Uma noite nos bares

Uma noite nos bares

Lopes C. de la rocha

Nessas horas que sinto falta dos chateados que não me ouviam. Aqueles que em meio de nós viviam reclamando do tal consumismo. Não há mais sentido para essas reclamações, pois sumiram os empregos, a renda, o crédito e o dinheiro em espécie. E a praça está pobre também em outros sentidos.
Não há mais mesas floridas de garrafas grandes onde os bebedores compartilham com copos lagoinha (americanos). Agora cada um com sua garrafinha individual. Ninguém confia em ninguém para dividir a conta. Ao perguntarmos por que não se divide mais as garrafas grandes, a desculpa vem aos farrapos: “ a garrafa grande esquenta na mesa”. Ora, esquenta porque não se oferece um copo ao próximo. Se não há oferta, não há partilha; se não há partilha, não há conversa. As crises silenciam os homens.
Os serrotes de longe já são rejeitados. E os pães duros que não doam nem sequer um cigarro se apoiam na impaciência. Aliás, é muito valiosa a paciência dos injustiçados que perderam sua felicidade por entre as falsas ilusões políticas e econômicas.
Mas aqui e acolá pipocam uma e outra discussão calorosa da noite. Divergências sobre noticiários e preferências, desentendimentos, velhas rixas de paixões clubísticas, incompreensões, denúncias de acusações, acusações de denúncias. As comidas e os tira-gostos, com ingredientes mais em conta, vão convencendo os paladares já esquecidos de tempos melhores. As mãos carinhosas que preparam as refeições e o sorriso alegre atendendo sem nenhuma depreciação. A esperança ainda está viva na boa intenção da capacidade humana.
Triste é ver a rapaziada das antigas como animais noturnos, revirando lixeiras, implorantes pedintes do comércio de narcóticos; espiritualmente em guerra com Deus e suas famílias. “Como vai seu pai que há muito não vejo no ônibus da integração das oito e quinze? ”, eu pergunto. O filho, drogado, ignora a pergunta e vem logo me contar a vantagem dum suposto padrinho malvado e assassino cruel. É dependente não só químico como existencial, coitado.
Que doces bárbaros libertários e sensíveis poderiam prever uma situação dessa?

bares

 

 

 

2 comentários sobre “Uma noite nos bares

  1. Sou dos velhos tempos. Quando tinha dinheiro chamava meus amigos para comemorar meu aniversário num bar e a conta quem pagava era eu. Hoje não tenho dinheiro, mas quando pinta uma merreca vou a um bar conversar com um amigo muito culto com quem gosto de conversar. Aí apareceu um negão vendendo amendoim. Perguntei o preço e ele pediu pelo cone de amendoim frio (porque tem quem venda o amendoim quente num fogareiro) R$4,00. Eu disse a ele que tinha apenas dois reais para gastar. Ele topou vender o cone de amendoim por dois reais, mas “pechinchou” para que eu pagasse três reais. Eu, branco, pensei nele, negro. Descendente de escravos que meus ascendentes trouxeram na marra da África para morrer aqui no Brasil plantando cana de açúcar, e paguei os três reais que ele pediu e disse que era pelo trabalho dele. Ele ficou satisfeito e me estendeu a mão para apertar.

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