( Sobre cultura e nossas questões étnicas)

Alguns importantes nomes tenho acompanhado há mais de três anos, pelos esforços humanísticos e, por isso, não menos patrióticos, conscientes e raciocinantes. Dois deles são Fernando Santos de Jesus e Gustavo Ribeiro de Moraes.
Vamos pela ordem. Conhecer um cidadão também por sua escrita, além de vê-lo por vídeo ou ouvir sua voz em mensagem de áudio, fascina a todos os que valorizam o conhecimento e a vida. A escrita nos transmite um sentido de… “mensagens cravadas”. Ensinaram-me que a poesia é a síntese do homem contemplativo e sensitivo. No caso de Fernando, em sua prosa e dissertação teremos a analítica de suas vivências, pesquisas e reflexões.
Em sua obra “Abrindo a Caixa Preta: os Movimentos Negros e o Globalismo” (2022, edição do autor), o carioca de Engenho de Dentro se apresenta já demonstrando seu bom manejo na arte da sociabilidade. Vindo de uma família humilde e extensa, tornou-se doutor, professor e pesquisador não sem antes viver a música, a capoeira e a cidadania participativa. Após formar o ensino médio, trabalhou como auxiliar administrativo. Passou pela UFRRJ por 4 períodos, onde tomou contato com a literatura de questões raciais, e depois ingressou na UERJ, quando sentiu na pele o movimento estudantil. Participou de congressos, viveu, testemunhou e, como ele mesmo escreve, “encheu-se de reminiscências que dariam outro livro”. Fez o seu trajeto como faria qualquer brasileiro típico que adolesceu na década de 90: sobreviveu a juventude até o início dos anos 2000; estudou, parou; voltou a estudar e conseguiu se mobilizar socioculturalmente durante a segunda década deste século.
Sobre o apelido Senzala? Está lá na página 12. Mais por aspectos gregários do que pela temática espinhosa deste escravo da liberdade. Repetimos: tratamos de um cidadão participativo, familiar, amigável. Por isso, suas vivências amistosas já são sua extensão à vida acadêmica.
Doutorou-se no Ceará e lá testemunhou os tentáculos do globalismo, digamos, racialista e causador de mais injustiças. Estudou a Conferência de Durban (2001) e os respectivos efeitos das conhecidas deformações, também no Uruguai. Entrevistou em Brasília, perquiriu, pesquisou, investigou. E o que mais nos admira em Fernando Santos é a sua cristandade de não guardar ressentimento dos ex-colegas que permanecem no erro. O estudioso aponta e critica as incongruências e as distorções prejudiciais aos brasileiros.
Músico, ele dá um stop nos ruídos e chama à ordem e à harmonia todos os tons e timbres. Retira os floreios excessivos do identitarismo, afasta a péssima regência dos globalistas e enfrenta os falsos alicerces da militância de base, desmascarando carreiristas, oportunistas e covardes. Como está na sinopse, às costas do livro, o escritor “não apenas conceitua e teoriza, mas expõe, cronologicamente, exemplos práticos e ilustrativos do painel”.
Defende a verdade dos fatos, descreve os atos como eles são, reivindica o mérito, este que é um dos pesos da balança da justiça.
Tem a ginga. Sabe a briga com lealdade. Suas entrevistas, seus painéis têm sabor. Afrobrasileiro autêntico como os de décadas e séculos mais distantes. Um homem do oeste e dos trópicos. Do Rio de Janeiro de São Sebastião. Nota por nota, o capoeirista demonstra como os agiotas aliciam. Os aliciados não podem pensar de forma autônoma. Ficam presos numa dívida impagável. A expressão “agiotas raciais” foi inspirada do livro “Podre de Mimados”, de Theodore Dalrymple.
“Senzala” ousa ao dar “lugar de fala” a um branco bem-sucedido. O prefácio do escritor e desembargador William Douglas tem sido lido aqui em Minas em voz alta por algum membro-afro do Tribunal de Ética da OAB. Douglas nos ajuda a dar peso ao labor precioso de quem sabe colocar princípios e verdadeira causa acima dos movimentos e dos processos viciados.
Apropriação cultural. Dívida histórica da escravidão. Necropolítica, todos esses slogans “são teores e teorias de um racialismo, disseminando distopias sufocantes e climas esquizofrênicos, em que os indivíduos devem estar antecipados às circunstâncias, prevendo o cenário e as características físicas dos seus inimigos imaginários”, afirma o autor na introdução, último texto de apoio.
O livro se desenvolve em sete partes. Ricas são as referências bibliográficas, com autores de vários espectros e nuances doutrinárias. O anexo de encerramento fecha a tampa da caixa anteriormente obscura que, após a conclusão da leitura, torna-se bem clara para quem fora da caixa consegue pensar. Encerramos agradecendo a Gustavo Reis e a toda equipe do Aliados Brasil Oficial pela apresentação deste importante e talentoso pensador brasileiro.
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Artigo publicado anteriormente no site Aliados Brasil em 03.07.2025: https://www.aliadosbrasiloficial.com.br/coluna/fernando-santos-de-jesus-e-suas-contribuicoes-a-sociologia-brasileira
Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural – contatos: lopeslarocha@gmail.com (31)98356-4210

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