Mulheres Únicas – Poesia

Mulheres Únicas

lopes al’Cançado rocha, o Cristiano

imagem-mulher

Numa só mulher estão todas as outras
numa só estão todos os andares,
colares, ciúmes, penteados esculturais,
bolsas, brincos, pulseiras, batons,
lenços, semi-jóias e coloridas unhas.

§

Nos calçados, nas roupas das outras mulheres

vêem-se os da sua mulher.

§

Nossas mulheres têm sorrisos imensos,
ainda que escondidos
têm beleza sertaneja, meiguice morena
clara maciez, negritude amorosa
assentam-se na escadaria da Igreja
debruçam-se nas janelas
enamoram-se nos bares
passeiam pelos clubes
encontram-se nas cavalgadas
desfilam-se nos shoppings
amicíssimas casadas, solteiras conhecidas
percebidas e amadas; encontradas e em desperdício.

§

Não que sejam iguais, nunca serão iguais!

São irmãs e parceiras; opositoras e rivais.

§

Está em todas as mulheres a tristeza de uma só
nas novelas, nos livros, nos filmes, nas músicas
nas coreografias, desenhos, estátuas e pinturas.
um dia, esteve sua mulher numa canção
numa história não sua, numa infância platônica
todas as mulheres estarão num só romance
queimam numa só paixão, numa só saudade
gemem todas as mulheres.

§

Nossas mulheres vão à escola

ensinar-nos o que é ser mulher,

despertando-nos adolescentes paixões

elas são únicas em si e sempre as mesmas

dividem-se quando só e..

multiplicam-se quando juntas:

§

Mamelucas com cacheados crespos
mulatas de alisados loiros
ruivas com tingidos castanhos
cafuzas de trançados negros
estéreis e felizes; férteis e entristecidas
sérias e grávidas; sensíveis e menstruadas
mulheres policiais, guardas e sargentos
mulheres soldados rígidos
e delicadas freiras consagradas.

§

Há em todas apenas um chôro

um mesmo desespero quando em desamparo

sem um irmão, sem um filho, sem um pai

sem nem um namorado ou sem um marido.

§

Trazemos em nossa memória
a velha virgem num leito de morte
sonhando-se no altar à espera do noivo
cortam nas maçãs de seu rosto
duas lágrimas e explodem na cama
como se arrebentam no mundo
estrelas desprendidas do céu.

§

Não consegue ver a sua no vestido da estranha?

Nos cabelos da desconhecida não vai o penteado

de sua íntima e querida?

O perfume da que de vista se conhece

não coincide com o da sua mulher, às vezes?

E no detalhe duma sandália não expressará

a cor predileta de sua amada?

§

Pelas feiras perambulam
pechinchando e fazendo compras
com seus corpos – velas de cêra
cujas cabeças iluminam.

§

Unidas e separadas por preferências

e valores; por utopias e religiões.

§

No fim das manhãs e das tardes
na estação do trem e do BRT
são despejadas aos milhares:
brotos e botões
expansivas e acanhadas
murchas e desabrochadas
verdes e “de vez”
maduras e apodrecidas.

§

Hoje vi uma apodrecida

de rancor e arrependimento

confundiu um caso passageiro

c’o homem ideal de sua vida.

§

Vi também u’as entorpecidas
de corações aos vômitos
pelo ópio das ideologias
invertem Romeus em Rômulos*
e sentem-se perseguidas.

§

Sendo todas as mulheres uma só,

com diferentes almas

corpos e espíritos;

com parecidas origens

e semelhantes destinos…

§

Tudo podemos tão somente
por uma única mulher,
já por todas nada somos capazes.
Por isso, quanto à Mulher Única,
não vale à pena trocá-La por outra…
e nem às Outras é justo enganá-Las
Fazendo sofrer, dolorosamente…
a Sua.

***

(*) Referência ao tratado “A arte de amar”, de Ovídio.

Fotografia: Alberto Henschel. Moça cafusa, c. 1869. Recife, Pernambuco / Convênio Instituto Moreira Salles – Leibniz-Institut für Laenderkunder.

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