ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

ROBERTO KALILI E SEUS ESFORÇOS NA RESTAURAÇÃO DO IMAGINÁRIO BRASILEIRO

Por Lopes al’Cançado Rocha

Entrevista especial para Semana da Pátria

setembro, 2024

Selecionamos o maestro Roberto de Souza Barros Kalili, que também é escritor e pesquisador da cultura brasileira. Fundador do grupo Alta Cultura, Kalili acredita que ainda temos muito por fazer. O esforço de sua iniciativa, junto de amigos e colegas, tem sido formar e contribuir para o aperfeiçoamento de professores dispostos a transmitir Alta Cultura, sobretudo nacional, por toda a Pátria, aos jovens brasileiros de hoje e das próximas gerações. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura e filosofia são os principais conteúdos postados e comentados no Alta Cultura (f.book), espaço virtual com mais de 6.000 membros inscritos e super colaboradores reconhecidos em diversas áreas.   

Natural de São Paulo, e hoje morando no interior do Paraná, o maestro tem atravessado o Florão da América nesses últimos anos. Travessia horizontal e transversal, tanto no sentido físico quanto em termos documentais, sentimentais e imaginários.

Com seu estilo ousado, às vezes em prosa imaginativa, noutras vezes em prosa didática, Roberto Kalili publicou recentemente na coletânea “Olavo de Carvalho: um filósofo do Brasil (2022)”, e sua obra individual “Alta Cultura Brasileira: uma caçada ao tesouro (2023)”, ambas pela editora Armada.

Kalili, obrigado pela correspondência em público. Poderíamos começar pela sua infância? Vida em família, a educação, os divertimentos e os trabalhos como ator mirim de televisão. 

Quando criança, eu tinha um pequeno disco com duas músicas infantis, “O MACACO E A VELHA”, Festa No Céu, que escutava o dia todo. Joguei muito caxangá, que na versão original se apostam docinhos, tem um dado com quatro lados, tira, põe, deixa ficar e rapa tudo. Sabia fazer pipas interessantes que soltava com quatro rolos de 400 metros de linha emendados, construía miniaturas de aeromodelos e aviões de papel. Quando a criança brinca, está experimentando os diversos papéis que a vida pode nos dispor: aviador, espião, general, músico, automobilista, balonista, cowboy, índio; acho que este é o sentido de brincar; quando um menino constrói um carrinho de rolimã está descobrindo se quer ser um Enzo Ferrari ou Henry Ford, quando desce a ladeira embalado se imagina um Airton Senna ou Emerson Fittipaldi, destarte construímos nosso futuro a partir dos sonhos. Tive a oportunidade de experimentar muitos destes papéis na vida real, e assim fui construindo a vivência necessária para a formação de um escritor. A experiência como ator-mirim pode ser uma faca de dois gumes, pois gera algumas falsas expectativas. Não aconselho a ninguém colocar a seus filhos na frente das câmeras para ser julgado pela multidão, mas para brincar, aí sim pode ser legal. Eu trabalhei em comerciais antigos, ainda na televisão em preto e branco, para a Nestlé, Omo Total, Kibon, Viva Sabão, Arroz Brejeiro, Banco do Brasil e outros, entre 1964 e 1972.

E como foi o início nas artes? Adolescência, juventude, apreciação, aprendizagem…

Gostava de teatro e de apresentar peças de polícia e ladrão, compunha canções desde muito novo, comecei com paródias. Gostava de ler, mas após a quinta série tive maus professores que raramente me ofereciam a liberdade para escolher os livros. Me vestia de preto e pintava o rosto com carvão para andar como espião pela noite, também fabricava balões de São João e imaginava voar neles ao sabor dos ventos; acho que nem é sobre mim, mas sobretudo o que as crianças fazem de legal, coisas como subir em árvores, construir cabanas de pau e folhas, andar pelo mato feito bicho, escrever poesias. Rabiscava planos mirabolantes, vivia papéis de cowboy, gangster, índio, biólogo, vivia mesmo. Quando eu cismava em ser biólogo, trabalhei no Butantã, no departamento de recepção de animais peçonhentos (COBRAS E ARANHAS), alimentei a elefanta do zoológico, e o hipopótamo Cacareco, os camêlos, as ariranhas, criei uma cobra caninana, resgatei um falcão, uma tartaruga, montei aquários. Um dia resolvi virar índio e sumi pela floresta da Serra do Mar; quando resolvi que seria cowboy montei um touro de 700 quilos (aos seis anos de idade…) o que forma um escritor é viver!

Muitos artistas enxergam, ainda que poeticamente, uma certa interdisciplina entre as primeiras artes com que temos contato a partir da infância: música, dança, literatura oral e artes plásticas. Lembremos da afirmação de Goethe, de que “arquitetura é música petrificada”. Como o maestro percebe essas relações?

        Toquei violão, depois guitarra, violino, contrabaixo, bandolim e cavaquinho. Fui da MPB ao rock, depois jazz rock, progressivo; toquei em orquestra, grupo renascentista, barroco, fui baixista de estúdio, morei na praia pintando barco de pescador, fui barman (menor de idade). O estudo musical favorece o desenvolvimento do complexo cognitivo estimulando a função do córtex.

Em geral, nossa relação com artes se dá na seguinte ordem: primeiro pelas atividades lúdicas; depois como instrumento de expressão da personalidade; em seguida como experiência de vida e reflexão filosófica; e por fim, como ritualização da nossa própria vida espiritual, uma forma de buscar o sagrado. No seu caso, está sendo mais ou menos dessa forma? O que o Kalili sexagenário de hoje diria ao Roberto quando adolescente e jovem?

É uma pergunta difícil, eu costumava fazer promessas para toda a vida, jurei que caso chegasse aos quarenta como uma pessoa normal enfiada numa vida sem graça eu iria jogar tudo para o alto e sair pelo mundo para recomeçar. Fiquei satisfeito com aquilo em que me tornei, não gostaria que fosse de outra forma. Meu conselho seria para começar a estudar música mais cedo. Creio que a maior parte do que disse até aqui comprova sua teoria, do brinquedo para a expressão, da experiência para a vida, apenas no meu caso a vida espiritual começou bem mais cedo. Acho que ainda sou assim, quando remo solitário durante a noite no Rio Ivaí, ou saio montado na fazenda atrás de vaca brava, quando toco meu cavaquinho ou viajo por aí a conhecer o Sul, a Argentina e o Paraguay, ainda sou aquele sonhador. Quem deixou de viver seus sonhos está morto para a vida espiritual. Algumas vezes eu puxo demais pelas pessoas porque desejo que elas percebam isto com clareza, que não desperdicem suas vidas. Acredito que o vitimismo é parte do medo que ancora o espírito; então você é capaz de me encontrar andando pelos andes vestido como um inca, ou na praia de Ilhabela vivendo como um caiçara, ou como um ganadero (pecuarista) no Paraguay, saiba que ainda estou vivendo intensamente o sonho da vida, e que o mundo espiritual é inacessível para quem não experimentou a realidade em sua essência mais pura.

Conte-nos como e quando você passou a ler e a estudar sobre filosofia e história da arte, os temas, autores etc.

Quem me influenciou um pouco mais a escutar música foi minha avó Evelina, nascida em Dresden, que era a pessoa de maior cultura em minha família, escutava muita música clássica e gostava de ler Seleções. Minha iniciação nos grandes mistérios se deu espontaneamente, ainda antes de completar quatro anos. Foi uma coisa mágica, através da graça, não havia qualquer mérito meu que justificasse. Fui sim interessado por diversas culturas ao longo da vida, os persas antigos, judeus, chineses, japoneses, indús, franceses, alemães, gregos, incas, jesuítas, busquei em todos os lugares na esperança de encontrar em algum.

Lopes:                                                                     

– Mas e a relação com a dança?

 – A dança ocupa o centro de equilíbrio na base do cérebro, envolve o labirinto (do ouvido interno). Dancei muito pouco, gostava das músicas lentas e o advento da “disco music” em São Paulo me afastou da prática. Me encantam os antigos bailes valseados de Johann Strauss, acho que se eu tivesse tido a oportunidade de vivenciá-los gostaria muito mais de dançar.

Lopes interrompe novamente:

– Sim, mas, durante a execução, maestro e músico dançam com as mãos, com os pés e a cabeça…é nesse sentido,não?                                                                   

– Pode-se unir música com pintura, letra, canto, dança, acredito que nestes casos a música fica contida em um limite; eu quando estou regendo fico sentado, de olhos fechados, me comunico apenas de leve, faço o grupo repetir mil vezes, até soar como um dente-de-leão pairando na brisa. Minha formação deve muito à prática em quarteto de cordas. A parte literária tem como referência três pequenos livros azuis que recomendo a todos para serem lidos ao mesmo tempo: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), Ortodoxia (G.K.Chesterton) e Itinerário da Mente Para Deus (São Boaventura). Claro que há centenas, senão milhares de títulos para se estudar, escritores de ficção (Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, James Clavell, Agata Christie, que ajudam ao jovem a desenvolver o prazer da leitura, e diversos contistas brasileiros de qualidade (Gastão Cruls, Inglês de Souza, Vicente de Carvalho), com vocabulários bem mais sofisticados e estilo culto. A história da arte (assim como toda a história), é apenas uma narrativa, o que se deve estudar é autor por autor, não acredito em coletivos. Os livros “Subliminar” e “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodnow foram importantes para aumentar meu conhecimento em neurociências. De Mario Ferreira dos Santos o livro “Ontologia e Cosmologia” foi o melhor que encontrei para entender a relação entre a filosofia e a vida espiritual. Professor Olavo de Carvalho é uma grande leitura para o entendimento do mundo em que vivemos, sua capacidade de sintetizar pensamentos complexos em fórmulas simples e expor falácias e erros do pensamento moderno a partir do pensamento dos grandes gênios da humanidade é única no mundo. Recomendo começar pelo “Diário Filosófico”, e não parar.

A arquitetura visa acomodação familiar, segurança e praticidade; música por outro lado é arte abstrata, não visa o corpo, mas o espírito. Com exceção honrosa para Gothfried Leibnitz, tenho profundas desavenças com a filosofia alemã, pois em meu entender havia uma outra Alemanha, bela, poética e rural, que a filosofia de origem oriental e o protestantismo esmagaram. Um país de contos de fadas, talvez a maior perda da humanidade, a Alemanha católica. Deixando de lado o argumento “ad hominem”, a música é movimento, então a máxima de Goethe pode ser comparada à nossa ex-presidenta quando falou em “estocar o vento”. Quer dizer, petrificar movimento é, ou não é a mesma coisa que estocar o vento? Vamos à interdisciplinaridade, segundo São Boaventura, as seis asas do serafim para quem busca uma imagem do Deus invisível através de suas qualidades.  A primeira asa para a escultura, o objeto real e material, as imagens dos Santos, a arte dos gregos, a expressão da beleza que fala diretamente ao espírito e cuja máxima expressão é a Pietá de Michelangelo, a imagem de Nossa Senhora com o corpo de Cristo em seus braços. A segunda asa do serafim para os grandes pintores, as obras eternas que exprimem a imagem, que estimulam o hipocampo, que mostram os grandes sentimentos, a vida superior, os momentos mágicos do passado, a grandeza de Deus em sua infinita misericórdia, os grandes mistérios, as visões de Pedro Américo, as imagens que tocam o coração e a alma humana. A terceira asa para a literatura, a construção da linguagem, oratória e retórica, a argumentação, o Organon de Aristóteles, a gramática e a ortografia, a matéria com que trabalham os escritores. A quarta asa para os grandes poetas, para as máximas literárias, e para a oração. O homem diante do seu Criador, a essência que pode ser transmitida através do diálogo com a tradição, as lições de vida condensadas de forma curta e objetiva, os exorcismos, a gratidão, o incensório a vibrar sobre nossas cabeças. A quinta asa para a música, a expressão do movimento, a vibração traduzindo as harmonias sutis que nos envolvem e governam, capazes de reger nossas interações sociais, essenciais para a construção de uma personalidade culta. A sexta asa para o planejamento, o seu trabalho, seu papel neste mundo. Que todas estas artes possam ser combinadas para produzir o efeito de imersão cultural é uma benção que raramente merecemos, mas vamos assistir ao filme “Música e Fantasia”, de Walt Disney e pensar melhor sobre isto.

Como você conheceu o poeta, filósofo, escritor e jornalista político Olavo Luiz Pimentel de Carvalho? Quais foram as suas primeiras impressões sobre ele?

Quando estudei contraponto, a partir de 1985, tive contato com o professor que morava com o Olavo, Ricardo Rizek, e estudei um tanto de filosofia. Rizek e o Professor Olavo faziam um interminável debate filosófico, do qual eu (10 anos mais jovem que o primeiro, e quinze anos mais jovem que o segundo) muitas vezes conseguia participar de forma certeira, dando a palavra final. Professor Olavo era como uma lenda para mim, o debate filosófico entre ele e o Professor Rizek atingia um nível raro que é difícil descrever, a arte de Tarkóvski, o Pitágoras de Mario F. dos Santos, os poetas da pérsia antiga, sufismo, taoísmo, xintoísmo, o contraponto de Bach, a integração de todas estas coisas. Eu nunca encontrava o Olavo pessoalmente, e só fui conversar direto com ele muitos anos depois, através da internet, quando já residia nos Estados Unidos. Ele me orientou bem, desmanchou algumas ideias que tinha como certas, mas que eram verdadeiros edemas em meu pensamento -por exemplo, o budismo, que me parecia lindo, um único ser eternamente amando a si próprio no auge da perfeição  – ; mas na verdade era bem menos interessante do que o amor cristão piedoso pelo próximo, com qualidades e defeitos. Por isto os Santos budistas têm seus olhos fechados, e os católicos têm olhos bem abertos. Mas a maior influência veio mesmo daquela aula sobre Alta Cultura ministrada no programa “True Outspeak”, em que o Professor me demonstrou a necessidade de conhecer o mundo através de nossa própria cultura, o que me levou a formar o grupo de alunos no Facebook.

Alta cultura. Há trinta anos, os termos mais usados eram cultura erudita e cultura clássica. Muitos tinham certo preconceito, associavam a elitismos, à sujeição do brasileiro às antigas potências europeias coisa e tal. Hoje, alguns defendem até uma dita “aprofundada descolonização” de nossas heranças ibéricas e Norte-ocidentais. Que você tem a dizer sobre isso?

O termo alta cultura tem uma razão de ser, ele evita o uso de termos como “arte”, que foram degenerados pelo mau uso. Quando se fala em música erudita, por exemplo, você inclui as bobagens infantis de John Cage na mesma categoria de Bach. Isso é ofensivo! A degeneração cultural não deveria jamais ser chamada de arte, então sou obrigado a chamar de música clássica, não “erudita”, afinal ela se apoia em uma cadeia de valores clássicos gregos-romanos-hebraicos, ou seja, ela busca a virtude como expressão da natureza divina. Se Frida Kahlo (canibal, medonha, tosca e desprovida de virtudes, pode ser considerada arte, então o termo vale para o que um bebê deixa em suas fraldas, mas não serve mais para Jerônimo Telles-Júnior. Deixar de lado nossas influências europeias é voltar a um estado animalesco.

Lopes:

John Riches, professor das áreas de Divindade e Crítica Bíblica, da Universidade de Glasgow, em seu livro “Bíblia: uma breve introdução” (L&PM Pocket), traduzido aqui por Denise Bottman, tem um capítulo só sobre a influência das Sagradas Escrituras nas artes. Riches, ou a tradutora, também usa o termo Alta Cultura. Chineses e russos, por exemplo, que hoje pretendem liderar a política na Ordem Internacional, valorizam enormemente as heranças europeias: as grandes epopeias, as arquiteturas, a sonata, o soneto etc. O dito “antropofagismo filosófico” e o freudomarxismo bestial, de um José Oswald de Souza Andrade, ainda são grandes desserviços para nós, nesse sentido. Membros da ABL fazem de tudo para ocultar um Olavo Bilac, um Olegário Mariano, um Ribeiro Couto…mas ainda exaltam os resultados da Semana de Arte Moderna e do modernismo paulista. O modernismo mineiro é outra coisa.

Kalili:

-Bem, falar sobre a “Semana de Arte Moderna de 1922” é coisa que geralmente não faço, mas como sei que muitos leitores jamais ouviram a verdade, vou contar a partir de uma experiência pessoal. Em 1978, morava na rua um vizinho coronel, bruto mesmo, que era pai de dois guris, o mais novo andava comigo, e era um rapaz muito perturbado: sofria de complexo de culpa e fazia coisas terríveis apenas para ser punido. O irmão mais velho era diferente, estudioso, responsável, tanto que o pai se sacrificou para lhe pagar um curso de direito em Londres. No último mês, o coronel não falava outra coisa: você é uma porcaria, nunca vai ser ninguém, deveria se espelhar em seu irmão, ele volta doutor formado, vai ser juiz – sonhava o pai. Quando o coronel e a esposa foram, cheios de orgulho e pompa, buscar o jovem prodígio no aeroporto eu estava na rua e vi tudo. Meu amigo se sentia um inseto; porém ao voltarem para casa, ao invés de um doutor de casaca, traziam um rapaz magro, com cara de mendigo, chinelão franciscano no pé imundo, cabelo parecendo ninho de urubu, calça de saco de arroz e camisão de estopa. Era o “doutor”. A única coisa que ele trouxe de Londres foi uma coleção de discos do Frank Zappa recheados com cartelas de LSD. Para piorar a situação o irmão mais novo se espelhou nele, assim como um grande grupo de jovens, que aprenderam música e gravaram até alguns discos de sucesso acompanhando um doido paranaense. Mas e a semana de arte moderna? Pois foi exatamente a mesma coisa; os pais aqui achando que estavam mandando seus pimpolhos estudarem na França para se tornarem gente, e eles voltaram como um grupo de vagabundos. A semana foi um fracasso, lixo dadaísta primário e ignaro; mas a mídia estava de cabresto. Juntos eles destruíram a cabeça de algumas gerações, o Brasil é um cemitério de talentos. A besteirada moderna não passa de proselitismo comunista com objetivo de destruição de nossa arte. Nada mais.

– Alguns diziam, por aqui, nos anos 90, que música clássica era a do classicismo.

– Classicismo que eles chamam de rococó, com algum desdém, como se Haydn fosse um sinônimo de mau gosto! Esses professorzinhos militantes me enojam.          

Lopes respondeu:

– Opa….vai devagar aí, maestro…

Kalili:

– Mas deixar de lado a cultura europeia é comer os vizinhos, andar pelado e analfabeto no meio do mato, isso não tem nada a ver com cultura.

Lopes:

– Eu ri demais: “…andar pelo mato churrasqueando os vizinhos…” Nem todo mundo hoje está preparado para uma ironia dessa. Mas temos a consciência de que é por justa defesa da nossa cultura que o maestro ironiza.

Kalili:

– A música é uma descoberta católica.

Lopes:

– Canto polifônico, por exemplo.

Kalili:

– Sem a cultura (nem digo católica, mas especificamente jesuíta inaciana) não existe Brasil, a afinação é católica, do, ré, mi… Os pesquisadores reformistas e até os ateus reconhecem a Santa Igreja como a maioral na música.

Lopes:

– Já tive um professor de matemática, ateu, marxista e maestro que reconhecia o papel, “apenas histórico” da Santa Igreja…

Kalili:

– O papel civilizador dos jesuítas tiroleses é a melhor essência de nossa cultura, e deveria ser retomado visando o bem das futuras gerações, a recomposição de valores e a formação de inteligências sadias para substituir as mentes degradadas que hoje dominaram nossa atividade cultural, apesar de serem desprovidas de cultura, exceto sob o ponto de vista escatológico.

O músico Lobão certa vez afirmou que na cultura pop há muitos elementos de alta cultura. Qual a sua opinião a respeito?

Lobão, ele se acha; é inteligente sim, mas tem a mente deformada. Para começo de conversa jamais tocou rock, o ritmo da bateria dele é polca.

Lopes:

– Não queremos isso, por favor.

Kalili:

– Bem, o que posso dizer de Lobão?

Lopes:

Atenha-se à pergunta. É sobre a afirmação dele. Não sobre ele.

Kalili:

– Acho uma opinião forçada, existem elementos de alta cultura somente na proporção em que a cultura popular deixa de ser popular. Vou explicar: um músico popular, em geral, aprende poucos acordes, dó maior e sol com sétima, aprende a escala em modo jônio e mixolídio, isto é clássico e católico, ou seja: apenas na medida em que a cultura popular assimila elementos clássicos que constituem a essência da arte musical ela se torna música.

Lopes:

– Agora sim…você diz do aperfeiçoamento da toada para a canção.

Kalili continua:

– A cultura popular não significa ignorância absoluta, mas apenas ignorância relativa; o não saber que ao afinar um violão o músico está utilizando Pitágoras, e ao tocar uma escala ou acorde isto é uma herança católica. Mas temos que tomar cuidado ao afirmar essas coisas senão os catolicofóbicos vão tocar desafinado e fora da escala de propósito; então absolutamente todos os elementos que formam a música são criações clássicas, a diferença é quantos desses elementos aprendemos e quantos ignoramos.

Risos. Na sua opinião, quais limites ou fronteiras podemos estabelecer entre folclore, alta cultura, cultura popular e cultura pop?

Não acredito que o papel do professor seja estabelecer fronteiras entre cultura popular e alta cultura, a nossa função é apenas instruir os músicos de maneira elementar, ensinar acordes, escalas, ritmos, cada artista deve desenvolver uma linguagem própria, e isto já é um processo lento e natural, melhor não interferir, mas quando eu trabalhava vendendo guitarras, por exemplo, era comum ouvir um cliente dizer que tinha vendido um milhão de discos e que não sabia ler uma nota; como eu era apenas o vendedor, lhe dava os parabéns, pegava o dinheiro e entregava a guitarra, ganhava minha comissão e esperava o próximo cliente, mas como professor minha vontade era gritar: ENTÃO VÁ ESTUDAR, VAGABUNDO!

O brasileiro, em geral, se orgulha de ser burro, para um artista isso é uma vergonha, em minha opinião isto significa que tudo o que ele fará em sua vida será copiado, pois sem conhecer a estrutura musical não pode haver criação genuína.

Gostaríamos que comentasse os dois trechos abaixo:

a) “Aprendemos no céu o estilo da disposição, e o das palavras. […] as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que já sabem.” (Padre Antônio Vieira).

Kalili: Na prática é muito difícil atingir a todos da mesma forma; quando escrevo algo mais profundo, poucos alcançam; e quando escrevo algo acessível, não acrescenta muito aos que estão acompanhando o fluxo de ideias há mais tempo, então a oratória do Padre Vieira havia atingido um nível que seria raro encontrar nos dias de hoje. Só o Olavo mesmo para unir as duas coisas, então isso nos dá uma pista da quantidade e qualidade de leituras que são necessárias para um indivíduo se tornar capaz de exprimir a alta cultura com simplicidade.

b) “A literatura não é como a música; não é para os jovens, não há prodígios nesse campo. O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental, leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que se viveu. ( V.S Naipaul).

Kalili: Percebo que atualmente damos valor demasiado a obras pueris, acredito que o próprio Mozart só se tornou realmente o gênio que reconhecemos em suas últimas obras, como o quinteto para clarineta; porém com Beethoven deu-se o oposto, ele foi compositor pleno ainda muito jovem, conforme o hepteto opus 21 deixa claro, porém na medida em que foi envelhecendo sua música se tornou menos abstrata e repleta de sentimentos exacerbados. Não que com isso perca o valor, mas certamente é outra via. Também na literatura não é verdade, temos os exemplos de Castro Alves, um gênio ainda mal saído da juventude e Álvares de Azevedo idem, em sua “Lira dos Vinte Anos”, uma obra prima. Entretanto reconheço que comigo se deu assim, realmente fui adquirir maturidade literária somente depois dos cinquenta. Meus primeiros trabalhos eram desorganizados e reticentes. Cada caso é um caso.

-Última pergunta-

Revolucionários contemporâneos, tais como Boa Ventura de Sousa Santos, Miguel Gonzalez Arroyo e outros — partidários de doutrinas antieuropeias e dos “Direitos Humanos” de viés histórico-crítico, e marxista-leninista— e tantos outros multiplicadores dessa doutrina perestroika, acusam a nós, difusores da Alta Cultura, de “elitistas”; “de defensores do status-quo liberal-conservador Ocidental e Cristão”; tratam-nos como “pretensos altaneiros culturais” que desprezam os pobres. Nas palavras desses “esclarecidos”, “nós trataríamos as pessoas humildes como inferiores em moralidade, cultura e civilização, e teríamos o perverso objetivo de hierarquizar etnias, raças, locais de origem e, desse modo, alocá-los nas posições mais baixas da ordem social, econômica, política e cultural”. Seríamos uma espécie de “arrogantes catequistas a serviço de colonizadores do passado”. Como você responderia a essa acusação leviana?

Lopes, agora você tocou no cerne do problema, vou tentar dividir a resposta de forma que fique bem compreensível para nossos leitores. Primeiro vou apontar os erros: a elite não é um coletivo que veio ao mundo para estragar a vida dos pobres. A elite é apenas um grupo de pessoas iguais a todo mundo, não possuem uma cultura diferente, assistem aos mesmos programas ruins da televisão. Reunir povos tão diferentes como portugueses e finlandeses numa única caixa e odiá-los por serem europeus, demonstra um ódio cego pelo próximo. A cultura “europeia” que eles odeiam é o catolicismo, cujas origens estão na África (Egito) e no povo judeu. Eles mesmos são bastante pretenciosos ao falar em nome da “autoridade moral” da esquerda, primeiro porque a esquerda não suporta moral, segundo porque se trata apenas de um projeto de poder, proselitismo em sua forma mais baixa e degradante. Os pobres que eles dizem defender e representar são católicos, conservadores, gente boa e honesta, que trabalha e não gosta de vagabundo; e as minorias que eles dizem defender, servem apenas como massa de manobra; veja os ataques covardes que fizeram ao Sergio Camargo, quando este esteve à frente do Instituto Palmares. Se a democracia é definida pela imposição do direito da maioria sobre a minoria e o “amor pelo coletivo” não é outra coisa senão o ódio travestido à individualidade, quem eles defendem? Não é você, nunca. Chato não é estudar, chato é ser burro. Dito isto, vamos agora pensar o certo: porém a maior parte dos grandes artistas foram de origem humilde, e todas as grandes artes tiveram seu berço na Igreja Católica, que também foi responsável pela criação das escolas, das universidades, dos hospitais, e em especial pelo fim da escravidão por dívidas (Santo Antônio). Desta forma, odiar a cultura católica também significa deixar de lado todas estas conquistas. Agora vamos analisar de forma pragmática o que eles têm a nos oferecer: a destruição da família, a submissão ao Estado, o confisco dos bens (inclusive dos pobres), a substituição dos valores estéticos na arte pela degradação moral do ser humano. A idolatria por falsos artistas que lhes servem como porta-vozes. A supressão de todos os seus direitos (tudo pelo Estado, nada contra o Estado). A escassez inevitável advinda da política keynesiana e da planificação da economia, também devido a supressão dos direitos sobre os meios de produção. A doutrinação no lugar da educação. A principal diferença entre os católicos e os comunistas é que os primeiros dividem o que possuem com os outros, e os segundos dividem o que é dos outros com os seus aliados. Mas mentir é uma parte indissociável dessa política, oferecer um paraíso que não pode distribuir para convencer vagabundo de que vai viver no bem-bom sem qualquer esforço pessoal. Então vem a terceira parte da nossa questão; o que a alta cultura pode lhe oferecer? E esta é a parte realmente importante, entender o que você ganha estudando a alta cultura brasileira. Alta cultura induz ao diálogo com a tradição. A tradição consiste em um esforço contínuo da humanidade para melhorar a vida através da leitura, da música, da pintura e da oração. Ler bons livros aumenta sua capacidade de compreender o mundo, escutar boa música instrumental ou clássica melhora a atividade cerebral e estimula a imaginação (interferindo na forma como reagimos em situações sociais e a maneira como enxergamos uns aos outros), e a pintura realista permite-nos perceber o mundo através do olhar de um artista, com profundidade e sentimento, quer dizer, ao estudar o mundo em nossa própria cultura, absorvemos os elementos necessários para ver a vida através dos olhos das grandes mentes do passado. Se além disto dermos o próximo passo, quer seja estudando um instrumento musical, aprendendo a pintar um quadro ou escrevendo um livro, também nos tornamos parte deste grande fluxo de pensamentos que ilumina a vida e ameniza a existência através da beleza. Por fim, e não menos importante, a oração, o estudo das vidas dos Santos, o conhecimento dos caminhos que podem conduzir a alma a uma existência mais bela. Tenho nisto minha própria experiência ao me deixar orientar, não pelo professor maconheiro de história, mas através do “Itinerário da Mente Para Deus”, um livro antigo escrito por um Santo. Agradecer sempre, mesmo diante das dificuldades, o fará mais forte e confiante diante dos desafios.

Conclusão:

Eles impõem uma cultura medonha, destrutiva e inútil, enquanto nos acusam de tentar recuperar as boas práticas artísticas, desenvolvidas ao longo de séculos pelos maiores expoentes da humanidade. Fica por conta do leitor a decisão de descobrir o melhor de nossa cultura, o trabalho é árduo, mas entre no grupo de Alta Cultura no facebook para conhecer outros artistas que você nunca pensou existirem no Brasil.

Endereço do grupo Alta Cultura:

https://www.facebook.com/groups/2543250742598003.

Últimas palavras de Roberto Kalili:

Um pequeno guia para quem deseja conhecer melhor nossa cultura:

Livros: Os XII Trabalhos de Hércules, Através do Brasil, Amazônia Misteriosa

Compositores: Alberto Nepomuceno, Francisco Mignone, Leopoldo Miguez

Poesia: Castro Alves, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo

Pintura: Arthur Timóteo, João Batista da Costa, Oscar Pereira da Silva

Música Popular Brasileira: Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo

História do Brasil: Primeiras Cartas do Brasil, Viagens às Missões Jesuíticas

Livro didático de minha autoria: Alta Cultura Brasileira – Editora Armada

— FIM–

Especial Semana de Arte Moderna I | Por Graça Rios

Especial Semana de Arte Moderna I | moda estilo capiau | linguagens carnavalescas e carnavalizadas | poética do mascaramento | desvarios libertários | o que foi e é nossa Pátria para os semanistas? | “o grande engano”, falação, repensar e questionar (…)

Por Graça Rios,

Bhz em 22.02.2022.

Clique abaixo para ouvir o “papo de rádio” literário.

sonoplastia: lopes, amilton matos e vicente jr.
Tarsila e Oswald a bordo do navio Lotus, em 1926. A pintora usa vestido assinado pelo costureiro francês Paul Poiret

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Contra a conspiração da indiferença – epistolografia crítica

Para brindar nossa perseverança, partilho com os amigos a carta-resposta do Joaquim Maria ao mestre Alencar, a respeito do seu Castro Alves, quando este último fora recomendado ao primeiro pelo segundo. No próximo 29.02 desse bissexto, nesse século que ainda amanhece, completam-se cento e cinquenta e dois anos do registro que segue. Tão atuais são essas vozes que parecem soprar por cima de nossos ombros.


Era carnaval, também ano bissexto, há 152 anos. Revivamos juntos:

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebel-o das mãos de V. Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz introito na vida litteraria. Abre os olhos em pleno Capitolio. Os seus primeiros cantos obtêm o applauso de um mestre.

Mas se isto me enthusiasma, outra cousa há que me commove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inutil fôra dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Ex. mais do que uma animação generosa.

A tarefa da critica precisa d’estes parabens; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas luctas que impõe, que a palavra eloquente de um chefe é muitas vezes necessaria para reavivar as forças exhaustas e reerguer o animo abatido.

Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de critica, fui movido pela idéa de contribuir com alguma cousa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e effectivamente se perde. Meus limitadissimos esforços não podiam impedir o tremendo desatre. Como impedil-o, se, por influencia irresistivel, o mal vinha de fora, e se impunha ao espirito litterario do paiz, ainda mal formado e quase sem consciencia de si? Era difficil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de litteratura, sem alento nem ideal, falseada e frivola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Ex., sabem exprimir sentimentos e idéas na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam oppôr um dique á torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.

Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: a este já não era a intelligencia que se expunha, era o caracter. Comprehende V. Ex. que, onde a critica não é instituição formada e assentada, a analyse litteraria tem de luctar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais bellas creanças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se affectos. Desfiguram-se os intentos da critica, attribue-se á inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipathia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que elle não pesaria no animo de quem põe acima do interesse pessôal o interesse perpetuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.

Cançados de ouvir chamar bella á poesia, os novos athenienses resolveram banil-a da republica.

O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veiu sentar-se no santuario e assim generalizou-se uma crise funesta ás lettras. Que enorme Alpheu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?

Eu bem sei que no Brazil, como fóra d’elle, severos espíritos protestam com o trabalho e a licção contra esse estado de cousas; tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do seculo. Mas sempre ha de triumphar a vida intelligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; comtudo, entendia e entendo – adoptando a bella definição do poeta que V.Ex. dá em sua carta – que ha para o cidadão da arte e do bello deveres imprescriptíveis, e que, quando uma tendencia do espirito o impelle para certa ordem de actividade, é sua obrigação prestar esse serviço ás lettras.

Em todo caso não tive imitadores. Tive um antecessor illustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria proseguido no caminho das suas estréas, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as creações que depois nos deu. Será peciso acrescentar que alludo a V. Ex.?

Escolhendo-me para Virgilio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a propria carta de V. Ex. não houvesse aberto ao neophyto as portas da mais vasta publicidade. A analyse póde agora esmerilhar nos escriptos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.

Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural anciedade que nos produz a noticia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos.

Não tive, como V. Ex., a fortuna de os ouvir deante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes deante de mim: não tinha os pés n’essa formosa Tijuca, que V. Ex. chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano. Em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara á loucura: estávamos no carnaval.

No meio d’esse tumulto abrimos um Oasis de solidão.

V. Ex. já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou comsigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo publico, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escriptos do poeta.

Não podiam ser melhores as impessões. Achei uma vocação litteraria, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista – no dizer, nas idéas e nas imagens. Copial-as é anullar-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se advinha que a sua escola é a de Victor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irman levou-o a preferir o poeta das Orientaes ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.

Como poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com egual inspiração e methodo idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma fórma esculpida com arte, sentindo-se por baixo d’esses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a fórma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possue; veste as suas idéas com roupas finas e trabalhadas. O receio de cahir em um defeito, não o levará a cahir no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja d’elle. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas bellezas.

O drama esse li-o attentamente; depois de ouvil-o, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada pagina do volume.

O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metaphoras enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sophocles pede as azas a Pindaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o CEO de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.

Esta exhuberancia, que V. Ex. com justa razão attribue á edade, concordo que o poeta ha de reprimil-a com os annos. Então conseguirá separar completamente a língua lyrica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.

Estreando no theatro com um assumpto histórico, e assumpto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidencia tinham além d’isso a aureola do martyrio. Que melhor assumpto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquella veneração que as raças livres devem aos seus Spartacus. O insucesso fel-os criminosos; a victoria tel-os-hia feito Washingtons. Condemnou-os a justiça legal; rehabilita-os a justiça histórica.

Condensar estas idéas em uma obra dramática, transportar para a scena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objecto do Sr. Castro Alves, e não se póde esquecer que, se o intuito era nobre, o commettimento era grave. O talento do poeta superou a difficuldade; com uma sagacidade, que eu admiro em tão verdes annos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquella o póde accusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Ex., conhecem esta alliança, hão de avaliar esse primeiro mereceimento do drama do Sr. Castro Alves.

A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circumstancia dos seus legendários amores, de que é história aquella famosa Marilia de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circumstancia. Do processo resulta que o cantor de Marilia era tido por chefe da conspiração, em attenção aos seus talentos e lettras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu á conspiração com uma actividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas.

Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao theatro o elemento feminino, e de um lance casavam-se em scena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circumstancia foi bem aproveitada pelo auctor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dous sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no teceiro acto, o poeta não hesita em repellir esse recurso, apesar de ser imminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se elle as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a licção do velho Horacio corneiliano; entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.

O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se póde deixar de recorrer á história; supprimir esta condição é expor-se a critica a não entender o poeta.

Que vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquelle conjurador impaciente e activo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e emprehende, que confia mais que todos no successo da causa, e paga emfim as demasias do seu cararcter com a morte na forca e a profanação do cadaver?

E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo alli, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aquelles emigrados do Terror?

Não lhe rola já na cabeça a Idea do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquelle o denunciante Silverio, aquelle o Alvarenga, aquelle o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência litteraria do auctor. A historia nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquella exaggeração artística, necessária ao theatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciaes de uma epocha ou de um acontecimento.

Concordo que a acção parece ás vezes desenvolver-se pelo accidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influencia do principio contrario em toda a peça.

O vigor dos caracteres pedia o vigor da acção; Ella é vigorosa e interessante em todo o livro; pathetica no ultimo acto. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns bellos versos fecham este drama, que póde conter as incertezas de uma talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréa.

N’esta rápida exposição de minhas impressões, vê V. Ex. que alguma cousa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a Idea da abolição. Luiz representa o elemento escravo. Comtudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr n’aquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela lucta entre a natureza e o facto social, entre a lei e o coração. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira affirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois.

Por isso, quando no terceiro acto Luiz a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluções, o coração chora com elle, e a memória, se a memória póde dominar taes comoções, nos traz aos olhos a bella scena do rei Lear, carregando nos braços Cordelia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.

Cumpre mencionar outras situações egualmente bellas. Entra n’esse numero a scena da prisão dos conjurados no terceiro acto. As scenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Ex. alludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astucia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.

As scenas amorosas são escriptas com paixão; as palavras sahem naturalmente de uma alma para outra, prorompem de um para outro coração. E que contraste melancholico não é aquelle idyllio ás portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dous amantes!

Dir-se-ha que eu só recommendo bellezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais – duas ou trez imagens que me não parecem felizes; e uma ou outra locução susceptível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da fórma? Que as demasias do estylo, a exhuberancia das metaphoras, o excesso das figuras devem obter a attenção do auctor, é cousa tão segura que eu me limito a mencional-as; mas como não acceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que póde ser a sabia economia de amanhan?

Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só a licção do facto, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessôaes aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caracter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dynastia, apagaram antipathias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.

Taes foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escripto com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do auctor suppre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciencia. Está moço, tem um bello futuro deante de si. Venha desde já alistar-se na fileiras dos que devem trabalhar e restaurar o império das musas.

O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o successo coroará a obra? É um ponto de interrogação que ha de ter surgido no espirito de V. Ex.. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que ha um obstáculo, e V. Ex. o sabe também: é a conspiração da indifferença. – Mas a perseverança não póde vencel-a? Devemos espera que sim.

Quanto a V. Ex., respirando nos degráos da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vae meditando, sem duvida, em outras obras primas com que nos há de vir surprehender cá em baixo. Deve fazel-o sem temor. Contra a conspiração da indifferença, tem V.Ex. um alliado invencível: é a conspiração da posteridade.


Correio Mercantil, Rio, 1 de março de 1868.

ASSIS. Joaquim Maria de; ALECAR, José de. Correspondências. Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre: W.M. Jackson Inc. Editores, 1947.439p.

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Os grãos da sabedoria & Máximas

Os grãos da sabedoria 

Osvaldo Orico

Quando fala o orgulho, a razão silencia.

§

Não devemos voluntàriamente abrir uma luta; mas obrigatòriamente não podemos fugir a ela.

§

Entre a razão e a fôrça pode-se optar por uma fórmula conciliatória: a fôrça da razão.

§

A maioria das pessoas gosta de ostentar a opulência; o que toda gente esconde como pode é a penúria.

§

A felicidade está sempre ao alcance de nossa mão; apenas nosso braço é muito curto para alcançá-la.

§

Só sentimos o valor da liberdade quando a perdemos.

Máximas,  de Marquês de Maricá

Ler sem refletir é comer sem digerir.

§

A fôrça,que sobeja na língua, falta, de ordinário, no braço.

§

O fogo destrói e consome iluminando.

§

Uma cabeça má arruína o corpo inteiro.

§

Mocidade viciosa faz provisão de achaques para a velhice.

§

A virtude é comunicável, mas o vício é contagioso.

§

A vaidade de muita ciência é prova de pouco saber.

§

A prudência é uma arma defensiva, que supre ou desarma tôdas as outras.

§

A modéstia é a moldura do merecimento, que o guarnece e realça.

§

A realidade nunca dá quanto a imaginação promete.

§

O homem que não é indulgente com os outros, ainda não se conhece a si próprio.

§

                                         Vale mais ser invejado que lastimado.       

§

Os rouxinóis emudecem, quando os jumentos ornejam.

§

Selecionadas pelo professor Osmar Barbosa, 
na coleção“Conheça o seu idioma”, de 1971. 2º e 4º Volumes.

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Aos anjos do Deus Hermes (singularidade e propriedade intelectual) – Crítica

Aos anjos do Deus Hermes
(singularidade e propriedade intelectual)
– Crítica

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

                                                    fotografia distorcida do autor, nov. 2018.

Ironia séria versus cinismo debochado

O artista e intelectual contemporâneo, sobretudo aquele autônomo e independente, há que ter a consciência de ser substituível, dispensável e até, no mais das vezes, indigno da preciosa atenção de apreciadores tão distintos e exigentes. Com base nessa verdade fática batizei com o nome modesto: Pingo de ouvido.

Mas certos “anjos eleitos, ministros da cultura artística”, de quando em vez, aparecem sugerindo que delimitemos nossas manifestações. Seriam enviados pelo Deus Hermes, a quem dou o meu respeito como adversário. Sentem-se anjos, porém são homens tomados pelos vícios dos mais comuns.

Homens, sintam-se livres e à vontade para inspirar-se, parafrasear, parodiar ou, se quiserem, usar na íntegra com bastante proveito tanto o nome quanto o conteúdo desse projeto! O Pingo de Ouvido já é fonte secundária de pesquisa e inspiração em inúmeros países de língua portuguesa e em alguns grupos de estudos literários de nosso Florão da América,dos Estados Unidos e do Canadá.

Particular e autofinanciado, trata-se duma iniciativa em que republicamos autores e importantes textos de nossa cultura. E claro, alguma manifestação de autoria do escritor-fundador. Jamais será espaço exclusivamente para autopromoção nem veículo interativo instantâneo visando atingir visibilidade superficial ao administrador do site. É genuína contribuição para a história, para a literatura e para a felicidade das pessoas.

O teor de certas mensagens insólitas e enviesadas instigou-me nessa resposta, pois sempre me esforço para ser respeitoso e responsável, inclusive às mensagens cifradas e aos subtendidos. 

Alguns divergentes e adversários meus têm murmurado em rodas de intrigas dando a entender que sou um usurpador de idéias, inspirações, mensagens, dicas, obras e trechos.

Para eles, eu finjo ser um prestador de homenagens, mas na verdade minha intenção é violar direitos autorais, obter vantagens indevidas, enfim, aproveitar do esforço de “mentes mais criativas” do que a minha.

Influências, referências e intercâmbios

Mesmo confessando e assumindo minhas fontes de instrução e referência, o uso que faço dos recursos de intertextualidades, citações indiretas, paráfrases; mesmo se confirmando minha notória inclinação em dialogar com pensadores de outras gerações e linhas de expressão diversas; ainda há quem insinue má fé da minha parte, isso tempos depois de autorizar-me informal e tacitamente a utilização de termos comuns às suas criações.

Alguns desses meus divergentes – notem bem: não somos dissidentes separatistas, pois divergimos em muito desde quando passamos a nos relacionar – por várias vezes, há tempos, me procuravam para trocar idéias em matéria de cultura artística, cultura em geral e certos conhecimentos técnicos.

Mas hoje está chegado o futuro daqueles tempos idos. E falharam muitas das idéias desses tais divergentes meus.

Covardia e Incivilidade

Essa covardia de insinuar que sou um usurpador oportunista só poderia vir de cabeças assombradas por espíritos revolucionários – tanto da doutrina liberal produtivista econômica quanto das doutrinas coletivistas, anarquistas e correntes associativistas autoritárias; doutrinas essas inimigas da liberdade individual, letiva e da coletividade saudável, recíproca –, espíritos perversos que revolvem e invertem as boas intenções em más.

Só me dirigia a essas criaturas quando por elas eu era solicitado. Nunca deixei de lhes estender as mãos, como sempre fiz a todos os meus semelhantes. Sentamos à mesa e às rodas, repartimos o pão, lavamos os pés uns dos outros. Toleraram-me e respeitaram-me até onde puderam e tiraram proveito, aprendemos juntos, cada qual se resguardando com suas crenças e doutrinas.

Quem não via e ainda não vê nesses tipos um perceptível cinismo despeitado querendo se passar por orgulho próprio?Levantam bandeiras suspeitas e ainda pregam adesivos depreciativos nas costas de pobres trabalhadores assalariados. São covardes ou não são? Muito covardes! E perversos! Pérfidos!

Eles com seu bem-estar assegurado, diziam(e ainda dizem) “foda-se” a “todo resto” e “bem-feito” ao sofrimento alheio.Corações sem compaixão!! Aliás, disputam para ver quem sente menos culpa, para ver quem é mais impiedoso. Exaltam a crueldade, riem dos crimes, riem da fome,do desemprego, da desindustrialização; riem da falência dos comércios; debocham das religiões, das mulheres decentes, das pessoas honestas e íntegras.

Gesticulam entre eles que tudo quanto não lhes é parecido seja fingido e interesseiro.

Acreditam eles naquelas mínimas impensadas, totalitárias e incultas de que “toda propriedade é um roubo” ou “tributo é roubo”. Acreditam que “todo” usufrutuário é um opressor e explorador maligno do suor alheio. Partindo dessas premissas estúpidas, instauram-se as guerrilhas e as revoluções permanentes no campo do comportamento, dos costumes e dos gostos.  

Ora, se toda propriedade ou tributo advêm de crime, podemos invalidar as transferências mútuas por livre e espontânea vontade. Invalidemos as trocas, as permutas, as compras e vendas, as heranças, os empréstimos, os comodatos, os aluguéis, as doações por caridade e, claro, podemos invalidar também as contribuições às caixas de associações, os agrados e os regalos.

Vamos viver todos roubando e assaltando uns aos outros!?

Adeus amizades! Adeus amores! Adeus colegas! Adeus networks! Afloremos todos os maus sentimentos: despeito, inveja, ciúmes, ressentimentos, mágoas, complexos de inferioridade, indignações e reivindicações injustas.

O vale das invejas: conspiração, alvo de desprezo e compaixão

As relações passam a ser de grupos contra grupos. Tribos contra tribos. Formam-se as correntes contrárias que se combatem. Conspirações determinam os alvos de desprezo. E os mais rebaixados seguem à risca o surrado mandamento “acuse-a do que ela não faz e chame-a do que ela não é”.

Empreendem-se as diminuições às ocultas, o abafamento das vozes, os julgamentos viciosos; o desbotamento do nome mediante insinuações acusatórias; as interpretações maldosas.

Porém não há um corajoso para se dirigir a mim pessoalmente, sozinho ou junto de um irmão como testemunha, e repreender-me com amor, pedindo-me para retirar dos meus números os trechos que não me são genuínos e não me pertencem como autor (as citações, as paráfrases, as alusões, as intertextualidades, enfim), já que não poderia eu gozar das heranças culturais de nossos criadores do passado, e nem teria eu a altura suficiente para dialogar com os criativos artistas dos Século XXI, que se julgam trans-formadores do mundo e da vida, condutores da história, donos do futuro e do além.

Descrever e explicar a fórmula da mais-valia ninguém se dispõe.

Esses “voluntários fiscais da natureza e do patrimônio imaterial da humanidade”, simpatizantes e colaboradores de instituições poderosíssimas, consideram-se integrantes do mais elevado gênero humano, dotados do mais alto senso de “justiça social” e solidariedade. Inclusive,quem não está por eles e com eles, ou quem deles discorda em alguns pontos já é por natureza injusto, avaro, ganancioso, egoísta e guloso.

Nem precisam mais se encontrarem para combinar suas ações e comportamentos coordenados. São autodirigidos, na acepção de David Riesman. Treinados “em rede” e “em cadeia”. Verdadeiras hordas de autômatos rastejando em círculo na Multidão Solitária. Entoam aquela ladainha dos perdidos: “não sei aonde estou indo/ eu só sei que estou no meu caminho”.

De minha parte, são dignos de muita compaixão.

Quando saem de suas redômas, já estão treinados em seus trejeitos, em suas insinuações enigmáticas, em suas agressões simbólicas, suas mensagens subliminares; treinados nos boicotes, nas sabotagens, nas recomendadas censuras pelo desdém; nas contrapropagandas, nos denuncismos e nas críticas covardemente desleais, destrutivas. Não esqueçamos das companhas difamatórias, dos ataques às escondidas.

Os detalhes chegam ao nosso conhecimento porque são infiéis entre eles mesmos. São cobiçosos, sovinas, invejosos confessos, oportunistas e materialistas dos mais vulgares. Qualquer desagrado entre um e outro, entregam todo diz-que-me-diz. Incapazes de governar suas emoções. E não mudam de máscara para fingir que tudo não passou dum engano; e tapam os ouvidos quando a verdade explode avassaladora, causando-lhes estrago em suas inconsciências doentias.

Uma voz deles, certa vez, contou-me até as manobras de “baixa magia”, as maldições no desejo de que sejamos acometidos por algum câncer ou por algum acidente mortal. Criaturas sem humildade nem coragem! Seres incapazes de respeitar as dores do semelhante…

Em favor deles mesmos, desses seres com suas almas perdidas em doutrinas pôdres e causas totalitárias, qualquer contrafação, pirataria e hipocrisia são válidas.

Reivindicam o monopólio da marginalidade, escondendo que são “filhotinhos de papai” e protegidos do Grande Leviathan. Só a garantia de suas vontades deve ser assegurada. Desesperados inconseqüentes!!

Será que produzem obras singularíssimas e autênticas ? Estamos à espera, dispostos a aplaudir e reconhecer.

contato: lopeslarocha@gmail.com

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Sêde de Deus e de Civilização(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Sêde de Deus e de Civilização

(comentário crítico sobre o conto “A Igreja do Diabo”)

Imagem_Editora_Argos

Leitores religiosos e mais ingênuos evitariam “A igreja do Diabo” por temor ou por simples repulsa. Os descrentes, na sua vez, esquivam-se do conto talvez por respeito próprio à sua tradição não religiosa. Agora, os apologistas de Satã desejam mesmo é que essa obra seja apagada da História de nossa Literatura.

Estamos diante duma obra-prima da Literatura Universal, cuja personagem principal é a entidade arquetípica, real para uns, mitológica para outros. O anjo caído, o anjo rebelde, tomado por despeito, ódio, vingança e inveja: Lúcifer!

Algum monge divinamente inspirado da ordem de São Bento teria testemunhado a história, deixando-a em manuscrito para os homens comuns, caindo então aos olhos do leitor-narrador-escritor. O que move a história é uma idéia extraordinária ocorrida ao anjo, durante suas reflexões no inferno. Decide ele fundar uma Igreja Única e Global, enquanto se combatem entre si as religiões. O plano nasce da clássica e totalitária percepção diabólica de que tudo entre os seres é vaidade. Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Para o desafiador de Deus, as virtudes buscadas pelos homens têm por motivo o orgulho. Pervertendo as virtudes e resumindo-as em um só vício, o mirabolante levanta uma comparação entre elas e a vestimenta distintiva da realeza. A capa – o manto de reis, rainhas, príncipes e princesas – traz na sua essência o tecido e na forma a destacada franja. Esta última, naturalmente, trata-se de guarnição, enfeite. No argumento satânico, a franja é algo que ao mesmo tempo embeleza e esconde, tampa alguma verdade ou vergonha. Isto é, por detrás das virtudes que se vê está escondida a Senhora Vaidade. Com base nessa tese, e impiedoso com os pecadores, o pai da negação e do “moralismo mundano” condena a todos negando qualquer possibilidade de salvação.

Quanto aos tecidos. Podemos traçar um paralelo com os lugares onde se passa a história: o algodão, hipoalergênico, com sua brancura e maciez simbolizaria o Céu; o veludo por sua exuberância, propenso à irritabilidade e dupla possibilidade (pode ser ele fiado com algodão ou seda) seria a vida na Terra; por fim a seda com seu brilho reluzente e sua luxúria infernal “das províncias do abismo”.

Para o Diabo, um fiel modesto e sensato que dá sua vida para salvar outras duas não passa de um misantropo fingindo caridade. Os crentes, para ele, são invejosos; enquanto que as forças infernais vestem-se de justa indignação. Ele goza de amor próprio diante de um Deus vencido; os pobres fiéis não, esses se movem por vanglórias. O Diabo é eloqüente, sedutor e deseja disputar o rebanho das almas até que sua igreja seja a única. Ataca o livre arbítrio dos profetas e do reformador. Abala toda a harmonia angélica. Pretende eliminar a variedade de religiões e doutrinas. Trabalha negando a decência, o arrependimento, a culpa, a piedade e a reconciliação, “cortando por toda a solidariedade humana”. Tudo pode ser vendido e adulterado. O simples fato dum fiel arrumar-se para ir ao templo é, na lógica diabólica, ostentação. Revolve-se o quadro gradual aristotélico dos bons e maus hábitos.

Para concluir sua instituição, precisa ele estabelecer uma Grande Ordem Nova e Insana das coisas, com a força das multidões e legiões de seguidores. Ele mesmo se autodenomina Legião. Sua Igreja é a instauração da barbárie. Que é a barbárie? Trata-se da reversão das civilizações em selvas, os homens tornados animais irracionais em ambientes inseguros, cercados de ruínas e abismos. Instaurada essa barbárie horrenda e dolorosa, os demonizados então praticarão suas virtudes por detrás das aparências pecaminosas e demoníacas. Aparências essas que são as franjas de seda. O homem, seco por dentro, voltará a ter sede de Deus e de Civilização. Após a sofrida experiência das tentações e reconquistados os bons hábitos, necessário se faz banhá-los de humildade para superarmos as renovadas estratégias do Diabo.

O bom escritor deve ser, antes de tudo, um atento ouvidor das tradições, histórias clássicas e alheias, bem como um colecionador de acontecimentos, fatos, lugares e tempos. Personagens e ações se repetem e se atualizam. O rico repertório de citações do contador nos traz saudades ao tempo em que nos empurra para a esperança.

 Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano.

Este site pertence ao compositor e escritor Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano. Disponibiliza gratuitamente aos internautas experiências de conhecimento e conteúdo para pesquisa. Clique no link a seguir para saber dos serviços que o autor oferece: https://pingodeouvido.com/cristiano-escritor-e-redator/

A igreja do Diabo

A igreja do Diabo

Leitura dramática: Marcelo Lima

machado-de-assis-1904
Joaquim Maria  Machado de Assis

CAPÍTULO I

DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

__ Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: – Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II

ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

__ Que me queres tu? perguntou este.

__ Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

__ Explica-te.

__ Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…

__ Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

__ Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?

__ Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

__ Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

__ Vai !

__ Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

__ Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

__ Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…

__ Velho retórico! murmurou o Senhor.

__ Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, – a indiferença, ao menos, – com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, – ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda… Vou a negócios mais altos…

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

__ Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

__ Já vos disse que não.

__ Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

__ Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

__ Negas esta morte?

__ Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…

__ Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Ill

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

__ Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: – Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão dos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV

FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

__ Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Vocabulário: ______________________________________

Mirífica= Maravilhosa, admirável, extraordinária, excelente.

Cogula= Túnica larga de religiosos.

Prédicas= Sermões, discursos religiosos.

Sulfúreas= da natureza do enxofre.

Esgalgada= magra como um galgo; galgo= cão de pernas longas; esfomeado.

Peleu= da mitologia grega, rei, navegador, amigo de Centauro e de Hércules e pai de Aquiles.

Rabelais= relativo a François Rabelais (1494-1553), escritor renascentista francês; que lembra seu gênero libertino, devasso e licencioso.

Hissope= referência a “O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva” poema heroico e cômico; [De hissopo, por ser com raminhos desta planta que se fazia a bênção.]; Aspersório: instrumento para borrifar (orvalhar) água benta.

Lúculo= Lucius Licinius Lucullus, político e combatente da Republica Romana (118–56 a.C); Indivíduo amante de banquetes suntuosos.

Galiani= Padre Italiano Ferdinando Galiani, sociólogo e economista.

Turbas= multidões.

Insolvável= insolvente.

Muezim= almuadem, entre os muçulmanos, aquele que anuncia, em voz alta, do alto das almádenas, a hora das preces; almádenas= Minarete, torre de mesquita.

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|Música: a arte primeira na sua origem

|Música: a arte primeira na sua origem

Lopes al’Cançado Rocha, o Cristiano

edit

A fala e a cala constituem o diálogo – ou o monólogo –,  a prosa, porque são impressivos, arrítmicos e horizontais. São mais da razão e da externalidade comunicativa. A fala, imagética na memória, é exposição, explicação; a cala, por sua vez, é compreensão na escuta e incompreensão na surdez.

O diálogo (ou monólogo) e a prosa são menos etéreos do que o chôro, do que o gemido e o riso, e são mais visuais e plásticos; mais humanos, são a civilização. Só o homem – esse animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica – consegue contar histórias. Enquanto que o restante da natureza só pode rir, chorar e cantar.

A prosa se manifesta após o nascimento, durante a vigília e mediante a imaginação. A fala e a cala, civilizatórios que são, compõem os dramas e as tragédias.

Quando vai se formando o ser humano, no ventre materno, é que se dá o primeiro contato sensitivo com as formas de sentimentos expressivos e impressivos e, por conseguinte, com a arte – isto é, com as expressões situadas no tempo, no espaço e na memória.

O chôro e o riso são as primeiras expressões organizadas sentidas pelo feto. São como se fossem poesia e música, porque têm ritmo e são mais expressivos, verticais. E ambos são mais do coração: o chôro é lamento e o riso é júbilo, ensaios para o clamor e louvor.

A poesia e a música, mais sonoras, mais íntimas e emotivas, inclinam-se para o sono e para o sonho durante a gestação. O lamento e o júbilo são líricos, da natureza. Os pássaros cantam, as águas riem, os animais irracionais choram. Choram os cavacos, choram as cuícas, riem-se as violas.

Portanto, o ser humano no período de sua gestação só poderá ter contato com apenas uma forma de arte, que é sonora, emotiva, íntima, lírica, sonhadora e rítmica. Ela germina do chôro e do riso, evoluindo para os cânticos de ninar ouvidos pela criança recém-nascida. Das cantigas de ninar abrem-se as portas para a arte segunda, que é a dança, cujo contato se inicia nos gestos de embalo dos pais quando tomam seus filhos no colo.

 
Inspirado em diversos textos e obras, sobretudo em “A Origem Da Linguagem”, de Eugen RosenstockHuessy.
Fonte imagem: música na gravidez. Confissões maternas.link: http://thalinelivia.blogspot.com/2010/11/musica-na-gravidez-solta-o-som-que-faz.html

contato: lopeslarocha@gmail.com

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A Religião de Cristo

A Religião de Cristo

José de Alencar, ao correr da pena, 07/out./1855.

jose-alencar-romancista-brasileiro

Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por um faceiro capricho parece esmerar-se em criar um pequeno berço de flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento; são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do ___ sentimento, as violetas.

Vós minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma ___ a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante estes tempos de provação têm sentido os perfumes suaves, a fragrância consoladora dessas flores do coração, ___ flores que desabrocham orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, ___ a nossa bela religião de Cristo, ___ mãe extremosa de todos os órfãos, ___ a irmã desvelada de todos os infelizes, ___ a amiga e companheira fiel dos pobres, ___ a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos com resignação esses dias de atribulação, que felizmente parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

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A religião e a comemoração dos mortos

A religião e a comemoração dos mortos

José de Alencar, ao correr da pena, 05/nov./1854.

Leitura matinal espontânea em 02.11.2018

I

Lacrimae Rerum…

jose-alencar-romancista-brasileiro

A religião, essa sublime epopeia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a fonte de todas as supremas venturas deste mundo ___ a família; e, quando o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações de Jó: Memento quia pulvis es!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo. Sublimi feriam sidera vertice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a um rosto, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico: Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, se durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página ___ à morte ___ quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre o cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão dos mares.

Se quereis ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando virdes toda aquela piedosa romaria que percorre as aléias formadas pelos túmulos, relendo entre pranto as letras de um epitáfio singelo, e espargindo sobre a lousa algumas flores misturadas de lágrimas e preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso, alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta e ver refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender o respeito que votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostrasse em face delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria, a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza, não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa a mão amiga, a cruz singela se ergue como símbolo da fé e da religião.

Os nossos cemitérios, criados há bem pouco tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra ordinariamente no campo dos mortos.

Ainda não há aí essas longas sombrias alamedas de árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca, nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração, e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da nossa população, empregaram-se todos os esforços para fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de uma singela e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições, cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-la lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado aquele epitáfio antigo: Sta, viator!


Lacrimae Rerum: sunt lacrimae rerum: Existem as lágrimas das coisas. Expressão de Virgílio (Eneida, I).
Memento quia pulvis es!: de “ memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris”: Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás. Palavras pronunciadas pelo sacerdote enquanto impõe cinza na cabeça de cada fiel, na quarta-feira de cinzas.
Sublimi feriam sidera vertice: Horácio, primeiro livro das Odes: Quod si me lyricis vatibus inseres, sublimi feriam sidera vértice: Mas se você vai me inserir entre os poetas líricos, a altura do topo das estrelas, eu vou fazer uma.
Vanitas vanitatum et omnia vanitas! Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!
Sta, viator! : D. 0. M. Sta Viator Sepulchrum ne tangito: “Não toque no Traveler, é o sepulcro de D. 0. M.: Levanta-te”; Treveler= viajante.

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“EU SOU BRASILEIRO”- POESIA

“EU SOU BRASILEIRO” —poesia

Osmar Barbosa, poeta e professor

Brasil_florão-da-américa

__ Sim, eu sou brasileiro!

Batizei-me na cruz das velas lusitanas

e chorei no porão do navio negreiro.

Sou triste como ninguém.

Deixei o velho Tejo em troca do Amazonas

e trouxe a nostalgia, esta ama da saudade,

dos arcos de Lisboa às tendas de Arakén.

Desde o casto fulgor da remota manhã

aprendi a atirar flecha para o céu,

espontânea oração no templo de Tupã.

Sou irmão de Peri na voragem suprema

dos enorme caudais do sonho e da ventura:

tendo sede de amor, sorvo então com ternura

os favos da jati nos lábios de Iracema.

Bem compreendo a feição do pronome você,

entendo o sabiá no tôpo das palmeiras,

acredito em mãe-d’água e saci-pererê.

Banhei-me de vigor nas alvas cachoeiras

e cresci como cresce o resplendor do ipê.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Trago na alma o calor de um sol que não descamba

sei que meu coração nasceu para pandeiro

e para acompanhar o compasso do samba.

Bandeirante que fui no arrôjo e na pujança,

Por esmeralda ostento a mais bela esperança.

Descobri no meu berço a mais festiva sorte:

o sorriso do verde e o sorriso do azul,

danço o maracatu com os coqueiros do Norte,

com o minuano assobio as rancheiras do Sul.

Não me abate saber a sífilis na raça,

não me abate saber a malária nos ermos,

não me abate saber da inércia e da cachaça,

não me abate saber da procissão de enfermos:

É este o meu Brasil __ paupérrimo e faminto __

que mostro com orgulho e com nobreza o sinto;

ei-lo em cada sertão, ei-lo em cada maloca,

dando ao gasto organismo um pouco de farinha,

mas se o dever o chama,

ninguém pode impedi-lo: é como a pororoca…

Em rugidos caminha

Para provar que é livre, e que freme, e que ama!

Brasil-jeca-tatu! Oh graça sertaneja!

De cócoras mirando a espiral de seu fumo,

mas uma vez de pé, como o fio de prumo,

retesa a posição, constrói o que deseja.

É o Brasil que encerra a piedosa jóia:

um punhado de heróis no solo de Pistóia.

__ Sim, eu sou brasileiro!

Tostei a minha tez aos beijos de meu sol…

Vêde, ó loiro estrangeiro,

tudo que minha Pátria em letras de ouro lavra:

o cérebro de um Rui na glória da palavra

e os pés de um campeão no ardor do futebol.

Amo o Brasil do asfalto e amo o Brasil da aldeia,

amo todo o meu chão vastíssimo e luzente:

namoro com Catulo a branca lua cheia

e com Castro Alves canto o ideal de minha gente!

__ Sim, eu sou brasileiro!

Glossário:

Tejo: famoso rio da Península Ibérica.

Arakén: personagem indígena, chefe de tribo, do romance Iracema, de José de Alencar.

Tupã: nome dado a Deus na língua tupi, em referência ao trovão. Também se diz Tupá.

Peri: principal personagem do romance O Guarani, de José de Alencar.

Voragem: sorvedouro, abismo.

Caudal: torrente impetuosa. Também pode ser usado no feminino. É empregado ainda como adjetivo.

Jati: abelha pequenina.

Iracema: personagem principal do romance de José de Alencar, obra aliás que ostenta êste nome.

Mãe-d’água: ser fantástico que a imaginação popular diz viver nos rios e lagos.

Saci-pererê: ser fantástico, um negrinho de uma perna só que a imaginação popular criou como perseguidor de viajantes.

Ipê: nome de planta também conhecida como pau-d’arco.

Descambar: cair, derivar.

Arrojo: bravura.

Minuano: vento que sopra no pampa.

Rancheira: música típica da região sulina.

Pistóia: povoação da Itália, na Toscana, onde foram sepultados os brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial.

Catulo: Catulo da Paixão Cearense, autor das mais célebres poesias regionais de nossa literatura.

Castro Alves: Antônio de Castro Alves, poeta da geração romântica, o mais vibrante do Brasil.

Retirado do livro Conheça seu Idioma de Osmar Barbosa.CIL S/A. SP. 1971. Volume 1. Página 69.


Osmar Barbosa —  Poeta, escritor, tradutor e professor, nascido em vitória, no Espírito Santo, em 1915. Lecionou no Rio de Janeiro, na década de setenta. Colaborou em vários periódicos católicos sob o pseudônimo de Frei Solitário. Publicou numerosas obras sobre ensino e literatura, entre as quais História da Literatura Brasileira, Antologia da Língua Portuguesa, A arte de falar em público, Dicionário de Verbos Franceses, Dicionário de Sinônimos Comparados; Bilac: tempo e poesia; Colheita matinal, Para as mãos de meu amor.

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Raimundo de Farias Brito-Brasileiro filosófico

Pensador singular brasileiro, Farias Brito propôs uma filosofia do Espírito não reducionista sistematizada em seu livro O Mundo Interior.

via O mundo interior de Farias Brito — Ensaios e Notas

Pompeu e a cascavel

Pompeu e a cascavel Por José Estanislau

Fonte: Pompeu e a cascavel

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Dicas para boa interpretação textual

SUGESTÕES PARA LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

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Professor Adolfo Murilo, Santa Luzia-MG (1992).

  1. Considerar o texto como um ponto básico para as respostas, mas jamais uma fonte de solução para as questões; 
  2. usar da prática de produção de textos , da leitura de bons autores , boas obras e incrementar, bem como atualizar o vocabulário;
  3. Saber que todo texto retrata uma realidade por mais remota que seja;
  4. ter conhecimento de que uma interpretação é sempre trabalhosa, pois esta exige muito raciocínio por parte do leitor;
  5. procurar entender bem as questões, depois resolvê-las;
  6. evitar a extrapolação, pois esta se constitui em um grande erro de interpretação;
  7. não confundir reprodução e transcrição de texto com interpretação;
  8. ler o texto quantas vezes necessárias, ainda que seja para responder uma única questão ou resposta;
  9. ter consciência que responder com as próprias palavras nem sempre se alcança o objetivo desejado;
  10. não confundir resposta pessoal com resposta interpretativa, pois aquela representa uma simples opinião e esta uma solução abrangente;
  11. ter conhecimento de leitura vertical e leitura horizontal, pois uma tende para o concreto dito, a outra para o abstrato e entredito;
  12. ser minucioso e calmo ao responder qualquer pergunta ou questão, pois de forma precipitada, jamais alcançaremos o objetivo desejado;
  13. ter conhecimento da função dos conectivos quando as perguntas ou questões os exigirem ( expressões de sentido afirmativo, hipotético, adversativo etc);
  14. saber identificar e diferenciar os tipos de texto quanto a seu conteúdo: filosófico, científico, literário, jornalístico, didático, etc;
  15. identificar o tom da fala do autor (humor, seriedade, ironia ), bem como a linguagem por ele escolhida ( coloquial, formal), pois estas influenciam diretamente nas intenções e nos sentidos de suas colocações;
  16. Estar atento às intenções do autor (informar, instruir, conscientizar, provocar, criticar) e, se possível, correlacioná-las aos aspectos de sua formação e origem;
  17. ser claro ao redigir respostas, pois isto facilita o entendimento e a correção por parte do avaliador;
  18. saber que uma resposta subjetiva nada mais é do que a busca de uma resposta objetiva dentre quatro ou cinco proposições;
  19. ter aspecto lógico como fator primordial, levando-se em consideração outros aspectos tais como: psicológicos, sociológicos, econômico-sociais etc;
  20. ter certeza de que a tarefa de interpretar é bastante individual, mas o resultado tende para um ponto de convergência que é a resposta lógica de toda questão em evidência;
  21. saber que a interpretação é o resultado do comportamento e atitudes do ser humano, em confronto com seu semelhante, diante das circunstâncias que os rodeiam;
  22. o nível de interpretação de um  grupo social deve condizer com seu grau de instrução;
  23. ter consciência de que saber interpretar é desenvolver um processo muito importante para o crescimento intelectual e espiritual de cada um.

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