DA FILOSOFIA TÉORICA (E CONTIDIANA) À CULTURA LITERÁRIA E FILOSÓFICA EM GERAL – Entrevista Especial com Fernando Santos de Jesus

Fernando Santos de Jesus é doutor em educação e autor dos livros “O negro no livro paradidático”, “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” e “A radiografia de um Brasil que agoniza. ” Numa histórica interlocução, eis o registro de um estudioso respondendo às perguntas que angustiam as preocupações nacionais.

História e escravidão aqui. Em que medida podemos confiar na contribuição da Quarta Carta de Erasmo (1867-1868), escrita por José de Alencar ao Imperador, em que ele trata da Emancipação dos escravos brasileiros? Muitos interpretam que o nosso maior mestre literato defendeu, irracional e incondicionalmente, a continuidade do opressivo instituto. Gostaria de saber de sua interpretação.

Temos aqui um tema bastante espinhoso, sobretudo porque põe em xeque a credibilidade do expoente da literatura nacional enquanto pessoa. José de Alencar foi o homem que deu o pontapé inicial para uma identidade nacional, já que transitava pelo romance indianista, pelo regionalismo e pela vida cotidiana da cidade, fornecendo para os seus sucessores um rico panorama sobre as vozes do povo no período colonial brasileiro.

É importante também destacar que ele se posicionava contrário a influência política da Inglaterra sobre o Brasil, pois acreditava na autonomia do império e era protecionista na economia. Suas cartas ao imperador D. Pedro II criticava a decadência do império e sinalizava preocupação sobre aquilo que o Brasil poderia se transformar após sua queda, com uma nova formação da identidade do povo e uma dinâmica produtiva articulada com interesses externos. José de Alencar é considerado reacionário por desconsiderar as transformações do pensamento social e político de sua época, conservando o sentimento de posse dos negros escravizados como um ativo financeiro.

Nesse sentido, o literato e advogado enxergava-os como um bem nacional, protegidos pelo sistema que não os punha a toda sorte de uma vida sem as garantias dadas pelos seus donos. Poderíamos levar em consideração que se tratava de um pensamento de época, caso não houvesse um debate instaurado, onde ideias diametralmente opostas se apresentavam e demonstravam equívocos na maneira de pensar defendida por ele. Este é o caso de vários abolicionistas contemporâneos de José Alencar.

Todavia, neste complexo emaranhado de ideias, o fim do regime de fato trouxera resultados desastrosos para os negros, inseridos numa nova dinâmica que a longo prazo agudizou os problemas sociais e econômicos do país. Isto quer dizer que a defesa de José de Alencar ao regime escravocrata não se justifica sob o ponto de vista humanitário, mas a soma de suas ideias, como a salvaguarda dos interesses econômicos nacionais e a manutenção da ordem moral interna, devem ser considerados como pontos positivos na observância geral dos desdobramentos da abolição, sobretudo porque gradativamente pôs os negros em outra modalidade de escravidão, ou seja, aquela mediada pela dependência do Estado, para o benefício de grandes globalistas e órgãos multilaterais.

Grosso modo, podemos dizer que é condenável a defesa do regime escravocrata, por parte de José de Alencar, mas que as suas críticas poderiam ter constituído um bom aprendizado para adequação dos métodos da abolição e das medidas a serem adotadas imediatamente a sua efetivação.

Bom, na minha interpretação considero o Mestre Alencar um abolicionista, mas que temia, natural e humanamente, vinganças sangrentas. Segundo o poeta, pesquisador e antropólogo Antônio Risério (2012), a FNB – Frente Negra Brasileira chegou a Minas Gerais. Como a Frente teria atuado por aqui? Você saberia de alguma pesquisa entre os mineiros a respeito?

A fim de manter a fidedignidade da entrevista, não me lancei a nenhuma pesquisa posterior ao questionário, tanto para não lhes passar informações rasas, quanto para preservar o que tenho de conhecimento sobre o assunto, ou seja, deixo claro que o meu volume de informações a respeito desta pergunta está limitado ao trivial.

Até onde sei, os mineiros que aderiram a FNB se mantiveram fiéis aos princípios norteadores de fundação, e em Mina Gerais o movimento se encerrou pelos mesmos motivos que levara o núcleo nacional a encerrar as atividades. A despeito disto, é importante registrar que há um estudo de caso sobre o negro no Estado de Minas Gerais, cujo tema é “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, publicado na década de 1940 por Aires Machado. Todavia, este livro não menciona a FNB.

Da mesma forma, o livro “O Negro no Pará”, de Vicente Salles, publicado em 1971, é uma obra chave sobre a as contribuições dos negros na formação cultural da Amazônia, e ele surge muito após ao declínio da FNB sem deixar vestígios sobre a atuação deste grupo naquela região. Estes livros são importantes para revelar que em todo o Brasil e no decorrer da nossa história, houve organizações negras inclinadas para o pleito por cidadania para este grupo étnico, ou seja, independente da Frente Negra Brasileira, que se tornou o primeiro grupo organizado enquanto movimento social brasileiro, outras pequenas agremiações negras, menores e voltadas para interesses mais específicas, existiram em diversos Estados brasileiros e reivindicaram, cada um à sua maneira, reconhecimento, combate ao racismo e tratamento igualitário.

Minha sugestão para os leitores que queiram conhecer a história dos movimentos negros, é que, além do meu livro, leiam as obras de Amauri Pereira, Joselina da Silva (que foi minha orientadora de doutorado), Petrônio Domingues, Nei Lopes, Clóvis Moura e Antônio Risério. Estes autores darão um bom panorama acerca da temática, mas os seus escritos jamais devem ser considerados portadores de verdades absolutas, pois em meio aos escritos há informações imprecisas e análises orientadas segundo interesses pessoais, coletivos ou embebidas por tendências epistemológicas e ideológicas dos contextos os quais estiveram inseridos.

Com quantas pessoas explicitamente racistas você já teve o desprazer de esbarrar durante toda a sua vida?

Nunca parei para contar, mas o número é infinitamente ínfimo se comparado com a quantidade de pessoas boas as quais me relacionei ou tive contatos corriqueiros. O menor problema na vida do negro é o racismo, que quando acontece, é de forma episódica.

Há milhares de pessoas negras no mundo e a maioria delas nunca sofreu racismo. Grande parte delas sabe que ele existe, mas não faz ideia de como reagiria se fosse vítima de um ataque racista. As pessoas que vivem em função de descortinar uma atitude racista ou expor um sujeito por uma atitude supostamente racista, está embebida da ideologia “antirracista”, cega pelo ininterrupto ímpeto militante, é incapaz de perceber e reconhecer que os problemas cotidianos que afetam igualmente todas as pessoas, não possuem nenhuma articulação ou referência às questões raciais.

Vou te contar um fato; há alguns anos atrás, talvez no ano de 2012, eu fiz uma viagem ao Estado do Pará em um voo noturno direto do Rio de Janeiro e no meio do caminho uma pessoa começou a passar muito mal. Via-se os esforços e a intensa preocupação da tripulação em resolver o problema. Diante das dificuldades de ordem técnica, da cabine do piloto foi solicitado que se caso houvesse um médico a bordo, que se identificasse. Em um voo noturno as pessoas costumam dormir, ouvir música com fone de ouvido ou se ocupar de outros passatempos. Por este motivo, as comissárias de bordo estavam perguntando de poltrona em poltrona se haviam médicos nos assentos. Passaram duas comissárias por mim e nenhuma delas me perguntou. O passageiro foi medicado por um profissional de saúde não médico, melhorou um pouco e desembarcou em Belém.

Quando voltei ao Rio de Janeiro relatei o ocorrido para alguns colegas que cursavam o mestrado comigo na época, sinalizando sobre o quão prejudicial é para todos, o apego aos estereótipos sociais, e que eu poderia ser um médico e surpreender a todos, porém, pela ética profissional e não por uma resposta ao imaginário engessado daquela equipe especificamente. A maioria dos meus colegas acharam um absurdo, alguns disseram até que eu deveria me insurgir contra a companhia por racismo.

O fato é que eu não resolveria o problema, já que não sou médico, e qualquer indagação naquele momento poderia deixar as pessoas ainda mais nervosas diante da urgência. Embora tenha sido uma situação que demonstre despreparo da equipe – que não estão ali para interpretar ou julgar, sim para servir e tentar resolver os problemas decorrentes dos passageiros durante o voo, e isso requeria perguntar a todos, sem distinções –, não encarei de forma negativa e passou longe de mim ver aquelas mulheres trabalhando para salvar uma vida, como racistas. De fato, o número de médicos negros é menor do que o de médicos brancos, mas este é um outro debate.

Em sala de aula com Prof. Mauro Rosa

E instituições declaradamente racistas? Clubes sociais, de lazer, por exemplo, já foram identificados por aí, no Rio, em décadas passadas?

Ao longo da história há diversas acusações documentadas contra bares e restaurantes, ao passo que na maioria dos casos os estabelecimentos não precisam sequer fundamentar uma extensa defesa, já que a sua própria composição étnica é observável através do quadro de funcionários e pelo público frequentador, abrangendo todas as raças e tipos sociais.

Há dois anos um Moto Clube teve uma sede fechada por propaganda nazista. O caso aconteceu na zona Norte da cidade RJ. Lá foram encontrados vários artefatos contendo suásticas, drogas embaladas e material pornográfico. Coincidentemente o presidente daquele núcleo fazia musculação na mesma academia que eu e costumávamos conversar durante o treino. O rapaz nunca apresentou nenhuma antipatia comigo ou com os demais alunos negros. Para completar, ele é filho de nordestinos e o seu irmão é homossexual.

Nesta mesma agremiação há negros, orientais, mestiços e a orientação sexual dos sócios pode ser dissimulada por eles como estratégia de pertencimento. Registrado o fato, não houve indícios de que em outras filiais estejam armazenados utensílios que aludem ao nazismo. A contradição revela pelo menos duas possibilidades: A) Naquele núcleo poderia estar prevalecendo o alinhamento ideológico de um único membro, ou a de um gruo de membros, mas não de sua totalidade, e pode ser que a denúncia tenha partido desde dentro; B) Se havia consenso entre os participantes, então temos a certeza de que grupos étnicos e raciais diferentes dos brancos, podem ser racistas, inclusive contra “sua própria raça”.

Se levarmos em conta este exemplo, teremos então um oceano de perspectivas sinalizando que a hostilidade racial pode partir de funcionários, ou dos donos, de diversos estabelecimentos, o que não reflete necessariamente num ordenamento institucional, mas a conduta da pessoa. Se assim não o fosse, teríamos instituições sabidamente racistas, contrariando os princípios constitucionais e com punições diretas e baseadas nas leis vigentes.

Às vésperas de responder esta entrevista houve um caso de xenofobia no bairro da Lapa, região central da cidade do Rio de Janeiro. Um restaurante, cujo dono é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, fixou uma placa advertindo que israelenses e estadunidenses não seriam bem-vindos ao estabelecimento. O caso foi parar na justiça, os donos foram obrigados a pagar multa, mas será que responderão por xenofobia? Este fato me conduz a convidar os leitores para uma reflexão um pouco mais densa e respaldada por fatos históricos.

No ano de 2001 em Durban, África do Sul, fora realizada a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O Brasil participou enviando uma delegação que votou favorável ao rol de medidas compensatórias às vítimas destas formas de preconceito e para a criminalização de atos racistas, discriminatórios, intolerantes e xenófobos.

A Fundação Cultural Palmares, sob a presidência do Senhor Carlos Alves de Moura, publicou o plano de ação redigido e aprovado na conferência e fez questão de enfatizar que “[as] sugestões devem ser absorvidas e adotadas pelas instâncias governamentais e por todos os segmentos da sociedade”.

O tempo passou e no ano de 2022 um congolês chamado Moise Kabagambe foi assassinado por dois homens negros em um quiosque na Barra da Tijuca. O desfecho do caso determinou como crime motivado por racismo e xenofobia, enfatizando que no Brasil o racismo é estrutural. A família do jovem recebeu um quiosque no parque de Madureira, doado com verba pública (ou seja, dos pagadores de impostos, independentemente de termos uma minoria absoluta de racistas no país).

Vamos indagar: Se diante do caso ilustrado na foto, dois cidadãos, um israelense e outro estadunidense, reclamarem de “xenofobia estrutural” no país e argumentar que o Brasil é signatário do mais importante documento internacional de combate à xenofobia, como as autoridades nacionais devem reagir?

Eu sei que o bar já foi multado, mas há muitos imbecis que desconhecem e ignoram a gravidade diplomática deste fato, comentando em favor do bar nas redes sociais. Também o silêncio dos setores universitários e dos movimentos sociais, dizem muito sobre o que eles realmente são.

Para que o leitor tenha ideia da dimensão de como estes problemas tomam conta do cenário público, na universidade em que cursei duas graduações, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, desde o ano de 2005 funciona um coletivo de estudantes negros que possui uma sala doada pela reitoria da instituição. Nela os militantes associados desenvolvem grupos de estudos, eventos culturais e reuniões, atividades restritas para pessoas negras, sob o crivo da identificação racial dos membros mais sectários.

Ao vedar o acesso de pessoas de outras origens raciais ao interior da sala, o coletivo comete crime de racismo e isso acontece desde a sua fundação, com total anuência dos sucessivos reitores, chefes de departamentos, técnicos administrativos e outros setores da representação estudantil.

Portanto, é muito importante que se tenha uma reflexão muito mais ampliada e aguçada da complexidade do debate e de como as contradições demonstram a necessidade de equilíbrio analítico sobre o processo de ideologização em que o país patina. Portanto, a nível pessoal e empírico é o que tenho a dizer a respeito deste tema.

Na sua atenta leitura, em que pontos Djamila Ribeiro e Silvio Almeida estariam, mais ou menos, certos em suas respectivas visões?

Djamila Ribeiro obteve maior visibilidade em sua obra “Lugar de Fala”, donde afirma que é preciso considerar como critério de verdade o ponto de partida vivencial dos negros para relatar dores e dificuldades advindas do racismo. Não é difícil perceber que a autora escreveu este panfleto direcionado para os movimentos negros, sobretudo atuantes nas universidades, e com a intenção de escalar como liderança destes grupos, sobretudo ao ser ungida pelos partidos políticos de esquerda. Academicamente é um conceito muito frágil e serve ao dogmatismo que setores dos movimentos há algum tempo tem forçado, na tentativa de afugentar pesquisadores brancos e dominarem a pauta e o mercado racial brasileiro.

A ideia de “Lugar de Fala” exige que a vivência prática seja considerada acima de proposições analíticas feitas por quem não carrega a empiria como constatação pessoal da força do racismo. Ao invalidar análises e propostas de pesquisadores não negros sobre o fenômeno, a tese incorre nos seguintes erros: 1) O dogmatismo do empirismo consiste em desconsiderar o conhecimento que não advém da experiência. Entretanto, os conceitos não são da ordem da experiência, são faculdades do entendimento e sistematizam o que é fornecido pela intuição. O racismo não precisa ser presenciado para se saber que ele existe e que deve ser combatido; 2) Se a única forma de combater o racismo for dada pelo crivo da experiência, o ato de raciocinar sobre ele simplesmente se torna inexistente, já que o conhecimento sobre o objeto ou o fenômeno se dá por meio de sua extração da dinâmica do tempo e do espaço para entender as suas estruturas e possibilidade de funcionamento na diversidade de situações. Sujeito e substância operam de maneira necessária, isto é, como um múltiplo de intuições. Por isso os sujeitos organizam suas experiências por meio da “substância”, algo que não é empírico, mas também não é fixo na transcendência, funcionando como uma antecipação da ação por meio de conhecimentos possíveis. Os conhecimentos adquiridos através dos estudos não mudam a “substância”, mas atuam diretamente na forma de sua base (ler Kant). Por isso, confiar apenas na empiria como fonte de conhecimento e desconsiderar as estruturações racionais neste processo, não contribui em nada para um debate minimamente propositivo; 3) Ao rejeitar a contribuição de não negros no combate ao racismo, além de empobrecer o debate, deixam os negros mais suscetíveis às pessoas realmente racistas.

Do mesmo modo, a professora Conceição Evaristo cria o “conceito” de “Escrevivência”, que funciona de forma análoga ao que Djamila propõe com o “Lugar de Fala”. A confusão é tanta que ambas tentam estabelecer conceitos, mas a própria definição clássica de conceito, em Kant, refere-se a algo a priori, ou seja, substâncias que não dependem da experiência e criam estruturas necessárias para a experiência acontecer.

O debate conceitual de fato, passa muito longe das capacidades cognitivas de ambas, para compreender a complexidade epistemológica que se envolveram. Restou se aproveitar do “hype” que a esquerda viabilizou para ambas ao disseminar os seus panfletos entre os negros fragilizados pelo discurso que os torna figuras passivas diante do racismo e entre os brancos esquerdistas com eterno sentimento de culpa por terem nascidos brancos e condicionados a acreditar que são privilegiados, herdeiros de uma ordem etérea de um racismo construído alhures, mas que se manifesta imediatamente nos traços físicos que carregam. Uma loucura!

Já o ex-ministro Sílvio de Almeida, acusado de assédio sexual pela ministra Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, importa a tese de “Racismo Estrutural” dos EUA, originalmente defendida por Stokely Carmichael e Charles Hamilton.

Marxista ortodoxo, ele aplica os conceitos de estrutura, infraestrutura e superestrutura para explicar por que o racismo deve ser concebido como o pilar do mundo ocidental desde a modernidade. Em linhas gerais, a coisa se explica da seguinte maneira: A) estrutura – Constitui a base simbólica que determina as outras duas; B) infraestrutura – trata-se da base tangível e útil para a mobilidade da máquina burocrática; C) superestrutura – Constitui o funcionamento da engrenagem, ou seja, as instituições onde estão alocados os sujeitos que tracionam as leis, os conteúdos educativos, informativos e artísticos necessários para a retroalimentação do ethos social, conduzindo a estrutura ao “eterno retorno”; uma renovação do ciclo de opressões de classes que renascem nos simbolismos da estrutura, se mantem na infraestrutura e são ajustadas pela superestrutura.

Utilizando a fórmula marxista descrita acima, Sílvio de Almeida inclui o elemento racial como a base da exploração material (o continente africano como lugar dos negros, virgem e inocente até ser saqueado pelos europeus), da força produtiva (escravidão negra e subemprego após a abolição) e do rebaixamento simbólico (estereótipos negativos, desvalorização da estética, arte e cultura), conduzindo os seus leitores a entender que as instituições seculares erguidas pelo ocidente, devem ruir porque sua gênese é racista.

O filósofo e advogado não desenvolve, no entanto, uma explicação coerente de como estas bases estruturais também serviram para contrapor o racismo científico comum entre os séculos XVII e XIX, os movimentos abolicionistas pelo mundo e uma miríade de acordos internos entre governos do mundo inteiro para combater o racismo contra os negros. O senhor Sílvio de Almeida também não presenteou o seu público com sequer uma mísera linha explicando que o racismo científico não inaugurou a escravidão, ou seja, que ela existe ao longo da história e não constitui exclusividade de um povo.

Basta olharmos para a história e veremos povos caucasianos ocidentais se escravizando mutuamente. Os gauleses, por exemplo, escravizaram outros povos e mantinham a escravidão interna, o líder Vercigentórix lutava contra o domínio romano, mas também era um dominador. Após perderem a guerra, eles, os gauleses, foram escravizados pelos romanos sob o comando de Júlio César. Do mesmo modo, Hitler escravizou os judeus em seu regime nazista. Os Gulags soviéticos eram campos de escravidão para onde eram enviados os inimigos do comunismo. Geralmente para as gélidas cidades de Norilsk, Vorkuta e outros lugares com vasto campo de exploração de minério e gás. Entre os Incas a escravidão foi tão cruel quanto a dos negros africanos, chegando a dizimar outros povos indígenas concorrentes. O mesmo se pode dizer sobre a escravidão muçulmana no continente africano pré-colonial.

Será que o professor e ex-ministro Sílvio de Almeida não dispõe destas informações ou solenemente as negligências? Fico com a segunda opção.

Pelos motivos expostos, eu penso que ambos – Sílvio e Djamila – estão com a razão nos pontos consensuais entre qualquer cidadão razoável, o de que o racismo existe e ele deve ser combatido. Dito isto, os vejo como manipuladores da temática racial, adjetivados por mim de “AGIOTAS RACIAIS”, sujeitos inescrupulosos e ávidos por fama e poder, capazes de manipular e induzir ao erro outros negros, só para se manterem no mainstream acadêmico através do monopólio da temática.

Qual seria, no caso, o grau de influência da Conferência de Bandung (1955) na obra de Alberto Guerreiro Ramos, de 1957?

Hoje é comum que os correligionários da ideia de “decolonialidade” associem este “conceito” à sociologia de Alberto Guerreiro Ramos, que não está mais entre nós para se defender desta grave acusação. Fazem isso porque parte da obra de Guerreiro Ramos tece acidas críticas à dependência nacional em relação a epistemologia estrangeira. Leia-se interesses nacionais, e não a defesa de grupos que se vendem como oprimidos por não terem prosperado economicamente como os grandes centros de pensamento e desenvolvimento tecnológico.

Há várias críticas a serem feitas aos grupos “decoloniais”, porém, como este não é o objeto da questão, limito-me em deixar claro que se trata de um grupo de neomarxistas que se reuniram para monopolizar as ciências humanas do meio acadêmico dos países latino-americanos, sob a falsa premissa de uma opressão epistemológica sistêmica. Fazem isso mentindo descaradamente para os neófitos da vida universitária e pessoas inocentes e empolgadas com qualquer “novidade”, já que não abrem mão dos referenciais teóricos ocidentais. E mais, esta possibilidade de conceito jamais existiria se não fosse a filosofia clássica tão criticada por eles.

Voltando a Alberto Guerreiro Ramos, afirmo categoricamente que ele não apresentou sequer uma linha de ressentimento ao que se produzia no ocidente, ao contrário, ele sinalizava que de lá emergiram fontes universais de pensamento, ferramentas de análises indispensáveis para entender o Brasil na dinâmica dos acontecimentos globais.

No livro “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira” isso fica muito claro. Sobretudo porque ele critica o modo como os sociólogos nacionais trataram a questão do negro, sempre retirando-o da dinâmica social cotidiana e reintegrando-o repleto de vícios interpretativos, adoecendo pretos e brancos a partir da visão tematizada que uns incorporam dos outros.

Ué, mas de que modo isso não dialoga com os princípios da “decolonialidade”, já que critica a dependência epistemológica do Brasil aos países europeus e EUA? Se um pascácio te perguntar isso, diga-lhe que a crítica da dependência é relacionada ao transplante epistemológico e aos caminhos metodológicos adotados, não aos paradigmas universais e necessários para que se produza ciência social.

Um bom sociólogo deve saber que o conhecimento universal é indispensável na construção de uma pesquisa original e inovadora. O que os “decoloniais” estão fazendo é limitar o estudante universitário à uma realidade restrita e pobre de elementos estruturais, condicionando-os a viver em uma bolha de pesquisas e análises muito fragilizadas, que geralmente nem podem ser consideradas como pesquisas, já que se sabem os resultados desde a primeira linha. Cada vez mais estas atitudes têm isolado o Brasil dos grandes centros desenvolvedores de cultura, ciência e tecnologia.

Vale a pena também comentar brevemente outro de seus grandes livros; “A REDUÇÃO SOCIOLÓGIA”; Obra clássica lançada em 1958 com o intuito de despertar no brasileiro o ímpeto investigativo sobre a história e a cultura nacional a partir de uma metodologia própria e sem transplantes conceituais estrangeiros para explicar a realidade concreta do país.

“A personalidade histórica de um povo se constitui quando, graças a estímulos concretos, é levado à percepção dos fatores que o determinam, o que equivale à aquisição de consciência crítica” (p.22-23).

Segundo ele, a aquisição de consciência crítica não está solta à toda sorte de invenções e interpretações grosserias da vida a partir da própria vivência (como sugeria Paulo Freire), pois emerge da conexão entre diversas categorias assentadas no espírito e a capacidade de “apreender os seus determinantes, de tal modo que, em outro contexto, possa servir, subsidiariamente, e não como modelo, para nova elaboração” (p.63).

Logo, “A autodeterminação está (…) associada ao refinamento dos motivos da vida ordinária” (p.41). Isso quer dizer que por mais que os afazeres elementares sejam importantes na organização da vida prática, eles não carregam os equipamentos necessários para o amadurecimento analítico que permita uma nova sociologia.

Portanto, o conhecimento necessário para uma boa abordagem sociológica transita entre dispor de ferramentas universais para verificações locais, sem se sobrepor aos elementos concretos que informam particularidades e contextos históricos, e que devem estar aplicados às categorias e conceitos vizinhos ao objeto de análise.

Esta minha análise me permite ir na contramão do que o povo da “decolonialidade” anda dizendo por aí, ou seja, que a “conferência de Bandung” tenha produzido efeito determinante na obra de Guerreiro Ramos, pelo seu suposto teor anticolonialista.

Guerreiro Ramos estava para além da mera dicotomia militante que opunha “colonizadores e colonizados” em uma eterna e interminável disputa. Ele esteve debruçado nas complexidades inscritas entre as contradições das relações cotidianas e o caráter temporal dos conceitos nas explicações dos fenômenos. Por isso a sua sociologia é atemporal e dinâmica.

É importante salientar que Guerreiro Ramos foi um intelectual eclético, e um dos seus principais foco de pesquisa se inscrevia na sociologia das instituições, observando a “ciência das organizações” a partir da sua lente trabalhista. 

À vista disso, reitero que não há nada de extraordinário na conferência, a ponto de influenciar decisivamente na obra de Alberto Guerreiro Ramos, tão somente elementos de análise que se somaram ao vasto repertório teórico e conceitual que o sociólogo construía ao longo de sua carreira.

Quais seriam os distanciamentos e aproximações, que poderíamos marcar, entre a perspectiva de Ramos e a de Frantz Fanon, numa visão geral?

Há muitas aproximações entre Guerreiros Ramos e Frantz Fanon em suas respectivas obras e eu vou tentar apontar algumas delas. Também há distanciamentos, mas de forma geral, eu creio que são eles são relativos ao foco, muito mais do que e relação aos métodos.

Se analisarmos as obras; “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira”, de Alberto Guerreiro Ramos, e “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, veremos que o fundo sociológico é o mesmo, pois ambos concluem que o capitalismo terceiro-mundista é o sistema econômico que estruturou as sociedades nos seus respectivos países (Brasil e Martinica) e que, por isso, a dependência de ambos não se restringe ao modelo econômico, mas também ao conceitual filosófico.

Com efeito, a organização do ethos destes países passa pelo crivo de realidades artificiais, alheias ao que se vivencia no cotidiano das cidades. Essa relação de dependência aos modelos embalados e entregues para a população, produz psicopatologias que fragmenta o povo e causam divisão de classes, sobretudo por parte daqueles que possuem mais acesso aos bens materiais e culturais, sob a crença de que a posse do capital cultural oferecido pelos modelos hegemônicos será capaz de operar distinções entre as pessoas e pô-los em iguais condições simbólicas que os homens dos grandes centros de decisões políticas.

Na perspectiva de Frantz Fanon a elite provinciana e colonial se desterritorializa em pensamento através da adesão de uma conduta alinhada ao habitus desejado, ao passo que se reterritorializa no choque causado ao se deparar com as elites colonizadoras, quando cruzam as fronteiras físicas. No entanto, segundo ele, mesmo atordoados diante do fato de não passarem de cópias malfeitas das tendências do centro, o atraso simbólico é mantido nas colônias a fim de garantir status e poder sobre os colonizados.

Em Guerreiro Ramos são os intelectuais que mantêm a pirâmide social desfavorável para os mais pobres, uma vez que toda produção cultural, conceitual e literária, se dilui nos ordenamentos institucionais, são normalizadas e se convertem em normativas. A absorção irrefletida pela classe média a conduz a operar de forma automática os preconceituosos que criam danos aos mais pobres.

Na base desta análise, ambos se aproximam do marxismo, mas se inclinam para a subversão da perspectiva de Marx, indicando que em uma economia de base informal, de passado escravagista e colonial, o potencial revolucionário não estará na classe burguesa que, segundo eles, é reprodutora do modelo hegemônico. Logo, o lumpemproletariado seria a classe mais fiel às transformações necessárias e genuínas para impulsionar um novo modelo de sociedade, ou, nos termos de Fanon, um “homem novo”.

Os livros indicados também são interessantes do ponto de vista histórico, já que se inscrevem em contextos de lutas anticoloniais em países africanos, na emergência do debate por leis antirracistas nos EUA, na Guerra Fria, no Apartheid na África do Sul, de diversas conferências da ONU, num novo painel cultural mundial, no avanço tecnológico e diversos outros acontecimentos. No fervilhar de tudo isso, os autores mantiveram o foco em suas sociedades, mas suas lupas acompanharam as influências externas e as relações de causa e efeito que elas provocavam.

Portanto, acredito que o maior distanciamento entre as perspectivas dos autores se deva ao fato de que Frantz Fanon manteve o seu foco na questão racial, enquanto o Guerreiro Ramos analisou a sua sociedade de forma mais amplas e com maior diversidade de ferramentas conceituais, permitindo-lhe entender com mais destreza o funcionamento das instituições e como a subordinação e o peleguismo da elite intelectual brasileira foi danoso para o desenvolvimento do país.

Na sua análise, a perspectiva de Muniz Sodré, com o dito “fascismo da cor” consegue corrigir as distorções do “estruturalismo racial” de Silvio Almeida?

Não tenho como fazer essa análise com profundidade, uma vez que não li o livro. Conheço o debate proposto por Muniz Sodré através de algumas entrevistas e não percebi mudanças radicais na forma de analisar o racismo, já que ele foca na questão simbólica como elemento estruturante das relações cotidianas.

Pelo que pude perceber, Muniz é mais astuto e agrega diferentes influências para defender a sua tese, além de aproveitar o “hype” do debate em torno do conceito de fascismo, para se esquivar da alusão à sua forma histórica e datada, imprimindo sobre ele o racismo como ponto central da brutalidade humana, mesmo quando o indivíduo é negro, pois, segundo ele, o “fascismo de cor” é um projeto da “branquitude” para converter os negros em correligionários de uma ordem sistêmica racista, sem que os mesmos percebam.

Ora, não há absolutamente nada de diferente da tese de racismo estrutural, apenas algo dito de outra maneira.

No geral, o que eu penso destes trabalhos é que eles são encomendados e escritos para manter uma perspectiva política operando o poder. Embora isso aconteça, há nestes escritos diversas coisas interessantes e que agregam conhecimentos. O cuidado que temos que ter gira em torno da não adesão ipsis litteris do que estes intelectuais produzem.

Por isso eu incentivo a leitura e providenciarei este livro para que possa debatê-lo como mais elementos para a crítica. Este é um exercício salutar para todo cidadão que deseja discutir a temática, sobretudo para os que compõe os staffs governamentais e acadêmicos.

A respeito da dita “parditude”, da identidade parda. Quais suas considerações a respeito de mais esta nuance do identitarismo?

Acompanhei um pouco do debate feito por uma jovem aluna de mestrado da Universidade Federal Fluminense – UFF e não ficou muito claro o que ela exatamente queria e se realmente foi expulsa da instituição. O fato é que tem surgido uma geração de estudantes muito presunçosos querendo ganhar espaço na academia e nas redes sociais através de escândalos e da confecção de supostos conceitos. Fazem isso sem o mínimo de leitura dos clássicos sobre os temas os quais querem dissertar, e tampouco sem a reflexão necessária, isto é, sem a maturidade intelectual que uma boa crítica exige.

Pelo motivo exposto, tenho pouquíssimo interesse sobre o tema “parditude”, mas asseguro-lhes uma verdade; o mestiço sempre existiu e nunca foi um problema até ser tematizado pelo universo sociológico.

Na história, os povos sempre se relacionaram entre si, e de sua diversidade étnica e das múltiplas características fenotípicas nasciam os mestiços. Por óbvio, mestiços não são apenas aqueles que decorrem da miscigenação entre negros e brancos, há mestiços de grupos étnicos de pele branca, ou alguém seria tão grosseiro em não aceitar que da relação entre uma mulher norueguesa e um homem português, nascerá um mestiço? Embora ambos sejam brancos, originalmente há diferenças na tonalidade da pele, textura do cabelo, densidade óssea, estatura etc., todas condicionadas por várias variantes, desde o clima, herança genética, cultura alimentar e daí por diante.

Por que este fato é ignorado pelos debatedores raciais brasileiros? Porque aqui os grupos políticos se alimentam do Estado, tanto os que estão articulados com as políticas públicas focais, quanto aqueles que são eleitos no parlamento através da crítica. Pouquíssimos querem resolver os problemas mais prementes do Brasil, e por isso inventam conceitos vazios.

Para essas pessoas há um “limbo” racial para onde o mestiço fora jogado ao decorrer da história, uma vez que basicamente se fala em identidade e cultura negra ou branca. Daí decorre que os mestiços estariam subsumidos entre os negros e também apagados pelos brancos ao serem absorvidos como tal.

Veja bem, o mestiço, segundo ambas as perspectivas, passa a não existir, já que está subsumido nos grupos raciais brancos e pretos. Isso aconteceria segundo a aproximação dos traços fenotípicos em relação ao grupo que será acolhido. Na prática o que ocorre ao longo da história do país, é que as famílias agregam ou rejeitam um membro por critérios totalmente dispersos da questão racial; alcoolismo, envolvimento com crime, questões morais e contendas pessoais por inveja, dívida ou qualquer outro motivo diferente da verificação do fenótipo. A rejeição racial constitui uma realidade ínfima de casos de abandono familiar.

Logo, o membro da família que permanece unido ao seu núcleo central e expandido (primos, tios etc.), participa da dinâmica cultural do país, já que a culinária, a música ou os setores produtivos da economia manufatureira, carregam os traços idiossincráticos do Brasil que estão para além de uma única assinatura racial ou regional. Isso quer dizer que o Brasil está todo conectado e é essencialmente mestiço, isto é, a interdependência cultural é indissociada da conexão étnico-racial.

É, portanto, tautológico dizer que o Brasil é mestiço. Aliás, o mundo é mestiço. O que há de diferença são os graus de mestiçagem, ou, novamente, alguém seria louco de dizer que no casamento entre um homem do Sudão do Sul e uma mulher pigmeia do Gabão, não nasceria um mestiço?

Indo mais longe, é possível afirmar que o homem do Sudão ou a mulher do Gabão são, eles próprios mestiços. A árvore genealógica de ambos poderá revelar um alto grau de mistura étnica que a desejada pureza racial não demonstre visivelmente, levando as pessoas a se apegarem ao fator exógeno, fenotípico.

Quando se cria um conceito para afirmar identidade, em si, há a negação da mestiçagem, o que torna o conceito frágil. Ora, se quero desestabilizar o purismo racial, por que eu cunharia um conceito que dá ao pardo uma identidade, já que ele é justamente o contraponto ao que há de estático no racialismo? E outras palavras, eu não posso criar uma identidade para algo que é fluído. Ou eu proponho uma identidade unificada, mestiça, que logo cumpra o papel de exterminar o identitarismo, ou estarei criando mais uma categoria identitária e reforçando a ideia de raças puras.

Portanto, o conceito é muito frágil e não foge ao escopo do identitarismo, fornecendo elementos retóricos para os mesmos arroubos autoritários de qualquer pretensa supremacia baseada na raça, com o nazismo ou o panafricanismo.

Os próprios intelectuais socialistas que outrora defenderam, lutaram e, por fim, conseguiram implantar a dita educação popular (e revolucionária) de um Paulo Freire, de um Ivan Illich, de outro Pierre Bourdieu ou dum Jean-Glaude Passeron, assumem que as universidades hoje estão demasiadamente massificadas, porém o que falta agora é a qualidade no ensino. Os intelectuais liberais defendem uma universidade livre dos excessos socializantes e estatizantes. Já entre os conservadores há a defesa do modelo clássico, com a Paideia e as Artes Liberais por exemplo. Como o doutor Fernando se situa por esses caminhos? Quais seriam os paralelos e as convergências entre os três?

Para os ditos socialistas a universidade só terá qualidade se o currículo e a organização administrativa e pedagógica estiverem alinhados aos ideais políticos de uma suposta luta de classe. Para eles o intento é destituir totalmente uma perspectiva clássica de ensino e qualquer conteúdo diferente do que eles produzem enquanto conhecimentos e narrativas.

A meu ver, o problema posto no Brasil de hoje é o nível de imersão comunista na universidade e a dificuldade de políticos e intelectuais sérios em equilibrar esta balança e promover uma educação mais plural e menos unilateral.

Acontece que ao longo do século XX os comunistas gradativamente ganharam posições institucionais, ao passo que se preparavam para integrar as instituições e formar gerações de adeptos às suas ideias e ideais. Em contrapartida, os conservadores relaxaram, não e debruçaram para que as instituições atualizassem suas bases e diminuíssem as possibilidades de transformações radicais, que enfraquecesse as suas vigas.

O resultado foi o assentamento das bases do pensamento comunista nas instituições formativas. Isso quer dizer que quem se enxerga nas narrativas ofertadas pela educação superior as absorve indiscriminadamente e leva à frente tais ideias, encontrando apoio institucional dos seus “companheiros”. Inversamente, os conservadores não possuem redes de apoio, uma vez que o individualismo os separa, e eles se apegam aos frágeis conteúdos produzidos por pessoas sem formação acadêmica (influenciadores digitais e políticos).

Por terem se tornado axiomáticos, os conteúdos produzidos pelos comunistas nas universidades e espraiados através da arte, informação, educação e até por meio da religião, formam também os conservadores que, cotidianamente, reproduzem conceitos, frases de efeito e ideias de fundo comunista.

Hoje se tornou distintivo moral entre os que se dizem conservadores, não enviar mais os filhos para as universidades públicas e mandá-los para as privadas, como se isso fosse mudar alguma coisa. Mal sabem eles que as instituições particulares reproduzem o mesmo modelo, a única diferença é que a militância mostrada por influenciadores digitais que fazem barraco com estudantes das federais e estaduais, estão menos visíveis, são menos barulhentas.

Ao seguir a recomendação destes caçadores de “likes” que possuem interesses meramente eleitoreiros, o conservador deixa de enviar os seus filhos para as melhores universidades do Brasil. Isso implica na entrega das universidades nas mãos dos comunistas, agora com unidades por eles privatizadas, exclusivamente para fins militantes, e o pior de tudo, financiada com o erário público. Dinheiro este do próprio conservador que recusa mandar o seu filho para a universidade.

Perceba que há uma cadeia de motivos e causas, e na base dela a impossibilidade de confiar na formação de caráter do próprio filho no seio familiar. Ou seja, a possibilidade de corrupção ética, moral e intelectual se tornou motivo de interdição da ciência no nosso país, já que muitos pais sequer dão a oportunidade de os seus filhos descobrirem suas vocações profissionais. Os que possuem melhores condições financeiras e evadem para o exterior e, mais uma vez, o Brasil perde.

Veja bem, aqui nós temos uma perspectiva muita alinhada ao que Pierre Bourdieu sinalizou, o habitus das classes sociais reproduz um ethos desejado. A organização do pensamento operado nas bases políticas hoje se converge apenas na absorção e na repetição dos conceitos cunhados pelo comunismo, mas entram em divergência no método e no pragmatismo.

Se os comunistas (numa nova fase de manutenção do poder) primam por gerar conteúdos simbólicos que organizam uma práxis revolucionária, os conservadores se ocupam em se apegar aos fatos concretos como constructo da vida cotidiana. Ambas as perspectivas integram componentes importantes, o problema são os fins aos quais se inclinam e o modo de realização.

Quando um conservador se nega a avolumar o seu repertório simbólico e conceitual, crendo que lhe bastam os fatos, sem se dar conta ele está rejeitando a transcendência e reproduzindo o materialismo histórico marxista. Do mesmo modo, o comunista que se esquiva dos fatos, se esconde na suposição e na representação meramente simbólica do devir, está se contradizendo do materialismo histórico.

Kant é um filósofo essencial e atualmente mal interpretado. Para ele as coisas aconteciam a partir de uma necessidade, e a necessidade é transcendente, dispõe os conceitos e ordena a experiência. O homem só é capaz de conhecer o outro, mas o conhece por conceitos, não em sua plenitude. Para que isso aconteça é preciso existir, e a existência é mediada por outra coisa que a experiência não consegue explicar. Logo, o materialismo representa a concretude da vida, mas a transcendência representa a organização das possibilidades, o planejamento e a sistematização das ações.

Paulo Freire tinha como perspectiva instrumentalizar as pessoas mais pobres a se inclinarem para a “luta de classes”. Segundo ele, a concretude do cotidiano delas seria o informativo mais precioso da condição de oprimido que ocupavam, devendo rejeitar conteúdos que reproduzissem um ethos burguês e se alfabetizar em “dialeto próprio”, isto é, escapando da formalidade. Aos poucos estes homens e mulheres teriam “consciência revolucionária” e se oporiam aos opressores; homens, brancos, heterossexuais, europeus e cristãos.

Em vários dos seus livros Thomas Sowell parte da premissa de que nada escapa as evidências, ou seja, a comprovação prática de existência ou efetividade de um suposto fenômeno ou de um planejamento baseado em suposições. O autor não rejeita a força do simbolismo, mas adverte que se não houver instrumentos empíricos de mensuração dos seus efeitos a fim de comprovar suas implicações, eles são inúteis ao progresso, servem somente como maneira de mobilização para a servidão voluntária e benefício para os que instrumentalizam narrativas.

Apesar das ideias políticas antagônicas, em um possível diálogo entre Paulo Freire e Thomas Sowell, ficaria claro que ambos jamais renunciariam à profundidade epistemológica que permite compreender que não é possível conhecer aquilo que está fora da experiência, mas também não rejeitariam a transcendência como organização da inteligência, ou seja, de estruturas a priori que viabilizam o conhecimento.

Portanto, devemos explorar as epistemologias a fim de extrair delas o que há de interessante para o provimento de uma educação de processos e resultados positivos, em que o estudante consiga se cercar de possibilidades e não se torne um homem unidimensional (não falo aqui sob o termo utilizado por Marcuse), mas alguém realmente autônomo e capaz de desempenhar os seus papeis com perícia, ética e segurança. Os autores citados na questão apresentam elementos importantes e que epistemologicamente se aproximam, ao passo que ofertam métodos ajustados aos fins revolucionários que, em última análise, beneficiam grupos de interesses alheios ao povo.


Como seria, em resumo, uma universidade pública brasileira de excelência, no seu ideal? Pensemos, nesse sentido, em tradições, em pluralismo, consciência nacional e patriótica, na vida estudantil e no papel da UNE, pesquisa, extensão universitária e interação com o mercado e o trabalho.  

A universidade pública brasileira não é de excelência porque as suas funções foram confundidas e misturadas com a política partidária. A verdade é que o ensino superior no Brasil cresceu desordenadamente após a reforma de 1968 e os atores que passaram a nele atuar, estiveram muito comprometidos em massificar conteúdos de mobilização e organização de grupos políticos, do que em promover ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Até hoje é assim.

Penso que uma segunda reforma precisa ser feita, e desta vez combinando elementos de dissuasão para que o progressismo não se instale novamente como força motriz da gestão universitária. Isto deve ser feito através de transformações legais que retirem a autonomia universitária e que haja reforma curricular, novos parâmetros para ingresso de professores, diferentes fontes de geração de receita e rígidas avaliações que permitam necessários ajustes.

Se uma reforma desta magnitude acontecer, haverá muita resistência da oposição, mas os resultados apontarão um caminho necessário e sem retorno, já que o diálogo com os setores privados da economia e da sociedade civil se darão através de cooperação, não de submissão ou por prescrição de normas.

Quero dizer que nenhum movimento social deve ser esmagado por forças repressivas ou negligenciado pela instituição universitária, mas não deveriam compor o quadro técnico através da alocação de militantes que utilizam a universidade como plataforma política e para a fabricação de conteúdo para o usufruto de partidos políticos e para a sociedade civil organizada.

Nas áreas de tecnologia, ciências médicas, exatas e da natureza, os investimentos devem ser ainda mais pesados e o mais “desideologizados” possível. Um ambiente bem equipado, saudável, seguro, bem remunerado, epistemologicamente forte e articulado com os setores privados, pode propiciar boas parcerias, com satisfatória entrega para o pagador de impostos, estímulo para as gerações e a contenção da fuga de mão-de-obra qualificada para o exterior.

Neste diapasão não há lugar para movimentos estudantis, e as possíveis representações estudantis devem estar restritas à articulação com os setores da base ocupacional e para a resolução de questões mais simples e pontuais, visando desfavorecer qualquer vínculo de compadrio, assédio moral ou sexual e todo tipo de cooptação política. Isso não se traduz em falta de transparência ou despotismo, mas do necessário remédio amargo para que os problemas não tornem a prejudicar a universidade.

Portanto, penso que o melhor modelo de universidade para o Brasil deve salvaguardar a pluralidade de ideias e de pessoas (sem a necessidade de cotas raciais, sociais ou de qualquer outra ordem, pois elas contribuem para a formação de cartéis nas instituições), a oferta de alta cultura e diálogos de alto nível com a comunidade do entorno em projetos de extensão de qualidade, e mais um apanhado de ações orientadas para a pesquisa e para o exercício do pensamento livre de ideologia político-partidária. A universidade foi a viga mestra da civilização ocidental, mas hoje cumpre o papel de destruí-la, por isso a sua retomada é dever de todo cidadão consciente, patriota e que acredita na ordem e no progresso.

–   Fernando, conte-nos um pouco sobre sua infância, sobre a vida escolar, a convivência em família e no bairro…adolescência, divertimentos de rua, memórias e convivências.

Ah a infância!!! Não há nada mais saboroso para mim do que as reminiscências da infância.

Sou nascido e criado nas ruas do bairro do Engenho de Dentro, mais especificamente na Rua Pernambuco. Trata-se de um bairro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro em que outrora já foi um grande engenho, se transformando num bairro pacato e que algumas personalidades como o Cisne Negro, Cruz e Souza, já residiram.

A minha infância e adolescência esteve marcada pela transição de duas décadas, a de 1980 e 1990, o que me inscreve num caldeirão cultural bastante interessante, dado que o painel musical e a estético mudaram bastante nos anos de 1990, mas a notalgia dos anos de 1980 ainda estava indisfarçável na alma do brasileiro em fase adulta naquela década.

Quero dizer com isso que por ter sido uma criança que mesmo tendo todas as experiências das pessoas da minha idade, também estive muito conectado ao mundo adulto, absorvendo muitos elementos culturais dos anos de 1980, ao passo que vivia o acesso mais acelerado a tecnologia, nova estética musical e tantos outros bens simbólicos. Além da observância da escalada da violência e da pauperização dos cidadãos, com o crescimento das favelas, o declínio da educação e o aumento da corrupção na política.

Venho de família numerosa, somos 9 irmãos, entre 4 mulheres e 5 homens, um número infinito de primos, tios e agregados. Destes 9, além de ser o mais novo, sou temporão, nascido aos 45 minutos do segundo tempo, quando os meus pais já tinham 47 anos. Hoje a minha mãe tem 92 e caminha para os 93, com muita saúde, graças a Deus. Já o meu pai faleceu em novembro de 2000.

Por este motivo, eu brincava com as crianças na rua, mas tinha amplo contato com os amigos da família, todos já adulto. Fui alfabetizado em casa pelos meus irmãos e quando fui para a escola já sabia ler e escrever. Me recordo de um jogo de conhecimentos geográficos que me ajudou muito a acumular muitas informações sobre diversos países, despertando em mim o desejo de conhecer o mundo.

Eu adorava ir para a escola, e desde os anos iniciais eu fiz amizades que perduram. Na minha primeira escolarização, na década de 1980, eu estudei na Escola Municipal Tobias Barreto, onde se preservavam fortes valores morais e eu tomei gosto pela leitura e pela escrita, mas também pelos esportes.

Aos 9 anos de idade eu já era atleta de futsal do Social Clube Marabú, disputando o campeonato carioca na categoria fraldinha, depois pré-mirim e mirim, quando fui jogar pelo América Futebol Clube na modalidade de futebol de campo. Aos 16 anos fui dispensado pelo clube porque na minha posição (lateral direito) havia um atleta com melhor compleição física.

Na adolescência eu também iniciei minha incursão nas artes marciais, tendo treinado luta olímpica, a famosa “luta greco-romana”. No meu bairro tradicionalmente há muitos atletas de Jiu-Jitsu e Judô, e logo fui estimulado por eles. Mais tarde iniciei na capoeira e no Jiu-Jitsu. A capoeira eu abandonei, mas a arte suave eu pratico até hoje.

Durante aqueles anos eu dividia o esporte com os estudos e o gosto pela música. Sempre adorei rock n roll, blues, jazz e bossa nova. Aprendo música desde os 9 anos de idade, quando iniciei com um violão emprestado pela minha madrinha, até ganhar um de presente, dado pela minha mãe, aos 14 anos.

Não tive muitas dificuldades durante o meu processo de escolarização, mas amarguei uma reprovação no ensino fundamental ocasionada por problemas de disciplina, que me faziam faltar aulas para jogar futebol e fez cair o meu rendimento nas matérias. Me recuperei e passei a me interessar pelos estudos como antes, obtendo resultados positivos adiante.

Sempre gostei de conhecer novas palavras e me interessava muito por geografia. Atravessei a infância e a adolescência conciliando as brincadeiras com os amigos e certa visão de que deveria absorver conhecimentos e guardá-los no espírito, por isso sempre quis diversificar o aprendizado em instrumentos musicais (baixo, violão, guitarra e percussão) e diversos estilos de música, a disciplina e filosofia do esporte e todo conhecimento geral que me fosse possível.

Na adolescência fiz parte de uma banda afro (Olorum) que se apresentava em várias festas públicas nos subúrbios da cidade. Depois montei a minha primeira banda de rock, com o mesmo baterista que toca comigo até hoje.

Tudo isso me conduziu para uma convivência em diversos meios sociais, um trânsito que mais tarde contribuiu para oportunidades de trabalho e socializações que eu jamais teria se não tivesse tido uma infância tão rica em cultura.

No geral, foi uma infância de pouquíssimos recursos materiais, dificuldades financeiras, mas riquíssima em cultura, afeto, amizades, e tudo de ruim que aconteceu – como a morte de vários amigos que se envolveram com a criminalidade ou com uso excessivo de drogas – não rebaixa a qualidade da minha infância e adolescência no cômputo geral da vida.

Hoje eu sinto muita falta da convivência intensa e harmoniosa que tínhamos com os vizinhos, os amigos de bairro e os visitantes. Foram incontáveis os sábados com uma boa pelada no asfalto pela manhã, o baralho no início da tarde, a conversa fiada no paralelepípedo e o violão entoando as músicas da Legião Urbana, dos Paralamas do Sucesso, dos Guns N Roses, Alice In Chains, Bon Jovi e afins.

Para finalizar, registro que eu gostaria muito que as atuais e futuras gerações pudessem experimentar uma infância menos tóxica; de mais amizade, mais presença física, menos politicamente correto e mais afeto. Por mais que atualmente tenhamos mais acessos aos espaços esportivos e culturais, conexão com o mundo através de redes sociais e sites de notícia, plataformas de entretenimento e mobilidade urbana; o vazio existencial, a dispersão religiosa, o esfacelamento da ética política e o rebaixamento cultural, nos obriga a olhar para trás e resgatar os melhores valores morais e as formas mais genuínas de relacionamento. Penso que isso seja urgente, caso contrário naufragaremos para uma dimensão inimaginável de ausência total de socialização.

Gostaria de saber um pouco de sua experiência com a capoeira. Quais seriam suas considerações de entendimento histórico-cultural e, claro, suas percepções sociológicas sobre a arte, sobre os princípios, os valores e a disciplina dos capoeiristas propriamente. Pergunto: o que as outras organizações e associações civis brasileiras poderiam aprender, em teoria e prática, com uma escola ou um grupo formal de capoeiristas?

Conforme registrado na resposta anterior, treinei capoeira durante um tempo, aproximadamente cinco anos, mas depois me afastei, e o motivo esteve ligado às novas dinâmicas que as agremiações têm tido com ela. Grosso modo, posso dizer-lhe que a capoeira, em muitos casos, passou a ser superexplorada comercialmente no seu aspecto expositivo. Registra-se que isso acontece em escalonamento e confunde-se com “sobrevivência” da arte e das próprias pessoas envolvidas.

Quando os primeiros grupos de capoeira surgiram no Rio de Janeiro, havia uma grande rivalidade entre os grupos que adotavam estilos diferentes. Os grupos que utilizavam o cordel com as cores da bandeira nacional como forma de graduação, estavam assentados em zonas mais pobres da cidade e dos municípios da região metropolitana. Já os grupos com outra forma de graduação e a utilização de corda, estavam mais presentes no subúrbio da central, centro e zona sul.

A divisão socioeconômica da capoeira foi fundamental para a sua internacionalização em massa desde os anos de 1990. As escolas situadas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro eram frequentadas por pessoas com maior poder aquisitivo e profissões mais valorizadas. Logo, médicos, empresários, advogados, universitários e afins, passaram a treinar capoeira ou a matricular os seus filhos. Por óbvio, o público letrado e economicamente bem situado, é melhor articulado, esteticamente mais apresentável, dominam outros idiomas e podem pagar mensalidades mais altas.

Esta dinâmica começou a atrair os estrangeiros e muitos optavam por ciar vínculos mais duradouros. Daí surgiam relações “amorosas” e possibilidades de intercâmbios ou empregos fixos para ensinar a arte para os estrangeiros em seus países de origem. Foi assim que as filiais se expandiram mundo afora e a capoeira passou a ser incorporada como estilo de vida por pessoas de várias origens ao redor do planeta.

Com a internacionalização e profissionalização, sobretudo a partir da década de 1990, o jogo-dança e luta-esporte que surgiu como instrumento de defesa contra o poder senhorial no período colonial, transformou-se num elemento cultural de penetração em várias vertentes artísticas. Enquanto isso, mestres mais velhos e tradicionais sucumbiam ao ostracismo e perdiam os alunos mais habilidosos para os centros de treinamento de grife (Centro Cultural Senzala de Capoeira – Mestre Peixinho, Abadá Capoeira – Mestre Camisa e Capoeira Brasil – Mestre Boneco), sendo relegados a apresentações de rua e aulas para projetos sociais em ONGs e praças públicas.

Não podemos esquecer que aquele período (entre 1996 e 2007), séries como “Malhação” faziam muito sucesso e propagandeavam um estilo de vida despojado e cheio de gírias e gingas, marcando uma idiossincrasia do carioca. Em diversos episódios a prática esportiva da capoeira este no centro da trama. Inclusive os filhos do Mestre Boneco (Capoeira Brasil) iniciaram no mundo da telenovela, fazendo muito sucesso como jovens galãs do estilo capoeirista da zona sul. A partir de então muitos artistas e esportistas do MMA começaram a treinar.

O mesmo observei nos grupos de capoeira Angola, sobretudo no ima que esta perspectiva tem em atrair pessoas artificiais, alunos que nela buscam uma válvula de escape para um “mundo totalmente opressivo”, levando para o interior da agremiação uma perspectiva política que nega o teor conflituoso do mundo e tenta constranger as pessoas de opiniões contrárias a não estarem ali porque em tese a capoeira angola deve se restringir ao séquito que crê numa “luta anticolonial” e “antirracista”, transformando o universo da capoeira numa sigla de esquerda, como se somente eles fossem contrários ao racismo ou a dominação cultural estrangeira.

Ao perceber toda esta dinâmica e considerá-la predatória, motivo de muita inimizade, fofoca e propaganda política, decidi não treinar mais capoeira. Me afastei completamente deste universo, mas penso que se temos que aprender algo com a capoeira em si, que olhemos para as antigas escolas, onde havia disciplina e honra, valores inegociáveis para os mestres do passado, que não comercializavam o seu povo e não rebaixava a moral dos seus adeptos.

Embora esta dinâmica seja muito ruim e de fato tenha ocorrido, a capoeira, de modo geral, é uma cultura nacional e que agrega pontos muito positivos na vida das pessoas, desde a prática esportiva – que engendra a busca por uma vida saudável – até o seu ter gregário, lugar de encontros, amizades e mobilidade social.

A minha experiência não se resume aos fatos negativos sinalizados acima, pois também vivenciei momentos mágicos de aprendizado e de absorção de conhecimentos que só são viabilizados nas conversas e rodas de capoeira. Sou muito grato por aquele tempo em que pude praticar este esporte e pelas amizades que perduram a partir dela.

Não poderia deixar de escrever tais críticas porque nem tudo são flores e não posso negligenciar o que vivenciei naquele período e o que posso concluir a partir de análises sobre fatos públicos e notórios. É claro que talvez as minhas observações sejam centradas no universo da capoeira na cidade do Rio de Janeiro. Porém, observei um cenário degradante em Salvador, cidade repleta de “capoeira show”, isto é, praticantes da arte fazendo exibições em praças públicos para estrangeiros e nacionais contribuírem com o que lhes apetecer. O problema reside na forma intimidatória e na relação belicosa entre eles para fatiar o espaço de atuação e o montante arrecadado.

Por este motivo, peço aos leitores que entendam as críticas como construtivas, porque de nada adiantará falar apenas do lado positivo da capoeira ou romantizá-la, como se vivêssemos um looping histórico de traços que ficaram nos séculos passados, e um jovem observar muitas contradições e excessos que o levará à execração da cultura, antes mesmo de uma análise mais sóbria e equilibrada. Isto quer dizer que é sumamente importante que, antes de tudo, saibamos que a capoeira é feita por seres humanos e os mesmos, em sua diversidade, são falhos.

Música. Sinta-se livre para escrever a respeito de sua relação com ela.

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A minha relação com a música vem de infância, como mencionei acima. Desde a infância eu me impressionava com a beleza das melodias e das letras de Gonzaguinha, Djavam, Guilherme Arantes e da guitarra de Celso Blues Boy, Jimi Hendrix, Steve Ray Vaughan e outros.

Na minha casa todos sempre gostaram de música, mas os meus irmãos nunca quiseram aprender um instrumento musical. Foi na convivência com os meus vizinhos e com o meu primo Marquinhos que eu comecei a tocar um instrumento, neste caso o violão, mais acessível e comum no bate-papo de início de noite no nosso bairro.

Naquele tempo era comum comprarmos revistas com músicas cifradas, pois elas eram vendidas em bancas de jornais e era a maneira mais objetiva de alguém que estava aprendendo música a tirar a canções que gosta, já que para “tirar a música de ouvido” requer um pouco mais de experiência, não havia internet e uma escola de música era muito cara, não podíamos pagar.

A perseverança era tamanha, porque nem sempre eu podia trocar as cordas do instrumento, fazer algum tipo de manutenção para deixá-lo mais confortável quanto a tocabilidade, quiçá comprar um de qualidade superior. Nada disso me impediu de aprender, e vagarosamente eu fui me entrosando com o instrumento e conseguindo acompanhar os amigos e o meu primo.

No início da adolescência arrumei uma guitarra emprestada e montamos a nossa primeira banda, os Antissociais, com um grande amigo de escola (Andrey) na bateria, meu primo Marquinhos na guitarra, o vizinho Márcio Zaca no vocal e eu no baixo. Pois é, eu comecei tocando o baixo, instrumento do meu primo e ele tocava a guitarra que eu peguei emprestada.

A banda era boa, tocava muito punk rock e trash metal (Ratos de Porão, Sepultura, Bad Religion, The Offspring) e músicas autorais, com letras escritas por mim. Com esta formação e repertório, chegamos a tocar em alguns lugares da cena alternativa do rock carioca, como o antigo Bar da Rosa, Bar do Português, Garage, Universidade do Rock e no festival de rock do colégio SENAC.

Quando a banda acabou, eu e o Andrey, o baterista, formamos a banda Declive Urbano, com Mr. Break no vocal e André Jacaré no baixo. Desta vez eu estava na guitarra. Tocamos em alguns lugares e eventos, mas a banda também acabou, desta vez desgastados pela relação complicada com o baixista, que há alguns anos veio a falecer devido uso de drogas.

Aliás, drogas é um tema muito importante para mim. O universo musical é repleto de pessoas que abusam das drogas e do álcool, e no meu tempo de adolescente era ainda pior. Apesar de estar presente neste universo desde cedo, nunca fui usuário de drogas e não consumo álcool excessivamente, bebo apenas cerveja e em pouca quantidade. Já tive muitos problemas com outros músicos por conta disto, porém, nunca com os que aqui citei, pois eles também não usam drogas.

Desde aquele tempo o meu primo Marquinhos foi para outra dimensão musical, começou a tocar com o Tchakabum (grupo de axé) e depois se tornou baixista do cantor Dudu Nobre, deslanchou a carreira com músico e produtor musical tocando com artistas de pagode, dentre eles; Belo, Mumuzinho, Grupo Molejo, Arlindo Cruz, Gruo Revelação, Leandro Sapucahy e vários outros. O Mr. Break se tornou rapper e tem boa aceitação no mercado musical, mantém parceria com os cantores Filipe Ret e Marcelo D2.

Eu e o Andrey seguimos juntos com bandas de Reggae, Samba Rock e Rock, até nos separarmos e ele ir tocar com outras bandas. Neste entremeio eu fiz algumas gravações com músicos independentes e cheguei a compor a banda da vencedora de um prêmio oferecido pela companhia de energia elétrica AMPLA, nos dando o direito de tocar com o Monobloco e a Fernanda Abreu em uma das maiores casas de show do Brasil na época, o Citbank Hall.

Na primeira metade dos anos 2000 eu também toquei e gravei com a banda MAU e acompanhei o músico de Samba Rock, André Severo, com qual eu gravei os contrabaixos de um de seus discos e toquei em algumas casas de shows da cidade do Rio de Janeiro. Também fui músico do Grupo Cultural Reconca Rio, tocando viola caipira e tendo participado de vários eventos pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Apesar de ter estudado um pouco de jazz e blues, não cheguei a tocar com bandas destes gêneros musicais que tanto amo. Fiquei um tempo parado de tocar com banda, já que precisei me ausentar do Estado do Rio de Janeiro para cumprir disciplinas do doutorado, em Fortaleza. Quando retornei formei a banda The Seven One, com o Osvaldo na bateria, um amigo que estudou filosofia comigo na UERJ, os amigos de infância, Márcio Zaca no vocal e Cláudio Gonçalves no Baixo, além do filho do Márcio, Ryan, na guitarra. O grupo fez algumas apresentações e perdeu força quando fui convidado pelo amigo baterista, Andrey me convidou para formar a banda Los Artanas, junto com o mesmo vocalista, Márcio Zaca, e o baixista Hélder Montenegro, que também já conhecia desde a adolescência.

A banda Los Artanas emplacou na cena alternativa do Rio de Janeiro e segue ativa, porém, com nova formação, Carlo Di Carvalho no vocal e Cláudio Gonçalves no baixo. Temos tocado em diversos eventos particulares e pubs da cidade. Aos leitores da página peço que nos siga no Instagram: @losartanas. https://www.instagram.com/losartanas/

 Portanto, a minha relação com a música é vital, não escreveria estas linhas sem estar ouvindo música, não raciocino sem música, não estudo sem música, não fico um dia sequer sem pegar nos meus instrumentos, quando viajo sempre procuro uma loja de música, um instrumento para tocar ou dou uma canja com os artistas locais. A música faz parte da minha vida tal qual a hidratação ou alimentação.

E quanto ao humilde, gigante e já saudoso Gustavo Ribeiro de Moraes, o pai de cinco, deixe suas palavras.

Com Gustavo de Mores, o pai de cinco. Ambos fundadores do PL – Integração

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Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante com se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contava”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundado e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.

Convivi um tempo considerável com o Gustavo nos últimos dois anos, sobretudo em virtude da criação do PL Integração, grupo surgido no interior do Partido Liberal a fim de dar mais visibilidade na atuação de pretos conservadores, ou seja, um espaço para o acolhimento, debate e aprendizados sobre a pauta racial e o demonstrativo de que é possível ao preto escolher a tendência política que lhe apraz, diferente do progressismo, que o aprisiona na perspectiva esquerdista. O PL Integração não tem tido êxito e por culpa exclusiva do PL, mas isso pode ser debatido em outra oportunidade e com a apresentação dos motivos pelos quais penso que o PL deveria investir melhor na proposta.

Durante o período em que viajávamos juntos na construção do PL Integração, Gustavo sempre me contava histórias engraçadas do tempo em trabalhava numa empresa de vendas, pela qual já esteve por algumas cidades brasileiras. Falávamos também sobre a possibilidade de ele fazer um curso superior de história, eu o incentivava bastante a isso sob a crença de que seria uma oportunidade para ele qualificar o seu trabalho de redes sociais e passar a ser um pesquisador iniciante, por conseguinte, se blindando das críticas por não ter curso superior.

A respeito disto é interessante com se dá o complexo debate e torno da questão. Há algum tempo a esquerda adota a perspectiva da “decolonialidade” como produção de conhecimento válido e em substituição ao legado epistemológico ocidental, que supostamente solapa saberes tradicionais de povos originários de antigas colônias.

Deste arrazoado surge a ideia de conferir autoridade acadêmica para o que narra as pessoas que desenvolvem trabalhos específicos em espaços informais não legitimados como produtores de conhecimento. Pais e mães de santo, pajés, lideranças quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, mestres de capoeira, travestis e afins, passam a compor um rol de grupos aptos a dar um tom de profundidade e importância vital na vida pública para aquilo que proferem.

Ao passo que isso acontece, figuras de real notório saber são descredibilizadas pela não obtenção de título acadêmico. Caso do filósofo Olavo de Carvalho, que usava da prerrogativa de profunda imersão nas leituras de obras filosóficas para assim se intitular, já que é ambígua esta titulação, levando em consideração que o surgimento da cadeira de filosofia na academia, não marca o surgimento do filósofo, apenas formaliza e o profissionaliza.

Outro fato interessante neste debate é que a esquerda sempre reverenciou sujeitos de notório saber, caso do rábula Luiz Gama. Na verdade, o notório saber sempre contribuiu enormemente para a formação do brasileiro, sobretudo nos rincões do país. Em consequência disto, vemos o crescimento exorbitante de campus universitários espalhados pelas regiões mais recônditas e a premiação de lideranças artísticas e culturais com a titulação “honoris causa”, aproximando-os das universidades a fim de dar um tom democrático para aquele espaço e fazer com que o brasileiro comum passe pelo crivo da doutrinação acadêmica.

É neste espírito de confusão e oportunismo, que o trabalho do Gustavo cumpre um papel muito interessante nas redes sociais, dado que se concentrava em tornar visível que a historiografia nacional opera em torno de recortes convenientes ao grupo político dominante no meio acadêmico e que também controla o ethos nacional. Embora ele não dissesse exatamente isso (que está em muitos autores, como Nietzche, Eric Voegelin, Thomas Sowelle e outros), é o que se conclui ao ver que o seu quadro mais importante nas redes se intitulava “A história dos negros que não te contava”, apresentando personagens históricos que poderiam ter relevância no imaginário nacional, mas foram tornados esquecidos e substituídos em virtude da dificuldade de alinhamento ideológico aos grupos políticos que contam a história oficial do país.

Seu trabalho carecia de método e ainda era incipiente, uma vez que era produzido exclusivamente para as redes sociais (com linguagem informal e conteúdo reduzidíssimo) e as suas fontes eram os sites de outros influenciadores, de pesquisadores em formação e alguns fragmentos de obras clássicas.

Entretanto, é extremamente possível aprofundar estes conteúdos a partir do que o Gustavo propusera. Por este motivo, eu classifico a sua página como muito mais relevante do que grande parte do que circula nas redes, pois como o primeiro contato para confrontar visões, suas postagens cumpriam com excelência o papel de deslocamento dos sujeitos. Todavia, para preencher lacunas históricas em espaços formais e constituir uma referência válida, seus conteúdos carecem de aprofundado e devem ser bem subsidiados por conhecimentos produzidos à exaustão de possibilidades e por pesquisadores experientes.

Gustavo era uma excelente pessoa comigo, além de se mostrar muito inteligente, intuitivo, perspicaz e de boa índole. Me parecia ser um pai muito atencioso com os filhos e querido pela família e amigos. Fui ao seu velório e os presentes expressaram todo o seu pesar, me transmitindo essa sensação, que é o que realmente eu carrego dentro de mim.

Os meus votos é para que ele esteja em paz com Deus e que a sua família prospere. Eu sei que a dor da saudade é imensa – perdi o meu pai há 26 anos –, mas acredito que o desejo do Gustavo seja que os seus filhos, esposa, mãe, irmãos, primos, tios e amigos, continuem as suas respectivas jornadas com alegria e empenho para melhorar de vida e entregar para o mundo o que de melhor está contido em suas potencialidades.

Gustavo foi um grande homem, era um pouco mais jovem do que eu e tinha o mundo pela frente. Foi uma profunda tristeza a sua partida tão precoce e, sobretudo, pelo fato de sabermos que esta pessoa tão bem-intencionada se punha no caminho de contribuir para que a vida de tantas outras pessoas pudesse ser melhor através dos seus chamados pelas redes sociais. Portanto, deixo registrado o meu carinho e presto as minhas condolências ao Gustavo, à família e todos os amigos, desta vez de forma escrita. Espero que os seus conteúdos de redes sociais sejam aprimorados e continue despertando pessoas pelo nosso país.


Considero o Gustavo um exemplar leitor crítico e comunicador. Muitas análises dele ainda podem ser aproveitadas.  E a respeito do professor Mauro Rosa, que tens a dizer?

Conheci o professor Mauro no ano de 2023 através do trabalho de assessoria parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ. No início tínhamos uma relação cordial mediada pela obrigação do trabalho. A rotina e as responsabilidades atinentes à comissão de educação nos puseram em um contato de maior aproximação e conduziu-nos ao estreitamento dos laços de amizade.

Desde o início o que mais me causou admiração no professor foi a sua elegância diante de conversas complexas, sobretudo porque o nível de erudição diluído na simplicidade das explicações, ganhava tônus através da humildade em ouvir respeitosamente os argumentos alheios e em tons suaves sugerir olhares mais analíticos diante das discordâncias, ou seja, sempre sem agressividade ou ruptura de diálogo.

No decorrer desta relação de amizade e admiração, o professor passou a me convidar para os participar dos seus projetos, até que me tornei um componente ativo na contribuição para o desenvolvimento deles. Não tenho dúvidas de que isso tenha se dado pelo fato de que temos perspectivas políticas, filosóficas e pedagógicas muito parecidas.

O professor Mauro tem larga experiência no meio acadêmico e profissional, conhece profundamente a história e a literatura nacional, além de ser expert em administração pública. Tudo está comprovado pela produção literária, trajetória profissional e pelo legado material e simbólico que o mestre constrói ao longo de sua vida.

Diante disto, e da sua entrega ética, eu o vejo como um dos homens mais capacitados para assumir uma posição estratégica na política nacional. O professor Mauro possui todos os atributos que parte substancial dos políticos eleitos desde a primeira eleição direta após o regime militar, não possuiriam nem se nascessem novamente. Raras são as exceções e os poucos que os tinham, foram ostracizados ou rebaixados moralmente pelo sistema através das mídias. Caso do Dr. Enéas Carneiro.

Conforme já sinalizei, há uma gama de projetos autoriais do professor Mauro em andamento. Todos eles são de iniciativa própria, sem nenhum apoio por parte de empresários ou políticos, e o professor faz questão de mantê-los assim para que não sejam contaminados por políticos de má índole e suas eternas promessas, a avidez por lucros e desinteresse pela autonomia da população. Obviamente que isto tem sido motivo de muita inveja e ressentimento por parte de indivíduos ligado a política partidária, se desdobrando em diversas tentativas de enfraquecer o seu trabalho.

Todos os projetos do professor Mauro possuem enorme potencial transformador, uma vez que operam com profundidade na seara do conhecimento e proporcionam autonomia para as pessoas. Aliás, desconheço no meio parlamentar e no terceiro setor, projetos que tenham a força transformadora daquilo que propõe o professor Mauro. Além da genialidade, mais dois motivos são preponderantes para a ausência de projetos educativos da mesma envergadura do que propõe o professor: 1) A falta de preparo e equipe especializada por parte dos parlamentares brasileiros, para propor ações de natureza similar; 2) A falta de vontade política para proporcionar deslocamentos positivos e transformações concretas no seio da sociedade.

Apesar das dificuldades que o professor tem encontrado para dar continuidade ao trabalho, há substancial e efetiva adesão por parte de pessoas preparadas e dispostas a lutar por um Brasil melhor, sobretudo nos interiores do Estado do Rio de Janeiro.

Geralmente se aproximam do professor as pessoas bem formadas, educadas e de famílias tradicionais nas cidades em que residem. São cidadãos estão enfraquecendo a esperança no Brasil devido os escândalos da atual política. Fartas de tanta incoerência e corrupção, desaprovam sobejamente a eleição de jovens performáticos e influenciadores digitais, optando por credibilizar a experiência e a solidez de bons projetos de quem tem trajetória profissional e educacional de excelência.

Tenho absoluta certeza de que o Brasil tem desperdiçado os melhores talentos e isso ocorre porque, de um lado, a vaidade, o medo e a ganância de políticos profissionais inviabilizam a assunção de novos atores; de outro, a distração do povo e a adesão imediata ao que está na superfície dos problemas, dificulta que os bons projetos floresçam. Tudo isso interdita o país, rebaixando a sua moral, a sua cultura, a sua inteligência, o seu espírito e a sua produção.

O professor Mauro é uma mente prodigiosa acoplada em ser de caráter ilibado e um corpo fortalecido pelo espírito aguerrido de quem sabe que o caminho não é nada fácil; que o reconhecimento muitas vezes acontece postumamente, mas que nada disso pode impedir-lhe de ter coragem. Nenhum homem produz algo realmente revolucionário (no emprego correto da palavra) sem se preparar e sem se testar. 

Definitivamente, hoje o professor Mauro é um dos meus melhores amigos, mas eu não escrevo estas linhas para agradá-lo, e sim como um homem estudioso e justo, que sabe reconhecer o verdadeiro valor da vida, da guerra e da morte. Tenho um profundo desejo de ver triunfar todos os seus projetos e se possível continuar fazendo parte de sua equipe.

O professor Dr. Mauro Rosa é um grande expoente da cultura e da educação, um homem que deve ser aplaudido de pé e valorizado, a ele devemos todas as honrarias e orgulharmo-nos diante da certeza de que em nossa amada terra ainda existem homens brilhantes, varonis e éticos, capazes de sacrificar o próprio patrimônio material pelo bem comum.

Ao leitor que ainda não conhece o professor Mauro, deixo aqui o arrouba do seu Instagram para que possa se deleitar das análises e conhecer os projetos de que tanto falei nestas linhas: @prof.mauro.rosa.

Ao professor Mauro, todas as reverências de um amigo fiel e admirador do importante e necessário trabalho realizado em benefício da população brasileira, sobretudo a fluminense, que recebe de forma direta e objetiva os benefícios dos seus projetos.

As análises do professor Mauro Rosa realmente são de alta relevância. Recomendo a todos. Para finalizar, Esperança?

É a última que morre, diz o ditado. “Enquanto há vida, há esperança”; e para mim esta é a tradução perfeita para o bem viver, pois na medida em que perdemos a esperança e a fé, enfraquecemos o nosso espírito.

Portanto, eu tenho a esperança de que o mundo melhore, as pessoas se tornem mais inteligentes e nenhum absurdo seja tolerado. Que haja equilíbrio na política e na economia global.

Em âmbito mais específico, oro para que o Brasil resolva suas questões éticas e morais, fazendo florescer uma cultura mais leve e saudável, no entanto, sem deixar de punir os que das melhores normas de convivência se afastarem. Nesta equação, o meu senso de justiça está assentado no clamor por severas sanções para políticos envolvidos com corrupção e bandidos de todas as ordens (assaltantes, homicidas, estelionatários etc.).

Pode parecer clichê, mas Brasil precisa de mais educação, saúde, infraestrutura urbana, oportunidades de emprego, moradia para os mais necessitados, segurança, menos burocracia, liberdade econômica e estabilidade política, elementos fundamentais para que possamos estar desinterditados.

Nesse sentido, a minha esperança ainda reside no retorno a sã política, na abertura para que os homens com o professor Mauro – experientes, preparados e bem-intencionados – tenham a chance de mostrar o valor do brasileiro que ama o seu país e o seu povo.

Com sua mamãe Dona Eunice.

FIM

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

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