Cruz e Aurora de Fagundes Varella

AURORA

Antes de erguer-se de seu leito de ouro,

O rei dos astros o Oriente

inunda

De sublime clarão;

Antes de as azas desprender no espaço,

A tempestade agita-se e fustiga

O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéas que se cruzam,

O pensamento eterno que se move

No levante da vida,

São auras santas, arrebóes esplendidos,

Que precedem à vinda triumphante

De um sol immorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido,

Que do seio dos povos se levanta,

Annuncia a tormenta;

Essa tormenta salutar e grande

Que o manto roçará, prenhe de fogo,

Na face das nações.

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos,

Rebatei vossos ferros e cadêas,

Algozes e tyrannos!

A hora se approxima pouco a pouco,

E o dedo do Senhor já volve a folha

Do livro do destino!

Grande ha-de ser o drama, a acção

gigante,

Majestosa a lição! Luzes e trevas

Luctarão sobre os orbes!

O abysmo soltará seus tredos roncos,

E o frêmito dos mares agitados

Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos thronos frágeis,

Buscando embalde sustentar nas frontes

As úmidas corôas…

Debalde!… o vendaval na fúria insana

Os levará com ellas, envolvidos

Num turbilhão de pó!

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico

Sairão de seus paços vacilantes

Nos podres alicerces…

E errantes sobre a terra irão chorando,

Mendigar um farrapo ao vagabundo,

E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra

Terrível e feroz cobrindo os campos

De cruentos horrores!

O palácio e a prisão irão por

terra,

E um segundo diluvio, então de sangue,

O mundo lavará!

O sabio em seu retiro, estupefacto,

Verá tombar a imagem

da sciencia,

Fria estátua de argilla,

E um pallido clarão dirá que é perto

O astro divinal que às turbas míseras

Conduz a redempção!

Como aos dias primeiros do universo,

O globo se erguerá banhado

em luzes,

Reflexos de Deus;

E a raça humana sob um céo mais puro

Um hymno insigne enviará, prostrada

Aos pés do Omnipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes;

Iguaes e bellos, sem senhor nem pêas,

Nem tyrannos e ferros!

O amor os unirá n’um laço estreito,

E o trânsito da vida uma romagem

Se tornará celeste!

A hora se approxima pouco a pouco;

O dedo do Senhor já volve a folha

Do livro do destino!…

Ergue-se a tela do theatro immenso,

E o mysterio infinito se desvenda

Do drama do Calvario!

Luiz Nicolau Fagundes Varella ((1841-1875)

Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural

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