. Se além disto dermos o próximo passo, quer seja estudando um instrumento musical, aprendendo a pintar um quadro ou escrevendo um livro, também nos tornamos parte deste grande fluxo de pensamentos que ilumina a vida e ameniza a existência através da beleza. Por fim, e não menos importante, a oração, o estudo das vidas dos Santos, o conhecimento dos caminhos que podem conduzir a alma a uma existência mais bela. Tenho nisto minha própria experiência ao me deixar orientar, não pelo professor maconheiro de história, mas através do “Itinerário da Mente Para Deus”, um livro antigo escrito por um Santo. Agradecer sempre, mesmo diante das dificuldades, o fará mais forte e confiante diante dos desafios.

Conclusão:

Eles impõem uma cultura medonha, destrutiva e inútil, enquanto nos acusam de tentar recuperar as boas práticas artísticas, desenvolvidas ao longo de séculos pelos maiores expoentes da humanidade. Fica por conta do leitor a decisão de descobrir o melhor de nossa cultura, o trabalho é árduo, mas entre no grupo de Alta Cultura no facebook para conhecer outros artistas que você nunca pensou existirem no Brasil.

Endereço do grupo Alta Cultura:

https://www.facebook.com/groups/2543250742598003.

Últimas palavras de Roberto Kalili:

Um pequeno guia para quem deseja conhecer melhor nossa cultura:

Livros: Os XII Trabalhos de Hércules, Através do Brasil, Amazônia Misteriosa

Compositores: Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Leopoldo Miguez

Poesia: Castro Alves, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo

Pintura: Arthur Timóteo, João Batista da Costa, Oscar Pereira da Silva

Música Popular Brasileira: Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo

História do Brasil: Primeiras Cartas do Brasil, Viagens às Missões Jesuíticas

Livro didático de minha autoria: Alta Cultura Brasileira – Editora Armada

— FIM–

JOÃO, MAIS UM FILHO DE NOSSA ORGULHOSA BAHIA DE SÃO SALVADOR

JOÃO, mais um FILHO de nossa orgulhosa BAHIA de SÃO SALVADOR

Entrevista

por Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

Em certas rodas aqui por Minas, algumas vozes têm dito que entre os nascidos na Bahia, nenhum outro poeta recente tem se destacado quanto João Fernandes Filho. Os menores no Reino da Poesia conseguem facilmente dele uma entrevista especial, devido sua generosidade. Esse é o nosso caso.

João, conte-nos um pouco da sua infância, sua relação com a família e comunidade, sua região, sua terrinha. O escritor brotou na alma muito cedo, como nós leitores seus fomos informados. Queremos saber mais disso.

Minha infância se passou em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia, e tive o amor, a proteção e a liberdade necessárias dos meus pais para viver uma meninice pobre, mas riquíssima em aventuras – brincar na chuva, brincar de roda, ouvir histórias na noite em frente à casa etc. –, passar as férias na casa do meu avô materno, em cima da serra, a luz era de fifó, e a água no pote buscada na fonte. Na rua Santa Luzia, no Bairro São Miguel, em Bom Jesus da Lapa, não havia calçamento, e, após as chuvas, encontrávamos pequenos cágados nas poças de lama. A mata era próxima, o rio era próximo. Meus pais – seu João Galego e dona Dilza – cuidaram de nós, meus irmãos e eu, com raro amor e responsabilidade. Agora, por meio de sua pergunta, revendo tudo isso, percebo que tive uma infância lendária por ser simplesmente isso – uma infância comum de menino do interior do Brasil na década de 1980.

Quem é João Filho? De onde veio, onde está e para onde pretende ir?

Sou um pecador. Vim da lama, estou tentando ser limpo pelo Cristo; o problema, é claro, não é Ele, mas eu que atrapalho. E, pela misericórdia d’Ele, tenho a esperança de morar nem que seja no último casebre da periferia do Céu. Em termos pedestres, João Filho é poeta e professor, doutorando em literatura portuguesa na USP. 

Como foi a experiência rebelde de escrever letra de canções punk? Como está o letrista João hoje? O que tem ouvido? Qual o conselho que João daria aos letristas iniciantes?

Uma das minhas primeiras experiências literárias foi uma letra que escrevi com um amigo. Se não me engano, acho que com 13, 14 anos. De lá para cá, eu escrevi letras para os ritmos e gêneros mais diferentes, do punk como você indicou até o famigerado arrocha.

Hoje, os parceiros musicais mais constantes são compositores da linha do bom cancioneiro tupiniquim.

Ouço muita coisa. Para ficarmos em dois exemplos do momento: o primeiro disco do Clube da Esquina e Arvo Part.

O conselho é simples, e, acredito, todos os jovens letristas saibam: na letra prevalece a música, mas não deixem jamais de escrever letras belas, boas e verdadeiras.

Essa predileção pelo teatro lido ao assistido, queremos saber.

Na verdade, é uma deficiência minha. Tive, claro, contato com a área, escrevi uma peça – Auto do São Francisco –, mas não sou do métier do teatro. Para mim funciona mais ler a peça do que assisti-la no palco, o que é um contrassenso porque o teatro acontece no palco. Se as declamações forçadas de um poema me aborrecem, assim também as encenações antinaturais (eu sei que o termo é perigoso ao se falar de teatro) me entendiam sobremaneira.    

Genética. Processo de criação. “Faço tudo no facão, depois tomo o estilete”. A fase artesanal ajuda a alma mesmo? Há quem considere que uma coisa é desligada da outra. Explique o seu caso.

Na poesia, eu tento lapidar no momento mesmo da primeira escrita. A cada verso procuro a melhor construção sonora e imagética dentro de um contexto que faça sentido. Claro, que, depois, relendo antes de publicar em livro, eu refaço alguns versos. Tenho um arquivo imenso com poemas que não deram certo, ou que não gostei, ou que ficaram pela metade etc. Aproveito muito desse arquivo. Guardo também imagens, e até mesmo palavras, surgidas ao longo dos anos, e que, algum dia, poderei usar num verso.   

Na prosa é que faço anotações de ideias, cenas, diálogos para somente depois rearrumar, reescrever etc. Ao escrever prosa sempre refaço depois.

Forjar manifestos, escolas, movimentos hoje em dia soa cafona por quê? Para quem?

Não sei se soa cafona, mas os grupos são necessários. Escritores, de alguma maneira, sempre encontram sua “turma” estética mesmo que ideologicamente não se coadunem. Situação cada vez mais rara porque as ideologias têm prevalecido acima de todas as relações humanas. O que é uma coisa miserável. Mas, respondendo sua pergunta: cada poeta, consciente do seu ofício, possui uma cosmovisão, o que quer dizer, em outras palavras, traz escondido um manifesto, uma estética. No atual cenário brasileiro, e vejo também em outros países, a dimensão estética é a mais desprezada nos mais variados gêneros artísticos.

Proseie mais do poeta-balconista, comerciante, atendente, distribuidor de congêneres. Em verso, esse tema econômico e vital interessou bastante ao entrevistador, que defende a Rerum Novarum, o distributivismo justo. “Suum cuique tribuere” 《Dê a cada um o que é seu》》. Uma das unidades da Justiça ensinada por Ulpiano. O poeta Antônio Augusto de Mello Cançado, incansavelmente, reensina-nos até hoje aqui em Minas. (?) 

A Venda do meu pai, João Galego, é um dos meus lugares míticos. Fui criado dentro da Venda (sempre com inicial maiúscula). Quando me perguntam das minhas influências literárias, eu uso a figura do poeta-balconista que sempre rouba um pouco de cada freguês-escritor que aparece no balcão da Venda. Escrevi muitos poemas que falam ou fazem referência à Venda e ao seu universo, mas há um que não posso ler em público porque não seguro as lágrimas, é o “A Venda por dentro”, do livro Auto da Romaria. O poeta-balconista, em outra perspectiva, é também um atendente que procura servir caridosamente os seus leitores. Um leitor é o maior presente para um poeta. Ninguém é obrigado a ler o que escrevemos, a comprar o livro que publicamos; devemos conquistar esse leitor com uma escrita que contenha algo daqueles versos de don Antonio Machado: “umas poucas palavras verdadeiras.”

Colecionamos muita poesia dos anos 60, 70, 80, 90 e da dita “Poesia da Era-Lula”. Nesta última, gargalos das anteriores, a meu ver, predominou as forças demasiadamente sensitivas, engajadas no coletivismo autoritário, utopia do socialismo-XXI. Em seu livro-balancete “Dez anos que encolheram o mundo (2001-2010)”, Piza aponta a migração e o exílio como temas repisados na prosa. Incrível como as 《《editorias enviesadas e dirigidas 》》de literatura antecipam os efeitos e consequências das sementes ideológicas. Hoje vemos os venezuelanos, os nossos exilados políticos, as perseguições e as injustiças. Na poesia (2001-2010), Daniel destaca Ferreira Gullar e Fabrício Carpinejar apenas. Qual sua opinião sobre esse balanço do jornalista?

Não li o livro do Daniel Piza. Mas concordo com o resumo que você faz. Direi o óbvio (cada vez mais é vital ser dito): literatura é a arte da linguagem trabalhada artisticamente. É preciso distinguir que linguagem nesse sentido não é beletrismo, e nem o seu contrário – o desleixo. É necessário equilibrar três pilares muito bem compilados por Bruno Tolentino: abrangência, profundidade e feeling (sentimento e sinceridade). Sustentados por esses três pilares a linguagem engendra a forma. A forma é a alma da obra (forma e não fôrma). Sem isso não há obra de arte em gênero algum. A melhor poesia moderna ou pós-moderna não fugiu desse caminho.  

Não concordo com Daniel Piza no destaque de dois poetas apenas nesse período de 2001 a 2010. Entre os mais velhos, a grupo de 1965 de Pernambuco estava atuando e com renome nacional – Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly etc. Entre os mais jovens – Érico Nogueira, Astier Basílio, Mariana Ianelli etc. Cito apenas alguns nomes de destaque nacional.

Daniel Piza incomodou muitos “coletivildos tirânicos”, pelo que sei. Mas nesse caso somos dois na discordância. Serão procurados e lidos seus autores citados. Vamos falar um pouco de crítica literária. Em 2005 o Sr. Wilson Martins disse no Caderno Idéias do Jornal do Brasil: “só sou conservador na medida que a literatura é conservadora. Não se pode revolucionar a literatura todos os dias.” Comente, por favor.

Grande Wilson Martins! Em alguns pontos de vista (por sinal, é o nome da coleção em vários volumes de sua crítica que abarca de 1954 até 2000), eu não concordo com ele, um exemplo entre tantos: sua leitura historicista da obra de Cecília Meireles. Contudo, Wilson Martins foi um gigante da crítica brasileira e não apenas literária. Estou de acordo com o comentário que você destaca do escritor paranaense. Revolucionar a literatura todos os dias é tentar recriar a roda, esquecer a imensa história da literatura que nos antecede, de Homero para cá são mais de três mil anos de escrita literária! Há que se ter um mínimo de noção e humildade com esse quase infindável acervo. O surgimento de um James Joyce, de um Guimarães Rosa (cito os grandes revolucionários) é o ápice de um período que, por acúmulo e verticalização, radicalizou os experimentos na arte romanesca. E como disse o grande mineiro é no “mais mesmo da mesmice que vem a novidade.” Sei, claro, as formas literárias caducam, precisam ser renovadas, mas, antes, é a sensibilidade nova que pede formas novas, novos caminhos. E sensibilidade não é feito a moda que muda toda semana. Desse modo, as tais revoluções da literatura apregoadas todos os anos não passam de repetições mecânicas. Quem revoluciona o tempo todo não percebe paradoxalmente a imobilidade cadavérica do seu estado.

O escritor Douglas Lobo frisa sobre “a ingênua expectativa” do Afrânio Coutinho a respeito da atividade crítica migrar dos periódicos para as universidades; já outros autores se entusiasmaram pelo fato da crítica migrar das universidades para as redes de internet. No primeiro caso, teríamos um aperfeiçoamento do gênero; no segundo, por sua vez, ganharíamos mais liberdade e acessibilidade.  Como o senhor vê esses fenômenos relacionados a suportes, ambientes, jargões etc.?

Vale deixar registrado aqui um livro que mapeia essa mudança – da chamada crítica impressionista (termo pejorativo cunhado por Afrânio Coutinho) para a crítica universitária – Crítica literária em busca do tempo perdido? De João Cezar de Castro Rocha.  

Outro registro que acho necessário: é um abuso tratar como diletantes críticos da excelência de Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sergio Milliet, Lúcia Miguel Pereira, Augusto Meyer, Eugênio Gomes, Brito Broca, Fausto Nilo etc. Pois foi isso que fez uma boa parte da crítica universitária. Esta, no entanto, não pode ser ignorada, porque há material de altíssimo nível.   

Com a mudança do suporte deveríamos ganhar mais espaço e liberdade. Por exemplo: na internet o espaço e a liberdade são maiores, e quem desejar é só escrever, mas a qualidade é muitas vezes duvidosa. O jargão, não obstante, é inescapável. É assim em todas as áreas, não é mesmo? Claro que há exageros. O suporte em si mesmo é algo bom. A internet, para o pesquisador sério, é uma ferramenta, hoje, inescapável.    

Não sabia que Fausto Nilo escreve crítica. Deve ser ótimo, pois é arquiteto e compositor. Um ensinamento como “O ideal do Crítico” de Machado de Assis e os apontamentos de um José Veríssimo guardam ainda alguma utilidade para os dias de hoje?

Li os dois autores, mas confesso de que não me lembro de quase nada da crítica deles. Teria que relê-los para responder sua pergunta.  

“O advogado é o poeta da Justiça. O poeta é o advogado da beleza”, disse José Martiniano de Alencar. Quais seriam as responsabilidades de um poeta nos dias de hoje nessas questões de ética, estética, direitos humanos (direitos culturais), justiça e paz social?

A primeira responsabilidade de um poeta é escrever boa poesia. Seu ofício tem como base o bom, o belo e o verdadeiro. A dimensão estética vem sempre em primeiro plano. O resto vem por acréscimo. Se ele deseja fazer justiça e promover a paz social, então, vá cuidar dos pobres e oprimidos. Mas em nome de Deus e não de uma ideologia qualquer.

Filosofia. No poema Luz Primeira, da terceira parte do livro A dimensão necessária encontramos a relação conflitante do atomismo grego com a genealogia judaica. Origens dos elementos (lumens e sons), o firmamento, as criaturas tais e quais. Poderia nos dizer de seu percurso nos exercícios filosóficos? Mais por questões, problemas e sensações ou mais pela historiografia?

Com certeza pelas questões e problemas que me surgiram ao longo da vida. Não sou filósofo, e, acho, não tenho capacidade para tanto. Mas algumas questões filosóficas básicas foram intuídas desde quando eu era menino. Claro, com a intuição infantil. Uma delas na quarta série primária, e eu só soube o nome décadas depois: o infinito quantitativo. Numa aula, a estagiária falou que poderíamos perguntar o que quiséssemos. Eu fiquei intimidado porque ela me pareceu com cara de poucos amigos, apesar de permitir as perguntas. No entanto, meu pensamento de menino partiu de onde estava, em Bom Jesus da Lapa, e foi se ampliando em círculos concêntricos cada vez maiores, Bahia, Brasil, América do Sul, planeta terra, Via Láctea, e esbarrou nessa imensidão. Minha pergunta seria se não tivesse ficado intimidado: – E depois? O que é que há depois? Porque, para o menino ali, o que vinha depois era um imenso vazio branco. Eu não conseguia ultrapassá-lo de nenhuma maneira.  

Assim, minhas leituras filosóficas foram feitas a partir de questões que me surgiram ao longo dos anos. Mas também me apoiei na historiografia. O eixo geral de minhas perguntas é comum à história da filosofia – de onde viemos, para onde vamos, quem sou eu e o que faço aqui. Nada de novo.

Pergunta frequente. Afinal, poesia lírica é ou não é traduzível? Anderson Braga Horta diz que “alguns proeminentes autores dizem que não, mas os tradutores não acreditam e traduzem sem parar (…) território nebuloso, ambíguo.” Como João Filho imagina o efeito de sua poesia no leitor pensante e falante em outros idiomas?

A tradução é uma aproximação ao que foi escrito na língua de partida. E a tradução, de qualquer área que seja, é a veia aorta que ajuda a bombear vida às culturas. Quem é que conhece todas as línguas? Logo, é vital a tradução. Terá sempre perdas e ganhos, óbvio.

Está aí uma pergunta que nunca me fiz. Sério mesmo. Pensando nisso agora, eu mais desejo do que imagino: que os meus poemas, ou um verso, possam abrir uma pequenina janela de luz no coração do leitor estrangeiro.

Subsídios ( dois dos autores citados pelo entrevistador):

https://editoradanubio.com.br/o-futuro-da-literatura-brasileira-douglas-lobo/

Douglas Lobo

Daniel Piza

   







CAMINHANDO SOBRE A LETRA: A LINGUAGEM DO SILÊNCIO

CAMINHANDO SOBRE A LETRA: A LINGUAGEM DO SILÊNCIO

G. rios

Há duas categorias de sujeito: aquele, do enunciado; este, da enunciação. O primeiro se manifesta na superfície da letra. O segundo, na esfera do não-dito. Geralmente, as pessoas somente conseguem ler a mensagem propriamente revelada. Mostram-se incapazes de perceber que há mistério, insinuando-se na palavra. Tais indivíduos tornam-se objeto de manipulação do emissor, principalmente da mídia, esperta raposa.

Exemplificando, emitiu-se há pouco tempo um texto jornalístico, mencionando bilhões de reais esquecidos no Banco Central. Afoitos, todos digitaram nome e endereço, dispostos no mesmo anúncio. Receberam, no máximo, trinta moedas do Judas. Ouvimos muitos discursar, enganados, pois acreditavam obter mais que cinquenta centavos. Ludíbrio, perspicácia ilusória sobre o inocente receptor.

Olhos eletrônicos ou de psicólogos vigiam o cliente na loja. Percebem o motivo de atração do produto sobre ele. Seria a cor, a embalagem, a localização na prateleira? Conforme o caso, na próxima visita, o objeto será diferente.

Por que brinquedos ocupam o lugar embaixo? Claro. Crianças são pequenas, quanto ao tamanho físico. Por que o material de luxo fica em cima? Ah! Porque a maior classe compradora constitui-se de B, C, D, E. Elementos da classe A jamais se importam com preços.  Daí, o valor em dinheiro está em caixa alta no sabão ou detergente da estante mediana. O Whisky caríssimo dispensa comentário. Ofende-se o cliente com alguma menção de preço.

Propaganda subliminar age sob o desejo popular. A mercadoria pode ser mais valiosa pela sensualidade que pelo significado consumista. Sabonetes, perfumes, cremes, sugerem aspecto sexual através do formato externo, gravuras sedutoras, papéis macios.

Quem adquire o objeto em questão, possivelmente se esquecerá da natureza ruim daquilo que se esconde na embalagem.  Aí permanece de guarda o aparato da opressão. O dominador sabe enganar o incauto sujeito. Grupos políticos vendem imagem falsa. Corruptos se fazem passar por construtores da Pátria. Por trás da aparência, empresas oferecem gato por lebre.

Redes de tevê, computador, celular, puxam para dentro da toca do coelho a ingênua Alice no País das Armadilhas. Parece hoje que os jovens marcham enfileirados ao comando da telinha. Presos nela, obedecem à ordem do videogame, professor de guerra e violência contra o semelhante.

Iludidos, moços e moças se comunicam à distância máxima, pois no face to face predominaterrível enfrentamento ante o inimigo-Outro.  Adulto-pai prefere conversa online, porque a família também se enfronhou no celular. Sala de visitas: vivalma presente. Pai, mãe, filho, avós, todos ligados no Programa da tevê.

Impossível notar a dissemelhança entre esta Rede e as demais, na veiculação da idêntica notícia. Tudo igual no painel da memória fraca.  A hipocrisia ideológica dos canais maquila-se num rosto feminino, na exótica indumentária masculina, na voz grave do locutor.

Disfuncionalizam-se argúcia, inteligência, sinal vermelho.  Onde o substrato do enunciado? Futuro: Elege-se antigo candidato usurpador dos direitos do velho camarada ora votando. Durante o período da chamada Ditadura, artistas camuflavam a expressão autêntica da música, utilizando esse processo.

Chico Buarque na peça Calabar, elogia a traição do personagem. Assim, debocha em forma não-dita das torturas no Golpe Militar/64. Na letra de Passaredo indigna-se, solicitando que os ‘passarinhos’ fujam do perigo. Concede, silencioso, meios para que os companheiros se afastem da prisão iminente.

Cálice, de Milton Nascimento, oculta o termo cale-se, mensagem rebelde contra a censura da época. Ou seja, Não fale.  Cale o bico em público.  Vários outros artistas, Taiguara, Vandré, Edu Lobo, reforçam- lhes a boa estratégia.     

Faz cerca de dois meses, a Emissora Z apresentou imagens da rodovia T completamente lotada. O trânsito continuava embargado nas estradas próximas. Explicavam ao microfone que a plateia de determinado candidato à Presidência impedia a passagem dos veículos. Creio ter alguém telefonado, ameaçando o repórter. Daí a meia hora, o cenário muda. O impedimento provém de lamentável acidente, envolvendo duas carretas.  

Nossa grande desenhista, escritora, personalidade, Ângela Lago, publicou um livro denominado Sim, Não, Talvez. Nele, o rapaz quebra a perna. Enfaixado, recebe visita de um vizinho. ‘Que coisa! Azar, hein?’ Ao que a mãe responde: Sim. Não. Talvez.   Acontece, após, no país, guerra medonha.  Vizinho: ‘Imobilizado, ele não foi. Sorte, hein?’ Mãe: Sim. Não. Talvez. O jovem se casa. Ela: ‘Felicidade, né?’ Mas se divorcia. Etc etc. 

Há também a fábula em que o marido, querendo testar a confiança na esposa, contou-lhe ter botado um ovo. O fato aumenta de narração em narração. Ao regressar, o infeliz encontra a postos todos os meios de comunicação, ansiosos por saber como botara tantas dúzias do alimento.

Eis o motivo exato por que devemos aprender a lição: Vimos o produto? Vamos constatar se é bom. Ouvimos a notícia? O vizinho comentou? Averiguemos se a fala continua verossímil. Sim. Não. Talvez.

Escritores acolhem a plurissemia, a plurivocidade dos vocábulos. Professores em alerta descobrem sentidos imersos na textualidade. Guimarães Rosa, ao dar título ao conto Soroco, sua mãe, sua filha, concede o nome masculino a elucubrações leiturais. Tal história da geração louca sugere ‘Sou louco, Sou oco, Sou rouco’. Rouco, em razão de o doido entoar uma algaravia musical.

Observe-se a onomástica predileta de Machado. Em Quincas Borba, Palha representa o marido cego à leviandade da mulher Sofia, sábia namoradeira. Rubião acumula dinheiro e pedras preciosas por herança do amigo. Estamos mencionando apenas uma obra. Isso l é comum em romance, conto, poesia, de Assis.         

Urge que a escola leia rápido a enunciação. Diríamos, logre entender o inconsciente da matéria literária. O aluno aprenderá os dois níveis estudados. Tudo o que nos circunda possui histórias diferentes em si.

A tampa de refrigerante no asfalto relata sua trajetória pelo mundo. De onde veio? A que cenas anteriores assistiu? Onde esteve antes: numa festa, numa creche, num botequim? Nova atividade. Cansado de trabalhar, o que dizem os móveis, a favor do recém-chegado? ‘Deite-se aqui, sou limpa, amiga, macia. Aproveite-me’. Daí pra frente.

Conduzir as crianças para além do que está exposto, oral ou grafado, é tarefa simples. Lendo publicidade, advinda de clube, loja, açougue, poderíamos analisar com elas mentiras colocadas ali. O exagero da propaganda pode ser desmistificado pela releitura de seu conteúdo.

A beleza rara de um poema pode ser multiplicada, segundo inúmeros leitores. O autor do livro conhece esta realidade: cada um projetará seu horizonte de expectativa, seu repertório vivencial na obra. Portanto, serão livros que se fecham/abrem mil vezes antes de se fechar.

Tomemos um comercial de cigarros. Jamais será mencionado o imenso prejuízo causado pelo tabaco. O apelo cairá sobre a força, o esporte, o poder: ‘Quem fuma X sabe o que quer”. Sabe nada. É um ignorante a respeito de organismo. Afogado em malha comercial, ficará doente, fraco. Morrerá de cirrose.

Esse, o não-dito pelo ricaço dono da Empresa multinacional, inconsequente assassina. O produto é feito e divulgado de acordo com a faixa etária, o sexo, a predileção do comprador. Olho vivo, ó brasileiros.

Talvez, sim, não, tenhamos fornecido bons exemplos de leitura enunciativa em ambos os graus. Retiremos, pois, o consumidor da instância paciente. Seja ele o agente do ato escolhido. Livre arbítrio.

Quem se anima a brincar com a força do enunciado, sob a ótica da enunciação? Experimente desordenar letras da palavra. Roma é amor de trás para frente. Leia da última sílaba até a primeira, o palíndromo: ‘Socorram-me. Subi no ônibus em Marrocos’. Graça: raça, garça, garra. Raul: rua, lua, luar, Rá, lar… Jogos interessantes. Quantos mais?                                                                              

O garoto, a garota, verificam-se estimulados a observar o que sucede ao redor. Nesse aspecto, a grande cidade abre o leque de possibilidades. Quem vai para o Centro? Que indivíduos participam do movimento na Praça? Por que os mendigos pedem esmolas, e os favorecidos da sorte, não? Por que as pessoas demonstram raiva na fila do ônibus? Quem poderia ser o cara naquela Ferrari?

Em casa, o adolescente percebe detalhes pequeninos de afeto. Nada? Nota que o papai trabalha, viaja e se esforça por lhe dar conforto? Mamãe sai, traz o material escolar. Quanto cuidado em selecionar preço, qualidade, espessura do caderno! O estudante viu isso? A vovó traz uma barra de chocolate. Lembrou-se do neto. Ganha um beijo, obrigado? Ele/ela ingere maravilhosa macarronada. Agradece à empregada? Dá-lhe presentinho de aniversário?

Vamos à cozinha. O fogo. A água. A flor. O gelo. Que delícia de casa! O irmãozinho é muito fogoso. A prima vive na piscina. Tia Maria se veste com fores estampadas.  Eta, parente gelado! Nem um pouco sensível.

Nosso escritor mineiro Paulo Mendes Campos quis fazer uma crônica sobre o fantástico mundo onde vivemos. Começou a pesquisar. De repente, uma formiga atravessa a página do Livro de Ciências Humanas. Pronto. Percorrera o papel o insondável mistério da vida.  O redator foi capaz de ver a Terra inteira modificada por um bichinho à toa. Depois, lemos-lhe o texto repleto de alegria. Fonte motivacional para nosso próximo encontro com os quase invisíveis insetos.

Roland Barthes legou-nos O Prazer do Texto. Sugerimos autor e obra a quem nos segue aqui. Quando descobrimos o que é terapia literária, a criatividade nos assalta. Tristeza diz adeus. A pena vale a pena, seja de caneta, de dor, de asa em voo.  Construamos o ninho para todas as penas possíveis.

Pedro partiu para Portugal para pintar paredes e portas. Quá, quá, qual! Continuemos na língua do pê. É preciso mostrar aos filhos, alunos, conhecidos, que vibramos ao desenhar figuras. Pintar o Sete. Esculpir madeira. Colar estampas. ESCREVER. Será que influenciamos o companheiro do lado de fora a ser ledor contumaz?

O professor, de vez em quando, aparece com um livro. Põe na lousa exercício complicado de quê. Enquanto a turma se descabela, o mestre abre a história, dá pinotes, chora de tanto entusiasmo. Apostamos que, ao final da aula, os petizes perguntarão onde tem esse negócio.  Ele: ‘Na Biblioteca. Foi lá que vi Alexandre e outros Heróis. Ai, ai, cansei, ufa! de tanto rir. Vão atrás, é ótimo!’                                                   

Logico, professor e alunos participam da escrita coletiva. Uma frase aqui, outra lá, a escritura ganha pernas no papel ou no quadro. Painel, todos querem? Mural? Entrevista? Fantoche? Teatro vivo? Cinema? Podemos fazer um filme de vampiros. Trago a massa de tomate e os lençóis. Em grupo? Individual?  Mãos à obra. Ajudo na construção literária. Também escrevo. Adoro, pessoal.

Atenção! Hai-kais são estruturas japonesas com três versos. Contêm ideia filosófica fácil de ser posta no caderno. Encantam meninos, jovens, adultos. Sugestão: Estudem-se a origem, o desenvolvimento, a entrada do gênero no Brasil. Descubra-se a maneira de liberar a forma do poema. Hai-Kai na Dança. Hai-Kai AKI. Etc.

Perceba-se: A escrita usa máscara. Transforma o real em seres absolutamente incríveis, verdadeiros, fictícios. Percorremos locais jamais descobertos. Então, Manuel Bandeira é as três mulheres do sabonete Araxá, o pobrezinho que sonha ganhar balão, a estatuinha nova que envelhece, cobrindo-se de pátina.

Marylin Monroe, na biografia, comenta ter perdido sua identidade, depois de filmar tantas diferentes personagens. Graciliano, na cadeia, constrói Memórias do Cárcere. Ajudam no serviço alguns encarcerados. Escondem o manuscrito, quando ouvem barulho de passos da guarda.

Sugestão: Se os estudantes revelam comportamento inadequado, o professor pedirá que interpretem a si próprios na peça teatral. Quem sou eu? Ajo dessa maneira, por quê? Devo mudar essa atitude? O que nesta Escola esperam de mim? Etc.

O resultado é deveras excelente. Dispensa figurino, palco, luz. Tal apresentação culmina na sala de aula, no auditório ou no pátio. No último, a assistência desejará imitar os colegas. Posteriormente, a turma se acalma.

Perigo: O elenco só se interessará pela aula de Português. Surgirá logo reclamação, caso o trabalho da escola abandone a interdisciplinaridade. Vejamos: Problemas matemáticos tratarão de teatro.  A Área de Artes se dedicará à feitura do material de cena. A História se incumbirá de estudar o Teatro na Grécia. Etc.

Criancinhas encenam, com extrema fantasia, contos de fadas, anedotas, fábulas. Teatro de sombra, poesia, marionete, boneco de pano confeccionado na escola; tudo serve para envolvê-las. Salientamos o uso da máscara, personagens simples, ação descomplicada.

Como professora, preocupamo-nos sempre em auxiliar na limpeza do estabelecimento. Almoçamos na cantina, convidamos membros da limpeza a cuidar juntos do recinto. Interessante: Quando chegamos ao Colégio de periferia, era comum urinar nas paredes. Reinava ali um rato ‘da comunidade’, devorando folhas da sopa matinal.

Ao reassumir o Marconi, onde lecionamos, a diretora daquele lugar ofereceu-nos o triplo da quantia recebida pela Prefeitura, contanto que voltássemos para lá. Emocionada, aludiu que os alunos pintaram o Colégio. O rato desapareceu em nuvem de fumaça. Queriam teatro.  Trazia o abaixo-assinado do corpo docente e discente em peso. Confessamos-lhe que o Vilarinho era longe demais. Necessitávamos descansar.

Concluindo. A imaginação criativa pertence a todos. Ideologia criminosa espalha por aí que poetas são ‘diferentes, superdotados, nefelibatas’. Cruel desaforo destinado ao povo. Querem mediante coerção exigir que a massa seja burra. Incapaz de compor ideias maravilhosas. Pão e circo, ensinam, é Lei. Argumentam esse despropósito para manter a rédea no lombo do cavalo humano.

Cabe aos iniciados em Belas Artes dar pincel, tinta, camartelo, lápis, caderno, partitura, semente, ao planeta. Lutemos pelo conhecimento geral da cidade, Nação, Nações. Nunca mais ranger de dentes, pobreza, mesquinharia. Fora, explorador! Dentro, sábio mentor do Bem, da Justiça, da Paz!  Existiremos eternamente, nós, que apregoamos o saber saboroso por terra, céu, mar. Assim seja.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

Especial “Semana de Arte Moderna VI”

Especial “Semana de Arte Moderna VI” | por Graça Rios

As mulheres (pintura, tapeçaria e poesia privativa) | Monteiro Lobato novamente contra a arte moderna | Ausência afro e ausência da poesia feminina | Silêncios e estrondos de uma pré-modernista |Apadrinhamento de Luiz Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias) | Origens mestiças de Chiquinha Gonzaga | Lundu, umbigada | Casamento arranjado |Enfrentamento, desobediência, liberação e liberdade por meio da música | Separações conjugais | Condenações morais | Desarraigamento das atividades domésticas |  Profissionalização na música e amizade com Joaquim Calado | Defesa dos direitos autorais e remuneração dos artistas |Aproveitamento econômico e justiça distributiva na atividade artística | O sarau…

Chiquinha Gonzaga

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

Trilhas: Valsa “Plangente” gravação de 1912 pelo Grupo Chiquinha Gonzaga; Choro “Atraente”, de Chiquinha Gonzaga, gravação com Pixinguinha no saxofone e Benedito Lacerda na flauta; “Lua Branca” (1912), gravado por G. Rios; “Te amo”, gravação de 1908 pelo Grupo Chiquinha Gonzaga; “Ô abre alas” (1899) executada por G. Rios & Maxixe “Corta jaca (Gaúcho)”, gravação de 1908 pelo Grupo Chiquinha Gonzaga.
Nair de Teffé

Inesquecível marcha carnavalesca | João Batista | Primeira-Dama moderninha Nair de Teffé | Execução de Corta Jaca ao Violão entra para história da política | Soirée | Música popular brasileira na sede do governo, no Palácio do Catete Contra o preconceito e atraso social | Alforria de José Flauta, Catulo da Paixão Cearense (Poeta-músico e teatrólogo), Nair intrigada e Emílio Pereira | A culpa era da dança | Influências da Belle Époque e cartunistas europeus…

Agradecimento especial a Denise Werneck.

João da Cruz e Sousa

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Leitura: Marcelo Lima

Tasso da Silveira em 1972 – ao organizar e criticar poemas do autor na coleção Nossos Clássicos da Agir Editora – elegeu o presente poema como “talvez o mais belo do idioma”.

 

SORRISO INTERIOR

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

 

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

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A fala e a cala constituem o diálogo – ou o monólogo –,  a prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaios para o clamor e louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

 
Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

contato: lopeslarocha@gmail.com

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Poemas e Canções

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ÍNDICE

Prefácio, 03

Sobre o autor, 04

Dedicatórias 1ª edição, 05

Notas do autor e agradecimentos 1ª edição, 06

Poemas

Herança & Arteiros, 07

Santa Luzia de todo o mundo, 08

Da região metropolitana, 08

Resposta, 09

Homemgasto, 10

“Psicológico”, 10

Canção para crise, 11

Etária com ombro, 11

Violoncelo, 12

Sem título e Ficar, 13

2º plano, 14

Meus poemas e canção poesia, 15

Metalinguística, 16

Canções

Nos sinais e Temorte (na sua área), 18

Zumzumzum zimzimzim e Ô Bach, 19

Não há um violão e Avião de Luxo, 20

Do apá virado e Fili, 21

Culpa e Narua, 22

Cata-vento, 23

Neanderthal, 24

 Notas, 25

Créditos 1º edição

Informações 2ª Edição, canais e contato, 25

 

Prefácio

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

Em brochura grampeada, com sobras de papel da gráfica, de corte torto, capa feia e improvisada, saiu uma edição tôsca e pobre, não só pelo fato de ser independente e autofinanciada, mas também por incompetência de todos nós, autor-editor, diagramador, gráfica impressora etc.

A intenção era demonstrar a importância com que sempre tratei a Literatura e expor um estilo individual eclético, no intuito de agradar o maior número possível de leitores e ouvintes. Os poemas foram divididos em quatro partes: a) memória pessoal; b) temas políticos e socioeconômicos; c) experiências com namoros e d) metalinguística. Quanto às canções, selecionei as que eu julgava serem as melhores na época.

Quis modéstia no título e pus “Poemas e Canções”, pois admitia minha imaturidade pessoal e artística. Agora nessa segunda distribuição há um novo intuito: retomar esse marco de minha trajetória.

Obra de jovem estreante, percebe-se marcante cadência típica do letrista, rimas imperfeitas, versos livres a procura de certa harmonia assimétrica; um tom de fala ao mesmo tempo memorialístico e confessional. Artes e pecados da infância, paixões juvenis com influência de Adelino Moreira, o espaço semi-urbano, os sonhos e as aflições próprias dos que trabalham em reflexão e contemplação em meio as urgências da vida, das tragédias humanas e sociais. Veremos esses últimos cenários, por exemplo, em “psicológico” (página 10), “temorte (na sua área) ” e “Nos sinais” (página 18).

Nas duas últimas canções (Cata-vento e Neandertlhal) teremos canto à liberdade e um lamentoso apelo.  É que antes de nos apresentarmos como escritores, antes mesmo de declararmos a primeira estrofe, àquela época já percebíamos o desprezo e a indiferença para com os novatos. No geral, quando se falava em arte, só se pensava em reconhecimento, exposição, fama, carreira profissional e vida pública luxuosa. Esquecia-se dos artistas como exemplos à sociedade, como cidadãos influentes na ética e moral de um povo. Hoje, porém, sabemos que a fria educação pela pedra de um João Cabral de Mello Neto norteou o senso de um Ministro da Fazenda Antônio Palocci; e que aquele Glauber Rocha animou o coração e a mente dum poeta e Presidente da República José Sarney. Um simples estribilho pode, na sua devida proporção, influir na história de várias gerações.

Hoje o desprezo, a indiferença e o ato de recusar contribuições literárias e artísticas em geral são efeitos de várias causas, e dentre elas podemos citar o declínio do ensino e aprendizado, o desamor pelo idioma, a imposição do entretenimento e do lazer prazeroso, a anulação da atividade crítica e a intensificação das degradantes guerrilhas culturais e espirituais. Vejo as forças criativas perderem sua fecundidade e segregarem-se em ilhas tribais fervidas por conspirações, estratégias, táticas, agendas e atitudes que, às vezes, culminam em histerias coletivistas ou até em campanhas de reivindicações hostis e ódio. Essas vias obscuras em muito nos entristecem.

Os critérios norteadores do fazer literário deixaram de ser a beleza, o amadurecimento da escrita, a riqueza de conteúdo, a força das expressões, a hombridade ética e estética do autor. Vieses ideológicos, de crenças ou descrenças são fatores determinantes para fazer repercutir ou não a voz dum pobre sujeito. Serão forças suficientes para calar algum filho de Deus capaz apenas de honrar seus próprios ombros? Só Ele pode nos responder, e a resposta virá certamente no Tempo Dele.

A presente reedição, com prefácio e informações complementares confirma minha escolha desde o início: o caminho da arte livre, consciente, independente, sóbria, responsável, baseada na razão, no sentimento e na compaixão. Esse pequeno percurso me impulsiona e me alimenta na missão de alcançar o máximo de pessoas dispostas a apreciarem Língua Portuguesa do Brasil, Literatura Brasileira, poesia inspirada e letra de música.

Belo Horizonte, 07 de julho de 2017.

Sobre o autor

Filho de José Maria Rocha, bombeiro hidráulico e Dulce Francisca Lopes Cançado, do lar, nasci em 07 de julho de 1977 em Belo Horizonte. Meus pais, nessa época, moravam no bairro de Santa Efigênia. Em dezembro de 1981, movidos pelo sonho da casa própria, mudamos para o Conjunto Habitacional de Interesse Social (Cohab-MG), mais conhecido como Conj. Cristina, próximo ao bairro São Benedito, na cidade de Santa Luzia.

Estudei o primário na E.E Jacinta Enéas Orzil, onde iniciei meus primeiros escritos, estimulado pelas aulas de comunicação e por canções que ouvia na voz de minha mãe. As demais séries do primeiro e segundo graus cursei na E. E Raul Teixeira da Costa Sobrinho já compondo uma variedade de letras, poemas e demonstrando notório interesse por nossa Literatura Brasileira. Dentre as funções que exerci estão: vendedor ambulante, balconista, empacotador de compras em supermercado, repositor, office-boy, auxiliar de escritório e leiturista em relógios medidores de energia elétrica.

A partir de 2002 trabalhei como balconista novamente, auxiliar de tesouraria, carteiro, professor de violão, músico de bar, auxiliar de serviços gerais. Colaborei voluntariamente em duas associações culturais luzienses. Idealizei e concretizei dois periódicos literários: Cabeça de Papel (2002) e Pingo de Ouvido (2015). Em 2006 integrei o curso de crisma do método da Catequese Narrativa, na comunidade Santo Inácio entre os cristinenses; crismei, batizei e, sendo já cristão, firmei publicamente minha Fé Católica. Estudei um período de administração em 2007. Dediquei-me em dois cursos técnicos e vários outros profissionalizantes no período de 2009 a 2014. Apresentei-me em alguns festivais de música, mostras e recitais. Publiquei dois álbuns musicais nas plataformas Onerpm e Youtube. Até meados da década de 2000 almejava profissionalizar-me inteiramente nas atividades artísticas, até que em 2005 decidi por me tornar, antes de qualquer desejo profissionalizante, um artista de testemunho e obra. Trabalho, atualmente, como assistente administrativo e estudo várias disciplinas de forma autônoma. Conquistei amores e desafetos, como é natural com todo ser humano. Ganhei um filho amoroso. Nos últimos anos venho me reaproximando das origens familiares, curtindo tias-avós, tios, primos, primas, padrinho, madrinha. Ouvindo deliciosas histórias como nunca. Ganhei também duas afilhadas, quatro cachorrinhas lindas e a família só lá vai crescendo…

Hoje, sob as mais variadas influências, tanto da arte como das diversas convivências… “ao contrário dos que escrevem e rasgam, mando meu timbre não por vaidade; é para desafiar esse instrumento de infinitas faces, comprometedor e bambo que é a palavra. Contudo, lembro que não deixo apenas palavras, lanço também a minha unidade e um pedacinho do meu universo. Quando me ponho a liberar o que me borbulha aqui dentro, a letra e o som são os códigos de que disponho… um violão de estudo e u’a máquina de escrever, isso é tudo, tudo que eu tenho. Dependendo do estado em que me encontro, eles se entrelaçam ou pouco se aproximam. Cabe a mim então a paciência… esperar para ver ‘quem’ é que vai ficar só e ‘quem’ é que vai ficar junto. Isto é, a Inspiração Divina é quem determina se o texto permanece poema lírico ou se converte em letra musical, canção”.

Eis, junto dos poemas, algumas composições do período de 1997 a 2001, quando passei a compor com maior frequência e a realizar estudos autônomos em música.

Santa Luzia, 09 a 15 de maio de 2001.

Com informações complementares em 07 de julho de 2017.

a toda minha família

e amigos

a vin car lag, “cum panis

inseparável nessa

trilha

a Sebastião Villas Boas

por todo apoio

e pelas primeiras afinações

(em memória)

[2001].

 

“… numa transa com os nervos, a música instigando o ser e dando-lhe a insistência para falar de si, de seu meio, de seus atos.

Mais pela vontade de desengavetar, registrar e fazer repercutir. Já que todos nós sabemos de nossas dificuldades – e não somente no plano artístico –, deixo aqui aos leitores e ouvintes uma enorme consideração. ”

Parte_1

Agradeço a:

Deus, Mamãe, Alexandre (irmão), todos os meus professores, todas as pessoas que trabalharam comigo, meus amigos, colegas músicos e artistas, apoiadores e apreciadores. Flávio Aguiari (em especial) e a uma pessoa que, sem ela, esse trabalho não se concretizaria: Raquel Rezende.

[2001].

POEMAS

Como quem herda não furta

herdei de meus pais

coração e alma

De minhas mães

valentia e vigor

e isto me basta

me farta.

[1994], herança

Arteiros

Posso ovi de longe

ela cantando meu nome

Mamãe t’chamando

arruma essa franja

os canto da boca

tá sujo de manga

óia lá

não vai falá da chácara

nem do tiro de chumbim.

Dentre minhas espadas

não, não tive espadas

tampouco revólveres

E fui ladrão

de um brinco

e um litro de leite

Não possuía spray

mas fui vândalo

em minha escola

Dividi uma bola

um lance

sonhei como todos

hoje sou poeta e estudante.

[1999].

Santa Luzia de todo o mundo

Beco do Brasil,

da África.

Rua Japão, Israel,

Rússia.

Avenida States,

Das Indústrias.

Estrada velha asfaltada

Barrenta cheirando à cachaça

Trem trilho

mel milho

estribo, extravagante

esterco

Trem trilho

mel milho

casas casarões

barracos.

[2000].

Da região metropolitana

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea

conheço enxada mas nunca usei

e não me lembro de ter decepado capim

Tenho uma máquina sim

Gosto de cavalos, porém

tenho medo de montar

de gado nada sei mas,

quando trêbado

puxo os rabo das vaca

E a boca da calça

anda borrada de batom vermelho

das poças de água

Coitada da gravata

que para meu pescoço não foi párea.

Resposta

Ninguém saberá

sobre os quilômetros que ando

do peso que carrego

dos quilos que perco

Os números?

Sei apenas lê-los

Perdão se gesto

palavra

espaço

tempo

ação

não meço

Deixo de lado

até mesmo o sucesso

mas o espírito-paixão

não desprezo.

Parte_2

Homemgasto

Como seria o sentido da vida

para aquele homem que me oferece café?

aquele homem que mata minha sede com sua água

Agachado ali na rampa da entrada

misturando gíria com dialetos da roça

Qual é, para ele, o sentido da música

que vara o portão e cadencia meus passos?

O que pensa ele, ao olhar-me com os olhos

de minha gente, sobre o trabalho que faço?

Posso é somente imaginar

o que o trabalho fez com a vida

desse Homemgasto

“Psicológico”

O frio é psicológico

assim como é da psicologia

a alergia de lã

e a dor que a medicina

estampa no seu nome

A fome e a seca

são psicológicos quanto o medo

É psicológico o atrito

entre o religioso e o cientista

o refúgio de Kosovo[1]

a corrida armamentista

a ignorância do povo

os alunos assassinos

e todos os versos acima.

Canção para crise

As bolsas cheias de nenê e xistose

A miséria e a corda no pescoço do pai

Quem promete a melhora

tem moeda no bolso

E nós? Misericórdia Senhor!

Misericórdia de nós!

Batendo na bunda de quem passa

Quem passa leva um tapa no bolso detrás

É pobre, é pobre também!

Vá roubar, vagabundo, de quem tem

O bolso cheio de poesia em pó

A viola atira som que não mata ninguém

Boca manda palavras que não saram

Sarin: paralisia da massa.

Etária com ombro

Olha lá a ciência presumindo as batidas

durante a vida, uma vida qualquer.

Pegada a cambalear, fungar entrecortado

Soando em seu terreno, longe da teconoavançada

Tem sangue vermelho, corpo sem orifícios de borracha,

sem canudos – enfermo. Tem sete vidas.

Nasce e renasce das cinzas mais rápido do que humano

do que o tempo ou qualquer ação física,

Mistura-se com a terra

Fica pardo, forte, rico

Encorpado de raças

civilizações e ritos.

Prossegue…

Socorre-se de água, comida,

descanso e abrigo

Combate: famintos tigres

Suporta: carregadas nuvens

Degusta: delicadamente

Súbitos lagos límpidos.[2]

Parte_3

Violoncelo

Som de berrante rouco

Urro de boi quase morto

Quando o tocador acelera

arrepio

Belo brio!

Revanche!

Cai a velocidade

volto a amar a derrota

Corto a noite em versos

Morro!

Pela manhã é violão

à tarde,

violoncelo.

 

Sem título

o poema que plantei

em seu nome

ela não me devolve mesmo

muito eu gostaria

de extrair da mente

uma estrofe

…mas a memória salva-me um verso:

“amar em pé de igualdade.”

[março de 2001].

Ficar

Devo a você

letras de ouro,

devido ao poder

que arrumei nos dedos

ao tocar seus cachos dourados.

Contudo, ofereço-lhe

estas perplexas aqui,

pois bobelado fiquei

da surpresa de lhe conhecer

assim… tão pouco e de súbito

Meus olhos apuram

estas linhas

torcendo por um

daqueles nossos

encontros fortuitos.

Segundo Plano

Sonhei os mil elogios

que saem dos seus olhos

e com o brilho

que parte de seu sorriso.

Seus lindos pés maternos

ao suportarem dois corpos,

de longe me fascinam

De perto?

eliminam todo o nosso primeiro plano.

Ai! Vontade de usar de cafajeste

em vez de força-bruta-coração!

Então surgem retas, círculos

quase que em forma de coraçõezinhos.

Rolam gestos, palavras surpresas,

possíveis trocas de objetos

e mais reciprocidades

… e aí eu paro por aqui,

Pois já não mais consigo

expressar-me através de

tais códigos.

Parte_4

Meus poemas

Simples poemas

Tortos e destinados

ao matadouro

Que nasçam meus poemas

Que nasçam

Esse é o único voto

de um orgulhoso pai

semi-analfabeto.

[novembro de 1999].

Canção-poesia

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação da língua,

a insônia estão aqui na minha poesia

Será lida como anúncio de jornal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

um verso

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

O gosto da lágrima nasal,

o sal, a articulação dos sons,

a insônia estão aqui na minha canção

Será ouvida como barulho infernal

Única, sincera e fiel

faz soar falsos “que legal!”

A noite, o dia, a madrugada

num mês nasce pelo menos

uma melodia

Sorte é que tenho cabeça,

escola, tinta, estante,

papel-pautado-moeda suporte.

ESTUDO DACTILOGRAFÔNICO[3]

vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô  vê sô   verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  verso  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  pois é pois é  poisé  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia  poesia po

Babacanetababa

Babapelomenos

Babacanetababa

SoutristepremiadoDesgraçadofeliz

                                             Poetizo

[4]

Pentagrama

Sobre poesia

aprendi com um amigo-vizinho

conversar fiado sozinho…

Canções

CANÇÕES

Nos sinais

Deus branco nu olhando por uma criança negra

e uma branca fugindo de um demônio vestido de capa preta

Tv a teleguiar os olhos negros de uma índia

e uma daquelas amarelas trocando um chip

Uma ele, uma ela

de barriga cheia esperando mais crianças

sem barriga, sem pança

das que cansam de esperar a hora

das que jogam pedra, fumam pedra, jogam bola, dão bola

cheiram à fralda, cheiram coca, cola

das que correm, dormem, morrem, pedem, roubam

pé-de-cana, mão-de-caneca, pé-de-erva

das que não pedem para nascer

Maria que não queria família com filhos filhas

ouvindo: quem não crer, não quer criar, que não dê cria

Eu vi nos sinais sem tempos verbais

Quem é que vai relar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Quem é que vai acionar cabeça coração e coragem?

cabeça coração e coragem.

Temorte (na sua área)

Mataram um cara na sua área, meu irmão

E eu nem sei bem se vi ou se ouvi falar

Só sei que a cena tá aqui no meu inculcar

O revólver cuspindo, a bala entrando

O corpo caindo, meu xará

O ferro cuspindo, a azeitona entrando

O presunto caindo, meu xará

E antes da polícia, a família da vítima a chegar

O chôro da mãe, a careta do pai

Desespero da irmã do rapaz

E isso num dia cinzento

Chapiscado com chuvisco

E o povo a comprar pro Natal

Não é época de se indignar

Além do mais, também, aliás

Isso tudo é “normal”.

 

Zumzumzum Zimzimzim[5]

Toda noite pousa um mosquitinho aqui

Em cima da minha folha e dança

Sobre a pauta, breca na pausa

Valsa em volta de mim

Zumzumzum zimzimzim

Zumzumzum zimzimzim

Ouve-me até o fim

Como quem pensa

Entende o meu lance

Compreende a maior

A menor frequência

De todos os ângulos:

Tarraxa de baixo

De cima do braço

Voando, montado

A cavalete

Oh! Deus, vigie essa criatura minúscula

Dá a todas as vidas o imenso prazer da música.

 

Ô Bach

Ô Bach! Eu vou roubar tuas notas

Quando baixares em mim

Mozart! O teu olhar agora é meu

Os dois acordes que eu tenho aqui

São repetidos e sempre se repetirão

Porque a música, Bach

Porque a música, Mozart

É uma mentira!

Ô Bach!

Pede a Deus que me ouça!

E mande um raio na caixa de som

Mozart!

Manda um anjo cortar minas mãos!

Porque o músico, Bach

Porque o músico, Mozart

É uma mentira!

Me tira, me tira, me tira daqui!

Todas as notas são repetidas, todos os textos…

Todas as frases e melodias, todos os caprichos…

Todos os ritmos e arranjos, todos os trechos…

 

 

Não há um violão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher

Amei e quando desamei

Corri pr’esse braço só

Compensação: uma voz polifônica

E muito mais polida que meu coração

Confesso sim

Não converso sozinho não

Mas não há… volto ao refrão

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher que saiba amar

Não, não há um violão, não há

Que substitua u’a mulher.

Avião de luxo

Aquele avião de guerra que voava

Sobre a Rua Ituverava, procurava

U’a mulher que era faxineira dum

Supermercado bacana

Uma fita adesiva serviu-lhe de cinturão

Para sair carregada de batom, shampoo

Creme rinse e creme para as mãos

Na meia soquete balas e chicletes

Para um irmão mais novo

Em casa ela só tem arroz e feijão

Óleo e macarrão, manteiga e pão murcho

Ainda há quem diga que o que ela queria era luxo

Pois aquele avião de luxo que voava

Sobre a Rua Ituverava…

Ele vai achá-la lá na Praça Sete

Ela vai picá-lo lo todo no canivete.

 

Do apá virado

Me disseram que você já passara do ponto

Eu fui com o trigo e você voltou com o pão

Eu fingi amigo e ganhei um beijo na escuridão

Já ouvi falar, já ouvi falar

Da sua fama na Rua João de Sá

Já ouvi falar da sua fama

Na Avenida Joaquim

Agora diga:

Se realmente tem algum amor por mim

Se realmente tem algum amor por mim.

Fili

Dispare o tiro, toque o sino

Com licença tio, com licença tia

Mamãe postiça me chama

Dispersando canja no ar

Ar livre, ar leve, me livre, me leve

Me faça pole position

Lá fora se a fila não dobra a esquina

É por sorteio

Deputado reivindica

Saúde internada, ensino em tenda

Clientes da reforma no PROCON

Agricultor descadastrado

Clim’eaça a safra e as nuvens que pas’são

De famintos gafanhotos

Eu digo põe, põe, pois…

fili mãe tem cartão credi-canja master-sopa[6]

na mão

Até mãe, tenho de ir embora

Amanhã é dia de Vietnã

Já deu a minha hora, a do meu país eu não sei

A mãe terra gera seus filhos e é morta

Filhos sem mãe, órfãos de guerra.

 

Culpa

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Injeção de tais palavras

Fonadas no ouvido

Algemou-me, debruçou-me na mesa

Como explicar pro lápis

Preso em margens, perdido em linhas

Desapontado, pálido e incolor

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Quando fecha, incha e seca

Quando abre, rega e aflora

Se se zanga, embica

Bum! Que bomba

Trá! Que estrago

Ai! Que dor

Como dizer dos meus ditos

Pros escritos que escrevi pra ti?

Narua

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, arrota trovão!

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso namorar

Na rua eu posso beijar

Porque a rua, a rua não é sua!

É o puro caminho de quem quer se expressar

Um mar de quarteirões onde navegam guardas e vilões

E seu filho beco, bequim; e seu filho corgo, corguim

Conhece? Não, não recebem sermões

A rua, minha senhora, não é moça

Moça não, é dona!

A rua, meu senhor, é rapaz que não precisa de zona

Na rua eu posso cantar

Na rua eu posso dançar

Na rua eu posso reclamar

Na rua eu posso esbravejar

Porque a rua, a rua não é sua!

A rua, a ruinha, a ruaça

A rua, a ruinha, arruaça

Tamba tambor, vira violão

Cava cavaco, cospe vulcão!

Cata-vento[7]

É que sou pipa, mutuca

Em mãos desconhecidas

Taquara de meio, vareta de enverga

Sou pipa, papagaio

Empinado com linha de aço

Cerol nenhum me corta

Ou rasga minha barbela

Quero me mandar daqui

Ficar perto do sol

Sei que corro o risco

De acabar ao chão, ao chão

Soltar da manivela

Remexer rabiola

Voar e voar

Me embolar nos ventos.

 

 

Neanderthal

Eu quero uma chance, ninguém me dá

Eu quero cantar, dizem que não sei

Cabelo dispara a crescer: animal!

As unhas, perguntam: pra quê?

E o tamanho dos olhos? E da boca?

Lobo mau! Lobo mau!

Meu objeto é mexer

Com sua alma um pouco

Essa é a idéia de cor

Não arrancar seu suor

Nem lhe jogar no forno

Eu quero tocar corações

Me chamam de homem do mau

E meu instrumento de pau

Neanderthal! Neanderthal!

Chega mais

Não pego, não mordo

Sou racional

Carne, osso

Açúcar, fel

Limão e sal

Pode vir

Não tenha medo

Não me faça mito

Sou desse mundo

Tá legal? Tá legal?

Notas

[1] Página 10. Referência ao conflito étnico-cultural entre albaneses e sérvios na região de Kosovo.

[2] Página 12. Estrofe utilizada posteriormente na canção “à espreita da aurora”, disponível em youtube.com/user/Lopesdelarocha.

[3] Página 16. Jogo fônico-formal. Só depois descobri que o Décio Pignatari tem algo parecido composto em 1977. É de fato influência dos concretistas por meio de livros didáticos de Língua e Literatura da década de 1990. Poema composto durante exercícios do curso de datilografia.

[4] Página 16. Grupo fônico da frase no pentagrama. Clave substituída pelo emblema do movimento anarquista. Frase expletiva exprimindo afirmação dúbia.

[5] Página 19. Esta canção inspirou uma outra intitulada “Tatame”, que integra o álbum “à espreita da aurora” de 2014.

[6] Página 21. “Credi-canja Master-Sopa” é expressão criada por Eder Jack de Andrade Silva na fila para servir a merenda da E.E Raul Teixeira da Costa Sobrinho, também em meados dos anos 90.

[7] Página 23. Letra da canção Cata-vento foi musicada e cantada por Flávio Aguiari na primeira edição em 2001.

Créditos

(Poemas e canções)

172.199.289-345 FBN

4124-105-030 E.M.D.A

C.I Nº 408 FBN

Capa e ilustrações 1º edição: Lopes C. de la rocha

Ilustração nº 03: Raquel Rezende

Voz e violão: Lopes C. de la rocha

Voz em ‘Cata-vento’ (Part. Especial): Flávio Aguiari

Gravado do Studio Plug-In em 09 e 15 de maio de 2001

CD reproduzido por Studio R&T

Impressão 1º edição em 2001

Edição independente e autofinanciada

2º Edição em pdf: Pingo de Ouvido. 07/07/17

Santa Luzia & Belo Horizonte, Brasil.

Canais do autor:

www.pingodeouvido.com.br

www.youtube.com/user/Lopesdelarocha

Contato:

lopeslarocha@gmail.com

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

 

Lançamento nos mares da rede…

Lançamento nos mares da rede

poemas e canções,

lopes al’cançado rocha, o cristiano

[2001]/(2017)

Quando chegamos ao ano de 2000, eu colecionava poemas curtos motivados pelas aulas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, bem como pela leitura de nossos poetas modernistas. Apanhei um acerto de contas dum emprego e resolvi publicar parte dos escritos no ano seguinte. Em termos de suporte (formato) escolhi o livro com cd, pois aproveitei para distribuir doze faixas de canções gravadas com voz e violão. Era novidade oferecer ao público conteúdos em livro e compact disc audio.

NECESSIDADE DE ESTUDAR OS ANTIGOS ESCRITORES


Castilho

Necessidade de estudar os antigos escritores

Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875)

            Mancebos (se os há aí que se dêem às letras), vós que encetais a mui árdua e perigosa vereda que pelas letras conduz à fama, seja qual fôr o gênero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejam mais forem os louvores que os velhos na arte vos concedam, e os aplausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de aparecer: os conselhos que Horácio vos deu duram com toda a força que a natureza e a prática lhe bafejaram. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove anos, chamar e tornar a chamar dez vezes à unha a obra já perfeita. O amor próprio nos persuade e impele a aparecermos cedo: devia dêle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas.

Trecho retirado do Livro “Conheça o seu idioma 6º volume” CIL S.A (1971), de Osmar Barbosa.

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

 

Rudimentos ferrorama – poema

Rudimentos ferrorama

lopes al’ cançado rocha, o Cristiano

§

certeira     no  comportamento

máquina                            essa

no     tom  tamanho   e     traço

correta em organização de fila

§

coisa      gigantesca           essa

suga vomita dança     equilibra

trazendo bonecos adolescentes

em sua    empoeirada       crista

§

ente          absoluta           essa

centopéia da vila      de pedras

por entre morros ziguezagueia

e        vem    repetindo  preces

§

essa     conjunto   de     gomos

a vagar em     escada   deitada

longa   escada de       estações

e patas doces calçadas  a tênis

§

piolho de   cobra    sem      pés

a carregar gravatas e capacetes

paralela ao rio que ainda desce

com peixes banhados de caliça

§

potente    mortífera  e metálica

o rio surpreendentemente vivo

escorregando     desgovernado

selestrepe        e           desaba

§

solitária                    engomada

sob      o     arco    de        fogo

fraco      leão    de            circo

domado       pelo         pescoço

§

lingüiça        amarra-cachorro

prontíssima     para         partir

sempre     prestes    a    chegar

leva      pessoas    e       cargas

§

que sujam  almas e   dinheiro

jactante   tal  qual     esperma

a     centopéia     sem   pernas

ou então de    rodas   cobertas

§

máquina   de    bocas destras

lábios  frondosos  de choque

andamento    de   um andante

timbres    típicos     do   rock

§

passam-na     para  a     música

na foto     sua luz     é     rouca

estática        nesta          última

dinâmica       naquel’      outra

§

tão exposta e   sem      arranhão

corpo absoluto   e     perfurador

lábios prontos    para o    baque

conforme  delega  seu   interior

§

enfia-se   por     vários     túneis

os     quais      a        regurgitam

rasga  o    horizonte   pela   raiz

esse   enorme  colar  de   tonéis

§

vem  vindo   cuspindo   em tudo

“nem  que  taque nem   que taque”

Diz  essa tal   máquina     essa

ao infante com pedras em punho

  §

serpente  há    tempos   aleijada

nem asas nem proa nem hélices

engolidora    de diversas gentes

tolôsco quilométrico  de   fezes

§

encurva      enverga       taquara

de barriga para cima espelhada

num leito de pedras e cascalhos

navega       tranqüila   e deitada

§

orquestra     de ranger de rodas

repete      tempo    e    percurso

o das onze e     o das sete horas

os mais conhecidos    números

§

máquina   decisiva   e    dúbia

caminho   em      formato de y

trechos em obras e concluídos

previsível    em    cada   curva

§

segundo normas    do império

suporta    toneladas   por eixo

otimizada         na         tração

na    performance   e potência

§

saudades    de   seu   chocalho

o    apito     aviso           antigo

sempre      foi      bem    vindo

o    quinhão   dos assalariados

§

plantadora     de         cidades

rastejando     quem        diria?

trouxe                  pagamentos

pensões     e     aposentadorias

§

todos     que    a     esperaram

relembraram      a   revelação

“era   aquilo              mesmo?

era       mesmo          aquilo?”

§

sua   porção   então acidentada

aos   cuidados   do    tecnólogo

e aos         olhos aqui do poeta

está   sua   parte      imaginária

§

máquina   geralmente  grávida

de  grãos   bobinas   e    barras

em   gestação   meio    inversa

com    bolsas   e berços de aço

§

reduzida   em   custos desgastes

diária     preventiva   e   rodante

suplementada   de componentes

baba demanda e disponibilidade

§

fizeram-na    uma    estrela pop

ei-la   numa    foto   estampada

duma    revista    especializada

revestida   nua  ou  desmontada

§

rotulada      datada   e    batizada

com nomes de mulheres rodadas

e   pioneiras   agora   respeitadas

carmens mirandas  embananadas

§

vassoura  sem   cabo   e  vertical

sulcando   a   poeira   do   sertão

fazendo-me  construir    estrofes

como se cada fosse um vagão

§

as sandálias vistas   do    alto

parece     um   enorme   verso

repetitivo    visual    e    bobo

com única palavra: progresso.

fotografia: fábio almeida [2012].

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Comunhão – Poema

 Comunhão

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

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Eu era o câncer

Tu eras a virgem que me cura, depois me devora

Eu era a guerra

Tu eras a paz que me provoca

Era eu a contemplação

Tu eras o duro, o denso, a nota

Eu era o sonho

Tu eras o beliscão que me acorda

Eu era o vozear

Tu eras a guilhotina que me degola

Tu eras já a Justiça Distributiva

Eu era ainda a esmola

Eu era a magreza

Tu eras o feijão que me engorda

Eu era o vício

Tu eras a virtude que me vigora

Era eu, pungido, o tambor

Eras tu, tangida, a corda

Medo era eu

Tu eras a escolta

Tu eras o berço

Eu era a cova

Eras tu a alvura

Era eu a nódoa

Tu o acordo

Eu a discórdia

Tu eras a faca que ao meio corta tudo

Eu era a meia que nada corta

Eu o som descompassado

Tu a delicada pausa

Tu eras o carinho

Eu era a espora

Tu a raposa campeã

Eu o galo à espreita da aurora

Eu era ainda o tema

Tu já eras a estória

Eu era a vaga lembrança

Tu eras a sã memória

Tu o prosaico e milionário cinema

Eu a pobre poesia morta

Eu a dor do parto

Tu o alívio da morte

Tu eras a esperança pousada

Eu o cinza que sobe

Tu eras a abundância do sul

Eu a escassez do norte

Tu a corrente

Eu o que pesa, o pingente.

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Mulheres Únicas – Poesia

Mulheres Únicas

lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

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Numa só mulher estão todas as outras
Numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
Ainda que escondidos
Têm beleza sertaneja, meiguice morena
Clara maciez, negritude amorosa
Assentam-se na escadaria da Igreja
Debruçam-se nas janelas
Enamoram-se nos bares
Passeiam pelos clubes
Encontram-se nas cavalgadas
Desfilam-se nos shoppings
Amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
Percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
Nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
Nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
Um dia, sua mulher esteve numa canção
Numa história não sua, numa infância platônica
Todas as mulheres estarão num só romance
Queimam numa só paixão, numa só saudade
Gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

Ensinar-nos o que é ser mulher,

Despertando-nos adolescentes paixões

Elas são únicas em si e sempre as mesmas

Dividem-se quando só

Multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
Mulatas de alisados loiros
Ruivas com tingidos castanhos
Cafuzas de trançados negros
Estéreis e felizes; férteis e entristecidas
Sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
Mulheres policiais, guardas e sargentos
Mulheres soldados rígidos
E delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

Um mesmo desespero quando em desamparo

Sem um irmão, sem um filho, sem um pai

Sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
A velha virgem num leito de morte
Sonhando-se no altar à espera do noivo
Cortam nas maçãs de seu rosto
Duas lágrimas e explodem na cama
Como se arrebentam no mundo
Estrelas desprendidas do Céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
Pechinchando e fazendo compras
Com seus corpos __ velas de cêra
Cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e Religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
Na estação do trem e do Brt
São despejadas aos milhares:
Brotos e botões
Expansivas e acanhadas
Murchas e desabrochadas
Verdes e “de vez”
Maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

De rancor e arrependimento

Confundiu um caso passageiro

C’o homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
De corações aos vômitos
Pelo ópio das ideologias
Invertem Romeus em Rômulos*
E sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

Com diferentes almas

Corpos e espíritos;

Com parecidas origens

E semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
Por uma única mulher,
Já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única
Não vale à pena trocá-la por Outra
E nem às outras é justo enganá-las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

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A alma du’a mulher na beira do rio

A alma du’a mulher na beira do rio

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História contada por habitantes da cidade de Leandro Ferreira/MG, numa região próxima à fazenda conhecida como “Fazenda do Souza”, isso por volta de 1955. Voz da gravação: Dulce Francisca Lopes Cançado Lobato.

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Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

Da remuneração dos artistas, trabalhadores e profissionais autônomos na área da cultura artística

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Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

honorários

Pl. subst. de honorário.]

Substantivo masculino plural

1.Remuneração àqueles que exercem uma profissão liberal;

2.P. ext. Vencimentos, salário, remuneração. ~ V. honorário.

cachê

[Do fr. cachet.]

Substantivo masculino

1.Ordenado de qualquer integrante de companhia teatral, cinematográfica, de televisão, etc.:

2.Pagamento feito a qualquer pessoa que se apresente em espetáculo público ou que participe de anúncio. [Cf. cache e cachés.]

Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. Edição eletrônica autorizada à POSITIVO INFORMÁTICA LTDA.©2004 by Regis Ltda.

Agora que se tornaram mais nítidas as dissidências, divergências e dissensões no campo da cultura, dos valores e dos ideários; agora que conservadores, liberais ( sociais-democratas, Estatistas de Bem-estar Social, Estatistas Plurinacionais Multiétnicos etc & tais), dos mais diversos graus… que se organizam e agem nas sociedades civis,  nas utilitárias, nas mistas, nestas sociedades que compõem a totalidade da sociedade civil…disputando com socialistas e coletivistas os espaços públicos, coletivos. comuns, incomuns e privativos; disputando os veículos de comunicação e as audiências. Ruas e estradas; praças e palácios; templos e mercados; clubes e escolas têm se transformado em arenas democráticas que transpiram pluralidades político-ideológica, cultural e religiosa.

Em meio a essas “guerrilhas” (décio pignatari), no meio desses fogos cruzados pela disputa do controle das pautas e temáticas estamos nós, os trabalhadores, empreendedores e profissionais da cultura artística, interessados em preservar tradições, inovar e oferecer à coletividade nossos serviços. Sem tantos desnecessários “maneirismos”, embora cada qual se identifique livremente com determinadas correntes e confissões.

Dos que já não foram, muitos estão sendo convidados a erguerem bandeiras e a postar-se em tal ou qual lado na política, nos movimentos de lutas, em favor de religiões etc. É natural que aceitemos e façamos nossas escolhas com base nos princípios infalíveis dos Direitos Humanos e, posteriormente, com base em nossos interesses imateriais e/ou materiais. Mas é importante conscientizarmos do risco de tornarmos meros instrumentos de causas injustas ou até perigosas e perversas; e do risco de sermos usados gratuitamente, por meio de explorações abusivas, na transmissão de propagandas político-ideológicas coercitivas, autoritárias, totalitárias, cujos objetivos agridem a Justiça e a Paz Social. (Direitos Humanos e suas respectivas gerações: 1ª, 2ª e 3ª).

O presente trabalho, realizado em 2008 (basta atualizar valores mediante pesquisa de preços praticados conforme a região), visa contribuir no estabelecimento de parâmetros para compatibilizar interesses/vontades/necessidades entre contratantes e contratados, garantindo ao verdadeiro trabalhador cultural uma remuneração condigna.

A cultura artística consiste em um dos campos que mais contribuem para a construção da cidadania em nosso esforço e percurso civilizatório, exigindo dos profissionais atualizações constantes, acompanhamento da tecnologia e muita dedicação, visando aprimorar e melhorar seus modos de expressar, o tratamento com os conteúdos, bem como a qualidade dos serviços prestados à coletividade.

As principais atividades exercidas por profissionais do setor são:

  • aprendizagem e treinamento
  • leitura e concepção
  • pesquisas documentais e de campo
  • composição e criação
  • revisão e adaptações
  • pré-produção
  • ensaios
  • produção
  • promoção e comunicação
  • apresentação
  • pós-produção
  • serviços de secretaria.

A cultura artística apresenta um caráter aparentemente de descontinuidade – emprega-se boa parte do tempo em formação, preparação e pesquisas, isto é, nas etapas que antecedem as apresentações e exposições finais dos trabalhos. Isso causa dificuldades no reconhecimento econômico-financeiro dos serviços, trazendo ao artista a necessidade de atendimentos simultâneos e/ou alternância com trabalhos de outros ramos.

Merecem destaque alguns aspectos relativos à qualificação, aos benefícios, às obrigações e aos custos:

  • os elementos necessários à elaboração de uma obra, de um espetáculo, de uma performance , por exemplo, não são coletados e organizados de uma só vez, exigindo sempre novas pesquisas e diligências;
  • atividade contínua do profissional, objetivando uma remuneração condizente com o trabalho que exerce, de forma a que possa levar uma vida de padrão médio, oferece-lhe poucas oportunidades de férias integrais, não lhe dá direito a 13º salário, FGTS nem tão pouco seguro de vida ou aposentadoria conciliáveis com a atividade em seus anos mais produtivos;
  • exige participações em congressos, seminários, palestras, cursos de aperfeiçoamento, aquisição freqüente de livros, materiais didáticos, instrumentos, acessórios, aulas particulares, revistas especializadas e tecnologias, visando uma constante atualização para que o profissional acompanhe a evolução da cultura;
  • requer a manutenção permanente de pequeno escritório com infraestrutura básica, compreendendo computadores, programas, telefone, suprimentos e aparelhos que possibilitem o bom desempenho do empreendimento.

Na maioria dos projetos, além das etapas já citadas, o artista-empreendedor deve ainda realizar outras tarefas e exercícios que nem sempre lhe são creditados quando do arbitramento de seus honorários/cachês, talvez até por serem de difícil mensuração. São elas:

  • contemplação e reflexão
  • experimentação
  • busca de um grau de elaboração de linguagem satisfatório ao público e à crítica
  • esforço mental e físico para se chegar a certa qualidade técnica e estética
  • escolha do repertório
  • captação de parceiros, colaboradores e/ou coadjuvantes
  • produção textual
  • captação de recursos

Assim, torna-se importante que a sociedade em geral tenha conhecimento das atividades que compõem os ramos da Cultura Artística e saiba dos custos e das obrigações que recaem sobre os profissionais.

Outras considerações:

  • Adiantamento

Qualquer que seja a forma de contratação é justo o profissional requerer um adiantamento de, no mínimo, 30% (trinta por cento) dos honorários/cachês acordados, visando custear despesas iniciais.

  • Cálculo das despesas adicionais

As despesas adicionais para realização dos trabalhos devem ser incorporadas aos honorários/cachês. Entre elas destacamos:

a) despesas com deslocamento e mobilização de pessoal;

b) custos relativos à execução da proposta formal e orçamento, sendo: papel, cartucho de tinta, impressão, arte gráfica etc.;

c) custos com manutenção de escritório, relacionando ao tempo em que o trabalho de contratação se inicia. Podemos destacar: telefone, provedor de internet, energia elétrica, suprimentos de informática e papelaria;

d) custos relacionados ao exercício da profissão e custos administrativos das contratações. Deve-se ratear os custos a seguir entre os trabalhos executados de forma ponderada, proporcional e inteligível. Destacamos os seguintes itens: despesas relativas a impostos, contribuições e taxas, locação de instalações, de mobílias e/ou equipamentos, registro de obras, anuidades de órgãos de classe, manutenção de inventário cultural particular, serviços de contabilidade, cursos de aperfeiçoamento, assinatura de periódicos etc.;

e) custos com viagem: quando o profissional tiver a necessidade de se deslocar para realização de trabalhos fora de sua região, devem ser contabilizados ainda os custos de deslocamento, bem como alimentação, estadia etc.;

f) as despesas de prestação de serviços técnicos de terceiros que envolvam iluminação, sonorização, desenhos, cenários, entre outros, devem ser cobradas com base na tabela de honorários do respectivo segmento profissional.

Cálculo do valor da remuneração e reajustes

Ao calcular o valor de sua remuneração, o profissional deve, também, levar em consideração:

  • quantidade de espectadores;
  • classe de renda do tomador de serviço (contratante);
  • região administrativa;
  • característica do local e tipo de instalações;
  • perfil do contratante;
  • evolução da participação de artistas do mesmo seguimento, modalidade e/ou linha de expressão (variação na oferta);
  • os profissionais podem utilizar índices econômicos como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como parâmetro os grupos educação, leitura e recreação.

Vejamos a tabela abaixo, cujos Valores Médios são expostos com base em levantamentos de características que determinam a formação de preços dos serviços prestados por músicos, dançarinos, animadores de festas, artistas circenses e atores performáticos. Como referência, realizamos pesquisa de coleta de preços na seguinte proporção e forma:

1 (uma) Cooperativa musical: músicos instrumentistas, cantores etc.;

8 (oito) músicos: voz e outro instrumento;

3 ( três) artistas circenses: figurino, malabarismo, mágica e brincadeiras;

3 (três) dançarinos: figurino e performance;

4 (quatro) animadores: figurino, brinquedos leves, brincadeiras e performance;

2(dois) atores performáticos: figurino, cenário portátil e performance.

HONORÁRIOS/CACHÊS POR CLASSE DE RENDA

VALORES EM REAIS POR ESPECTADOR/HORA

(* valores válidos para artistas que atuam individualmente)

Bairros por classe Bar Restaurante Salão Teatro Cs Show Festa Part. Festa Part.
de renda P.F P.J
Popular/ Médio 4 (200) 7 (350) 7 7 7 5 (250) 10
Santa Efigênia 7 (350) 10 10 10 15 (750) 7 15
Barro Preto 7 10 10 10 15 10 20
Centro 7 10 10 10 15 10 20
Funcionários 15 20 25 25 30 30 (1500) 40 (2000)
Savassi 15 20 25 25 30 30 40
Luxo 12 15 20 20 (1000) 25 20 30
Bhz e RMBH
Os números em parênteses acima dos valores indicam (em reais) o número de 50 espectadores multiplicado pelo valor unitário

Considerações finais

A informalidade e a inadimplência, decorrentes de falhas educacionais e morais graves, limitam as oportunidades de crescimento econômico e bem-estar social, além de corroerem a integridade dos cidadãos.

Do ponto de vista material, algumas atividades, como a artística, são relegadas a segundo plano. Isso é constrangedor – sobretudo em países de governos e instituições geridas por pessoas e partidos autodenominados democratas e progressistas, de inspiração social e comprometidos com os trabalhadores.

Há empresas que se utilizam de tais falhas como diferencial competitivo e trabalhadores que desvalorizam o seu próprio papel no universo corporativo.

Empresas (públicas e privadas), produtoras, organizadores e realizadores de eventos são empreendimentos mercantis e políticos, e se aproveitam do trabalhador cultural, do artista. Não se trata, aqui, porém, de converter a inteligência, o talento, as emoções ou o espírito criativo em meras mercadorias precificadas. Consiste na busca de uma justa, se não razoável locação da mão-de-obra, dos bens autorais e patrimoniais.

Se o artista não se apossar do que lhe é de direito, outro o fará. É necessário fortalecer a consciência profissional, especialmente para assegurar os direitos e o bem-estar das futuras gerações.

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túneis e tonéis, canção

Túneis e tonéis é a 4ª faixa do 1º álbum virtual intitulado “à espreita da aurora” de Lopes de la rocha, músico compositor brasileiro do estado de minas gerais.

https://www.youtube.com/watch?v=QLh0q63lgi8

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Fluxograma

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