Música, poesia & literatura, uma conversa com Goiano Braga – Cantor e compositor

…em gravando Nunca, de Lupicínio Rodrigues, Nunca – Goiano Braga
Goiano Braga é músico, compositor-intérprete, arranjador e die usor das clássicas canções brasileiras e estrangeiras. O músico explora o que de mais alto se produziu na história da música popular e urbana, indo do período entre guerras até, principalmente, os anos 70 e 80, com destaque para o samba-canção, “essa nossa invenção semierudita”, segundo a estudiosa Mariza Lira e o historiador José Ramos Tinhorão. Goiano nasceu e cresceu no seio de uma família de poetas e escritores, junto de irmã também cantora-intérprete, Glorinha Braga. Falamos da família Braga Horta, originária de Minas, e que se amplia por entre amigos, parceiros e admiradores por todo o Brasil.
Dentre o repertório do artista, que podemos encontrar nas redes, estão o samba-canção, o bolero, o fox-blue, cirandas-xaxados, o rock clássico.
Sua discografia pode ser acessada em todos os “streamings”, pesquisando Goiano Braga.
Algumas mostras das mais de cem músicas compostas em parceria com Célio Mattos, podem ser acessadas na Internet pelo nome Célio Mattos ou por busca usando o nome da Jiripoca Band.
Sua mais recente atividade musical é a criação de vídeos domésticos, tipo “um cantinho, um violão” & um celular, sem qualquer aparato técnico, como efeitos de reverberação, eco, corte, colagem, com o intuito, apenas, de registrar as músicas “de sua época”, para manter viva a memória da boa música não só brasileira, como a de outros países, em Espanhol, Inglês, Francês e Italiano.
Goiano, comecemos pela nossa emblemática pergunta metafísica: de onde veio, onde está e para onde vai Goiano Braga?
Fui contrabandeado de Minas Gerais para Goiás, onde nasci. Da cidade natal, Goiás, no Estado do mesmo nome, a família voltou para Minas, quando eu tinha quatro anos. Moramos em algumas cidades e terminamos por nos fixar em Lajinha, onde fiquei até os 14 anos. Em seguida nos mudamos para o Rio, onde fui office-boy, auxiliar de escritório e redator de correspondência, quando em 1963 meu irmão Anderson me convocou para Brasília, para fazer concurso público. Antes de passar e tomar posse na Câmara dos Deputados ainda trabalhei em empresa particular, como secretário do diretor. Para onde vou? Ainda estou em construção.
Conte-nos um pouco sobre sua primeira infância, as brincadeiras, os estudos, a família, enfim, a formação da personalidade.
Em Lajinha, onde passei a infância e puberdade, fui muito feliz, brincava de tudo, nadava no rio, andava de bicicleta, passeava pelas estradas, furtava frutas, jogava futebol e baralho, uma atividade intensa, e também dançava, desde bem jovenzinho. Nos estudos, fui um tremendo vagabundo, salvo no primário, em que conquistei o primeiro lugar. No ginásio… fracasso total. Deparei-me com os obstáculos que afetariam toda a minha vida futura: matemática, física e… latim! Por isso, fui internado por alguns meses no Ginásio Ruy Barbosa, onde não me emendei. Meus pais eram muito liberais e me deram o tempo necessário para tomar jeito, de modo que, embora fosse capaz de matar aulas para jogar sinuca quando ainda nem alcançava direito a mesa (era chamado de Fancho Kid, porque precisava usar esse equipamento para alcançar as bolas), e fumasse, e tomasse uma ou outra cachacinha, e fizesse tantas outras estrepolias, fui formado no sentido da honestidade, da ética, do caráter, moldado para no futuro ser trabalhador, responsável, e chefe de família na medida do possível correto e dedicado. Em Lajinha tive minhas primeiras (e a primeira, aquela que tanto nos marca) paixões, fiz as amizades mais duráveis de toda a vida. E foi aí que, mergulhado em um ambiente de literatura e de música, senti vontade de escrever, e escrevi, muito menos do que deveria e poderia, e me apaixonei mesmo pela música, comecei a cantar, envolvido pelos artistas da época, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Orlando Silva, Lucho Gatica, Gregorio Barrios, enfim, aqueles cantores de belas vozes e repertórios românticos, especialmente boleros e sambas-canção. E achei que tinha boa voz, que era afinado, e que poderia cantar no rádio, enquanto cantava para mim mesmo no banheiro (e às vezes ao lado do piano de casa, acompanhado pela minha irmã Glorinha). Essa época despreocupada e dos tempos mais felizes da vida foi intensa – e para descrevê-la seriam milhares e milhares de páginas.
Quando começou a cantar em público e a correr o risco de escrever canções? Atua mais como letrista ou como compositor? Aproveite também para falar das parcerias.

Domesticamente, cantava habitualmente nas festinhas da família e de amigos desde os meus vinte anos. A partir de então é que era cantor constante nos aniversários. Mas em público mesmo, primeiramente foi em coral. Em seguida, e tardiamente, em show universitário, boite, barzinho, restaurante, casamento, eventos em geral, foi mais ou menos a partir já dos meus cinquenta e cinco anos (!), após mudar-me de Brasília de volta para o Rio, e logo em seguida para Petrópolis, nos idos de 1998, quando minha irmã me convidou para participar de apresentações na noite de Brasília, em locais como o extinto Otello, o Café Com Letras e mais algumas “gigs”. Nessa fase, Glorinha contratava as apresentações, as datas, os locais e os músicos e eu ia a Brasília especialmente para isso. Foi um barato!
A partir dessa experiência, comecei a gravar as músicas “do meu tempo” com artistas no Rio que faziam esse serviço em estúdios domésticos, do que resultou gravar um CD em estilo profissional, com boleros e sambas-canção.

Participando de encontros de artistas no Rio, decorrente dos trabalhos de gravação que fazia com Marcos Vampa, conheci um band líder brasileiro residente em Lyon, na França, o Célio Mattos, que voltou para a Europa – e por algum motivo começamos a escrever música juntos, por correspondência, ele compondo as melodias e eu as letras. De brincadeira, fizemos um mutirão do qual resultou mais de uma centena de composições, entre sofríveis, razoáveis, boas e ótimas, como não podia deixar de resultar desse desafio.
Quais de suas composições você recomendaria, digamos, alguma atenção especial, para o público que venha a se interessar pelo seu trabalho?
São várias, mas as que mais sobressaíram são Rio de Janeiro, A Deusa do Cabo Verde, Morena Xaxando, A Canção da Minha Terra e Quebra-Queixo, que, assim como muitas outras, podem ser encontradas nos diversos “streamings”, bastando pesquisar pelo nome do Célio Mattos, ou Jiripoca Band, ou o meu nome artístico: Goiano Braga.
No ano passado, 2024, incomodado com o fato de não me adaptar à nova estética musical desta fase algo estranha da música brasileira e estrangeira, resolvi registrar em vídeos, no Youtube, aquelas músicas que acho belas, muitas delas que faziam parte dos meus repertórios, outras que simplesmente considero especiais, isto é, as “músicas dos meus tempos”.
Assim, fui gravando me acompanhando ao violão, que toco mal, e cheguei a mais de duzentas.
Decidi continuar e este ano já fiz mais alguns vídeos. Quem sabe chego aos quatrocentos. Estão na minha plataforma – Youtube.com/@GoianoBraga.
“Fase algo estranha da música brasileira e estrangeira”. Arrisca apontar alguma das causas desta estranheza?
Rapaz, isso é um ninho de marimbondos! Falar mal de alguma manifestação cultural nos arrisca ao cometimento de extremas injustiças. Explicou por que penso assim. É que creio que a época que o indivíduo vive cria a sua estética, pois, como disse José Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. As circunstâncias posso entender como o meio. E, veja, eu fui criado com a estética da valsa, da canção, do samba-canção, do bolero, do samba, da bossa-nova, do rock, do blues, da country music, das canções e baladas americanas, italianas, em espanhol e brasileiras, que formaram minha personalidade musical marcantemente nos anos 50 e 60. Havia, então (o que foi pouco a pouco se perdendo) muita criatividade melódica, por meio de uma estrutura às vezes complexa, outras simples, mas sempre harmoniosa. Chegamos aos tempos atuais, quando, para nós, da outra geração, entendemos estar ouvindo melodias muito limitadas, quase monocórdicas, ou “duras”, pouco equilibradas. O que quero expressar é que quando ouço (uma parte delas) me parece tudo igual. Outra parte são as músicas que não trazem surpresa melódica, o que é o caso mesmo das norte-americanas, que primavam por uma elaboração que trazia com a criatividade a surpresa melódica. Essa surpresa é, no humor, o que nos faz rir. Na música é o que nos faz emocionar. Felizmente, mesmo na aridez há belíssimas exceções, que não são poucas; e isso que parece uma contradição não o é, porque uma boa parte das exceções não esteve no topo das paradas…
Quer ver? Nunca ouvi nas paradas o disco Terra, bolachão, de Sá, Rodrix e Guarabira, com excelentes canções, Blue Riviera, O Pó da Estrada, Mestre Jonas, Pindurado no Vapor, O Brilho das Pedras, Até Mais Ver…
Ferreira Gullar, ao resenhar certo álbum de Nara Leão, escreveu que o bom cantor-intérprete precisa ser capaz de sustentar, com argumentos sólidos, a montagem do repertório. Eu, particularmente, percebo que hoje temos bons cantores do ponto de vista técnico. Porém, intérpretes neste sentido, hoje em dia, deixam tudo a desejar. Que você poderia nos dizer a respeito?
Ah, eu acho que o bom cantor é o que tem boa voz (timbre), afinação e demais qualidades vocais que o distinguem das demais pessoas quando interpreta uma canção. Aí, como eu disse “interpreta”, já está implícita a interpretação, que é um conceito bastante vasto. É que entendo como “interpretar” o ato de apresentar corretamente, com a emoção adequada a cada caso, a música cantada.
É costume dizer que “intérprete” é o artista que não apenas canta uma música (usa a voz tecnicamente), mas a vivencia, atribuindo emoção, significado e personalidade à letra e melodia, muitas vezes sem ser o compositor da obra; e que enquanto o cantor se concentra na técnica vocal, o intérprete foca na interpretação, humanizando a canção e criando uma conexão genuína com o público. Mas eu penso que esse tipo de concepção de “intérprete” já está abrangendo o que é verdadeiramente um cantor. O que quero dizer é que quando se atribui a uma pessoa a qualidade de cantor ambas as qualificações devem participar da adjetivação, isto é, cantor é o que sabe cantar e interpretar – possui timbre, afinação e capacidade de atribuir à composição a emoção a ela adequada.
Mas… há circunstâncias que fazem um cantor sem que ele possua timbre vocal tecnicamente qualificável como adequado aos padrões usuais, mas que o tornam especial, como poderia ser o caso de um Nélson Cavaquinho ou mesmo de um Chico Buarque…
Tenho muito medo de criticar, como por vezes estou à beira de fazê-lo quanto à chamada música sertaneja atual, tipo “Sertanejo Universitário” (“Pop” Sertanejo), o da “Sofrência”, o “Feminejo” (que é mais ou menos a mesma Sofrência levada pelas cantoras, e até as misturas de forró com funk para resultar num estranho sertanejo “agroplay”, e tenho medo de criticar porque preciso cuidar do princípio de que o que é ruim para mim pode não sê-lo para outros e a estética é formada de modo tão particular que há mesmo o ditado que diz que “quem ama o feio, bonito lhe parece”, e o melhor exemplo disso é o cachorro da raça “Pug”, aquele cachorro falante do filme Homens de Preto.
Ufa, já estou me envolvendo na teia da prolixidade novamente!
Mas, e o repertório? Não tem erro! O cantor deve montar o repertório com as músicas que ficam bem em sua voz e o ouvinte deve montar sua lista naquilo que gosta de ouvir. Simples assim?
Em relação ao canto, no início imitava algum cantor? Foi difícil encontrar o próprio timbre?
Sim! Cauby Peixoto! O Cauby dos seus tempos menos afetados. Houve algumas influências anteriores a ele, mas foi o seu timbre maravilhoso que me encantou e que procurei reproduzir. Mas logo senti que queria ter o meu próprio jeito, meu próprio estilo, minha voz particular, e usei a admiração por ele como o caminho para chegar à minha personalidade.
Carlos Lyra certa vez disse que a bossa-nova é mais influenciada pelo samba-canção do que pelo jazz. Comente, por favor.
Rapaz, há uma certa apreciação técnica nessa questão que não me sinto apto a comentar, mas se o Carlinhos Lyra disse eu me sinto inclinado a acreditar que ele sabe do que está falando. Afinal, trata-se de um dos expoentes do movimento Bossa-Nova!
Entrando mais na parte da música mista, com texto poético. Muitos letristas-compositores frisam, cada um a seu jeito, as diferenças entre letra de música e poema escrito. Gostaríamos de saber sobre sua experiência.
Acho que a letra de música, embora poética, é mais fruto de pura inspiração e liberta da técnica rigorosa, enquanto o poema – a poesia pura, escrita e falada – precisa observar certos cuidados que implicam rima, métrica, ritmo e tipo de versejamento, para poder ser assim considerado. Não falo da chamada poesia moderna, que independe da maior parte desses aspectos técnicos, porque essa eu, pessoalmente, considero mais uma crônica espalhada do que propriamente poesia. Já a letra de música dispensa qualquer cuidado e só há de ser boa ou ruim. A minha experiência pessoal é interessante: aprecio fazer a letra depois da música, isto é, o parceiro apresenta a melodia, eu repito várias a audição da música e aos poucos, ouvindo repetidamente, vou “ouvindo” a letra. Por outro lado, quando faço a letra primeiro, tento imaginar uma melodia para ela, o que me ajuda a estruturá-la; quase sempre o parceiro irá colocar melodia e ritmo absolutamente diferentes do que eu imaginara…

Já tentou e/ou conseguiu musicar algum poema escrito? Ficou satisfeito?
Sim, tentei musicar o poema Mamãe Coragem, do meu pai, Anderson de Araújo Horta. Fiz a primeira parte, em ritmo de rock, e mandei para o parceiro Célio Mattos fazer a melodia da segunda parte. Ele fez e colocou tudo em ritmo de algo como xaxado. Não gostei do resultado geral. Tenho a intenção de refazer como rock. Um dia. Vamos ver.
Ítalo Moriconi, no seu livro “Como e por que ler a poesia brasileira do século XX”, sustenta que, entre nós brasileiros, a maioria dos jovens das últimas décadas foi educado e instruído, em termos de sensibilização, conscientização social e cidadã, mais pelas letras das canções (poesia oral) do que pelo ambiente familiar e escolar. Isso, devido ao alto nível da canção popular brasileira. Concordo com Ítalo. Gostaria de ouvir sua opinião a respeito.
Uau, difícil analisar isso, como fenômeno social generalizado. Creio que pode haver casos que sim e casos que não. Creio que meus três filhos, nascidos no século vinte (de 1971 a 1981), receberam mais a influência familiar, embora também tenham absorvido parte de sua sensibilização e conscientização social e política das mensagens através da música.
Quais as 10 (dez) ou 20 (vinte) letras musicais brasileiras que você recomendaria à juventude brasileira de hoje, digamos, para estudar como texto literário e mensagem edificante?
Quando se fala de “juventude brasileira de hoje” pensa-se logo em alienação, isto é, em uma má apreensão da realidade política e social do Brasil, ao avaliar-se o resultado das eleições que revelam que milhões de jovens, como também os adultos eleitores, estão ligados a ideias políticas que parecem desconhecer o que foi o período da ditadura militar iniciado em 1964. Por isso, tenho como imbatível, nesse particular, de conscientização social e política, o Chico Buarque, com APESAR DE VOCÊ, claramente dirigida ao General Emílio Garrastazu Médici, um dos “presidentes” desse período abominável da nossa História. Nesse rumo podem-se citar, dele, CÁLICE, como referência não muito disfarçada ao “cale-se” imposto pela censura ditatorial, O QUE SERÁ (À FLOR DA PELE), em parceria com o Gilberto Gil, VAI PASSAR, ACORDA AMOR, TANTO MAR, MEU CARO AMIGO e RODA VIVA. O genial Chico Buarque fez outras músicas de cunho social, e posso me referir, sem pensar, a GENI E O ZEPELIN e CONSTRUÇÃO. E ele também gravou uma música que muitas pensam ser dele, NOTÍCIA DE JORNAL, mas que na verdade é de Haroldo Barbosa e Luiz Reis. E por falar em outros autores, para não me estender muito vou ficar apenas com o CIDADÃO, do Lúcio Barbosa, que muitos acreditam ser do Zé Ramalho, que a gravou – e esse é um problema generalizado na Internet, a não atribuição e a atribuição errônea das autorias. Mas o Zé Ramalho escreveu uma que não pode deixar de ser mencionada, que é O ADMIRÁVEL GADO NOVO, conhecida popularmente como VIDA DE GADO. A letra, embora de 1980, reencontrou-se aqui com a realidade na mesma época em que a Covid se espalhou como mais uma praga no Brasil.
Quero terminar essa conversa com você, Cristiano, para o Pingo de Ouvido – Literatura Brasileira e Memória Cultural, enaltecendo o seu trabalho, esse esforço pela cultura brasileira que merece muito apoio, consideração, admiração, e agradecendo a distinção imerecida de oferecer-me esse espaço para falar de minha modesta contribuição artística.
Nosso projeto e a Pátria que agradecemos a Goiano Braga.
Fim.

Nunca , por Goiano Braga (ouçamos a gravação finalizada).
Lopes al’Cançado é pesquisador, escritor de prosa e verso. Músico, gestor e micro líder em projetos artísticos. Atua como analista e parecerista em editais e programas culturais. Desde 2008, posiciona-se como ombudsman: defensor dos Direitos Humanos pela Doutrina Jusnaturalista e Cristã, com ênfase nos Direitos Culturais e na Liberdade de Expressão. Conheça mais: Cristiano, escritor e pesquisador – § literatura brasileira & memória cultural

Você precisa fazer login para comentar.