Rogério Salgado: do quintal das Gerais para o mundo (meio século de trajetória poética) – Entrevista Especial

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De lábios e palavras doces, mas, às vezes, impactante e amargo em alguns de seus versos de corte (poemas transversais), além de jornalista cultural de prosa acessível, é também um poeta-letrista, pós-industrial, da bricolagem, da paráfrase, do diálogo com a música popular e com o cotidiano. Expressa, com acentuado sentimento, a memória familiar, reminiscências da infância, as amizades idas e vividas, a própria vida poética e os relacionamentos lítero-culturais. Viveu os momentos da abertura, da redemocratização, da assembleia constituinte de 1988. 50 anos de escrita e trajetória. 

Natural de Campos dos Goitacazes (RJ), Rogério Salgado radicou-se em Belo Horizonte no início da década de 1980.

Figura em muitas antologias, entre elas: A Poesia Mineira no Século XX, ao lado de Afonso Ávila e Carlos Drummond de Andrade, entre outros (Imago Editora-1999), organizado por Assis Brasil. Tem mais de 30 livros publicados. Em 2025 comemorou 50 anos de carreira literária, comemoração esta iniciada na cidade de Matão (SP) a convite do jornal O Boêmio daquela cidade. Neste mesmo ano foi homenageado com o livro A Reinvenção da metáfora – As bodas de Rogério Salgado, uma seleção de 50 poemas escolhidos pelo professor e escritor Luiz Otávio Oliani, com o selo da Ventura Editora, livro este que teve lançamento nacional dia 28 de novembro passado, no Rio de Janeiro. Rogério Salgado hoje, aos 72 anos de idade é um nome reconhecido nacionalmente como um dos mais importantes poetas contemporâneos brasileiros.

Rogério, por causa de sua civilidade e gentileza, sobretudo para com seus pares, sabemos que o poeta – e o cidadão – recebe muitos textos referindo-se à sua pessoa, variadas dedicatórias em prosa e verso. Parafraseando Biláh Bernardes, Rogério seria “um maestro na condução de amizades”. Fale-nos um pouco sobre relações humanas e poesia, sobre as reiteradas homenagens e um pouco da sensação ao recebê-las.

R= Como todo ser humano, quando me descobri poeta cultivei o pecado da vaidade, de ver meu nome nos maiores outdoors, mas com o tempo, enquanto eu era descoberto e reconhecido nacionalmente, fui também descobrindo que tudo isso era ilusão. Ajudava-me apenas profissionalmente, já que minha ferramenta de trabalho era a poesia e ser conhecido vendia mais o meu produto. Com uma trajetória onde na década de 80 cheguei a ser publicado na revista Arboleda, da Espanha e no fascículo Selected Writing da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos da América, hoje vejo que ser um grande poeta seja talvez uma grande bobagem. Sei de grandes poetas, hoje arrogantes, preocupados apenas com seu próprio umbigo e com os prêmios literários que porventura receberão, sem se importarem com o mundo e com o próximo. Sinto hoje que a melhor coisa é ser um grande ser humano, pois sendo grande ser humano, a gente se torna automaticamente um grande poeta, grande professor, grande qualquer coisa. Gosto sim, de fazer amigos, porque gosto do ser humano. Mas gosto também de selecionar os amigos, porque gosto de pessoas boas. Mexe comigo muito mais elogios a mim como pessoa, do que como poeta, porque antes de tudo, me sinto Ser Humano. Minhas relações humanas sempre foram abertas a todos que se aproximam de mim, pois assim temos uma troca de experiências mutuas. Tenho caminhos entre os agraciados com prêmios e reconhecimentos internacionais e os que ainda engatinham em suas carreiras e pra ser sincero, vejo, não em todos, mas em uma grande maioria de escritores de renome, um estrelismo e uma arrogância ridícula que muito me incomoda. Então decidi caminhar muito mais ao lado dos possíveis não famosos e que ainda carregam a humildade. Me sinto mais feliz ao lado deles.  Quanto às homenagens, aprendi com minha mãe a não ser modesto, pois modéstia é não respeitar minha trajetória literária, mas ser humilde e humildemente reconhecer que ao ser homenageado, fiz por merecê-lo.

Em 2003, entre os 23 livros já publicados até aquele momento, o livro “Ainda menino” era o seu predileto. Escreva-nos um pouco sobre sua infância e a obra.

R: Tive uma infância triste. Meu pai faleceu quando eu tinha 7 anos e minha mãe, apaixonada por ele, entrou em profunda depressão. Fui então criado no Asilo da Lapa, em Campos dos Goytacazes-RJ, minha terra natal. Eram 50 meninas e somente eu de menino. Isso me fez conhecer mais a fundo a mulher. Minha babá era uma gorda linda chamada Irene. Aos 12 anos perdi meu melhor amigo e irmão Rodrigo. Ele tinha 17 anos e isso arrasou mais a minha mãe. Minha tia Cacilda, com boas intenções mandava-me passar as férias na praia com a outra tia Anita, que me colocava no quarto escuro e dizia que monstros iriam me pegar. Aos 18 anos, minha mãe se recuperou e tive uma vida maravilhosa ao lado dela, que por ser pianista, gostava de fazer saraus na nossa casa para a sociedade campista. Aos 23 anos, ela voltou à depressão profunda. Aos 26 anos perdê-la definitivamente foi duro. Em 1980 vim para Belo Horizonte-MG morar com meu irmão mais velho, saí da casa dele em 1986. Em 1983 eu criei com Virgínia Reis e Ecivaldo John a Revista Arte Quintal, que logo recebeu a entrada do poeta Wagner Torres. Viramos editora de livros e em 1992 fechamos as portas em pleno Plano Collor. Daí pra frente é outra história. 90% do que escrevo fala de mim e isso reflete a infância, juventude e os tempos atuais.

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Sua poesia é marcada por dois temas elevados: luto e saudade. Em geral, enfrentam-se tais desafios por meio da religião ou da psicanálise. No seu caso em especial, como a experiência poética ajuda tão quanto?

R: A poesia é a minha terapia e sem ela não saberia viver, mas acima de tudo primo pela qualidade do poema. Por isso, gosto de escrever sobre mim e isso não é nenhum erro, já que Manuel Bandeira também escrevia muito sobre ele. Mas após o poema pronto, deixo-o na gaveta e semanas depois busco mexer no texto, como quem busca lapidar um diamante. Reescrevo-o até ficar do jeito que eu gostaria que ficasse.

No “Poema para meu pai”, em tom confessional, faz-se referência à coleção Tesouro da Juventude. O poeta consideraria viável a retomada daquele tipo de compêndio, com reunião de conhecimentos essenciais, para os dias de hoje?

R: Considero sim. Meu pai, apesar de poucos estudos, era um cara culto porque lia demais e me deixou de herança uma biblioteca. Meus livros mais importantes foram Tesouro da Juventude e Enciclopédia Ilustrada em cores. Seria importante a retomada de determinados livros, apesar de acreditar que uma minoria da juventude de hoje os leria.

Sobre o premiado poema “Legado” (1979), por que o deixou tanto tempo no ineditismo em livro? Era comum recitá-lo nos encontros e saraus?

R= Em minha cidade natal eu mesmo nunca o recitei. Eu o decorei sem forçar a barra. Quando dei por mim, sabia o poema de cor e ao recitar pela primeira vez em BH, passei a recitá-lo em outros momentos, sempre a pedidos. Não sei o porquê do ineditismo. Nunca me questionei sobre isso. Talvez seja por ter sido um poema fabricado para se ganhar um festival de poesia e sempre amei meus poemas sinceros com os meus sentimentos e não com o sentimento de um personagem fictício. Mas, quem sabe um dia…

Falemos um pouco de… “Antes que a Lua Enfarte” (Orgânica Editorial, 2024). No poema “Aqueles tempos” descreve-se com forte estesia o passado, conduzindo-nos imageticamente no tempo. De repente, no desfecho, surpreende-se o leitor. Considero o poema de maior destaque.

R: Tive uma juventude inesquecível. Eu morava na Rua dos Andradas, próximo a Rua do Mercado, rua essa na qual a molecada era de verdadeiros moleques. Tudo no poema é verdadeiro, as pessoas são reais e os fatos também. Meu melhor amigo era um garoto que se chamava Silso e que hoje está no céu. Apesar de tanta tristeza na minha caminhada, esses momentos me faziam feliz. Neste poema busquei na memória minha infância e juventude, antes de ser poeta, sendo apenas alguém que descobria a vida e o mundo. Apesar de muitos momentos tristes, também tive bons momentos. Ali desfilo memórias de pessoas e lugares que foram importantes para mim, algumas dessas pessoas eu as reencontrei, outras desapareceram no tempo. E encerro reconhecendo que tive sim, momentos felizes que me impulsionaram, hoje, poeta, descrevê-los neste poema.

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Entremos nas suas realizações em prosa. “Tontinho”, “Jesus Cristo cego” e “O falso autor”. Ficaremos apenas com estas três obras? Ou há possibilidades de novas realizações?

R: Apenas uma ressalva: “Jesus Cristo Cego” é um só poema e foi reescrito durante 12 anos, antes de publicá-lo. Apesar de elogios aos meus textos em prosa e “Tontinho” já ter sido considerado uma “pequena obra prima”, ter escrito dois livros de contos e um romance que o considero fraco literariamente, me sinto um poeta metido a escrever outras coisas que não seja poesia, mas pretendo, se Deus quiser, ficar na poesia. Não faço planos futuros e vivo sempre mais o presente. Mas não posso afirmar que não há possibilidades de novas realizações na prosa, pois sou humano e como humano hoje não desejo uma coisa, mas amanhã posso desejar.

Obrigado pela correção. Rogério, hoje, quando você é procurado por escritores e poetas iniciantes, quais lembranças lhe vem à cabeça a respeito da Revista Arte Quintal e do Sarau de Poesia do Parque da Lagoa do Nado? Digamos, que comparações poderíamos fazer em relação às possibilidades e dificuldades de antes com as do momento?

R= A Revista Arte Quintal tenho orgulho de sua criação. Ao chegar à capital mineira,  participei de uma revista chamado Recanto e decidi que teria minha própria revista. Desempregado, encontrei um cara chamado Ecivaldo John que hoje mora nos Estados Unidos da América e Virginia Reis, estudante de medicina e um ano depois de eu decidir cumprir aquela promessa a mim mesmo, a revista estava nas ruas e chegou a ser referência nacional nos anos que se seguiram. Antes de sair o segundo volume, conheci o poeta Wagner Torres que entrou nessa história. Quanto ao Sarau de Poesia do Parque da Lagoa do Nado, fui convidado no ano 2000 pela Val Souza para entrar na criação deste sarau. Como nessa época eu já trabalhava com cachês profissionais, recusei. Principalmente por ser um evento ligado à Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Mas Val me convenceu e foi uma das melhores coisas que aconteceu comigo, pois fui um dos criadores do primeiro sarau em Centro Cultural na capital mineira. Hoje, existem espaços bacanas em BH, tais como o “Sarau Minas de Poesia” coordenado pelo escritor Paulo Siuves e o “Feira de Poesia” do Centro Cultural Padre Eustáquio, ambos eventos mensais e que infelizmente não tem um público grande como merecia, mas tem um público que valoriza e é fiel a esses eventos. Sempre que conheço algum poeta iniciante, indico a participação nesses e em outros saraus que a gente vai descobrindo por aí.

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“A Reinvenção da Metáfora: as bodas de Rogério Salgado (Editora Ventura, 2025)”. No forte prefácio de Luiz Otávio Oliani, em termos de contextualização, o organizador diz enxergar um certo “esvaziamento do pensamento humano”, sobretudo entre os jovens. Qual seria sua perspectiva a respeito?

R= Vejo esse fato com uma certa tristeza, não só literariamente, mas muito mais politicamente. Enxergo sim, com certa tristeza, a redução da capacidade crítica e reflexiva da juventude sobre muitos aspectos nos dias atuais.

Conte-nos um pouco de sua recepção à homenagem em “A Reinvenção da Metáfora”, e de suas impressões quando leu, pela primeira vez, o prefácio.

R= Primeiro, me senti realizado. Depois de 50 anos de tantas lutas, ser homenageado com o respeito que reconheço merecer, por uma pessoa que entende e muito de literatura e que não faz chamego pra ninguém, uma pessoa verdadeira, como é o Luiz Otávio Oliani, é motivo de orgulho. Ao ler o prefácio pela primeira vez, chorei de emoção por descobrir qualidades literárias até então, desconhecidas por mim, já que nós mesmos jamais analisamos nosso próprio trabalho. Considero minha carreira em antes e depois de A Reinvenção da Metáfora. Considero esse livro um divisor de águas na minha carreira.

Poesia e política. Na página 32 temos um poema-pôster satirizando a polarização partidária agressiva. Rogério Salgado consegue vislumbrar a possibilidade de alguma transigência, digamos, entre liberais sociais e sócio democratas, atingindo um certo equilíbrio entre os centros (da direita e da esquerda)?

R: É difícil responder essa pergunta, porque lidamos com seres humanos e seres humanos são complexos. Pessoas humanas cometem erros. Não me considero nem de direita e nem de esquerda e sou apenas um brasileiro. Mas acredito mais em quem se preocupa com os mais simples, do que com os que se preocupam mais com si mesmo e com seu próprio meio. Se gostar de quem gosta dos mais simples é ser de esquerda, devo ser então isso aí. Mas posso afirmar que a melhor coisa do mundo ainda é a democracia.

Com base na leitura de sua autobiografia, levantemos a seguinte hipótese: se Tancredo Neves tivesse vivido mais uns 10 anos, sendo presidente por dois mandatos, ou então, chefe de Estado a partir de 1985, e depois ministro ou conselheiro de governos subsequentes, por exemplo, você acredita que as políticas governamentais de educação e cultura poderiam ter sido melhores?

R: Acredito sim, que poderiam, pela trajetória política e histórica dele, mas jamais saberemos se sim ou não, já que ele não chegou infelizmente a viver esses 10 anos a mais.

Direitos autorais. Durante toda sua trajetória e carreira, você recebeu propostas que realmente levaram em consideração o respeito ao direito autoral, na esteira da Lei 9.610/98? Na sua opinião, qual teria sido a eficiência e eficácia de entidades dissidentes tais como ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos), fundada em 1992, e a ABPDEA (Associação Brasileira para a Proteção dos Direitos Editoriais e Autorais), de 1999?

R= Como letrista e filiado à Editora Musical União Brasileira dos Compositores, já recebi sim, direitos autorais. Agora, dentro de seus limites, essas entidades, assim como Sindicatos e Associações literárias, entre elas a APPERJ (Associação de Poetas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro) da qual faço parte, tem sim, cumprido seu papel.

Direitos culturais, condições de trabalho e bem-estar do artista. Como você participou ativa e efetivamente do processo de redemocratização (1979-1989), além de acumular uma larga e longa experiência no campo da cultura e da economia criativa, pergunto:

Considera que o Estado brasileiro cumpre bem a “Recomendação sobre a importância do Status do artista (1980)”, da Unesco?

E quanto às sociedades civis (empresas, entidades profissionais etc.)?

R: No mundo de forma geral, o artista não é tão valorizado, com exceção dos que seguem um caminho no qual se vende fácil, assim como televisivos que rendem grandes dividendos. No Brasil atualmente, vejo sim a valorização do artista por parte do governo federal e isso não é nenhum mérito, é uma obrigação já que o artista paga impostos como todas as outras profissões. Mas eu, particularmente nunca me preocupei com ajuda federal, estadual e municipal para mim, pois sempre busquei a iniciativa privada para os meus projetos. Mas tive um projeto aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura que foi o Poesia na Praça Sete, projeto esse de muita importância para a sociedade humana e penso que foi ótimo ter sido agraciado por essa Lei Municipal. 

Quando o conheci pessoalmente, em meados dos anos 2000, estávamos no período de transição para a internet de banda larga. Havia uma tremenda expectativa por parte de poetas que buscavam reconhecimento pela rede mundial de computadores, por meio de blogs e plataformas patrocinadas. Rogério nos disse no Belô Poético: “… antes de pensar em ser um artista de reconhecimento, tente antes ser humanamente bom”.  Gostaria que deixasse uma mensagem em relação aos nossos direitos e deveres fundamentais para nossa cidadania sociocultural brasileira.

R= Descobri com o amadurecimento humano que vim obtendo ao longo dos anos, que antes de sermos grandes profissionais em qualquer coisa que fizermos, o mais importante é sermos lembrados como grandes seres humanos. Quando somos humanos verdadeiramente humanos, fazemos a felicidade de quem está ao nosso lado e de nós mesmos.

Iniciando este segundo quartel de século, com tantos conflitos, guerras e incertezas, qual o principal conselho Rogério Salgado daria a um adolescente inclinado a manifestar-se pela poesia?

R= Seja verdadeiro com a sua poesia e consigo mesmo e antes de buscar ser premiado em grandes concursos literários pela sua poesia, se preocupe se a mesma está levando algo que vai mudar as pessoas para melhor.

OBS: ABAIXO, APESAR DE NÃO SER O POEMA QUE MAIS GOSTO, É COM CERTEZA O POEMA QUE MAIS REPRESENTA O QUE PRECISO DIZER COMO POETA E COM A MINHA POESIA.

Conceito

Para Orávio de Campos

Sou o que representa

a febre, a dor

a expressão exata

a corda que desata

todos os nós acorrentados

aos conceitos do que

querem que a poesia seja.

Canto a canção ferida

daquilo que é doído

tenho olhos de vidros partidos

e a imensidão de compor.

Não me estabeleço

amanheço, entardeço, anoiteço

na forma mais concreta.

Nossos agradecimentos a Rogério Salgado, a seus amigos e seus leitores. Aos internautas e apoiadores pedimos que comentem e compartilhem mais esta entrevista.